(A Máquina do Tempo, de George Pal, 1960)
Desde o ano passado abri uma filial do “Mundo Fantasmo”
na plataforma Substack, onde nossas postagens são enviadas em forma de newsletter para os assinantes. (Apareçam
lá – o material que publico lá é diferente do daqui.).
O link:
https://substack.com/@brauliotavares
Um dos autores que me animaram a assinar (gratuitamente) o
Substack (além da insistência de Marcos
Lobato – valeu, meu nobre!) foi Ted Gioia, cujos textos sobre música e
eventualmente literatura eu já acompanhava há tempos. Gioia tem seu mural The Honest Broker, cujas publicações
gratuitas venho seguindo desde que lá pus os pés.
Nesta semana, o título da newsletter dele me trouxe
arrepios, os quais se converteram em calafrios e tremores depois que comecei a
ler seus “30 Fatos Sobre a Infância de Hoje Que Vão Horrorizá-lo”. Na amostra,
copiei oito. Meu instinto de conservação me aconselhou a não consultar as 22
restantes. É demais para mim. Quem quiser se arriscar, vá em The Honest Broker. Resumo abaixo (excluo
os comentários e dados estatísticos; podem ir direto à fonte).
1) A média das crianças de hoje brinca fora de casa uma média de 4-7
minutos por dia.
2) O tempo que os jovens passam com amigos caiu pela metade.
3) Crianças entram na escola com sintomas próximos do autismo devido ao
uso de aparelhos eletrônicos.
4) Crianças entram na escola com pouco vigor físico, retardo na fala,
ossos com pouca densidade.
5) 70% das crianças abandonam a prática de esportes organizados por
volta dos 13 anos.
6) Taxas de obesidade entre crianças foram às nuvens em anos recentes.
7) Algumas crianças chegam à escola sem força física para usar um lápis,
ou para empunhar faca e garfo.
8) Algumas crianças são incapazes de usar sozinhas o toalete, pendurar
seu casaco, e até de reconhecer o próprio nome.
Exagero, alarmismo, mimimismo, vitimismo? Não sei, mas
todo mundo que tem filhos cedo ou tarde pega uma lista assim e a cada tantos ou
quantos itens murmura: “Bingo”.
As crianças e adolescentes estão enfraquecendo, não por subnutrição
ou maus tratos, mas por um excesso de proteção mal direcionado, falta de
experiências autônomas, receio de tudo que seja “presencial”, de atividades
físicas, e principalmente de desconfortos físicos. A eletronização da percepção
física (visão, ouvido, coordenação motora, orientação espaço-temporal) é um
problema também, mas não é o único. A culpa não é “do videogame”, ou “do
celular”.
O pessoal da web criou o apodo sarcástico de “alecrins
dourados” ou de “bolas de neve” para ridicularizar essa juventude débil, tartamuda,
assustadiça, passivo-agressiva.
Duas coisas me vieram à memória.
Os sinhôzinhos das Casas-Grandes dos engenhos de antanho,
tão cruelmente e ternamente descritos por seu maior cronista, Gilberto Freyre:
Mimos que em certos casos prolongavam-se pela segunda infância. Houve
mães e mucamas que criaram os meninos para serem quase um maricas. Moles e
bambos. Sem andar a cavalo nem virar bunda-canastra com os muleques da
bagaceira. Sem dormir sozinhos, mas na cama-de-vento da mucama. Sempre dentro
da casa brincando de padre, de batizado e de pais das bonecas das irmãs. O
Padre Gama nos fala de meninos que
conheceu sempre “empapelados e envidraçados”, e tratados com tantas “cautelas
de sol, de chuva, de sereno, e de tudo, que os pobres adquirem uma constituição
débil, e tão impressionável que qualquer ar os constipa, qualquer solzinho lhes
causa febre, qualquer comida lhes produz indigestão, qualquer passeio os
fadiga, e molesta”.
(Casa Grande & Senzala, Ed. Record, 40ª. edição, p. 426)
Famílias medianamente abastadas apressam-se a proteger-se,
defender-ser, guardar-se das menores ameaças; e com isso definham, perdem a
energia que seus antepassados tiveram.
Sociedades inteiras podem se tornar assim, e neste caso
valem as reflexões do Viajante no Tempo de H. G. Wells, que salta do ano de
1895 para o de 802.701 e se depara com um mundo aparentemente povoado apenas
por jovens louros, sorridentes, pacíficos, inofensivos, cuja língua ele não
entende, mas cujos hábitos começa a querer decifrar pela mera observação.
São os Eloi, uma espécie de hippies do futuro. Um povo cuja finalidade nessa Terra do século
8000+ é um dos segredos do livro, sobre o qual não darei spoiler. Basta registrar a perplexidade do Viajante no Tempo diante
daquela vida aparentemente tão despreocupada e inocente. Diz ele, no capítulo 4 (trad. BT):
Tive a impressão de
estar encontrando a humanidade na sua fase de lento declínio. Aquele por-do-sol me levou a pensar no
crepúsculo da própria espécie humana.
Pela primeira vez comecei a perceber uma consequência bizarra dos
esforços sociais nos quais estamos mergulhados em nossa época. E não obstante é uma consequência bastante
lógica. A força é um resultado da
necessidade; a segurança conduz ao enfraquecimento. O esforço para melhorar as condições de vida
– o verdadeiro processo civilizatório que torna a vida cada vez mais segura –
tinha avançado até atingir o clímax. (...)
Com essa mudança de
condições vem, inevitavelmente, a necessidade de adaptação às novas condições
produzidas pelas mudanças. Qual é, a
menos que nossa ciência biológica seja uma montanha de erros, a causa da
inteligência e do vigor da raça humana?
Uma vida livre enfrentando condições adversas, condições nas quais os
indivíduos ativos, fortes e sagazes sobrevivem, e os fracos são condenados;
condições que premiam a capacidade dos homens para o esforço conjunto e
solidário, além do auto-controle, da paciência, da capacidade de decidir. E a instituição da família, e as emoções que
ali são geradas, o ciúme, a ternura pelos filhos, a devoção dos pais, tudo isto
é justificado e explicado pela presença de perigos que ameaçam os mais
jovens. E agora – onde estão esses
perigos? Há um sentimento crescente, e
que irá crescer ainda mais, contra o ciúme conjugal, contra a dedicação exclusiva
à maternidade, contra as paixões de qualquer espécie; coisas desnecessárias
agora, e que nos deixam desconfortáveis.
São resíduos da vida primitiva, e se tornam dissonâncias na vida
refinada e agradável de hoje.
A visão de Wells é uma
visão influenciada pelos pensadores de sua época: Darwin, Spencer, Marx,
etc. A percepção das mudanças biológicas
e sociais foi a cara desse século em que era possível, com certa segurança
científica (sempre ilusória, porque contingente, mas necessária) imaginar o futuro.
Pensei na delicadeza
física daquelas pessoas, na sua falta de inteligência, e nas ruínas que via por
toda parte; isto aumentou a minha crença numa conquista total da Natureza. Porque após a batalha vem a quietude. A humanidade tinha sido forte, enérgica, e
inteligente, e tinha usado essa vitalidade exuberante para alterar as condições
do mundo em que vivia. E agora vinha a
reação do mundo que tinha sido alterado. (...)
Calculei que há anos sem conta tinha deixado de
existir ali qualquer risco de guerra ou de violência pessoal, qualquer perigo
de ataques de animais selvagens, nenhuma doença grave a requerer uma
constituição forte, nenhuma necessidade de trabalhos braçais. Para uma vida assim, os fracos eram tão
capacitados quanto os fortes, e nem podiam mais ser chamados de fracos. Eram até mais bem capacitados, pois os fortes
seriam perturbados por uma energia para a qual não havia uso. Não havia dúvida de que a beleza peculiar dos
edifícios que eu via eram o resultado dos derradeiros impulsos dessa energia na
humanidade, energia agora desnecessária, depois que ela repousava numa harmonia
perfeita com as condições ambientes: o último florescer do triunfo que resultou
na paz definitiva. Tem sido sempre este
o destino da energia humana em condições de perfeita segurança: derivar para a
arte e o erotismo, e depois para a languidez e a decadência.
Mesmo o impulso da
arte não duraria para sempre, e estava quase extinto naquele Tempo de que fui
testemunha. Adornar-se com flores,
dançar, cantar à luz do sol: era tudo o que tinha sobrado do espírito
artístico. E mesmo isto estava condenado
a desaparecer, no fim, dando lugar a uma complacente inatividade. Mantemo-nos sempre afiados quando somos
submetidos ao esmeril da dor e da necessidade, e agora me parecia que esse
mecanismo fatídico tinha finalmente sido despedaçado!
A narrativa de Wells acaba se desdobrando por
terrenos inesperados, mas de momento o que me interessa é essa percepção, na
Era Vitoriana, de que uma das armadilhas (são várias) do Progresso é a falsa
sensação de dever cumprido, problema resolvido.
Nenhum futuro nos trará a sensação de “a batalha foi ganha, podemos agora
relaxar”.
A sensação tentadora do “fim da História”, de que
já se chegou ao estágio ideal de abundância, e que agora basta deixar a máquina
do Estado ser manipulada pela mão invisível do mercado e tudo vai fluir em céu
de brigadeiro (não vai).