quinta-feira, 9 de julho de 2026

5243) "O Dia das Trífides" (9.7.2026)




[ Ed. Aleph - capa: Daniel Canedo) 

 

Este clássico da ficção científica, publicado por John Wyndham em 1951, tornou-se um dos romances fundadores do gênero que os ingleses batizaram de “cozy catastrophe”, a catástrofe aconchegante, a catástrofe administrável. Ou seja: acontece uma catástrofe de proporções aterrorizantes, inimagináveis; é o fim do mundo... mas é o começo de outro. 

Poderíamos também chamar a esses livros: “as catástrofes de reconstrução”. Elas de certo modo satisfazem a filosofia das pessoas impacientes e amargas que dizem: “O único jeito é zerar a sociedade humana e começar de novo”.  

E a primeira tarefa é: não morrer de fome.  

As condições que delimitaram e nos ensinaram os nossos padrões de comportamento desapareceram, junto com esse mundo. Nossas necessidades agora são diferentes, e nossos objetivos devem ser diferentes. Se quiserem um exemplo, posso lembrar que todos nós passamos o dia de hoje praticando, com a consciência perfeitamente tranquila, uma série de atos que dois dias atrás seriam considerados invasão de propriedade e roubo. Com os velhos padrões rompidos, temos agora que descobrir qual o modo de vida mais adequado aos novos padrões. Não temos simplesmente que começar a construir de novo: temos que começar a pensar de novo, o que é muito mais difícil e muito mais incômodo. (Cap. 7)  

Para quem não conhece o livro, um breve resumo:  

Da noite para o dia, 99% das pessoas, em todo o mundo, acordam de manhã e descobrem que estão cegas. A civilização colapsa; o caos, a violência tomam conta de tudo, e em breve a fome e as epidemias incontroláveis se encarregam de dizimar uma parte das pessoas. Bill Masen, o narrador, é uma das poucas pessoas que não cegaram.  

E outra parte da população começa a ser dizimada pela trífides, umas plantas misteriosas capazes de caminhar (desajeitadamente, usando as raízes como pernas) e de matar pessoas com um longo chicote que traz na ponta um aguilhão venenoso.  

Quanto mais eu considerava este novo aspecto, menos eu estava gostando. Não tinha idéia de quantas trífides poderia haver em Londres. Todos os parques tinham pelo menos algumas. Geralmente eram mantidas em currais, onde podiam mover-se à vontade, mas havia outras, de ferrão intacto, ora presas a estacas, ora mantidas em segurança por trás de cercas de arame. Pensando nas que eu vira cruzando Regent’s Park, pensei quantas eles mantinham no cercado perto do zoológico, e quantas teriam escapado. (Cap. 4)  

Li esse livro pela primeira vez aos quinze anos, e traduzi-lo depois dos setenta foi um reencontro comigo mesmo.  

Li como parte da saudosa e fundamental Colecção Argonauta, da Editora Livros do Brasil, de Lisboa, coleção da qual eu comprava e lia tudo que me aparecia pela fente, nas livrarias de Campina Grande e do Recife. 


 

(Colecção Argonauta – capa: Lima de Freitas)

 

Já fiz aqui no Mundo Fantasmo uma crítica ao livro de Wyndham, no ano de 2009, afirmando:  

O Dia das Trífides é um ótimo romance de FC sob vários critérios, e seu único defeito é a ocorrência de duas premissas fantásticas tão distantes (plantas inteligentes, cegueira coletiva) e tão convenientes para o autor. Bastaria uma.  

https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/05/2084-um-fato-fantastico-12112009.html  

Fiz este comentário inspirado num conselho de Anthony Boucher, um romancista e crítico em cujo bom-senso literário nunca deixei de me apoiar. Boucher desenvolve aqui um conselho de H. G. Wells, e sugere:  

O autor tem direito a uma única premissa fantástica, que dará origem a toda a sua história. Ele pode usar uma pessoa capaz de atravessar paredes, mas não pode usar na mesma história outra pessoa que é invisível.

 Dois fatos fantásticos, distantes um do outro, não-relacionados, provocam um desequilíbrio narrativo. (Não quer dizer que não possa resultar num grande livro; apenas alerta que vai dar mais trabalho para fornecer um background convincente.)

Traduzindo agora o livro de Wyndham, me dei conta (com olhos mais experientes do que meus olhos estrelados de rapazinho) de que o autor se sai bem dessa aparente bifurcação. As trífides bamboleantes e venenosas e a cegueira generalizada devem-se a um contexto político-científico bastante visível. John Wyndham testemunhava o desabrochar da Guerra Fria, e vivia ainda os abalos sociais da II Guerra Mundial. E o romance, curiosamente, pode ser visto como um dos primeiros a indagar de maneira adulta e convincente, num contexto de catástrofe: O que foi que os nossos governos andaram fazendo, e escondendo de nós?  

O livro faz um retrato confrangedor de Londres, em sua primeira metade, quando milhares de pessoas cegas vagueiam em desespero pelas ruas, quebrando vitrines em busca de comida, sequestrando com violência quem possa lhes servir de guia, organizando-se em grupos de assalto para saquear armazéns e supermercados.  

Mesmo encarando de frente a questão coletiva do recomeço da civilização (há discussões renhidas sobre “o que faremos do mundo”), Wyndham é um escritor que cria o tempo inteiro cenas curtas, vívidas, tocantes.  

Eu tinha visto apenas uma meia dúzia de pessoas capazes de caminhar, depois de chegar naquele distrito. Agora, parecia não haver nem mais uma sequer. Por fim, perto da esquina de Buckingham Palace Road, encontrei uma mulher idosa, sentada e encolhida num batente. Estava atarefada tentando abrir uma lata com unhas partidas, enquanto praguejava e choramingava ao mesmo tempo. Fui a uma lojinha próxima e encontrei meia dúzia de latas de feijão, numa prateleira alta que tinha escapado. Achei um abridor de latas também, e voltei até onde estava a mulher. Ela ainda arranhava inutilmente a lata.

-- Melhor jogar essa lata fora – disse eu. – É café.

Pus o abridor em sua mão, e dei-lhe uma lata de feijão. (Cap. 9)

 

É uma história escrita numa Londres que começava a se reconstruir após os bombardeios alemães da II Guerra, e o espírito de resistência e reorganização que ele descreve tem a ver com essa admirável qualidade da espécie humana. “Não importa. Recomeçaremos”.

Fui até a janela e olhei para fora. De forma deliberada comecei a dizer adeus para tudo aquilo. O sol já vinha baixando. Torres, catedrais, fachadas de pedra de Portland surgiam brancas ou cor-de-rosa de encontro ao céu que escurecia. Outros incêndios tinham brotado aqui e acolá. A fumaça se erguia em borbotões negros, às vezes deixando entrever algumas línguas de fogo por baixo.  Era provável, disse para mim mesmo, que depois de amanhã eu nunca mais voltasse a ver nenhum daqueles edifícios que me eram tão famiiares. Talvez chegasse o tempo em que alguém fosse capaz de voltar – mas nunca para o mesmo lugar. O fogo e o clima o teriam maltratado: estaria visivelmente abandonado e morto. Mas agora, a uma certa distância, ainda era possível fantasiá-lo como uma cidade viva. (Cap. 5)


 Tem a ver também com o pânico diante do desmoronamento de tudo que julgávamos garantido, certo, seguro. E um pânico cego, irracional, quando nos deparamos com uma ameaça mortal que não conseguimos compreender.  Uma releitura recente de A Guerra dos Mundos (1898) de H. G. Wells me trouxe à memória algo desse desespero que Wyndham iria reconstituir, meio século depois.

Como indiquei acima, o livro já estava publicado em Portugal (com tradução de José Manuel Calafate) em meados dos anos 1960. Teria sido lido por José Saramago? Teria ajudado a inspirar o seu excelente Ensaio Sobre a Cegueira (1995)? 

Aqui no Brasil temos também “A Escuridão” (1963), do mestre André Carneiro, que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (Casa da Palavra, 2003); neste caso, não são as pessoas que ficam cegas, mas a luz que misteriosamente desaparece. O resultado é o mesmo.  

Em O Dia das Trífides, o narrador, Bill Masen, escapa da cegueira (provocada por uma chuva de meteoros brilhantes) porque estava hospitalizado, com os olhos vendados, justamente após ser atingido pelo aguilhão de uma trífide. Ele é um especialista nessas plantas, e isso o ajuda a sobreviver quando elas, sem controle, começam a se propagar pela cidade, matando quem se aproxima.

A cegueira universal e a ameaça das trífides fornecem o suspense da história, mas sua parte mais interessante é sua descrição de que mal o mundo se acaba já tem gente disposta a propor uma nova organização para o que restou.

Há uma luta constante pela liderança das pequenas comunidades que se formam, em que um pequeno grupo de pessoas que veem organiza e protege um número maior de cegos.  

É aí que entra a importância de um líder. Um líder planeja, mas é sábio o bastante para não dizer que o fez. Quando as mudanças se revelam necessárias, ele as introduz como se fossem uma concessão –  temporária, é claro – às circunstâncias, mas se ele for hábil, ele vai introduzir justamente as partes que faltam para completar seu plano. Sempre haverá objeções esmagadoras a qualquer plano, mas sempre será preciso admitir concessões feitas num momento de emergência.

(Cap. 10, trad. BT)


E as trífides – venenosas, numerosas, obscuramente inteligentes – estão por toda parte.  

Os lança-chamas estavam guardados numa das privadas do lado de fora. Eu não quis correr riscos quando fui buscá-los. Com roupas e luvas bem grossas, um elmo de couro e óculos de mergulhador por baixo da máscara de malha, abri caminho por entre a multidão de trífides empunhando o maior facão que consegui achar. Os aguilhões chicoteavam e se chocavam contra minha máscara com tal intensidade que a encharcaram, e o veneno começou a se filtrar para dentro como uma tênue neblina. Ele embaçou meus óculos, e ao entrar na privada a primeira coisa que fiz foi lavar o rosto. Ao sair, não me atrevi a usar mais do que um jato de chamas breve, apontado para baixo,  por medo de incendiar as molduras da porta e da janela; mas ele produziu uma agitação suficiente para me permitir voltar ileso para dentro da casa. (Cap. 15)  


O livro foi adaptado várias vezes, para cinema e TV. Eu havia visto quando garoto uma adaptação mediana para o cinema, escrita por Philip Yordan e dirigida por Steve Sekely. Está aqui, no YouTube:  

https://www.youtube.com/watch?v=1HJ2qi63_O0

Durante os meses em que traduzi esta edição, vi duas séries muito interessantes, também no YouTube. 


A mais recente, e talvez mais a gosto do público de agora, é de 2009, com dois episódios bem longos, e foi dirigida por Nick Copus. Moderniza a história, mexe com o enredo, com os personagens, vai numa direção muito diversa do livro de Wyndham. Ainda assim, tem seus bons momentos de suspense e de efeitos especiais. 
 

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UJVBu7p8Otk


Gostei mais – pelo quesito “fidelidade ao livro” – da série de 1981, em seis episódios, dirigida por Ken Hannam. Segue muito de perto a narrativa, e quando a gente está traduzindo há a necessidade permanente de visualizar de forma adequada (e interessante) as cenas que o autor descreve. Nem sempre ver um filme ou uma série ajuda – tem diretor que visualiza mal, por incrível que pareça. Neste caso, não. A série de Ken Hannam tem um bom ritmo narrativo, bons atores, e hoje, muitos meses depois, quando releio algumas cenas do livro, não sei mais se minhas memórias visuais de agora se devem ao que imaginei por conta própria enquanto lia e traduzia, ou ao que vi nestes episódios. 

Aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=sFCUOPwBFd8

 

 


quarta-feira, 1 de julho de 2026

5242) À sombra das chuteiras imortais (1.7.2026)



 
Era este o título de uma série de crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol, no jornal O Globo, que eu lia com devoção, tanto quanto lia o “Meu Personagem da Semana”, a página dupla mantida por ele na antiga Manchete Esportiva que meu pai não só colecionava como encadernava. 
 
Não sei onde Nelson foi buscar essa frase, que é sonora, imponente, bem àquele estilo de tribuno nordestino amante dos gestos largos e da voz estentórica. Ele e seu irmão Mário Filho (que deu o nome ao estádio do Maracanã) eram iguais e antípodas ao mesmo tempo. Iguais no amor à literatura e ao futebol; antípodas no modo de ser e de escrever. 
 
Nelson tinha era um escritor cheio de veemência, de barroquismo. Mário era um espírito lúcido, pausado, preciso; escrevia com a elegância de um Machado e o bom humor de um Verissimo. 


(Nelson Rodrigues e Mário Filho) 

 
Resultado: Nelson marcou gerações inteiras com sua personalidade conturbada, cínica, emotiva, e sua linguagem cheia de exageros retóricos. Quanto a Mário Filho... poucos o leem hoje, e os outros não sabem o que estão perdendo. 
 
Nelson marcou para sempre o jeito de se escrever sobre futebol, e curiosamente ele mesmo dizia que não entendia muito de esquemas táticos ou sutilezas estratégicas. Sua matéria-prima era a emoção do futebol. Eram os destinos e as vicissitudes do sucesso e do fracasso; os grandes dramas e as grandes comédias, o lado épico e o lado picaresco do esporte bretão. E a tudo isto Nelson respondia com um vocabulário imprevisível, e com um impagável senso crítico sobre a comédia humana. 



 
Reza a lenda que certa vez um jornalista amigo de Nelson o abordou, um tanto enciumado de seu sucesso.
 
-- Puxa vida, Nelson, você escreve bem pra caramba, mas se repete muito.
 
-- Eu me repito? Qual nada.
 
-- Claro que se repete. Volta e meia você está reutilizando seus próprios clichês.
 
-- Isso é um absurdo, eu não tenho clichês.
 
-- Como não tem? “O olho rútilo e o lábio trêmulo...” “Uma granfina com narinas de cadáver...”  “Calçar as sandálias da humildade...” “Até uma cambaxirra paraplégica teria conseguido fazer esse gol...” “Subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional...” “Gorda e patusca como uma viúva machadiana...” Reconhece tudo isto?
 
-- Está vendo? – disse Nelson, triunfante. – Se eu não repetisse, você não teria se lembrado.
 
Não sei se o teor da conversa foi este, mas a lição de Nelson não foi outra. Quando a gente produz uma frase memorável, não deve atirá-la à vala comum do “uma só vez”. É preciso repeti-la, porque na vez seguinte dez pessoas a reconhecerão e duzentas estarão sendo apresentadas a ela somente agora. E assim por diante. As grandes tiradas afundam na areia movediça da desmemória coletiva se não forem resgatadas e postas a trabalhar de novo, vez em quando. Repita a frase, colega. Ela é sua. 



Nelson deixou marcados esses seus bordões porque era o homem da página de jornal e do palco de teatro, não o do livro capa-dura com lombada gravada a ouro. Sua literatura era uma literatura de feira-livre onde os produtos têm prazo de validade curto, mas podem ser substituídos na semana que vem por um equivalente perfeito. 


 
Nelson, fluminense roxo, ou melhor, verde-branco-grená, dizia que “o Fla-Flu começou a existir cinco minutos antes do Gênesis”. Na verdade, aposto que não foi bem isto que ele disse, mas já li de tantas formas e em tantas variantes que não importa mais: importa a idéia de grandeza cósmica que ele tenta aplicar ao jogo que mais mexia com as suas coronárias. 
 
E é assim que os grandes achados verbais perduram e se propagam: eles usam palavras inesperadas para comunicar uma idéia nova, e quando são bem sucedidos a idéia se fixa de tal modo na cabeça de quem ouve que na vez seguinte as palavras nem precisam ser as mesmas. 
 
Vale, também para as frases, aquele princípio essencial dos roteiristas de cinema sobre as histórias: história que dá filme é aquela que você pode recontar com suas próprias palavras e produzir o mesmo efeito, sem depender do léxico ou do fraseado do autor. 
 
O léxico e o fraseado de Nelson, porém, eram impagáveis, porque ele usava a língua portuguesa, ou a língua brasileira (tá bom, tá bom: a língua PB) como lhe dava na telha. No Brasil, os exemplos e os modelos do “escrever bem” se concentram em torno de Machado de Assis, de Guimarães Rosa, de Gilberto Freyre, de Antonio Cândido... Todos escrevem maravilhosamente, pelos meus critérios pessoais, mas dou graças aos céus dos agnósticos por ter assimilado doses maciças de Nelson na adolescência. “Escreva do jeito que você anda”, diria ele; “escreva com o que você tem.” 



 
E a “sombra das chuteiras imortais”? Estou aqui me coçando para ver se encomendo na Livraria Folha Seca o volume que tem esse título, porque meu pai o achava a coisa mais bonita do mundo, e eu, como sempre, ia no seu rastro. Não foi senão muito depois que comecei a questionar muita coisa, e no meio disso as tais sombras das chuteiras. 
 
Como é a sombra de uma chuteira? Bem, se alguém já as pendurou, a sombra se projeta oblíqua na parede. Mas se não é o caso, a sombra de um par de chuteiras tem exatamente o formato delas duas, dos seus solados com travas, em cima da grama onde pisam. É só isso que um jogador tem. 

O campo de futebol tem medidas vastíssimas, mesmo pelos parâmetros do futebol superatlético de hoje em dia. É um latifúndio, e a parte que cabe a um jogador, nesse latifúndio, é a parte onde pousam seus pés, onde pousa a sombra das chuteiras imortais. 
 
Estamos em tempo de Copa do Mundo, e esta é sempre uma época em que eu sinto o espírito de Nelson baixar sobre mim. 
 
Gosto de acompanhar futebol internacional, agora que tudo está no YouTube e equivalentes. Jogos da Champions League, jogos dos campeonatos inglês e espanhol (os dois que me interessam), algumas disputas de seleções (Eurocopa, etc.). 


 
(foto: Ina Fassbender) 
 

Não torço por ninguém, e não acho que o futebol só possa ser fruído, saboreado, se a gente torcer por um dos times. Acho que o espetáculo vale por si, o drama vale por si. Eu sou aquele cara que centenas de vezes na vida ligou a TV de tarde para ver o videotape de XV de Jaú vs. Ponte Preta. Por que? Sei lá. Porque em qualquer jogo de futebol pode acontecer uma coisa genial a qualquer instante. 



Quando chega Copa do Mundo, no entanto, menos do que o lance genial ou o gol de placa eu passo a acompanhar o sonho, o drama, o paraíso, o pesadelo. Não é um clube, é um país inteiro que está ali. E sinto isso muitíssimo mais forte quando se trata de pequenos países, de seleções sem muita tarimba. 
 
Esta Copa, com seu despropositado número de 48 participantes, tem essa atenuante: está trazendo seleções que nunca, ou raramente, disputaram uma fase de grupos, quanto mais um mata-mata. 
 
E em momentos assim eu viro uma espécie de Nelson Rodrigues, esqueço o gol de placa e me concentro no épico improvável de uma vitória do Equador ou do Paraguai (que começou a Copa tão mal) diante da Alemanha, ou de um empate de Cabo Verde com a Espanha, ou do heroísmo do Marrocos diante da Holanda. 
 
Acho que o brasileiro tem uma certa tendência a torcer pelo “underdog”, pelo time mais fraco. E por cima disso vem a identificação com essas torcidas (a maioria gente mais endinheirada do que eu, mas não importa) que está lá de joelhos, chorando, rezando, cuspindo, esbravejando, vivendo algumas semanas de vitórias impossíveis e derrotas insuportáveis. 
 
Cabo Verde virou a “cinderela” da Copa, a história que todo mundo gosta de ouvir contar. Pouco importa se não joga um futebol coletivo tão bem encaixado quanto o da Argentina, ou se não tem um elenco “Ocean’s Eleven” como o da França. Não vemos seus jogos em busca de novidades táticas ou de um novo Messi. Vemos para prestar homenagem a quem está vivendo um sonho, e para fazer parte desse sonho feliz antes que ele acabe. 



(foto: Chandan Kanna) 



 
 








sábado, 27 de junho de 2026

5241) Alexei Bueno, 1963-2026 (27.6.2026)



 
Um antigo provérbio africano diz que a morte de um ancião equivale ao incêndio de uma biblioteca. É mais ou menos a isto que corresponde a partida de Alexei Bueno, se bem que ele não chegou a ser ancião. Morreu ontem aos 63 anos; o destino o poupou de chegar à velhice; tê-lo-ia poupado também se chegasse aos 120, porque tinha um espírito indomavelmente jovem. 
 
Jovem com tudo que isto implica de orgulhoso otimismo, de impulsividade, de felicidade guerreira, e de uma temerária fé em si próprio. Como a fé dos jovens de vinte anos que vestem uma farda, empunham uma arma, e partem para o campo de batalha pensando: “Morrerão todos, menos eu”. 
 
Ontem, durante uma reunião de trabalho, uma amiga me perguntou se eu conhecia Alexei. Falei, com a minha obrigatória jovialidade: “Claro, já bebi muito com ele”. E recebi a notícia de que ele estava internado, e nas últimas. Meu dia continuou, mas está até agora com uma metade faltando. 
 
Na verdade, nem fomos tão próximos assim; tínhamos aquelas amizades de um-encontro-por-ano, muitas vezes em função de nossa presença num colóquio literário, lançamento de livro, esses eventos providenciais que nos arrancam da poltrona e da página. Benditos eventos, que nos fazem conhecer pessoas assim. 
 
Tínhamos alguns territórios espirituais em comum: Glauber Rocha, Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos... E principalmente aquela arte milenar e quebradiça: a poesia rimada e metrificada, a poesia de forma fixa, cada vez mais empurrada para o fundo do palco, para longe dos holofotes e das câmeras, cada vez mais substituída pelo que muitos chamam de “verso livre” e que na verdade tem tanta liberdade quanto as crianças ferais criadas no mato pelos lobos.  
 
O poema de forma fixa, com estrofe, rima, métrica, é uma arte delicada e difícil, mas para quem a cultiva é fácil como uma bolha de sabão. Dele se pode dizer o que Chesterton dizia de uma taça de vidro: se lhe derem uma pancada, faz-se em pedaços, mas se a deixarem em paz durará mil anos. 
 
É ao mesmo tempo, a mais frágil e a mais duradoura das artes. 
 
Frágil porque depende de um senso absoluto de regularidade e rigor; basta uma sílaba ou uma sonoridade fora de lugar para desequilibrá-la por completo, como um tijolo mal posto que faz ruir um arranha-céu. 
 
E duradouro porque corresponde a um impulso indomável do espírito humano: o nosso impulso de ordem, tão crucial quanto o de desordem. O impulso que nos leva a procurar essa esquisita sensação de paz que nos produz a contemplação das formas harmoniosas, as estruturas simétricas, as cadências jubilosamente previsíveis. 
 
A poesia rimada e metrificada nos dá o mesmo prazer das rendas em labirinto, dos cravos bem temperados, dos vitrais em rosácea, dos grandes painéis com perspectiva renascentista. O sonho de um universo que se eleva na direção da harmonia, e não na direção do tumulto como ocorre na vida real. 
 
É uma contradição, é claro, mas não me sai da cabeça quando penso que ninguém cantou tão bem esse conúbio entre Ordem e Desordem quanto o nosso gótico-científico Augusto dos Anjos, e que a Paraíba deve a Alexei a mais criteriosa edição dos poemas e prosas do poeta do tamarindo. 
 
Alexei nunca foi uma pessoa fácil, e já o vi travando embates verbais portentosos em torno de poesia, de política, de História do Brasil, de ruas antigas do Rio de Janeiro, do prato de tira-gosto ainda fumegante. 
 
Gostava dos enfrentamentos, sentia-se à vontade ao terçar armas contra um adversário qualquer, fosse um amigo do peito ou um oponente de ocasião. Era o prazer do combate que o arrastava, o prazer de quem testa os próprios músculos empurrando uma parede que um dia há de ceder. 
 
Indivíduos assim são muitas vezes chamados de dogmáticos, radicais, impositivos... Indivíduos que não relaxam, não tergiversam, jogam cada frase na mesa como se fosse um ás de trunfo. Se Alexei fosse um time de futebol, ai do tiro-de-meta do adversário. 
 
Falo isso com admiração e cautela, porque sou o contrário disso, procuro ser líquido, adaptável. Já Alexei parecia um cara que conheci na juventude, em Campina Grande, igualmente competitivo, igualmente pintado para a guerra, e que uma vez foi participar de um debate com outro professor e abriu dizendo: “Diga alguma coisa para eu ser contra”. 
 
Talvez por isso mesmo nosso diálogo fluísse tão bem, porque na verdade ele era um poço subterrâneo jorrando idéias sem parar, e a nós bastava uma pequena provocação, uma pergunta fingidamente capciosa, para que ele desembestasse numa banguela de argumentações, citações, referências, arrazoados, digressões maledicentes e divertidas. 
 
Sei que era bibliófilo, e tinha uma biblioteca magnífica, caso sejam verdadeiras todas as aquisições de que se vangloriava. Gabar-se de suas estantes é um cabotinismo inocente de todos os que pensam que os livros salvarão o mundo. Uma vez fui me gabar de que acabara de ler um livro de Vivaldo Coaracy sobre o Rio de Janeiro; Alexei produziu um comentário de quinze minutos que me fez voltar para casa e abrir o livro de novo no capítulo um. 
 
Falei um dia: “Você não me chama para beber na sua casa porque tem medo que eu furte algo de sua biblioteca”. Ele me garantiu que não tinha medo de nada, quanto mais disso, e que um dia me daria acesso a sua Golconda. Agora não dá mais. Levou-a consigo. 
 
***
 
EPISÓDIO
(Alexei Bueno, em O Sono dos Humildes, Ed. Patuá, 2021)
 
Um muito pequeno inseto
pousou no balcão do bar.
Informe, incolor, abjeto,
um nada, uma nódoa a andar.
 
Com um copo sujo esmaguei-o.
Ao vê-lo imóvel, extinto,
que estranha impressão me veio,
que absurda dor, e ainda a sinto.
 
Mas vi que ele se mexia,
nem sei qual parte. Elas, juntas,
nada eram. No entanto eu via
nelas a vida, ex-defuntas.
 
Com o mesmo copo animei-o –
com a borda – e ele se mexeu.
Depois andou, com receio,
e, súbito, ei-lo no céu.
 
O ponto morto voava,
e eu, outro átomo esquecido,
via-o. E ele, do ar, me dava
um nada, um tudo, um sentido.
 


 






quinta-feira, 25 de junho de 2026

5240) O segundo tiro (25.6.2026)



 
No romance O Estrangeiro (1942), de Albert Camus, o protagonista, Meursault, comete um crime pelo qual é preso, julgado e condenado à morte.
 
É um romance de inesgotáveis leituras – filosóficas, políticas, psicanalíticas, linguísticas, religiosas, o escambau. Um grande livro é como Tebas, a Cidade das Cem Portas. 
 
Eu gosto de vê-lo como uma tentativa francesa de escrever um romance policial noir como os norte-americanos escreviam brilhantemente nessa época (e os franceses liam com avidez). Para além das leituras filosóficas ou políticas, também necessárias, o que me atrai é o drama de um indivíduo perdido num mundo onde tudo parece fazer sentido mas não faz. 
 
Há um detalhe que sempre me intrigou, desde quando o li pela primeira vez, com menos de vinte anos. 
 
Meursault é um francês pé-rapado na Argélia. Há um grupo de árabes que estão de cara feia com ele, por causa de brigas recentes. Ele vai à praia passear, num dia de sol insuportável. Um dos árabes está na areia, e lhe mostra uma faca. O sol reluz na faca. O suor lhe desce pelo rosto. Ele puxa o revólver e derruba o árabe com um tiro. Espera alguns segundos e depois dispara mais quatro vezes. 


 
Existe o pequeno hiato entre o primeiro tiro e os demais. Uma espera mínima.
 
Pensei  que  bastava dar  meia-volta e  tudo  estaria acabado.  Mas atrás de  mim comprimia-se  toda  uma  praia  vibrante  de  sol.  Dei  alguns  passos  em  direção  à nascente. O árabe não se mexeu. Apesar disso, estava ainda bastante longe. (...) Mas dei um passo, um só passo à frente. E desta vez, sem se levantar, o árabe tirou a faca, que ele me exibiu ao sol. A luz brilhou no aço e era como se uma longa lâmina fulgurante me atingisse na testa. (...) Meus olhos ficaram cegos por trás desta cortina de lágrimas e de sal. (... ) Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça. 
 
(O Estrangeiro, Ed. Record, 45ª. edição, 2019, trad. Valerie Rumjanek)
 
 
Existe no romance policial noir um episódio muitas vezes citado (inclusive por mim), que faz parte do livro O Falcão Maltês (1930), de Dashiell Hammett. Um homem chamado Flitcraft, andando na rua, vê uma viga de aço cair de uma construção a alguns passos de distância, por pouco não o matando. Ele percebe nesse instante (ele é aquele americanozão pacato, pouco imaginativo) o quanto a sua vida, a sua segurança, a sua tranquilidade são frágeis diante do Acaso. Ele não volta para casa. Dali mesmo pega um trem ou ônibus para longe (isso é na década de 1920), muda de nome, não dá mais sinais de vida para a esposa e os filhos. 
 
A queda da viga é a “quebra do universo”, o fato desencadeador que precipita Flitcraft num universo absurdo. O mundo em que ele vivera até aquele instante se rompeu, se despedaçou, não existe mais. Existem cacos de normalidade que ele tenta colar de volta, sem conseguir. 
 
Um detalhe importante no trecho transcrito acima é que Meursault não pega simplesmente a arma e descarrega as balas na vítima. Ele dá o primeiro tiro... e espera. Estes segundozinhos de espera são uma derradeira e tênue margem de normalidade a que ele pode apelar. 
 
Ele poderia dizer depois que apertou o gatilho sem querer. Poderia dizer que viu a faca do árabe, e deu um tiro para assustá-lo. Poderia dizer que atirou uma vez e achou que era o bastante para evitar o ataque do outro. 
 
No entanto, ele mesmo admite que “destruíra o equilíbrio do dia”. O mundo se rompeu. E numa atitude de desafio suicida, própria dos desesperados impassíveis, ele atira mais quatro vezes. 
 
Como diz a canção de Lula Queiroga:
 
Atire a primeira, atire a segunda, iaiá
até descarregar o tambor,
até apagar a luz de ioiô,
até nunca mais, já vingou.
(“Atirador”, em Azul Invisível Vermelho Cruel, 2008)
 
Um tiro único pode ser casual, ou impulsivo, mas descarregar o tambor é uma assinatura, um carimbo, uma chancela. “Eu quis, eu fiz, está feito. Algum problema?...” 
 
É uma escolha. A mesma escolha que Meursault poderia ter feito quando diz, no começo da citação: “Pensei  que  bastava dar  meia-volta e  tudo  estaria acabado.”  Ele não escolheu isto. Escolheu ficar e enfrentar. Depois, escolheu dar um tiro. Depois, escolheu dar mais quatro.  



Na mesma época em que li O Estrangeiro li também um best-seller recém-lançado: A Sangue Frio (“In Cold Blood”), de Truman Capote, sobre a chacina de uma família na cidadezinha de Holcomb, no Texas. A história é conhecida. Dois sujeitos sem eira nem beira decidem assaltar a fazenda onde mora um casal e seus dois filhos adolescentes. Entram, amarram a família (cada um em seu aposento), começam a exigir jóias, dinheiro, etc. Isso se prolonga noite adentro. E a certa altura, os dois se impacientam e matam todo mundo. 
 
Não reli este livro nos últimos cinquenta anos (o que é lamentável, porque Capote escreve brilhantemente, e agora consigo ler no original). Lembro, porém, a descrição do momento dos crimes: eles fuzilam o pai, que está preso a uma cadeira, e depois saem de quarto em quarto, matam a esposa, depois o filho, depois a filha... Ele descreve o terror na casa escura da fazenda, os gritos das pessoas ao escutarem os tiros, a corrida dos assassinos escada acima rumo aos quartos, os estampidos, mais gritos...
 
E a certa altura, Capote diz que tentou extrair dos assassinos o que os levou a matar o velho. Porque, diz ele, as três mortes seguintes eram inevitáveis, para não deixar testemunhas, depois que o primeiro crime foi cometido. 
 
As pessoas que não leem romances policiais têm às vezes uma visão limitada do gênero. Para uns, esses livros são meras reiterações do lugar comum (falsíssimo, aliás) de que “o crime não compensa”. Para outros, mera pornografia da violência. 
 
Pode ser tudo isto e muito mais, mas pode ser também a narrativa preferencial, “em nosso mundo moderno” das guinadas bruscas provocadas pela fatalidade, pelo acaso e pelas decisões humanas. Um gesto errado basta para destruir uma vida, um mundo, uma ordem das coisas. 
 
(É como no futebol, pois a Copa do Mundo toda tarde me traz isto à memória. “Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”, como cantava Gilberto Gil. Uma bola mal atrasada, um escanteio desnecessário, um escorregão no instante do pênalti, uma escolha errada numa fração de segundo... e adeus Copa.) 
 
O crime planejado e executado com frieza é uma coisa. O crime impulsivo, improvável, é outra coisa. E existe o momento em que, após um crime totalmente evitável, o indivíduo se vê numa longa estrada cheia de crimes inevitáveis que precisará cometer. 




Quem Mata Torna a Matar, era o nome de um romance de Kyle Hunt (pseudônimo de John Creasey), na Colecção Vampiro. O que me leva a outra escolha cruel e trágica, a escolha de Raskolnikov em Crime e Castigo (1866) de Fiódor Dostoiévski. 
 
Raskolnikov é um desses estudantes com uma inteligência maior que a média e uma arrogância maior que a inteligência. Ele se compara a Napoleão, acha-se destinado a grandes feitos, e se revolta com a injustiça do mundo, que o obriga a viver na pindaíba. 
 
Ele decide matar uma velha usurária que mora ali perto, uma velha sanguessuga odiada e temida por todos os que recorrem a seus empréstimos. Raskolnikov vê uma certa justiça no crime que planeja: a velha agiota é repulsiva e o dinheiro dela poderia equilibrar a vida dele, da mãe e da irmã. 
 
Ele se arma de um machado, vai ao apartamento da velha por um pretexto qualquer, e na primeira chance mete o machado na sua cabeça. Mas quando está recolhendo o dinheiro e as jóias, é surpreendido por Lisavieta, a irmã da velha – e precisa matá-la também, para não ser denunciado. 
 
O primeiro crime tinha um suposto objetivo elevado; o segundo foi só crime mesmo, liquidando uma pessoa inocente. O primeiro crime sempre pode ser racionalizado depois; mas ele leva, de maneira cruel, ao segundo, e quem sabe a um terceiro ou um quarto. 
 
O romance de crime, o policial noir, pode ser uma narrativa sobre violência física, sobre transgressão à lei, sobre pulsões sádicas. Pode ser também, de maneira inquietante, sobre esses momentos de decisão existencial em que um pequeno gesto pode arremessar o indivíduo para um universo totalmente diferente. 




 
 
 
 
 



quarta-feira, 17 de junho de 2026

5239) Nove fatos que ocorreram de verdade (17.6.2026)




1
Quando Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil em 1960, passaram por várias cidades e foram recebidos por intelectuais de esquerda como Jorge Amado, Oscar Niemeyer e outros. Numa maratona de conferências e entrevistas, os dois foram de cidade em cidade e, já na trajetória de volta rumo à França, fizeram uma parada em Belém. Sartre mostrou aos paraenses a enorme mala que conduzia, cheia de livros brasileiros autografados por seus autores. “É pena, mas não vou poder levar tudo isto no avião,” explicou o francês. Os livros ficaram todos em Belém do Pará. 
 



2
No inverno de 1974, a escritora alemã Lotte Eisner, radicada na França, adoeceu gravemente. Eisner é a autora de algumas obras clássicas sobre história do cinema, tais como O Écran Demoníaco, sobre o cinema expressionista alemão das primeiras décadas do século 20. Quando Werner Herzog, então um jovem cineasta no começo da carreira, ficou sabendo que ela estava hospitalizada, partiu a pé da cidade de Munique na direção de Paris, na crença de que se fosse capaz de realizar a caminhada isso iria salvar a vida da mestra. Herzog alega que estava imbuído de um conceito que os católicos chamam “a certeza da salvação”. O trajeto lhe exigiu três semanas, e resultou no “diário de viagem” Caminhando Sobre Gelo. Ao chegar a Paris, ele descobriu que Lotte Eisner tinha acabado de receber alta do hospital. Alguns anos depois, Eisner, agora com 87 anos, queixou-se a Herzog de que ele projetara sobre ela um sortilégio para que ela não morresse. “Me libera agora,” pediu Eisner. Herzog concordou, e uma semana depois ela faleceu. 



3
Conta-se que em 1947 um homem chamado Ross Petrie resolveu pregar uma peça a um grupo de amigos, montanhistas amadores, que haviam escalado o Monte Hood, a 80 quilômetros de Portland, no Oregon. É uma escalada difícil, de cerca de 3.500 metros. Depois que os amigos já haviam subido a encosta, e a noite caiu, Ross Petrie escalou o monte, por sua vez, levando consigo uma garrafa de leite e o jornal do dia, que deixou nas proximidades da barraca onde os utros se abrigavam. A escalada do Mount Hood não é das mais fáceis, e sua duração é estimada entre 4 e 7 horas.  Nada é custoso demais para uma piada. 



4
O ator Christopher Walken é conhecido por seu talento e por uma certa excentricidade.  Na década de 1970 ele trabalhava numa montagem teatral em Nova York. Um dia chegou ao teatro, para ensaiar, carregando nos braços um filhote de leão, como se fosse um pacote qualquer. Depositou o leãozinho no chão, e deixou que ele ficasse caminhando pelo espaço onde os colegas ensaiavam. “Não se assustem,” disse. “Ele está de bom humor… agora.” O elenco inteiro congelou, sem saber se aquilo era uma piada, se era um teste, ou outra bizarrice de Walken. Depois foi descoberto que ele estava fazendo trabalho voluntário junto a uma companhia circense. 



5
Durante uma montagem mexicana da peça Orfeu, de Jean Cocteau, um terremoto aconteceu durante a cena das bacantes, danificando o teatro e ferindo várias pessoas. A sala sofreu reparos e a peça se preparava para voltar a cartaz, quando descobriram entre os escombros o corpo do ator que representava Orfeu. 



6
O major Baden Powell (o fundador do Escotismo, e não o violonista brasileiro) foi certa vez visitar uma família amiga, os Hatch, e ao sentar com eles escutou rugidos de animais ferozes embaixo da mesa, claramente feitos por crianças. O major abaixou-se para olhar, e viu embaixo da mesa três crianças de quatro no chão e, rugindo junto com elas, o escritor Lewis Carroll. O autor de Alice no País das Maravilhas tinha o costume de brincar assim, e conta-se que uma vez entrou, de quatro pés e rugindo, numa sala onde estariam crianças reunidas, mas enganou-se de porta e invadiu uma reunião de senhoras que faziam um trabalho beneficente. 



7
Quando o filósofo Bertrand Russell, então com 49 anos, visitou a China, caiu gravemente doente com pneumonia, e a imprensa noticiou o fato. Russell já era um autor respeitado e uma figura pública. Pouco antes, em visita à URSS, tinha sido recebido pessoalmente por Lênin. Numa época de telecomunicações um tanto precárias, a notícia de “gravemente doente” acabou sendo noticiada na imprensa japonesa como “falecido”. Russell, teve, então, o raro prazer de ler na imprensa mundial o próprio obituário, e saber o que iriam dizer dele após sua morte. Ficou sem saber o que de fato disseram quando morreu de verdade em 1970, aos 97 anos. 



8
Na II Guerra Mundial, quando foi derrubado o governo fascista, seus líderes foram mortos e pendurados de cabeça para baixo num posto de gasolina em construção, entre eles o próprio Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. Mesmo com a ferocidade da vingança e da execução pública, o pudor italiano fez com que a saia de Clara Petacci fosse amarrada às pernas com barbante, e assim o corpo foi pendurado mas as “partes íntimas” não ficaram à mostra. 



9
Vladimir Nabokov e sua esposa Vera emigraram para os EUA em 1940, a bordo do SS Champlain. Durante a década seguinte viajaram longamente pelo país, tendo como base a cidade de Wellesley (Massachusetts), onde ele lecionou antes de se fixar na Universidade de Cornell (Ithaca). O romance Lolita (1955) está cheio de referências diretas ou cifradas a estradas, motéis, lojas, postos de gasolina e outros detalhes colhidos nessas viagens, em que o escritor fazia também um levantamento das borboletas de cada região (reza a lenda que Nabokov chegou a se classificar alguma vez como “um lepidopterologista que escrevia livros nas horas vagas”). Em 1961, os Nabokovs passaram a residir no Montreux Palace, onde uma criada-de-quarto suíça jogou diligentemente no lixo uma pilha de mapas rodoviários dos EUA com todas as rotas e anotações (literárias e borboletais) feitas durante aqueles anos na estrada.  


quarta-feira, 10 de junho de 2026

5238) Quatro filmes de maio (10.6.2026)



 
Como faço de vez em quando, vai aqui um pequeno balanço de filmes vistos recentemente. Hoje em dia saio pouco, e em geral vejo filmes em streaming, ou em DVDs comprados, ou cópias emprestadas por amigos.


TESTAMENT, de Lynne Littman (EUA, 1983)
Uma família enfrenta o “day after” de um ataque nuclear aos Estados Unidos, numa pequena cidade da Costa Oeste. Depois que uma bomba atômica cai em San Francisco (onde o pai trabalhava), a esposa e os filhos, junto com os vizinhos, tentam organizar a vida, poupar energia, poupar comida, e enfrentar a morte lenta causada pela poeira nuclear. 
 
O filme não se volta para as hecatombes militares; a guerra é algo distante mas a radiação é fatal. A narrativa acompanha os problemas miúdos e preciosos de quem, vendo todo mundo morrendo devagar ao seu redor, tenta aproveitar e organizar melhor os dias de vida que lhe restam. 
 
É um filme raro no subgênero “pós-apocalipse” da ficção científica. A esta altura, ninguém o chamaria de FC, embora lide com uma premissa surgida na FC da época da Guerra Fria: “Como serão os dias seguintes a uma guerra atômica?”. E é um filme dirigido por uma mulher, e com a atenção resolutamente voltada para o interior de uma casa, a perplexidade de uma dona-de-casa comum, e de uma família que fica nas mãos dela depois que o mundo começa a se acabar. 
 
O elenco é todo excelente, e não tem ninguém famoso. Eu conhecia apenas o ator que faz o pai (William Devane; ele faz o ladrão de jóias em Trama Macabra, de Hitchcock). A atriz principal, Jane Alexander, é o centro do filme, não deixa o filme afrouxar um instante sequer. As crianças são excelentes. É um filme que dói no coração, porque vemos a poeira radioativa pousando nos móveis, no chão, nos objetos...  Sabemos que todas aquelas pessoas estão condenadas, mas mesmo assim elas encenam pecinhas infantis no teatrinho da escola, elas pedem socorro pelo rádio, elas folheiam os próprios álbuns de fotografias, enquanto ao seu redor tudo vai se esgotando: energia elétrica, água potável, comida enlatada, pilhas de rádio... 
 
Acho que um filme assim é uma contrapartida necessária a filmes mais grandiloquentes como “The Day After”, que mostra os horrores da destruição das bombas propriamente ditas. 
 



 
CITY OF LIFE AND DEATH, de Lu Chuan (China, 2009)
Eu me lembro que quando eu era pequeno lia, nas revistas e livros de História, referências à “guerra sino-japonesa” e ficava pensando por que motivo chineses e japoneses entrariam em guerra, já que eram tão parecidos uns com os outros. Vendo este filme, essa idéia me voltou à cabeça. Hoje sei (ou imagino saber) por que motivo estavam em guerra, mas continuo me perguntando: por quê, se são tão parecidos? A mesma pergunta, aliás poderia ser feita diante de filmes como “E o Vento Levou” ou “Guerra e Paz”. Somos todos tão parecidos, e viveremos eternamente em guerra.
 
O filme conta a captura de Nanjing pelas tropas japonesas, e as semanas de massacre que se seguiram. Tem tela larga e fotografia em preto-e-branco, com excepcionais cenas de multidão. E é muito cruel ao mostrar, mais do que o absurdo da morte, o absurdo da vida: as negociações de poder entre os sobreviventes, as mil e uma sacanagens e humilhações impostas aos perdedores, as traições, as vergonhas de quem tenta sobreviver a qualquer custo. 
 
É curiosa a presença, no meio dessa guerra totalmente oriental, de um pequeno grupo de alemães nazistas, detentores de um certo poder político (afinal estão ganhando a guerra, que precede de pouco o início da II Guerra Mundial), mas veem-se meio perdidos no meio daquele terremoto que ajudaram a desencadear e que foge cada vez mais ao seu controle. 
 



A PRAIRIE HOME COMPANION, de Robert Altman (EUA, 2006)
Robert Altman gostava de dirigir de vez em quando filmes com elenco numeroso, distribuído entre dez ou quinze personagens igualmente importantes, com a narrativa focalizada num ambiente profissional (Prêt-à-Porter, Nashville) ou social (Gosford Park). São filmes onde vários fios narrativos vão se entrelaçando uns aos outros, interferindo-se, e a câmera passa de um pequeno grupo para outro, amarrando tudo, numa história bem montada que às vezes decorre em poucos dias, às vezes num dia apenas. 
 
É o caso deste filme sobre um famoso programa de rádio com música country, que ficou décadas em cartaz. O roteiro mostra o programa em sua última audição, com platéia cheia e transmissão ao vivo pelo rádio. É o ambiente “de época”, de um tempo em que o rádio era o grande ponto de encontro das pessoas, antes da televisão. Números musicais, piadas, propaganda, conversas vão se sucedendo no palco, diante dos microfones, enquanto o roteiro acompanha as intrigas de bastidores, as fofocas de camarim, as disputas, as vaidades. 
 
Há um número impagável em que a assistente não consegue encontrar a página com o texto de uma propaganda e o apresentador fica improvisando qualquer coisa durante minutos a fio diante do microfone. Rádio sem improviso não é rádio. Rádio com improviso é bicicleta ladeira abaixo.  
 



A GHOST STORY, de David Lowery (EUA, 2017)
Este filme é anunciado como filme de terror, mas de terror tem muito pouco. O que é? É o que chamávamos “história de alma”, de alma do outro mundo, espírito de gente morta. Um personagem morre logo nos primeiros minutos e daí em diante se transforma nesse lençol meio assustador que aparece no cartaz. Não fala, não interfere, apenas volta para a casa onde a viúva ficou, abatida... mas ele é invisível a todos. Ninguém percebe sua presença, e ele se torna aquela testemunha impotente do seu próprio pós-morte. 
 
A idéia pode não ser a mais original, mas a direção de Lowery é personalíssima. Não há sustos (bem, há um ou outro apenas). Os planos são longos, tarkovskyanos, mas, curiosamente, não são tediosos, porque aquela presença ectoplásmica injeta uma tensão de tudo-pode-acontecer até na cena em que a moça come sozinha uma torta durante longuíssimos minutos, observada pelo fantasma do marido. 
 
A música é minimalista e espantosamente adequada para nos dar a idéia de um tempo que escapa por entre os nossos dedos. Um morto (percebemos agora) não tem noção da passagem do tempo, que é um instinto físico, animal. Uma alma não tem isso. A alma pisca o olho e a casa está vazia de móveis. Pisca de novo, e tem uma família nova morando em seu lugar. Minutos parecem horas. Décadas parecem segundos. É um dos poucos filmes que conseguem nos transmitir um ponto de vista plausível de uma consciência, pós-morte, conseguindo ainda captar alguma coisa do mundo carne-e-osso. 

O escritor Mike McCormack é autor de um romance (sem relação com este filme), Solar Bones, cujo narrador é um fantasma. O livro consta de uma frase contínua, por centenas de páginas, sem ponto final. Diz o autor: “A mim parece óbvio que um fantasma não sabe o que fazer com um ponto. O ponto final é algo totalmente alheio à sua experiência.”  É bem por aí.