Para muita gente,
Salman Rushdie é apenas o autor do livro blasfemo Os
Versos Satânicos (1989), que desencadeou contra ele o ódio de muçulmanos
fanáticos. O romance tratava de maneira desabusada e irreverente algumas
figuras sagradas do Islã, e fez com que o aiatolá Khomeini decretasse a famosa Fatwa, a sentença de morte contra o
autor.
A oferta de Khomeini
pela vida de Rushdie, segundo se diz, chegou a 3 milhões de dólares.
Dinheiro que, pelo que
entendo, jamais chegou a ir para a conta de ninguém. Os radicais não mataram
Rushdie. Mataram seu tradutor japonês – o que mais uma vez demonstra que, na
cadeia alimentar da literatura, o tradutor é o primeiro a ser devorado.
Conheci o nome do
indiano Rushdie (educado em Londres) muito antes disso e, curiosamente, ouvi
falar nele pela primeira vez em 1981, num verbete da minha querida The Encyclopedia of Science Fiction (1978;
ed. Peter Nicholls e John Clute). Ele era mencionado ali por obra e graça de
seu romance de estréia Grimus (1975),
uma fábula meio surreal sobre universos paralelos e transcendência mística.
Um livro (fiquei
sabendo depois) de que ninguém gosta, exceto eu e Rushdie, talvez. Minto: tenho
dois ou três amigos que apreciam o livro. A questão é que como ficção
científica ele não se sustenta (nem precisa), porque está mais próximo dos
delírios alegóricos de Jodorowsky (tipo A
Montanha Sagrada) do que de Blade
Runner ou Star Wars.
O livro de estréia,
contudo, acabou produzindo um episódio que mostra o quanto o Deus da Literatura
tem caninos brancos e garras de veludo. Como registra Bryan
Appleyard, do The Sunday Times:
https://web.archive.org/web/20080516000740/http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/books/article2961480.ece
Na década de 1970, os escritores
Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss eram jurados num concurso para
escolher o melhor romance de ficção científica do ano. Decidiram dar esse
prêmio a Grimus, o livro de estréia de Salman Rushdie, No último minuto,
porém, os organizadores decidiram desclassificar o livro. Não queriam Grimus
na prateleira de ficção científica. “Se esse livro tivesse ganho”, disse
Aldiss, o sarcástico romancista de 82 anos, o padrinho da FC britânica,
“Rushdie teria que ser promovido como autor de FC, e nunca mais ninguém ouviria
falar do seu nome.”
Exilado do planeta FC,
Rushdie acabou se consagrando em 1981 com Midnight
Children, romance fantástico sobre a geração nascida na noite da
independência da Índia. Ganhou o Booker Prize, e o resto é história.
Li agora um dos seus
livros mais recentes, Faca: Reflexões
Sobre um Atentado (Companhia das Letras, 2024, trad. Cássio Arantes Leite e
José Rubens Siqueira). É o relato da tentativa mais recente de cumprir a fatwa. Em agosto de 2022, numa palestra
pública nos EUA, Rushdie foi atacado por um fanático que subiu ao palco e,
antes de ser contido, desferiu 15 facadas no escritor, atingindo o seu rosto, o
peito, o pescoço, uma mão.
Rushdie correu sério
perigo de perder a vida, mas recuperou-se parcialmente. Perdeu a visão do olho
direito, e parte do uso da mão esquerda, mas voltou a trabalhar, viajar,
escrever, dar palestras. E neste livro ele reconstitui e comenta a experiência
do atentado.
O escritor indiano lembra
em seu livro um outro atentado famoso – a primeira coisa que me veio à cabeça
quando eu soube do que tinha ocorrido. Em 1938, o dramaturgo Samuel Beckett foi
esfaqueado numa rua de Paris e correu risco de vida. Depois, conseguiu um
encontro pessoal com o seu atacante (que estava preso) e perguntou-lhe por que
fizera aquilo. O homem respondeu: “Não sei, senhor, me desculpe”.
Salman Rushdie não
quis ter nenhum encontro face a face com o homem que tentou tirar sua vida. Mas
romancista é romancista, e a parte II de seu livro Faca é a ficcionalização de um diálogo entre os dois. Não me
pareceu a melhor parte do livro – o autor, claramente revoltado com o que
passou, transforma essa entrevista imaginária numa espécie de desabafo em que
ele meio que ridiculariza o criminoso por ser fanático, por não ter cultura
literária, e assim por diante.
Depois de meses de
internação hospitalar, Rushdie foi se recuperando aos poucos, recebeu alta para
voltar ao seu apartamento em New York. Algum tempo depois, pediu para revisitar
o lugar onde sofreu o ataque, no Instituto Chautauqua, na cidade de Pittsburgh.
Acompanhado de sua mulher, Eliza (que não estava presente no dia do
atentado) ele reviu o auditório onde mal tinha começado a falar para a platéia
quando aquele homem mascarado (que no livro ele chama de “o A.”, o Agressor) correu
para o palco, subiu e o atacou.
O palco também estava vazio, um
amplo espaço de tábuas polidas. Tentei recriar o momento para Eliza. Havia duas
cadeiras, para Henry e para mim, contei, aproximadamente aqui e aqui, e o
microfone que Sony Ton-Aime usou para nos apresentar estava ali. E o A. —
quando o vi pela primeira vez — deve ter se levantado de um lugar um pouco mais
à direita. Ali. E veio correndo e subiu esses degraus. Aqui. E então me atacou.
E quando eu caí foi mais ou menos aqui. Bem aqui.
Diz um ditado popular
que “o criminoso sempre volta ao local do crime”. Como toda frase desse tipo, ela
tem um tom demasiado taxativo (“sempre”). Seria mais científico dizer: "os
criminosos geralmente têm um forte impulso de voltar ao local do crime."
E as vítimas (as
quase vítimas-fatais) também. Acho que qualquer psicólogo consegue explicar os
mecanismos mentais que levam alguém a esse tipo de acerto de contas com a
própria memória.
Varia muito, é claro. Algumas
pessoas, passando por um acidente grave, por exemplo, passam a evitar aquela
rua, ou aquele transporte que estavam usando, ou qualquer outra coisa que
lembre o momento traumático.
Outras, no entanto,
sentem a necessidade de fazer uma espécie de “reconstituição ritual do trauma”.
Como se fosse uma visita a um local onde lhes aconteceu uma coisa maravilhosa,
não uma coisa terrível. E que coisa maravilhosa foi essa? “Eu escapei”, ela
dirá. Não é o lugar onde quase morreu, é o lugar onde nasceu de novo.
Pontos dolorosos do
nosso passado imploram por uma visita, exigem que voltemos lá. Para quê? Não sabemos,
mas essa tentativa de revisitar o trauma fornece um excelente material para
romancistas, cineastas, dramaturgos em geral. A obra de Luís Buñuel está cheia
de histórias sobre pessoas que sentem a compulsão de recriar uma cena precisa
do passado, retornar a um momento do passado, para apagar uma dor que continua
acesa.
Rushdie é um prosador
brilhante, inventivo, com uma imaginação portentosa. Seus escritos têm um lado
londrino, cosmopolita, e têm outro lado que facilmente chuta para o alto o
pau-da-barraca do Realismo e mergulha numa aventura surreal sem pedir licença
antes nem desculpas depois. É um dos melhores estilistas daquilo que o
respeitável James Wood chamou de “realismo
histérico”, um tipo de literatura fabulatória onde não se recua diante do
grotesco, do improvável, do rebuscado, do incompreensível.
Ele escreveu um livro
enorme, Joseph Anton (2012), sobre a
fase em que, devido à sentença de morte dos aiatolás, passou alguns anos
clandestino, protegido pelo Serviço Secreto da Inglaterra. Mas só o escreveu
depois, quando a ameaça afrouxou e ele saiu de novo à luz, vindo inclusive à
FLIP, em Paraty, onde tomou cerveja, deu autógrafos e conversou livremente com
todo o mundo.
Os romances que
produziu com a Fatwa pendendo sobre a
cabeça, contudo, conseguiram evitar dois perigos, segundo ele: o vitimismo e o
revanchismo. Diz ele, em Faca:
Imagine que você não saiba nada a
meu respeito, que você veio de outro planeta, talvez, e alguém lhe deu meus
livros para ler, e você nunca ouviu falar no meu nome nem tem nenhuma
informação sobre minha vida ou sobre o ataque contra os Versos satânicos em 1989. Assim,
se você lesse meus livros na ordem cronológica, não acredito que pudesse
concluir que “alguma calamidade
aconteceu na vida desse escritor em 1989”. Os livros têm sua própria
jornada a percorrer.
Eu me lembrava de pensar na época
que havia duas maneiras de a fatwa
me desencaminhar, me destruir enquanto artista: se eu começasse a escrever
livros “temerosos” ou se passasse a escrever livros “vingativos”. Ambas as
opções destruiriam minha individualidade e independência e fariam de mim nada
mais que uma cria daquele ataque. Ele me dominaria e eu não seria mais eu
mesmo.
Realismo histérico ou
não, a literatura de Rushdie mergulha em referências indianas milenares e ao
mesmo tempo mostra ser escrita por um cara que escuta Bob Dylan e torce pelo
Tottenham Hotspur. É uma imaginação literária sem barreiras, aceitando as
imagens e os enredos do modo como lhe vêm.
Em Faca, ele conta que já em Pittsburgh, na
véspera da palestra, ficou algum tempo sozinho, à noite, diante do lago. A lua
de agosto estava tão bonita que ele lembrou de trechos de seu romance mais
recente, que aborda deuses pertencentes a uma “Linhagem Lunar”. Lembrou de uma
piada relativa a Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua; lembrou de um
conto de Ítalo Calvino em As Cosmicômicas,
em que a Lua está tão próxima da Terra que é possível pular de uma para a
outra.
E nessa associação de idéias lembrou do filme de Georges Méliès, La Voyage dans la Lune, em que o foguete
lançado da Terra – na verdade, uma bala de canhão – se crava no olho direito da
Lua. E diz: “Eu não fazia idéia do que a manhã seguinte reservava para o meu
olho direito.”
(Méliès, "Viagem à Lua", 1902)
O atentado foi brutal,
e ele escapou por pouco. Um homem de 75 anos foi esfaqueado por outro de 27,
que lhe aplicou quinze facadas em menos de trinta segundos. Um médico disse ao
escritor: “O senhor só escapou com vida porque seu assaltante não tinha a
mínima idéia de como se mata alguém com uma faca”.
E ele diz:
Se não fosse por Henry e a plateia, eu não estaria hoje aqui, escrevendo
estas palavras. Não vi o rosto deles e não sei seus nomes, mas foram as primeiras
pessoas a salvar minha vida. De forma que, naquela manhã em Chautauqua,
vivenciei o pior e o melhor da natureza humana, quase ao mesmo tempo. É isso
que somos como espécie: temos dentro de nós tanto a possibilidade de assassinar
um velho estranho por quase nenhuma razão, o potencial do Iago de Shakespeare
que Coleridge chamou de “malignidade sem causa”, e contemos também o antídoto
para essa doença: coragem, desapego, disposição de arriscar a vida para ajudar
aquele velho estrangeiro caído no chão.