Se você acredita num Deus imperfeito, hesitante e bem-intencionado, digite 1.
Artigos de Braulio Tavares em sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB), desde o 0001 (23 de março de 2003) até o 4098 (10 de abril de 2016). Do 4099 em diante, os textos estão sendo publicados apenas neste blog, devido ao fim da publicação do jornal impresso.
Corre, sobre o papel, a tinta, como um rioa correr na caudal que o declive acelera!Os vocábulos vêm, espontâneos, a fio...
Improvisar não é criar “do zero”, é produzir um resultado aceitável no menor tempo disponível, obedecendo regras mutuamente aceitas.
Oh the time will come upwhen the winds will stopand the breeze will cease to be breathin’…Like the stillness in the wind‘fore the hurricane beginsthe hour when the ship comes in.
(...) um côncavo silêncio de pátios,um ócio do jasmime um tênue rumor de água, que conjuravamemórias de desertos.(trad. Josely Vianna Baptista)
Dava alegria, a gente ver o regato botar espuma e oferecer suas claras friagens, e a gente pensar no que era o valor daquilo.
Porém, estrito ao cabo de um ano de lá se estar, e quando menos esperassem, o riachinho cessou. Foi no meio duma noite, indo para a madrugada, todos estavam dormindo. Mas cada um sentiu, de repente, no coração, o estalo do silenciozinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulhinho.
No fundo da sesta arrulhavam amorosas pombas; de algum pátio invisível se elevava o rumor duma fonte; algo na carne de Averróis, cujos antepassados procediam dos desertos árabes, agradecia a constância da água.
talvez esta escrita e a água sejam irmãs. ambas mal suportam o toque. ambas se devolvem aos olhos pela marca da finitude (do que desaparece quando tocado bruscamente, e portanto pede mãos breves, que alcancem de dizer certo ponto de estremecimento, nem mais nem menos) esse parentesco entre água e vocabulário, o afeiçoar-se dos dois é a mesma ocasião de tremor, é isso o que eles parecem confessar:“aqui apenas o rastro sobrevive”
porque o amor torna frágil tudo o que tocae porque eu mesma não evitei quetocasse meu corpomeus ossosminha respiraçãomeu sonopor isso temo por mim –pelo risco de desabar a umtremor de pálpebras
um anjo, no quarto antigo –desenhava a luz entrando da rua de tal modoarranjava-a desde a inclinação do postee a travessia pela janelae conduzia o pouso no meurosto cindindo-o em dois com tal zeloque toda vez minha boca foi guardada à sombra
as poetas da minha vida. as costureiras com quem vivi. nas duas visões, mãos silentes, dorsos de ladra.a manhã no papel, no musseline —e no meio as pontas da mulher muda vagueando mãos, cumprindo-se inteira em equilibrar na boca crispada uma agulha levíssima
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MANHÃS EM SÃO PEDRO DA ALDEIAPássaros cantam quando acordo.Não por mim, certamente,nem para anunciar a alvoradabaixando sobre o azul da Lagoa;nem para a chuva ou o Sol,nem para o vento nas flores do Sudoeste.Cantam pelo hábito da oração,por ofício – assim como os poetas.Por isso, mesmo nos acordes monótonos dos dias,entoando a mesma melodia de alegria,eles cantam
DO TEMPO QUE SE PASSOU NO FUTUROTenho saudade do futuro que foi ontem:do sorriso de minha mãe brincandoem seu carnaval de sonhos;do cantar de meu paibailando a tragédia dos tangos;da beleza das irmãspenteando filhos e espantos;do grande amor que morreuquando tudo era só encanto.Tenho saudade do futuro que mora comigoindelével e estranhamente vivo.
CRIATURAQuem está dentro de mim?Quem, o outro,batendo portas,abrindo janelas,costurando sonhos,enquanto penso ou durmo?Há alguém me descosendo,querendo sair,pular para fora.Quem é ele?Quem, o desconhecidosem nometentando me acordar?
CONSUMOUsar uma roupa novanão é só o mero ato de vesti-la.É uma pele sobre a outra pele.O entendimento das texturas,a tessitura da nudez leve e macia,quase sensual, quase fogo.Cada movimento do tecido sobre o corpoé como a água limpa sobre um rio desgastado.As peles se aprendem, se deslizam, se enlaçam,-- pernas, braços, peitos, coxas, sexos --e se renovam.Feito amantes reconhecendo suas partes.Feito santos vestindo seus pecados.
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EXPERIÊNCIATão minério o amortão funda a minaque o funda.Tão mineiro o amorquieto, granada mansaao adormecer.E saímos com os bolsos cheiosde perdaspreciosas.
BOLHA DE SABÃOA bolha de sabão é um pequeno planetamuito delicado. Não o invada.Vejo que os continentesnão vão durar muito. O mesmo se dácom os mares finíssimos.Sua atmosfera de roupa lavadatem um clima instável ao tato.Talvez a população da bolha sequer se movaem ondas migratórias, ou o pequenoplaneta, ploft, teria drasticamentefinda a sua geologiaetérea.Um deus criou este mundo num sopro.Já começou outro.
ARTESANATOPrecisa elidir o pássaroretirar-lhe as víscerassugar o que resta de céu.Com fúria de artesãoe um bisturi finíssimoesculpir o canto só osso.O que sobrar é a flauta.
CINEMA, OU UMA HISTÓRIA ALTERNATIVA DO AMORNão fomos ao cinemapara provar que o amor é uma sala escuraa idéia era ver o filme apesar de nóse não contrapor cada fotograma da vida realpara que a exibição fizesse sentidoe daí que fez aquele silêncio universale a luz explodiu – e outros, do outro ladoda sala, viveram o que queríamosembora numa velocidade que só fazia sentido alientre quatro paredes e um amor suspensocomo um vampiro tirando uma folgada luz.