quarta-feira, 28 de outubro de 2026

5259) Mais Herodes do que Herodes (28.10.2026)



Todo mundo lembra do nome de Herodes por causa do famoso episódio bíblico da “Matança dos Inocentes”. Herodes foi rei da Judéia, preposto do Império Romano, e quando Jesus nasceu ele ficou sabendo do boato de que o Messias dos judeus havia nascido. Sem ter como saber onde, ou filho de quem, ele mandou matar todos os recém-nascidos da região em torno de Belém. 
 
Spoiler: Jesus escapou. 
 
A newsletter A Word A Day, que assino há muitos anos, e aconselho com entusiasmo (é gratuita: https://wordsmith.org/ ), trouxe hoje um verbete sobre esse transtornado vilão da Antiguidade, em torno de quem ocorrem algumas curiosidades linguísticas. 


Pela descrição do mestre Anu Garg (que dirige a AWAD), Herodes era um paranóico.  Tinha medo de todo mundo que pudesse arrancar o poder de suas mãos.  Mandou matar sua esposa favorita, Mariamne, e três dos seus filhos. Como eram ferozes as disputas políticas da Antiguidade! 
 
Conta-se que o imperador romano Augusto fazia com ele um trocadilho maldoso: “Lá na casa de Herodes, ser um porco é mais seguro do que ser filho dele.”  O trocadilho se baseia no fato de que Herodes professava a fé judaica (que proíbe carne de porco), e que em grego antigo “porco” é huis, e “filho” é huios. 
 
(Digressão: há muitos soberanos com este nome; este a que me refiro, “Herodes o Grande”, não deve ser confundido, por exemplo, com seu filho “Herodes Antipas”, personagem da história da dança de Salomé e da cabeça de São João Batista.) 
 
A Matança dos Inocentes, pelo que diz a newsletter, é um episódio mencionado no Evangelho Segundo São Mateus, mas que não tem (ao contrário de muitos episódios bíblicos) confirmação histórica independente. 
 
Seja histórico, seja simbólico, o episódio ficou incrustado na nossa memória cultural. Nove entre dez pessoas, ouvindo o nome desse potentado, pensarão: “Ah, sim, Herodes, o rei que mandou matar os bebês”. 


(Estátua de Harry Potter, em Leicester Square)

 
AWAD cita, usando o adjetivo correspondente, um comentário sobre a série Harry Potter:
 
Quando recém-nascido, Harry sobreviveu ao ataque herodiano de Voldemort, para tornar-se depois “o escolhido”. (Bill Wylie-Kelermann, trad. BT)
 
Ele lembra também que o adjetivo (em inglês pelo menos; não lembro desse uso em nossa língua) também significa ”pomposo, pretensioso, bombástico”, em alusão ao modo como o personagem Herodes se comportava nos dramas religiosos medievais. 
 
E dá como exemplo essa descrição de um personagem antipático: 
 
“Ele não passa de um estuprador-em-grupo arrotando sua auto-importância, e com uma insistência herodiana em dizer que ninguém é mais importante do que ele.” (Daily News, Los Angeles, 12-1-1997)
 
A língua inglesa usou este nome para criar um verbo de difícil tradução, e muito expressivo: “out-herod”, que significa ir além de Herodes, ultrapassar Herodes em matéria de crueldade. 
 
AWAD cita este exemplo de S. Nassir Ghaemi, em Perspectives in Biology and Medicine (2013): 
 
Os danos diretos infligidos por nós, médicos praticantes, que vemos os pacientes principalmente como uma fonte de lucro, ocorrem numa escala que suplanta Herodes em relação aos danos provocados pela indústria farmacêutica.


(Hamlet)

 
Este verbo, out-herod, foi tornado famoso por Shakespeare no Hamlet (Ato III, cena 2), e não se refere originalmente à crueldade, e sim ao histrionismo teatral. 
 
É a cena em que Hamlet contrata uma trupe de atores itinerantes para encenar diante do Rei Cláudio uma peça onde um rei é morto pelo irmão, e com isto provocar-lhe incômodo e fazer com que ele se traia. 
 
Hamlet, como bom diretor, dá instruções aos atores, pedindo-lhes que evitem o tom caricatural e farsesco que provavelmente estava na moda: 
 
Ah, me incomoda até a alma ficar ouvindo um brutamontes de peruca rasgar uma paixão em trapos, em farrapos, e estourar os tímpanos da fila do gargarejo, que na verdade só consegue entender pantomimas e estardalhaço; eu baixaria a chibata no lombo desses camaradas que exageram no papel de Termagante e que herodiam mais do que Herodes... pelas caridade, não façam uma coisa dessa. 
(trad. BT) 
 
Digressão: isto aí em cima é o que chamam de “tradução livre”, ou seja, uma coisa pra quebrar o galho do momento, mas que eu não apresentaria profissionalmente a um editor, para não ter que soprar no bafômetro. Fim da digressão. 
 
O importante a destacar é que quando Hamlet se refere a “herodiar mais do que Herodes”, na verdade não está se referindo à suposta crueldade do autor da Matança dos Inocentes, e sim ao histrionismo espalhafatoso dos atores populares que o interpretavam. 
 
(E me atrevo a dizer: não os que o interpretavam na época do príncipe Hamlet na Dinamarca, mas talvez os que o interpretassem na época do dramaturgo Shakespeare em Londres.  Será?) 
 
Em suma: o verbo está bem ilustrado nessa fala metalinguística onde um personagem de uma peça de teatro explica como não se deve encenar uma peça de teatro. 


(Herodes, pintor anônimo ao estilo de Arcimboldo, séc. 17)

 
Voltando ao rei Herodes histórico: o seu rompante de mandar matar os bebês, na esperança de se livrar de um possível Messias, pode ter acontecido, sim, mas numa escala menos catastrófica do que imaginamos. A Wikipedia fala que na época do nascimento de Jesus a cidade de Belém era muito pequena e a matança não seria numericamente tão grande assim, e por isso não teria sido referida por historiadores romanos como Flávio Josefo. 
 
Verídica ou não, a história deu origem a uma expressão que já vi usada por aí: “a Solução Herodes”. É quando temos um problema e decidimos resolvê-lo de um modo, digamos, truculento. Acontece um crime. A polícia tem cinco suspeitos, e prende todos os cinco, para ter certeza de que o criminoso não escapou. 
 
É o método que em computação chama-se de “força bruta”: testar (em alta velocidade) todas as alternativas possíveis até esbarrar na resposta correta, como quando é preciso adivinhar uma senha alfanumérica. Ou quando um computador está jogando xadrez e no espaço de alguns minutos tenta dezenas de milhões de possibilidades até escolher a melhor jogada. 


 
Na literatura, essa solução se relaciona com o famoso exemplo dos seis macacos com seis máquinas de escrever, que em um milhão de anos escreveria todos os livros da Biblioteca Nacional. Os termos variam muito, o que conta é a idéia: com tempo suficiente para testar todas as soluções possíveis, seria possível chegar à resposta certa mesmo sem reconhecê-la ou entendê-la.  É mais ou menos isso que a Inteligência Artificial tenta fazer de forma mais otimizada, mais eficiente. 
 
Na minha antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges (Rio: Casa da Palavra, 2005), comentei esse aspecto relacionando-o com a obra do autor argentino: 
 
Borges diz em “O imortal” que Homero compôs a Odisséia, mas, postulando um prazo infinito, seria impossível alguém não compor a Odisséia.   O conto “A Biblioteca de Babel” é uma ampliação desta idéia: a biblioteca ilimitada cujos livros contêm todas as permutações possíveis de letras, depois de palavras, depois de frases, depois de parágrafos, até que, em algum ponto aleatório do edifício, seja possível encontrar qualquer livro real ou imaginado.   Como se um super-computador cósmico tivesse sido incumbido da missão de produzir obras literárias e só fosse capaz de fazê-lo usando a Solução Herodes. A análise combinatória é uma das fixações de Borges, e está presente também nos seus comentários sobre a Cabala e seus métodos de permutações verbais e numéricas sobre o texto das Escrituras Sagradas. 


 
 




quarta-feira, 21 de outubro de 2026

5258) Obrigado por sua ligação (21.10.2026)

 


Se você acredita num Deus imperfeito, hesitante e bem-intencionado, digite 1. 
 
Se você já subiu numa árvore para poder acompanhar por cima do muro  o desfile de um circo, digite 2. 
 
Se as Parcas são dezenove, digite 3. 
 
Se pelo menos uma vez você já adormeceu de mãos dadas com uma mulher e o coração em paz com o mundo, digite 4. 
 
Se é verdade que existem metáforas, digite 5. 
 
Se ao dirigir um automóvel você o sente como coisa viva, como sente um cavalo, digite 6. 
 
Se existem mais de vinte e nove sinônimos para a palavra “mal-me-quer”, digite 7. 
 
Se você não consegue esquecer daquilo, mas por outro lado tem certeza que ninguém ficou sabendo, digite 8. 
 
Se na cidade de Brisbane (Austrália) existe uma banca de revistas cujo dono é brasileiro e capricorniano, digite 9. 
 
Se és capaz de manter a tua calma quado todo mundo em redor de ti já a perdeu e te culpa, digite 10. 
 
Se eu sou esse rosto na janela, digite 11. 
 
Se o choro de uma criança lhe provoca uma gargalhada, digite 12. 
 
Se for um absurdo a pessoa se matar de trabalhar em troca do direito de se matar de trabalhar, digite 13. 
 
Se você conhece alguém que já ofereceu a outra face, digite 14. 
 
Se você disser que eu desafino “amor”, digite 15. 
 
Se dois números inteiros quaisquer podem ser os pontos extremos de mais de uma progressão aritmética, digite 16. 
 
Se a sopa está cheia de parafusos mas, tirando isso, é saborosa e está bem temperada, digite 17. 
 
Se for possível levantar da cama para as tarefas do dia, mas continuar sonhando, digite 18. 
 
Se alguém já tocou trompete diante das Pirâmides, digite 19. 
 
Se todas as estrelas estiverem se aproximando, digite 20. 
 
Se a palavra grega eureka puder ser traduzida pela palavra brasileira arrá, digite 21. 
 
 
 
 
 




quarta-feira, 14 de outubro de 2026

5257) A arte de improvisar (14.10.2026)



Não vou falar aqui do improviso musical.  É uma forma de arte a que não tenho acesso a não ser como ouvinte embasbacado diante dos floreios e piruetas melódicas de Charlie Parker ou Stéphane Grappelli ou Oscar Peterson. 
 
Não que o jazz monopolize a arte do improviso, e aqui estão nossos grande melodistas-da-surpresa como Dominguinhos, ou Hamilton de Holanda, ou Yamandu Costa, e mais mil-e-um e lá-vai-fumaça. 


(Grappelli e Holanda)

 
O improviso verbal é o que me atrai. A palavra é meu território natal, é meu DNA, é algo que sinto tão próximo de mim que não consigo enxergar por completo, assim como nenhum de nós consegue enxergar o próprio rosto. (Cuidado, os espelhos enganam.) 
 
Sou capaz de resgatar da minha memória meus recuos receosos durante a infância, escutando o programa “Retalhos do Sertão” da Rádio Borborema, com dez ou onze anos de idade. 
 
Um locutor com voz de barítono encorpado dizia: 
 
-- E agora, vamos trazer de volta nossa dupla titular do programa: José Gonçalves e Cícero Bernardo. Eles vão glosar o mote enviado por dona Chiquinha Neves, do sítio Quixaba, em Juazeirinho. O mote diz: “Não tem sol pra secar o oceano, nem despeito que acabe o nosso amor”. 
 
E os violeiros começavam a cantar suas estrofes, desenvolvendo esse tema e terminando todas as estrofes com os versos dados. 
 
Eu perguntava a minha mãe: 
 
-- Isso é feito na hora mesmo, ou é combinado antes? 
 
Dona Cleuza respondia: 
  
-- É feito na hora. Se não, que graça tinha? 
 
Eu ia perguntar a meu pai. 
 
-- Como é que eles conseguem inventar um verso inteiro, na hora, em-cima-da-bucha? 
 
Seu Nilo gostava de ser perguntado. Botava uma pose de nonchalance, como quem diz “mas você está se preocupando com uma coisa tão simples?...”. 


-- Eles treinam muito – dizia. – Qualquer coisa que você treina fica ligada o tempo todo na sua cabeça. Pegue o exemplo dos trocadilhos. Emílio de Menezes vinha num bonde, quando duas senhoras, tão gordas quanto ele, sentaram-se, e o banco cedeu, derrubando as duas. Ele murmurou para o amigo que ia ao lado: “Primeira vez que vejo um banco quebrar por excesso de fundos”.
 
-- Tudo bem. – Eu não me dava por achado. – Improvisar piada é fácil. Mas um verso inteiro? Rimado e metrificado?
 
-- Treino – dizia ele. – Se você treinar soneto, consegue improvisar um soneto em alguns minutos. O mesmo Emílio viu uma vez a demolição de uma catedral, no Rio de Janeiro, puxou o amigo para uma mesa de café, pegou lápis e papel e improvisou o soneto famoso: “Vetusta catedral que ao tempo te esborcinas...”
 
-- E quanto tempo ele levou? – Eu sempre gostei de especificações técnicas.
 
-- Não sei. Um soneto? Pode botar aí dez ou quinze minutos.
 
-- Isso tudo?!  Se for isso tudo eu também consigo!...
 
-- Está vendo como é fácil?
 
Não é fácil, não é simples, mas Seu Nilo tinha razão. Vi-o improvisar sonetos, assim, inúmeras vezes. Treino é treino e jogo é jogo, mas a vida futura iria me ensinar que não existe treino mais útil do que jogo jogado. Não existe preparação melhor do que o “tá valendo”. 
 
E é o que os cantadores de viola fazem o tempo inteiro, calados, pensativos. Por baixo desse silêncio escorre um rio subterrâneo de quase-versos, versos quebrados, experimentados, deixados incompletos, rimas se encadeando num fluxo-de-consciência sempre ligeiramente abaixo da superfície da mente pública. 
 
Na hora de produzir verso-de-verdade a coisa flui, porque, mesmo que não tenha nada pronto, tem na memória um milhão de coisas com meio-caminho-andado. 
 
Como o próprio Emilio de Menezes dizia, em seu célebre soneto homenageando o amigo Olavo Bilac: 
 
Corre, sobre o papel, a tinta, como um rio
a correr na caudal que o declive acelera!
Os vocábulos vêm, espontâneos, a fio...
 
O pessoal do hip-hop, aliás, não faz algo muito diferente. Seu verso preferencial é o mesmo verso de 7 sílabas dos cantadores e dos cordelistas, o famoso verso da cadência “batatinha quando nasce”, e que eu prefiro chamar de “maracá, maracatu / maracatu, maracá”.  
 
O improviso do hip-hop, no entanto, é em cima de uma forma livre, maleável. Essa forma pode ser alterada o tempo todo, e na verdade pede para ser alterada o tempo todo, mediante quebras ou sobras, mediante síncopes ou epènteses, mediante um esticamento de vogaaaaais para preencher meio compasso, ou mediante um atravancamento de sílabas pra arrumar frase comprida em verso estreito, como quem arruma um show de rock numa van. 
 
Teoricamente, é mais fácil improvisar assim, sem aquela rigidez calvinista da Cantoria e do Cordel, cuja beleza é a ambição da regularidade absoluta. 


(RAPadura Xique-Chico)

 
O Hip-hop é uma criação de formas à la Gaudí, cheias de distorções, surpresas e caos sob controle. Já a Cantoria de Viola procura ser uma catedral gótica, feita de simetrias e exatidões.
 
Um rapper vai soltando os versos do jeito que lhe vêm:
 
Parece que é muito fácil
é assim como um palácio
parece que nasceu pronto
mas olha aqui eu não te conto
noite que fico acordado
de olho arregalado
parece que estou parado
com a cabeça em movimento,
eu tento
eu me sento
eu me deito
eu volto para o leito
e o verso não sai perfeito
sai assim meio reto, meio torto,
parecido com meu corpo
parecido a minha cara
meu rosto de pau-de-arara
penei mas aqui cheguei
sofri mas improvisei
o verso é bom? Eu não sei
só vai saber quem escuta
qualquer um filho----
 
E por aí vai. Cinco minutos? Moleza, deixa-solto e deixa comigo. 
 
Acho que cabe também um mínimo de definição teórica, para que a gente não se perca no juncal do euachismo. Proponho, por enquanto: 
 
Improvisar não é criar “do zero”, é produzir um resultado aceitável no menor tempo disponível, obedecendo regras mutuamente aceitas. 
 
O tempo requerido ao violeiro numa cantoria de pé-de-parede ou num festival é de alguns segundos, ou de um ou dois minutos no máximo, esticando a corda.


O tempo requerido ao cordelista diante de um fato para ser transformado em folheto é de poucos dias, às vezes de apenas algumas horas. Morte de celebridade, resultado do futebol ou da eleição, catástrofe: ele tem que ficar sabendo, entender, escrever, imprimir e vender em tempo recorde. 
 
E a canção popular?  E o samba, o bolero, o rock, o xote, o baião?  Quando se pode dizer que uma música foi “improvisada”, em vez de ser burilada e aperfeiçoada durante semanas ou meses ou anos? 
 
Canções populares muitas vezes são “improvisadas” em mesa de bar, compostas em voz alta, batucando com as mãos no tampo da mesa, anotando a letra num guardanapo. Isso é improviso? Sim, mas um improviso sem regras, a música pode ficar pronta em quinze minutos ou em duas horas. Não se trata de um ritual, ninguém deve satisfação a ninguém. 
 
É inesgotável o repertório de canções populares que surgiram de um jato, em minutos ou horas, apenas porque os compositores captaram uma idéia boa que passou voando, e conseguiram dar-lhe forma na voz e no papel. 


(Dylan e Baez)
 
Joan Baez conta de sua estupefação quando ela e Bob Dylan, namoradinhos, tiveram dificuldades para serem aceitos num hotel, por causa do cabelo e da roupa dele. 
 
Em poucas horas, Dylan rabiscou furioso sua canção clássica, “When the Ship Comes In”, seu protesto contra os caretas, os puritanos, os filisteus, que serão exterminados “quando o navio chegar”. 
 
Oh the time will come up
when the winds will stop
and the breeze will cease to be breathin’…
Like the stillness in the wind
‘fore the hurricane begins
the hour when the ship comes in.
 
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=5c9_XkYYjTU&list=RD5c9_XkYYjTU&start_radio=1
 
Improviso? Talvez, com certa boa vontade, porque deve ter sido mesmo uma resposta imediata a uma raiva muito grande. A poesia deve muito à raiva, à raiva por uma causa nobre. 
 
Improviso é, como falei acima, uma relação de tempo entre um possível estímulo exterior e a canção inteira, finalizada. Como diz o mestre Zé de Cazuza, a grande maioria dos versos escritos são improvisados, só que o sujeito está escrevendo em casa, sem pressa, sem pressão, pode demorar o tempo que quiser, pode voltar atrás para refazer, etc. 
 
O improviso de verdade é o que não tem muito direito a esses luxos. É pensar e dizer, em cima da bucha. 
 
Todos nós, compositores de música popular, devemos ensinamentos a duas dinastias. 
 

(Paulo César Pinheiro)

 
Primeiro, a dinastia dos Perfeccionistas, dos que ficam esgaravatando sílabas e acordes “em busca da batida perfeita”, em busca do verso irretocável... O verso de Chico Buarque, de Vinicius de Morais, de Paulo César Pinheiro, o verso inatacável, aparentemente simples e claro como um cristal, mas, também como um cristal, forjado em altas temperaturas, até se tornar invisível, como tudo que atinge a perfeição. 
 
É a escola de Dorival Caymmi e seus vinte anos para dar uma valsa por terminada. Ou Leonard Cohen e seus dois anos para finalizar “Hallellujah”. 
 
E tem também a dinastia dos Instintivos. São os que jogam a canção no papel do jeito que ela vem, com placenta e tudo, e logo vão cuidar de alguma outra coisa. Quantos sambas não terá inventado Noel Rosa nas mesas da Lapa, fazendo quadras em voz alta e contando com o lápis-e-papel dos amigos para engaiolar os versos? 
 
Quantos poemas-boleros não terá feito assim um Aldir Blanc, ele também capaz de artesanatos, quando necessário, mas também vulnerável à influência dos duendes etílicos, os tais que exigem da canção um irrecusável agora-ou-nunca? É o mesmo espírito de um John Lennon olhando um cartaz de circo na parede e extraindo dele o seu “Mr. Kite”.  
 
A criação poética é feita de fagulhas rápidas, instantâneas, produzidas pelo atrito entre a memória e a imaginação, impelidas pela necessidade imperiosa de criar algo. 
 
Na Cantoria de Viola, espera-se que o verso apareça em alguns segundos. As sextilhas são alternadas. Depois que “João” canta seu verso, “José” não tem escolha senão cantar o seu, por pior que seja, por mais incompleto que esteja. 
 
Nada aumenta tanto a necessidade de dizer alguma coisa quanto a presença de uma platéia cheia de expectativa, como acontece na Cantoria de Viola. O sujeito ou cria alguma coisa ou cai ciscando. 



(foto de Roberto Coura: José Gonçalves e Ivanildo Vila Nova)
 
 
 
 



terça-feira, 6 de outubro de 2026

5256) A paz do aconchego (6.10.2026)



(foto: 
Breno César)

 
Muitos anos atrás, eu estava viajando pelo Sertão e fiquei hospedado por alguns dias na casa de uma família, na zona rural, um ambiente acolhedor mas um tanto precário. Tinha um quarto de hóspedes, pequeno, agradável, onde eu dormiria super bem – se não fosse a luz do corredor que ficava acesa e vazava para dentro, por cima da bandeira da porta. 
 
Falei com o dono da casa, ele pediu desculpas. 
 
-- Eu só gosto de dormir com uma luz acesa dentro de casa – explicou. – Porque durante a noite eu acordo e vejo que não faltou energia, aí pego no sono sossegado. 
 
Ele tinha razão. Durante o tempo que passei lá, faltou luz todos os dias. Quando ele abria um olho de madrugada e via a luz acesa, isso dava segurança. Era a garantia de que a geladeira estava funcionando, que a carne do freezer não ia estragar, e que no café da manhã o rádio estaria ligado no programa dos cantadores. 
 
O aconchego-bom na vida da gente não é apenas o ambiente familiar, conhecido, a presença de pessoas queridas. É também aquela sensação indefinível de normalidade, de que “tudo está no seu lugar, graças a Deus”, como cantarolava o sumido Benito de Paula. 
 
Todo mundo precisa dessa sensação. Tem gente, por exemplo, que adora os barulhos da Natureza: os grilos noturnos, o farfalhar do vento nas árvores, o pio da coruja. Eu morro de medo dessas coisas. A Natureza é, pra mim, um ambiente hostil e desconfiado. Tranquilidade pra mim é dormir escutando barulho de motor de carro, TV ligada no prédio vizinho, notívagos conversando na calçada. 
 
Tem gente que adora ter televisão no quarto, e dormir com a televisão ligada. Eu não chego a esse ponto (lugar de TV é na sala), mas entendo. Rola uma musiquinha, rola uma propaganda, gente falando, locutor... Até filme de terror. A gente ouve aquela música arrepiante, aquela voz cavernosa, mas sem nem abrir os olhos a gente pensa: “ah, é um filme véi” – e dorme de novo, feliz de estar na vida real. 
 
A gente conta com essas coisas. São um dado obrigatório da vida urbana, mas a gente esquece que há uma estrutura civilizatória imensa, no valor de bilhões de reais, dedicada a colocar água na nossa torneira, luz na nossa lâmpada, luzinha piscando na nossa internet. 
 
Quer tirar o chão de uma população urbana? Cancele essas três coisas durante sete dias, e você vai ver o efeito das sete pragas do Egito. 
 
O Apocalipse não precisa ser um meteoro nem uma invasão alienígena, basta um colapso tecnológico. 
 
Eu estava aqui anotando trechos de Jorge Luís Borges para um curso online que vou ministrar na “Escrevedeira” a partir do próximo dia 13. Veja aqui:  https://escrevedeira.com.br/curso/borges-e-as-possibilidades-do-livro-impossivel/).



Em A Cifra (1981), o poema “Ronda” celebra essa cidade da Andaluzia, que fez parte dos antigos domínios árabes na Península Ibérica, um tema que sempre me fascinou. E a certa altura Borges diz: 
 
(...) um côncavo silêncio de pátios, 
um ócio do jasmim 
e um tênue rumor de água, que conjurava 
memórias de desertos.  
(trad. Josely Vianna Baptista)
 
É uma imagem poética das mais discretas, mas para um leitor borgiano é das mais eficazes. É uma imagem auditiva. Eu uso a palavra “imagem” num sentido mais amplo do que o da imagem apenas visual. Na literatura, usamos a palavra para produzir também imagens auditivas, táteis, olfativas, etc. 
 
Quando Borges descreve assim esse ambiente moçárabe, não abre mão das impressões visuais que ele sabe fazerem parte do vocabulário coletivo. Acontece que para ele, que estava cego, o cheiro do jasmim e o marulho da água são igualmente pungentes, ou até mais. 
 
Marulho de água tem um significado diferente para quem é árabe ou sertanejo. Um urbanóide geralmente passa batido. Ruído de água passando é algo que tranquiliza, garante. 


 
Fico imaginando a angústia do Manuelzão de Guimarães Rosa (“Uma Estória de Amor / A Festa de Manuelzão”, em Corpo de Baile) quando sentiu falta da água do riachinho. 
 
É um dos detalhes importantes desse conto tão cheio de pepitas de ouro. Porque Manuelzão, ao se instalar na fazenda Samarra, constrói sua casa, “graúda, com muitos cômodos de chão batido, e só um quarto de assoalho”, no patamar de uma elevação de onde escorre um riachinho convidativo, “um fluviol, cocegueando de pressas”. 
 
Dava alegria, a gente ver o regato botar espuma e oferecer suas claras friagens, e a gente pensar no que era o valor daquilo. 
 
A casa é construída, a vida avança, mas... 
 
Porém, estrito ao cabo de um ano de lá se estar, e quando menos esperassem, o riachinho cessou. Foi no meio duma noite, indo para a madrugada, todos estavam dormindo. Mas cada um sentiu, de repente, no coração, o estalo do silenciozinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulhinho. 
 
Um silêncio que equivale a uma falta de ar, não é mesmo? Porque desse dia em diante, secada a fonte, Manuelzão precisa mandar todo dia um carreiro descer a encosta e trazer latões cheios para o uso da casa; e o riachinho fica seco pro resto da vida. 
 
Todo mundo precisa se cercar de normalidades. Mais do que de confortos. Os confortos até fazem falta quando desaparecem, mas a gente dá de ombros e toca o barco. O que não pode faltar é esse conjunto de coisinhas que nos garantem uma provisória paz. 



(Averróis)
 
O próprio Borges, muitos anos antes, já empregara uma imagem equivalente, no conto “A Busca de Averróis” (em O Aleph, trad. Flávio José Cardozo), ao descrever o dia-a-dia do grande pensador espanhol-muçulmano. 
 
No fundo da sesta arrulhavam amorosas pombas; de algum pátio invisível se elevava o rumor duma fonte; algo na carne de Averróis, cujos antepassados procediam dos desertos árabes, agradecia a constância da água. 
 
Agradecemos a constância dos pequenos confortos da civilização, a constância das coisas que nos prometem normalidade.  Na verdade, há quem brigue por elas, quem pegue em armas por elas, quem faça qualquer tipo de concessão desde que não se veja privado delas. 





 
 







quarta-feira, 30 de setembro de 2026

5255) Três poetas (30.9.2026)



Faz um tempo que não comento aqui a poesia dos amigos, mas não por desinteresse ou por falta de material. Escrever estes artigos é andar de moto, e falar de poesia é um passeio a pé. Louis Pauwels e Jacques Bergier, em O Despertar dos Mágicos, comparam a Alquimia à jardinagem... e a poesia corre nessa mesma raia. Coisas da modernidade. 
 
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Noite devorada
Mar Becker
(São Paulo: Círculo de Poemas, 2025)
 
Conheci a poesia de Mar Becker no Facebook, e a acompanho há vários anos. Ela adotou o sistema de colocar os poemas na rede num espírito de work in progress, com versões sucessivas dos mesmos versos, com dias ou semanas de intervalo. Isso nos dá uma sensação permanente de suspensão, de expectativa, como ao ver a foto de um nadador pulando do trampolim. 
 
talvez esta escrita e a água sejam irmãs. ambas mal suportam o toque. ambas se devolvem aos olhos pela marca da finitude (do que desaparece quando tocado bruscamente, e portanto pede mãos breves, que alcancem de dizer certo ponto de estremecimento, nem mais nem menos) esse parentesco entre água e vocabulário, o afeiçoar-se dos dois é a mesma ocasião de tremor, é isso o que eles parecem confessar:
“aqui apenas o rastro sobrevive” 
 
Esse estilo de “prosa poética”, nivelado em minúsculas, sem separação em estrofes, é o mais frequente: parágrafos que compõem um bloco inteiriço, num discurso com a aparência inicial de um relato ou comentário prosaico, mas engastado de surpresas poética de ponta a ponta. O susto poético, o que eu chamo de susto-de-novidade, está presente no inesperado das imagens e na precisão dos vocábulos-chave que emergem dessa prosa como a barbatana do tubarão emerge da água. 
 
porque o amor torna frágil tudo o que toca
e porque eu mesma não evitei que
tocasse meu corpo
meus ossos
minha respiração
meu sono
por isso temo por mim –
pelo risco de desabar a um
tremor de pálpebras
 
São imagens que espiralam numa temática de impermanência, de matéria rarefeita, e por isso sugerem talvez o rótulo de poesia feminina, poesia da sensibilidade. Não fosse essa sensibilidade mantida sob controle com as rédeas de um estatuto verbal de precisão uniforme, uma precisão longamente lapidada. 
 
um anjo, no quarto antigo –
desenhava a luz entrando da rua de tal modo
arranjava-a desde a inclinação do poste
e a travessia pela janela
e conduzia o pouso no meu
rosto cindindo-o em dois com tal zelo
que toda vez minha boca foi guardada à sombra 
 
Imagens do mundo feminino (ou pelo menos de polaróides súbitas de um mundo que mulheres povoam) criam esses fragmentos de narrativas. Parecem trechos disjuntos, colados uns aos outros, de filmes mudos onde vemos tudo mas temos de adivinhar todo o resto.  
 
as poetas da minha vida.  as costureiras com quem vivi. nas duas visões, mãos silentes, dorsos de ladra.
a manhã no papel, no musseline —
e no meio as pontas da mulher muda vagueando mãos, cumprindo-se inteira em equilibrar na boca crispada uma agulha levíssima 
 
 
 
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Absurdo coração
Tanussi Cardoso
(São Paulo: Patuá, 2026)
 
Destes três poetas, Tanussi é o que conheci e acompanho há mais tempo, porque se a “poesia independente” era de fato um carnaval fora de época, brincamos juntos em várias troças e blocos-de-bater-lata. Do Movimento de Arte Pornô aos recitais na Cinelândia, nos pilotis da PUC ou no Posto 9 em frente ao Sol Ipanema. Lá vem o bloco. Já passou. 
 
Era uma poesia hedonista, a daquela época, poesia cheia de bandeiras anárquicas e de provocações juvenis. Éramos chamados “poetas marginais”, o que para uma parte da imprensa era sinônimo de “poetas assaltantes, assassinos”. Nada mais equivocado: a poesia feita ali era uma poesia paz-e-amor, um happening cheio de bom-humor hippie.
 
MANHÃS EM SÃO PEDRO DA ALDEIA
 
Pássaros cantam quando acordo.
Não por mim, certamente,
nem para anunciar a alvorada
baixando sobre o azul da Lagoa;
nem para a chuva ou o Sol,
nem para o vento nas flores do Sudoeste.
Cantam pelo hábito da oração,
por ofício – assim como os poetas.
Por isso, mesmo nos acordes monótonos dos dias,
entoando a mesma melodia de alegria,
eles cantam 
 
Tenho computado, no que eu escrevo e no que escrevem meus companheiros de geração, a frequência do tema da velhice, da ausência dos que se foram, da aceitação da passagem do tempo. Pois é.  A vida nos dá os motes e a gente glosa. Para isto viemos. 
 
DO TEMPO QUE SE PASSOU NO FUTURO
 
Tenho saudade do futuro que foi ontem:
do sorriso de minha mãe brincando
em seu carnaval de sonhos;
do cantar de meu pai
bailando a tragédia dos tangos;
da beleza das irmãs
penteando filhos e espantos;
do grande amor que morreu
quando tudo era só encanto.
Tenho saudade do futuro que mora comigo
indelével e estranhamente vivo. 

A poesia como interrogação. A busca, tão paciente quanto impaciente, do significado disto tudo, talvez não uma resposta para todos os problemas, mas um idioma em que possamos formular melhor as perguntas. Porque sem elas talvez ninguém sequer percebesse que o mundo está nos percebendo. 
 
CRIATURA
 
Quem está dentro de mim?
Quem, o outro,
batendo portas,
abrindo janelas,
costurando sonhos,
enquanto penso ou durmo?
Há alguém me descosendo,
querendo sair,
pular para fora.
Quem é ele?
Quem, o desconhecido
sem nome
tentando me acordar? 
 
Saudades, ausências, partidas, o Rio parece cada vez mais populoso e mais vazio, cada vez mais barulhento e sem música. E mesmo assim enquanto poetas tiverem corpo ninguém poderá lhes tirar o prazer de um copo dágua, de uma sombra no verão, de um sol no inverno. E a revelação permanente da presença física do mundo. 
 
CONSUMO
 
Usar uma roupa nova
não é só o mero ato de vesti-la.
É uma pele sobre a outra pele.
O entendimento das texturas,
a tessitura da nudez leve e macia,
quase sensual, quase fogo.
Cada movimento do tecido sobre o corpo
é como a água limpa sobre um rio desgastado.
As peles se aprendem, se deslizam, se enlaçam,
-- pernas, braços, peitos, coxas, sexos -- 
e se renovam.
Feito amantes reconhecendo suas partes.
Feito santos vestindo seus pecados. 
 
 
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Mudar é um enigma só para plantas (trinta anos de poesia)
André Ricardo Aguiar
(Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2025)
 
Este livro é uma dessas benditas coletâneas que os poetas fazem às vezes, no estilo de “The Best of...” ou “Greatest Hits” ou “Nova Antologia Pessoal”. Me deu a chance de reencontrar poemas de André que eu julgava esquecidos, e de conhecer material de algum livro anterior que me passou em branco. 
 
André é um curtidor das formas curtas; o conto, a crônica, o poema vapt-vupt. Nenhuma experiência humana consegue escapar a essas pequenas iluminações capazes de recortá-la num segundo e segurá-la viva para sempre na memória. 
 
EXPERIÊNCIA
 
Tão minério o amor
tão funda a mina
que o funda.
Tão mineiro o amor
quieto, granada mansa
ao adormecer.
E saímos com os bolsos cheios
de perdas
preciosas. 
 
Ninguém subestime a imaginação visual dos falsos desatentos, dos distraídos no mundo da lua, dos que para nos verem melhor olham em outra direção. Eles passam pelas paredes transparentes do mundo como os gatos (esses inevitáveis gatos) atravessam com soberania seus túneis de invisibilidade. 
 
BOLHA DE SABÃO
 
A bolha de sabão é um pequeno planeta
muito delicado. Não o invada.
Vejo que os continentes
não vão durar muito. O mesmo se dá
com os mares finíssimos.
Sua atmosfera de roupa lavada
tem um clima instável ao tato.
Talvez a população da bolha sequer se mova
em ondas migratórias, ou o pequeno
planeta, ploft, teria drasticamente
finda a sua geologia
etérea.
Um deus criou este mundo num sopro. 
Já começou outro.
 
Eu discuto às vezes com os amigos essa nossa fixação-científica de estar sempre questionando “o fazer literário”. Quando me reclamam isto, penso que somos como aqueles pintores antigos que faziam dezenas de auto-retratos. Não é por interesse em nós mesmos, é a ansiedade de saber o que viemos fazer aqui. E então sentamos, e fazemos de novo. 
 
ARTESANATO
 
Precisa elidir o pássaro
retirar-lhe as vísceras
sugar o que resta de céu.
Com fúria de artesão
e um bisturi finíssimo
esculpir o canto só osso.
O que sobrar é a flauta. 
 
Já os cinéfilos são uma seita sorrateira e mansa, uma gente sem pecado cujo maior prazer é ver o sol nascer retangular, é escutar o tremido prazeroso da fita de celulóide vibrando nas engrenagens do projetor, e saber que se aquele milagre mecânico é possível então nada mais deve parecer inalcançável. 
 
CINEMA, OU UMA HISTÓRIA ALTERNATIVA DO AMOR
 
Não fomos ao cinema
para provar que o amor é uma sala escura
a idéia era ver o filme apesar de nós
e não contrapor cada fotograma da vida real
para que a exibição fizesse sentido
e daí que fez aquele silêncio universal
e a luz explodiu – e outros, do outro lado
da sala, viveram o que queríamos
embora numa velocidade que só fazia sentido ali
entre quatro paredes e um amor suspenso
como um vampiro tirando uma folga
da luz.
 
Não só alquimia, não só jardinagem: a poesia se parece com a culinária, uma arte delicada e distraída, tanto esforço para produzir algo que será destruído daqui a alguns minutos. E para isto viemos.