quarta-feira, 19 de agosto de 2026

5249) "Backrooms" e os espaços liminares (19.8.2026)



 
A mitologia dos espaços liminares está se propagando com rapidez. Ela envolve a noção do ambiente fantástico em si, e de uma estranheza que não brota da presença de monstros, nem de seres sobrenaturais, mas da própria natureza do espaço em que transcorre a ação.  
 
O espaço liminar nos produz a impressão contraditória de ser um espaço humano e ao mesmo tempo não-humano, um espaço que à primeira vista parece banal e cotidiano, mas à segunda vista passa uma impressão de uma estranha morbidez, de algo “que não está certo”. 
 
A Internet e seus grupos de malucos obsessivos contribuiu muito para isto através do meme do “Yellow Room”, sobre o qual já falei aqui: 
 
“The Yellow Room”:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2024/06/5068-os-espacos-liminares-362024.html
 
O recente filme Backrooms (Kane Parsons, 2026) deu uma esquentada nesse tema, o que aliás o jovem diretor de 20 anos já vinha fazendo através de uma série homônima de vídeos no YouTube, cujo sucesso fez surgir uma produtora capaz de bancar um filme dirigido com bastante segurança, apesar de várias concessões ao cinema-clichê (falo disso mais adiante). 
 
O conceito de espaço liminar flutua muito próximo do conceito de “Uncanny Valley” – aquela imprecisa região mental em que um rosto ou vulto nos parece estranhamente humano e ao mesmo tempo não-humano. Ou quando, de acordo com a descrição de Sigmund Freud (The Uncanny, 1919), vemos um manequim ou estátua e pensamos tratar-se de uma pessoa, ou vemos uma pessoa que nos dá a sensação de um ser artificial. 
 
No filme, Clark (Chiwetel Ejiafor) é um arquiteto frustrado que virou dono de loja de móveis. Ele separou da mulher, e está fazendo terapia com a dra. Mary (Renate Reinsve), a qual também tem lá seus traumas mal resolvidos. Ele descobre na parede da loja uma passagem para um “espaço liminar” surrealista, aleatório, inexplicável. E ali dentro acontecem coisas estranhas. 



(The Yellow Room)
 
Kane Parsons baseia sua paleta de cores e o senso de desorientação espacial na foto famosa do “salão amarelo”. É um espaço labiríntico, mas um labirinto desmiolado. Não parece destinado a confundir ninguém; ele próprio é confuso, ou é o produto confuso de alguma semi-inteligência super-poderosa. 
 
Sua geografia interna lembra o clássico exemplo de Jorge Luís Borges em “O Imortal” (1947): 
 
No palácio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim. Abundavam o corredor sem saída, a alta janela inalcançável, a porta aparatosa que dava para uma cela ou para um poço, as inacreditáveis escadas inversas, com os degraus e a balaustrada para baixo.
 
O conto de Borges vem influenciando gerações sucessivas, mas ele próprio já traz em si a influência de Piranesi, e talvez de seu contemporâneo M. C. Escher. 



Mais do que isto, porém, Kane Parsons, nascido em 2005, traz para seu labirinto o espaço dos jogos eletrônicos, o gamespace, algoritmicamente multiplicável, reprodutível, inexaurível. Há um excesso de espaço; não de um espaço preexistente, e sim de um espaço que se expande à medida que o jogador avança. Um espaço não-real, um espaço subjetivamente criado pelo desejo do jogador ao dar um passo à frente. 
 
O arquiteto Clark faz tentativas valentes de domesticar mentalmente este espaço: ele marca na parede os portais de entrada e saída, e tenta mapear os salões que percorreu. 








 
Backrooms tem sido chamado pela crítica de “Institutional Gothic”, que seria um “Gótico Corporativo” – um novo gênero que pode ser descrito (ou pelo menos evocado) a partir de um tipo específico de arquitetura. Cada época produz um tipo de arquitetura capaz de traduzir em si o delírio de grandeza que predomina nesse tempo. 
 
Clark descobre esse mundo de pesadelo ao atravessar uma parede, tal como a “Alice” de Lewis Carroll ou o “Orfeu” de Jean Cocteau atravessam o espelho. Depois de atravessar, ele se vê perdido num ambiente de espaços inúteis, espaços profissionalmente executados mas cheios de anomalias. 



 
Aquele espaço parece virtualmente inesgotável. É como o espaço aparentemente imensurável dos labirintos reiterativos de Doom, ou a planta baixa “que não bate” do Overlook Hotel de O Iluminado. 
 
E mais. Aqui e ali, salões vazios ocupados apenas por “coágulos de mobília”, ou móveis semi-afundados nas paredes ou no chão, como se tudo aquilo fosse feito de uma mesma massa informe, camuflada de materiais normais. Tudo começa a parecer uma tentativa de uma Inteligência Artificial de reproduzir um ambiente humano, mas cheio das aberrações que se pode esperar de um caso assim. 





O mesmo se aplica às criaturas aparentemente humanas que Clark encontra dentro dos “backrooms”.  Não são feitos de carne e osso, mas de um material indiferenciado, como uma espuma, só que (diz ele) uma espuma comestível. Elas lembram... o quê?  Lembram as aberrações gráficas produzidas pela Inteligência Artificial, que se atrapalha (ainda) ao reproduzir feições humanas, mãos, corpos. 





 
O filme oscila entre esse surrealismo arquitetônico e o filme-de-monstro convencional. Afinal de contas, o diretor tem vinte anos, e certamente está criando dentro dos horizontes de expectativa de sua geração – e o horizonte de expectativas dos grisalhos executivos da produtora não difere muito deste. 
 
O terço final do filme mostra Clark e a Dra. Mary sendo perseguidos por monstros nos quais identificamos pessoas do seu passado, o que nos leva inevitavelmente a ver naquele espaço fantasma (milhares de metros quadrados de área urbana, escondidos no interior de uma loja de móveis!) uma projeção simbólica do inconsciente deles dois. 
 
E como não faz muito sentido (num contexto assim) ter um labirinto e não ter um minotauro, o Monstro aparece, uma caricatura do próprio Clark, de sua agressividade, suas frustrações, etc. 
 
A minha diferença em relação ao público-alvo do filme é que para mim o labirinto bastaria; os monstros são uma concessão popularesca ao cinema-clichê. 
 
As últimas sequências sobem um nível em relação à narrativa central até aquele ponto, revelando uma moldura narrativa que projeta todo o enredo num plano de ficção científica – a revelação (ou pelo menos a insinuação) de uma “situação mais ampla” da qual a história daquele filme foi uma manifestação isolada. 
 
Filmes-sequência certamente virão. Este primeiro título tem muita coisa boa em termos de projeto visual, direção de arte, inserção esperta num universo “creepy pasta” (terror popularesco) que fervilha na Web, um senso intuitivo de desorientação espacial. 
 
É um filme híbrido, com uma premissa de Black Mirror e um terço final de Goosebumps. Em todo caso, é uma nova franquia que sai das telinhas do celular para a telona das salas, e tudo ainda está em aberto. Como num conto de Borges, é um universo invadindo outro, e quem viver verá. 











quarta-feira, 12 de agosto de 2026

5248) John Crowley, 1942-2026 (12.8.2026)




 
Um dos grandes estilistas da literatura fantástica partiu o cordão e foi-se embora. John Crowley era professor de literatura (Yale), roteirista premiado de numerosos documentários. E foi, principalmente, um autor que ao invés de tentar se apequenar para caber num gênero, ele expandiu o gênero para se ajustar aos horizontes-de-expectativa da literatura contemporânea. 
 
Escrevia aquilo que a imprensa dos EUA chama de “ficção científica literária”, que para alguns é uma contradição, um oxímoro; mas para mim é uma redundância tão grande quanto escrever “samba musical”. 
 
Tinha uma imaginação imprevisível, e atravessava as fronteiras dos gêneros literários como um automóvel passa através da chuva. 


 
Meses atrás terminei a leitura de Little Big (1981), um romance imenso e seu livro mais famoso, aquele que Harold Bloom considerava extraordinário. É um dos livros que aos meus olhos definem o gênero de “fantasia urbana”: um tipo de narrativa fantástica que pode incluir magia, entes sobrenaturais (elfos, ou outras coisas), mas que está ancorada numa realidade urbana contemporânea, moderna. 
 
Como dizia um autor: “é aquele tipo de história em que as fadas viajam no metrô”. 
 
Little, Big é a história da família Drinkwater, uma família excêntrica que mora numa gigantesca casa de campo no interior do Estado de Nova York. A família se relaciona com criaturas do reino das fadas, peixes falantes, cartas de Tarô, pássaros e insetos inteligentes; mas a história não tem nada de juvenil ou ingênua. É a história de uma família em vagaroso envelhecimento, de poderes sobrenaturais que vão se esvaindo, e de pessoas que se consideram reais até o momento em que começam a pensar que aquilo é apenas uma grande Estória sendo contada por alguém.  
 
Escrevi mais longamente sobre este livro, aqui: 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2025/01/5145-little-big-e-fantasia-urbana.html
 
Ele imaginava, às vezes, se existiriam diferentes nomes para diferentes tipos de sonho. Este sonho de agora pertencia ao tipo em que você parece estar contando uma história a alguém, e ao mesmo tempo vivenciando a história que conta.
(“In Blue”, trad. BT) 
 
Crowley começou sua carreira com romances de ficção científica, curtos e densos (The Deep, 1975; Beasts, 1976; Engine Summer, 1979), propondo universos surpreendentes que tinham de ser decifrados passo a passo. Isto o marcou como um “autor difícil”, e ele nunca pôde ser escritor em tempo integral, teve que recorrer a outros empregos para se manter. 
 
Compensou parcialmente isto com o sucesso de Little, Big, que ganhou o “World Fantasy Award” e o “Mythopoeic Award”, tornando-se imediatamente um cult book nos EUA. 
 
Talvez sua obra mais ambiciosa seja o quarteto de romances “Aegypt”: Aegypt / The Solitudes (1987), Love & Sleep  (1994), Daemonomania (2000) e Endless Things (2007). Seu tema é a magia Renascentista (de magos-filósofos como John Dee), aplicada ao mundo moderno. 
 
Tenho um carinho especial por The Translator (2002), a estória de um misterioso poeta russo (será ele um ser sobrenatural?) que vai morar nos EUA e começa uma amizade com a jovem norte-americana a quem cabe traduzir seus poemas para o inglês. 



Comentei aquilo este belo livro:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/01/1590-o-transleitor-1742008.html
 
Outra de minhas obras crowleyanas preferidas é a noveleta de viagem no tempo Great Work of Time (1989). Uma máquina do tempo é inventada e um homem tem a chance de viajar para o passado, sabendo que não vai poder carregar nada muito volumoso na volta. O que faz ele? Volta à Guiana Inglesa em 1856 e se apossa de um exemplar do “selo magenta” emitido naquele ano, e que agora é o mais raro e valioso do mundo. 
 
O cara quer apenas enriquecer, mas sua máquina do tempo acaba caindo nas mãos de um grupo determinado a evitar a queda do Império Britânico. Viagens no tempo e escaramuças entre grupos rivais se multiplicam. É uma grande aventura, e uma reflexão sobre a História e o determinismo. 
 
Não era apenas um mundo habitado por raças inteligentes de tipos distintos: era algo mais difícil de racionalizar. As vidas daquelas raças constituíam diferentes universos de significado,  diferentes construções da realidade; Era como se quatro ou cinco diferentes romances, romances diversos escritos por autores com diferentes limitações, estivessem se penetrando uns aos outros e se confundindo. Dentro de um gigantesco romance russo brotava uma novela policial seca e cortante, e no interior desta algo que vagamente lembrava Charles Dickens, algo repleto de enredos e humor e excentricidade. Um tal entrelaçamento de universos mutuamente excludentes podia ser até cômico, como uma tirinha da revista semanal; e podia ser trágico. E podia também não ser nada disso, podia ser apenas a vida do jeito que era, aquele estado de coisas de encontro ao qual todas as imaginações viriam a ser medidas: a realidade. 
(“Great Work of Time”, trad. BT) 
 
Falei que Crowley era um grande estilista, ou seja, “um cara que escreve bem”. No mundo de hoje, “escrever bem” é visto muitas vezes como escrever de maneira enfeitada, com palavras difíceis ou longos períodos intrincados, Convencionou-se que escrever bem é escrever parecido com Machado de Assis; ou com Guimarães Rosa; ou com Marcel Proust. Ora, escrever bem é como dançar bem: é conseguir o melhor resultado possível com o corpo que se tem. 
 
Aqui, dei exemplos comentados do “escrever bem” de John Crowley. Um autor que deve dar gosto de traduzir. 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/02/1602-eyeball-kicks-152008.html
 
Pensando nisso, fui catar sua bibliografia no portal do ISFDB. Há apenas duas obras dele traduzidas em português. A noveleta O Manuscrito Perdido de Lord Byron, publicado em 2008 em Portugal pela Saída de Emergência (trad. Isabel C. Penteado); e o belo conto “Snow” (“Neve”) que traduzi e incluí na minha antologia Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Rio, Ímã Editorial, 2011). 



 

 
 




terça-feira, 4 de agosto de 2026

5247) Contracapa de Claude (4.8.2026)



(Saul Steinberg, "Bicycles", 1968)

 
&  um vampiro com dentes de castor, que não param de crescer 
 
&  é a luta do Gardel do bordel contra o cartel de Bordeaux 
 
&  se o Ministério da Defesa não resolve, seria melhor criar um Ministério do Ataque 
 
&  o fundo de um lago tem mais revelações do que sua superfície 
 
&  a Genética ainda será capaz de nos fornecer peixes sem espinhas e galinhas com seis corações 
 
&  é aquela exceção que ajuda a tornar mais nítida a regra 
 
&  bem que os roteiristas podiam começar a considerar o conceito de Sub-Heróis 
 
&  o ar está cheio de pegadas do meu corpo 
 
&  quando o locutor diz “ainda tem muito jogo pela frente” é porque a coisa não está nada boa 
 
&  sapo que engole bomba pula mais longe do que pretendia 
 
&  meu preço por frase é dois reais – um real material e um real simbólico 
 
&  nós dois somos iguais e diferentes, como duas bolachas do mesmo pacote 
 
&  vagaroso como uma constelação se desmanchando 
 
&  a vela diminui de tamanho para que a chama permaneça a mesma 
 
&  aquela casa tem uma energia tão ruim que o sol chega na janela e não entra 
 
&  pelo menos ainda não inventaram a moda de todo mundo andar com um apito ao pescoço 
 
&  se derem um jeito de reunir a I. A. e a telequinésia, talvez eu me anime um pouco 
 
&  certas lembranças desaparecem tão lentamente quanto um corpo jogado no matagal 
  
&  quando estou comendo na casa alheia, minhas mãos viram dois pés descalços 
 
&  toda madeira já foi árvore, todo plástico já foi petróleo, todo vidro já foi areia 
 
&  galinha cega também põe ovo
 
&  a única coisa na Natureza que se reproduz espontaneamente é a besteira
 
&  a literatura não tem como base a palavra, e sim a frase
 
&  quem tem panela não tem medo de goteira
 
&  eu me preocupo mais em rua cheia do que em rua deserta
 
&  tem discussão em que a gente entra esmolambado e sai príncipe-rei
 
&  trabalhar assim é um pouco como comer com faca e colher
 
&  o que é simétrico dá às vezes a ilusão de que é certo
 
&  não, não é a luz no fim do túnel, acho que é a lua no fundo do tonel
 
&  será que os cavalos-robôs comem grama sintética?
 
&  o tempo do corpo é linear, o da mente é não-linear, o da imaginação é 3-D
 
&  você não vale uma baga de bagulho, uma casca de basculho, um farelo de carvão
 
 




terça-feira, 28 de julho de 2026

5246) "Corpo de Baile" (28.7.2026)



 
Nesta quarta-feira, 29 de julho, estarei fazendo uma aula aberta, online, como prévia para divulgação para o curso que vou realizar durante o mês de agosto, tendo por objeto o livro Corpo de Baile, de Guimarães Rosa. É uma produção da “Escrevedeira”, o conhecido e dinâmico centro cultural paulistano. O curso acontecerá online, todas as segundas-feiras (dias 10, 17, 24 e 31 de agosto), das 19 às 21 horas. Inscrições e informações aqui: 
 
https://escrevedeira.com.br/curso/sete-portas-para-corpo-de-baile-uma-introducao-ao-livro-de-guimaraes-rosa/
 
A idéia deste curso surgiu de um convite da Profa. Noemi Jaffe, e se liga ao fato de que em 2026 estamos comemorando 70 anos da publicação original do Grande Sertão: Veredas e do Corpo de Baile.  
 
Guimarães Rosa fez no ano de 1956 algo que qualquer editor de bom senso desaconselharia nos tempos de hoje: publicou, com poucos meses de intervalo, dois livros gigantescos, ambos com mais de 500 páginas, escritos numa linguagem inesperada, desconcertante, difícil. 
 
Grande Sertão fez um sucesso gigantesco, e merecido. É um dos maiores e mais recompensadores romances de nossa literatura. Mas o pobre do Corpo de Baile ficou numa posição secundária, meio fora de foco, meio na sombra. É um livro magnífico, mas as pessoas que conseguem transpor o Grande Sertão de ponta a ponta soltam um suspiro de alívio, e se dão por satisfeitas. Não é todo mundo que resolve encarar o outro Everest. 
 
Na sua correspondência da época, Rosa (sempre brincalhão) chamava um dos livros de “mastodonte” e o outro de “cetáceo”. Dizia isso sem culpa e sem pompa. Sabia que eram livros enormes e difíceis. E daí? Como ele mesmo alertou, numa carta a sua tradutora norte-americana Harriet de Onís, “acabarão se acostumando”. Acostumamo-nos. Não conseguimos mais viver sem isso. 




É um bom momento para conhecer Corpo de Baile, ou para reler suas sete novelas, que valem muito a pena. É como se o Grande Sertão, com sua história una, bem costurada, implacável, ocupasse o centro desse universo ficcional, e as sete novelas de Corpo de Baile fossem prolongamentos, “puxadinhos”, expansões desse centro, mas todas com seu próprio mundo interno, seu elenco de personagens pitorescos ou góticos, suas situações bizarras, seu dramas intensamente humanos. 
 
Num artigo recente na revista 451, comentei o fato de que esse díptico de obras de Guimarães Rosa constitui uma espécie de “Guerra e Paz” do sertão mineiro. O Grande Sertão é a história da grande guerra dos jagunços; Corpo de Baile, que tem raríssimas explosões de violência, é um painel variado e pacífico desse mesmo sertão quando não é assolado pela violência armada. 
 
São sete narrativas, que Rosa, com seu típico humor irreverente, classifica como “novelas”, “romances” ou “poemas”, de modo intercambiável. Pouco importam os rótulos acadêmicos. Cada leitor encontra em cada texto o que estiver procurando. 
 
Campo Geral
É a primeira narrativa. Uma história que tem a duração de alguns meses (ou poucos anos) da infância do menino Miguilim, na fazenda do Mutum, com seus pais e irmãos. Miguilim é um menino introspectivo, que pensa muito, tem uma relação difícil com o pai, e uma amizade profunda com o irmãozinho Dito. A família passa por tragédias e momentos difíceis. Um médico de visita à região percebe que Miguilim é míope, empresta-lhe uns óculos, vê como a vida do garoto se ilumina. Ele simpatiza com Miguilim e se oferece para levá-lo para a cidade e pagar seus estudos. 
 
Uma estória de amor (A festa de Manuelzão)
O velho vaqueiro Manuelzão mora na fazenda Samarra, como capataz e administrador. Solitário, calejado pela vida de gado, Manuelzão manda construir uma capela na fazenda, e a inaugura com uma grande festa. Ao longo de dois dias e duas noites, ele recebe (e o autor descreve com fina percepção social e psicológica) dezenas de moradores da região. Manuelzão tem um filho adulto e problemático, tem uma nora atraente, tem um patrão onipresente e distante. Ao longo dessas noites de festa, reavalia sua vida e suas relações pessoais, enquanto se prepara para sair novamente conduzindo uma boiada. 
 
A estória de Lélio e Lina
Lélio é um vaqueiro jovem que chega para trabalhar na fazenda do Pinhém. Ele curte uma desilusão amorosa e procura se consolar apaixonando-se sucessivamente por várias moças da fazenda, cada uma delas com suas seduções e seus inconvenientes. Fica amigo de uma senhora, D. Lina, com idade para ser sua mãe. A fazenda é vendida para novos donos. Lélio e D. Lina acabam indo embora dali para morar juntos, numa relação que o autor descreve à distância, sem revelar muita coisa, mas mostrando como na vida real um rapaz de 25 anos e uma mulher de 70 podem estabelecer o que Shakespeare descreveu como “um matrimônio de almas sinceras”. 
 
O Recado do Morro
Uma expedição científica percorre uma região de Minas. O guia, Pedro Orósio, é um rapaz hercúleo e simplório. A certa altura, perto do Morro da Garça, um velho eremita diz ter escutado o morro falando, mandando um recado para eles. Durante o resto da viagem, esse recado meio absurdo vai sendo repetido, deformado e passado de boca em boca. Na volta, ele é transformado em canção e acaba servindo de aviso a Pedro Orósio, revelando um plano para matá-lo, e isto salva sua vida. Guimarães Rosa descrevia este conto, um dos mais vívidos e enigmáticos de sua obra, como uma ilustração do processo pelo qual uma canção é composta. 
 
Dão-Lalalão
A estória em si dura menos de 24 horas, indo de uma tarde até a manhã seguinte. O fazendeiro (ex-vaqueiro) Soropita mora como rei e senhor em sua fazenda num local remoto; sua esposa, Doralda, é uma ex-prostituta pela qual ele se apaixonou quando a encontrou num bordel de Montes Claros. Num dia comum, Soropita está voltando a cavalo para casa quando encontra na estrada um grupo de vaqueiros, entre eles seu amigo Dalberto. Convida Dalberto para pernoitar em sua fazenda. Sente ciúmes da esposa, devido à presença de Dalberto. Na manhã seguinte desabafa sua fúria e insegurança fazendo ameaças aos amigos deste. Este conto é uma das melhores ilustrações do ciúme masculino em nossa literatura. 
 
Cara-de-Bronze
Numerosos vaqueiros se encontram na fazenda do velho Cara-de-Bronze, um fazendeiro riquíssimo e recluso, meio paralítico. Estão juntando várias boiadas para viajarem juntas. Comentam o fato de que o fazendeiro vive trancado num quarto, mas tem um emissário, o Grivo, que viaja pelo sertão e lhe traz informações de todo tipo. Nesta história, Guimarães Rosa usa um surpreendente arsenal de formas narrativas: roteiro de cinema, peça de teatro, diálogo, versos de cantadores, listas de plantas e de coisas da natureza do sertão. 
 
Buriti
O veterinário Miguel (o menino Miguilim de “Campo Geral”, agora adulto) visita duas fazendas vizinhas e conhece seus donos: Nhô Gualberto, casado com uma mulher doente, e Iô Liodoro, viúvo, que tem duas filhas e está hospedando uma nora, abandonada por um dos seus filhos. É a história mais longa de todo o livro, e seu foco narrativo passa por vários personagens. É contada do ponto de vista de Miguel, e depois se transfere para o ponto de vista de duas moças, Glorinha (uma das filhas) e Lalinha (a nora). Um personagem, Mestre Ezequiel, é um homem excêntrico que de noite náo consegue dormir porque sente estar escutando todos os barulhos das criaturas do mato, o que lhe dá a impressão de ser ameaçado por inimigos invisíveis. 
 
O sertão que Guimarães Rosa descreve em Corpo de Baile está mais próximo do universo variado e surpreendente de Sagarana (1946), o livro de estréia do autor. Ali estão os enredos aparentemente simples mas cheios de labirintos e sutilezas; os personagens rurais dotados de uma psicologia inesperadamente complexa, num tempo em que a chamada “literatura regional” requentava retratos de caipiras simplórios ou abrutalhados. E, acima de tudo, a linguagem inesgotavelmente inventiva do autor, tirando um coelho novo da cartola a cada frase. 
 
Corpo de Baile era um livro enorme, tanto que o próprio autor o subdividiu depois em três volumes que podemos encontrar hoje nas livrarias: Manuelzão e Miguilim (que inclui “Campó Geral” e “Uma estória de amor”), No Urubuquaquá, no Pinhém (“O Recado do Morro”, “Cara de Bronze” e “A estória de Lélio e Lina”) e Noites do Sertão (“Dão-Lalalão” e “Buriti”). 





 
 
 
 
 
 




segunda-feira, 20 de julho de 2026

5245) Copa 2026: futebol tem lógica (20.7.2026)



 

Espanha 1x0 Argentina! 
 
E pronto, a Espanha tornou-se, pela segunda vez, campeã do mundo. Na minha cabeça, isto desmente pela milésima vez o antigo clichê dos coleguinhas comentaristas esportivos: “Ah, futebol não tem lógica!...”. 
 
A lógica do futebol não é uma lógica exata, é uma lógica de Ciências Humanas, e sendo assim só pode funcionar por aproximação, ou probabilisticamente. 
 
Se, no jogo deste domingo, a Argentina conseguisse fazer 1x0 na prorrogação e ganhasse o título, o resultado também teria por trás de si uma lógica implacável, mesmo que dolorosa. Quem não faz, leva. Com a Argentina não se brinca. Com Messi em campo, tudo pode acontecer. 
 
A Ciência é forçada a lidar com esse tipo de lógica difusa (“fuzzy logic”).  Não há certezas. Mesmo uma tendência esmagadora na direção “A” pode ser revertida bruscamente na direção “B” por um fator inesperado, dificilmente previsível. E isso está na raiz do jogo de futebol. 
 
A Espanha foi campeã, mas na cabeça de muita gente esta Copa ficará conhecida como “a Copa de Cabo Verde” – essa seleção desconhecida e inesperada que não perdeu para a seleção campeã, e só foi derrotada pela vice-campeã Argentina depois de muito suor, num jogo equilibradíssimo que facilmente poderia ter tido um placar inverso. 


(foto: Chandan Kanna)
 

Toda Copa do Mundo produz uma dúzia de narrativas épicas: o grande time que fracassou na hora H, o jogador obscuro que fez o gol do título, o time azarão que aplicou uma zebra num favorito, o erro do juiz que até ele mesmo concordou, o zagueiro que fez um gol contra e foi assassinado, o potentado que tentou mudar o resultado de um jogo, o acidente lamentável que pode ter cortado pelo meio uma carreira... 
 
Cabo Verde trouxe para a Copa 2026 a aventura improvável vivida por uma ilha minúscula. Ela saiu “pegando no laço” jogadores do mundo inteiro com algum vínculo genealógico, e montou um time medianamente competitivo. Mostrou em campo que esses atletas (que não jogam no país) eram capazes de muito mais garra e determinação do que seleções consagradas e elencos com milionários contratos de publicidade. 
 
O grande jogo da Copa, para mim, foi Argentina 3x2 Cabo Verde, 120 minutos de um confronto em que cada palmo da grama foi disputado com sangue, suor e lágrimas, e com muito talento de parte a parte. 
 
Pertinho desse jogo eu colocaria Inglaterra 3x2 México, no caldeirão do Estádio Azteca, com belos gols, um clima sufocante, e uma resistência heróica dos ingleses reduzidos a dez homens em campo. 



O Brasil fez jogos mornos, sem grande brilho e sem grandes emoções. O melhor jogo nosso foi a virada sobre o Japão, não por ter mostrado um grande futebol, mas pelo sofrimento de começar perdendo, conseguir o empate, e depois fazer o gol da vitória no último minuto. 
 
Nossa Seleção joga sem alma. Joga com a tensão acabrunhada (ou com a empáfia postiça) de quem já começa devendo e sabe que não tem com que pagar. 
 
Tem um técnico que se adapta bem ao material humano de que dispõe. Foi assim que Carlo Ancelotti ganhou tudo pelo Real Madrid, mas veio parar, coitado, num covil de raposas que é a CBF, a política brasileira, a publicidade brasileira, a imprensa brasileira e as redes sociais brasileiras. Desejo-lhe sorte da próxima vez, mas sem muita esperança. Metade desta Copa ele perdeu na convocação. 
 
A Espanha foi campeã jogando esse jogo de cerca-cerca, tocando bola e chegando aos poucos. Não é o meu futebol preferido. Gosto de times rápidos, que esticam passes em profundidade... Jogadores que entram na área driblando quem aparece pela frente... Times que chutam em gol de qualquer ângulo e de qualquer distância... Sou o último romântico. 
 
Admiro a tática e a técnica, mas gosto mais da garra, daí que mesmo a contragosto aplaudi a via-crucis da Argentina e a admirável presença de Lionel Messi. Nestas últimas partidas, Messi parecia um jogador radioativo. Pegava a bola na ponta-direita e os adversários ficavam a três metros de distância. Ninguém queria partir pra cima do toureiro. 
 
E o jogo avança no formato de sempre: a bola vai para a ponta-esquerda, é tocada para o jogador mais à direita, deste para o próximo, até chegar na ponta-direita, e ai recomeça tudo no sentido inverso, num semi-círculo de passes à frente da área, à espera de um deslocamento milagroso, uma rachadura no muro da represa. 
 
É o jogo do City de Guardiola, time que admiro (também a contragosto), porque sei o quanto aquilo exige inteligência e habilidade de quem faz a bola circular daquele jeito. É só uma questão de gosto, mesmo. Gosto de times que, quando se apossam da bola, partem a toda velocidade na direção do gol, três, quatro, cinco jogadores ao mesmo tempo, como se o jogo fosse acabar daí a dez segundos. 
 
A Copa teve seus momentos baixos, claro. As absurdas intervenções do presidente dos EUA na arbitragem, e na foto da premiação. E o tratamento vergonhoso dispensado pelo Estado policial norte-americano a jogadores da África e principalmente do Irã. 



É uma coisa meio surrealista você saber que dois países estão em guerra (mesmo uma guerra não oficialmente declarada, pois o Congresso dos EUA não a autorizou) e um deles tem que receber a seleção (e os torcedores) do outro. Parece um roteiro a quatro mãos entre Douglas Adams e George Orwell. 
 
Lembro de Orwell porque o autor de Animal Farm tem um ensaio famoso contra o futebol, escrito logo após a II Guerra, quando os ódios nacionalistas da Europa ainda não tinham arrefecido. 



Aproveitando uma excursão do Dínamo de Moscou pela Inglaterra, para enfrentar times britânicos, Orwell arregaçou as mangas e mandou ver.
 
Agora que a breve visita da equipe de futebol do Dínamo chegou ao fim, é possível dizer publicamente o que muitas pessoas lúcidas vinham afirmando em privado, antes mesmo da chegada do Dínamo. Ou seja: que o esporte é uma fonte inesgotável de animosidade, e que se uma visita dessa natureza teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas foi o de torná-las um tanto pior do que já estavam.
(“The Sporting Spirit”, 1945, Essays, Penguin, 2000, trad. BT)
 
Orwell vê essas disputas, compreensivelmente, não como um enfrentamento meramente esportivo, mas como símbolos do espírito de cada nação.
 
O detalhe mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude do público e, para além do público, das próprias nações, sujeitas a ataques de fúria a propósito desses embates absurdos, e que acreditam seriamente – pelo menos por curtos períodos de tempo – que o ato de correr, pular e dar pontapés numa bola são testes para as virtudes nacionais.
 
Ele não vê muitos elementos redentores no esporte:
 
O esporte levado a sério não tem nenhuma relação com “jogo limpo”. Ele é repleto de ódio, ciúme, arrogância, desprezo pelas regras, além do prazer sádico na contemplação da violência. Em outras palavras, é a guerra, só que sem disparos de armas de fogo.
 
Acho que isso coloca em perspectiva, inclusive, o papel do Brasil dentro da história do futebol mundial. Quando começou a II Guerra, tinham acontecido apenas três Copas: 1930 (campeão Uruguai), 1934 e 1938 (bi-campeã Itália). E o conflito cancelou, obviamente, as Copas que poderiam ter acontecido em 1942 e 1946.


 
Depois de uma guerra sangrenta e um hiato de doze anos, o Brasil construiu “o maior estádio do mundo” para acolher equipes do mundo inteiro. Foi uma espécie de Woodstock da paz. Num clima de muita politicagem e demagogia, mas, enfim – foi uma grande Copa, e podemos mesmo considerar que foi uma espécie de recomeço. A moderna Copa do Mundo começou em 1950.
 
O Brasil deu chocolates memoráveis nos europeus (7x1 na Suécia, 6x1 na Espanha). João Saldanha, que não se iludia facilmente, afirmava: “A juventude da Europa foi estraçalhada pela guerra. Daqui a uma ou duas gerações a coisa vai mudar”.
 
Mas o Maracanã inteiro cantou “Touradas em Madri” fazendo Braguinha chorar na arquibancada, e o time do Uruguai introduziu, no jogo final, o pulo-do-gato da “fuzzy logic” que deixaria perplexos tantos observadores, fossem cartesianos ou marxistas.
 
Eu vejo essas coisas como torcedor, ou seja, na condição de quem compartilha uma fantasia coletiva, e toda fantasia coletiva se parece com uma Realidade. Já o bravo George Orwell não conta conversa:



(Orwell, by Baptistão) 

 
A maior parte dos esportes que hoje praticamos tem origem na Antiguidade, mas o esporte não parece ter sido encarado muito a sério entre a era romana e o século 19. Mesmo nas escolas públicas britânicas o culto aos jogos não floresceu senão a partir de meados do século passado. (...) E então, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os jogos começaram a se constituir numa atividade com pesado financiamento, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção começou a se alastrar pelos demais países. E são os esportes mais violentos, o futebol e o boxe, os que mais se espalharam. Sem dúvida isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, ao lunático hábito moderno de um indivíduo se identificar com grandes estruturas de poder e passar a enxergar todas as coisas pelo ângulo da competição e do prestígio.
 
O autor dessas linhas estava se preparando para escrever sua obra final, 1984, com seus conflitos globais entre Lestásia, Eurásia e Oceania, com seus “dois minutos de ódio” em salões coletivos, seu culto à personalidade, sua vigilância eletrônica.
 
E o nosso VAR, esse sistema misto de câmeras e computação gráfica, não acaba virando uma espécie de reescritura dos fatos e de reescritura da História pelo “Ministério da Verdade” orwelliano, em que as notícias dos jornais passados são reescritas e os jornais reimpressos, de modo a que fique valendo a versão imposta por quem detém o poder tecnológico de fornecer informação?
 
Bem, desculpem a digressão, acabei me distraindo e perdendo o fio da meada. Parabéns Espanha, parabéns Lamine Yamal e Cubarsí, jogam muito, esses garotos.



 
 





quarta-feira, 15 de julho de 2026

5244) Os desiludidos do amor (15.7.2026)



 
É um lugar-comum da crítica e do jornalismo cultural contrastar a irreverência da poesia modernista pós-Semana de Arte Moderna de 1922 com o sentimentalismo e a solenidade dos poetas Parnasianos e Simbolistas que os antecederam. 
 
Como se a irreverência estivesse ausente da sociedade brasileira pré-1922, ou pelo menos dos círculos literários. Os Parnasianos, em sua convivência social, em sua rotina boêmia, também cultivavam a ironia e a pilhéria, tomavam seus porres, faziam trocadilhos infames, compunham sonetos pornográficos. 
 
Nada disto, porém, vazava para dentro de sua produção literária oficial, que era (para recorrer ao seu vocabulário) virginal e pulcra. 
 
Havia – como geralmente há – um corte entre a vida real dos poetas e a poesia que publicavam. Em seus livros, faziam a poesia que se esperava deles, a poesia com que compuseram seu perfil público: uma poesia sentimental e solene. 
 
Havia nisto um tanto de auto-censura voluntária, misturada com uma inconsciente (?) estratégia de marketing, se bem que esta expressão não pertence àquela época. A poesia era algo sério, e mais: era criada a partir de um léxico bem específico, com preferências e restrições bastante claras. Basta ver a estranheza de muitos críticos da época diante da obra de Augusto dos Anjos, repleta de jargão científico e de termos plebeus. 
 
Os Parnasianos, nos cafés e teatros cariocas da Belle Époque, divertiam-se, e muito. Basta consultar livros de crônicas da época como A Vida Exuberante de Olavo Bilac (Eloy Pontes), No Tempo de Paula Nei (Ciro Vieira da Cunha), Emílio de Menezes, o Último Boêmio (Raimundo Menezes)... 



Ou, melhor ainda, o clássico A Conquista (1897) de Coelho Neto, uma espécie de roman à clef sobre a boemia literária do Rio de Janeiro durante a campanha abolicionista. A poesia daqueles rapazes podia ser clássica, idealista, engravatada; mas a sua vida não era menos galhofeira e irreverente do que a dos modernistas, a quem coube, de certo modo, trazer esses elementos para dentro da matéria poética. 
 
Um termômetro útil para medir a distância entre essas duas gerações literárias é o tratamento que dão ao amor, às relações sentimentais e eróticas. Carlos Drummond de Andrade, em seu segundo livro, Brejo das Almas (1934), tem alguns poemas divertidos nessa linha. 
 
Essa descontração o leva inclusive a tratar com certa frivolidade até mesmo o suicídio por amor. 
 
Como no “Necrológio dos Desiludidos do Amor”: 
 
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais. (...) 
 
Como no “Poema Patético”:
 
Que barulho é esse na escada?
É o amor que está acabando,
é o homem que fechou a porta
e se enforcou na cortina. (...) 
 
Como em “Não Se Mate”:
 
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será. 
 
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh, não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão. (...) 
 
Drummond a essa altura já era casado (1925) e pai (1928), mas tratava o fenômeno amoroso com a leveza dos jovens que descobriram a juventude como conceito, algo que era parte importante do entusiasmo modernista. 
 
Ele diz, em “Em Face dos Últimos Acontecimentos”: 
 
(...) Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico. (...) 
 
E não só o suicídio. Alguma brisa perfumada com surrealismo sopra de vez em quando sobre o poeta, como em “Registro Civil”: 
 
Ela colhia margaridas
quando eu passei. As margaridas eram
os corações de seus namorados,
que depois se transformavam em ostras
e ela engolia em grupos de dez. (...)
E na terra
eu só ouvia o rumor
brando, de ostras que deslizavam
pela garganta implacável. 
 
O poeta ouve esses ruídos todos, mas nada parece abalar sua tranquilidade. Tudo está normal. O mundo (quase o ouço dizer) não vai se acabar por causa disso. 
 
Essa insistência na hipótese do suicídio não chega a parecer, em momento algum, um impulso real do poeta. É uma idéia meramente retórica, como quando dizemos “ah, prefiro morrer” ou “só se passar por cima do meu cadáver”. 
 
O projeto implícito dos modernistas devia ser o de esvaziar o amor de uma tragicidade irrecuperável. Tirar do amor a vocação para o sacrifício grandiloquente. 


Muitos anos depois de Brejo das Almas, Drummond daria um de seus últimos depoimentos ao amigo Ziraldo, o grande cartunista, depoimento reproduzido por Geneton Moraes Neto em O Dossiê Drummond (Rio: Ed. Globo, 1994). 
 
Abalado pela morte recente da filha Maria Julieta, o poeta teve uma longa conversa com Ziraldo, em agosto de 1987, uma conversa cheia de confidências. 
 
E Drummond confessa, a certa altura (a reprodução das falas vai por conta de Ziraldo): 
 
“-- Eu era um funcionário público, um burocrata medíocre, que dividia meu tempo entre o trabalho metódico e minhas devastadoras paixões. Eu me apaixonava muito, sabe? Às vezes, estava perdidamente apaixonado por duas ou três, sem saber o que fazer da minha vida. (...) Teve uma outra por quem eu me apaixonei mesmo, para morrer. Aí, ela me traiu. Deixou de me querer. Não tive alternativa: peguei um trem, fui para Belo Horizonte, lá peguei um ônibus, fui até Itabira, de lá peguei um cavalo e fui para uma fazenda que tinha um pomar enorme. Aí, todos os dias, eu ia para o meio do pomar, subia numa árvore daquelas e ficava lá em cima, gritando os maiores palavrões, filha da puta, traidora, safada, cretina! Fiquei quase um mês fazendo esse... essse...
Eu ajudei:
-- Exorcismo.
Ele concordou:
-- É. Fiquei lá fazendo esse exorcismo. Sabe que eu voltei bem melhor?”
(p. 264)
        
Pois é isso ser moderno. Nada de violências. Descarregue as frustrações e as traições na direção do vento, que leva tudo, e levará um dia todos nós. 


 




quinta-feira, 9 de julho de 2026

5243) "O Dia das Trífides" (9.7.2026)




[ Ed. Aleph - capa: Daniel Canedo) 

 

Este clássico da ficção científica, publicado por John Wyndham em 1951, tornou-se um dos romances fundadores do gênero que os ingleses batizaram de “cozy catastrophe”, a catástrofe aconchegante, a catástrofe administrável. Ou seja: acontece uma catástrofe de proporções aterrorizantes, inimagináveis; é o fim do mundo... mas é o começo de outro. 

Poderíamos também chamar a esses livros: “as catástrofes de reconstrução”. Elas de certo modo satisfazem a filosofia das pessoas impacientes e amargas que dizem: “O único jeito é zerar a sociedade humana e começar de novo”.  

E a primeira tarefa é: não morrer de fome.  

As condições que delimitaram e nos ensinaram os nossos padrões de comportamento desapareceram, junto com esse mundo. Nossas necessidades agora são diferentes, e nossos objetivos devem ser diferentes. Se quiserem um exemplo, posso lembrar que todos nós passamos o dia de hoje praticando, com a consciência perfeitamente tranquila, uma série de atos que dois dias atrás seriam considerados invasão de propriedade e roubo. Com os velhos padrões rompidos, temos agora que descobrir qual o modo de vida mais adequado aos novos padrões. Não temos simplesmente que começar a construir de novo: temos que começar a pensar de novo, o que é muito mais difícil e muito mais incômodo. (Cap. 7)  

Para quem não conhece o livro, um breve resumo:  

Da noite para o dia, 99% das pessoas, em todo o mundo, acordam de manhã e descobrem que estão cegas. A civilização colapsa; o caos, a violência tomam conta de tudo, e em breve a fome e as epidemias incontroláveis se encarregam de dizimar uma parte das pessoas. Bill Masen, o narrador, é uma das poucas pessoas que não cegaram.  

E outra parte da população começa a ser dizimada pela trífides, umas plantas misteriosas capazes de caminhar (desajeitadamente, usando as raízes como pernas) e de matar pessoas com um longo chicote que traz na ponta um aguilhão venenoso.  

Quanto mais eu considerava este novo aspecto, menos eu estava gostando. Não tinha idéia de quantas trífides poderia haver em Londres. Todos os parques tinham pelo menos algumas. Geralmente eram mantidas em currais, onde podiam mover-se à vontade, mas havia outras, de ferrão intacto, ora presas a estacas, ora mantidas em segurança por trás de cercas de arame. Pensando nas que eu vira cruzando Regent’s Park, pensei quantas eles mantinham no cercado perto do zoológico, e quantas teriam escapado. (Cap. 4)  

Li esse livro pela primeira vez aos quinze anos, e traduzi-lo depois dos setenta foi um reencontro comigo mesmo.  

Li como parte da saudosa e fundamental Colecção Argonauta, da Editora Livros do Brasil, de Lisboa, coleção da qual eu comprava e lia tudo que me aparecia pela fente, nas livrarias de Campina Grande e do Recife. 


 

(Colecção Argonauta – capa: Lima de Freitas)

 

Já fiz aqui no Mundo Fantasmo uma crítica ao livro de Wyndham, no ano de 2009, afirmando:  

O Dia das Trífides é um ótimo romance de FC sob vários critérios, e seu único defeito é a ocorrência de duas premissas fantásticas tão distantes (plantas inteligentes, cegueira coletiva) e tão convenientes para o autor. Bastaria uma.  

https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/05/2084-um-fato-fantastico-12112009.html  

Fiz este comentário inspirado num conselho de Anthony Boucher, um romancista e crítico em cujo bom-senso literário nunca deixei de me apoiar. Boucher desenvolve aqui um conselho de H. G. Wells, e sugere:  

O autor tem direito a uma única premissa fantástica, que dará origem a toda a sua história. Ele pode usar uma pessoa capaz de atravessar paredes, mas não pode usar na mesma história outra pessoa que é invisível.

 Dois fatos fantásticos, distantes um do outro, não-relacionados, provocam um desequilíbrio narrativo. (Não quer dizer que não possa resultar num grande livro; apenas alerta que vai dar mais trabalho para fornecer um background convincente.)

Traduzindo agora o livro de Wyndham, me dei conta (com olhos mais experientes do que meus olhos estrelados de rapazinho) de que o autor se sai bem dessa aparente bifurcação. As trífides bamboleantes e venenosas e a cegueira generalizada devem-se a um contexto político-científico bastante visível. John Wyndham testemunhava o desabrochar da Guerra Fria, e vivia ainda os abalos sociais da II Guerra Mundial. E o romance, curiosamente, pode ser visto como um dos primeiros a indagar de maneira adulta e convincente, num contexto de catástrofe: O que foi que os nossos governos andaram fazendo, e escondendo de nós?  

O livro faz um retrato confrangedor de Londres, em sua primeira metade, quando milhares de pessoas cegas vagueiam em desespero pelas ruas, quebrando vitrines em busca de comida, sequestrando com violência quem possa lhes servir de guia, organizando-se em grupos de assalto para saquear armazéns e supermercados.  

Mesmo encarando de frente a questão coletiva do recomeço da civilização (há discussões renhidas sobre “o que faremos do mundo”), Wyndham é um escritor que cria o tempo inteiro cenas curtas, vívidas, tocantes.  

Eu tinha visto apenas uma meia dúzia de pessoas capazes de caminhar, depois de chegar naquele distrito. Agora, parecia não haver nem mais uma sequer. Por fim, perto da esquina de Buckingham Palace Road, encontrei uma mulher idosa, sentada e encolhida num batente. Estava atarefada tentando abrir uma lata com unhas partidas, enquanto praguejava e choramingava ao mesmo tempo. Fui a uma lojinha próxima e encontrei meia dúzia de latas de feijão, numa prateleira alta que tinha escapado. Achei um abridor de latas também, e voltei até onde estava a mulher. Ela ainda arranhava inutilmente a lata.

-- Melhor jogar essa lata fora – disse eu. – É café.

Pus o abridor em sua mão, e dei-lhe uma lata de feijão. (Cap. 9)

 

É uma história escrita numa Londres que começava a se reconstruir após os bombardeios alemães da II Guerra, e o espírito de resistência e reorganização que ele descreve tem a ver com essa admirável qualidade da espécie humana. “Não importa. Recomeçaremos”.

Fui até a janela e olhei para fora. De forma deliberada comecei a dizer adeus para tudo aquilo. O sol já vinha baixando. Torres, catedrais, fachadas de pedra de Portland surgiam brancas ou cor-de-rosa de encontro ao céu que escurecia. Outros incêndios tinham brotado aqui e acolá. A fumaça se erguia em borbotões negros, às vezes deixando entrever algumas línguas de fogo por baixo.  Era provável, disse para mim mesmo, que depois de amanhã eu nunca mais voltasse a ver nenhum daqueles edifícios que me eram tão famiiares. Talvez chegasse o tempo em que alguém fosse capaz de voltar – mas nunca para o mesmo lugar. O fogo e o clima o teriam maltratado: estaria visivelmente abandonado e morto. Mas agora, a uma certa distância, ainda era possível fantasiá-lo como uma cidade viva. (Cap. 5)


 Tem a ver também com o pânico diante do desmoronamento de tudo que julgávamos garantido, certo, seguro. E um pânico cego, irracional, quando nos deparamos com uma ameaça mortal que não conseguimos compreender.  Uma releitura recente de A Guerra dos Mundos (1898) de H. G. Wells me trouxe à memória algo desse desespero que Wyndham iria reconstituir, meio século depois.

Como indiquei acima, o livro já estava publicado em Portugal (com tradução de José Manuel Calafate) em meados dos anos 1960. Teria sido lido por José Saramago? Teria ajudado a inspirar o seu excelente Ensaio Sobre a Cegueira (1995)? 

Aqui no Brasil temos também “A Escuridão” (1963), do mestre André Carneiro, que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (Casa da Palavra, 2003); neste caso, não são as pessoas que ficam cegas, mas a luz que misteriosamente desaparece. O resultado é o mesmo.  

Em O Dia das Trífides, o narrador, Bill Masen, escapa da cegueira (provocada por uma chuva de meteoros brilhantes) porque estava hospitalizado, com os olhos vendados, justamente após ser atingido pelo aguilhão de uma trífide. Ele é um especialista nessas plantas, e isso o ajuda a sobreviver quando elas, sem controle, começam a se propagar pela cidade, matando quem se aproxima.

A cegueira universal e a ameaça das trífides fornecem o suspense da história, mas sua parte mais interessante é sua descrição de que mal o mundo se acaba já tem gente disposta a propor uma nova organização para o que restou.

Há uma luta constante pela liderança das pequenas comunidades que se formam, em que um pequeno grupo de pessoas que veem organiza e protege um número maior de cegos.  

É aí que entra a importância de um líder. Um líder planeja, mas é sábio o bastante para não dizer que o fez. Quando as mudanças se revelam necessárias, ele as introduz como se fossem uma concessão –  temporária, é claro – às circunstâncias, mas se ele for hábil, ele vai introduzir justamente as partes que faltam para completar seu plano. Sempre haverá objeções esmagadoras a qualquer plano, mas sempre será preciso admitir concessões feitas num momento de emergência.

(Cap. 10, trad. BT)


E as trífides – venenosas, numerosas, obscuramente inteligentes – estão por toda parte.  

Os lança-chamas estavam guardados numa das privadas do lado de fora. Eu não quis correr riscos quando fui buscá-los. Com roupas e luvas bem grossas, um elmo de couro e óculos de mergulhador por baixo da máscara de malha, abri caminho por entre a multidão de trífides empunhando o maior facão que consegui achar. Os aguilhões chicoteavam e se chocavam contra minha máscara com tal intensidade que a encharcaram, e o veneno começou a se filtrar para dentro como uma tênue neblina. Ele embaçou meus óculos, e ao entrar na privada a primeira coisa que fiz foi lavar o rosto. Ao sair, não me atrevi a usar mais do que um jato de chamas breve, apontado para baixo,  por medo de incendiar as molduras da porta e da janela; mas ele produziu uma agitação suficiente para me permitir voltar ileso para dentro da casa. (Cap. 15)  


O livro foi adaptado várias vezes, para cinema e TV. Eu havia visto quando garoto uma adaptação mediana para o cinema, escrita por Philip Yordan e dirigida por Steve Sekely. Está aqui, no YouTube:  

https://www.youtube.com/watch?v=1HJ2qi63_O0

Durante os meses em que traduzi esta edição, vi duas séries muito interessantes, também no YouTube. 


A mais recente, e talvez mais a gosto do público de agora, é de 2009, com dois episódios bem longos, e foi dirigida por Nick Copus. Moderniza a história, mexe com o enredo, com os personagens, vai numa direção muito diversa do livro de Wyndham. Ainda assim, tem seus bons momentos de suspense e de efeitos especiais. 
 

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UJVBu7p8Otk


Gostei mais – pelo quesito “fidelidade ao livro” – da série de 1981, em seis episódios, dirigida por Ken Hannam. Segue muito de perto a narrativa, e quando a gente está traduzindo há a necessidade permanente de visualizar de forma adequada (e interessante) as cenas que o autor descreve. Nem sempre ver um filme ou uma série ajuda – tem diretor que visualiza mal, por incrível que pareça. Neste caso, não. A série de Ken Hannam tem um bom ritmo narrativo, bons atores, e hoje, muitos meses depois, quando releio algumas cenas do livro, não sei mais se minhas memórias visuais de agora se devem ao que imaginei por conta própria enquanto lia e traduzia, ou ao que vi nestes episódios. 

Aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=sFCUOPwBFd8