quinta-feira, 3 de setembro de 2026

5251) O vendedor de sagüins (3.9.2026)




Hoje ele veio bater de novo aqui na minha porta. A culpa é minha, que em abril do ano passado comprei a ele um sagüim que sabia ler. 
 
-- Ele só lê em português, mas está estudando outras línguas – tinha dito o misera, todo confiado, depois que fiz o teste. 
 
-- Eu não preciso de ninguém que leia em inglês, português basta – respondi, mordendo a isca dele. Naquela época eu tinha mais dinheiro, entrava em qualquer conversa só pra ver no que ia dar . – Mas estou ficando velho e meus óculos não prestam mais. 
 
-- Eu tenho um oculista caso o senhor precise – disse ele. – É meu sobrinho, recém-formado, tem um consultório em Del Castilho. 
 
-- Não, obrigado – disse eu. – Aceita cartão? 
 
-- Depende da bandeira. 
 
Depende da bandeira o cacete, era cartão Visa, e pela cara dele, os dentes, a camisa puída, ele aceitava até cartão de visita. Mas era esperto, era do ramo, ganhou na conversa, e na hora de passar o cartão na maquininha eu já estava com Siegfried encarapitado no meu ombro esquerdo. 
 
Sim, antes ele fez um teste. Não era dos mais difíceis, reconheço, e na verdade, pensando retrospectivamente, não passava de um número bem ensaiado entre ele e o animal. Ele desdobrou do bolso uma folha de papel toda amarrotada, com um texto impresso, abriu na frente de Siegfried, e mandou ler. 
 
E ele leu, em voz alta, porque, pensando bem, ler para si mesmo, sem nenhuma manifestação externa, qualquer um lê, não é verdade? 
 
Por exemplo, meu vizinho de apartamento, seu Natércio, passa a manhã inteira no sofá da recepção, com o jornal aberto, a testa franzida, e uma cara de quem fiscaliza a política internacional. Ele usa aqueles óculos pendurados ao pescoço com um cordãozinho verde e amarelo. 
 
-- Bom dia, seu Natércio. 
 
Ele olha por cima dos óculos e quando está de bom humor concorda, com um leve movimento da cabeça. Não me distraia, parece estar dizendo. Se eu me desconcentrar na leitura, o mundo vem abaixo. 
 
Pergunte a seu Natércio se ele está lendo o Globo ou o Extra, duvido que ele saiba a diferença. Que aliás não é muito grande. 
 
Pois bem: o bichinho lia em voz alta, grasnando com aquela voz fanhosa e fininha, voz que saía daquela laringe mais estreita do que uma caneta Bic. Não posso reproduzir aqui o texto, mas acho que eram salmos da Bíblia, que ele lia disciplinadamente, com aplicação. Fazia as pausas corretas tanto na vírgula quanto no ponto-parágrafo. Numa frase interrogativa, hesitava um pouco, creio que conferindo a pontuação final, e quando começava a dizer já se direcionava para a entonação correta. Em suma: não resisti. 
 
-- Quanto é?... 
 
O sujeito negaceou, fez preparativos psicológicos, acabou me propondo uma cifra que equivalia a três meses do meu aluguel, acabou deixando por um mês e meio, parcelado em quatro. Me entregou uma folha A4 plastificada, encimada pelo título CUIDADOS NECESSÁRIOS onde havia recomendações de alimentação, dormida, instruções de higiene; e um cartão de vacinação todo preenchidozinho. 
 
Paguei, apertamos as mãos, ambos agradecemos, e ele foi para o elevador. Fechei minha porta devagar, esperando que ele se despedisse de Siegfried, mas a verdade é que o comércio estiola os sentimentos das pessoas. O povo hoje em dia só pensa em dinheiro. Somos números e nada mais. 
 
E desde então tenho companhia, porque a verdade é que um velho de quase oitenta anos não pode morar sozinho. A gente precisa ter alguém com quem conversar, com quem reclamar da carestia e da temperatura, com quem desabafar diante da incompetência dos governantes e da inapetência dos governados. O mundo hoje em dia só pensa em política. 
 
A vantagem-bônus de Siegfried (descobri logo no primeiro dia de convivência) é que ele era, sim, capaz de ler com correção qualquer tipo de texto; mas não falava por iniciativa própria, ficava na dele, modestamente, trepado numa prateleira ou no encosto da poltrona (logo selecionado como seu lugar favorito). Nada dizia. Nada perguntava. Nada comentava. Mas respondia, a seu modo, quando eu mandava um prompt qualquer.  
 
-- Siegfried, e a eleição que vem por aí, você acha que a democracia tem chances?... 
 
-- Nunca mais. 
 
(Estou brincando, é claro. Piada de intelectual. O que ele disse foi: “Não senhor”.) 
 
Nas primeiras horas após a aquisição mergulhei num raro frenesi de atividades domésticas. Separei um canto na área de serviço (que felizmente é bem ampla, parece um terraço), improvisei ali, com caixas de papelão vazias, um pequeno habitat: quatro cubos sem quarta-parede, superpostos dois a dois, forrados com jornal e panos-de-chão recém-lavados. Botei pratinho, bandeja com frutas, lixeirazinha do lado (onde ele juntava as cascas e caroços depois de comer, algo que me maravilhou mais do que a leitura dos salmos de Davi). Panelinha com água, e um canequinho de ágata que antigamente eu usava para tomar cachaça, e que ele ignorou solenemente. 
 
Foi um dia atarefado e feliz. Velho morando sozinho já é uma monotonia; pior ainda quando é um velho que lê e maratona séries o dia inteiro. Interrompi a terceira temporada de Dark Winds, a sexta de Jovem Sheldon, a terceira de A Diplomata, a quinta de Black Mirror, a terceira de Slow Horses... Passei aqueles primeiros dias numa espécie de lua-de-mel zoológica com aquela inesperada aquisição. 
 
Claro que refiz os testes de leitura. Não sou um papalvo, não sou um mané. Sempre considero a possibilidade de estar sendo feito de otário por alguém mais esperto do que eu – alguém cujo nome é Legião, porque são muitos. 
 
-- Siegfried, leia isto aqui. 
 
Sentado no braço da poltrona, ele espichava o pescocinho para a frente, no gesto inconsciente de todo míope (gesto que ele rapidamente copiou de mim, o que me enterneceu), e lia. 
 
Outra coisa que me encantou foi que ele apontava com o dedinho indicador as palavras, à medida que as dizia em voz alta, e aquilo me garantiu que ele estava lendo mesmo. 
 
Ler o papel fornecido pelo vendedor poderia ser mero treino, não é verdade? Mas quando abri  ao acaso meu Invenção de Orfeu  ele se saiu muito bem, se descontarmos o fato de que antes da sexta estrofe ele anunciou: “Vi”, e que depois pronunciou errado um adjetivo pouco usual. Quantos universitários de hoje em dia seriam capazes de fazer melhor, pergunto eu? 
 
É inverno, acostumei-me a ficar na cama, embaixo dos edredons, com o laptop ligado, e Siegfried lendo alto, postado diante da telinha, numa pose de aborígine rezando diante de Uluru. 
 
E hoje de manhã ele estava me lendo Memórias do Cárcere (são quatro volumes, não tenho paciência), quando a campainha tocou. Levantei-me praguejando e fui atender. 
 
Era o cara. Estava mais magro, a camisa mais puída. Forçou um sorriso falsamente satisfeito ao me avistar. 
 
-- Olha ele aí, um dos meus melhores clientes! – exclamou, cheio de blandície. – Vim lhe trazer uma novidade, à sua escolha. 
 
-- Não, obrigado – respondi, só olhando. – O que eu tenho já chega. 
 
Percebi a enormidade do problema. O cara trazia uma pasta de couro para documentos, vestia um casaquinho de nylon mais aprumado. Mas trazia sagüins agarrados aos ombros, às pernas, ao cinturão, num relance calculei por alto em uma dúzia deles. 
 
-- Estes aqui leem francês, respondem perguntas, dão conselhos, extraem raiz quadrada, explicam mapas... Estão tendo muita saída, e me lembrei do senhor. São, perdoe a expressão, uma Inteligência Biológica Coletiva. 
 
Os sagüins se agitavam, pulavam inquietos para o chão e dali pulavam de volta às ilhargas do sujeito, olhavam para todos os lados com aqueles olhinhos pretos de catita, me acenavam com mãozinhas trêmulas. 
 
-- O senhor leva três e só paga dois. 
 
Pois é, não se recusa uma oferta irrecusável. E não me pergunte qual deles está redigindo isto aqui. 
 
 






quarta-feira, 26 de agosto de 2026

5250) A ciência do palíndromo (26.8.2026)




 
Nos dias 14 e 15 deste mês tive a alegria, misturada ao fascínio e à surpresa, de participar do IV Encontro Brasileiro de Palindromistas, o evento denominado “La Una Anual”, patrocinado pela “Liga Ágil”, entidade que congrega a linha-de-frente dos praticantes desta Grande Arte. 
 
Não custa lembrar, didaticamente, que um palíndromo é uma frase que pode ser lida nos dois sentidos, para a direita e para a esquerda, e ser sempre a mesma. Com liberdade (ninguém é de ferro) para mexer na divisão de palavras, mexer na pontuação, ignorar acentos ou sinais tipo cedilha, etc. É a letra pura que vale. 
 
Um troço dificílimo de criar!  Quem o garante sou eu, que passei meia hora tentando inventar um, para servir de título a este artigo, e acabei desistindo.
 
E uma coisa que para alguns pode até não ser “facílima”, mas produz resultados de arregalar os olhos de quem tentou em vão. Como mostram esses exemplos (entre milhares!) dos craques com quem troquei idéias e tomei cerveja naquele fim de semana. 
 
Ana Lia
Oro e temo. Rezar? Tem medo? Paz? A guerra varreu Gaza. Podem me trazer o meteoro!
 
André Santiago de Araújo
A tal é detetive.  Evite.  Te delata.
 
Edson Kanashiro
Ô Ciro... Mané!  De namorico?
 
Fábio Cajueiro
Após o vômito, ó... Tô ótimo, vó!  Sopa!
 
Fraga
A dó, ré, mi, Tom Zé fez motim e roda
 
Giba Assis Brasil
O baronato Brasil, ao alisar, bota no rabo
 
Leo Cunha
É tal au-au! Ih... Chiuaua late.
 
Pablo Javier Alsina
Ah, Satanás, se é bêbado, se tem sedes, mete soda, bebe essa Natasha
 
Ricardo Cambraia
O decano zarpava pra zona cedo
 
Rommel Girão
Se Covid repassam à massa, perdi vocês
 
Sílvio Lourenço
A diva doa, por amar, o pão da vida
 
... e por aí vai.
 


Fui parar nesse conciliábulo de oulipoetas por obra e graça da dupla Fraga & Giba, cujo livro Só Nós eles me deram a honra de prefaciar.  Não sou palindromista, embora vez por outra tenha cometido meus atrevimentos. Sou, porém, um admirador, defensor e divulgador da Grande Arte. 
 
“Arte?!”, alguém pode se encrespar, ofendido. E eu respondo: Se um hai-kai japonês é arte; se um brinco de diamantes é arte; se um miniconto atribuído a Ernest Hemingway é arte; se um vídeo que concorre ao “Festival do Minuto” é arte; se uma sextilha de Pinto do Monteiro é arte... 
 
Por que (e para quê) negar essa condição artística a essas frases que parecem, no espelhamento de sua ida-e-vinda, encerrar em si uma fórmula mágica, uma descoberta lúcida, uma maneira nova de produzir a Beleza através da Ordem, e de encontrar a Liberdade através do Rigor? 




Os exemplos que citei acima são tirados dos livros que ganhei, publicados pela Editora Carótide (atenção para a grafia palindrômica!), de Sílvio Lourenço, e da revista ArtSinistra editada pelo grupo. A cada página dessas coletâneas a gente esbarra em verdades surpreendentes, delicadezas líricas, mordazes sátiras políticas, ou simples tiradas absurdistas de fazer gargalhar Alfred Jarry. 
 
Há dois tipos especiais de palíndromos, que de certa forma apontam em direções contrárias. 
 
Chamo de Palíndromo Oracular aquele que, mediante o uso de palavras obscuras e de repetições sonoras (difíceis de evitar pela própria natureza do processo) lembra aquelas frases crípticas dos oráculos da Antiguidade, como a famosa Pitonisa de Delfos. 
 
Fraga:
Letra consagra Vargas no cartel
 
Ana Lia:
O mínimo átomo, tão mínimo
 
Edson Kanashiro:
Reli o pseudovodu: é spoiler
 
Na maioria dos palíndromos, as frases pedem que as releiamos com cuidado, avaliando cada palavra e deduzindo a relação sintática entre elas, bem como a consequente formação de sentido. 
 
Lembram também, para além dos oráculos místicos, aquelas frases enigmáticas que parecem aparecer do nada e se tornam uma fonte permanente de perplexidade e tentativas de decifração. É o caso do tradicional lema da Banda de Ipanema, no carnaval: Yolesman Crisbeles, ou daquela clássica pichação que frequentou os muros cariocas durante décadas: Celacanto provoca maremoto. 


 
Como também é o caso de versos famosos da tradição poética. O famoso verso inicial do Canto VII do Inferno, de Dante Alighieri: “Pape Satàn, pape Satàn aleppe”.
 
É assim que o deus Plutão confronta Dante e Virgílio quando os dois poetas se aproximam do Quarto Círculo dos infernos. E, ao que se diz, não há dois tradutores que interpretem da mesma forma essa invectiva inexplicável. 
 
E versos de nonsense em geral têm esse curioso magnetismo. Soam como uma frase à espera de ser lida de outra maneira e assim revelar seu segredo cifrado. Como os famosos versos de I Am The Walrus  de John Lennon: “Elementary Penguin singing Hare Krishna...” 
 
Não deve ser outra a razão que fez o notável palindromista britânico Anthony Etherin botar o nome de Elementary Penguin na revista eletrônica, recém-fundada, para a qual pede colaborações em forma de palíndromos, anagramas, lipogramas, versos aliterativos e por aí vai. 
 
Aqui:
https://anthonyetherin.wordpress.com/wp-content/uploads/2026/08/elementary-penguin.pdf
 
O outro tipo de palíndromo com que me deparo o tempo todo (se bem que menos frequente que  outro) é o que eu chamo de Palíndromo Invisível. É aquela frase em que o autor conseguiu um certo grau de coloquialidade e fluência, obtendo uma dicção tão “normal” que só numa segunda leitura percebemos o artifício, e às vezes só o fazemos porque a frase está num livro de palíndromos, então... 
 
Ricardo Cambraia:
Rezar pode, tio, na noite do prazer?
 
Pablo Alsina
Omitiram o dado marítimo
 
Giba Assis Brasil
E a sua, pô, nem menopausa é
 
O palíndromo muitas vezes “entrega” de cara sua natureza artificial pela repetição de sons, que é inevitável, ou melhor, é obrigatória. Quando há muitas letras parecidas, o leitor experiente detecta isto sem muita demora. Quando em pontos simétricos da frase aparece um Z ou um X ou outra letra pouco usual, idem. 
 
Um palindromista hábil e persistente será capaz de infiltrar palíndromos não-identificados numa tese acadêmica, num artigo de revista, num título, numa postagem. E ficar na moita, à espera. Um dia, alguém perceberá a presença daquela criatura grega bifronte, e terá um susto: “Mas quem fez isto, para que fez isto, como fez isto, como alguém foi capaz de fazer isto? “ 
 
E não compreenderá.




quarta-feira, 19 de agosto de 2026

5249) "Backrooms" e os espaços liminares (19.8.2026)



 
A mitologia dos espaços liminares está se propagando com rapidez. Ela envolve a noção do ambiente fantástico em si, e de uma estranheza que não brota da presença de monstros, nem de seres sobrenaturais, mas da própria natureza do espaço em que transcorre a ação.  
 
O espaço liminar nos produz a impressão contraditória de ser um espaço humano e ao mesmo tempo não-humano, um espaço que à primeira vista parece banal e cotidiano, mas à segunda vista passa uma impressão de uma estranha morbidez, de algo “que não está certo”. 
 
A Internet e seus grupos de malucos obsessivos contribuiu muito para isto através do meme do “Yellow Room”, sobre o qual já falei aqui: 
 
“The Yellow Room”:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2024/06/5068-os-espacos-liminares-362024.html
 
O recente filme Backrooms (Kane Parsons, 2026) deu uma esquentada nesse tema, o que aliás o jovem diretor de 20 anos já vinha fazendo através de uma série homônima de vídeos no YouTube, cujo sucesso fez surgir uma produtora capaz de bancar um filme dirigido com bastante segurança, apesar de várias concessões ao cinema-clichê (falo disso mais adiante). 
 
O conceito de espaço liminar flutua muito próximo do conceito de “Uncanny Valley” – aquela imprecisa região mental em que um rosto ou vulto nos parece estranhamente humano e ao mesmo tempo não-humano. Ou quando, de acordo com a descrição de Sigmund Freud (The Uncanny, 1919), vemos um manequim ou estátua e pensamos tratar-se de uma pessoa, ou vemos uma pessoa que nos dá a sensação de um ser artificial. 
 
No filme, Clark (Chiwetel Ejiafor) é um arquiteto frustrado que virou dono de loja de móveis. Ele separou da mulher, e está fazendo terapia com a dra. Mary (Renate Reinsve), a qual também tem lá seus traumas mal resolvidos. Ele descobre na parede da loja uma passagem para um “espaço liminar” surrealista, aleatório, inexplicável. E ali dentro acontecem coisas estranhas. 



(The Yellow Room)
 
Kane Parsons baseia sua paleta de cores e o senso de desorientação espacial na foto famosa do “salão amarelo”. É um espaço labiríntico, mas um labirinto desmiolado. Não parece destinado a confundir ninguém; ele próprio é confuso, ou é o produto confuso de alguma semi-inteligência super-poderosa. 
 
Sua geografia interna lembra o clássico exemplo de Jorge Luís Borges em “O Imortal” (1947): 
 
No palácio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim. Abundavam o corredor sem saída, a alta janela inalcançável, a porta aparatosa que dava para uma cela ou para um poço, as inacreditáveis escadas inversas, com os degraus e a balaustrada para baixo.
 
O conto de Borges vem influenciando gerações sucessivas, mas ele próprio já traz em si a influência de Piranesi, e talvez de seu contemporâneo M. C. Escher. 



Mais do que isto, porém, Kane Parsons, nascido em 2005, traz para seu labirinto o espaço dos jogos eletrônicos, o gamespace, algoritmicamente multiplicável, reprodutível, inexaurível. Há um excesso de espaço; não de um espaço preexistente, e sim de um espaço que se expande à medida que o jogador avança. Um espaço não-real, um espaço subjetivamente criado pelo desejo do jogador ao dar um passo à frente. 
 
O arquiteto Clark faz tentativas valentes de domesticar mentalmente este espaço: ele marca na parede os portais de entrada e saída, e tenta mapear os salões que percorreu. 








 
Backrooms tem sido chamado pela crítica de “Institutional Gothic”, que seria um “Gótico Corporativo” – um novo gênero que pode ser descrito (ou pelo menos evocado) a partir de um tipo específico de arquitetura. Cada época produz um tipo de arquitetura capaz de traduzir em si o delírio de grandeza que predomina nesse tempo. 
 
Clark descobre esse mundo de pesadelo ao atravessar uma parede, tal como a “Alice” de Lewis Carroll ou o “Orfeu” de Jean Cocteau atravessam o espelho. Depois de atravessar, ele se vê perdido num ambiente de espaços inúteis, espaços profissionalmente executados mas cheios de anomalias. 



 
Aquele espaço parece virtualmente inesgotável. É como o espaço aparentemente imensurável dos labirintos reiterativos de Doom, ou a planta baixa “que não bate” do Overlook Hotel de O Iluminado. 
 
E mais. Aqui e ali, salões vazios ocupados apenas por “coágulos de mobília”, ou móveis semi-afundados nas paredes ou no chão, como se tudo aquilo fosse feito de uma mesma massa informe, camuflada de materiais normais. Tudo começa a parecer uma tentativa de uma Inteligência Artificial de reproduzir um ambiente humano, mas cheio das aberrações que se pode esperar de um caso assim. 





O mesmo se aplica às criaturas aparentemente humanas que Clark encontra dentro dos “backrooms”.  Não são feitos de carne e osso, mas de um material indiferenciado, como uma espuma, só que (diz ele) uma espuma comestível. Elas lembram... o quê?  Lembram as aberrações gráficas produzidas pela Inteligência Artificial, que se atrapalha (ainda) ao reproduzir feições humanas, mãos, corpos. 





 
O filme oscila entre esse surrealismo arquitetônico e o filme-de-monstro convencional. Afinal de contas, o diretor tem vinte anos, e certamente está criando dentro dos horizontes de expectativa de sua geração – e o horizonte de expectativas dos grisalhos executivos da produtora não difere muito deste. 
 
O terço final do filme mostra Clark e a Dra. Mary sendo perseguidos por monstros nos quais identificamos pessoas do seu passado, o que nos leva inevitavelmente a ver naquele espaço fantasma (milhares de metros quadrados de área urbana, escondidos no interior de uma loja de móveis!) uma projeção simbólica do inconsciente deles dois. 
 
E como não faz muito sentido (num contexto assim) ter um labirinto e não ter um minotauro, o Monstro aparece, uma caricatura do próprio Clark, de sua agressividade, suas frustrações, etc. 
 
A minha diferença em relação ao público-alvo do filme é que para mim o labirinto bastaria; os monstros são uma concessão popularesca ao cinema-clichê. 
 
As últimas sequências sobem um nível em relação à narrativa central até aquele ponto, revelando uma moldura narrativa que projeta todo o enredo num plano de ficção científica – a revelação (ou pelo menos a insinuação) de uma “situação mais ampla” da qual a história daquele filme foi uma manifestação isolada. 
 
Filmes-sequência certamente virão. Este primeiro título tem muita coisa boa em termos de projeto visual, direção de arte, inserção esperta num universo “creepy pasta” (terror popularesco) que fervilha na Web, um senso intuitivo de desorientação espacial. 
 
É um filme híbrido, com uma premissa de Black Mirror e um terço final de Goosebumps. Em todo caso, é uma nova franquia que sai das telinhas do celular para a telona das salas, e tudo ainda está em aberto. Como num conto de Borges, é um universo invadindo outro, e quem viver verá. 











quarta-feira, 12 de agosto de 2026

5248) John Crowley, 1942-2026 (12.8.2026)




 
Um dos grandes estilistas da literatura fantástica partiu o cordão e foi-se embora. John Crowley era professor de literatura (Yale), roteirista premiado de numerosos documentários. E foi, principalmente, um autor que ao invés de tentar se apequenar para caber num gênero, ele expandiu o gênero para se ajustar aos horizontes-de-expectativa da literatura contemporânea. 
 
Escrevia aquilo que a imprensa dos EUA chama de “ficção científica literária”, que para alguns é uma contradição, um oxímoro; mas para mim é uma redundância tão grande quanto escrever “samba musical”. 
 
Tinha uma imaginação imprevisível, e atravessava as fronteiras dos gêneros literários como um automóvel passa através da chuva. 


 
Meses atrás terminei a leitura de Little Big (1981), um romance imenso e seu livro mais famoso, aquele que Harold Bloom considerava extraordinário. É um dos livros que aos meus olhos definem o gênero de “fantasia urbana”: um tipo de narrativa fantástica que pode incluir magia, entes sobrenaturais (elfos, ou outras coisas), mas que está ancorada numa realidade urbana contemporânea, moderna. 
 
Como dizia um autor: “é aquele tipo de história em que as fadas viajam no metrô”. 
 
Little, Big é a história da família Drinkwater, uma família excêntrica que mora numa gigantesca casa de campo no interior do Estado de Nova York. A família se relaciona com criaturas do reino das fadas, peixes falantes, cartas de Tarô, pássaros e insetos inteligentes; mas a história não tem nada de juvenil ou ingênua. É a história de uma família em vagaroso envelhecimento, de poderes sobrenaturais que vão se esvaindo, e de pessoas que se consideram reais até o momento em que começam a pensar que aquilo é apenas uma grande Estória sendo contada por alguém.  
 
Escrevi mais longamente sobre este livro, aqui: 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2025/01/5145-little-big-e-fantasia-urbana.html
 
Ele imaginava, às vezes, se existiriam diferentes nomes para diferentes tipos de sonho. Este sonho de agora pertencia ao tipo em que você parece estar contando uma história a alguém, e ao mesmo tempo vivenciando a história que conta.
(“In Blue”, trad. BT) 
 
Crowley começou sua carreira com romances de ficção científica, curtos e densos (The Deep, 1975; Beasts, 1976; Engine Summer, 1979), propondo universos surpreendentes que tinham de ser decifrados passo a passo. Isto o marcou como um “autor difícil”, e ele nunca pôde ser escritor em tempo integral, teve que recorrer a outros empregos para se manter. 
 
Compensou parcialmente isto com o sucesso de Little, Big, que ganhou o “World Fantasy Award” e o “Mythopoeic Award”, tornando-se imediatamente um cult book nos EUA. 
 
Talvez sua obra mais ambiciosa seja o quarteto de romances “Aegypt”: Aegypt / The Solitudes (1987), Love & Sleep  (1994), Daemonomania (2000) e Endless Things (2007). Seu tema é a magia Renascentista (de magos-filósofos como John Dee), aplicada ao mundo moderno. 
 
Tenho um carinho especial por The Translator (2002), a estória de um misterioso poeta russo (será ele um ser sobrenatural?) que vai morar nos EUA e começa uma amizade com a jovem norte-americana a quem cabe traduzir seus poemas para o inglês. 



Comentei aquilo este belo livro:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/01/1590-o-transleitor-1742008.html
 
Outra de minhas obras crowleyanas preferidas é a noveleta de viagem no tempo Great Work of Time (1989). Uma máquina do tempo é inventada e um homem tem a chance de viajar para o passado, sabendo que não vai poder carregar nada muito volumoso na volta. O que faz ele? Volta à Guiana Inglesa em 1856 e se apossa de um exemplar do “selo magenta” emitido naquele ano, e que agora é o mais raro e valioso do mundo. 
 
O cara quer apenas enriquecer, mas sua máquina do tempo acaba caindo nas mãos de um grupo determinado a evitar a queda do Império Britânico. Viagens no tempo e escaramuças entre grupos rivais se multiplicam. É uma grande aventura, e uma reflexão sobre a História e o determinismo. 
 
Não era apenas um mundo habitado por raças inteligentes de tipos distintos: era algo mais difícil de racionalizar. As vidas daquelas raças constituíam diferentes universos de significado,  diferentes construções da realidade; Era como se quatro ou cinco diferentes romances, romances diversos escritos por autores com diferentes limitações, estivessem se penetrando uns aos outros e se confundindo. Dentro de um gigantesco romance russo brotava uma novela policial seca e cortante, e no interior desta algo que vagamente lembrava Charles Dickens, algo repleto de enredos e humor e excentricidade. Um tal entrelaçamento de universos mutuamente excludentes podia ser até cômico, como uma tirinha da revista semanal; e podia ser trágico. E podia também não ser nada disso, podia ser apenas a vida do jeito que era, aquele estado de coisas de encontro ao qual todas as imaginações viriam a ser medidas: a realidade. 
(“Great Work of Time”, trad. BT) 
 
Falei que Crowley era um grande estilista, ou seja, “um cara que escreve bem”. No mundo de hoje, “escrever bem” é visto muitas vezes como escrever de maneira enfeitada, com palavras difíceis ou longos períodos intrincados, Convencionou-se que escrever bem é escrever parecido com Machado de Assis; ou com Guimarães Rosa; ou com Marcel Proust. Ora, escrever bem é como dançar bem: é conseguir o melhor resultado possível com o corpo que se tem. 
 
Aqui, dei exemplos comentados do “escrever bem” de John Crowley. Um autor que deve dar gosto de traduzir. 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/02/1602-eyeball-kicks-152008.html
 
Pensando nisso, fui catar sua bibliografia no portal do ISFDB. Há apenas duas obras dele traduzidas em português. A noveleta O Manuscrito Perdido de Lord Byron, publicado em 2008 em Portugal pela Saída de Emergência (trad. Isabel C. Penteado); e o belo conto “Snow” (“Neve”) que traduzi e incluí na minha antologia Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Rio, Ímã Editorial, 2011). 



 

 
 




terça-feira, 4 de agosto de 2026

5247) Contracapa de Claude (4.8.2026)



(Saul Steinberg, "Bicycles", 1968)

 
&  um vampiro com dentes de castor, que não param de crescer 
 
&  é a luta do Gardel do bordel contra o cartel de Bordeaux 
 
&  se o Ministério da Defesa não resolve, seria melhor criar um Ministério do Ataque 
 
&  o fundo de um lago tem mais revelações do que sua superfície 
 
&  a Genética ainda será capaz de nos fornecer peixes sem espinhas e galinhas com seis corações 
 
&  é aquela exceção que ajuda a tornar mais nítida a regra 
 
&  bem que os roteiristas podiam começar a considerar o conceito de Sub-Heróis 
 
&  o ar está cheio de pegadas do meu corpo 
 
&  quando o locutor diz “ainda tem muito jogo pela frente” é porque a coisa não está nada boa 
 
&  sapo que engole bomba pula mais longe do que pretendia 
 
&  meu preço por frase é dois reais – um real material e um real simbólico 
 
&  nós dois somos iguais e diferentes, como duas bolachas do mesmo pacote 
 
&  vagaroso como uma constelação se desmanchando 
 
&  a vela diminui de tamanho para que a chama permaneça a mesma 
 
&  aquela casa tem uma energia tão ruim que o sol chega na janela e não entra 
 
&  pelo menos ainda não inventaram a moda de todo mundo andar com um apito ao pescoço 
 
&  se derem um jeito de reunir a I. A. e a telequinésia, talvez eu me anime um pouco 
 
&  certas lembranças desaparecem tão lentamente quanto um corpo jogado no matagal 
  
&  quando estou comendo na casa alheia, minhas mãos viram dois pés descalços 
 
&  toda madeira já foi árvore, todo plástico já foi petróleo, todo vidro já foi areia 
 
&  galinha cega também põe ovo
 
&  a única coisa na Natureza que se reproduz espontaneamente é a besteira
 
&  a literatura não tem como base a palavra, e sim a frase
 
&  quem tem panela não tem medo de goteira
 
&  eu me preocupo mais em rua cheia do que em rua deserta
 
&  tem discussão em que a gente entra esmolambado e sai príncipe-rei
 
&  trabalhar assim é um pouco como comer com faca e colher
 
&  o que é simétrico dá às vezes a ilusão de que é certo
 
&  não, não é a luz no fim do túnel, acho que é a lua no fundo do tonel
 
&  será que os cavalos-robôs comem grama sintética?
 
&  o tempo do corpo é linear, o da mente é não-linear, o da imaginação é 3-D
 
&  você não vale uma baga de bagulho, uma casca de basculho, um farelo de carvão
 
 




terça-feira, 28 de julho de 2026

5246) "Corpo de Baile" (28.7.2026)



 
Nesta quarta-feira, 29 de julho, estarei fazendo uma aula aberta, online, como prévia para divulgação para o curso que vou realizar durante o mês de agosto, tendo por objeto o livro Corpo de Baile, de Guimarães Rosa. É uma produção da “Escrevedeira”, o conhecido e dinâmico centro cultural paulistano. O curso acontecerá online, todas as segundas-feiras (dias 10, 17, 24 e 31 de agosto), das 19 às 21 horas. Inscrições e informações aqui: 
 
https://escrevedeira.com.br/curso/sete-portas-para-corpo-de-baile-uma-introducao-ao-livro-de-guimaraes-rosa/
 
A idéia deste curso surgiu de um convite da Profa. Noemi Jaffe, e se liga ao fato de que em 2026 estamos comemorando 70 anos da publicação original do Grande Sertão: Veredas e do Corpo de Baile.  
 
Guimarães Rosa fez no ano de 1956 algo que qualquer editor de bom senso desaconselharia nos tempos de hoje: publicou, com poucos meses de intervalo, dois livros gigantescos, ambos com mais de 500 páginas, escritos numa linguagem inesperada, desconcertante, difícil. 
 
Grande Sertão fez um sucesso gigantesco, e merecido. É um dos maiores e mais recompensadores romances de nossa literatura. Mas o pobre do Corpo de Baile ficou numa posição secundária, meio fora de foco, meio na sombra. É um livro magnífico, mas as pessoas que conseguem transpor o Grande Sertão de ponta a ponta soltam um suspiro de alívio, e se dão por satisfeitas. Não é todo mundo que resolve encarar o outro Everest. 
 
Na sua correspondência da época, Rosa (sempre brincalhão) chamava um dos livros de “mastodonte” e o outro de “cetáceo”. Dizia isso sem culpa e sem pompa. Sabia que eram livros enormes e difíceis. E daí? Como ele mesmo alertou, numa carta a sua tradutora norte-americana Harriet de Onís, “acabarão se acostumando”. Acostumamo-nos. Não conseguimos mais viver sem isso. 




É um bom momento para conhecer Corpo de Baile, ou para reler suas sete novelas, que valem muito a pena. É como se o Grande Sertão, com sua história una, bem costurada, implacável, ocupasse o centro desse universo ficcional, e as sete novelas de Corpo de Baile fossem prolongamentos, “puxadinhos”, expansões desse centro, mas todas com seu próprio mundo interno, seu elenco de personagens pitorescos ou góticos, suas situações bizarras, seu dramas intensamente humanos. 
 
Num artigo recente na revista 451, comentei o fato de que esse díptico de obras de Guimarães Rosa constitui uma espécie de “Guerra e Paz” do sertão mineiro. O Grande Sertão é a história da grande guerra dos jagunços; Corpo de Baile, que tem raríssimas explosões de violência, é um painel variado e pacífico desse mesmo sertão quando não é assolado pela violência armada. 
 
São sete narrativas, que Rosa, com seu típico humor irreverente, classifica como “novelas”, “romances” ou “poemas”, de modo intercambiável. Pouco importam os rótulos acadêmicos. Cada leitor encontra em cada texto o que estiver procurando. 
 
Campo Geral
É a primeira narrativa. Uma história que tem a duração de alguns meses (ou poucos anos) da infância do menino Miguilim, na fazenda do Mutum, com seus pais e irmãos. Miguilim é um menino introspectivo, que pensa muito, tem uma relação difícil com o pai, e uma amizade profunda com o irmãozinho Dito. A família passa por tragédias e momentos difíceis. Um médico de visita à região percebe que Miguilim é míope, empresta-lhe uns óculos, vê como a vida do garoto se ilumina. Ele simpatiza com Miguilim e se oferece para levá-lo para a cidade e pagar seus estudos. 
 
Uma estória de amor (A festa de Manuelzão)
O velho vaqueiro Manuelzão mora na fazenda Samarra, como capataz e administrador. Solitário, calejado pela vida de gado, Manuelzão manda construir uma capela na fazenda, e a inaugura com uma grande festa. Ao longo de dois dias e duas noites, ele recebe (e o autor descreve com fina percepção social e psicológica) dezenas de moradores da região. Manuelzão tem um filho adulto e problemático, tem uma nora atraente, tem um patrão onipresente e distante. Ao longo dessas noites de festa, reavalia sua vida e suas relações pessoais, enquanto se prepara para sair novamente conduzindo uma boiada. 
 
A estória de Lélio e Lina
Lélio é um vaqueiro jovem que chega para trabalhar na fazenda do Pinhém. Ele curte uma desilusão amorosa e procura se consolar apaixonando-se sucessivamente por várias moças da fazenda, cada uma delas com suas seduções e seus inconvenientes. Fica amigo de uma senhora, D. Lina, com idade para ser sua mãe. A fazenda é vendida para novos donos. Lélio e D. Lina acabam indo embora dali para morar juntos, numa relação que o autor descreve à distância, sem revelar muita coisa, mas mostrando como na vida real um rapaz de 25 anos e uma mulher de 70 podem estabelecer o que Shakespeare descreveu como “um matrimônio de almas sinceras”. 
 
O Recado do Morro
Uma expedição científica percorre uma região de Minas. O guia, Pedro Orósio, é um rapaz hercúleo e simplório. A certa altura, perto do Morro da Garça, um velho eremita diz ter escutado o morro falando, mandando um recado para eles. Durante o resto da viagem, esse recado meio absurdo vai sendo repetido, deformado e passado de boca em boca. Na volta, ele é transformado em canção e acaba servindo de aviso a Pedro Orósio, revelando um plano para matá-lo, e isto salva sua vida. Guimarães Rosa descrevia este conto, um dos mais vívidos e enigmáticos de sua obra, como uma ilustração do processo pelo qual uma canção é composta. 
 
Dão-Lalalão
A estória em si dura menos de 24 horas, indo de uma tarde até a manhã seguinte. O fazendeiro (ex-vaqueiro) Soropita mora como rei e senhor em sua fazenda num local remoto; sua esposa, Doralda, é uma ex-prostituta pela qual ele se apaixonou quando a encontrou num bordel de Montes Claros. Num dia comum, Soropita está voltando a cavalo para casa quando encontra na estrada um grupo de vaqueiros, entre eles seu amigo Dalberto. Convida Dalberto para pernoitar em sua fazenda. Sente ciúmes da esposa, devido à presença de Dalberto. Na manhã seguinte desabafa sua fúria e insegurança fazendo ameaças aos amigos deste. Este conto é uma das melhores ilustrações do ciúme masculino em nossa literatura. 
 
Cara-de-Bronze
Numerosos vaqueiros se encontram na fazenda do velho Cara-de-Bronze, um fazendeiro riquíssimo e recluso, meio paralítico. Estão juntando várias boiadas para viajarem juntas. Comentam o fato de que o fazendeiro vive trancado num quarto, mas tem um emissário, o Grivo, que viaja pelo sertão e lhe traz informações de todo tipo. Nesta história, Guimarães Rosa usa um surpreendente arsenal de formas narrativas: roteiro de cinema, peça de teatro, diálogo, versos de cantadores, listas de plantas e de coisas da natureza do sertão. 
 
Buriti
O veterinário Miguel (o menino Miguilim de “Campo Geral”, agora adulto) visita duas fazendas vizinhas e conhece seus donos: Nhô Gualberto, casado com uma mulher doente, e Iô Liodoro, viúvo, que tem duas filhas e está hospedando uma nora, abandonada por um dos seus filhos. É a história mais longa de todo o livro, e seu foco narrativo passa por vários personagens. É contada do ponto de vista de Miguel, e depois se transfere para o ponto de vista de duas moças, Glorinha (uma das filhas) e Lalinha (a nora). Um personagem, Mestre Ezequiel, é um homem excêntrico que de noite náo consegue dormir porque sente estar escutando todos os barulhos das criaturas do mato, o que lhe dá a impressão de ser ameaçado por inimigos invisíveis. 
 
O sertão que Guimarães Rosa descreve em Corpo de Baile está mais próximo do universo variado e surpreendente de Sagarana (1946), o livro de estréia do autor. Ali estão os enredos aparentemente simples mas cheios de labirintos e sutilezas; os personagens rurais dotados de uma psicologia inesperadamente complexa, num tempo em que a chamada “literatura regional” requentava retratos de caipiras simplórios ou abrutalhados. E, acima de tudo, a linguagem inesgotavelmente inventiva do autor, tirando um coelho novo da cartola a cada frase. 
 
Corpo de Baile era um livro enorme, tanto que o próprio autor o subdividiu depois em três volumes que podemos encontrar hoje nas livrarias: Manuelzão e Miguilim (que inclui “Campó Geral” e “Uma estória de amor”), No Urubuquaquá, no Pinhém (“O Recado do Morro”, “Cara de Bronze” e “A estória de Lélio e Lina”) e Noites do Sertão (“Dão-Lalalão” e “Buriti”). 





 
 
 
 
 
 




segunda-feira, 20 de julho de 2026

5245) Copa 2026: futebol tem lógica (20.7.2026)



 

Espanha 1x0 Argentina! 
 
E pronto, a Espanha tornou-se, pela segunda vez, campeã do mundo. Na minha cabeça, isto desmente pela milésima vez o antigo clichê dos coleguinhas comentaristas esportivos: “Ah, futebol não tem lógica!...”. 
 
A lógica do futebol não é uma lógica exata, é uma lógica de Ciências Humanas, e sendo assim só pode funcionar por aproximação, ou probabilisticamente. 
 
Se, no jogo deste domingo, a Argentina conseguisse fazer 1x0 na prorrogação e ganhasse o título, o resultado também teria por trás de si uma lógica implacável, mesmo que dolorosa. Quem não faz, leva. Com a Argentina não se brinca. Com Messi em campo, tudo pode acontecer. 
 
A Ciência é forçada a lidar com esse tipo de lógica difusa (“fuzzy logic”).  Não há certezas. Mesmo uma tendência esmagadora na direção “A” pode ser revertida bruscamente na direção “B” por um fator inesperado, dificilmente previsível. E isso está na raiz do jogo de futebol. 
 
A Espanha foi campeã, mas na cabeça de muita gente esta Copa ficará conhecida como “a Copa de Cabo Verde” – essa seleção desconhecida e inesperada que não perdeu para a seleção campeã, e só foi derrotada pela vice-campeã Argentina depois de muito suor, num jogo equilibradíssimo que facilmente poderia ter tido um placar inverso. 


(foto: Chandan Kanna)
 

Toda Copa do Mundo produz uma dúzia de narrativas épicas: o grande time que fracassou na hora H, o jogador obscuro que fez o gol do título, o time azarão que aplicou uma zebra num favorito, o erro do juiz que até ele mesmo concordou, o zagueiro que fez um gol contra e foi assassinado, o potentado que tentou mudar o resultado de um jogo, o acidente lamentável que pode ter cortado pelo meio uma carreira... 
 
Cabo Verde trouxe para a Copa 2026 a aventura improvável vivida por uma ilha minúscula. Ela saiu “pegando no laço” jogadores do mundo inteiro com algum vínculo genealógico, e montou um time medianamente competitivo. Mostrou em campo que esses atletas (que não jogam no país) eram capazes de muito mais garra e determinação do que seleções consagradas e elencos com milionários contratos de publicidade. 
 
O grande jogo da Copa, para mim, foi Argentina 3x2 Cabo Verde, 120 minutos de um confronto em que cada palmo da grama foi disputado com sangue, suor e lágrimas, e com muito talento de parte a parte. 
 
Pertinho desse jogo eu colocaria Inglaterra 3x2 México, no caldeirão do Estádio Azteca, com belos gols, um clima sufocante, e uma resistência heróica dos ingleses reduzidos a dez homens em campo. 



O Brasil fez jogos mornos, sem grande brilho e sem grandes emoções. O melhor jogo nosso foi a virada sobre o Japão, não por ter mostrado um grande futebol, mas pelo sofrimento de começar perdendo, conseguir o empate, e depois fazer o gol da vitória no último minuto. 
 
Nossa Seleção joga sem alma. Joga com a tensão acabrunhada (ou com a empáfia postiça) de quem já começa devendo e sabe que não tem com que pagar. 
 
Tem um técnico que se adapta bem ao material humano de que dispõe. Foi assim que Carlo Ancelotti ganhou tudo pelo Real Madrid, mas veio parar, coitado, num covil de raposas que é a CBF, a política brasileira, a publicidade brasileira, a imprensa brasileira e as redes sociais brasileiras. Desejo-lhe sorte da próxima vez, mas sem muita esperança. Metade desta Copa ele perdeu na convocação. 
 
A Espanha foi campeã jogando esse jogo de cerca-cerca, tocando bola e chegando aos poucos. Não é o meu futebol preferido. Gosto de times rápidos, que esticam passes em profundidade... Jogadores que entram na área driblando quem aparece pela frente... Times que chutam em gol de qualquer ângulo e de qualquer distância... Sou o último romântico. 
 
Admiro a tática e a técnica, mas gosto mais da garra, daí que mesmo a contragosto aplaudi a via-crucis da Argentina e a admirável presença de Lionel Messi. Nestas últimas partidas, Messi parecia um jogador radioativo. Pegava a bola na ponta-direita e os adversários ficavam a três metros de distância. Ninguém queria partir pra cima do toureiro. 
 
E o jogo avança no formato de sempre: a bola vai para a ponta-esquerda, é tocada para o jogador mais à direita, deste para o próximo, até chegar na ponta-direita, e ai recomeça tudo no sentido inverso, num semi-círculo de passes à frente da área, à espera de um deslocamento milagroso, uma rachadura no muro da represa. 
 
É o jogo do City de Guardiola, time que admiro (também a contragosto), porque sei o quanto aquilo exige inteligência e habilidade de quem faz a bola circular daquele jeito. É só uma questão de gosto, mesmo. Gosto de times que, quando se apossam da bola, partem a toda velocidade na direção do gol, três, quatro, cinco jogadores ao mesmo tempo, como se o jogo fosse acabar daí a dez segundos. 
 
A Copa teve seus momentos baixos, claro. As absurdas intervenções do presidente dos EUA na arbitragem, e na foto da premiação. E o tratamento vergonhoso dispensado pelo Estado policial norte-americano a jogadores da África e principalmente do Irã. 



É uma coisa meio surrealista você saber que dois países estão em guerra (mesmo uma guerra não oficialmente declarada, pois o Congresso dos EUA não a autorizou) e um deles tem que receber a seleção (e os torcedores) do outro. Parece um roteiro a quatro mãos entre Douglas Adams e George Orwell. 
 
Lembro de Orwell porque o autor de Animal Farm tem um ensaio famoso contra o futebol, escrito logo após a II Guerra, quando os ódios nacionalistas da Europa ainda não tinham arrefecido. 



Aproveitando uma excursão do Dínamo de Moscou pela Inglaterra, para enfrentar times britânicos, Orwell arregaçou as mangas e mandou ver.
 
Agora que a breve visita da equipe de futebol do Dínamo chegou ao fim, é possível dizer publicamente o que muitas pessoas lúcidas vinham afirmando em privado, antes mesmo da chegada do Dínamo. Ou seja: que o esporte é uma fonte inesgotável de animosidade, e que se uma visita dessa natureza teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas foi o de torná-las um tanto pior do que já estavam.
(“The Sporting Spirit”, 1945, Essays, Penguin, 2000, trad. BT)
 
Orwell vê essas disputas, compreensivelmente, não como um enfrentamento meramente esportivo, mas como símbolos do espírito de cada nação.
 
O detalhe mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude do público e, para além do público, das próprias nações, sujeitas a ataques de fúria a propósito desses embates absurdos, e que acreditam seriamente – pelo menos por curtos períodos de tempo – que o ato de correr, pular e dar pontapés numa bola são testes para as virtudes nacionais.
 
Ele não vê muitos elementos redentores no esporte:
 
O esporte levado a sério não tem nenhuma relação com “jogo limpo”. Ele é repleto de ódio, ciúme, arrogância, desprezo pelas regras, além do prazer sádico na contemplação da violência. Em outras palavras, é a guerra, só que sem disparos de armas de fogo.
 
Acho que isso coloca em perspectiva, inclusive, o papel do Brasil dentro da história do futebol mundial. Quando começou a II Guerra, tinham acontecido apenas três Copas: 1930 (campeão Uruguai), 1934 e 1938 (bi-campeã Itália). E o conflito cancelou, obviamente, as Copas que poderiam ter acontecido em 1942 e 1946.


 
Depois de uma guerra sangrenta e um hiato de doze anos, o Brasil construiu “o maior estádio do mundo” para acolher equipes do mundo inteiro. Foi uma espécie de Woodstock da paz. Num clima de muita politicagem e demagogia, mas, enfim – foi uma grande Copa, e podemos mesmo considerar que foi uma espécie de recomeço. A moderna Copa do Mundo começou em 1950.
 
O Brasil deu chocolates memoráveis nos europeus (7x1 na Suécia, 6x1 na Espanha). João Saldanha, que não se iludia facilmente, afirmava: “A juventude da Europa foi estraçalhada pela guerra. Daqui a uma ou duas gerações a coisa vai mudar”.
 
Mas o Maracanã inteiro cantou “Touradas em Madri” fazendo Braguinha chorar na arquibancada, e o time do Uruguai introduziu, no jogo final, o pulo-do-gato da “fuzzy logic” que deixaria perplexos tantos observadores, fossem cartesianos ou marxistas.
 
Eu vejo essas coisas como torcedor, ou seja, na condição de quem compartilha uma fantasia coletiva, e toda fantasia coletiva se parece com uma Realidade. Já o bravo George Orwell não conta conversa:



(Orwell, by Baptistão) 

 
A maior parte dos esportes que hoje praticamos tem origem na Antiguidade, mas o esporte não parece ter sido encarado muito a sério entre a era romana e o século 19. Mesmo nas escolas públicas britânicas o culto aos jogos não floresceu senão a partir de meados do século passado. (...) E então, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os jogos começaram a se constituir numa atividade com pesado financiamento, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção começou a se alastrar pelos demais países. E são os esportes mais violentos, o futebol e o boxe, os que mais se espalharam. Sem dúvida isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, ao lunático hábito moderno de um indivíduo se identificar com grandes estruturas de poder e passar a enxergar todas as coisas pelo ângulo da competição e do prestígio.
 
O autor dessas linhas estava se preparando para escrever sua obra final, 1984, com seus conflitos globais entre Lestásia, Eurásia e Oceania, com seus “dois minutos de ódio” em salões coletivos, seu culto à personalidade, sua vigilância eletrônica.
 
E o nosso VAR, esse sistema misto de câmeras e computação gráfica, não acaba virando uma espécie de reescritura dos fatos e de reescritura da História pelo “Ministério da Verdade” orwelliano, em que as notícias dos jornais passados são reescritas e os jornais reimpressos, de modo a que fique valendo a versão imposta por quem detém o poder tecnológico de fornecer informação?
 
Bem, desculpem a digressão, acabei me distraindo e perdendo o fio da meada. Parabéns Espanha, parabéns Lamine Yamal e Cubarsí, jogam muito, esses garotos.