quarta-feira, 22 de abril de 2026

5231) Os 100 anos da Ficção Científica (22.4.2026)




(O número 1 da Amazing Stories, abril de 1926)
 
 
O ano de 2026 vem sendo saudado em vários lugares como “o centenário da ficção científica”. 
 
Foi em 1926 que Hugo Gernsback, em New York, lançou a primeira revista dedicada exclusivamente à FC, Amazing Stories
 
No editorial “A New Sort of Magazine”, contudo, o editor explicava o tipo de literatura que pretendia publicar. Chamava-a de scientifiction, termo que depois desmembrou em duas palavras. E deixava claro (inclusive nas chamadas de capa) quem seriam seus patronos: Jules Verne, H. G. Wells e Edgar Allan Poe. 
 
Gernsback um sujeito prático, de formação mais técnica do que literária, e de mentalidade pão-pão queijo-queijo. Sua intenção nunca foi a de inventar uma literatura nova, mas de prolongar e expandir uma literatura já existente. O que ele não sabia é que estava criando uma marca, Science Fiction, que iria se impor no mundo inteiro. 




Havia público para isto? Sim.  Revistas populares vendiam muito, não só nos EUA como na Europa. Brian Aldiss observa que o corte do imposto sobre papel, na Inglaterra, provocou um boom de revistas e jornais, excelente mercado para contistas, porque pagavam bem. 
 
O florescimento da literatura popular foi intenso na Inglaterra da década de 1890. Um dos seus principais beneficiários foi H. G. Wells, que recorda assim aquele período: 
 
Surgiam contos por toda parte. Kipling estava escrevendo histórias curtas; Barrie, Stevenson, Frank Harris; Max Beerbohm escreveu pelo menos um conto perfeito, “The Happy Hypocrite”; Henry James explorou seu estilo maravilhoso e inimitável; e entre outros nomes que me ocorrem, como um punhado de jóias misturadas que se extrai de uma bolsa, são George Street, Morley Roberts, George Gissing, Ella d’Arcy, Murray Gilchrist, E. Nesbit, Stephen Crane, Joseph Conrad, Edwin Pugh, Jerome K. Jerome, Kenneth Graham, Arthur Morrison, Marriott Watson, George Moore, Grant Allen, George Egerton, Henry Harland, Pett Ridge, W. W. Jacobs (que, sozinho, parece inesgotável). Ouso dizer que poderia lembrar outros tantos nomes, sem muito esforço. 

Nos Estados Unidos não era diferente. No primeiro editorial (“A New Sort of Magazine”) de sua nova revista Hugo Gernsback cita estatísticas dessa época. 
 
Segundo Frank Munsey, o maior editor de pulp magazines, o público leitor de revistas nos EUA em 1893 era de 250 mil, e em 1899 já tinha subido para 760 mil.  O fim da II Guerra viu o público leitor dessas publicações se transferir para dois novos formatos, a revista digest (do tamanho de Seleções) e o livro de bolso (paperback).  E era um público considerável, de cerca de 32 milhões por volta de 1947. 
 
A ficção científica, como literatura profissional na virada do século, cresceu de-cima-para-baixo e de-baixo-para-cima, por assim dizer. 



 
De cima com a influência literária dos chamados Scientific Romances  europeus, que bem ou mal tinham prestígio editorial ou crítico. Jules Verne, H. G. Wells, Conan Doyle, H. Rider Haggard, R. L. Stevenson, Arthur Machen etc. eram nomes respeitados. 
 
E cresceu de baixo, a partir dessas revistas que, focando-se nas novidades tecnológicas imaginárias, estimulava a imaginação de autores que não tinham, por assim dizer, acesso às nuances mais sutis da técnica literária. 



Romance tradicional e aventuras popularescas convergiram ao longo das décadas, beneficiando-se da cabeça lúcida de numerosos editores que cobravam qualidade literária e rigor científico dos jovens autores. 
 
Quando Isaac Asimov, um rapaz de 22 anos, concebeu e começou a executar a sua série da “Fundação”, estava se beneficiando dessa convergência. E na década de 1960 surgiu o movimento da New Wave, absorvendo técnicas da literatura de vanguarda, do moderno romance europeu, da literatura Beat, além dos temas ligados ao feminismo, à ecologia, à questão racial. 
 
Tudo isto sob o guarda-chuva cada vez mais amplo do rótulo science fiction. 
 
Gernsback não tinha veleidades estilísticas, literárias, filosóficas. Seus interesses maiores eram imaginação e tecnologia. 
 
Temos que lembrar disto: estamos vivendo num mundo completamente novo. Duzentos anos atrás, histórias como estas não seriam possíveis. A ciência, através dos diferentes ramos da mecânica, eletricidade, astronomia, etc., penetra tão intimamente em nossa vida diária, e estamos tão mergulhados nas conquistas da ciência, que nossa tendência é dar pouca importância às novas invenções e descobertas. 
(editorial de Amazing Stories, trad. BT) 
 
As palavras de cem anos atrás poderiam ser escritas hoje, porque estamos mergulhados – para dar apenas um exemplo -- numa nova onda de revoluções dentro do mundo vídeo-digital-eletrônico. Os computadores pessoais, os smartphones, o wi-fi, as redes sociais, a Inteligência Artificial. 
 
É inevitável que consideremos tudo isto parte da “paisagem”, como os talheres, a água da torneira, os sinais de trânsito. E cabe à ficção imaginativa descobrir e revelar todas as implicações por trás de cada novidade que a ciência nos traz. 
 
Como já disse alguém, um escritor mainstream em 1910 escreveria sobre automóveis, e um escritor de FC escreveria sobre engarrafamentos de trânsito. A arte está em imaginar consequências possíveis  -- o que não é a mesma coisa de “prever o futuro”, esse falso brilhante que teimam em colocar no dedo da FC. 
 
Todo mundo hoje em dia fala em “edifícios inteligentes” comandados por computador. Meu irmão, enquanto toma um café na cozinha e pensa, pergunta detalhes técnicos a Alexa e ela responde. 


Cientistas podem prever esses usos, mas foi preciso a imaginação (e a pindaíba permanente) de Philip K. Dick para imaginar a história do cara desempregado que quer sair para arrumar emprego e a porta do apartamento está trancada porque ele não pagou o condomínio, e ele a certa altura diz: “Ora que diabo, aqui estou eu discutindo com a maçaneta da porta.” 
 
Esta moldura de conceitos se formou no século 19, quando Edgar Poe já escrevia artigos sobre o robô mecânico que jogava xadrez (tentando provar que havia um anão escondido na caixa). A FC de Poe foi recentemente compilada num volume essencial, Edgar Allan Poe: Contos de Ficção Científica (Ed. Aleph, 2025), por Martha Argel e Humberto Moura Neto. 


A Científica Trindade da FC do século 19 é formada por Edgar Allan Poe, Jules Verne e H. G. Wells.  Eles ajudaram a deslanchar em 1926 a FC das revistas populares norte-americanas, que em última análise se encarregou de fazer o gênero crescer 200 anos em 20.  
 
“Ficção científica” virou um rótulo que não define por si só. Como “rock” ou “jazz”. Indica uma direção, indica um espírito, indica uma “atitude”... mas não define a priori o que alguém vai encontrar naquela obra. As surpresas serão incontáveis. 
 
A FC pode ser “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” (1940) de Jorge Luís Borges, uma das melhores histórias sobre um universo paralelo que se infiltra no nosso. 
 
Ela pode ser Crash (1973) de J. G. Ballard, a história de pessoas que cultivam um fetichismo erótico por automóveis e acidentes de automóveis. 
 
Ela pode ser O Conto da Aia (1985) de Margareth Atwood, relato de uma distopia religiosa e totalitária. 
 
Ela pode ser Laços de Sangue (1979) de Octavia Butler, em que uma mulher negra se vê recorrentemente arremessada ao tempo da escravidão e de volta ao presente, num processo que ela não consegue controlar. 
 
Ela pode ser O Perfume (1985) de Patrick Susskind, em que um indivíduo de olfato excepcional cria perfumes capazes de controlar as mentes humanas. 
 
Ela pode ser A Invenção de Morel (1940) de Adolfo Bioy Casares, onde um inventor descobre uma maneira de tornar as pessoas imortais.
Ela pode ser O Livro do Juízo Final  (1992) de Connie Willis, em que uma jovem historiadora de Oxford viaja no tempo e assiste a Inglaterra ser devastada pela Peste Negra.
 
Ela pode ser O Médico e o Monstro (1886) de R. L. Stevenson, em que um cientista produz uma poção química capaz de transformá-lo física e mentalmente em outra pessoa.
 
Ela pode ser Não Me Abandone Jamais (2005) de Kazuo Ishiguro, que descreve a vida de um clone destinado a fornecer órgãos ao ser humano de onde provém. 
 
Ela pode ser “Um Moço Muito Branco” (1962) de Guimarães Rosa, a história do extraterrestre que cai num vilarejo de Minas, produz milagres e depois um disco-voador vem para levá-lo de volta.
 
Ela pode ser Mulheres Que os Homens Não Veem (1973) de Alice Sheldon (“James Tiptree Jr.”), em que duas mulheres perdidas na selva preferem fugir numa nave alienígena do que continuar na companhia do homem que as protege.
 
As possibilidades, como sempre, são infinitas.
 
 




quinta-feira, 16 de abril de 2026

5230) Todo prêmio é injusto? (16.4.2026)




Há um belo poema de Carlos Drummond de Andrade onde ele sugere, a certa altura, que gostaria de ver “um fim sem a injustiça dos prêmios”. 
 
O que parece uma contradição. Que sentido tem chegar ao fim de um processo e não receber uma recompensa qualquer?!  Para que todo aquele esforço, então?  Não faria sentido.  O plantio tem que ser recompensado com a colheita, e mais ainda: com a refeição no prato e o superávit no mealheiro. 
 
Como imaginar toda a faina, toda a labuta desta vida humana sem a promessa (melhor: sem a garantia!) de um Paraíso à nossa espera? 
 
Nada neste mundo deveria acabar com um simples THE END, e, se o fizesse, deveria ser como o THE END dos filmes americanos, que em nossa infância estrumaram essa sede de triunfo e ressarcimento: um casal se beijando aos pés do altar, um guerreiro erguendo a espada vitoriosa, o herói de retorno à família que lhe acena boas-vindas na varanda. 
 
Tem que haver um prêmio, mas esse conceito tão nobre acabou sendo barateado, bastardizado, pirateado sem escrúpulos pelo conceito de disputa pelo 1º, 2º, 3º lugares, medalhas de ouro, prata e bronze, esse tipo de coisa. 
 
Quando eu fazia parte da organização dos Congressos de Violeiros de Campina Grande, nos anos 1970, ficava escandalizado com a ferocidade da disputa, com as mil e uma artimanhas dos cantadores para derrotar os companheiros. 



Mais de uma vez sugeri, com a minha cara abestalhada de universitário de óculos: “Por que não transformamos o Congresso num festival não-competitivo, em que todas as duplas se apresentam no palco do Teatro, improvisam sobre temas sorteados, recebem maiores ou menores salvas de palmas de acordo com seu desempenho, e a grana da premiação é dividida irmãmente entre todos?...”. 
 
Ou seja, eu queria a Utopia drummondiana, que como toda Utopia é muito bonita no papel, mas se reduz a pó no instante em que bota o pé na calçada. 
 
Os cantadores, todos mais velhos do que eu, botavam a mão no meu ombro e diziam: “Rapaz, se disser que não tem disputa não vem ninguém. Deixa eles se comerem uns aos outros. E que ganhe o melhor.” 
 
É engraçado. Os cantadores de viola nordestinos parecem rezar na mesma cartilha dos roteiristas do cinema de Hollywood, para quem toda história tem que se basear num Conflito, porque se não tiver conflito não se vende um só ingresso. 



E faz um certo sentido, admito, porque na raiz da Cantoria de Viola está o Desafio, está o confronto poético, está a cerimônia agonística (Johan Huizinga) em que o representante da comunidade X precisa vencer o representante da comunidade Y, e nesse confronto ambas as comunidades mobilizam suas energias, seu entusiasmo, sua coesão emocional, sua engenhosidade criativa, seu impulso superador. 



(folheto da editora Tupynanquim, para lançamento em breve)

 
É algo que nem mesmo o conceito moderno (de meados do século 20) da Cantoria de Viola entre parceiros, não entre adversários, conseguiu apagar. 
 
E é algo que vigora em tudo neste mundo, desde o Nobel até o Oscar, desde o Jabuti até a Copa do Mundo, desde a Palma de Ouro até o Grammy Latino. Alguém precisa perder para que alguém possa ganhar – e para que todo mundo queira concorrer. 
 
E quando penso na “injustiça dos prêmios” drummondiana, me questiono: um prêmio pode ser injusto?  E me lembro de prêmios em que o premiado, muito tempo depois, confidenciou: “Era melhor não ter ganho. Todo mundo disse que eu ganhei sem merecer.  Ganhei, mas isso me fez mais mal do que bem.” 
 
Acho que o primeiro grande impasse que se formou na minha cabeça foi naquele Festival da Canção, no Rio de Janeiro, que na reta final se dividiu entre “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, a grande vencedora, e “Caminhando” de Geraldo Vandré, o grande sucesso injustiçado. 


Estive vendo dias atrás um documentário sobre Chico, na Netflix, onde ele fala nesse episódio com a habitual gargalhada de bom humor, recordando a vaia estrondosa que sacudiu o Maracanãzinho quando anunciaram o prêmio para “Sabiá”. Todo mundo queria Vandré. 
 
Lembro as discussões ferrenhas na minha turma de amigos, quando a gente fazia “bacurau” madrugada afora na esquina de Olacanti (porque era pertinho do apartamento da minha tia, onde eu dormia às vezes, e pertinho da casa de Son e Marcos Agra, na rodoviária velha). 
 
-- Quem tinha que ganhar era “Caminhando” – dizia um. – Uma música contra a ditadura, levantou o público, todo mundo cantou junto. 
 
-- Uma letra repetitiva, toda com rima em “ão” – questionava outro. – “Sabiá” tem versos lindos: “vou deitar à sombra de uma palmeira que já não há”. Poesia pura. 
 
-- Poesia do tempo de Gonçalves Dias – rebatia alguém. – Sabe o que é poesia em 68? “Nas escolas, nas ruas, campos, construções, caminhando e cantando e seguindo a canção”. 
 
-- É de fato um bom verso – concedia o primeiro. – Conseguiu trocar “ão” por “ões”. 
 
Eu sempre preferi “Caminhando”, até por ser uma canção de dois acordes, algo que sempre desperta minha simpatia; e chegamos a tocá-la (como número instrumental, prudentemente) quando fiz parte dos Sebomatos. Mas lembro na época algumas entrevistas de Tom e Chico, quase pedindo desculpas por terem ganho o Festival. 
 
Alguma pessoa terá despertado mais antipatia no Brasil do que a pobre da Gwyneth Paltrow, que tomou de Fernanda Montenegro o Oscar de melhor atriz que o Brasil inteiro já dava como (merecidamente) ganho? A coitadinha subiu ao palco toda balbuciante, dizendo que não esperava... (Todo mundo que ganha um Oscar diz que não esperava, que foi uma surpresa, que não preparou nada!) 


 
Vi tempos depois uma entrevista com ela, em que dizia, no fim das contas, que era melhor não ter ganho do que ganhar e todo mundo dizer que ela não mereceu. 
 
Um caso parecido se deu no futebol, no ano passado, quando o ex-flamenguista Vinicius Jr., do Real Madrid, era tido por muita gente como o vencedor antecipado da Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador do ano. Vinicius é um grande jogador e pelo meu gosto pessoal receberia, sim, o prêmio naquele ano (não no ano seguinte, em que ficou bem abaixo). 
 
Acontece que Vinicius se envolveu numa série de episódios de racismo com as torcidas, bateu de frente, rasgou o verbo, deu murro em ponta de faca, recusou-se a baixar a cabeça... Resultado: atraiu para si as antipatias de muita gente no futebol, desde os racistas propriamente ditos até aqueles que abominam as polêmicas e sonham com prêmios “platônicos”, idealmente técnicos, sem fatores extra-campo envolvidos. 



E aí a Bola de Ouro acabou indo para Rodri, jogador do Manchester City.  Que virou no meio futebolístico uma espécie de Gwyneth, alguém que “não esperava” – e, para muitos, não merecia.  Pior: foi apontado por gente da imprensa como um premiado “fake”, um pretexto postiço para que o prêmio não fosse para um jogador negro que bate de frente com o racismo.
 
Rodri é ótimo jogador. Na época, estava se recuperando de uma contusão muito grave no joelho, o que causa em qualquer fã do futebol uma simpatia e uma solidariedade automáticas. Ganhou o prêmio, foi lá receber, suportou os aplausos. Mas, em algum momento, Rodri também deve ter pensado: “Eu acho que mereço, eu sei que queria ganhar; mas não assim.”
 
Existem prêmios justos e prêmios injustos?  Não sei, mas às vezes me lembro de Jorge Luís Borges, o cara que durante a vida inteira sonhou em vão com o Prêmio Nobel: “Todo sucesso é uma espécie de mal-entendido.”
 
 




terça-feira, 7 de abril de 2026

5229) O Deus da Guerra (7.4.2026)



O deus da guerra (Der Kriegsgott)
Bertolt Brecht (trad. BT)
1949.
(traduzido da versão inglesa de Michael Hamburger)

Eu vi o velho deus da guerra de pé num pântano, entre a parede de pedra e o precipício.
Cheirava a cerveja grátis e a ácido carbólico, e mostrava os testículos às adolescentes, porque tinha sido rejuvenescido por vários cientistas. 
Tinha a voz de um lobo enrouquecido, e declarava seu amor por tudo que era jovem. 
Ao seu lado estava uma mulher grávida, trêmula de medo.
Falando com desenvoltura, dizia ser o maior dos defensores da ordem. 
E contava como por toda parte impunha a ordem nos estábulos, esvaziando-os.
E, assim como quem joga migalhas de pão aos pássaros, alimentava os pobres com migalhas tomadas de outros pobres.
Sua voz ora era forte, ora suave, mas sempre rouca. 
Com a voz forte ele nos falava dos grandes tempos que estavam por vir, e com a voz suave ele ensinava às mulheres como cozinhar corvos e gaivotas.
Seus ombros estavam sempre inquietos, e a toda hora ele olhava para trás, como se temesse ser apunhalado.
E de cinco em cinco minutos ele garantia ao público que iria tomar pouco, muito pouco do seu tempo.
 





terça-feira, 31 de março de 2026

5228) A Réplica (31.3.2026)



(foto: Marco Haurélio)


À primeira vista, cabe-nos carpir sem remordimentos a conjuminância de sermos os únicos ambi-sinistros deste alvéolo. Qualquer outra objurgatória passará em broncas luzes por sobre a minuana.  
 
De fato, Bourdieu dixit: “O campo eletro-pragmático da discordância subliminar não é porositado pelo discurso: antes se queda hermético a si mesmo, e a todas as refrações do self”. São muitas as consonâncias linguodentais prontas a intervir nesse contubérnio, embora o neo-platinismo meio-campista se recuse a silhuetar predominâncias, ou mesmo prioridades implícitas. 
 
Eis o semieixo nodal do hemistíquio: ou destecemos a parassintaxe de nossas próprias anti-premissas, para conformá-las ao gargalo do esfíncter conceitual em voga (pace Bachelard e seus amanuenses!), ou só nos resta reordenar os brônquios de cada sofisma para a minuta alegre de um pré-intenso “retorno ao avatarismo”, tática de antemão auto-sabotada pela incapacidade de fugir ao empuxo gravitacional da estaca-zero. 
 
Colocado assim o solecismo pós-natal, parece óbvio que cada anelo de actância por parte do quase-ser tende a se esboroar na mera ventoinha febril das dissensões. Não nos adianta muito recorrer a Whitehead, visto que cada hipérbole altruísta apenas contribui para potencializar esse patético harakiri de um ser-em-si capaz de lipoaspirar o próprio logos. 
 
De fato, como desembestar os neurônios raquíticos de uma geração que se quis rasga-bandeira e se encontrou patafísica, que se arvorou em rompe-lâminas mas soçobrou nas rochas alcantiladas do mais índigo famalicão? 
 
Podemos tentar um reconsolo tácito na fórmula (ainda inexpugnada) de Derrida: “Cada Lacan é um canal, e cada fera de São Cristóvão é uma falsa Kristeva driblando a bilôla tangente”.  Foi para isto, para essa migalha de epifania, que repelimos a navalha de Occam e a vírgula de Oxford?! 
 
Neste impasse, ou em qualquer outro do mesmo bulevar beckettiano, ainda é possível propor um desarmistício provisório, uma terraplenagem de axiomas capaz de nos re-equacionar a pena e a lei, a régua e o compasso, as pastilhas-de-freio e as roldanas-do-contrapeso. 
 
Sim!  Que se aposentem os cartapácios, os calepinos, os alfarrábios, as versões beta-caroteno das bulas alfanuméricas. Que se recalcule o zero de cada um – e o um de cada zero. Terra arrasada – um remédio amargo para quem achou que era doce morrer no mar, e acabou se salgando no bacalhau de si mesmo. 
 
Os senescais da balbúrdia não prevalecerão, afirmou Philomena Cunk em seu maciço Tractatus Amphibologicus, do qual extraímos esta sonora epígrafe: “O absurdo-mudo da existência é um tatu que nenhum trator arrasta”. Nesse eclesiastes leigo-profano, são muitas as advertências compulsórias capazes de indicar o norte-por-noroeste para a migração de nossas carrapetas mentais. 
 
“O maniqueísmo furta-se à concessão fractal”, advertiu Benjamin de mala em punho, na rotunda hipnótica onde tergiversava. Ele sabia dosar a usucapião do inconsciente seletivo e a gambiarra nocional de Agamben, mas mesmo assim não conseguiu pavimentar uma saída honrosa-choque para seu próprio trauma-comprimido. 
 
E quem nos chancela essa polaróide pouco alentadora é o próprio Richard Feynman, ao preconizar: “Eu vi os melhores cérberos da minha geração indo latir de graça no portão do inferno alheio”. 
 
 





sexta-feira, 27 de março de 2026

5227) Um filme sem diálogos (27.3.2026)



 
É difícil imaginar o que levaria um diretor, em pleno cinema sonoro (década de 1950) a fazer um filme sem diálogos, um filme de hora-e-meia em que ninguém fala com ninguém, ninguém troca uma frase sequer. Como se fosse um filme mudo, um filme anterior a 1928. 
 
(1928, para quem não sabe, é o ano em que foi lançado o primeiro filme falado, O Cantor de Jazz; por volta de 1930, a maioria dos filmes já eram todos com diálogos e trilha sonora.) 
 
Essa experiência foi tentada, com relativo sucesso, por Russell Rouse, num filme que acabei de ver hoje e que está disponível no YouTube. O filme é norte-americano, mas não é falado em inglês, porque ninguém fala; e em vista disso não tem nem legendas nem dublagem. 
 
Se alguém me propusesse escrever um roteiro com essa obrigatoriedade, eu tentaria “dar um migué” mostrando, com a câmera distante, pessoas envolvidas numa conversa banal, numa discussão acalorada, numa conversa amorosa, mas sempre de longe, sem captação do som. As pessoas falam; a gente é que não ouve. Tal como acontece no cinema mudo. 
 
Rouse e seu co-roteirista Clarence Greene foram radicais, e tiro o chapéu para sua coragem. Nesse filme, ninguém abre a boca nem uma vez sequer. 
 
Aqui o filme completo>
https://www.youtube.com/watch?v=VVz06Kl6440
 
The Thief (1952) é a história de um cientista nuclear, em Washington. Por motivos não explicados ele está espionando a favor de uma potência estrangeira, que podemos imaginar como sendo a União Soviética. Sua tarefa é basicamente fotografar documentos secretos, de experiências de física atômica, e repassar essas fotos para seus contatos. 
 

O cientista é Ray Milland, ator que aparece em incontáveis filmes de gênero (ficção científica, policial, terror). É ele quem faz
O Homem dos Olhos de Raio X (1963, Roger Corman), e aparece também em no clássico Pânico no Ano Zero (1962), que ele mesmo dirigiu.  Outros papéis importantes são o marido assassino em Disque M para Matar (1954) de Alfred Hitchcock e o alcoólatra de Farrapo Humano (1945) de Billy Wilder, que lhe deu todos os prêmios de melhor ator (Oscar, Cannes, Globo de Ouro, etc.). 
O trabalho em The Thief não foi um grande desafio apenas para o diretor, mas para os atores, principalmente Milland, que aparece em praticamente todas as cenas. Sem poder dizer uma palavra sequer, ele é forçado a uma interpretação minimalista, de gestos, olhares, expressões faciais, postura corporal. E se sai muito bem. 
 
Não havendo diálogos, o filme precisa se apoiar no famoso Indutor Emocional, a música. Ela fica nos dizendo o tempo inteiro que tipo de emoção devemos sentir: calma, angústia, suspense, depressão, entusiasmo... Eu sou da linha Luís Buñuel, de usar o mínimo de música possível – o que me parece mais simples e menos chamativo do que não usar diálogos. Mas devo reconhecer que o bravo compositor Herschel Gilbert fez o que pôde, e recebeu uma indicação ao Oscar. 
 
Todo cinéfilo tem a mania de traçar ligações entre as cenas mais improváveis dos filmes mais aleatórios. The Thief tem duas sequências em que Milland, alertado por um telefonema, desce de madrugada para se encontrar com o espião que lhe serve de contato. Os dois caminham por uma rua quase deserta, o homem acende um cigarro, deixa cair uma bolinha de papel no chão e vai embora. Milland aproxima-se, recolhe o papel, bota no bolso: são as suas instruções. 


 
O clima dessas cenas me pareceu estranhamente premonitório daquela ótima sequência de Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados (1999), em que Tom Cruise anda de madrugada por ruas quase desertas e imagina estar sendo seguido à distância por um sujeito qualquer. 
 
Há outra relação mais óbvia. A certa altura, o cientista, já se sabendo vigiado pelo FBI, aluga um quarto num prédio barato, onde o único telefone (do qual ele precisa para ser contatado pelos espiões) fica no corredor, e pode se acessado por qualquer inquilino. Sua vizinha da frente é a perturbadora Rita Gam, estreando no cinema, fazendo caras e bocas (e decotes e pernas) na direção dele. E talvez atendendo os telefonemas que se destinam a ele. 



Anos depois, Russell Rouse e Clarence Greene viriam a ganhar um Oscar de roteiro por Confidências à Meia Noite (“Pillow Talk”, dirigido por Michael Gordon, 1959), em que Rock Hudson e Doris Day fazem dois vizinhos que precisam dividir uma linha telefônica, e por causa disso primeiro brigam, e depois se apaixonam. O roteiro de Pillow Talk é bem anterior a The Thief. Para mim é um caso claro de roteiristas coçando a cabeça e dizendo: “Bem que a gente poderia usar de novo aquela mesma situação daquele roteiro nosso de anos atrás...”. 
 
Ao se anunciar como “o filme totalmente sem diálogos”, The Thief pretendia ser aquele tipo de filme-façanha, um filme onde se executa um número de habilidade especial, que às vezes o espectador não percebe. Algo como Festim Diabólico (“The Rope”, Hitchcock), o filme feito numa só tomada do começo ao fim. É uma “constraint” que o diretor estabelece para si mesmo, e um dos interesses do filme é saber até que ponto ele conseguirá manter essa regra, e que recursos vai empregar para obedecer a ela. 
 
O truque funciona porque a restrição do “sem diálogo”, que não funcionaria em muitas histórias, funciona muito bem aqui. É uma história de espionagem, portanto cabe nela um ambiente de silêncio, de isolamento. O cientista trabalha com segredos atômicos (o filme se passa apenas sete anos depois de Hiroshima e Nagasaki), então é aceitável essa atmosfera de segredo, de ocultamento, de pessoas distantes, quase sem interações. 

 
 
 




quinta-feira, 19 de março de 2026

5226) Segredos de infância (19.3.2026)





Li em algum livro psicanalítico ou equivalente que um momento crucial na infância é quando uma criança mente aos pais pela primeira vez e escapa impune. Ela percebe que não é apenas um grão-de-areia passivo na ventania do mundo. Ela não está apenas sendo rebocada para um lado e depois para outro; não tem apenas a obrigação de ouvir e obedecer; ela pode também manipular os acontecimentos, e os relatos sobre esses acontecimentos, a seu favor. Que é (pensando bem) o que seus pais fazem o tempo inteiro (como todo adulto). 
 
Não se trata (pelo menos neste estágio) da questão moral de mentir, de enganar, até porque nessa fase da vida as mentiras são em geral mentiras bobinhas. (Sim, sei que existem crianças assassinas e psicopatas, há livros e filmes sobre isto, de Ellery Queen a Robert Mulligan, de Jerome Bixby a William Golding, de Agatha Christie a John Wyndham, etc.). 
 
Estou me referindo a mentiras tipo “já arrumei meu quarto”, “fiz o dever de casa”, “não sei quem quebrou o jarro”, “comi meu almoço todo e não sei que comida é essa na lata de lixo”, etc. 
 
Os psicólogos advertem que esse tipo de mentira, mais do que configurar um mau-caratismo em botão, tem uma finalidade mais importante: revelar à criança que o mundo mental dela é só dela. Um mundo ambíguo onde ela é o único e todo-poderoso habitante, e uma prisão de onde jamais poderá sair. 
 
O raciocínio de “a mentira é importante para afirmar a noção do Eu” evolui para o seguinte: não, o importante não é apenas o mentir, o enganar; o importante é estabelecer um fato mental de que somente eu tenho conhecimento, e os adultos não. 
 
Quando eu tinha por volta de 9 ou 10 anos moramos a cem metros do Estádio Presidente Vargas, o “campo do Treze”, do meu time do coração. Era tão perto que quando tinha jogo noturno a gente aproveitava e jogava pelada na rua, aproveitando a iluminação dos refletores. 



 
Meu pai tinha duas cadeiras cativas, cuja caderneta eu por muitos anos (já adulto) exibia orgulhoso no portão que dava acesso à parte de cima da arquibancada. Mas nessa fase dos dez anos a minha primeira tarefa ao chegar no local era subir na cadeira e olhar através dos cobogós da parede: de lá, avistava a parte traseira da nossa casa, e nosso quintal! Era uma reafirmação de que o mundo existia mesmo, e por isso nunca dei ouvidos ao Bispo Berkeley. 
 
Depois, refinei um pouco essa percepção. A gente sempre via o jogo comendo amendoim, meu pai comprava logo um punhado de pacotinhos. Um dia, amassei o papel de um saco de amendoim, fazendo uma bolinha, e o enfiei no cobogó. A dúvida (não formulada nestes termos, evidentemente) era: a cadeira cativa de onde eu via o jogo (e por extensão a arquibancada, o estádio, o mundo em si) era sempre a mesma? 
 
Domingo que vem, o Treze joga de novo, lá vamos nós, e bingo! A bolinha de papel estava lá! E era a mesma: tive o cuidado de desamarrotar e conferir. O mundo existia independentemente da minha percepção. E por isso nunca dei ouvidos a Philip K. Dick. 
 
Não preciso relatar aqui o número de vezes em que pensei naquela bolinha de papel durante a semana. A bolinha, que era um pedaço da minha vida, estava escondida naquele cobogó anônimo, mas nas semanas seguintes (claro que a pus de volta) virou um pedacinho meu existindo à distância de mim. 
 
Na minha memória afetiva, isto se conecta com um conto que eu li mais ou menos nessa época: “O abacaxi de ferro”, de Eden Phillpotts, em que um homem sente amor por um abacaxi de ferro, parte da decoração do portão de uma casa por onde ele passa de vez em quando. Ele inexplicavelmente se apaixona por esse abacaxi e de noite, quando chove, fica deitado em sua cama, no escuro, pensando se o abacaxi está com frio. 



 
Republiquei esse conto em minha antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges (Casa da Palavra, 2005, trad. Julio Silveira). 
 
O que era isso? Acho que remete de volta àquele papo anterior dos psicólogos sobre as mentiras da infância. Não é a mentira. É o segredo. É aquela coisa que faz parte de mim, e cuja existência (ou importância) somente eu percebo. É uma extensão de minha consciência afetiva. 


 

Por isto uma das melhores cenas de O Último Imperador (1987) de Bernardo Bertolucci é quando o ex-imperador Puyi, já adulto e destronado, tem acesso ao trono onde sentava quando era imperador, e cutuca lá dentro e tira de lá um inseto ou coisa parecida que ali colocou quando menino. 
 
Críticos de cinema, os famosos catadores-de-lêndeas, argumentaram que um bichinho como aquele não teria sobrevivido tantos anos. São os idiotas da objetividade, como dizia Nelson Rodrigues. 


 
Por isto uma das melhores cenas de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) de Jean-Pierre Jeunet é quando ela descobre no rodapé da casa em que mora uma cavidade em que algum garoto antigo guardou uns brinquedos e depois esqueceu; e na sequência ela pesquisa a família, descobre o garoto (agora adulto) e faz chegar às suas mãos (anonimamente) os brinquedos. 
 
São segredos, mas não são segredos criminosos ou vergonhosos ou inconfessáveis. São segredos apenas porque são algo que só uma pessoa sabe, e ela se deslumbra quando confere que aquilo ainda existe, e ela pira quando Alguém demonstra (e de uma maneira discretamente carinhosa) revela que descobriu tudo. 
 
E o segredo permite controlar um pedacinho do mundo, porque sabemos algo que outras pessoas ignoram. Li nas redes sociais um episódio divertido, aparentemente algo que ocorreu na Inglaterra. Lá existe a tradição/superstição da “Fada do Dente” (“the Tooth Fairy”), que costuma “comprar” os dentes de leite das crianças. Quando o dentinho cai, é só colocar embaixo do travesseiro, e na manhã seguinte a Fada deixou ali uma moeda! 
 
Pois teve um garoto que resolveu fazer um experimento. Depois de “vender” alguns dentes para a Fada, ele resolveu esconder de todo mundo que outro dentinho tinha caído. Ficou na moita, pôs o dente embaixo do travesseiro por três noites... e nada. Então ele comunicou aos pais que o dente caíra, e repetiu o ritual. Na manhã seguinte, a moeda estava lá. E o garoto rasgou: “A Fada são vocês!...”. 
 
O seu segredo é uma parte essencial da sua realidade, porque é uma coisa que só você sabe, e esse saber é muitas vezes uma vantagem. Dá para pensar que esse garoto vai se dar bem no mundo empresarial ou político. 
 
Mas mesmo um segredo pequeno, inofensivo, é uma coisa que talvez morra com você caso você não a compartilhe com alguém. Por isso as novelas e os romances usam tanto esta expressão, de que “Fulano de Tal levou o seu segredo para o túmulo”. Tecnicamente, claro, não levou nada. O segredo deixou de existir simultaneamente com a sua atividade cerebral, mas aí quem está sendo catador-de-lêndeas sou eu. 
 
 






quarta-feira, 11 de março de 2026

5225) O amor e o dinheiro (11.03.2026)



 
A crítica literária já glosou e reglosou o tema da “contabilidade afetiva” em Machado de Assis, o tema das afeições avaliadas por critérios monetários ou financeiros. Parece que Machado tinha um prazer mórbido em mostrar seus personagens comparando amores a fortunas, troca de afagos a câmbio de moedas. 
 
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, queixa-se (ou vangloria-se) Brás Cubas. Amor e dinheiro andam de mãos dadas, ou não conseguem andar. 
 
O conto “Anedota Pecuniária” é uma das melhores ilustrações desse sentimento. Publicado na Gazeta de Notícias (6-19-1883), foi recolhido depois em Histórias Sem Data (1884). É a história de Falcão, um homem que ama o dinheiro, e aqui chegamos ao osso da questão. Outros personagens podem amar uma mulher rica; Falcão vai direto ao ponto, e ama a riqueza em si. 
 
Logo nas primeiras páginas, o autor, que ainda está nos explicando a alma desse sujeito, narra como ele tirou a dúvida de um garoto, na rua, sobre se uma nota de cinco mil réis era verdadeira ou falsa. 
 
Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se disso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou trêmulo na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...
-- É falsa? - perguntou com impaciência um dos meninos.
-- Não; é verdadeira.
-- Dê cá - disseram ambos.
Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por ele, disse-lhe com a maior candura do mundo:
-- Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto ver.


 

É um solteirão (“Casar era botar dinheiro fora”), mas o destino lhe põe no colo uma sobrinha de 11 anos, após a morte do irmão e da cunhada. Ele cria a órfã, Jacinta, com todo carinho. Cerca a menina de cuidados. 
 
Aos treze [anos], Jacinta mandava na casa; aos dezessete era verdadeira dona. Não abusou do domínio; era naturalmente modesta, frugal, poupada. 
 
Machado tem uma adjetivação curiosa. Quando ele diz “modesta, frugal, poupada”, são qualidades à primeira vista tão próximas que um professor de workshop literária mandaria cortar uma ou duas. São redundantes. Ao mesmo tempo, porém, dão-nos a idéia de que as qualidades da menina-moça não eram muito expansivas, muito espaçosas; eram qualidades muito próximas umas às outras, como pessoas numa madrugada chuvosa, num ponto de ônibus. 
 
Falcão cultiva essa filha (que não lhe custou muito investimento) até pô-la moça e visível aos olhos do amigo Chico Borges, que volta e meia aparece para jogar cartas. Chico e a moça começam a encompridar olhares, mas quando Falcão recebe a notícia do namoro não reage bem. 
 
Vem aí o lado contemporâneo de Machado. O leitor de hoje que o folheia pela primeira vez pensa: “Quem diria que o povo daquele tempo era tão moderno, tão 2026, tão Faria Lima!”.  A ver: 
 
Era isto em 1869. No princípio de 1870 Falcão propôs ao outro uma venda de ações. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um só lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente que andava pensando em oferecer-lhe a mesma cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o contrato a sessenta dias. Falcão estava tão contente, ao voltar do negócio, que o sócio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacinta. 
 
Quem são Falcão e Chico Borges? São os famosos investidores, aqueles indivíduos que têm algum dinheiro sobrando, in-ativo, des-empregado, sub-utilizado, capital descarregando a bateria por falta de uso. Esse dinheiro tem que ser investido em alguma coisa. Coisas, em sessenta dias, podem se valorizar, podem também se desvalorizar, e temos aqui a receita de um jogo mais interessante do que o voltarete ou a canastra. 


 
É na inebriação do investimento financeiro que Chico Borges pede a mão da moça, mas Falcão é avarento de seus afetos, e recusa. A vida, porém, é cheia de esquinas, e às vezes é dobrando esquinas que rodeamos o quarteirão e, sem ter recuado um passo, nos encontramos de novo numa cena já vivida. Porque, sessenta dias depois... 
 
Entretanto, o sol, modelo de funcionários, continuou a servir pontualmente os dias, um a um, até chegar aos dois meses do prazo marcado para a entrega das ações. Estas deviam baixar, segundo a previsão dos dois; mas as ações, como as loterias e as batalhas, zombam dos cálculos humanos. Naquele caso, além de zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o esperado lucro de quarenta contos numa perda de vinte.
 
Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de gênio. Na véspera, quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento, propôs ele custear todo o deficit, se lhe desse a sobrinha. 
 
Justiça seja feita a Falcão: não vendeu a sobrinha ali, no quente da oferta. Negou-se, a princípio; foi para casa, consultou-se com a Insônia (“essa musa de olhos arregalados”, como dizia Dom Casmurro) e somente na manhã seguinte correu à casa de Chico para fechar o acordo. 
 
Jacinta e Chico Borges se casam, mas o escritor, que também gosta de revisitar situações, faz com que outra sobrinha órfã, Virginia, venha parar sob a asa de Falcão, após a morte de uma irmã viúva. E repetem-se ciclicamente os afetos... os cuidados recíprocos... a vigilância ciumenta (“...janelas cerradas, advertências à preta, raros passeios, só com ele e de olhos baixos.”)... 


 
Falcão gosta sinceramente da segunda menina, tal como gostara da primeira; mas tudo nele é investimento e planilha. Ele sabe que precisa planejar a própria morte, e vez em quando prepara o espírito de Virginia. 
 
-- Esta há de fechar-me os olhos - repetia ele consigo mesmo. Um dia, chegou a pensá-lo em voz alta: - Não é verdade que você me há de fechar os olhos?
 
-- Não diga tolices!
 
Conquanto estivesse na rua, ele parou, apertou-lhe muito as mãos, agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria provavelmente com os olhos úmidos.
 
Pobre de Falcão, a rua era outra mas o quarteirão tinha o mesmo formato. Na vida de Virginia aparece um tal de Reginaldo, que já vem de caso pronto, já vem planejando pedido, noivado, e o mais que se segue. Reginaldo é moderno, mora em New York e economiza em dollars (Machado grafa assim). E logo na primeira conversa, espalha trunfos na mesa.  
 
Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New York, com trinta anos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro horas depois visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o Reginaldo era fino e prático; atinou com a principal corda do homem, e vibrou-a. Contou-lhe os prodígios de negócio nos Estados Unidos, as hordas de moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falcão ouvia deslumbrado, e pedia mais. Então o outro fez-lhe uma extensa computação das companhias e bancos, ações, saldos de orçamento público, riquezas particulares, receita municipal de New York; descreveu-lhe os grandes palácios do comércio...
 
Um homem não pode lutar contra o Destino, ainda mais quando esse Destino na verdade é ele mesmo. Falcão deixa-se levar. Deixa-se levar à casa de Reginaldo para ver sua coleção de moedas do mundo inteiro, que deve ser algo mais deslumbrante do que uma coleção de revistas de ficção científica dos anos 1940, ou de folhetos de cordel dessa mesma safra. Falcão fica em êxtase.
 
Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a coleção metida num móvel envidraçado por todos os lados. A surpresa de Falcão foi extraordinária; esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de bronze e de cobre.
 
Falcão mirou-as primeiro de um olhar universal e coletivo; depois, começou a fixá-las especificamente. Só conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as todas: florins, coroas, rublos, dracmas, piastras, pesos, rupias, toda a numismática do trabalho, concluiu ele poeticamente.
 
-- Mas que paciência a sua para ajuntar tudo isto! - disse ele.
 
-- Não fui eu que ajuntei - replicou o Reginaldo -; a coleção pertencia ao espólio de um sujeito de Filadélfia. Custou-me uma bagatela: - cinco mil dollars.
 
Na verdade, valia mais. Falcão saiu dali com a coleção na alma; falou dela à sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para toucá-la outra vez. 
 
Moedas, amantes, não é tudo a mesma coisa?... Não contarei o final do conto, porque o leitor já o adivinha, mas vale a pena olhar no original a puxada de tapete de Machado de Assis nas expectativas do seu leitor de 1883, numa piscadela metalinguística. 
 
Fala-se muito na importância do amor sincero, mas pergunto se o amor de um avarento pelo seu ouro não será sincero também. É assim o “nosso homem” Falcão, cujo ascetismo me lembra o banqueiro Daniel Dantas, bilionário que mantém em casa um sofá rasgado e só se alimenta de arroz e batatas (segundo os jornalistas que o têm entrevistado). 


 
O Rei Midas da mitologia transformava em ouro tudo em que encostasse a mão. Homens como Falcão transformam em preço tudo que tocam com a mente ou com o olhar. É o olhar do inseto, já nos advertia Philip K. Dick; ou o olhar do viciado em drogas, que ao ver um objeto ou uma pessoa, pensa logo: “Por quanto posso vendê-lo na primeira calçada? Quantos gramas de droga isso aí pode me fornecer?”.
 
Entretanto [diz Machado], basta ver este olhar felino, estes dois beiços, mestres de cálculo, que, ainda fechados, parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: ele faz arte pela arte, não ama o dinheiro pelo que ele pode dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguém lhe vá falar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem comenda. Não se ganha dinheiro para esbanjá-lo, dizia ele. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação. 
 
O amor do tipo “arte pela arte” não é o amor pelo consumo conspícuo, pela esbórnia, pela ostentação, pela orgia. É o amor pelo Número.