O
romance policial noir (e o filme
policial noir) são um gênero difuso,
desses gêneros de narrativa em que é mais útil descrever e exemplificar casos
típicos do que tentar uma definição abstrata capaz de abranger todos os casos
possíveis.
Nos
gêneros literários, não há receita, nem estatuto, nem regulamento. Cada criador
individual reproduz o que lhe agrada, o que imagina agradar ao público; e injeta
no gênero ali elementos imprevisíveis, suas idiossincrasias pessoais, seu
conjunto de influências, que nunca são as mesmas.
François
Truffaut dirigiu vários filmes policiais que bebem na fonte do noir norte-americano, sem deixarem de
ser filmes tipicamente franceses e tipicamente de Truffaut.
A Sereia do Mississippi (1969) é um drama policial
adaptado do romance Waltz Into Darkness (1947),
do mestre do melodrama noir¸ Cornell
Woolrich, que nas primeiras edições usou o pseudônimo de “William Irish”.
O
enredo junta dois arquétipos dramatúrgicos do noir, que Francis M. Nevins, biógrafo de Woolrich (First You Dream, Then You Die, 1988),
denomina “o Anjo Destruidor” e “o Casal Em Fuga”.
Um
rico fazendeiro e industrial da ilha de Reunião, perto da costa de Madagascar,
arranja uma noiva por correspondência, mas quando ela desembarca na ilha não se
parece nada com as fotos que tinha enviado; como ela é Catherine Deneuve, o
noivo não se queixa muito. Ela alega ter mandado, por recato, a foto de outra
pessoa. Ele aproveita para confessar uma pequena mentira de sua parte: não é um
mero supervisor, como dissera nas cartas, é o dono da fábrica. Ela também não
considera isto uma má notícia.
Histórias
de crime começam muitas vezes com mentiras pequenas. Para acobertá-las, as
pessoas dizem mentiras maiores, e estas se avolumam numa bola de neve. “Julie”,
a noiva desembarcada, não perde tempo em fazer o marido Louis se apaixonar por
ela. Logo, logo, quando ele desconfia que houve de fato uma usurpação de
identidade, ela esvazia sua conta bancária e desaparece.
“Julie”
é o Anjo Destruidor a que F. M. Nevins se refere, a mulher fatal. Ela
desencadeia crimes usando a atração física que desperta nos homens e
manipulando-a a seu favor. Louis contrata um detetive para perseguir a esposa
sumida, mas depois ele mesmo a reencontra, agora com seu nome verdadeiro de
Marion.
Fica
sabendo que ela acabou sendo roubada e abandonada por um gangster. Ele a aceita
de volta, mas logo tem que matar o detetive que está na pista dela (pois a
“Julie” autêntica foi assassinada), e daí em diante os dois fogem de cidade em
cidade.
Truffaut,
em plena fase de adoração aos filmes de Hitchcock (seu clássico O Cinema Segundo Hitchcock é de 1967)
enche o filme de pequenas citações e influências.
O
penteado de Catherine Deneuve lembra o de Kim Novak em Um Corpo Que Cai. Há uma cena erótica de fetichismo totalmente
hitchcockiano quando Marion se veste para receber Louis na volta de uma viagem.
A irmã da vítima, “Julie”, insiste na contratação de um detetive; a personagem
de Sarah Miles em Psicose investiga a
morte da irmã, Janet Leigh (e o detetive, igualmente, é morto durante a
investigação).
É
cada vez mais difícil uma pessoa sumir no mundo hiper-informacional de 1969,
parece dizer Truffaut. (O romance original, aliás, transcorre em New Orleans,
nos anos 1880). Louis localiza a fugitiva Marion ao vê-la na TV, numa
reportagem sobre uma boate. Tempos depois, os dois abrem casualmente um jornal
e ficam sabendo que o cadáver do detetive foi descoberto, o que os põe em fuga.
E “Julie” é fácil de identificar – o marido apaixonado pôs o rosto dela nos
maços dos cigarros que fabrica em Réunion. (Este último detalhe deve ser
totalmente Truffaut, e não do romance original.)

Seria
interessante comparar as duas obras, mas não tenho o romance de Woolrich/Irish.
Ele era um autor com um raro senso de suspense, prejudicado muitas vezes por um
sentimentalismo “cringe” e uma prosa que pode resvalar para uma pulp fiction repleta de clichês. Mas era
uma espécie de Nelson Rodrigues do romance policial, aqueles autores capazes de
todas as piruetas necessárias para manter o enredo em ebulição, e capaz de
explorar, de peito aberto e em voz alta, os desvãos mais comprometedores da
psicologia humana. (Daí seu enorme sucesso popular.)
Francis
M. Nevins examina o romance extensamente, em sua biografia, e observa que
Truffaut manteve o enredo básico do livro, mas mudou totalmente o seu tom,
amenizando-o, principalmente no que toca à personagem de Marion. No livro, ela
é uma típica devoradora de homens, fria, depravada, cínica. E encontra em Louis
a presa ideal, um homem “arriado dos quatro pneus” por ela, um homem capaz de
dizer:
Eu agora só
quero uma esposa como você. Com o rosto manchado porque ontem tingiu o cabelo.
Com o joelho aparecendo pela abertura do robe. Com o piso em sua volta coberto
de cinzas de charuto. Zombando de um homem quando os dois estão nos momentos
mais íntimos, espicaçando-o, ridicularizando-o, em vez de desfalecer nos braços
dele... Eu só quero você, má do jeito que você é, sem coração, exatamente como
você é, é assim que eu a desejo.
(cit.
Em First You Dream, Then You Die, p.
327, trad. BT)
O
Louis do livro, com seu masoquismo obcecado, é um personagem típico daquelas
situações que Julio Cortázar aconselhava a examinar à luz da “vitimologia”, a
ciência capaz de entender as pessoas que atraem o crime e a maldade alheia
sobre si mesmas, porque não conseguem ser diferentes.
Quando
ele aponta a arma para o detetive que contratou meses atrás para achar sua
esposa fujona, “Louis” escuta o homem pedir-lhe que pense com clareza, que não
cometa um crime para salvar aquela mulher. E antes de disparar ele reage de um
modo que não posso deixar de achar nelsonrodriguiano:
Agora é tarde
demais. Já é tarde demais desde o instante em que eu a conheci. É tarde demais
desde o dia em que nasci. É tarde demais desde que Deus criou o mundo.
(idem, p. 328)
François
Truffaut amenizou muito este tom, mesmo mantendo a intensa obsessão física de
Louis por Julie/Marion, No livro, diz Nevins, ela é “um demônio fêmea, uma
entidade metafísica”, mas o cineasta a transformou, na pessoa de Deneuve, numa
“mulher sensual, plenamente individualizada, com uma sexualidade vibrante e nem
um traço da aura religiosa que envolve a personagem do livro”.
É
dessa maneira que A Sereia do Mississippi
se torna um filme menos carregado,
menos psicologicamente doloroso e brutal do que o romance parece ser. Há uma
proximidade afetiva maior entre os dois personagens, apesar das mentiras, das
brigas, das deslealdades (da parte dela; ele não a trairia jamais).
Truffaut
concede a Belmondo duas cenas de longas falas que não sei se têm
correspondentes no livro.
A
primeira é a longa cena dos dois diante da lareira, em que ele, perdidamente
apaixonado, começa a acariciar o rosto dela e a descrevê-la como ele a enxerga;
a outra, uma briga em que ela lê uma revista na cama e ele faz um amargo discurso
contra as mulheres em geral, que só pensam, em dinheiro, vaidade, egoísmo.
O
romance noir é menos sobre os crimes
em si do que sobre as condições mentais que levam ao crime uma pessoa comum. Cegas
de desejo sexual, ou de ódio, ou de medo, as pessoas matam alguém simplesmente
porque esse alguém as atrapalha. É uma maneira rápida de varrer preocupações
para baixo do tapete.
Louis
é um fazendeiro e industrial bem sucedido, mas é um solitário. A certa altura
da vida, decide arranjar uma esposa sem precisar se submeter ao cansativo
ritual da busca, da côrte, do noivado. E dá no que dá.
No
livro, ele é um personagem mais idoso do que o Jean-Paul Belmondo do filme, e é
assim que Woolrich o descreve:
Portanto,
tinha sido esta a negociação que ele fez com o amor, agarrando o que lhe estava
ao alcance, num açodamento súbito, desesperado, por medo de acabar de mãos
vazias, de ter esperado tempo demais, depois de ter passado quinze anos
teimosamente dando as costas ao amor. E de repente, num belo dia, a solidão
acumulada desses quinze anos, que conseguira reprimir, abateu-se de súbito
sobre ele, inundando-o, fazendo-o correr de um lado para outro, quase em
pânico. Qualquer amor, viesse de onde viesse, fossem quais fossem os termos. Rápido,
antes que fosse tarde demais! Desde que ele não tivesse que continuar sozinho!
(idem, p. 323-324)
A
solidão desse tipo nunca é boa conselheira. Louis, que provavelmente nunca
namorou direito na vida, joga-se de olhos vendados numa aventura conjugal que
não tem nada para dar certo, e não dá.
Será?
Truffaut consegue diluir grande parte do vitríolo que a gente fareja no
romance, e faz do filme uma história de Casal Em Fuga mais afetiva e mais plausível
do que – por exemplo – a que seu amigo Godard fizera em 1965 em Pierrot Le Fou, com o mesmo Belmondo.
Consegue
mesmo transformá-la, com todos os seus lances melodramáticos (quando Marion
tenta envenenar Louis), numa história de descoberta do amor. Louis percebe que
ela tentou matá-lo. Pede-lhe que continue, e acabe logo com aquilo. E ela por
fim se comove, ao ver o quanto ele a ama.
A
cena final do filme não termina com um final feliz, mas com os dois fugindo
abraçados, na neve, evocando o final de Le
Crime de Monsieur Lange (Jean Renoir, 1936), já citado numa
cena anterior, em que Louis e Marion assistem no cinema “Arizona Jim”,
personagem fictício daquele filme. Truffaut dedicou A Sereia do Mississippi a Renoir, e estes dois filmes terminam da
mesma forma: uma mulher ajudando na fuga de um homem que cometeu um assassinato.
O
cinema humanista e afetivo de François Truffaut foi criticado por muitos de
seus contemporâneos, desde os mais politizados (como Godard) até os mais
cínicos. Truffaut nem bateu a pestana. Continuou fazendo seus filmes no tom que
entendia e da maneira que lhe convinha.
A Sereia... desagradou muitos fãs do
filme noir por diluir o extremo pessimismo
e a descrença moral, típicos deste gênero, transformando-o num tipo de filme
policial meio romântico, de onde a redenção moral nunca está ausente.