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sexta-feira, 21 de outubro de 2022

4875) O carisma dos grosseiros (21.10.2022)




Greil Marcus é um dos melhores críticos de rock dos EUA, e um dos que melhor escrevem sobre a obra de Bob Dylan (ele, Michael Gray e Paul Williams). Seus livros e seus artigos na imprensa (ele colabora na Rolling Stone, Village Voice, etc.) fazem sempre uma série de pontes entre a música popular, a literatura, a política, e a vida das pessoas da “América profunda”, aquela que num livro de 1997 ele batizou de Invisible Republic.
 
No livro Mystery Train (1975) ele conta um episódio engraçado do tempo em que o presidente dos EUA era Lyndon Johnson. Johnson era um texano rude e bronco, obstinado, conhecido tanto por dar continuidade às políticas de direitos civis iniciadas por John Kennedy (de quem era o vice, e a quem sucedeu após seu assassinato em 1963) quanto pelo seu pesado investimento na Guerra do Vietnam.
 
Segundo Marcus, um jornalista perguntou a Johnson por que motivo a Presidência da República não revelava ao povo norte-americano o que de fato estava ocorrendo na região da Indochina. E Johnson respondeu:
 
– Meu amigo, quando você tem em casa uma sogra com um olho só, e esse olho é no meio da testa, você não deixa ela vir na sala de visitas.
 
É uma resposta texana, sertaneja, uma resposta meio surrealista e meio rude cuja inspiração nasce daquela América profunda de onde brotou a literatura de William Faulkner e Flannery O’Connor.
 
Eu gosto demais dessa resposta, por esse lado surrealista, esse lado Picasso; mas ela revela outro lado, o jeitão desabusado, meio brutal, com que Johnson (e outros, antes e depois dele) conduzia sua política. Johnson foi, depois de Kennedy (que era um típico herói louro e hollywoodiano) o primeiro presidente dos EUA que eu enxerguei como sendo uma pessoa real. Abraham Lincoln era uma figura dos livros de História. Lyndon Johnson aparecia na primeira página do Diário da Borborema.
 
De Johnson talvez se pudesse dizer o que alguém disse do ator William Holden: que quem olhava seu rosto tinha a sensação de ver o mapa dos Estados Unidos. Esses dois rostos podiam ser duas faces da mesma moeda.




À frente, na “cara”, o rosto bronzeado e os dentes alvíssimos de Holden, a masculinidade descontraída de quem parece estar sempre rumo a uma partida de tênis numa tarde de sábado.

Atrás, na “coroa” (o Poder), o rosto de Lyndon Johnson, talhado a faca, queimado de sol, seu nariz adunco de ave de rapina, a concentração carrancuda de quem está disposto a remover com o ombro qualquer obstáculo que o separe do Bem, ou do Mal, tanto faz.
 
Lyndon Baines Johnson ficou famoso, entre muitas outras coisas, ao ser comparado com Macbeth (que também sucedeu a um rei assassinado) na peça MacBird (1966) de Barbara Garson, um grande sucesso alternativo daquela década feroz.



A peça brinca com o apelido familiar, “Lady Bird”, dado à esposa de Johnson, reforçado pela coincidência entre as iniciais dela e as do marido (as duas filhas do casal, aliás, se chamaram Lynda Bird e Lucy Baines).
 
Johnson era um caipira engravatado. Apreciava demonstrações rudes e joviais de camaradagem sem mimimi. Em janeiro de 1964 ele convidou à Casa Branca um grupo de jornalistas para almoçar. Antes do almoço, fez todo mundo, a começar por ele mesmo, tirar toda a roupa e tibungar nu na piscina da Casa Branca. Ficaram todos durante uma meia hora, “em trajes de Adão”, contando anedotas e tomando uísque.
 
No ano seguinte Bob Dylan gravou a canção “It’s Alright, Ma”, com o famoso verso de que “mesmo o Presidente dos Estados Unidos tem que ficar nu”.
 
Uma parte considerável de qualquer eleitorado vê com alívio certas atitudes até grosseiras da parte de seus líderes, porque se identifica com elas, porque também faz aquilo em seu dia-a-dia, e tem a impressão, nem sempre verdadeira, de que “agora sim, não está vendo a encenação, está vendo as coisas como elas são na realidade”. Numa política toda melíflua, cheia de picaretas engravatados e de cabelo lambido falando em família e valores, até um peido diante das câmeras passa por espontaneidade e espírito sincero.
 
Qualquer democracia baseada no voto popular mostra essa tensão permanente (e flutuante) entre os kennedys e os johnsons, os cavalheiros e os cavaleiros, os sofisticados e os grossos, os de sangue azul e os “daquilo roxo”.
 
De um lado o arquétipo do líder fino, educado mas viril, atento às minúcias da etiqueta e à liturgia do cargo. Revelam que “têm berço”, “são preparados”, manejam com desenvoltura e cordialidade o verniz verbal da diplomacia. Conseguem manter, sem muita tensão, a postura serena e resguardada de quem aparenta espontaneidade mas está sempre atento para não ser pêgo sequer num deslize gramatical.
 
No lado oposto estão os que “têm apelo popular”, são “gente como a gente”, são expansivos, espaçosos, falastrões. Metem os pés pelas mãos, mas dão uma gargalhada e fica tudo por isso mesmo. São vistos como alguém “sem papas na língua”, “sem rabo preso”. Têm suas próprias regras de figurino e de culinária, e a toda hora deixam alguém chocado ou perplexo. Desobedecem às formalidades, aos rituais, aos rapapés. Sugerem (com ou sem sutileza) que ser diplomático é ser hipócrita, que cultivar uma boa imagem é mentir ao público; e esse público específico respira com alívio discreto: “ele é sincero, ele não tem nada a esconder, ele diz o que pensa e faz o que diz”.


Com diz outra canção gravada por Dylan (em Self Portrait: “Take me as I am, or let me go.”)
 
Nada disso – é preciso lembrar – garante sucesso nem fracasso; está entrançado com outros fatores pessoais e coletivos. Nada disso, também, tem a ver com “esquerda” e “direita” tradicionais. São Arquétipos do Inconsciente Eleitoral, e muitas vezes uma coligação deixa de lançar um candidato mais competente para lançar um “intuitivo” que faz apelo a essa dimensão pré-consciente.
 
Um indivíduo rude não chega ao Poder da noite para o dia, a não ser em casos muito raros. Ele vai sendo lapidado ao longo do caminho, recebe um banho de loja, um verniz de civilização, um curso da Socila para não pagar muito mico diante dos outros eleitores, os que praticam essas cerimoniazinhas desde os dez anos. Isto lhe dá dois kits de recursos: ser o rei ou o bufão, obedecer aos protocolos ou arrotar diante da câmera e dizer “desculpe”.
 
Tudo é imagem, tudo é encenação; até o que é mesmo espontâneo tem que passar por uma brecha previamente autorizada. Como dizia Nelson Rodrigues, “o dinheiro compra tudo, até amor sincero”. Depois que Tarzan aprende a usar terno, ele se instaura na dualidade permanente de não ser totalmente lorde nem totalmente selvagem. Jorge Luís Borges conta (“História do Guerreiro e da Cativa”) sobre uma mulher do lado inglês de sua família, que foi raptada pelos índios do pampa, criada entre eles, e depois de muitos anos resgatada de volta à civilização. Um dia, vai viajando toda britânica pelo campo e vê uma ovelha sendo degolada: de um salto corre até lá, e bebe as golfadas de sangue.
 
A espontaneidade impensada é sempre perigosa. Melhor a espontaneidade lapidada por um redator, um fonoaudiólogo, um técnico em expressão corporal; só assim o político consegue fingir que é ardor o ardor que deveras sente.


O embaixador Assis Chateaubriand recebeu como assessor um jovem diplomata do Itamaraty; um rapaz de berço. Arrumando às pressas a própria bagagem no quarto do hotel, disse ao rapaz que guardasse as cuecas sujas em separado. “ – Dr. Assis, e como vou saber as que estão sujas? – Ora, meu filho... Cheira.”  Essa nonchalance não está distante da descontração com que Lyndon Johnson reunia o gabinete dentro do WC, enquanto ele, sentado no vaso, arriava um barro.
 
Linguagem chocante, posturas chocantes, fazem parte do repertório de intimidades com que essas figuras parecem tocar de leve com o cotovelo nas costelas do eleitor e dizer: “Tá vendo? Eu sou como vocês. Eu também faço assim.”  E receber de volta: “Então você me representa”.
 
 
 
 
 






domingo, 6 de fevereiro de 2022

4791) A falsa profundidade (6.2.2022)



Há uma figura literária pouco estudada que eu chamo de A Falsa Profundidade. São aquelas frases que parecem estar dizendo algo muito profundo, sério, merecedor de reflexão – mas se a gente encostar um alfinetezinho de análise, a frase pipóca que é uma beleza.

Pensei nisto lendo um conto de Avram Davidson, um dos autores mais eruditos e mais fora-de-esquadro da ficção científica dos EUA. (Rotular Davidson como “um autor de ficção científica” é como rotular Millôr Fernandes como “um piadista”.) Ele é um cara de leituras vastas e heterogêneas, um daqueles judeus novaiorquinos baixinhos, barbudos, irascíveis, mas na hora de pegar na pena tem uma finura estilística e uma ironia admiráveis.


Às folhas-tantas do conto “El Vilvoy de Las Islas” (1988), ele está falando de um arquipélago imaginário lá para as bandas da Patagônia, as tensões militares entre aquelas republiquetas fictícias e diz (as traduções são minhas):

Quem controla o mar, controla a costa; e quem controla a costa, controla o interior. Por conseguinte, quem controla o mar, por paradoxal que isto pareça, controla o interior.

“Há uma certa lógica nisto,” pensei, do alto de minha ignorância em matérias militares. Se uma Armada cerca uma faixa extensa do litoral, está controlando quem chega e quem sai dali, e uma consequência disso é isolar o interior... Parece fazer sentido.



Mas nessa tentativa de entender, pensei que a frase de Davidson se parece bastante com uma frase famosa de George Orwell (em 1984), que quando a li pela primeira vez me produziu um efeito semelhante. Diz Orwell:

Quem controla o passado controla o futuro; e quem controla o presente controla o passado.

Mais uma vez, o raciocínio parece fazer sentido. No livro, o protagonista Winston trabalha num departamento do governo a quem cabe reescrever os jornais de antigamente. Cada vez que um político cai em desgraça, é preciso pegar as principais referências elogiosas a ele, feitas anos atrás, e cortá-las. E o raciocínio se aplica desta forma: se no ano de 2022 for possível destruir informações de qualquer natureza sobre o Passado, esses fatos deixarão de fazer parte da memória coletiva. E o futuro lerá esse Passado de uma maneira que nós, hoje, estamos determinando qual será.

Como eu sou um leitor desconfiado, boto a mão no fogo em que nem todo mundo se dá o trabalho de pensar assim. E para essas pessoas seria praticamente o mesmo dizer: “Quem controla o passado, controla o presente, e quem controla o presente controla o futuro”. Ou alguma outra variante.

Poucas páginas adiante, no mesmo conto de Davidson, encontro isto:

A História, sem a Geografia, é uma carcaça ambulante, ou talvez seja o contrário disto.

Ou seja, tanto faz (para o narrador) dizer isto ou dizer que “a Geografia, sem a História, é uma carcaça ambulante”.

Por que? Porque é uma comparação meio inesperada, que vale porque o efeito de estranheza nos obriga a refletir, a tentar interpretar, a aconchambrar um significado qualquer nessa imagem tão pouco acadêmica. Talvez faça mais sentido atribuir essa comparação à História, porque a História é dinâmica, está em movimento, por conseguinte é mais “ambulante” do que a Geografia, que em princípio é uma visão estática...

Bom; o simples fato do narrador do conto sugerir que se inverta a comparação feita por ele próprio me sugeriu a possibilidade de que tudo não passe de mera retórica, mero palavrório pomposo. Os demagogos de palanque sabem muito bem que o povo engole qualquer coisa bradada no tom certo:

– Povo da minha terra! Não se enganem! A Democracia é mais importante do que o Progresso, porque sem a Democracia não existe o Civismo, e sem o Civismo não existirá o Progresso, ou a própria Democracia!

Isto não quer dizer rigorosamente nada. É mero palavrório de palanque. Na inauguração seguinte pode ser substituído, sem perda aparente, por:

– Povo da minha terra! Não se enganem! O Civismo é mais importante do que a Democracia, porque sem o Civismo não existe o Progresso, e sem o Progresso não existirá a Democracia, ou o próprio Civismo!

And so it goes

E já que falei em Avram Davidson não houve como não lembrar de Machado de Assis, seu primo-carnal em matérias de ironia e finura.

Todo mundo deve lembrar o divertido Capítulo LV do Dom Casmurro, em que Bentinho, no quarto escuro, tenta compor mentalmente um soneto durante uma noite de insônia, essa “musa de olhos arregalados”. Isto ocorre em sua fase de seminário. Ele mexe e remexe alguns versos soltos que lhe vêm à cabeça de adolescente (pensa abrir o soneto com: “Ó flor do céu! Ó flor cândida e pura!”), e chega a este decassílabo final:

“Perde-se a vida, ganha-se a batalha!”

Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre.

Mas a noite avança e Bentinho não sai disso; quer fazer deste verso a chave-de-ouro, o verso que encerra o soneto, mas tudo que tem nas mãos é um final sem começo além daquela outra idéia igualmente solta e flutuante. Bentinho sabe que o último verso é o mais importante (“imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura”). E lhe ocorre simplesmente inverter os termos!

“Ganha-se a vida, perde-se a batalha!”

O sentido vinha a ser justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu.

Há muita ironia neste trecho de Machado, mas vejo nele também uma compassividade, uma compreensão de tudo que existe de mecânico e (paradoxalmente) de aleatório no processo de criação poética, principalmente na cabeça de um jovem escaldado no Latim e na Retórica. Bentinho não tem idéias, tem impulsos oratórios e estilísticos; as idéias podem ser quaisquer, contanto que as palavras que elas cavalgam sejam sonoras, e batam cascos numa cadência boa.

Quantas vezes nós todos não escrevemos assim? As palavras surgem, parecem dizer alguma coisa, é meio como estar ouvindo uma música em inglês ou francês. A gente capta uns farrapos do sentido, e o resto de sentido que lhes falta é complementado pela emoção que nos sobra.

E para encerrar, um exemplo mais cruel que os de Machado e de Avram Davidson.

Michael Gray é um dos principais estudiosos da obra poética e musical de Bob Dylan. Ele é autor do assombroso Song and Dance Man III (2000), com quase mil páginas de análise da obra dylaniana. Outro trabalho utilíssimo seu é The Bob Dylan Encyclopedia (2006), com mais 700 páginas de verbetes alfabéticos.

Na enciclopédia, Gray comenta a obra crítica de Greil Marcus, outro dos meus dylanólogos preferidos, e não deixa o colega-concorrente passar sem uma alfinetadazinha. No verbete a ele dedicado, Gray comenta o estilo de Marcus, e diz:

[Greil Marcus] às vezes chega perto da auto-paródia, e às vezes parece que não está dizendo nada. Aqui está ele, por exemplo, num ensaio [...] de 1998: “All Along The Watchtower, na interpretação de Bob Dylan, tem lugar fora do tempo; a de Jimi Hendrix aceita o tempo, mas depois o desenreda.” É uma ótima técnica, quando usada com economia, e a escrita de Marcus parece tirar do nada esses vereditos – vereditos com todo o poder críptico das falas de um guru sobre uma pilastra, de tal modo que o leitor indefeso sente-se incapaz de questionar tanto a suprema auto-confiança daquela oratória quanto o conteúdo em si, visto que este é tão impalpável quanto é vigorosamente dito.

Um bom teste seria inverter os termos, e ver se faz alguma diferença. “All Along The Watchtower, na interpretação de Jimi Hendrix, tem lugar fora do tempo; a de Bob Dylan aceita o tempo, mas depois o desenreda.” Hmmmm.

Todo mundo escreve desse jeito em algum momento, inclusive todos os autores citados acima. O que os salva da mediocridade é o simancol, o desconfiômetro, a obrigação de cobrar de si próprio; mas todos publicam coisas como se dissessem para o leitor: “Ficou bom? Faz sentido pra você?”  Como um ator de teatro pergunta ao diretor, após um improviso no ensaio; ou um músico pergunta ao diretor musical.

Fiz isso. Ficou bonito? Além de ficar bonito, disse alguma coisa? Eu não sei. Você sabe? Se não... perde-se o tempo, ganha-se uma crônica.

 

 

 

 

 

 

 

 






domingo, 3 de outubro de 2021

4750) "Os Salteadores Mascarados" (3.10.2021)




No mundo da Arte (e, numa esfera mais milionária e plebéia, no mundo da cultura pop) existe um fenômeno curioso e recorrente em que o efeito precede a causa, e de certo modo acaba sendo a causa da causa.  
 
Por exemplo: alguém escreve uma resenha ou um ensaio crítico a respeito de um livro que não existe. O ensaio torna-se tão conhecido que cedo ou tarde alguém tem a idéia de escrever esse livro imaginário, e ele acaba sendo publicado. O efeito (a crítica) precedeu a causa (o livro), invertendo a ordem natural dos fatos.
 
Isso pode ser feito com diferentes propósitos. Pode ser um recurso ficcional, como a famosa “pegadinha” de Jorge Luís Borges, que introduziu num livro de ensaios críticos (Historia de la Eternidad, 1936) uma resenha de um livro chamado “A Aproximação a Almotásim”. O livro não existia, mas o resumo e os comentários de Borges eram (são ainda) tão interessantes que Adolfo Bioy Casares encomendou o livro a uma livraria de Londres.
 
Pode ser um recurso ficcional que ao longo do tempo vai ganhando mais peso, mais dimensões, até que sua existência torna-se uma obrigação. H. P. Lovecraft inventou em seus contos de terror o Necronomicon, uma espécie de “escritura sagrada do Mal”, de autoria de um árabe louco.
 
Claro que a legião de fãs lovecraftianos acabou produzindo diferentes versões desse obscuro grimório maligno.
 
Ou seja: alguém anuncia que uma obra qualquer existe, e depois alguém se apressa em trazer essa obra à existência.
 
Não foi outra coisa que fez o editor John W. Campbell, da revista Astounding Science Fiction nos idos dos anos 1950. Um leitor da revista mandou uma carta brincalhona afirmando ter recebido um exemplar da revista “vindo do futuro”, e listando os respectivos contos e autores. Campbell levou a brincadeira ao pé da letra e encomendou desses autores os contos com os mesmos títulos. A revista foi publicada, na data “prevista” na carta do leitor.
 
A verdade é que quando uma ficção ou uma reportagem inventam a existência de uma obra imaginária haverá sempre aquele leitor criativo capaz de se deter sobre essa idéia e tentar desenvolvê-la, na base do “se esse livro existisse mesmo, como seria?”.
 
Basta um título, uma sinopse, cotações de alguns trechos, descrição resumida de alguns personagens e episódios... Tudo serve a esse leitor criativo como um mote a ser glosado. Borges não foi o criador do subgênero “Livros Imaginários”, mas soube desenvolver tão bem suas implicações que esses argumentos passaram a ser qualificados como “borgianos”.
 
Em “Pierre Menard, autor do Quixote”, ele alude a um crítico literário cujo projeto fantasioso é escrever um livro idêntico ao Dom Quixote de Cervantes, baseando-se apenas na lembrança que guardava do livro original, lido há muitos anos. Essa sensação tentadora do “livro potencial” é a mesma que experimentamos ao ouvir a descrição sugestiva, surpreendente, estimulante, inspiradora, de uma obra que não existe.
 
Uma das pegadinhas mais interessantes da música popular é a que deu origem à banda imaginária “The Masked Marauders” (Os Salteadores Mascarados), cuja existência foi anunciada num número de 1969 da revista roqueira Rolling Stone, que na época tinha Greil Marcus como editor.
 
Marcus publicou, por curtição, uma nota anunciando o lançamento de uma super-banda que estaria gravando sob esse pseudônimo. A banda seria formada por Mick Jagger, Bob Dylan, e três dos Beatles, com exceção de Ringo Starr. Observe-se que nessa época todos esses artistas estavam num dos “picos” de sua produção e criatividade. Um disco juntando os cinco seria algo para bater vários recordes comerciais, mesmo que a qualidade artística não viesse a ser grande coisa.
 
Os artistas não poderiam aparecer com seus próprios nomes por motivos de contrato, mas poderiam (teoricamente) ser reconhecidos pela voz, pelo estilo de compor, de tocar, etc.
 
Houve uma discussão tão grande nos meios roqueiros da época que os autores do hoax decidiram levar a brincadeira adiante, e contrataram um grupo de músicos para compor e gravar as canções cujos títulos tinham sido anunciados na matéria.
 
Aqui, um artigo que resume a encrenca inteira:
 
https://www.snopes.com/fact-check/unmasked-marauders/
 
Super-bandas desse tipo eram uma possibilidade na época, sendo o exemplo mais famoso o grupo Crosby, Stills, Nash & Young, que juntou de forma inesquecível quatro pesos-pesados do folk-rock e produziu alguns dos melhores discos desse sub-gênero.
 
E alguns anos depois, Bob Dylan e George Harrison (dois dos alegados “Marauders”) uniram-se a Tom Petty, Roy Orbison e Jeff Lyne para formar, sob pseudônimo, a competente banda dos Travelling Wilburys, que lançou três álbuns. As canções eram um material bastante razoável – se levarmos em conta que para quem carregava nas costas o peso dos respectivos currículos aquilo não passava de uma quantaladeirice, uma curtição, sem a menor obrigação de ser sério, apenas o gosto de curtir por curtir.
 
Seria interessante se descobríssemos, em alguma obscura banda de componentes desconhecidos, a presença real de alguns nomes de peso da música pop, “testando a temperatura da água” e vendo se o público seria capaz de percebê-los sob aquele disfarce.
 
Em 2007, Joshua Bell, um violinista consagrado, foi tocar sem qualquer propaganda numa estação de metrô de Washington, vestido com simplicidade. Um maestro e amigo previu que no máximo cem pessoas parariam para escutá-lo. Pelo que registrou a imprensa, das 1.097 pessoas que passaram por ele somente 27 “pingaram” algum trocado na caixa do violino, e apenas 7 se detiveram durante algum tempo para escutá-lo.
 
E a famosona J. K. Rowling, a criadora de Harry Potter, a mulher que já vendeu 500 milhões de livros, tem também suas crises de auto-estima. Não foi por outro motivo que publicou um romance policial com o pseudônimo de Robert Galbraith. A tiragem inicial do romance, The Cuckoo’s Calling, foi de 1.500 cópias, das quais foram vendidas cerca de 500. Quando por fim foi revelado que era ela a autora, a coisa deslanchou e a editora mandou fazer mais 140 mil cópias, por via das dúvidas.
 
Aqui, o disco completo dos Masked Marauders:


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

4492) A Canção Fantástica: "O Buraco Sem Fundo" (9.8.2019)




A gente fala tanto em literatura fantástica em forma de romances e de contos, mas vejo pouca gente discutindo a poesia fantástica e, menos ainda, a canção fantástica.

Porque o fantástico não decorre da prosa: decorre da narrativa, e onde quer que exista a possibilidade de uma poesia narrativa, existe a possibilidade de uma poesia fantástica.

Eu próprio comento isso aqui de vez em quando, e quem quiser pode consultar artigos neste blog a propósito de clássicos como “A Balada do Velho Marinheiro”, “O Barco Ébrio”, “A Atlântida” de Amílcar Quintella Jr. e tantos outros.

Uma das minhas bandas preferidas neste gênero é The Handsome Family, de quem ouvi falar pela primeira vez através do crítico Greil Marcus, um dos melhores estudiosos da canção popular norte-americana. E não me refiro à música pop que toca no rádio, e sim àquela canção folk meio soturna, meio sombria, meio transgressora, do que ele próprio chama, no título de um livro, The Invisible Republic.

Chamar The Handsome Family de “banda” é até meio derrisório, porque trata-se apenas de um casal que compõe e canta em conjunto. São do Illinois e atualmente vivem em Albuquerque, a cidade tornada famosa pelo seriado Breaking Bad. Eles são Brett e Rennie Sparks: ele toca violão e teclados, ela toca baixo e banjo. Ele tem uma voz poderosa de barítono que lembra bastante a de Johnny Cash. Ela, ao que se diz, escreve a maioria das letras, que flutua entre aqueles gêneros de “Southern Gothic” ou “surrealismo rural”.

Muita gente talvez lembre desta canção, “Far From Any Road”, que serviu de tema à primeira temporada da série de TV True Detective:


A grande maioria das canções do duo tem esse clima meio terrorífico, meio sobrenatural, cinzelado com precisão por versos curtos que nunca dizem tudo mas sugerem muita coisa, às vezes com uma narrativa inteira condensada em uma ou duas linhas, como nas canções de Leonard Cohen ou Tom Waits.

Uma das minhas preferidas é esta, “The Bottomless Hole”, do álbum Singing Bones (2003):


O BURACO SEM FUNDO (tradução: BT)

Meu nome eu não recordo, mas eu vim do Ohio;
eu tinha mulher e filhos, um carro com bons pneus...
O que me tirou de casa e me levou ao fundo da terra
foi um buraco largo e escuro, que descobri atrás do celeiro.

Nós o enchíamos com todo lixo que se pode imaginar:
restos de cozinha, vacas mortas, tratores enguiçados,
mas eu nunca ouvia aquilo bater no chão lá dentro
e comecei a temer que o buraco não tivesse fundo.

Eu ia para trás do celeiro, ficava olhando o buraco,
ficava assim noite adentro, sem sossegar o juízo...
E um dia peguei cordas e uma velha banheira enferrujada,
e improvisei uma carroça para entrar lá no buraco.

Minha esposa me ajudou, foi me dando mais e mais corda
enquanto eu descia para longe da superfície
a última corda foi retesada e eu não chegara ao fim,
estava ali pendurado, balançando sobre o abismo.

Então eu puxei a faca, disse adeus a minha mulher,
cortei as cordas e me deixei cair no buraco escuro;
e ainda estou assim, caindo, caindo nesse poço maldito
mas enquanto não chegar lá embaixo, não acredito que não tenha fundo.

É uma canção naquele estilo das baladas country com música monótona e ritmo compassado. Tem um pouco do espírito dos tall tales do folclore norte-americano, aquelas histórias mentirosas, de coisas absurdas contadas ao pé da fogueira para provocar o riso.

E ao mesmo tempo tem o clima obsessivo de tantos contos de terror em que um indivíduo se deixa arrebatar por uma idéia fixa e acaba se destruindo na tentativa de confirmá-la, ou de desmenti-la.

É um “fantástico rural” mas sem o tom brincalhão e irônico de tantas canções rurais. É uma parábola de Kafka em paisagem de faroeste, e a voz grave e sisuda do cantor, o arranjo minimalista, a melodia monocórdia, tudo isto contribui para o senso de tragédia inevitável, e do insólito aceito como uma coisa inexplicável a mais, numa vida já sem sentido.










sexta-feira, 14 de outubro de 2016

4170) Um prêmio Nobel pra Bob Dylan (14.10.2016)



Essa candidatura de Dylan ao prêmio Nobel é coisa velha. Há muitos anos que vejo, nos saites dos fãs, imagens da documentação de inscrição oficial, etc. 

Já escrevi aqui sobre as listas de Prêmios Nobel Alternativos, que sugerem substituir premiados que ninguém conhece por autores muito mais significativos e que nesse mesmo ano estavam no auge de suas obras. Gente como Franz Kafka ou Philip K. Dick ou Jorge Luís Borges, que nunca ganharam.

O crítico Ted Gioia (aqui: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2009/12/1440-o-premio-nobel-alternativo.html) sugere que em vez do poeta Derek Walcott (1992) a Academia deveria nesse ano ter premiado Bob Dylan.  Já nessa época não concordei.  Li pouca coisa de Walcott mas concordo que seja um grande poeta e mereça o prêmio – seja lá o que isso signifique em termos de grana, imagem, poder, acesso.

Nunca achei que Dylan ganhasse. E também nunca liguei muito. Para não parecer que estou esnobando o prêmio Nobel, eu até acompanho bastante essa fórmula-um, sei do impacto que produz. Daí a considerar que os acadêmicos suecos sabem o que é boa literatura e eu não, vai uma grande distância. Mas o leitor leigo, que precisa de um formador de opinião para lhe sugerir o que pensar, fica atarantado diante dessas decisões inesperadas.

Dylan  ganhou por suas canções, mas tem dois livros excelentes, cada qual dentro do seu subgênero, sua época.

Tarantula (1966) é um daqueles textos-colagem de pequenos episódios absurdistas saturados de referências da cultura pop. É quase um prolongamento das Contracapas escritas por Dylan para a maioria dos seus álbuns, principalmente a prosa estilhaçante e eletrificada dos textos incluídos em Bringin’ It Alll Back Home (1965) e Highway 61 Revisited (1965). Uma prosa prima dos textos beat de Ginsberg, Burroughs e Kerouac.

O outro livro, que me surpreendeu, porque não esperava grande coisa dele, foi sua recolha de memórias, Crônicas, vol. 1 (2004 – aqui: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2008/12/0680-bob-dylan-sabe-escrever-2452005.html). Muita gente pensou que seria uma autobiografia cobrindo, quem sabe, a primeira metade da carreira do cantor. E de fato ele fala bastante da New York pós-1960 onde caiu de paraquedas e decolou de foguete. Mas pula para a frente e para trás, fala pouquíssimo dos seus discos mais importantes, a cronologia rapidamente vai pro espaço.

A prosa de Dylan é surpreendentemente bem escrita, precisa, descrevendo o ambiente enfumaçado do Greenwich Village, mostrando os tipos, os cantores, os intelectuais, a malucada, comentando tudo. Alguns críticos observaram que Dylan nesses capítulos iniciais “ressuscitou” vários tipos da cena folk novaiorquina desse tempo.

Ele faz muitos comentários bons sobre seu processo criativo, inclusive tentando explicar uma regra numérica que tem para compor suas músicas, a qual parece até fazer sentido, embora eu não tenha entendido até hoje.

Perto do final do livro ele conta como sua namorada Suze Rotolo o levou para assistir um ensaio do grupo para o qual ela fazia trabalhos de design. O espetáculo se chamava Brecht on Brecht, e era cheio de canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

Dylan descreve, com uma precisão emocionada, como, ao ouvir as canções de Brecht e Weill, principalmente Pirate Jenny, ele entendeu como escrever uma canção que fosse além das canções folk.

Ele diz:

“Aquela canção era um estímulo novo para meus sentidos, sem dúvida muito parecida com uma canção folk mas uma canção folk de outra jarra e de outro terreno. Minha vontade era pegar um molho de chaves e sai pesquisando esse território, ver se tinha mais alguma coisa por ali. Desmontei a canção inteirinha e abri para olhar dentro dela – era aquela forma, aqueles versos em livre associação, a estrutura, o descaso pela certeza dos padrões melódicos, tudo fazendo com que a canção ganhasse peso, ganhasse um gume afiado.”

Já virou um clichê da crítica aludir a Dylan falando em Rimbaud, e ele próprio de vez em quando faz uma referência. Mas parece que o impacto da poesia do “pobre B. B.” sobre ele foi mais fecundo. Foi Brecht, visto num pequeno palco de ensaios off-Broadway, que lhe deu o estalo-de-Vieira criativo.

Dylan estava acostumado às canções folk norte-americanas, aquela simetria de estrofes idênticas do começo ao fim (como em nosso cordel), e as melodias anasaladas, proclamatórias e circulares das tradicionais baladas inglesas ou irlandesas. As imagens cortantes dos versos de Brecht e as dissonâncias controladas de Weill não passaram em branco.

Robert Shelton (The Bob Dylan Encyclopedia) registra que logo depois disto, em agosto de 1963, a revista musical Broadside publicou uma carta elogiosa de Dylan, no seu estilo ziguezagueante da época:

“Aleluia para vocês todos por terem colocado Brecht neste número mais recente da revista. Ele devia ser tão conhecido quanto Woody [Guthrie], e ser tão lido quanto Mickey Spillane”.

Pois é... fico eu falando de literatura e me esqueço de comentar A Coisa Mais Importante Do Mundo: os prêmios literários, que, para grande parte dos escritores de hoje, são o motivo principal de se escrever um livro.

Fico feliz com o prêmio para Dylan, não por ele, que não precisa de prêmio nenhum, mas pela discussão em torno de poesia, literatura e letra de música, uma discussão importante, se bem que geralmente baseada em premissas erradas.

Minha posição a respeito (que defendo aqui há muitos anos) é de que: 1) “Poesia”, “Letra de Canção”e “Literatura” pertencem ao mesmo campo artístico, usam a mesma matéria-prima (a palavra), e têm cada qual sua especificidade, mas nenhuma das três confere qualidade a uma obra: existe a poesia boa e má, a letra de música boa e má, a literatura boa e má. 2) O prêmio foi justíssimo: acho Dylan um dos grandes poetas do século 20.

E para consolar os inconsoláveis, transcrevo o depoimento de Greil Marcus (um dos melhores críticos de rock que conheço, fã e grande conhecedor de Dylan), sobre a possibilidade dele ganhar o Nobel, num depoimento de 2005:

“Eu espero que ele não ganhe esse prêmio. Existem milhares de escritores que precisam do prêmio mais do que ele. É um prêmio para a literatura; ele é um compositor, ele é um cantor, ele é um artista do palco. Seja como for, Bob Dylan já ganhou uma infinidade de prêmios, não precisa de mais este. Há muita gente que precisa desse dinheiro, que precisa de mais leitores.”










sábado, 30 de novembro de 2013

3357) Manly Wade Wellman (30.11.2013)




Mesmo nos EUA a obra deste autor não recebe a atenção que merece. Ele fez sua carreira nos pulp magazines dos anos 1930-40. Escreveu ficção científica, terror, fantasia, história de boxe, histórias de aventuras. Fez roteiros para histórias em quadrinhos, e foi um dos primeiros roteiristas do Capitão Marvel. No número 1 da revista assinou seu nome de uma maneira engenhosa (e cordelista): colocou cada letra como a inicial de cada um dos balões de diálogo. Anos depois, numa briga judicial envolvendo Superman e Capitão Marvel (o primeiro acusou o segundo de plágio) Manly pôde, com isto, provar no tribunal que tinha sido um dos roteiristas.

Foi um grande conhecedor do folclore norte-americano, da tradição dos índios e dos primeiros povoadores da América. Sua série de histórias ambientadas nos Montes Apalaches, tendo como protagonista John the Balladeer, ou “Silver John”, é uma excelente exploração desse material. John é um cantador andarilho ao estilo Woody Guthrie, que, levando às costas seu violão de cordas de prata, por onde passa vai se metendo em confrontos com o sobrenatural e resolvendo-os, muitas vezes, com a ajuda de seu conhecimento da literatura oral e de livros básicos (cujo conhecimento é perfeitamente plausível no ambiente social descrito) de alquimia, ocultismo, etc.

A excelente coletânea Who Fears the Devil? (1963) e os romances The Old Gods Waken (1979) e After Dark (1980) são os livros que li, e existe neles uma originalidade de ambiente e de voz narrativa que não tenho encontrado em outros autores de fantasia norte-americana (se alguém souber, favor me indicar). Na literatura fantástica dos EUA parece haver uma certa resistência a histórias inspiradas no folclore local. O leitor norte-americano parece achar mais nobre (ou mais escapista) uma fantasia baseada em elementos europeus: célticos, nórdicos, arturianos, etc.

Seu websaite (http://www.manlywadewellman.com/) traz um rico material biográfico, falando inclusive no episódio em que ele ganhou um concurso de contos policiais no Mistério Magazine de Ellery Queen, deixando William Faulkner em segundo lugar. Manly nasceu em Angola, onde seu pai era médico numa missão, e as histórias que ouviu na infância (só foi morar nos EUA aos seis anos) influenciaram seu interesse posterior pela literatura oral. Ele foi, na fantasia norte-americana, um representante daquela “Invisible Republic” que Greil Marcus estudou em seu livro homônimo sobre as raízes da música de Bob Dylan e The Band no álbum The Basement Tapes e sobre a Antologia da Música Folk compilada por Harry Smith. Uma conexão que, mesmo nos EUA, continua pouco estudada.


terça-feira, 9 de março de 2010

1770) O lixo da História (11.11.2008)



Falei aqui sobre o filme Sob o domínio do mal (The Manchurian Candidate) de John Frankenheimer, um thriller político de 1962 em que um oficial do exército americano, preso pelos chineses na Guerra da Coréia, sofre uma lavagem cerebral que o transforma num assassino em potencial. Depois que ele volta aos EUA, os chineses mexem os pauzinhos para que ele assassine um candidato à presidência, facilitando a subida ao poder do marido de sua mãe, um anti-Comunista ferrenho que na verdade está a serviço dos comunistas.

Revi este filme em DVD nesta semana que antecedeu as eleições presidenciais norte-americanas. Revi-o pensando, como penso com frequência, na veia de irracionalismo e brutalidade que corre ao longo de um dos povos mais racionais e cordatos que existem. Existe uma veia gótica no organismo da América, por onde corre um sangue sanguinário, um sangue de tragédias macbethianas, de poder conseguido pelo força e mantido pela opressão, mesmo no seio dos cavaleiros-andantes da democracia ocidental. Nós também, aqui em nosso país tropical e afetivo, temos os nossos cromossomos escravagistas e chacinadores. Todo povo tem. O que fascina nos americanos é a linguagem única que eles usam para sarjar em público seus abscessos e expulsar os demônios que os atormentam, como John Frankenheimer faz neste filme.

Em seu livro The Dustbin of History, Greil Marcus comenta longamente o filme de Frankenheimer, lançado um ano antes de Kennedy ser assassinado em Dallas. Marcus comenta outros assassinatos políticos (ou tentativas mal-sucedidas) que ocorreram depois: Medgar Evers, Malcolm X, Martin Luther King, Bob Kennedy, Andy Warhol, George Wallace, Gerald Ford, George Moscone, Harvey Milk, John Lennon, Ronald Reagan. Todos foram vítimas, fatais ou não, de pesadelos indiretamente semelhantes ao pesadelo (ilógico, incoerente, exagerado) da conspiração de The Manchurian Candidate. Diz Marcus: “O filme pode fazer parte destes acontecimentos incompreensíveis, ou deste evento inexplicavelmente mas totalmente inteiro, completo, singular, desta corrente subterrânea em nossa vida pública: a transformação do que era tido como uma vida pública aberta e visível em crimes privados ou conspirações ocultas”.

As “forças ocultas” que Jânio Quadros denunciou renunciando, em 1961, geraram este filme-pesadelo, geraram a série de crimes políticos citados por Greil Marcus, e transformaram a segunda metade do século 20 num vitrine cheia de luzes e de música berrante, encobrindo manobras escusas, “tenebrosas transações”, tramas secretas em que vultos sem nome e sem rosto traçam o destino das nações e eliminam, da maneira mais tosca, mais descuidada e mais impune, quem se atravessar na sua frente. A Guerra Fria real não é travada entre o Ocidente e o Oriente, e sim entre Os Que Mandam Na Sombra e nós, que vivemos na luz, que tudo enxergamos e pouco compreendemos. Boa sorte, Barack Obama.