Quem gosta de passado é museu! Lá pelos anos 1970, o
Museu de Arte patrocinou e hospedou um “Colóquio dos Museus Brasileiros” (não
sei se o nome era exatamente este) que trouxe a Campina Grande uma caravana de
gente vinda do Brasil inteiro, com uma série de palestras, mesas-redondas e
entrevistas que (falo por mim) mudaram inteiramente o conceito do que é um
museu, do que é novo ou velho, do que é passado ou presente.
Numa discussão remota travada nessa época, estávamos, uma
meia-dúzia, sentados nas vastas poltronas do gabinete de Chico, discutindo
projetos mirabolantes. Que tal uma exposição temática de artistas nordestinos?
Que tal um festival do cinema francês? Que tal um ciclo de saraus poéticos, com
recitais? Algum de nós disse: “Chico, pra você tudo parece fácil, porque você
tem um cargo.” E ele: “Mas não é um cargo!
É um instrumento! Não é uma
obrigação! É uma possibilidade!”.
Chico Pereira conta aos amigos que na noite de abertura de sua exposição Conexões Desconexas ele levou para lá os filhos pequenos, que se divertiram muito com os convidados, as obras de arte, o coquetel, o ambiente festivo. No dia seguinte, ele perguntou à sua filha de seis anos qual a coisa que ela tinha gostado mais na exposição, e ela respondeu: “As empadinhas”. É uma resposta pop, uma resposta de quem percebe intuitivamente que a Arte não é apenas a obra de arte pregada à parede, mas todo o aparato que a produz e a cerca. Arte sem empadinhas é como o cão de João Cabral sem plumas ou o rio de Guimarães Rosa sem terceira margem.
E lá se foi Chico, aos oitenta e um anos. É como dizia um sábio japonês: quando um vulcão se extingue perdemos o fogo, mas ganhamos uma montanha para ver a paisagem.
Número especial do Correio das Artes:
https://auniao.pb.gov.br/servicos/correio-das-artes/edicao-digital-2024/correio-das-artes-dezembro-2024-1.pdf
https://druzz.blogspot.com/2012/05/uma-obra-imperdivel-de-chico-pereira.html
