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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

5214) Chico Pereira, 1944-2025 (25.12.2025)



 
Um mundo sem Chico Pereira vai ser um mundo muito sem graça, mas teremos que nos acostumar. Como diz o mote dos cantadores: “Faz pena, mas é o jeito”. Paciência. A vida da gente é uma corda de violão, e a cada ano o tempo dá mais uma volta na tarraxa. Vamos aproveitar a música, enquanto música vai havendo. 
 
Para quem não sabe quem foi ele (o Brasil é grande), Chico foi um artista plástico, professor e gestor de cultura que atuou principalmente entre Campina Grande e João Pessoa. Era de uma geração ligeiramente anterior à minha, o que fez dele uma espécie de irmão mais velho que botava o braço no ombro da gente e nos empurrava para realizar coisas. E que, conforme o momento, recebia a gente, escutava um projeto sem-pé-nem-cabeça qualquer, e dizia: “Essa idéia é completamente maluca. Bora fazer.” 
 
“Bora fazer” era uma espécie de fórmula mágica que Chico impôs no tempo de sua gestão no Museu de Arte Assis Chateaubriand, da FURNe (a Fundação Universidade Regional do Nordeste foi a primeira encarnação da entidade que hoje é a Universidade Estadual da Paraíba). 



 
O Museu, criado em 1967, começou sob a égide de Raul Córdula Filho; em 1969, passou para a direção de Chico. Eram os jovens no poder, finalmente! Sinal verde para tentar alguma coisa que não tinha sido tentada até então. Essa atitude foi seguida com a mesma descontração por José Umbelino Brasil, que o sucedeu no cargo em 1974.  
 
Já escrevi textos para várias exposições de Chico. Talvez o meu primeiro texto sobre ficção científica tenha sido o que fiz para a exposição dele Paisagens de Lithium (em 1975?...), mistura de colagem+pintura onde ele imaginava paisagens de um planeta fabuloso. 
 
Ele e seu irmão Lula Pereira (hoje um carioca-adotivo como eu) eram aficionados da Colecção Argonauta. Eu era da geração de Lula e, aos 16 anos, olhava Chico à distância, como se estivesse olhando um Antonio Dias ou um João Câmara. O primeiro impacto me veio dos trabalhos da Equipe 3 (Chico + Eládio Barbosa + Anacleto Elói), um coletivo que trabalhava a seis mãos numa tela, superpondo colagem, bico-de-pena, aquarela, guache e o mais que houvesse à mão. 
 
Para evocar aquela época, só me vem à memória um comentário de Glauber Rocha a um entrevistador francês, dizendo que na geração dele todo mundo lia de tudo, assistia tudo, e todo mundo era ao mesmo tempo marxista, futurista, freudiano, anarquista, surrealista, tropicalista e tudo o mais. 



(sede do Museu de Arte, na gestão Chico Pereira)
 

Graças a Chico, principalmente, formou-se entre fins dos anos 1960 e começo dos 1970 a chamada “turma do Museu” que incluía artistas jovens, com menos de 20 anos, participando de suas primeiras mostras, gente como o fotógrafo Roberto Coura e o artista Luís Barroso. 
 
“Quem gosta de passado é museu.” Este é um ditado popular da Paraíba, que aplicamos a tudo, desde o futebol à política. É um cacoete dos jovens, esse dar-de-ombros diante de referências ao Passado. Por que será? Eu já fui assim, e quando reabro essa cicatriz percebo que a novidade é algo infectuoso, algo que nos atrai e nos contamina. Quem é novo gosta do que é novo, porque quando temos vinte anos sentimo-nos como que herdeiros do mundo, e achamos que tudo que é novo veio para ficar. 




Quem gosta de passado é museu! Lá pelos anos 1970, o Museu de Arte patrocinou e hospedou um “Colóquio dos Museus Brasileiros” (não sei se o nome era exatamente este) que trouxe a Campina Grande uma caravana de gente vinda do Brasil inteiro, com uma série de palestras, mesas-redondas e entrevistas que (falo por mim) mudaram inteiramente o conceito do que é um museu, do que é novo ou velho, do que é passado ou presente.
 
Numa discussão remota travada nessa época, estávamos, uma meia-dúzia, sentados nas vastas poltronas do gabinete de Chico, discutindo projetos mirabolantes. Que tal uma exposição temática de artistas nordestinos? Que tal um festival do cinema francês? Que tal um ciclo de saraus poéticos, com recitais? Algum de nós disse: “Chico, pra você tudo parece fácil, porque você tem um cargo.” E ele: “Mas não é um cargo!  É um instrumento!  Não é uma obrigação! É uma possibilidade!”. 




A cabeça de Chico tinha várias vertentes quando virava o “artista criador”. 
 
Primeiro, uma curiosidade insaciável de tudo observar, conhecer, praticar, aplicar. Segundo, um amor quase infantil, pré-intelecto, pela imagem, pelo signo visual, algo que os profissionais do palavrório, como eu, podem apenas imitar à distância e tentar não esquecer. 
 
Terceiro, o respeito inegociável pela técnica, pela habilidade fazedora, pelo craft, uma seriedade típica de quem fez curso técnico na juventude. Quarto, aquela capacidade do artista Pop para ligar pontos distantes, reciclar temas e motivos, detectar tendências recém-nascidas, sentir para onde sopram os ventos das modas e das anti-modas; captar “o espírito do tempo”, como dizia Edgar Morin. 
 
Definir o que é Arte Pop é um pouco como preparar um sanduíche. Entre aquelas duas fatias de pão, cada um bota o recheio que quiser. Aqui vão meus dois tostões: Arte Pop é tudo que é vinculado à produção em massa, é disparado sobre o mundo como um despejo de espingarda de chumbo miúdo, e, atingindo aleatoriamente uma amostragem-humana qualquer, começa a ser revisto, reescrito, reinterpretado, recriado. Esse prefixo “re—“ é importante, porque na Arte Pop, ao contrário das cópias xerox ou das fitas cassete, uma reprodução pode ser mais densa e mais significativa do que a cópia de onde foi copiada. 
 
Fui remexer textos antigos em busca de conforto, achei este aqui, que fiz para a exposição Conexões Desconexas, que Chico fez em 2012 na Usina Energisa (em João Pessoa). Não tive como não dar uma risada. 
 
Chico Pereira conta aos amigos que na noite de abertura de sua exposição Conexões Desconexas ele levou para lá os filhos pequenos, que se divertiram muito com os convidados, as obras de arte, o coquetel, o ambiente festivo.  No dia seguinte, ele perguntou à sua filha de seis anos qual a coisa que ela tinha gostado mais na exposição, e ela respondeu: “As empadinhas”.  É uma resposta pop, uma resposta de quem percebe intuitivamente que a Arte não é apenas a obra de arte pregada à parede, mas todo o aparato que a produz e a cerca.  Arte sem empadinhas é como o cão de João Cabral sem plumas ou o rio de Guimarães Rosa sem terceira margem. 
 
E lá se foi Chico, aos oitenta e um anos. É como dizia um sábio japonês: quando um vulcão se extingue perdemos o fogo, mas ganhamos uma montanha para ver a paisagem. 
 
Falamos pelo telefone pela última vez semanas atrás, pelo celular de uma amiga em comum, que me deu a notícia de que ele estava de cama, pós-cirurgia. Uma ligação meio cortada, com sinal ruim; a voz estava cansada mas risonha. É a vida, amigo velho. Cansados, estamos todos. Risonhos, também. Sempre.  




 
Número especial do Correio das Artes:
https://auniao.pb.gov.br/servicos/correio-das-artes/edicao-digital-2024/correio-das-artes-dezembro-2024-1.pdf
 
Página de Evandro "Druzz" Nóbrega sobre Chico e o livro “Paraíba – Memória Cultural”:
https://druzz.blogspot.com/2012/05/uma-obra-imperdivel-de-chico-pereira.html
 
 




sexta-feira, 7 de março de 2008

0029) Os museus de Bagdá (2) (25.4.2003)

Na coluna de terça-feira passada, que devido a um “bug” acabou saindo trocada com a do colega Biu Ramos, lamentei a perda de tabletes com inscrições cuneiformes, alguns dos documentos mais antigos da Humanidade. Alguns leitores se manifestaram, dizendo que por mais lamentável que seja isto, não se compara à perda de milhares de vidas humanas. Concordo. Também acho mais grave a morte de qualquer uma das vítimas do 11 de setembro de 2001 do que a queda daquelas duas torres que, bem ou mal, podem ser construídas de novo. Dinheiro é o que não falta por ali. Por enquanto.

No caso das relíquias dos museus iraquianos, ocorre algo diferente. Muitas das inscrições perdidas eram textos antiquíssimos, dos quais só tinham sobrado fragmentos, ainda não decifrados por completo. Estima-se em cerca de 200 o número de pessoas, no mundo inteiro, capazes de decifrar aquelas inscrições. Havia milhares de peças recolhidas em escavações (para a construção de usinas hidrelétricas, por exemplo) que estavam estocadas, à espera de serem examinadas por estes especialistas. As guerras em que o Iraque se meteu (guerra Irã-Iraque, 1980-1988; Guerra do Golfo, 1991) fecharam os museus, interrompendo essas pesquisas, agora para sempre.

A Universidade de Kansas City mantém, através do Prof. Francis Deblauwe, uma homepage com dezenas de fotos, videos e links para artigos sobre a depredação do material histórico iraquiano; os interessados podem ir direto para http://cctr.umkc.edu/user/fdeblauwe/iraq.html. Se forem sentimentais como eu, preparem o lenço.

Uma pessoa é uma pessoa, e uma peça de museu é um objeto inanimado. Alguns desses objetos, entretanto, parecem coisas vivas. Não porque se movam por conta própria, mas porque são geradores de idéias. Isso se dá com uma pintura, uma escultura, uma máscara ritual, um tablete com inscrições. No momento em que esse objeto é observado, ele provoca uma reação no observador. Não em todos; mas em muitos. Idéias, sentimentos e percepções que percorriam a mente do artista no momento em que ele compôs aquele objeto brotam, como se fosse um milagre, na mente do observador. Não exatamente as mesmas, é claro. Há um abismo de milênios de cultura, de hábitos, de História. Mas algum contato é feito. Afinal de contas, é por isto que os museus e as galerias de arte do mundo inteiro preservam e expõem esses objetos, reproduzindo todos os dias essa mesma telepatia mágica associada a formas, a signos e a símbolos.

Alguns artesãos que viveram na antiga Babilônia viraram pó milhares de anos atrás; mas não tinham morrido de todo, porque uma parte deles, talvez a parte de que eles próprios mais se orgulhavam, continuava viva, continuava produzindo idéias. Enquanto a Mona Lisa estiver sendo vista, podemos dizer que Leonardo da Vinci não morreu de todo. Não podemos dizer o mesmo, agora, dos outros milhares de babilônios cujas vidas, milênios depois, foram finalmente destruídas por mais uma Guerra.

0026) Os museus de Bagdá (22.4.2003)

O que mais me entristeceu nessa Guerra do Iraque foram os tabletes de barro com inscrições cuneiformes que os saqueadores destruíram ao fazer o seu “agarre o que puder” nos Museus de Bagdá. Muitas obras de arte caras podem ter sido roubadas; mas por saqueadores profissionais, e durante as próximas décadas começarão a voltar à tona. Os profissionais são até bem vindos, numa hora assim. Roubam para revender a colecionadores, e têm que proteger a relíquia. Uma estátua de bronze pesando centenas de quilos foi retirada do segundo andar de um dos museus; vê-se aí a ação de ladrões tecnológicos, motorizados, coisa de Primeiro Mundo. Mas muitas obras em ouro e pedras preciosas foram levadas por gente pobre e ignorante. Gente que sabe apenas que aquilo é ouro, pode ser derretido e vendido. Não fizemos assim com a Taça Jules Rimet?

Os tabletes de barro, então... esses não iam ter mesmo a menor chance. Se fossem roubados por uma raposa do mercado negro, talvez fossem arrematados por algum Bill Gates mais esclarecido, mas a verdade é que lidar com eles é mais complicado do que lidar com máscaras ou jóias. Um tablete de barro com 5 mil anos precisa de muitos cuidados para ser transportado; um colar de ouro até num cantil se esconde.

Já vi alguns desses tabletes em museus, e muitíssimas reproduções em fotos. São textos de antigas leis, de orações, de fórmulas mágicas; alguns são registros de transações comerciais, outros de acordos políticos. Quando foram feitos, a escrita era ainda uma novidade. Imagino que em alguma tarde de sol, na antiga Mesopotâmia, um garoto entrou na sala em que seu pai trabalhava no palácio, e o viu diante de uma placa de barro úmido, segurando uma pequena cunha, e traçando ali fileiras superpostas de sinais. Vendo os olhos arregalados do menino, o pai explicou: “É um software novo que inventaram. A cada palavra que a gente diz corresponde um grupo desses sinais aí. Se outra pessoa conhecer esses sinais, vai ser capaz de saber quais são as palavras.” O pirralho assombrou-se, e saiu correndo, gritando para os amigos: “Meu pai é o cara mais inteligente do muuundo!”

O tablete foi aprovado pelo rei, ficou exposto no palácio durante anos. Quando o palácio ardeu, ficou preservado num porão intacto. O império caiu, outros impérios vieram e passaram, Jesus Cristo nasceu e foi crucificado, veio a Idade Média, a Renascença, o imperialismo europeu saiu anexando os quintais abandonados do mundo. Cientistas um dia vieram e escavaram. Depois de muitos mil anos, o tablete emergiu à luz do sol. Colocaram-no num engradado de madeira e o transportaram de carruagem até uma cidade gigantesca que ainda não existia quando ele foi escrito. Talvez tenha viajado de navio, talvez tenha sido exposto em museus do mundo afora; mas retornou, estava vivo de novo no Museu de Bagdá, até que num dia de fumaça e pânico alguém arrebentou o vidro que o protegia, e o espatifou no piso, em pedacinhos, para sempre.