The Chess Garden (1990) é um romance fantástico de Brooks Hansen, sobre as aventuras de um cientista, o dr. Uyterhoeven, que sai dos EUA de navio para tentar localizar uma ilha imaginária, Os Antípodas, cujo mapa ele descobriu por acaso. Boa parte do livro aparece sob a forma de cartas que ele manda para a esposa, e que ela lê para uma multidão de vizinhos, todos acompanhando as aventuras do doutor como se fosse um romance-folhetim.
“E assim era este loon”,
explica Egbert. A representatividade desse objeto era tão visível aos olhos de
todos que Eugene começou a receber propostas para vendê-lo ou trocá-lo – e
recusava todas. A fama do loon foi
crescendo na ilha. Vinha gente de longe só para admirá-lo. E um belo dia um
príncipe local mandou seu representante, um bispo, oferecendo o cetro do
principado em troca do loon – a
chamada proposta irrecusável.
Eugene recusou a troca; os emissários do bispo começaram
a bater boca com os artesãos da oficina, e logo se estabeleceu um conflito
generalizado, um quebra-quebra furioso em que cada um rachava a cabeça de algum
adversário usando o objeto mais próximo. E nessa confusão, alguém agarrou o
próprio loon e o desceu na cabeça de
alguém. E o loon se partiu ao meio.
Bastou isso para cessar o conflito. Constrangidos, tanto
os visitantes quanto os locais passaram a se desculpar e a lamentar o fato de
que o objeto precioso, defendido e ambicionado por todos, estava destruído. Eugene
tentou consertá-lo, amarrando-o com umas tiras de pano, mas percebeu que não
adiantava. E todos perceberam algo muito pior.
Ao discutir o que acontecera, Eugene perguntou, perplexo:
“Alguém se lembra para que servia essa coisa?”. E ninguém se lembrava.
Todos começaram a cavucar na memória, tentando explicar
para que servia um loon – uma coisa
cuja utilidade, minutos atrás, era tão óbvia quanto a de um garfo ou de uma
gravata. Não era apenas o objeto que
tinha sido destruído, mas a própria idéia dele, o seu conceito, a sua
serventia.
O bispo recolheu sua comitiva e voltou cabisbaixo para contar
tudo ao príncipe – o qual, interrogado, confessou atônito que não tinha mais a
menor idéia de qual a utilidade de um loon,
embora tivesse vários ali mesmo no palácio. E outro bispo arriscou uma
interpretação: a de que o loon de
Eugene talvez tivesse sido “o loon
de todos os loons.”
Talvez o loon destruído tivesse sido aquele que materializava a essência mesma de todos os loons. Talvez fosse o exemplar que guardava dentro de si o significado de toda sua categoria. Ora, então, isso explicava o que acontecera: no momento em que o loon de Eugene foi quebrado durante a briga e tornou-se inútil, o mesmo passou a valer instantaneamente para todos os demais loons do mundo.
(capítulo 8, trad. BT)

