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segunda-feira, 30 de maio de 2022

4828) "Night Sky": a FC da terceira idade (30.5.2022)


 

Na ficção científica tudo se cria, na medida em que tudo se transforma. E toda vez que utilizamos a tradição – temas que já existem, situações já exploradas, ambientes já descritos – nosso dever e nosso desafio é fazer com que essa parte da nossa história, a parte tradicional, familiar, já-conhecida, seja a parte menos relevante. A parte mais interessante tem que ser o que o autor traz de novo, de seu, de único, de peculiar – mesmo que seja apenas a receita na recombinação dos elementos antigos, como faz um chef de cozinha.
 
Na culinária, como na arte da narrativa, é meio raro alguém inventar um ingrediente. Tudo está na recombinação, naquela mistura única entre uma dúzia de ingredientes, entre um milhão de combinações possíveis. E no estilo de cada um, a “mão” da cozinheira.
 
O seriado Anos Luz (“Night Sky”, 2021) está com sua primeira temporada em streaming no Amazon Prime. Concebida e coordenada por Holden Miller, a série é uma agradável recombinação de temas antigos e recentes. Vou citar os que me vieram à mente enquanto assistia; outros espectadores, claro, terão lembrado de outras referências.
 
Way Station (1963) é um romance de Clifford D. Simak, um dos clássicos da FC de sua época. Nele, um fazendeiro solitário e discreto mantém num subsolo em sua fazenda um portal que dá acesso a outros planetas. Por esse portal trafegam criaturas de espécies diferentes, para as quais ele trabalha, servindo como uma espécie de hoteleiro, guia, quebrador-de-galhos. É uma “estação de trânsito”, como diz o título que o livro teve em português, para quem viaja pelo espaço.
 
Dark (2017-2020) é uma série de TV alemã, criada por Baran bo Odar e Jantje Friese. Numa cidadezinha alemã algumas pessoas descobrem portais subterrâneos que dão acesso a outras épocas, recentes ou remotas. Isso desencadeia fugas, crimes, tragédias, desaparecimentos, etc., e revela a existência de uma sociedade secreta de “guardiões” do segredo da viagem no tempo. Uma gente bastante implacável.
 
The Lost Room (2006, Canal Syfy), série de TV criada por Christopher Leone. Um quarto de motel, vítima de um evento físico inexplicável, é transportado para outro plano do espaço-tempo. Objetos associados a ele passam a produzir efeitos sobrenaturais e são buscados com avidez por colecionadores, pesquisadores e gangsters, que não hesitam diante de nada para obtê-los.
 
Elementos cruciais dessas três narrativas estão misturados em Night Sky, cuja história é centrada num casal setentão, J. K. Simmons (“Juno”, “Whiplash”) e Sissy Spacek (“Carrie, a Estranha”, “Missing”, “Coal Miner’s Daughter”), numa cidadezinha de Illinois. Os dois estão casados há uns 50 anos, perderam um filho único, têm uma neta. No primeiro episódio da série acompanhamos seu dia-a-dia carinhoso e às vezes áspero (por causa dele, principalmente), onde o maior medo parece ser a invalidez, ou o Alzheimer.


Num barracão nos fundos da casa ele encontraram anos atrás um bunker subterrâneo de onde é possível acessar uma espécie de mirante que dá para um planeta desconhecido. É o segredo deles. O “segredo”, como se vê, é de domínio público, no que diz respeito aos roteiristas e dramaturgos. Portais subterrâneos que proporcionam viagens no espaço ou no tempo não são mais propriedade intelectual de ninguém. E justamente por não sê-lo, não é neles que a história precisa se concentrar, a menos que disponha de uma super-idéia inovadora – o que é raro. O que interessa a quem escreve e a quem assiste é o reflexo daquilo na vida das pessoas ao redor.
 
Farnsworth, a cidadezinha onde tudo acontece, é um ambiente ideal para os autores desenrolarem sua trama, que tem de tudo: problemas conjugais de casal velho, problemas conjugais de casal jovem, relação entre filhos e pais, entre avós e netos, entre mãe solteira e filha única, entre ex-professores e ex-alunos... No meio da dinâmica inesgotável de tais situações, Night Sky constrói uma narrativa que avança a passos lentos.
 
Muitos críticos se queixaram do ritmo arrastado da série: eu achei uma bênção. As séries de FC atuais têm mais “Ação & Aventura” do que FC, e querem ganhar o público pelo excesso de efeitos, velocidade da narrativa, brutalidade das situações, espetacularidade dos desfechos. No primeiro episódio já ocorrem cinco assassinatos, quatro explosões, dois estupros, três perseguições de carro e uma sessão de tortura.
 
Night Sky não tem nada disso – nos oito episódios da primeira temporada, lembro de ter visto um assassinato e alguns tiroteios apenas. Há violência, tensão e ameaça, contudo: no avançar da história tomamos conhecimento de que, tal como em Dark, existe uma irmandade secreta, cruel, autoritária e impiedosa, monitorando quem viaja (e quem foge) através daqueles portais. Esses fugitivos são os “apóstatas”, que mesmo escapando para o outro lado do mundo sabem que podem ser alcançados cedo ou tarde por agentes vingadores – tal como ocorreu com Trotsky no México, Somoza no Paraguai ou Orlando Letelier nos EUA.  



 
A série tem o suspense necessário para atrair a atenção dos que gostam do melodrama de perseguição, mas é no troco miúdo dos desencontros cotidianos que ela ganha densidade e o ritmo arrastado fica imperceptível. Já observei que uma cena longa, parada, onde “nada acontece”, onde um personagem está apenas fumando um cigarro e olhando pela janela, ou duas pessoas estão em silêncio numa mesa de restaurante, ganha densidade se àquela altura a gente sabe quem são elas, o que sentem, o que pensam, e o que deve estar acontecendo na cabeça delas naquele instante. Quando o espectador não se interessa por isso, ou não desenvolveu esse tipo de “psicografia” (ficar adivinhando o que o personagem pensa), a cena não tem graça nenhuma. Cabe ao escritor/diretor evitar que isto aconteça.
 
Night Sky – que tem no Brasil o título de Anos Luz – deixou mais perguntas do que respostas no fim desta primeira temporada, o que é uma boa coisa. A base do seu “visgo” é sem dúvida o casal idoso de protagonistas, suas gentilezas, suas distâncias, seus carinhos, suas amarguras, suas cumplicidades ritualizadas ao longo dos anos e, ao longo dos episódios, as mentiras, os segredos, os fatos escondidos “para não magoar o outro”, “para não assustar o outro”.
 
Este último aspecto se reflete com mais força em um dos núcleos narrativos secundários, o das duas mulheres argentinas que cuidam de um dos portais secretos: a mãe, que sabe de tudo, e a filha de 15 anos, protegida do segredo, uma garota esperta, inquieta, revoltada com a solidão em que vive (a mãe a proíbe de ter amigos), revoltada com a quantidade de vezes em que ouve variantes de “você ainda não está pronta para saber a resposta”.  
 
Tal como em outra série que comentei aqui recentemente, Severance, a narrativa desta primeira temporada começa lenta, expositiva, desvelando pouco a pouco as complicações do enredo, e ganha uma acelerada nos três últimos episódios.
 
Dark, a série alemã, esticou-se demais, foi vítima do próprio sucesso e acabou emaranhando em excesso a própria narrativa (mesmo assim, merece ser vista). Já The Lost Room  tinha uma premissa e uma execução tão “davidlynchianas”, tão cheias de elementos surrealistas e bizarros, que nunca teve a chance de uma “temporada 2”, e parece que seus mistérios ficarão mistérios para sempre.
 
Resta torcer para que Anos Luz possa prosseguir em paz.
 


 













domingo, 2 de agosto de 2020

4606) Os paradoxos das viagens no Tempo (2.8.2020)





Uma das histórias de paradoxo temporal mais complicadas que eu já li foi também uma das primeiras. A Máquina Infernal do Tempo (“Carrefour du Temps”, 1958) foi escrita por F. Richard-Bessière, um dos meus autores preferidos da pulp fiction francesa, muito traduzida aqui no Brasil nos anos 1960 pela TecnoPrint (Edições de Ouro), pela Vecchi, e por outras editoras.

Nesse livro, Sidney Gordon é um repórter novaiorquino que, junto com amigos, vai cobrir a descoberta de uma nave alienígena acidentada, que caiu em algum ponto dos EUA. Lá, ele entra na nave, que está aberta, e meio distraidamente aciona uma alavanca que tem entre os controles. Pronto. Daí em diante, nada mais no mundo dá certo. Sucedem-se catástrofes inexplicáveis, tipo “deu bug no sistema operacional do Universo”. Bessière é um desses autores pulp que a gente lê porque sabe que no próximo parágrafo qualquer coisa pode acontecer.

Os cientistas chamam Sidney Gordon e explicam que é preciso voltar ao Passado, para evitar que ele cometa aquele ato decisivo. Por motivos que não vêm ao caso, são inúmeras tentativas frustradas. Até que eles decidem voltar a uma época anterior ao nascimento de Gordon, e ele é levado, na máquina do tempo, junto com sua noiva Margaret. E por acaso encontra na rua com o próprio pai, que está voltando para casa, na hora do jantar. E ele percebe, preocupado, que nascerá exatamente daí a nove meses!

E então...

Minha noiva olhou-me espantada.
                – Margaret, acabo de pensar numa coisa horrível. Suponhamos que tenha acontecido uma grave avaria no “Tempojet” e que não nos possam vir buscar.
                Apontei para a casa dos Gordon:
                – De um momento para outro, meus pais vão me conceber. Você percebe em que situação me encontro? De acordo com as teorias de Delamare e de Archie, não pode haver duas cópias do mesmo indivíduo, em curso, na Natureza. (...)
                – Mas o que vai se passar, Syd?
                Eu não estava mais ao seu lado para responder. (...) No momento em que eu desaparecera diante dela, o ser que eu era, modificando bruscamente sua estrutura molecular, uma fração infinitesimal de Tempo, acabava de desaparecer, cedendo lugar a um simples óvulo fecundado, átomo original de um Sidney Gordon em potencial.
(p. 112-113, trad. David Jardim Júnior)

Preciso confessar que em meus verdes anos eu tinha apenas a mais vaga idéia do que acontecia entre os pais da gente para produzir essa coisa meio alienígena chamada de “óvulo fecundado”. Mas uma noção ficou, e ainda hoje me parece uma “escolha de Sofia” para quem escreve FC. Pode, ou não, haver duas cópias do mesmo indivíduo no mesmo Universo?

Essa escolha produz dois tipos de narrativa de FC muito distintos. Dark, a série alemã exibida no Netflix, opta claramente pelo “sim” – e um dos seus principais efeitos dramáticos é o confronto de um indivíduo consigo mesmo, em diferentes fases da vida.

É o caminho tomado por Robert Heinlein, autor de dois contos que são uma espécie de tutorial para quem escreve viagens no Tempo.

O primeiro deles, um clássico de 1941, é “By his Bootstraps”, cujo título, muito citado, alude à raiz do paradoxo temporal. “Bootstraps” são os cadarços das botas, e o paradoxo é comparado a uma pessoa que conseguisse se erguer do chão puxando os próprios cadarços – uma visível impossibilidade. (Muito usado também na teoria econômica, para aludir a economias que se recuperam sem ajuda externa – o trêfego Paulo Guedes usa isso a torto e a direito.)

No conto, Bob Wilson está em casa escrevendo sua tese sobre Metafísica quando de repente aparece um cara igual a ele, dizendo que veio do futuro (“eu sou você amanhã”), e daí a pouco aparece um terceiro Bob... A história tem uma mecânica implacavelmente bem urdida, e tornou-se um clássico porque Heinlein era um autor de raciocínio rigoroso. Os diálogos são vistos primeiro do ponto de vista do Bob-1, que com o decorrer do tempo se transforma no Bob-2, no Bob-3, e cada vez que ele volta a cena é a mesma, só que a consciência de Bob muda a cada vez, porque agora ele sabe o que já aconteceu.

É uma história literariamente tosca, os diálogos são meio Sessão da Tarde, mas enfim: é uma referência necessária, e pode ser lida aqui (o conto foi publicado sob o pseudônimo de "Anson MacDonald"):



Muita gente conhece aquela história popular do cara que vive com o pai viúvo e os dois conhecem uma mulher que vive com uma filha adulta. O rapaz casa com essa mulher. O pai do rapaz casa com a filha da mulher. Os dois casais têm bebês, e o narrador percebe a certa altura que é avô de si mesmo.

Outro conto de Heinlein, “All you Zombies”, publicado dezoito anos depois de "By his Bootstraps", vai ainda mais longe. É a história de um transexual que... bem, são vários paradoxos, mas basta dizer que o protagonista, nessas viagens temporais, engravida a si mesma (pois volta ao passado após a mudança de sexo) e o bebê resultante dessa união é ele mesmo, ou ela mesma.

O conto saiu no número de março de 1959 da revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction, e pode ser lido no link abaixo:



Nas duas histórias de Heinlein, ficamos com a idéia de um tempo infinitamente acessível e infinitamente maleável, onde um viajante pode se encontrar consigo mesmo com as consequências mais imprevisíveis.

Essa é a linha do que eu chamo “os Divergentes” – os autores e os contos onde qualquer visita ao passado produz alterações na cadeia temporal e até na vida de quem se transporta de uma época para outra.

A linha oposta é a dos “Convergentes”: nessas histórias, tudo converge para uma versão única do Tempo, a que nós estamos. Qualquer tentativa de mexer com a História é reprimida pelo que em diferentes autores se chama “patrulha do tempo”, “polícia do tempo”, etc. – dando origem até à versão brasileira, a “Intempol”, criada por Octávio Aragão e explorada por numerosos autores. Uma versão brasileira, meio carnavalizada, desse FBI cósmico.


Um bom exemplo dessa tendência de “a História não pode ser mudada” é o conto de Fritz Leiber “Try and Change the Past”. Leiber escreveu uma série de histórias sobre a “Guerra da Mudança” (“The Change War”), onde dois grupos diferentes, as Serpentes e as Aranhas, lutam pelo poder viajando no tempo em todas as direções.

“Try and Change the Past” (publicado em Astounding Science Fiction, março de 1958) mostra o drama de um indivíduo que volta ao passado, ao momento em que sua esposa o matou com um tiro na testa, e faz o possível para que isso não tenha acontecido. O Universo se defende. O Universo faz qualquer contorcionismo para evitar que o Passado seja mudado.

O último parágrafo do conto diz:

Se um estatístico estiver procurando um exemplo de um fato altamente improvável, dificilmente achará um melhor do que a chance de um homem ser atingido por um meteorito. E se somar a isto a condição de que o meteorito o acerte bem entre os olhos, e de maneira a deixar um buraco equivalente ao de uma bala calibre 22, a improbabilidade é astronomicamente elevada ao cubo. Então, como é que alguém pode lutar contra um Universo que acha mais fácil matar um homem dessa forma do que adiar a data de sua morte? (trad. BT)



As histórias de viagem no Tempo são consideradas ficção científica, mesmo que a gente saiba que elas são, à luz da ciência de hoje, absolutamente impossíveis. Eu não creio que um dia seja possível – falo da vida real – viajar no Tempo. No máximo (estou sendo generoso) poderemos mandar sinais, mensagens eletrônicas telegrafadas por algum meio, que possam ser captadas no Passado ou no Futuro. É o tema de outro clássico: Timescape (1980), de Gregory Benford. Mas mandar pessoas, máquinas, espaçonaves?  Como dizia minha tia Adiza: cochila! 

Para mim, o que torna “científicas” as histórias de viagem no Tempo não é a possibilidade de que venham a acontecer. É que escrevê-las requer a criação de uma lógica causal rigorosa, e isto é um dos princípios básicos do nosso pensamento científico. Estabelecer parâmetros ou premissas, e esgotar todas as combinações possíveis – sem violentar os parâmetros. 

O leitor de mentalidade científica acompanha cada desdobramento – em uma série de TV como Dark, por exemplo –,   reconhece o esforço feito pelos autores para obedecer ao rigor do raciocínio, critica quando os autores “saem pela tangente” ou “mandam um 1-7-1”.  O espectador normal, por outro lado, começa a se perder a partir de certa altura, e nesse caso a solidez da dramaturgia precisa compensar os buracos do raciocínio.

São histórias humanas que estão sendo contadas, e a FC é aquilo que Marianne Moore descreveu tão bem: “jardins imaginários onde moram sapos de verdade”.












terça-feira, 21 de julho de 2020

4602) "Dark", temporada 3 (21.7.2020)




Vou começar com a coisa que eu detestei na série Dark: aquele insuportável clichê da pessoa que acorda de um pesadelo sentando na cama, arquejante, com os olhos arregalados, a boca aberta. Usar isso uma única vez, pra mim, já é um defeito grave. O diretor usa em praticamente TODOS os episódios da série, às vezes repetindo no mesmo episódio. É um dos clichês mais desgastados da História do Cinema. Como é que isso passa pelas mãos de uma equipe inteira e ninguém questiona?!  Não tem perdão.

Esse “macete” de fingir que uma coisa horrível está acontecendo e depois dizer: “Era só um sonho! Brincadeirinha!” é um erro elementar. Rarissimamente soma alguma coisa ao filme. Você obriga o espectador a investir sentimento, impulso emocional, e depois diz que estava mentindo. Nas próximas, o espectador não acredita, não investe emoção. Mesmo inconscientemente, ele hesita. Já foi enganado umas, duas, três, quatro, cinco vezes. Pra quer morder de novo a mesma isca?

Eu dou logo um passo atrás. Fico assistindo da calçada.

Um defeito grave são os diálogos. É quando a gente vê que falta uma referência de idéias mais ampla. Falta poltrona a esse pessoal, dizia uma professora minha, para indicar que faltava leitura.


A cada episódio, os personagens repetem uns para os outros a mesma ladainha: “Tudo está interligado: luz e sombra... vida e morte... o fim e o começo...”  São banalidades abstratas pomposas, como num livro de auto-ajuda. É por isso que em Hollywood usa-se muitas vezes contratar um cara para escrever o roteiro, e outro para escrever os diálogos. Porque sempre tem gente que só sabe fazer uma das coisas.

Não quero botar um peso muito grande nas costas da roteirista/criadora Jantje Friese: pelo que vi nas bios, é apenas o segundo roteiro dela, que antes de Dark tinha escrito apenas um filme. E cabe a ela, em princípio, o grande mérito da série, que é a combinação de uma idéia ousada, um desenvolvimento complexo, um trabalho braçal imenso, absurdo, de manter a continuidade de ação e de psicologia de 15 ou 20 personagens ao longo de 4 ou 5 ou mais épocas.


É um roteiro corajoso, ambicioso, e que deve ser louvado pelo que tem de bom, numa época em que todo mundo opta pelo feijão-com-arroz e tem medo de arriscar. Jantje Friese não teve medo, quis arriscar. Quando um malabarista está no picadeiro jogando e aparando 10 bolas, e duas ou três caem no chão, a gente tem que aplaudir, sim. Senão, estaríamos até hoje pagando para ver alguém fazer malabarismos com 3 bolas. 

Já falei aqui que o erro de Dark foi querer expandir demais a complexidade do enredo, ao invés de explorar melhor o território (já em si complexo) demarcado na Temporada 01. Na Temporada 02 já houve um difícil equilíbrio, e na 03 o que tivemos foi uma dispersão dramática entre uma porção de situações contraditórias que os personagens tinham que explicar o tempo inteiro uns para os outros – e para o público.

A série ganhou em complexidade, mas acabou perdendo em profundidade. A Temporada 03 teve momentos em que parecia que a gente estava assistindo um storyboard.

Tenho meia dúzia de perguntas mal-respondidas, mas nem vou tocar nesse assunto aqui. O elenco é quase todo muito bom. O casting, como já falei, é extraordinário. A direção tira leite de pedra em lidar com as situações obrigatoriamente repetitivas propostas pelo argumento (um risco muito grande, típico desse tipo de história, e assumido com consciência). 

A parte visual é também excelente, e dou uma nota 10 para o design das Máquinas do Tempo, todas elas. Todas têm algo de steampunk, de ciência gótica.



Fico imaginando que o sucesso da primeira temporada esticou desnecessariamente o restante. Pena que um sucesso semelhante não tivesse premiado uma das minhas séries preferidas, The Lost Room (Christopher Leone, 2006), mais misteriosa do que Dark, e que morreu depois de uma temporada e seis episódios, deixando mil mistérios no ar:


Falei, ao comentar a Temporada 01, que Dark é no fundo mais um folhetim com dramas de família. E de fato tudo gira em torno de quem casou, quem descasou, quem traiu, quem nasceu, quem morreu.



E todas essas histórias de Viagem no Tempo, curiosamente, giram em torno do nosso desejo de mudar o Passado. Ninguém volta ao Passado para rever os lugares que foram marcantes, como o velhinho seu-lunga do Morangos Silvestres de Bergman. Volta para interferir, volta para tentar corrigir erros, volta por esse inconformismo humano de nunca se dar por satisfeito e achar que a vida poderia ter sido perfeita, impecável, sem um erro sequer.

Ou que a História é uma batalha que ainda não cessou, que é possível voltar no tempo para matar Hitler ou salvar Abraham Lincoln. E o que muitas dessas histórias nos mostram é que não adianta. Você volta no Tempo, corrige um erro, e o erro volta a acontecer. O Universo é teimoso, não quer ser corrigido.

Como diz uma personagem de Dark: “As coisas podem não acontecer do mesmo jeito, ou no mesmo tempo, mas acontecem”. Quem traiu com A, trai agora com B. Quem chantageou C, agora chantageia D. Quem tem o vício X, está agora com o vício Y.  Detalhes assim só importam para nós; o Universo faz a concessão e segue em frente com seu tanque Panzer.


Há um conto de Lewis Shiner (“Voodoo Chile”, Asimov Magazine, julho de 1993) em que um fã de rock volta no tempo para evitar que Jimi Hendrix morra, como morreu, engasgado com o próprio vômito após uma noite de farra em Londres. Ele volta. Vai nos bares. Fica amigo de Hendrix, revelando coisas futuras (sem explicar por que) e ganhando a confiança do músico. Na noite fatal, dá um jeito de alguém cuidar de Hendrix. No dia seguinte, Jimi está vivo! Maravilha! Vamos comemorar!  Vão beber no bar de sempre e ao saírem, de madrugada, surge do nada um maluco e esvazia um revólver no autor de “If Six Was Nine”.

O que tem de acontecer, como se diz por aí, tem muita força.


(O diretor Baran Bo Odar e a roteirista/criadora Jantje Frieser)

Volto a louvar a roteirista/criadora Jantje Frieser por uma outra ousadia: a solução final que adota para a “guerra entre dois universos”. Para solucionar o “nó górdio temporal”, não adianta desatá-lo, é preciso voltar um pouco mais e cortar tudo, mesmo ao preço de que numerosas linhas temporais deixem de acontecer. (E ela foca a solução num personagem-chave que estava ali o tempo todo; não é um simples deus ex machina).

É a ousadia assustadora de Isaac Asimov num dos seus melhores romances, O Fim da Eternidade (1955). E é diferente do “sustozinho do pesadelo” que critiquei no início. Investimos nosso envolvimento emocional com personagens cuja vida, afinal de contas, será apagada. Mas é como dizia Drummond:

“Deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente”.









quinta-feira, 16 de julho de 2020

4600) "Dark", temporada 2 (16.7.2020)




Eu não gosto de discutir filmes dando spoiler, e ainda mais quando se trata de uma série com quase 30 episódios, que nem todo mundo tem tempo ou disposição para assistir em um ou dois dias.

“Dark” é uma série alemã no Netflix, com uma história de viagem no tempo. Lembra, por esta premissa, a série espanhola “El Ministerio del Tiempo”, também Netflix. As semelhanças param por aí. A espanhola é um seriado leve, de aventuras, com momentos de comédia e de vez em quando uma piscadela de romance. “Dark” não tem humor. Não tem nenhum momento que provoque uma gargalhada. Aqui e acolá a gente dá uma risada, mas é aquele humor meio sádico de quando a gente diz: “Eita, o cara achou que ia resolver o problema, e agora é que se fudeu de vez.”

Expectativas frustradas produzem esse tipo de riso, um humor sem alegria. “Dark” (já comentei aqui, dias atrás) é uma série sombria mesmo, sem alegria, sem sorrisos, embora tenha inúmeras cenas de forte emoção humana, várias que me deixaram com nó na garganta.


(Mikkel)

Justamente por isso: não é uma série desenhada para nos aquecer o coração. É o longo relato do desmoronamento vagaroso de um mundo, e de como as poucas pessoas que entendem o que de fato acontece não podem fazer nada para impedi-lo – e quando tentam, só fazem piorar as coisas.

Por outro lado, tanto “Dark” quanto “El Ministerio del Tiempo” usam um artifício de dramaturgia muito cômodo, típico de certo estilo de ficção científica. É a possibilidade de fazer a viagem e chegar exatamente no ano (às vezes no dia e mês) que se deseja. Coisa boa, né? Se um dia eu escrever uma história de viagem no Tempo vai ser assim; “Tu viaja, mas tu não sabe onde vai pousar. Quer ir?...”  Acho mais cientificamente rigoroso, mas quem sou eu.

Uma coisa que se deve elogiar nesta série alemã é o trabalho de “casting” da escolha do ator para cada papel. Mostrar um personagem em diferentes fases da vida (5 anos... 12 anos... 25 anos... 60 anos...) é sempre um desafio, porque tem que haver uma semelhança física, uma continuidade, para que a gente aceite a ilusão.



(Claudia Tiedemann)

Quando temos no cinema uma história de paradoxo temporal, vamos ter muitas vezes (como em “Dark”) um personagem aos 35 anos falando consigo mesmo aos 18, ou aos 70. Mais difícil ainda. E os atores e atrizes, na maioria, são muito bons.

A escolha do elenco da série é incrível, a ponto de muitas vezes quando um personagem novo surge inesperadamente, eu, que sou o pior fisionomista da história do cinema, penso logo: “É Fulano, agora mais velho”. Acertei em 90% dos casos desta série.


O roteiro é de uma enorme complexidade, manipulando uns 15 ou 20 personagens, ao longo de pelo menos 4 faixas temporais com cerca de 30 anos de diferença entre si. Olha só o problema de reconstituição de época, com roupas, cabelos, carros, decoração, mobília... Os experts devem ter notado vários furos – ainda não consultei a seção “Goofs” do Internet Movie Data Base, mas não importa. Para um olho genérico (o meu), erro zero.

Só o 2052 deles é que é igualzinho aos futuros em voga hoje em dia: carros de assalto, metralhadoras com design meio barroco, capacetes, tudo convergindo para um estilo de Distopia Militar Pós-Apocalipse que vai acabar sendo profética, porque, quando acontecer, pelo menos o figurino já estará à espera.


(O Futuro)

A complexidade da narrativa está fazendo muita gente abandonar o barco. Eu entendo. História de paradoxo temporal na FC é como crime de quarto fechado no romance policial. Você tem que ir construindo um “organograma” de pistas, relações, hipóteses, isso equivale àquilo, isso é por causa disso... Tem horas que muita gente diz: “Chega, me perdi, desisto”.

Quem já leu muita história assim se movimenta com mais facilidade. “Dark”, como muitas histórias desse tipo, tinha duas opções: 1) produzir o labirinto inicial, e ficar explorando as relações humanas dentro dele; e 2) sair expandindo o labirinto. Optou pela segunda.

Essa opção de continuar expandindo é o que alguns críticos da FC chamam “o estilo Doc Dmith”. O autor E. E. Doc Smith, criador da série dos “Gray Lensmen” começava com uma aventura espacial que envolvia o planeta inteiro; na segunda fase, a guerra envolvia todo o Sistema Solar; na terceira, era a Via Láctea inteira que tomava parte; na quarta, lá vinha gente de outra galáxia... É o estilo de cada um, mas equivale àqueles números de malabarismo de circo onde o cara começa com três bolas e daí a pouco está com dez.


(A Máquina do Tempo -- uma delas)

Um aspecto que eu gosto em histórias assim é que quando as pessoas ficam sabendo que alguém voltou ao Passado correm atrás de provas... e descobrem que essas provas estavam ali, a vida inteira, só que elas não viram. A foto do menino entre os coleguinhas estava no arquivo da escola. A foto do cara que foi preso saiu no jornal, 30 anos atrás. Todas as pegadas do Futuro estão lá no Passado... mas a gente só percebe depois.

Em O Fim da Eternidade (1955), de Isaac Asimov, um viajante no tempo vindo do Futuro fica preso na década de 1930 e dá um jeito de publicar mensagens “cifradas” nas revistas da época, deduzindo que seus colegas no futuro irão consultá-las e acharão essas coisas que, ininteligíveis em 1930, mostram ter sido escritas por quem veio do futuro.

A série “Dark” tem um visual extremamente eficaz, usando com habilidade uma tríade de ambientes (usina nuclear / cavernas / floresta). As alusões culturais (música de rock, comerciais de TV, vestuário) devem ser muito divertidas para quem prestou atenção aos anos 1980, o que não foi o meu caso. As máquinas do tempo (são várias – elas evoluem, feito os Pokémons) são de um design esplêndido, à altura da máquina Steampunk clássica de H. G. Wells conforme imaginada por Bill Ferrari no filme de George Pal (1960).







sexta-feira, 10 de julho de 2020

4598) "Dark", temporada 1 (10.7.2020)




Vi a primeira temporada desta série alemã do Netflix. É uma tentativa de fazer uma série de ficção científica de “grande conceito” – um feixe de idéias ambiciosas exploradas até as últimas consequências – não as últimas propriamente, porque não as há, mas até uma distância segura. E de grande produção também, pois parece uma série cara, tecnicamente muito bem realizada.

Quem não viu ainda mas quer ler este texto pode ficar tranquilo. Darei uma idéia aproximada da história, mas não darei spoilers.

É uma história de viagem no tempo, e transcorre numa pequena cidade alemã, Winden, situada entre uma usina nuclear e uma floresta, que são os dois ambientes principais. Pessoas desaparecem misteriosamente, sempre nas proximidades de um sistema de cavernas subterrâneas (a Alemanha é cheia delas) no meio da floresta. E pessoas estranhas são vistas na cidade o tempo inteiro, referindo-se a fatos igualmente misteriosos ocorridos três décadas atrás.

O espectador percebe desde logo que o enredo envolve viagens no Tempo e os famosos paradoxos temporais, a que todo mundo já foi exposto desde Back in the Future: E se você voltasse no Tempo e visse seus pais ainda adolescentes, antes mesmo de namorarem?  E se você voltasse no Tempo e visse a você mesmo ainda garoto?



Há duas tendências principais a respeito disso, nos autores de FC.

Uma delas eu chamo de Os Divergentes: qualquer ação mínima que se faça pode influenciar o tempo; você pisa numa borboleta e, por causa da morte dela, o futuro será todo diferente. É uma espécie de carnavalização do Livre Arbítrio.

A outra eu chamo Os Convergentes: não importa o que a gente faça, há uma força no Universo que corrige esses pequenos desvios e faz tudo voltar a acontecer como teria que acontecer mesmo, não adianta espernear. Uma carnavalização do Determinismo.

Como a série ainda está em progresso (tem as temporadas 2 e 3 pela frente), ainda não sei o Futuro. Vou comentar outros aspectos interessantes, não-ciência-ficcionais, da dramaturgia.

Vi amigos meus se queixando de que os personagens (há várias famílias com protagonistas, a coisa é maior do que Cem Anos de Solidão) são todos parecidos, e isso atrapalha a gente. Não que sejam parecidos fisicamente. São pessoas de “astral” sempre igual.

Será que os alemães são todos assim? (Os meus amigos alemães tinham um pouco disso, mas não tanto.) O povo de Winden é um povo carrancudo, parece que está com raiva o tempo todo. Adolescentes que namoram, se abraçam, se beijam, trepam, tudo isso sem um sorriso. Perpassa uma sombra o tempo todo. (Recomendação da dramaturgia? Pode ser.) Pode ser também o orvalho radioativo que eles absorvem.

Isso pega mal para uma platéia brasileira, porque entre nós o sorriso é uma vaselina universal que torna suportável a convivência humana. Dependemos tanto do sorriso sincero que damos carta-branca ao sorriso falso. O sorriso de condescendência, o sorriso de escárnio, o sorriso de fúria, o sorriso de neurose impotente, o sorriso de súplica. Alemão, não. É sério como um retrato falado feito em delegacia.


Uma das teses da série, como da FC em geral, é a de que “o Futuro modifica o Passado”. Isso tem um reflexo dramatúrgico muito interessante no fato de que Winden tem famílias que se conhecem ao longo de décadas, e se relacionam o tempo todo: os Tiedemann, os Nielsen, os Doppler, os Kahnwald...   E esses relacionamentos envolvem casamentos, mortes, ódios antigos, namoros, dívidas, perseguições, alianças, vinganças...

É o velho melodrama de folhetim, as árvores genealógicas intrincadas que faziam a festa de Balzac, Dickens, Dumas, etc.  Tudo enroscado numa webwork de relacionamentos que daria vertigem no mestre desse estilo, Harry Stephen Keeler, que se limitou ao melodrama policial e não se arriscou muito em viagens no tempo.



(A "webwork" de um livro de H. S. Keeler)


No melodrama mainstream (leia-se: a telenovela) a gente não volta no tempo fisicamente, mas volta mentalmente o tempo todo. Não podemos mudar os fatos concretos do passado. Podemos mudar, isto sim, nossa interpretação deles, com as devidas consequências a partir daí.

Podemos revelar um fato que ninguém sabia. Podemos reinterpretar um fato  que tinha sido visto de outra forma. Podemos perceber pela primeira vez uma relação entre dois fatos antigos. Podemos entender por fim (com algum dado novo) um fato que até agora tinha permanecido inexplicável. Podemos recuperar informações perdidas, podemos recordar detalhes que tínhamos esquecido.



Isso tem sido, nos últimos 200 anos, a substância do melodrama, do folhetim literário, da telenovela do horário nobre. O baú do Passado sendo aberto.

“A estética do Ah Se Eu Soubesse”:

“A estética do Meu Passado Me Condena”:

“A estética do Por Essa Eu Não Esperava”:


A verdade é que os fatos já aconteceram – mas o que chamamos de “fatos” é o que sabemos a respeito deles. E que pode mudar, com as revelações bombásticas de qualquer enredo bem bolado.

Grande parte de nossa literatura se baseia nisso: o que aconteceu no Passado? Capitu traiu, ou não traiu? É um Passado que, em tese, pode pender para qualquer lado. Em Machado de Assis, um cristão não pode abrir uma gaveta sem achar uma carta comprometedora, o que faz desmoronar um castelo com rochas de mil anos.

Dizem os personagens de Dark: “Todo mundo nesta casa tem segredos”. “Você já percebeu que não conhecemos direito nossos pais, não sabemos como eram eles na infância, na juventude?”.  E agora o aparato da FC serve a esse tipo de plot.

Dark, por mais que mostre personagens viajando loucamente para o Passado e para o Futuro, tem algo da tragédia grega de sempre: pessoas que tentam evitar que algo aconteça e nesse esforço acabam justamente provocando o que queriam evitar. 




(Aqui, meus comentários sobre a Temporada 02):
http://mundofantasmo.blogspot.com/2020/07/4600-dark-temporada-2-1672020.html