-- É de fato um bom verso – concedia o primeiro. – Conseguiu trocar “ão” por “ões”.
Vi tempos depois uma entrevista com ela, em que dizia, no
fim das contas, que era melhor não ter ganho do que ganhar e todo mundo dizer
que ela não mereceu.
Um caso parecido se deu no futebol, no ano passado,
quando o ex-flamenguista Vinicius Jr., do Real Madrid, era tido por muita gente
como o vencedor antecipado da Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador do ano.
Vinicius é um grande jogador e pelo meu gosto pessoal receberia, sim, o prêmio
naquele ano (não no ano seguinte, em que ficou bem abaixo).
Acontece que Vinicius se envolveu numa série de episódios
de racismo com as torcidas, bateu de frente, rasgou o verbo, deu murro em ponta
de faca, recusou-se a baixar a cabeça... Resultado: atraiu para si as
antipatias de muita gente no futebol, desde os racistas propriamente ditos até
aqueles que abominam as polêmicas e sonham com prêmios “platônicos”, idealmente
técnicos, sem fatores extra-campo envolvidos.
E aí a Bola de Ouro acabou indo para Rodri, jogador do
Manchester City. Que virou no meio
futebolístico uma espécie de Gwyneth, alguém que “não esperava” – e, para
muitos, não merecia. Pior: foi apontado
por gente da imprensa como um premiado “fake”, um pretexto postiço para que o
prêmio não fosse para um jogador negro que bate de frente com o racismo.
Rodri é ótimo jogador. Na época, estava se recuperando de
uma contusão muito grave no joelho, o que causa em qualquer fã do futebol uma simpatia
e uma solidariedade automáticas. Ganhou o prêmio, foi lá receber, suportou os
aplausos. Mas, em algum momento, Rodri também deve ter pensado: “Eu acho que
mereço, eu sei que queria ganhar; mas não assim.”
Existem prêmios justos e prêmios injustos? Não sei, mas às vezes me lembro de Jorge Luís
Borges, o cara que durante a vida inteira sonhou em vão com o Prêmio Nobel: “Todo
sucesso é uma espécie de mal-entendido.”

