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quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

4902) João Cerebral de Melo Neto (12.1.2023)



(João Cabral, em Recife/Sevilha, de Bebeto Abrantes)

 
No último dia 9 de fevereiro, aniversário de João Cabral de Melo Neto, participei de um evento numa sala do Estação NET Botafogo (Rio de Janeiro), em homenagem ao poeta. Houve recital e canto a palo seco de Numa Ciro, a exibição de documentários de Bebeto Abrantes (principalmente o longa Recife/Sevilha, que está completando vinte anos), e depois um bate-papo em que eu e o crítico Carlos Alberto Mattos comentamos o depoimento de Inez Cabral, filha do autor de O Cão Sem Plumas.
 
Falamos de vida, de cinema, de poesia, e depois saímos para tomar um chope comemorativo (foi minha primeira saída de casa “a trabalho” desde junho do ano passado).
 
Alguns assuntos ficaram pendentes na minha memória e quero comentar aqui, porque é sempre bom falar dos poetas que a gente gosta.


(Carlos Alberto Mattos, Inez Cabral e BT / foto: Emilia Veras)


João Cerebral
Essa era uma piada dos tempos de meus 25 anos em Campina Grande, quando eu só andava com A Educação pela Pedra embaixo do braço, e meus amigos nerudistas e vinicianos diziam:  “Você só gosta de João Cerebral de Melo Neto, o Poeta Que Não Gosta de Emoção”.
 
Tudo era na base da brincadeira (eles também liam, e também gostavam), mas isso nunca me saiu da cabeça. Sim, da cabeça. Tudo que nos produz emoções acontece em nosso cérebro. É com o cérebro que a gente se emociona, é com o cérebro que a gente se apaixona por uma mulher, por um time de futebol ou por um país, é com o cérebro que a gente aprecia uma obra de arte ou um pôr-do-sol.
 
O cérebro é a sede da beleza e da verdade, é a sede do bem e do mal, é a sede do amor e do ódio, e é a sede de todas as nossas emoções.
 
“E o coração?!” bradam os adoradores desta víscera (o termo é de Cabral). Bem, o coração é o músculo propulsor da nossa corrente sanguínea, e é um personagem importantíssimo. Tão importante que quando ele pára a gente morre. E ele é o melhor sismógrafo das emoções que acontecem no cérebro, porque quando estamos emocionados o nosso “sistema nervoso simpático” injeta um menu variado no organismo (adrenalina, etc.), e a pulsação acelerada do coração acusa a presença dessas alterações químicas.
 
O coração não se emociona. Ele é apenas um despertador que toca quando nosso cérebro sente uma emoção mais forte.


(o sanfoneiro Severo)

 
O resfolêgo da sanfona
Farei agora uma comparação pouco cabralina, mas que pode ser útil.
 
Às vezes estamos inundados de emoção. Estamos vibrando de entusiasmo ou de deslumbramento, estamos maravilhados com uma descoberta filosófica, com uma reflexão espantosa sobre o mundo e a vida. Estamos alegres, estamos tristes; e às vezes estamos poetas.
 
Quem não escreve, deixa-se impregnar dessa emoção, sem obrigação alguma de passá-la adiante. (Poetas também têm esse direito; lembremos o poeminha de Drummond:
 
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
(em Alguma Poesia, 1930)
 
Todos nós ficamos meio inundados de poesia quando estamos inundados de emoção. Quem escreve, contudo, dispõe de técnica. A emoção é um bicho brabo, e a técnica é seu domador.
 
E venho eu com a minha comparação com a sanfona. A sanfona é um fole que, ao ser aberto e fechado, aspira e expira uma grande quantidade de ar. O fole produz um fuuuuu... silencioso quando o ar comprimido escapa por aquela abertura que toda sanfona tem, perto das teclas, quando a gente precisa abri-la ou fechá-la sem produzir som.
 
Esse ar não é música. Ele só se torna música coisas quando é filtrado através das palhetas metálicas comandadas pelos teclados. Existe uma técnica para manejar esse teclados e tocar desde Asa Branca até o Bolero de Ravel. É só quando passa através das palhetas, controladas pelo teclado, que o ar vira arte, vira música. Do mesmo modo, a emoção do poeta precisa ser filtrada, controlada, vibrada pelo uso das palavras e das frases, para se tornar poesia.
 
As palavras e as estruturas verbais são as palhetas metálicas e o teclado do poeta. Só é poesia a emoção que passa através desse processo.
 

(estátua de João Cabral, à margem do Capibaribe)
 

A máquina de emocionar
O filme de Bebeto Abrantes leva João Cabral a comentar a expressão do arquiteto Le Corbusier que ele usou como epígrafe em um de seus livros: “machine à emouvoir”, máquina de emocionar. O poema é uma máquina de comover, de produzir emoções.
 
Esse conceito pode ser rastreado até 1846, quando Edgar Allan Poe publicou seu famoso ensaio “A Filosofia da Composição”, onde explicava o processo de criação do poema “O Corvo”. Um planejamento geral da extensão do poema, número de estrofes, número de linhas, alternância de linhas longas e curtas, posição das rimas, presença de um estribilho final que depois de muitas idas e vindas fixou-se na palavra “nevermore”. Tudo foi estabelecido de antemão; e depois o poeta sentou-se e escreveu o poema.
 
Esse processo de extrema racionalidade não impediu que o poema, com seu melodrama romântico e sua atmosfera gótica, se transformasse num clássico. Só em português há mais de 50 traduções. E quanto Cabral intitulou um livro de 1946-47 “Psicologia da Composição”, demonstrava conhecimento deste método, e identificação com ele. Cabral não quer a forma poética que seja “encontrada / como uma concha” na praia. Não quer a forma como fruto de um lance do acaso, um “tiro nas lebres de vidro / do invisível”. Quer a forma “atingida / como a ponta do novelo / que a atenção, lenta, / desenrola”. 


Poe foi traduzido ao francês (e melhorado, segundo alguns) por Charles Baudelaire, dando início a mais um dos numerosos processos em que um artista norte-americano tido como menor na América é revelado como gênio em Paris. Sua obra traduzida influenciou inúmeros franceses posteriores, de poetas como Stéphane Mallarmé até músicos como Claude Debussy. 



Paul Valéry afirmou, numa conferência de 1924, “Situação de Baudelaire”:
 
Até Edgar Poe, o problema da literatura nunca havia sido examinado em suas premissas, reduzido a um problema de psicologia, abordado através de uma análise em que a lógica e a mecânica dos efeitos fossem deliberadamente empregadas. (...) Essa análise – e esta circunstância garante-nos seu valor – aplica-se e verifica-se nitidamente também em todos os campos da produção literária. As mesmas reflexões, as mesmas distinções, as mesmas observações quantitativas, as mesmas idéias diretrizes adaptam-se igualmente às obras destinadas a agir forte e brutalmente sobre a sensibilidade, a conquistar o público amante de emoções fortes ou de aventuras estranhas, da mesma forma como regem os gêneros mais refinados e a organização delicada das criações do poeta.
(Em "Travessias", Ed. Iluminuras, trad. Maiza Martins de Siqueira)
 
Este era o método de Poe, que via Baudelaire influenciou duas gerações de poetas franceses, talvez mais até do que aos poetas norte-americanos. E é um dos principais lampejos do que seria a arte industrial do século 20: não a revelação das emoções íntimas do artista, mas a tentativa consciente e planejada de produzir emoções no público. Edgar Allan Poe influenciou desde Alfred Hitchcock a João Cabral de Melo Neto.



 
(João Cabral e Joan Miró)


A mente geometrizante
Cabral é talvez o poeta brasileiro mais influenciado pela pintura e pela arquitetura. (Murilo Mendes, amigo seu, era dessa mesma tribo.) Sua poesia é uma poesia de visualidade intensa, não apenas nas imagens literárias sugeridas pelas suas palavras, mas na sua fanática dedicação à forma do poema na página impressa. Os quadradinhos das estrofes, as faixas verticais dos romances, a alternância dos parágrafos indentados sucedendo-se quase como se o poeta tivesse primeiro rabiscado a lápis o layout do poema para depois preenchê-lo com versos.
 
Propuseram ao cientista Carl Sagan, quando estudante, um teste que consistia em imaginar um aposento e o que existiria dentro dele. Sagan começou dizendo: “Bem, é um aposento grande, medindo 15 x 20 x 30 metros...”  Nenhum dos outros estudantes tinha se dado o trabalho de visualizar o espaço; apenas fizeram listas do que deveria haver lá dentro.
 
Cabral diz que o engenheiro “sonha coisas claras: superfícies, tênis, um copo de água”. O mundo é um espaço para ser preenchido com formas geométricas, e dentro dessas formas surgem os indícios da vida humana.
 
Um teste conhecido das oficinas de roteiro ou de escrita criativa, quando se trata de imaginar personagens, pede que o roteirista imagine o que o personagem masculino traz nos bolsos (chaves? remédio? moedas? pente? revólver?), e o que a personagem feminina traz na bolsa (batom? espelho? carregador de celular? caneta?). Esses objetos são o repertório de referências culturais que definem o personagem.
 
O espaço poético de João Cabral é uma rosácea de formas geométricas claras, e dentro delas é possível encontrar frutas, pedras, caranguejos, galos, cemitérios, balas, toureiros, cachorros, barcos, bailarinas, canaviais...
 

 






quinta-feira, 18 de agosto de 2022

4854) A arte de perturbar o Universo (18.8.2022)



(imagem: telescópio James Webb)
 
Nos meus tempos de cantor independente, fui convidado a fazer um show voz-e-violão num Congresso de Físicos. Havia amigos meus na organização, e o congresso acontecia num hotel imenso e agatha-christiano de Caxambu (MG). Na tarde em que cheguei, passei algumas horas tomando cerveja com o prof. Roberto Ribas, os dois sentados a uma prudente distância da piscina, conversando sobre a arte de perturbar o Universo.
 
A década de 1980 já vai longe, mas lembro de ter insistido numa pergunta que ainda me aflige: Que distância um fóton é capaz de percorrer, Universo afora, depois de ter sido emitido pelo Big Bang, até chegar aos nossos telescópios? Um fóton perde energia? A luz cansa? Se sim, por quê? Se não, por quê? Ainda não achei uma resposta que eu entendesse.
 
Outro grão de dúvida que me ficou daquela longa conversa foi o modo como o Universo reage às nossas pequenas interferências.
 
Dei como exemplo a piscina, que se estendia deserta e plácida, diante de nós. Digamos que eu me aproximasse dela, enchesse uma caneca e levasse comigo aquela pequena quantidade de água. Claro que não ficaria um buraco na piscina. No instante em que eu erguesse a caneca, a água em torno preencheria aquele espaço. A piscina pareceria intacta; mas qualquer medição antes-e-depois acusaria essa diferença mínima.
 
(Digressão: Dizemos que “a Natureza abomina o vácuo”, mas acho que não é a Natureza, é a atmosfera.  Alguns artefatos (uma lâmpada doméstica, p. ex.) contêm o vácuo em seu interior. Se de repente fazemos uma abertura nele, as moléculas de ar invadem numa fração de segundo aquele espaço, preenchendo-o, como a água da piscina preenchia o buraco deixado pela caneca. O fluido mais denso tende a preencher o espaço ocupado por um fluido mais rarefeito.)
 
Minha questão era mais ou menos esta: A piscina inteira sabia o que estava acontecendo lá naquela extremidade, onde um rapaz cabeludo, de cócoras, enchia dágua alguma coisa e a levava consigo? Pode-se dizer que sim, porque o nível da água se reduzia por igual na piscina inteira, mesmo que numa fração de 0,0001 de milímetro. A água toda se re-arrumava para compensar aquela ausência.
 
Acho que o professor se saiu com alguma explicação de Mecânica dos Fluidos, numa linguagem acessível a um cabeludo que não concluiu sequer um curso de Humanas. Fiquei com uma certa impressão de que nossas perturbações no Universo obedecem à percepção newtoniana da “razão inversa do quadrado da distância”, ou seja, quanto mais longe do ponto de origem muuuuito menor a alteração.
 
(Digressão: visualizando a piscina com a forma retangular de um mapa-múndi, é como se uma canequinha de água retirada em “Campina Grande” produzisse um movimento nas moléculas de fluido localizadas em “Lagoa Seca”, “Queimadas”, “Riachão”, “Soledade”, etc., mas deixasse impassível e QUASE inalterada a posição dos fluidos do “Japão”, “China”, “Sibéria”, etc.)
 
Isto me veio à lembrança durante a leitura de um conto de terror de T. H. White, “The Troll” (1935).


(T. H. White)
 
Tudo acontece durante uma viagem do protagonista (pai do narrador, sempre designado como “meu pai”) à Lapônia. Nesse lugar gélido do extremo norte, o sujeito se hospeda num hotel e nessa mesma noite (uma noite clara, pois o sol não se põe nessa época do ano) sonha que há sangue entrando por baixo da porta que dá para o quarto vizinho.
 
Ele acorda (esse detalhe é importante – daqui por diante, tudo acontece rigorosamente no “mundo real”) vai até a porta, olha pela fechadura. E vê um Troll, um monstro de uns três metros de altura, devorando o corpo de uma mulher desmaiada. Quando termina, o Troll olha na direção da porta e seu olhar cruza com o olhar do homem que espreita pelo buraco.


(troll)
 
O homem se afasta dali, abalado, mas não tem coragem de contar o que viu. Pergunta na portaria, e lhe informam que o quarto ao lado do seu está ocupado por um casal de meia idade; um professor sueco e sua esposa.
 
Ele sai para caminhar na montanha, sobe, desce, atravessa um rio, molha-se todo, faz um lanche, vê paisagens deslumbrantes, que White descreve com uma prosa fluida, de imagens vívidas (trad. BT):
 
A vida é um inferno inexprimível, mas apenas porque de vez em quando é bela. Se ao menos pudéssemos ser miseráveis o tempo todo, se ao menos não existissem coisas como o amor, a beleza, a fé ou a esperança, se eu pudesse ter certeza absoluta de que o amor que eu sinto jamais seria correspondido... como a vida se tornaria simples! Poderíamos mourejar nas minas-de-sal siberianas durante todo o resto da nossa existência sem ligar para a felicidade. Infelizmente, a felicidade existe. Sempre existe uma chance (numa proporção de 850 para 1) de que outro coração irá se aproximar do meu. E eu não posso deixar de sentir esperança, de manter a fé, e de amar a beleza.
 
De volta ao hotel, ele ouve rumores de que a esposa do professor do quarto vizinho desapareceu. No refeitório, vê o professor à distância: parece um homenzinho miúdo, pacato, mas a certa altura os olhos dos dois se cruzam.
 
Sabe aqueles instantes de reconhecimento instantâneo, olho no olho, quando duas pessoas olham profundamente nas pupilas uma da outra, e penetram em sua alma? Geralmente acontecem antes que surja o amor. Eu me refiro ao reconhecimento claro, profundo, de olhos baços, que foi expresso pelo poeta Donne. Os olhares dos dois se encontraram e se envolveram numa trança dupla. Meu pai reconheceu que o professor era um Troll, e o professor percebeu que havia sido reconhecido.
 
Esse clima alucinatório persiste, principalmente pelas reiteradas afirmações (do pai do narrador) de que estava o tempo todo desperto, acordado, em plena posse de suas faculdades mentais. O Troll era real, diz ele. 

Era tão sólido quanto um guarda-roupa. A gente não tem que acreditar na existência dos guarda-roupas. Eles estão aqui, e têm quinas.
 
O contato com o Fantástico, no entanto, é doloroso demais, desconcertante demais. E ele diz a certa altura:
 
Teria sido muito simples para uma criança, que está ainda estabelecendo sua coordenação com o mundo, lidar com a presença do Troll; mas para o meu pai não era. Ele continuava tentando encaixá-lo de alguma forma, sem perturbar o universo.
 
E aqui deixamos o conto de T. H. White e voltamos para a estrada principal. O Universo, aqui, é o universo perceptivo, o que enxergamos, vemos, tocamos, somos capazes de conceber de maneira aceitável – mesmo admitindo que nele existe o desconhecido, o inesperado, o incoerente, o indefinível.  Mas... um Troll?! 


(O jovem T. S. Eliot)
 
 
O que significa perturbar o Universo? Em última análise, significa existir, tocar nele, produzir uma alteração por mínima que seja, deixar nele um grão de poeira, uma pegada, uma impressão digital, uma lembrança.
 
Quando o Fantástico irrompe em nosso universo e o perturba, é como uma pedra caída num lago tranquilo, uma mosca caída no leite ou (no símile famoso de Raymond Chandler) uma tarântula numa fatia de manjar-branco. O Universo aparenta ser uma ordem racional, harmônica, equilibrada, e de repente brota ali um cisco-no-olho, um fator de desequilíbrio.
 
E o que é esse elemento fantástico, esse Troll? Eu diria que é o próprio autor, o Ser Humano. É ele quem perturba o Universo com sua própria existência, com essa indisciplina de bicho-bruto, indisciplina que é ao mesmo tempo sua glória de existir e seu impulso para a destruição.
 
O contrário do Troll é J. Alfred Prufrock, o pudibundo herói do poema de T. S. Eliot (“The Love Song of J. Alfred Prufrock”, 1915), um daqueles jovens que hoje estariam de camisa polo e sapatênis, meio de mãos postas, deferente, solícito, a dizer: “Por favor... será que eu poderia comer um pêssego? Ou será que isso não significaria perturbar o Universo?...”


Prufrock é o indivíduo sem poesia (retratado justamente num dos melhores poemas do seu criador), um sensaborão, um “J. Pinto Fernandes” que entra aos tropeções, por acaso, na quadrilha amorosa alheia. Perturbar o Universo é sinônimo de existir, de ser gente, de fazer merda de vez em quando, ser politicamente incorreto, ser politicamente correto, fazer barulho, interromper uma coisa, desarrumar outra. Prufrock hesita antes de comer um pêssego porque no fundo ele, o reprimidão, é um Troll desejando arrancar com os dentes a cabeça de uma mulher desmaiada em seus braços. (Falo metaforicamente, é bom que se diga.)
 
O Homem é o Troll da natureza. A civilização produz uma realidade rígida, formalizada, pragmática, extrativa e destruidora (representada no conto de White por um tecnocratíssimo turista americano que ele conhece no hotel). E no meio dessa civilização, surge seu oposto simétrico, o Reprimido que retorna: o instinto animal primitivo, representado pelo Troll. O instinto animal do homem destruirá essa própria civilização com que ele está em vias de destruir o mundo.
 
Nós somos a perturbação do Universo, como (para encerrar) proclamou Paul Valéry no seu “Cemitério Marinho”:
 
Eu sou em ti a mudança secreta... Não tens senão a mim para conter teus medos! Meus arrependimentos, minhas dúvidas, minhas limitações, são o defeito de teu imenso diamante. (trad. José Paulo Paes)