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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

4547) A magia negra de Agatha Christie (5.2.2020)



Um dia desses vi por aqui na web o anúncio de que na Inglaterra estava sendo produzida, pela BBC, uma série de TV baseada neste romance de Agatha Christie, The Pale Horse (1961), e como era um dos vários que nunca li, achei por bem dar uma olhada. Não me arrependi. Lamento apenas (como sempre que leio um livro nessas circunstâncias) não ter lido 20 ou 30 anos atrás.

A magia negra, a feitiçaria e o mundo sobrenatural não aparecem com frequência na obra de Dame Agatha, que costuma ser voltada para outro tipo de Oculto: o inconsciente, as coisas que a gente pensa sem saber que está pensando, as coisas que nos pensam, nos guiam, nos levam a agir dessa ou daquela maneira. E que às vezes nos conduzem ao crime.

A expressão “the pale horse” é uma citação do Apocalipse, celebrizada literariamente num livro de contos de Katherine Anne Porter, Pale Horse, Pale Rider (1939), que não sei se Dona Agatha leu e guardou a imagem na cabeça. Pode até ter lido: fui checar agora e vi que o livro de Ms. Porter é ambientado durante a epidemia de influenza que matou 50 milhões de pessoas no começo do século, e que Agatha certamente acompanhou, já adulta.

Há um eco distante dessa temática neste romance dela, em que pessoas aleatórias começam a morrer de gripes e pneumonias variadas, em Londres e arredores. Uma combinação de circunstâncias faz chegar à polícia uma lista de nomes repassados por uma mulher, em seu leito de morte, para um padre, que logo em seguida é assassinado.

Os assassinos não conseguem roubar a lista (objetivo do crime), e a polícia começa a desconfiar que aquelas mortes naturais não eram tão naturais assim. E o que dizer das pessoas ainda vivas daquela lista? Estão sob ameaça?

O narrador é Mark Easterbrook, um historiador intelectual, de espírito investigativo, que lembra em alguns momentos os protagonistas dos romances policiais de Colin Wilson. Ele descobre que um vilarejo com o interessante nome de Much Deeping abriga uma conspiração que envolve rituais satânicos, fenômenos mediúnicos, mortes provocadas à distância... Ou será tudo imaginação?

As histórias sobrenaturais de Agatha estão reunidas em The Hound of Death (1933), doze contos interessantes, onde o que mais se destaca é o menos sobrenatural de todos, “The Witness for the Prosecution”, que depois seria transformado numa peça e num filme de sucesso. Ela se detinha geralmente em temas como premonição, mau olhado, fatalidades inexplicáveis, clarividência, etc.

The Pale Horse faz uma citação explícita ao Macbeth, porque grande parte do seu enredo tem como foco três “bruxas” idosas e excêntricas que se dedicam a rituais misteriosos.

Por outro lado, e aqui está uma interessante camada nova de significado, o romance pertence à fase moderna da autora, onde ela se dedica a comparar os “velhos tempos” com os “novos tempos”; nessa linha, o melhor dos que li é o Espelho Quebrado (“The Mirror Crack’d From Side To Side”, 1962). O choque entre gerações e entre modos de agir, visto pelos olhos de uma mulher já sessentona ou setentona.

Entre os personagens de The Pale Horse a gente encontra tipos tradicionais, como o milionário colecionador, o pároco interiorano, as vizinhas fofoqueiras e os funcionários aposentados de tantos outros livros. Mas há também as moças londrinas de saia curta ou de calças compridas colantes, que bebem nos bares; há empresas de pesquisa de mercado; e há, perpassando todo o mistério do livro, uma conversa difusa sobre “energia negativa”, “raios mortais”, “ondas mentais”, “cérebros eletrônicos” e todo um jargão de pós-guerra, de princípio da era espacial.

O sobrenatural escondido no vilarejo de Much Deeping pode ser uma força bruta, primitiva, ancestral, talvez a malignidade cega e primordial que inspirava Arthur Machen e Algernon Blackwood; mas ela pode estar se manifestando através de aparelhagens elétricas e eletrônicas, e é isso que deixa Mark Easterbrook (e o Inspetor Lejeune) com a pulga atrás da orelha. E se, afinal de contas, esses poderes mágicos existirem de fato? E se forem apenas mais uma força da natureza que até então não conhecíamos, como a energia atômica?...

Boa parte do romance policial no pós-guerra assume essa dualidade entre ocultismo e ciência (ou pseudo-ciência), e The Pale Horse talvez seja um dos exemplos onde a autora melhor consegue se equilibrar no fio de arame da dúvida até a resolução (bastante satisfatória) nos capítulos finais.

E tão importante quanto isto é a capacidade dela em descrever os tipos dos vilarejos do interior, seu comportamento, seus valores, suas manias. E seu mergulho sempre alerta nos porões da maldade, da crueldade e do sadismo, e do impulso misterioso que leva algumas pessoas à cegueira moral e ao crime.

Ao comentar as bazófias das bruxas que se dizem capazes de matar à distância, uma personagem diz:

Como regra geral, pela minha experiência, as pessoas realmente malignas não vivem se gabando. Conseguem ficar quietas a respeito da própria maldade. É somente quando seus pecados não são tão graves assim que elas se dedicam a comentá-los. O pecado é uma coisa tão degradada, tão pequena, tão ignóbil... Para essas pessoas é terrivelmente necessário fazer com que ele pareça algo importante e grandioso. (p. 68)

E no final, Easterbrook e o Inspetor Lejeune comentam os crimes:

-- O que me deixa perplexo, sempre, – [disse o Inspetor] – é pensar como uma pessoa pode ser tão inteligente e ao mesmo tempo tão estúpida.

-- A gente sempre imagina um grande criminoso – disse eu – como sendo um personagem imponente e sinistro, uma personificação do Mal.

Lejeune balançou a cabeça.

-- Não, não é bem assim – disse ele. – O Mal não é uma força sobre-humana, é alguma coisa menos que humana. Um criminoso é alguém que quer se tornar importante, mas nunca terá a importância com que sonha, porque será sempre algo menor que um ser humano. (p. 185-186)

Não é uma formulação tão elegante e complexa quanto a da “banalidade do Mal” de Hannah Arendt, mas é também uma boa descrição da nossa experiência no dia-a-dia.



(Agatha Christie)







domingo, 15 de setembro de 2019

4503) "O senhor acredita na realidade?..." (15.9.2019)




Uma vez, depois de uma mesa-redonda sobre temas ligados a religião, fé, etc., alguém me perguntou: “Por que você não acredita na existência de Outro Mundo?”, e eu disse: “Eu não consigo acreditar nem sequer neste, quanto mais num que eu nunca vi!...”

Um cético nem sempre é um cara aferrado à realidade. Às vezes é um cara que precisa de comprovações muito rigorosas. E se ele sente que o mundo de cá está em falta, o que dizer de um mundo com o qual ele nunca teve nenhum contato?

Não que eu seja tão cético assim, e na verdade tenho uma certa medula sertaneja que me leva a ser prático, aceitar as coisas como elas parecem ser, e botar açúcar no café, mesmo admitindo a possibilidade de que ambos não passem de ilusões berkeleyanas do meu espírito.

A respeito disso, tem uma história muito divertida a respeito dos filósofos Bertrand Russell e Rudolf Carnap. Os dois estavam num congresso filosófico discutindo sobre o “phaneron”, um conceito grego que designa o conjunto de nossas percepções sobre o mundo. Quando existe uma certa regularidade nessas percepções, construímos uma “ficção lógica” para afirmar que qualquer coisa existe: uma pedra, uma cadeira, uma casa, uma pessoa...

Porque não sabemos o que é o mundo – sabemos apenas o que percebemos dele, mas pode haver infinitas coisas que não percebemos. O exemplo na linguagem comum é o vento, que a gente não vê, mas deduz sua existência pelas coisas que ele move. (A resposta mais simples a essa questão é que a existência do vento não é percebida pela visão, mas o é pelo tato, assim como há coisa que o tato não percebe mas a visão sim, como as estrelas do céu.)

Há também o mundo microscópico, que era inacessível a nossa percepção, mas começou a fazer parte do nosso phaneron com o advento do microscópio, etc.


(Bertrand Russell e Rudolf Carnap)

Pois bem: certa vez os filósofos Bertrand Russell e Rudolf Carnap estavam debatendo esta questão, perante um auditório na Universidade de Chicago, e a certa altura Russell perguntou:

-- Professor Carnap: nossas esposas vieram conosco, e estão presentes aqui no auditório. Será que elas existem, de fato, ou devem ser consideradas meras ficções lógicas baseadas em regularidades existentes no phaneron de nós dois, seus maridos?

Foi uma pequena molecagem da parte de Russell, que tinha aquele humor britânico fundado em muita gentileza e cara-de-pau. É um argumento aparentemente irrespondível, e que me lembra uma boutade semelhante de Ariano Suassuna, que dizia:

-- Eu não gosto de Kant [o filósofo] e um dos motivos é esse. Ele dizia que nós não podemos afirmar a realidade exterior, que aquele jasmineiro é uma coisa para mim, outra para você, outra para ele. Mais do que isso, ele acreditava que eu nem sequer posso provar que a imagem que eu tenho corresponde ao real. (...)  É muito fácil você discutir se aquele jasmineiro, se a imagem daquele jasmineiro corresponde ou não ao real. O jasmineiro está quieto, no canto dele. Mas eu garanto que, se fosse uma onça que entrasse aqui, nem Kant iria perguntar se por acaso se tratava de uma correspondência com o real.
(Cadernos de Literatura, Instituto Moreira Salles, pag. 30)


O pragmatismo oncístico de Ariano ecoa o pragmatismo conjugal de Bertrand Russell. Tem certos aspectos da realidade que, por mais que a gente procure questionar filosoficamente, eles sempre dão um jeito de prevalecer e dizer, “pára com essa besteira, é claro que eu estou aqui.”

O mesmo problema – penso eu – pode lançar luz sobre o famoso Paradoxo de Aquiles e a Tartaruga, que já fez correr muita tinta de penas ilustres como a de Jorge Luís Borges e a de Douglas Hofstadter (Godel, Escher and Bach). É aquela antiga pegadinha onde o filósofo tenta nos convencer de que numa corrida entre “o velocípede Aquiles” (como se diz em algumas traduções de Ilíada) e uma tartaruga aquele jamais conseguiria ultrapassá-la. É claro que consegue. Mas é mais difícil provar isso teoricamente do que na prática.

O que todos esses problemas envolvem é um detalhe que foi levantado com justiça pelo professor Carnap, naquele debate com Russell. Queixou-se ele de que Russell estava tentando ser engraçadinho às suas custas, pois na verdade não se estava ali duvidando da existência das esposas de ninguém. O que eles dois (e todos os filósofos) procuram é algum tipo de certeza filosófica, uma prova argumental de que isto em que acreditam é verdadeiro. Querem uma prova filosófica irrefutável de que o mundo é real; e essa prova não existe.


(Bruno Latour)

Um artigo de Ava Kofman no New York Times conta os percalços filosóficos de Bruno Latour, um filósofo da Ciência que vem passeando há muitos anos nesses labirintos. Ela abre o artigo narrando como Latour estava no Brasil em 1996, participando de um simpósio, e um ansioso psicólogo conseguiu levá-lo para um lugar discreto e desfechar-lhe a pergunta: “Professor, o senhor acredita na realidade?...”


Parece piada de leitor de Philip K. Dick depois de algumas cervejas. Mas isso é o café-com-pão desses filósofos, que se veem forçados a esmiuçar as menores coisas na tentativa de provar o que parece óbvio a todo mundo.

O trabalho de Latour envolve uma longa tentativa de provar que os fatos científicos não existem por si sós: eles são o produto de uma rede (networtk) de instituições e práticas e grupos e debates e consensos, que os tornam inteligíveis e aceitos. Se essa rede de apoios sócio-culturais se romper ou se esvair, fica fácil provar qualquer coisa. Até que a Terra é plana.

A consciência científica é uma consciência social, comunitária. Ela pode ser sacudida de vez em quando pelos terremotos de um novo “conceptual breakthrough”, uma ruptura de conceitos para abarcar uma visão mais ampla – como o que Einstein fez com a Física, ampliando (e negando em alguns aspectos cruciais) o universo de Isaac Newton.

Ela pode também ser sacudida por terremotos de obscurantismo, como parece estar sucedendo agora, com a ascensão de grupos semi-letrados manipulados por gente interessada na devastação do meio ambiente, por exemplo. Ou na (impossível) eternização do modelo energético baseado no petróleo e nos motores a explosão.

Esses grupos se aproveitam de um certo torre-de-marfinismo da própria comunidade científica e começa a questionar coisas absurdamente óbvias – se a Terra gira em torno do Sol, ou se de fato existem micróbios. E se propõem, principalmente para milhões de jovens inconformados com isto ou aquilo, como “questionadores do status quo científico”, como rebeldes perseguidos pelo mundo acadêmico.

Filósofos e cientistas são capazes de questionar a existência de uma esposa ou de uma onça, pelo mero esforço intelectual de explorar uma pergunta até o fim (coisa que os semi-letrados detestam fazer). E é irônico que agora sejam forçados a ignorar perguntas como “O senhor acredita na realidade?”, que em sua aparente ingenuidade é uma pergunta crucial, para explicar o que nunca lhes passou pela cabeça ter que explicar – que é preciso tomar vacinas contra o sarampo, ou que não existem alienígenas reptilianos disfarçados de políticos ou banqueiros. (Se bem que esta última imagem seja a metáfora mais adequada que nosso inconsciente coletivo já produziu sobre estas duas categorias profissionais.)









quarta-feira, 20 de março de 2019

4448) Terra Plana ou Terra Oca (20.3.2019)





O presente texto tinha um nariz-de-cera maior do que o de Cyrano de Bergerac, e acabou virando um texto independente, que publiquei há pouco no blog: “Os Filhos do Barro”.

E chego ao xis da matéria: a idéia de que a Terra é plana.

Vou logo avisando que acho essa idéia tão absurda e tão interessante quanto a de que a Terra repousa sobre quatro elefantes estacionados sobre o casco de uma tartaruga gigantesca (“Discworld”). Quais as provas que tenho para achar que o mundo não é assim? Nenhuma. É pura fé, baseada numa quase unanimidade de opiniões em tudo que li desde que aprendi a ler.

Nem sempre foi desse jeito.

Um dos momentos de conceptual breakthrough (ver: http://www.sf-encyclopedia.com/entry/conceptual_breakthrough) da minha infância foi por volta dos sete anos. Recordo de abrir uma revista (podia ser O Cruzeiro) na casa dos meus pais, e ver uma imagem de página inteira de um planeta gigantesco ocupando todo o céu escuro, e por baixo dele um oceano estendendo-se para todos os lados, a perder de vista. Acho que perguntei o que era aquilo, e alguém me respondeu: “É o Oceano Atlântico”.

Acho que a pessoa esqueceu de me explicar que o planeta ali representado era (provavelmente) a Lua. Eu pensei que era a Terra. A Terra, então, era redonda, flutuava no “espaço sideral” (eu já conhecia este termo) e por baixo dela, infinitamente, se estendia esse Oceano Atlântico. Concebi então um Universo infinito onde os astros flutuavam no vácuo e por baixo deles, em todas as direções, existia esse oceano sem fim, esse cósmico mar.

Não durou muito esse meu surto. Logo depois me lembro de ter colecionado o álbum de figurinhas Maravilhas dos Espaços Siderais, e depois o Céu e Terra, onde as coisas ganharam uma versão mais plausível, a versão da Ciência.


E havia (para a minha geração) livros de divulgação científica ou histórica, como Maravilhas do Conhecimento Humano de Henry Thomas, E a Luz se Fez de Rudolf Thiel, Nós e a Natureza e A Magia dos Números de Paul Karlson, Biografia da Terra de George Gamow, O Livro da Natureza de Fritz Kahn, pegando pela ordem em que puxo a linha da memória.


Eram livros baratos, cheios de ilustrações, e com prosa variada e acessível. Ninguém falava em Terra Plana. Não lembro nem sequer de histórias de FC com Terra Plana. O que havia de interessante na época, e eu prefiro até hoje, é a hipótese da Terra Oca.  Talvez por ser mais barrocamente pseudocientífica.

(A hipótese da Terra Plana não é mais absurda ou infundada do que tantas outras suposições pseudo-científicas que circulam por aí há séculos. Ela simplesmente está sendo usada, hoje em dia, como um dos “gatilhos” para corroer a credibilidade da Ciência e substituir o conhecimento científico por um fundamentalismo qualquer. Só neste sentido, o sentido político, ela tem importância, uma importância negativa.)

A Terra Oca foi usada por Edgar Allan Poe em pelo menos um conto clássico: o “Manuscrito Encontrado Numa Garrafa”, história de um navio fantasmático que tudo indica estar se dirigindo para uma abertura geológica no Extremo Norte do globo, um abismo onde a água desce revoluteando como num Maelstrom onde é preciso penetrar.



Lembro de um romance da coleção “Jovens do Mundo Todo” chamado Plutonia, e que era uma expedição russa à Terra Oca. Havia uma descrição que na época me impressionou, dos caras que vão avançando numa abertura geológica, sólida, e eles chegam à borda, não da Terra, mas do chão que pisam, porque o nosso solo rochoso é como uma casca de fruta, sólida mas fina, e eles que vinham caminhando pela face externa da casca deram a volta na borda e agora estão caminhando de volta pela face interna da carapaça geológica do planeta.

O terceiro livro que deitou e rolou com esse tema foi The Hollow Earth (1990) de Rudy Rucker, que pega Edgar Poe como um dos protagonistas durante o livro quase todo, e fazendo sua turma de exploradores mergulhar até o abismo central do planeta. Há uma sucessão feérica de ambientes cosmológicos, e um dos náufragos nesse mergulho no espaçotempo chama-se Reynolds. (Nas suas últimas horas de vida Poe, delirante, gritou sem parar, em desespero, chamando um tal de Reynolds, que ainda não se sabe quem foi. Há várias hipóteses.)

A Terra Oca geralmente implica num sol central e imóvel, parcialmente ocultado com regularidade por algum fator natural ou artificial. É o interior de uma enorme esfera, e ali o personagem precisa se acostumar à noção de um horizonte que se afasta cada vez mais, até desaparecer subindo. Ele se “dobra” para dentro, sobre si mesmo, e some lá no alto. É o contrário dos horizontes secos daqui, cortados a foice.

Lembrei uns títulos ali em cima e agora me veio na cabeça outro clássico, Manias e Crendices em Nome da Ciência (“Fads and Fallacies in the Name of Science”), de Martin Gardner, que saiu aqui no começo dos anos 1960 e tem um capítulo intitulado “Plana e Oca”. Gardner era um colunista veterano da revista Scientific American e publicou inúmeros livros de enigmas matemáticos e de divulgação científica.

Não vou discutir a plausibilidade científica da Terra Oca. A sua fantasia topológica de um mundo envelopando-se a si mesmo foi reconstituída com norrau científico e visão cinemascope-barroco (como dizia Brian Aldiss) por Arthur C. Clarke em Encontro Com Rama (o mundo oco é uma mega-espaçonave) e visualmente por Christopher Nolan em trechos de Interstellar (uma estação orbital em forma de rosquinha.)

Sobre a Terra Plana e a Terra Oca já foi dito que há uma certa coerência em algumas das concepções. Aceitando certas premissas matemáticas, seria difícil distinguir, matematicamente, se estávamos numa Terra como a atualmente descrita ou numa Terra da hipótese de algum deles. De certo modo, os cálculos seriam opostos, mas simétricos. As evidências matemáticas não bastam: é preciso colher provas experimentais. (Há inúmeras.)

A Terra Oca é necessariamente um mundo fisicamente e visualmente muito diferente do nosso, e este é um dos trunfos do ficcionista que quer imaginar uma história assim. Pode haver oceanos inteiros na face interna da esfera terrestre, pendurados neste mesmíssimo instante por cima das nossas cabeças, do lado oposto do Sol. Mantidos no lugar pela força centrífuga, já que a esfera está rodando.



Onde seria a entrada? A primeira aventura de Poe, a do “Manuscrito...” se passa nos arredores do Polo Norte. Já A narrativa de Arthur Gordon Pym, que ficou inacabada (mas diz-se que conduziria à Terra Oca) se passa no Hemisfério Sul, rumo à Antártica. Em todas as teorias daquele começo de século 19 a entrada para o Oco Central ficava nas priximidades do Polo, para concentrar ali a dinâmica da rotação, criando o torvelinho que leva (em tese) a embarcação para o lado oposto, geralmente adernando-a, devido à troca brusca de vetor gravitacional.

Para quem se interessa pela literatura da imaginação, essas teses pseudo-científicas são instrutivas porque nos mostram de que maneira a mente humana procurar criar “modelos” que expliquem a realidade à sua volta. Não são mais absurdas do que a crença antiga e medieval de que a Terra está no centro de várias esferas concêntricas de cristal onde os astros estão engastados.

O problema é quando uma dessa concepções, sem outro argumento senão a palavra dos seus participantes, toma o poder e começa a mandar os discordantes para a fogueira.










quarta-feira, 13 de março de 2019

4445) Os doidos literários (13.3.2019)



Raymond Queneau chamou de “doidos literários" ("fous littéraires"), em seu livro Les Enfants du Limon (1938), todos aqueles sujeitos fora-de-esquadro que se dedicam fervorosamente ao estudo e à especulação, e acabam produzindo teorias sem pé nem cabeça sobre o Sistema Solar, ou sobre a Pedra Filosofal, ou sobre a Quadratura do Círculo, ou qualquer outro tipo de “viagem” pseudocientífica.

Queneau passou muitos anos de sua vida estudando esse pessoal tipo Terra Plana, Universo de Gelo, e assim por diante. Não só esses – também os “linguistas de fim de semana”, capazes de inventar um idioma totalmente arbitrário que, acham eles, se fosse aprendido por toda a humanidade acabaria com as guerras e as epidemias.

Neste capítulo, aliás, é imbatível (e divertidíssimo) o livro Babel e Antibabel de Paulo Rónai (Ed. Perspectiva, São Paulo), onde ele analisa as linguas inventadas mais conhecidas, como o Esperanto e o Volapuk, e outras mais excêntricas.


O que leva esses malucos a dedicarem sua vida inteira a projetos gigantescos dessa dimensão? Maldo eu que é uma mistura de Complexo de Inferioridade com Complexo de Superioridade, uma receita mais frequente do que se imagina.

Muitos deles são indivíduos com baixa auto-estima, tímidos, macambúzios, com pouco traquejo social. Muitos são solteirões misantropos, outros se refugiam em casamentos formais onde há uma mulher que cuida deles e não faz perguntas. Ganham a vida como bancários, professores, contabilistas, qualquer profissão que possa ser mantida numa rotina confortável.

Uma vez obtida esta segurança, eles decolam numa viagem (=delírio) de grandeza, de genialidade, uma verdadeira embriaguez conceitual de quem se considera o Gênio Supremo da Humanidade.

A pesquisa de Queneau localizou centenas de “doidos literários”; ele não conseguiu publicá-la (a pesquisa em si já estava se parecendo um pouco com as doidices dos pesquisados), mas conseguiu contrabandeá-la para o romance Les Enfants du Limon, "Os filhos do barro", onde ela aparece como o projeto intelectual de Monsieur Chambernac e seu ajudante Purpulan, uma dupla meio “Bouvard e Pécuchet”.

Chambernac afirma estar pesquisando apenas “os doidos literários franceses do século 19”. São aqueles cuja existência foi confirmada mas que não tiveram a glória de formar uma seita de seguidores. Para Chambernac/Queneau, quem chegou a ter discípulos não pode ser considerado “um doido literário”.

Essa pesquisa foi retomada depois por André Blavier no catatau de 924 páginas Les Fous Littéraires (Ed. Henri Veyrier, Alençon, 1982), com um impressionante repertório de pesquisa, ampliado a partir do de Queneau, de quem Blavier (1922-2001) foi amigo e discípulo.

Uma pequena amostra, com o “Sumário” de seu livro:



O que são os doidos literários?

Queneau, em Enfants..., estabelece que não basta ser um autor meio excêntrico que imagina ter feito uma super-descoberta pseudo-científica. É preciso não haver seguidores, não haver fama, não haver o elogio da crítica, não haver reedições de sucesso. Ou seja: quando o Doido Literário começa a ter um certo poder social, sua obra perde a graça, a graça do sintoma.

Queneau sabia muito bem o quanto as multidões podem ser levadas a acreditar numa teoria sem pé nem cabeça, seja ela científica ou religiosa. Ele eliminava (Enfants, cap. XXI) “todos os místicos, visionários, espíritas, teosofistas etc., cujas elucubrações possam ser ligadas a outras já mais ou menos reconhecidas, e que a prudência me aconselha a não tratar de forma leviana.”

A Pseudo-Ciência é uma arma política poderosa. Vale a leitura dos capítulos que Pauwels & Bergier dedicaram em O Despertar dos Mágicos às teorias do maluco Hans Hörbiger, chamado por alguns “o guru de Adolf Hitler”, propositor de uma Cosmogonia Glacial em que o Universo era visto como uma luta entre o Fogo e o Gelo.

Todos eles sabem que as pessoas não são motivadas pelo que compreendem, e sim pelo que desejam de forma profunda, e que se esse desejo for satisfeito, ou se a expectativa dele for estimulada, o sujeito é capaz de “compreender” tudo que lhe explicarem, inclusive que dois e dois são cinco e que tamanduá e bicicleta são a mesma coisa.

Os trechos dos doidos literários citados em Les Enfants... (Le Barbier, Roux, Hussenot, etc. etc.) são de deixar perplexo um leitor moderno. Não pelo trabalho conceitual de inventar tudo aquilo, porque afinal de contas um escritor de ficção científica ou de fantasia (como Tolkien) é capaz de criar enciclopédias igualmente gigantescas e detalhistas. Mas o escritor sabe que está inventando. O doido literário pensa que está descobrindo.

É a certeza da própria certeza (e da própria genialidade) que move esses indíviduos, e é uma sorte da humanidade que eles sejam, na esmagadora maioria, sujeitos obscuros e arredios. Uma mistura de Policarpo Quaresma com Bispo do Rosário.

Porque quando acontece de ser um cara com carisma, com eloquência, extrovertido, ambicioso,  arregimentador, calculista... Deixa de ser um doido literário. Passa a ser um perigo para a literatura, e para o mundo.









quarta-feira, 11 de abril de 2012

2840) Detetives psíquicos (10.4.2012)



(At the European Concert, Seurat, 1887-1888)

A paranormalidade é uma zona crepuscular entre a ciência e as doutrinas espiritualistas. Envolve uma quantidade enorme de fatos extraordinários (telepatia, precognição, psicometria, clarividência, etc.), para os quais a ciência ainda não tem explicação. As doutrinas espiritualistas os explicam com a sua hipótese padrão, a de que os seres humanos possuem uma alma que sobrevive à morte do corpo físico e é capaz de se comunicar com os vivos, em circunstâncias especiais. Os dois grupos trabalham com critérios e parâmetros diferentes, e cada um recusa os parâmetros do outro. É como aquela discussão entre um cosmólogo e um bispo, em que o cosmólogo se queixou de que ninguém era capaz de provar cientificamente a existência de Deus. O bispo retrucou que ninguém conseguira provar teologicamente a existência do Universo. (Talvez o bispo não estivesse bem informado, porque me parece que muitos dos filósofos cristãos aceitam, sim, a existência do Universo – se bem que como um efeito colateral da existência de Deus.)

Teorias à parte, o que existe é um impressionante acúmulo de fatos paranormais. Como não há explicação científica para eles, muitos cientistas tentam desqualificá-los com acusações de charlatanismo, auto-sugestão, alucinação, coincidências, histórias mal contadas, testemunhas não confiáveis, etc. Colin Wilson é um dos mais dedicados pesquisadores desses fatos, conhecido dos leitores brasileiros, nessa área, pelo ótimo O Oculto (Ed. Francisco Alves). Estive relendo The Psychic Detectives (1984), em que ele examina a paranormalidade em geral e depois se concentra na atividade dos detetives psíquicos, indivíduos a quem a polícia recorre quando não consegue elucidar um crime ou localizar uma pessoa desaparecida. Esses “psíquicos” (a palavra em português é apenas adjetivo, mas em inglês é usada também como substantivo, designando a pessoa que tem essa capacidade) são capazes de “ver” flashes do crime apenas pegando numa peça de roupa, numa fotografia, num papel manuscrito ou em qualquer objeto que tenha estado em contato com ela. Às vezes basta-lhes olhar um mapa para indicar com precisão o local do crime ou o local onde a vítima foi oculta.

Wilson compara esses psíquicos a concertistas musicais, e diz: “Esse nível de habilidade é mantido por uma prática constante, esforço constante; até mesmo um grande pianista sabe que precisa praticar várias horas por dia. Uma das razões pelas quais os psíquicos são muito mais erráticos do que os pianistas é, sem dúvida, que eles tendem a ser preguiçosos a respeito do seu dom, aceitando-o como algo natural, que não precisa ser desenvolvido”.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

0982) A Cientologia (10.5.2006)


(L. Ron Hubbard)

A Cientologia, que no início de sua história era chamada de Dianética, é uma atividade híbrida de Ciência e Religião, inventada por um escritor de ficção científica chamado L. Ron Hubbard. Bastaria isto para torná-la um símbolo de nossa época, ou melhor, da época pós-II Guerra Mundial, quando a popularização da Psicanálise inspirou a invenção de numerosas terapias vagamente científicas, cada uma delas prometendo curas milagrosas. Vou logo avisando que minha visão da Cientologia é preconceituosa, porque ouvi falar dela pela primeira vez no formidável livro de Martin Gardner, Manias e Crendices em Nome da Ciência (que, aliás, também me deixou desconfiado para sempre com Wilhelm Reich). Se o leitor quiser a visão oficial vá em: http://www.lronhubbard.org/, ou então telefone para Tom Cruise e John Travolta, que são adeptos, e talvez conheçam o assunto melhor do que eu.

Hubbard era um sujeito ruivo, corpulento, falastrão, incansável, sempre contando aventuras mirabolantes sobre si próprio, tão divertidas que a questão de serem verídicas ou não ficava em segundo plano. Ganhava a vida escrevendo histórias de ficção científica, num longo rolo de papel (como fazia Jack Kerouac), para não perder tempo trocando de página. Traduzi dois livros seus (Gênese Negra e O Plano dos Invasores) para a Editora Record. É uma pulp-fiction interplanetária descartável, cômica, verbosa, mistura de Flash Gordon com Mel Brooks. Por justiça, afirmo aqui que sua noveleta Fear (1940) é uma das melhores histórias de terror psicológico que já li.

Reza a lenda que um dia Hubbard desabafou: “Chega de escrever FC e ganhar uma merreca! Vou inventar uma religião e ficar milionário!” No número de maio de 1950, a revista Astounding Science Fiction, da qual ele era colaborador, publicou um longo artigo sobre a Dianética, uma revolucionária técnica de auto-análise capaz (segundo ele) de curar qualquer problema psicológico, e também de desenvolver super-poderes mentais. A idéia fascinou o editor da revista, John W. Campbell, além de outros escritores como A. E. Van Vogt. A Dianética tornou-se uma febre nos EUA, seus livros viraram tremendos best-sellers.

Em 1955 Hubbard abandonou a Dianética e fundou uma religião que absorvia seus ensinamentos, a Cientologia. Diz-se que o fez para se beneficiar da isenção de impostos que as igrejas geralmente recebem dos governos. A Cientologia é muito discutida na comunidade de ficção científica porque foi a primeira religião criada por um de seus escritores, e ainda hoje se discute se isto foi uma boa coisa ou não. Surgiu nas revistas de FC, como surgiu o mito dos discos voadores como naves extra-terrestres (foi na revista Fate que Kenneth Arnold publicou em 1948 seu primeiro relato de “avistamento” dos OVNIs). Sempre existiu uma tênue linha divisória entre ficção e realidade, no mundo da FC. Com Hubbard, essa linha virou um marco plantado na zona fronteiriça entre Ficção, Ciência e Religião.

terça-feira, 11 de março de 2008

0215) Grafologia (28.11.2003)




O que dizer da Grafologia? Em primeiro lugar, parece-me óbvio que cada pessoa tem uma caligrafia própria. Existem métodos relativamente simples para provar a autenticidade de um manuscrito de Shakespeare, ou para afirmar que a assinatura de Zezim das Couves num cheque foi falsificada. Há uma relação de causa e efeito entre uma pessoa e os volteios característicos de suas letras manuscritas. Mas daí vai uma longa distância até dizer que é possível usar a grafologia para adivinhar traços do caráter ou até (como querem alguns espertinhos) aconselhar o futuro.

Um grafólogo disse certa vez numa entrevista uma coisa com que concordo: “Não escrevemos com a mão, escrevemos com o cérebro.” Está certo. No colégio, eu ficava matutando sobre a espantosa semelhança entre a minha letra no caderno e a minha letra no quadro-negro. “Braulio, vá ao quadro! Escreva aí: Sebastião comprou seis dúzias de laranjas, a 8 cruzeiros cada...” Quando eu voltava a sentar, não podia deixar de perceber que a palavra “Sebastião” no quadro tinha quase meio metro de extensão, e a do caderno uns 3 centímetros; mas eram quase idênticas. A do quadro tinha sido traçada através de movimentos conjugados do ombro, do cotovelo, do pulso, dos dedos que seguravam o giz; a do caderno, por movimentos mínimos dos músculos dos dedos que seguravam a caneta. Estes dois conjuntos de movimentos, contudo, obedeciam ao mesmo software instintivo.

Nossa grafia é tão pessoal quanto o timbre de nossa voz, quanto o nosso rosto. Podemos deduzir muita coisa sobre uma pessoa através dessas informações, mas estaremos sempre usando o chutômetro, atirando no que vemos para acertar no que não vimos. “Você é uma pessoa alegre, gosta da vida, mas tem seus momentos de desânimo...” Assim, meus camaradinhas, até eu. Conheço indivíduos cultíssimos que têm uma letra digna dum chapeado. Pessoas extremamente racionais e metódicas cuja caligrafia parece uma briga de insetos. Mulheres maduras, poderosas, seríssimas, que desenham letrinhas de adolescente boba. Existe uma relação pessoal, direta, única entre a pessoa e sua letra; mas não podemos deduzir dessas relações individuais nenhuma regra geral, a não ser as mais generalizantes possíveis.

Tudo nosso é personalizado. Acontece que é muito mais fácil escolher, para analisar, aqueles dados mais fáceis de coletar, arquivar, manusear. Daí a leitura das linhas das mãos, da caligrafia, do signo astrológico. Se alguém pudesse ter acesso e comparar os estilos de mastigar de cada pessoa (ou de trocar pneu de carro, ou de escovar os dentes, ou de enxugar o corpo após o banho, ou de virar páginas de livro, etc.) veria que cada uma tem um padrão único, que não se repete. Veria também (acredito) que esse padrão é consequência do hábito, da imitação, da educação, de impulsos inconscientes; mas que não corresponde a ele um padrão de personalidade. Como a impressão digital: é só nossa, mas não é uma síntese cifrada do que somos.