(Colégio Estadual da Prata, anos 2000)
1
Eu me lembro de Professor
Almeida, que ensinava Ciências Naturais no Estadual da Prata. Ele era pai de D.
Nora, uma professora que tive no primário, no Colégio Alfredo Dantas, que era
muito apegada a mim, e eu a ela. Prof. Almeida tinha a didática tradicional:
descrevia uma experiência científica (p. ex., como um alambique destila água)
num texto decorado, para a gente copiar, enquanto fazia desenhos e diagramas no
quadro. Depois, pedia para a gente repetir. Uma vez ele me escolheu: “Venha ao
quadro!” Lá fui eu, apontando o desenho e explicando. Nessa vez, era alguma
experiência de laboratório, eu expliquei: “Coloca-se ambas as substâncias no
mesmo tubo de ensaio”. Ele: “E depois?”. Eu: “Depois, precisa misturar bem,
então a gente sacode o tubo.” Ele, com cara de espanto, apontando: “Sacode o
tubo lá na porta, e manda um moleque buscar, é isso?”.
2
Quando a gente tem uma
irmã mais velha, como ocorria comigo e Tide (Clotilde) a gente assimila coisas
que fazem parte da cultura de garotas adolescentes, por mero efeito de
proximidade e espírito de imitação. Eu me lembro que ela e as amigas (elas
teriam 12 ou 13 anos, eu teria uns 9 ou 10) usavam uma “simpatia” (não sei se é
esse o nome adequado) que consistia em contar quantos urubus a gente via pousados
numa casa, num muro, árvore, etc. Havia
uma correspondência numérica que era: 1-gosto, 2-desgosto, 3-carta, 4-convite,
5-casamento (de seis em diante voltava ao início: 6-gosto, 7-desgosto, etc.). Com isso as garotas adivinhavam “o que estava
para acontecer”. Eu ouvia a conversa delas e aderia silenciosamente à
brincadeira, que para mim só tinha sentido nos dois primeiros: gosto e desgosto
são eventos comuns, ninguém me escrevia cartas, ninguém me fazia convites, e eu
não tinha propriamente planos de me casar. Mas ainda hoje vejo às vezes um
urubu solitário, ou uma parelha, em cima de um muro, e penso automaticamente:
“Gosto... Desgosto...”.
3
Eu me lembro que minha mãe
fez uma vez um curso de bordado no SESI, era bordado feito com a máquina de
costura. Eu ficava brincando no chão e vendo ela costurar, e evidentemente nas
horas vagas em sentava no pedal grande da máquina e usava a roda de metal como
se fosse volante de um carro. Toda criança faz isso. Eu ficava curioso com os
carretéis de linha “mesclada”, que eram de uma cor apenas mas variando a
intensidade (verde claro, verde escuro, verde muito escuro, etc.) e depois eu
ia checar no bordado se isso fazia diferença no desenho final. Uma vez ela fez
uma toalha de mesa copiando um molde com papel carbono, mas copiou invertido;
eram desenhos de rapazes e moças vestidos de portugueses, e embaixo tinha uma
faixa dizendo: O VIRA (o nome da dança), mas ela tinha copiado invertido e
ficou ARIV O. Mesmo assim a toalha ficou ótima e usou-se por muito tempo nos
dias de festa.
4
Quando a gente morava na
Rua Miguel Couto (entre os meus 6 e 10 anos, mais ou menos) eu gostava de
brincar embaixo da mesa da sala, meu esconderijo preferido, juntamente com o
birô onde Seu Nilo escrevia. Ali eu me entrincheirava com meu armamento e dali
fuzilava sem piedade soldados alemães, índios apaches e granadeiros prussianos
(eu era pró-Napoleão). A mesa da sala era uma mesa simples, de madeira pintada
de escuro, e na face inferior, virada para o chão, as tábuas eram quase
brancas. Ali eu escrevia bobagem com carvão ou giz de cera, fazia desenhos,
etc., como se pintasse o teto de uma caverna. Quando a gente se mudou por volta
de 1960 ou 1961 para a Vila dos Motoristas (atrás do campo do Treze), a mesa
foi desmontada, e chegando na casa nova foi montada de novo. Qual não foi minha
surpresa ao perceber que as pessoas que a remontaram não deram nenhuma atenção
às obras de arte pintadas na face mais clara das tábuas. Para eles, o que contava
era a face virada para cima, que era escura, lisa. Isso fez com que meus desenhos,
meus mapas e meus escritos ficassem todos fora de ordem, porque a posição das
tábuas foi trocada. Reencontrei essa sensação de aparvalhamento momentâneo
quando conheci os cut-ups de William
Burroughs.
5
Eu me lembro que outro
professor de Ciências Naturais nessa época foi Zé Lucas, conhecido como Zé do
Bode, cuja mãe era amiga de minha mãe, e que depois que fiquei adulto ficamos
amigos e chegamos a tomar algumas cervejas juntos. Ele distribuiu com a classe
uma apostila maciça, super organizada, com os assuntos de física, biologia,
etc., tudo bem dividido e explicado, e olha que era ainda o curso ginasial. Houve
uma polêmica acalorada entre os alunos quando alguém descobriu um erro na
apostila, mas ninguém tinha coragem de questionar o professor cara a cara. Na
parte relativa a Ótica, ele falava que “um raio de luz era refletido quando
atingia uma superfície sólida, p. ex., um espelho, um líquido...” O pessoal dizia: “Oi, e como um líquido pode
ser sólido?” Eu embatucava, mas sentia que mesmo assim a apostila estava certa.
Hoje acho que ele deveria ter escrito: “quando atingia um objeto material”.
6
Outra brincadeira de
infância era uma parlenda que se dizia enquanto se jogava uma bola de encontro
a um muro e pegava de volta. Joguinhos que ajudam a coordenação motora (no meu
caso, sem grandes resultados). Ao jogar a bola na parede a gente dizia em voz
alta os comandos, e os obedecia antes que a bola voltasse. A lista que guardo
de memória (varia muitíssimo de pessoa pra pessoa – já conferi) era: “Ordem...
Seu lugar... Sem rir... Sem falar... Com um pé... Com o outro... Com uma mão...
Com a outra... Bate palma... Pirueta... Trás adiante... Queda...” As ações
estão mais ou menos explicadas; “trás adiante” era jogar a bola, bater palmas
com as mãos às costas, depois à frente, e pegar a bola de volta. A única coisa
que isso me rendeu foi que aprendi a jogar a bola na parede (era sempre de
baixo pra cima, num ângulo de uns 45 graus) dando um efeito adicional com a
ponta dos dedos, que fazia a bola bater no muro e subir pegando efeito,
demorando um ou dois segundos a mais para cair, e aí dava tempo de executar o
comando.