Mostrando postagens com marcador Jackson do Pandeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jackson do Pandeiro. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de abril de 2018

4342) Dez álbuns: 4 - Jackson do Pandeiro (29.4.2018)




Vou dar continuidade ao desafio que me foi feito via Facebook por Toinho Castro e Mario Bag: postar dez discos que a gente ouviu até a agulha furar o vinil, e continua ouvindo até hoje.

O desafio inicial era falar de um álbum por vez. Como quem manda sou eu, baixo uma Medida Provisória e afirmo que estas três coletâneas de Jackson do Pandeiro formam um único disco. Se me apontarem um revólver à cabeça para eu dizer em qual dos três fica uma música qualquer, podem apertar o gatilho: não sei. Para mim, constituem uma totalidade inconsútil, um continuum.

E eles guardam a nata, o filé, a flor do coco da obra do mestre Jack, mesmo sabendo que ele tem outros álbuns sensacionais e jóias espalhadas por toda a sua discografia. Mas estes três discos não são álbuns no sentido de “obra inteira”: são coletâneas, empacotamento conjunto de sucessos que em sua época saíram de 2 em 2, na forma de discos de 78 rotações.

Se alguém me pagasse eu escreveria um livro inteiro sobre este repertório, mas como é de graça vou fazer como os vendedores de amendoim-torrado da Cinelândia: deixo uma derramadinha grátis e sigo em frente.

Ouvindo faixa por faixa, uma atrás da outra, a gente percebe a variedade de ritmos e de levadas que Jackson malabarizava em seus discos.

Veja-se por exemplo a cadência implacável das percussões conjuntas de “Casaca de Couro” (Rui de Morais e Silva), sem perder um microssegundo de compasso, ajudada pelo canto staccato do coro (tão preciso e marcante quanto o de “Na base da chinela”), justificando plenamente o grito de “ô serviço!” do cantor. Sem falar nas rasgadas lamentosas do clarinete, assinatura eterna desta faixa.

Não é só marcação pesada, é a sutileza. “Tem mulher, tô lá” é um xotezinho divertido, mas seu carimbo é a suspirada da sanfona depois do “tem mulher...”.

“Peneirou Gavião” tem esse paralelo visual (a famosa fanopéia) entre o movimento do gavião planando (peneirando) no ar e o movimento da peneira com a massa da mandioca. E tem um verso de pé-quebrado (faltando uma sílaba), “Filozinha gritou”, que o cantor encaixa magistralmente no ritmo sem deixar traço.

Acho que já se escreveu muito sobre “Cantiga do Sapo”, com seu “Tião – Ôi...”.

Quem já morou perto das lavanderias do Alto Branco já ouviu de longe esse coro dos sapos à noite, um perguntando, outro respondendo, coro que foi glosado por Manuel Bandeira ao satirizar a cena literária carioca (“Os sapos”, em Carnaval), e que Moacir Laurentino imortalizou numa sextilha:

Acho bonito o sertão
quando o chão está molhado:
um sapo faz “ôi” daqui,
outro “ôi” do outro lado,
parecem dois violeiros
cantando um mourão voltado.

E um “diálogo” também imitado no refrão entre o coro masculino e o feminino, e depois nos floreados do clarinete e da sanfona.

Acho que uma das primeiras músicas de Jackson que vieram catalogadas como “samba” foi “Falsa Patroa”, uma música de malandragem digna de Moreira da Silva:

Doutor delegado, eu não tive culpa,
foi a sua criada que me convidou,
doutor, dizendo que o apartamento era dela
me pegou pelo braço para jantar com ela...
O senhor compreende, viu doutor?
A cabrocha é boa... Eu fiquei iludido
até pensando que ela fosse a patroa.

Olha só a distância psicossocial que existe entre músicas rurais e ingênuas como “Moxotó” e uma música como esta, tipicamente de Copacabana ou Botafogo nos anos 1950, com seu exército invisível de empregadas domésticas descolando um PF para um paraíba amigo, na ausência dos donos da casa. Seu lado B deveria ser o “Xote de Copacabana”, que já cantei mil vezes em mesa de bar: “Eu vou voltar, eu não aguento, o Rio de Janeiro não me sai do pensamento”.

Sem falar que nesta faixa aparece por duas vezes uma marca registrada de Jackson: o tratamento “nego véi”, com que ele se dirigia a todo mundo.

Ainda na coletânea O Rei do Ritmo tem pelo menos três faixas com uma coisa curiosa na música nordestina de então: a canção de briga, que seria um equivalente ao funk proibidão ou gangsta rap de hoje em dia. A música que fala de sururu, briga, quebra-pau entre bêbados ou entre eles e a polícia.

“Forró em Caruaru” (Zedantas): “Matemo dois soldado, quatro cabo e um sargento; compadre Mané Bento, só faltava tu!”

“Cabo Tenório” (Rosil Cavalcanti): “Os caba de lá quiseram lhe bater, e ele gritou: Vixe! Vai ter confusão. Balançou a mão, deu murro e bofete, tomou canivete, peixeira e facão...”

“O crime não compensa” (Genival Macedo / Eleno Clemente): “Antigamente eu só andava bem armado, uma peixeira, um revólver e um punhá, tinha uma foice bem vazada dos dois lados, o maior prazer da minha vida era matar”.

Essas músicas passariam hoje nas censuras? Tanto a censura do policialmente errado quanto a censura do politicamente correto? Cartas para a redação. Sociologicamente, elas são reflexo de um tumulto social permanente entre polícia, gente pobre querendo se divertir e gente perturbada querendo perturbar. Canções são acusadas de “fazer apologia” da violência, mas eu vejo tais canções como crônica, jornalismo, documento, retrato da vida real de quem canta e de quem ouve.

E nem vamos nos espalhar no resto do repertório jacksoniano, com “Forró do Surubim”, “A Lei da Compensação”, “Forró em Limoeiro”, “Pacífico Pacato”  e tantas mais.

Essa é a única realidade do forró? De jeito nenhum. Violência tem no rock, tem no samba. Briga em salão tem nos Clubes que reúnem a fina-flor da nossa sociedade, quando um grupo de playboys resolve tomar as dores do filho de Doutor Fulano cuja noiva foi desacatada por alguém. (Eu já vi muita mesa e muito litro de uísque voando pelo ar, nas tertúlias dos nossos sodalícios.)

Saindo dos forrós urbanos e suburbanos, Jackson lembra também o baião rural, coco rural, sei lá que classificação etnomusicológica se dá a isso.

Como por exemplo a beleza que é “Coco do Norte” (Rosil Cavalcanti):

No coco do Norte tem caracachá,
zabumba, ganzá, poeira do chão,
coqueiro fazendo improvisação,
compadre e comadre seguro na mão;
batendo umbigada com palma de mão...

“Isso assim é coco, nunca foi baião”, diz o próprio estribilho da música. E outro retrato rural que vai fundo é o de “Êta baião” (Marçal Araújo):

Como é bonito ver, no alto sertão,
os violeiros rasqueando a prima com bordão...
Os cabras fazem desafio
rima sem perder o fio
e assim nasce o baião... Êta baião!

São os velhos batuques de cem anos atrás, as festas de fazenda em que se misturavam a dança ao som das percussões e os improvisos ao som da viola, antes que as duas modalidades se separassem para seguir carreiras independentes.

É o universo de Dona Guidinha do Poço de Oliveira Paiva, de Luizinha de Araripe Jr., de tantos livros de época que registraram essa origem comum de nossa criação musical e poética. O tronco de onde brotaram Pinto do Monteiro e Jackson do Pandeiro.










sábado, 16 de setembro de 2017

4269) Os cabarés de Campina (16.9.2017)





O saite Retalhos Históricos de Campina Grande publicou uma matéria sobre o Cassino Eldorado e as diversas zonas do “baixo meretrício” de Campina Grande, em diferentes épocas da História.

Aqui:

Aliás, o uso desse termo é uma injustiça e uma imprecisão, porque o Eldorado era uma casa de “Alto Meretrício”, isso sim, inclusive com mulheres importadas – polacas, francesas... Como qualquer cidade brasileira, de Manaus a Londrina, que já viveu um boom econômico com presença de estrangeiros.

Se bem que as maiores atrações eram as beldades locais. Jackson do Pandeiro, que foi percussionista da orquestra do Cassino em sua juventude (“Ah, meus 18 anos!”), recordou muitos anos depois no clássico “Forró em Campina”:

Me lembro de Maria Pororoca,
de Josefa Triburtino e de Carminha Vilar.

(gravação original aqui:

O Eldorado está desabando; virou uma ruína fétida cercada por tapumes. É habitado por uma meia dúzia de malucos inofensivos, os quais são como os pássaros e os cavalos que, no conto de Jorge Luís Borges, não deixam morrer de todo as ruínas de um anfiteatro.

O propósito de estar escrevendo aqui é esta imagem, que peço emprestado ao pessoal do Retalhos Históricos, onde se vê o desenho do projeto do Cassino, e se dá como localização da famosa Rua Manuel Pereira de Araújo o “Bairro Chinez”. (Note-se a elegância do traçado, e as letras modernosas!)



Pois é, Campina também já teve a sua Chinatown.

Na época, chamavam de Manichula, nome que o saite corretamente relaciona com a invasão da Mandchúria em 1931.

É interessante que zonas de prostituição e favelas acabem recebendo nome de regiões em guerra, regiões em conflito. Em Campina, além da “Mandchúria”, tinha no meu tempo o “Vietnam”, uma fileira de botequins e barracas. Sua localização precisa no mapa urbanístico da cidade eu não lembro, porque nas poucas vezes em que fui lá “entrei bêbo, saí bêbo” (como diria a música gravada por Gilberto Gil). Mas meus companheiros de geração poderão esclarecer.

O famoso “Forró da Coréia” natalense, celebrado pelo grande Elino Julião, pode muito bem ter sido batizado pela guerra homônima. Foi isso que aconteceu com o bairro das Malvinas, em Campina, que ganhou esse nome por causa da guerra na Inglaterra com a Argentina.

Fico pensando quantas favelas haverá Brasil afora chamadas “Iraque” ou “Afeganistão”. Isso é tanto mais interessante porque, se não me engano, quem bota nome em favela não é a Prefeitura, é o povo que mora lá. E muitas vezes eles pegam justamente um “nome de lugar” que está em todas as bocas, está na TV, está no rádio. É o lugar famoso do momento, e é, tantas vezes, uma zona de guerra.

Voltando ao Eldorado e aos Retalhos: o saite nos fornece um link (que lhe peço emprestado aqui) para o valioso trabalho de Uelba Alexandre do Nascimento, Mandchúria: o bairro chinês de Campina Grande, que conta um pouco da história da vida noturna e das “mulheres de vida airada” em nossa cidade.


Entre outras coisas, o trabalho de Uelba puxa do fundo do baú outra lembrança musical, a dos famosos “banhos de domingo no Bodocongó”. Era uma diversão pouco inocente em que o pessoal ficava pelado para tibungar no Açude e depois ficar se divertindo pelas beiras. 

Marinês cantou a respeito desses folguedos no clássico “Saudades de Campina Grande” (1959), de Rosil Cavalcanti:

Tenho saudade de Campina Grande
da Lagoa dos Canários e do Zé Pinheiro
dos banhos do domingo no Bodocongó
de Zacarias Cotó, banho no Louzeiro...

(gravação original:

A canção de Rosil celebra um tempo que minha geração não alcançou, e decifrar cada referência dessa longa letra era um passatempo nosso em mesa de bar. De minha parte, sei que “Zacarias Cotó” era Zacarias Ribeiro, jogador e fundador do Treze.


(Zacarias é o quarto, em pé, da esquerda para a direita)

Tem também esse trecho, na mesma canção:

Ainda recordo o Zé Iracema,
centrefó do Paulistano nos dias de jogo
com o Treze, o velho Galo lá da Borborema,
que jamais teve um problema, pegava fogo.

Foi com certa surpresa que vi a descobrir, depois de adulto, que “Zé Iracema” era o sociólogo José Lopes de Andrade, que foi meu professor na UFPB e era pai do meu parceiro musical Zeca Lopes, ex-guitarrista d’Os Falcões.



Alguém virá perguntar que importância tem, e que interesse tem, ficar rememorando a história dos cabarés e das prostitutas do passado. Não existe algo mais nobre para recordar, da história de Campina?

O que ele talvez não saiba é que a História é um tecido onde tudo está amarrado a tudo, e que quem pega “um fio só” arrisca-se a puxar o pano inteiro.

A história dos cabarés não pode ser dissociada da história dos médicos, advogados e políticos que os frequentavam; a história das prostitutas não está dissociada da história dos músicos que com elas se divertiram ou da história dos adolescentes (futuros “cidadãos do bem”) que com elas tiveram acesso ao primeiro e último dos mistérios: o mistério da vida real.







quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

2769) A palavra peneirar (18.1.2012)




Grande parte do nosso vocabulário se forma através de estágios sucessivos. No primeiro, usa-se uma palavra para fazer uma alusão direta a alguma coisa concreta e familiar a todos. No segundo, essa palavra é transposta para significar algo também concreto, mas completamente diferente, por um processo de semelhança, alusão, associação de idéias, etc. No terceiro, passa a designar uma noção abstrata que já não tem nada a ver com a coisa concreta original; ninguém seria capaz de traçar o percurso até a imagem que deu origem a tudo. Toda aquela rede de utilizações anteriores produziu um sentido genérico que justifica o uso, mas fica difícil entender como o significado “Z” veio do significado “A”.

Usarei o exemplo do verbo “peneirar”, tão nordestino. Ele indica os movimentos circulares que uma peneira faz nas mãos de uma cozinheira; este é o primeiro estágio. Num segundo estágio, passa a indicar qualquer movimento parecido, daí o uso feito por Luiz Gonzaga em “Marimbondo”: “O marimbondo vindo peneirando as asas / pra entrar em nossa casa / chega chuva pro sertão...”. A origem do verbo fica ainda mais clara na canção “Peneirou Gavião”, em que Jackson do Pandeiro compara diretamente os dois movimentos: “Peneirou, peneirou, peneirou gavião / nos ares para voar; / tu belisca mas não come, gavião / da massa que eu peneirar”. O gavião é um exemplo melhor que o marimbondo, porque se parece mais com uma peneira com aquele seu jeito de planar baixo, oscilando horizontalmente, sem subir nem descer.

Ora, daí a pouco qualquer movimento circular começa a ser açambarcado por esse verbo, por associação de idéias – como o dos quadris de uma mulher que dança ou se rebola. Em O Mundo Mágico de João Redondo, de Altimar Pimentel, vê-se uma fala assim: “ROSINHA - O que é seu tá guardado, meu fio. Eu me chamo Rosinha, né Quitéria não. Vamo, seu tocadô, qu'eu quero penerá uma coisinha! (A música recomeça e ela dança) Ai, ai, ai meu tempo!”.

O verbo acaba assumindo a conotação de “mulher rebolando, atraindo atenções masculinas”, como na canção “O mistério do fundo do olho” de Lula Queiroga: “Tô peneirando, peneirando / Bar da Mira, Burburinho / Pina de Copacabana / Galeria Joana Darc, peneirando / Essa menina tem classe / até quando me deixa sozinho”. E desse sentido erótico, provocativo, o verbo ganha um sentido semelhante mas abstrato, também como “oferecer-se de maneira explícita, não disfarçada”: “Fulano está há anos no PDT mas agora vive se peneirando para ir pro PSD”. Cada novo significado abre caminho para novas associações de idéias serem feitas, cada vez mais afastadas do sentido inicial.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

2446) O bandido João Branco (6.1.2011)



(Roy Barcroft, ou, no Nordeste, "João Branco")

Eu confesso que não tenho lembranças dele, mas muitos amigos meus recordam que Roy Barcroft era o indefectível vilão em mil faroestes em preto-e-branco das décadas de 1940 e 1950. Durão, mal-encarado, com voz intimidante, (apesar de na vida real ser, ao que se diz, um sujeito afável e brincalhão), Barcroft era o eterno fora-da-lei dando trabalho a mocinhos como Wild Bill Elliott ou Rocky Lane.

Ora, aqui no Nordeste surgiu, não se sabe como, a mania de dar aos personagens genéricos de Barcroft o nome de “João Branco”. Garotos de muitas cidades nordestinas sempre se referiam desse modo a ele quando contavam uns para os outros o filme que tinham visto na matinê da véspera: “Aí o artista entrou na caverna e quando viu apareceu João Branco com mais uns cinco bandidos, aí teve a maior briga, eles amarraram o artista em cima da linha do trem...”

Por que João Branco? Segundo Homero Fonseca, autor do romance “Roliúde” (a história do matuto que vive de contar filmes de Hollywood de cidade em cidade), os garotos de sua geração misturaram a figura de Roy Barcroft com o nome do autor das legendas em português dos filmes da época. E de fato eu me lembro que a maior parte dos filmes que eu via quando garoto se encerravam, na hora do “The End”, com uma derradeira legenda dizendo: “Legendas de João Branco”. (Anos depois, esta referência seria substituída por: “Tradução: S. da Rocha Spiegel”. Hoje, na TV a cabo, aparece: “Tradução: Drei Marc”). Por caminhos ínvios, o nome do tradutor foi associado, na imaginação dos pirralhos, à imagem do bandido.

Homero está tentando localizar quem foi de fato João Branco, que se ainda for vivo deve ter mais de 90 anos; e em que cidades essa relação entre seu nome e a figura de Roy Barcroft se estabeleceu. Isto é uma pesquisa curiosa porque o imaginário do faroeste norte-americano influenciou muitas gerações de garotos, desde os fãs de “Apolônio Cassíde” até os de Clint Eastwood.

Há pelo menos mais duas histórias curiosas misturando Nordeste e Faroeste. Não sei se muita gente fora dos limites de Campina Grande sabe que um dos grandes goleiros da Paraíba na década de 1950 foi o famoso Arricarêi, do Treze, e que este foi assim batizado por sua semelhança com Harry Carey, o grande ator de westerns dos anos 1920 e 1930. Um dos companheiros de infância e de peladas de Arricarêi era um neguinho chamado Zé Gomes, que, assim como o amigo, adotou para si um nome de cowboy, Jack Perry. Com o passar do tempo acabou ficando conhecido apenas como Jack, e depois que se tornou músico um diretor de rádio o batizou em definitivo como Jackson, e mais que isto: Jackson do Pandeiro.

Que pena não podermos perguntar a Arricarêi e a Jackson se eles alcançaram essa época em que o bandido era chamado de João Branco independentemente de seu nome em inglês. Seria um capítulo a mais na história do roliudismo que impregnou sucessivas gerações de garotos no brejo, sertão, cariri e agreste.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

2341) O "Jornal do Brasil" (8.9.2010)



"E vejam meu azar: comprei um Jornal do Brasil, emprego tinha mais de mil... e eu não arranjei um só!" O drama não é meu, é do personagem cantado por Jackson do Pandeiro no clássico "Meu Enxoval", em que o "paraíba" desempregado, depois de não achar uma colocação, acaba dormindo em frente em Teatro Municipal, na Cinelândia, aconchegado pela imprensa carioca: "O meu travesseiro é um Diário da Noite, e o resto do corpo fica na Última Hora".

O humor de Almira & Gordurinha, autores da música, fala de uma época em que a imprensa impressa carioca tinha titãs da informação, da polêmica e da cultura. Diário da Noite e a Última Hora deixaram as bancas para repousar no silêncio das bibliotecas; agora foi a vez do Jornal do Brasil, que para muita gente continua sendo o símbolo de um jornal moderno e modernizador, na diagramação, no visual, no estilo, na abordagem, na prosa, no tratamento da cultura. Sem ele, teria sido muito diferente a história da música popular brasileira, do cinema brasileiro, da poesia, do teatro, dessa coisa toda enfim. Sem ele, aliás, não existiria sequer o Jornal Dobrabil de Glauco Mattoso.

Todo jornalista em atividade no Rio tem sua história com o JB; eu tenho a minha. Entrei lá em 1987 por obra e graça do escritor Sérgio Sant'Anna, que me indicou para substituí-lo numa página de comentários sobre TV, na Revista de Domingo, intitulada "Conversa ao Pé do Vídeo". Fiquei ali durante dois anos, fazendo duas colunas por mês (revezando-me com Ingo Ostrovsky). Meus editores eram Alfredo Ribeiro e Joaquim Ferreira dos Santos. Tempos pré-Internet, em que às vezes eu tinha de pegar um ônibus para levar as laudas datilografadas até o prédio do jornal. Meu último texto publicado ali foi uma entrevista que fiz com Ariano Suassuna, em 2007.

O JB encerrou sua edição de papel. Procurei um exemplar em vão, no derradeiro dia, mas tinha esgotado. Se o público viesse demonstrando tanto interesse assim, o jornal não teria acabado nunca. Mas, ao contrário do Diário da Noite e da Última Hora, o JB não morreu. Sublimou-se! Transcendeu-se! Virtualizou-se: deixou de gastar papel mas continua vivo, nos pixels luminosos e coloridos de uma edição on-line. E isto mostra as vantagens da Internet, amigos, que pode ajudar a extinguir os dinossauros de papel, mas também lhes proporciona um novo planeta, onde esses pesadíssimos e onerosos órgãos de imprensa veem-se metamorfoseados em criaturinhas mais ágeis, uma espécie de velociraptors céleres e dribladores. Morreu o JB? Não creio. Passou da página para a tela, o que não é muito diferente de passar da lauda datilografada para a página em off-set. Porque - e chegamos agora ao Q.E.D. desta conversa toda - jornalismo (como literatura) é texto. Os jornais dos brasis agora têm como sobreviver, sem precisar de papel e tinta, porque o texto, este sim, não morre nunca. O texto é uma alma imortal que a humanidade inventou para si própria.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

2136) O disco novo de Ivan Santos (12.1.2010)



(capa: Romero Cavalcanti)

Pelo cabeamento wireless do Universo, chega ao alcance dos meus cliques o disco novo de Ivan Santos, Grampeado. É na verdade um conjunto de faixas que se pode ouvir em “streaming” (ouve, mas não copia) na sua página no MySpace (http://bit.ly/7cyjmC). E mostra os detalhes preciosos das composições de Ivan, as idéias inesperadas, as harmonias cheias de pequenas sutilezas, o suingue buscado em sambas e cocos e baiões. Tem algumas músicas antigas como “Ilha do Bispo”, que ouço há trinta anos (“E o menino, ele foi / foi apanhado numa rede de cordão / sem entender o triste significado da palavra educação”), tem clássicos recentes como “Ninguém faz idéia” (que ganhou um Grammy, na gravação de Lenine).

Tem canções recentes que eu desconhecia ou conhecia só em fragmentos, como “Sinal Feliz” (“Eu tentei enxugar o rio / eu já tentei ferver o mar / tentei tirar calor do frio / eu tentei escalar o ar / tentando descobrir um jeito / de achar o amor perfeito / essa coisa que não há”), “Mundo Vil” (“O mundo é mau / o mundo é vil / o mundo é fenomenal, viu?”), “Grampeado” (“Ah, se disfarce bem ou não se expresse mais / que estarão de olho em você olhos digitais / os esquadrões civis sem credenciais / a escória da vez / a lei se faz assim, fora da lei”), “Meu amor por você” (“O meu amor por você / é desprovido de mágoa / é duro de dissolver / é pedra na beira dágua”), “Com quem, Zé? (“Zé não briga, Zé não tem / Zé não peca, Zé cai bem / Zé respeita, aceita o que ele vê / Zé suspeita e deixa acontecer / Zé espreita, Zé não intervém / Zé com quem tá? Zé, tu tá com quem?”).

Há duas canções-homenagem, mas homenagem em forma de ficção ou comentário, não de elogio. Conheci as duas há muitos anos, em gravações caseiras em formato mp3. A primeira é “Imperador da Borborema”, um coco sacudido com estribilho rockeado, onde Ivan divide os vocais com Silvério Pessoa: “Na homepage de Jackson do Pandeiro / vi Raimundo Sanfoneiro num salão de lá / e aquela imagem do lado daquela foto / da praça de Limoeiro é de uma moça / é Dona Almira que já nem se admira / de tá recebendo clique de todo lugar...”. A outra, um samba sem defeito com estrutura harmônica de blues, “Rio Mississipi Blues”, imagina: “Robert Johnson foi morar lá na Mangueira e ficou um mês / e se o blues se encontrou com o samba foi daquela vez... / e aqueles pretos lá de rios diferentes quiseram cantar / e numa roda de pagode não pagou-se pra improvisar / a molecada não perdia nada / Elizabeth, a nega do Cruz, / aperta o Rec do cassete e grava o Rio Mississipi Blues!”.

O “Cabo” Ivan é um dos meus mestres nessa ciência difícil de encaixar palavras e notas, e vejo que cada vez ele refina mais a arte de fazer com que a palavra, escolhida depois de considerar dez alternativas, pareça a melhor possível ou até mesmo a única possibilidade. O grande poeta nos encoraja a escrever, porque a beleza dos resultados que alcança nos faz esquecer a subida da ladeira.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

1374) Onomatopéias (9.8.2007)



(Roy Lichtenstein)

Podemos aprender muito sobre a formação das línguas estudando as onomatopéias, aquelas palavras que procuram reproduzir um som. “Bang” é uma onomatopéia inglesa que reproduz um tiro de arma de fogo, e é uma palavra reconhecível internacionalmente. Nossa nordestiníssima “Pêi” não tem a mesma fama, mas tem a mesma eficácia. Pense numa expressão eloqüente como “Pêi-bufo”. Existe maneira mais descritiva e mais sonora de dizer “tiro e queda”?

Vejam agora a palavra “pipôco” (que os cearenses, p. ex., dizem “papôco”). É uma onomatopéia? Eu creio que sim, porque ela reproduz uma coisa que acontece com freqüência: uma pequena detonação seguida de outra muito mais forte. É o martelinho da espingarda estalando a espoleta (“pi”), e depois o tiro propriamente dito (“pôu”). Algum lexicógrafo virginiano virá me perguntar por que então a palavra não é “pipôu” apenas. E eu responderei que assim seria, se quem inventasse as palavras fossem os lexicógrafos. Mas não é. Essas palavras são uma criação coletiva e aleatória do Povo, e em tais processos a gente só deve tentar explicar as coisas até um certo ponto. Depois, nem Freud explica.

Eu mesmo considero que algumas onomatopéias são erradas. Vejam a palavra “tchibum”, o ruído de alguém mergulhando nágua de certa altura. Está errada. Era para ser algo como “bum-tchi”, porque na verdade ouvimos primeiro a queda pesada do corpo, e depois o espalhar da água que foi jogada ao ar, voltando a cair na superfície. Em casos assim, O Povo me desculpe, mas O Povo errou. Por outro lado, a palavra “atchim” para exprimir um espirro está certíssima: primeiro o ar sendo aspirado para encher os pulmões, e depois a descarga.

Na canção “Filomena e Fedegoso” cantado por Jackson do Pandeiro tem um verso, falando da roupa comprada pelo matuto no Rio de Janeiro: “Ele diz que comprou no magazim... Pois sim! Como vai, seu vuco-vuco?”. Explicar isso a quem não é nordestino é um drama. Primeiro temos que dizer que “vuco-vuco” é onomatopéia de um movimento implacável e contínuo como o de um serrote serrando uma tábua. Depois, por extensão, qualquer agitação que não pára. Depois, por nova extensão, o mercadinho popular (os atuais camelódromos) onde se vendem produtos baratos e por isto vivem numa agitação febril e permanente, que nunca pára. E por fim tem que explicar que esse “como vai” é uma ironia, cumprimentando a roupa: “Como vai, seu vuco-vuco?” (E eu calculo que dirigir-se a algo inanimado, personificando-o, já é uma parenta da onomatopéia: a “prosopopéia”).

Quando Mestre Fuba compôs o “Hino das Muriçocas do Miramar”, usou a palavra “trelelê”, que eu, pelo menos, desconhecia. Talvez fosse uma gíria comum em João Pessoa, mas eu nunca tinha escutado. E aí eu estava com alguns amigos cariocas escutando a música, e um deles me perguntou: “O que é um trelelê?” E eu dei a única resposta que me pareceu cabível: “É um zum-zum-zum zunindo”. Se ele não entendeu, não posso fazer nada.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

1248) Canção de Passarinho (14.3.2007)



Prefiro classificar a Música Popular Brasileira de acordo com os assuntos das letras, e não de acordo com os ritmos, até porque estes últimos são muito complicados. Até hoje não sei a diferença entre arrasta-pé e marcha-quadrilha, entre frevo-canção e marcha-rancho, entre mela-cueca e chacundun. Por outro lado, o assunto da letra é visível de imediato, como por exemplo o de hoje: Canção de Passarinho.

Acho que bastaria a obra de Luiz Gonzaga para preencher por inteiro este verbete, porque parece que o sanfoneiro de Exu tomou para si a tarefa de recensear todos os pássaros nordestinos. Começa, é claro, por “Asa Branca” e “Assum Preto”, dupla alvinegra recentemente comentada nesta coluna. Logo em seguida vem, na minha memória afetiva, o famoso “Sabiá”: “A todo mundo eu dou psiu, siu-siu-siu / perguntando por meu bem...” Este é o primeiro, mas existe outro mais remoto, que nem sei se é de Gonzaga, mas minha Tia Adiza cantava maviosamente tardes afora: “Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho / voou, voou, voou, voou... / E a menina que gostava tanto do bichinho / chorou, chorou, chorou, chorou // Sabiá fugiu do terreiro / foi cantar no abacateiro / e a menina diz a chorar: / Vem cá, sabiá, vem cá...”

Também é de Gonzaga a ominosa “Acauã” (“Acauã, acauã, vive cantando / durante o tempo do verão / no silêncio da tarde agourando / chamando a seca pro sertão”), a alegre “Pássaro carão” (“Pássaro carão cantou / anum chorou também / a chuva vem cair / no meu sertão...”), a melancólica “Vem-Vem” (“Vivo sempre escutando / a cantiga de vem-vem / quando ouço ele cantando / penso que é você que vem / fico de ôi no caminho / porém não chega ninguém”). Cada um desses pássaros, para o sertanejo, é um profeta instintivo de coisas que vão acontecer: seca, chuva, chegada de alguém.

Se a gente continuar em Gonzaga o dia amanhece. Podemos passar para Jackson do Pandeiro e “Casaca de Couro”, uma de suas canções mais belas (“Xô-xô-xô-xô, casaca de couro / cantando as duas na telha...”). E se estendermos o conceito de “passarinho” ao mais amplo de “ave”, temos Jackson com “O Canto da Ema” (“A ema gemeu / no tronco do juremá...”) e João do Vale com “Carcará”, dois clássicos em todos os sentidos. Xangai e Capinam fizeram juntos o belo “Qué qui tu tem, canário?”. Saindo do Nordeste, temos Chico Buarque com seu clássico “Sabiá” com Tom Jobim, além de “Passaredo”, um verdadeiro dicionário ornitológico marcado pelo refrão: “Bico calado / muito cuidado / o homem vem aí”). José Miguel Wisnik homenageou Gonzaga com seu híbrido “Anum Branco”. Saindo do Brasil, temos de cara os Beatles e a irretocável “Blackbird” de Paul MacCartney (“Blackbird singing in the dead of night, / take these broken wings and learn to fly...”). Todo mundo gosta de pássaro, bichinho que canta e que parece tão livre! Daí que compositores e cantores gostem de usá-lo como símbolo do que são, ou do que gostariam de ser.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

1237) Coloquialismo ou erro de português? (1.3.2007)




Volta e meia a gente está lendo algo num jornal ou revista e encontra um aparente erro de português. Comenta com outra pessoa, e ela diz: “Mas isto não é um erro, é um modo de falar. Eu também digo assim”. 

Esta é uma questão curiosa, saber onde as autoridades da Língua traçam o limite entre o coloquialismo aceitável em tais ou tais circunstâncias, e o erro propriamente dito, que tem de ser corrigido e ponto final. 

Publiquei num livro meu um poema onde havia uma linha assim: “Com Rimbaud aprendi ser afinado”. Alguns amigos vieram questionar esta regência direta do verbo, opinando que o certo deveria ser “Com Rimbaud aprendi a ser afinado”. 

Meu argumento de defesa foi típico dos sujeitos que se alfabetizaram no universo da Cultura Oral: “Oxente, pois Jackson do Pandeiro diz: Bodocongó, Alto Branco, Zé Pinheiro / aprendi tocar pandeiro nos forrós de lá”. Se ele diz “aprendi tocar”, eu posso dizer “aprendi ser”. 

Um desses amigos coçou gravemente a cabeça grisalha e disse: “Com todo respeito, mas Jackson do Pandeiro não é uma boa referência para abonações do vernáculo”. E ponto final.

O Tempo trata a Língua Portuguesa de modo surpreendente. Quando a gente menos espera, uma regra desmorona e as exceções se apossam das ruínas, com o entusiasmo de bárbaros invadindo os portões de Roma. O formal se dilui no coloquial, e meu exemplo preferido desse processo é o fato de que o pomposo tratamento “Vossa Mercê” foi se deformando em “vossemecê”, daí saltou para o sintético “vosmecê” (tão freqüente em Machado de Assis), no século 20 chegou a “você”, que hoje é a forma preferencial dos gramáticos, embora os paulistas do interior defendam o “ocê” e Caetano Veloso esteja doido para se tornar a principal abonação vernácula do “cê”.

Não é apenas a História que é escrita pelos vencedores, a Gramática também. Se fizermos um cotejo histórico de nossos dicionários, desde o de Morais no século 19 até o Houaiss ou o Aurélio de hoje, veremos que não é apenas o vocabulário científico e técnico que se renova. Também ocorre a consagração de formas impostas pelo uso popular, o qual cria suas próprias jurisprudências lingüísticas e acaba explodindo as regras que não mais comportam as direções tomadas pela prática social. 

Isto é de lamentar? Na vida do idioma, a única coisa que lamento é que certas palavras sonoras e expressivas acabem apodrecendo e caindo por falta de uso. A oficialização de termos antes tidos como plebeus, no entanto, é uma boa coisa, desde que eles surjam como uma opção a mais, e não como uma forma única, obrigatória. 

Quando vejo um desses big-brothers dizendo “no meu modo de vista”, acho que é um uso errado, tanto no meu modo de ver quanto do meu ponto de vista. Mas o povo cria suas alternativas de expressão, e “povo”, aí, inclui todo mundo. Se o cara aprendeu falar assim, quem sou eu pra dizer que tenho direito e ele não?





sábado, 28 de março de 2009

0927) Política literária (7.3.2006)




(Ernest Hemingway & Fidel Castro)


Política literária é tratar cada leitor como um político trata um eleitor. 

Dar-lhe atenção, quando abordado, mesmo que não disponha de muito tempo. 

Ouvir o que o leitor tem a dizer. 

Procurar dizer-lhe algo em que ele possa ficar pensando, e que lhe seja útil. 

Tratar a imprensa com atenção, mas sem promiscuidade. 

Não misturar relações profissionais com relações pessoais. 

Tratar bem os concorrentes de hoje, que podem ser os aliados de amanhã, e vice-versa. 

Saber que tudo que se diz em público pode vir a ser lembrado e repetido (e será, com certeza, se for algo inconveniente).

Existem escritores de gênio que são péssimos políticos, e somente a genialidade faz com que sejam lembrados hoje. Em geral, quem suaviza sua escalada é um grupo de pessoas mais próximas (família, agentes literários, editores, amigos) que se encarregam de aparar arestas, administrar o cotidiano do artista, cuidar de sua imagem (porque ele não cuida), e de um modo geral fazer com que ele se dedique a fazer a única coisa que faz bem: escrever.

Outros são excelentes políticos. Guimarães Rosa, Garcia Márquez, Arthur C. Clarke, Machado de Assis, Octavio Paz, Jorge Amado, são exemplos que me ocorrem assim meio ao acaso. Indivíduos equilibrados, afáveis, bem falantes, hábeis no trato com o homem da rua, com a imprensa, com os poderosos. 

Praticaram, ao longo de suas carreiras, a difícil arte de andar no convés de um navio, em plena tempestade, sem derramar uma gota sequer do seu coquetel. Alguns foram malhados pela crítica ou perseguidos por polemistas profissionais; mas nunca sofreram sequer um “knock-down”. 

Há escritores que são assim, mas cuja obra não têm muita densidade. Estes, tipicamente, atingem o auge da glória quando em vida, mas uma vez sumidos, sumido seu charme, sumido o vigor impositivo de sua presença, some a obra também.

Fico pensando em auto-sabotadores contumazes como Edgar Allan Poe, Arthur Rimbaud, Lima Barreto... Pode-se fazer qualquer elogio a eles, menos dizer que eram hábeis na administração da própria carreira. 

Foram perseguidos por uma combinação nefasta: temperamento impulsivo, vícios, egocentrismo, ambiente preconceituoso, conflitos familiares... Sobre eles parecia pairar uma maldição cuja fórmula dizia: “Não serás popular. Conquistarás poucos admiradores, e mesmo estes acabarás afastando de ti. Muitos te admirarão; mas na hora H, ninguém estará do teu lado”.

Ser político é uma dimensão inevitável de qualquer sujeito, mesmo um pedreiro ou um balconista. Não ocorre só na literatura. 

Outras atividades nos mostram parelhas de talentos com diferentes destinos: Pelé x Garrincha, Luiz Gonzaga x Jackson do Pandeiro, Paulo Coelho x Raul Seixas. 

A diferença entre o que acontece a uns e a outros não é uma diferença de talento, mas uma diferença de habilidade política, de capacidade para administrar a si próprio. Para o público não faz muita diferença, mas para eles, fez, e muito.





domingo, 22 de março de 2009

0902) Canções de infância (5.2.2006)



(Peter Bruegel)

São aquelas canções em que o letrista recorda (em geral com nostalgia) aspectos de sua infância. Constituem um gênero à parte, porque embora todo mundo tenha tido infância parece que os sujeitos metidos a poeta são mais propensos a endeusar a sua. Vai daí que as canções de infância tenham um vasto cancioneiro na MPB (e certamente por aí afora). 

Talvez a mais típica delas seja a de Ataulfo Alves em que ele relembra seus dias de menino “no meu pequenino Miraí”, e que já comentei nesta coluna (“Eu era feliz e não sabia”, 23.8.2005). 

A canção de Ataulfo é meditativa e filosófica, mas grande parte das canções de infância são fascinadas enumerações de tudo aquilo que nos deleitava e que já não podemos fazer, porque somos homens barbados e cheios de responsabilidades. Vejam o saudosismo de Chico Buarque em “Meus Doze Anos” (da “Ópera do Malandro”): 

Ai que saudade que eu tenho dos meus doze anos 
que saudade ingrata 
dar banda por aí fazendo grandes planos 
e chutando lata. 
Trocando figurinha 
matando passarinho 
colecionando minhoca; 
jogando muito botão 
rodopiando pião 
fazendo troca-troca. 

O elenco de travessuras é tipicamente urbano (e nesse sentido a fictícia infância do personagem carioca não difere muito da dos garotos de meu tempo em Campina Grande). 

Mas veja-se o velho e imbatível Pinto do Monteiro, o Rei do Repente, nascido em 1895, lembrando sua própria infância num tom não muito diverso do de Chico: 

Ovo de pato e marreca 
quebrar em beira de poço 
abrir milho na boneca 
pra ver se tinha caroço 
ir pra beira da estrada 
jogar pedra e dar pancada 
em cabra, bode e suíno; 
em cachorro pontapé 
que isso tudo foi e é 
brincadeira de menino. 

Menino? Devagar com o andor, que o santo usa saia! Gal Costa popularizou no país inteiro a canção “Teco Teco” de Pereira da Costa e Milton Vilela: 

Teco teco teco teco na bola de gude 
era o meu viver 
quando criança no meio da garotada 
com a sacola de lado 
só jogava pra valer 
não fazia roupa de boneca 
nem tampouco convivia 
com as garotas do meu bairro 
que era natural; 
subia em poste, soltava papagaio 
até meus catorze anos era este o meu mal. 

Mal coisa nenhuma: são as coisas boas da vida. Quer ver, pergunte a Jackson do Pandeiro e Martinho da Vila, que gravaram o clássico de Edgar Ferreira, “Tempo de Menino”: 

Eu que fui menino pobre 
e me criei na estrada 
carreguei frete na feira 
joguei lebre na calçada 
levei bilhete do rapaz pra namorada... 
Só não fui guia de cego, ai ai ui ui 
mas fui craque na pelada... 

Caberia talvez um estudo sociológico que colocasse todas essas brincadeiras lado a lado como no famoso quadro de Peter Bruegel “Children’s Games” (1560) onde ele recenseia as brincadeiras da Europa do seu tempo, mostrando dezenas de garotos numa rua larga demonstrando dezenas de travessuras. Deve existir algo nessas brincadeiras que as torna inesquecíveis.





quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0709) Jackson do Pandeiro: regional e pop (26.6.2005)




Muito mais do que Luiz Gonzaga, João do Vale, Ari Lobo, etc., Jackson do Pandeiro exibia duas faces em seu repertório. 

Havia uma face regional, com temas, situações e personagens típicos do Nordeste, e uma face que podemos chamar de “pop”, voltada para assuntos urbanos ou de um universo além-Nordeste, ou então denotando uma mentalidade, uma “atitude” como se diz hoje, que é mais típica da cultura urbana e cosmopolita.

Basta pegar, de um lado, canções que celebram o coco da praia nordestina (“Coco do Norte”) ou o batuque primitivo do sertão (“Êta Baião”) e compará-las com canções que mostram esse mesmo coco chegando aos ambientes sofisticados do Rio de Janeiro (“Coco Social”) e o clássico desafio bem-humorado do Davi nordestino contra o Golias norte-americano (“Chiclete com Banana”). 

Ou pegar uma canção como “Moxotó”, documentário poético das paisagens e da cultura do vaqueiro do sertão, e comparar com “Falso Toureiro”, uma aventura totalmente ficcional onde o vaqueiro se vê num tipo totalmente inesperado de desafio contra o touro.

A sátira bem-humorada à brabeza da mulher também vem com duas faces. Em “A mulher do Aníbal”, ele brinca com a nordestina braba que pega o pobre do Zé do Angá (ou “Zé do Hangar”, segundo algumas versões) e dá-lhe uma surra de deixar quase morto. 

Um reverso moderno e cosmopolita desta situação é “A mulher que virou homem”, onde a esposa do protagonista “foi pra Hollywood fazer uma operação” e volta dizendo “de hoje em diante meu nome é João”, e que “você me paga tudo que me fez”. A primeira canção parece um folheto de cordel; a segunda é uma história em quadrinhos.

O contraste de valores entre Nordeste e Rio fica bem claro noutra parelha de canções que mostram a “aclimatação” lenta e gradual do paraíba aos costumes cariocas. Em “Xote de Copacabana”, o paraíba se confessa desconcertado e até escandalizado com o que vê na praia: mulheres de biquíni, coisa e tal. 

Em “Falsa Patroa”, ele já está dando uma de esperto e se sai com desculpas tipicamente cariocas: “Doutor Delegado, eu não tive culpa... Foi a sua criada quem me convidou, dizendo que o apartamento era dela...”

Nenhum contraste me parece tão divisor-de-águas, no entanto, quanto o que podemos ver entre um daqueles forrós clássicos (“Forró em Limoeiro”, “Forró em Caruaru”), que descrevem o ambiente típico do forró nordestino, e a obra-prima de Rosil Cavalcanti “Forró na Gafieira”. 

Ali, o paraíba vai a uma gafieira em Jacarepaguá, perde a timidez e dá um show no salão: “Eu peguei logo uma escurinha, e mandei passo de coco que foi um chuá!” O dono da casa pede à orquestra que pare, vai no meio do salão, admirado, pede ao pau-de-arara que faça aquilo de novo, e ele encerra: “Falando assim, parece brincadeira: mas num instante a gafieira virou um forró!” 

Documento histórico da miscigenação cultural entre os coquistas nordestinos e os sambistas cariocas. Um romance que ainda espera para ser escrito.







segunda-feira, 6 de outubro de 2008

0575) Bezerra da Silva (21.1.2005)



Morreu o velho malandro Bezerra da Silva, e com ele um dos meus sonhos de compositor: ter uma música gravada por uma das figuras mais marrentas e mais divertidas da cena do samba carioca. Mandei um samba uma vez, ele não gravou, eu dei de ombros e pensei que na próxima tentativa teria mais sorte. A próxima tentativa agora vai ser “na Gulora”, como dizia minha mãe. Mas aí a concorrência vai ser fogo, vou disputar com João Nogueira, Beto Sem Braço, um monte de gente.

Sempre achei Bezerra da Silva o típico carioca de morro. Tinha aquela fala arrastada, uma entonação de voz que é uma mistura de cautela automática, empáfia-de-pequenino, ressentimento atávico, desdém pelo interlocutor, tudo revestido por aquela polidez formal que os faz tratar a gente na base do “aí, campeão, tudo bem?”, “olá, bacana, como é que tá a parada?”, esse tipo de coisa. Malandros mulatos que ao tratar com os brancos de classe média fazem questão de se comportar nos-conformes, mas sempre deixando claro que, mesmo no momento em que nos apertamos as mãos, existe um Oceano Atlântico de navios negreiros a nos separar.

Nunca o encontrei pessoalmente; soube que havia se tornado evangélico antes de morrer. Como diria um amigo meu, cínico até a medula, “Rapaz, esse negócio de ficar se aproximando do Céu é perigoso...” O mais engraçado é que só depois de muitos anos aqui no Rio foi que eu descobri que Bezerra era nordestino. Geraldo Azevedo me contou que quando ele e Alceu defenderam “Papagaio do Futuro” num Festival, Bezerra era o zabumbeiro do grupo. Mal acreditei, porque nada no sotaque e na atitude dele lembrava o Nordeste. A verdade é que Bezerra veio para o Rio com 15 anos, durante a II Guerra; era um menino, e desembarcou num Rio de Janeiro que ainda não tinha sido tomado de assalto por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Foi o sucesso posterior de Jackson que o atraiu para a música, e aqui entra um detalhe que diferencia Bezerra de todos os outros, pois estudou violão clássico, e sabia ler partitura. Uma vez vi uma entrevista dele para a TV em seu apartamento, junto de um piano, e pensei: “Mas olha o inchirimento...” Não era inchirimento, era preparo, mesmo.

Bezerra foi o terceiro estágio da migração nordestina. O primeiro, com Gonzaga, era o retirante que só pensa na terra que deixou para trás. Quantas músicas há, de Gonzaga, celebrando o Rio? Pouquíssimas. O segundo estágio é Jackson, que já não é o nordestino do Sertão, mas o da Feira de São Cristóvão, com suingue urbano, vivência da indústria cultural (rádio, orquestra), perfeitamente integrado ao Rio. O terceiro é Bezerra, onde o miolo nordestino foi totalmente recoberto por uma capa espessa de carioquidade explícita e agressiva. Ao contrário dos outros dois, ele fala em bandidagem, em maconha, em assaltante, em revólver, em polícia. A gente só entende a relação Nordeste-Rio se entender a história dessas três gerações.

domingo, 27 de abril de 2008

0378) O instrumental do arrasta-pé (5.6.2004)



(ilustração: Samuca, Diário de Pernambuco)

Coube a Luiz Gonzaga formatar o que hoje conhecemos como o forró-de-raiz, cuja instrumentação básica é o trio (que é a cara de Gonzagão) sanfona, zabumba e triângulo. 

Complementos enriquecedores a este trio podem ser o reco-reco, o pandeiro e o agogô, que por sua vez são a cara de Jackson do Pandeiro. 

Note-se que em muitas das gravações originais de Gonzaga nos anos 40 e de Jackson nos anos 50 observamos, como consequência inevitável da influência dos arranjadores e instrumentistas em cujo meio eles viviam, a presença de instrumentos mais intuitivamente associados ao samba e ao choro: o violão (fazendo a famosa “baixaria”), o cavaquinho, a flauta e o clarinete. 

Não esqueçamos também que um dos baiões de maior sucesso em todos os tempos foi “Delicado”, de 1951, no cavaquinho de Valdir Azevedo.

Quem leva a sério a definição de um formato “oficial” para o forró de raiz deveria fazer um estudo detalhado da presença e da função de todos estes instrumentos (e outros que não citei) na discografia essencial não apenas de Gonzagão e de Jackson, mas também na de outros artistas que tiveram influência decisiva na invenção da Música Fonográfica Nordestina: Manezinho Araújo (cujas emboladas tiveram um papel importantíssimo na criação de uma nordestinidade musical), João do Vale, Marinês, Ary Lobo e outros.

Surge então uma pergunta: será que instrumental é um fator decisivo para definir um gênero de música? 

Muitas vezes, sim. Na criação de um gênero, os instrumentos usados são algo crucial. Depois que o rock-and-roll já existia e tinha perfil próprio, teve gente fazendo rock com violão acústico, com orquestra sinfônica, com o escambau. Mas o rock não seria o que é se tivesse sido criado sem guitarra, baixo e bateria. O mesmo ocorre com os variados gêneros nordestinos que se escondem sob o rótulo “forró”.

Depois que o forró foi formatado, o próprio Luiz Gonzaga usou guitarra e baixo, e com bons resultados, como por exemplo “O fole roncou”. Eram sonoridades novas superpondo-se a um formato já assimilado e a um contexto cultural já definido. Mas quem pegar as gravações originais de Gonzagão e de Jackson irá se surpreender com a variedade de instrumentos utilizados e principalmente com o minimalismo de efeitos. 

Hoje em dia as bandas mais parecem um pelotão de fuzilamento: a gente vê shows de forró com duas ou três sanfonas no palco, um teclado, um monte de vocalistas, guitarras e baixo, bateria, percussão completa, mais uma zabumba... É um quebra-quebra–guabiraba onde mal se consegue perceber a melodia, a sequência harmônica, a letra.

Peguem os discos antigos de Jackson do Pandeiro. Uma zabumba marcando, o pandeiro fornecendo os balanceios, um ganzá ou reco-reco fazendo aquele traço de continuidade que serve como um trilho de trem, um violão bordando os baixos nas cordas de cima, uma sanfona discreta emergindo para os solos... e o cantor. Ninguém hoje em dia faz tanto com tão pouco.