O deus da guerra (Der Kriegsgott)
Bertolt Brecht (trad. BT)
1949.
(traduzido da versão inglesa de Michael Hamburger)
Eu vi o velho deus da guerra de pé num pântano, entre a parede de pedra e o precipício.
Artigos de Braulio Tavares em sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB), desde o 0001 (23 de março de 2003) até o 4098 (10 de abril de 2016). Do 4099 em diante, os textos estão sendo publicados apenas neste blog, devido ao fim da publicação do jornal impresso.
-- Você escreveu aqui: “naquele instante, uma angústia kafkeana se abateu sobre mim: e se alguém estivesse hackeando minha conexão e invadindo meu computador?"-- Sim, e o quê que tem?-- O leitor sabe o que é angústia kafkeana, sabe quem foi Kafka?-- Geralmente sabe. Kafka é um dos autores mais comentados do século 20. O leitor pode não ter lido um livro dele, mas tem uma vaga idéia do que o adjetivo quer dizer. Angústia, medo, paranóia, complexo de perseguição... E se eu uso o verbo “hackeando”, por que não posso usar o adjetivo “kafkeano”?-- Ah, todo leitor hoje em dia sabe o que é hackear.
-- Acho que vou dar uma volta.-- Vai aonde?...-- Vou ali no bar de Genival, ver se encontro a turma.-- Vá, mas não demore, porque oito horas a gente vai sair para ir ao teatro.-- Ih, é mesmo. Talvez seja melhor esperar, então.-- Por mim tudo bem. Só não quero que a gente se atrase.
“Não vamos atrasar, fique tranquila.”“Claro. Mas você sabe – teatro começa na hora.”“Ah, nem sempre. Já vi meia hora de atraso”.“Eles podem atrasar, a gente não. Detesto entrar numa fila de poltronas com a peça já começada, e a gente no escuro, pisando nos pés dos outros, feito idiota: licença... licença... desculpe...”
-- Qual é mesmo a peça que a gente vai ver? – perguntei.-- “Romeu e Julieta” – respondeu ela.-- Você só gosta de peça de amor – gracejei.-- E você só gosta de ação e aventura – retrucou ela.-- Pode ser. “Macbeth” é muito boa. – observei.
“Oh my God, the ship is sinking!...”, ejaculated the Captain.
Acordamos às 7 da manhã para viajar. Íamos eu, meu irmão Francisco, e meu pai. Fomos para a garagem, papai abriu o carro e começamos a nos organizar.-- Mochilas na mala do carro – disse papai. – Dentro, só o que precisarem durante o trajeto.-- Vou pegar minha garrafa de água, somente – disse eu.-- Eu levo meu táblet – disse Francisco.-- E na mochila, têm mudas de roupa suficientes? Outro par de tênis?-- Sim.-- Eu estou levando só um – disse eu.-- Tudo bem, mas se chover pode dar problema. Estão levando casacos?-- Faz frio lá? – disse Francisco.-- À noite esfria um pouquinho.-- Estou com uma camisa de lã.-- Pode servir. E você?-- Um casaco jeans, acho que basta – respondi.
-- O Flamengo jogou até bem, hoje – disse meu amigo João, ligando o motor e pegando o fluxo de saída do estádio.-- Jogou a conta do chá – disse eu. – Mas deu pro gasto.-- O problema continua sendo essa defesa. Aquele gol deles... pelo amor de Deus.-- Todo jogo a gente leva um gol assim.-- Cruzou bola na área, eu cruzo os dedos.-- Isso é falta de treino.-- Sim, mas tem que jogar toda quarta, todo domingo...-- Toda semana.-- Toda semana. Quem tem tempo de treinar?-- Esse calendário é uma maluquice.-- Outra coisa: o time faz um gol e recua.-- É o mesmo problema. Time cansado.-- Recua, chama o outro pra cima.-- Pelo menos tem a chance do contra-ataque.-- Sem velocidade? Time cansado? Aaah...-- A sorte foi aquele gol de falta.-- Que nem falta foi.-- Foi, cara.-- Foi nada. Choque normal do jogo.-- Mas a gente mereceu.-- Sempre merece.
(...)-- Outra coisa – disse ele, freiando e esperando a passgem de um ônibus. -- O time faz um gol e recua.(...)-- Foi, cara! – insisti.(...)
A história do acordo para escrever os livros de fantasmas é verdadeira – mas as Senhoras não são irmãs – uma é filha de Godwin com Mary Wollstonecraft – e a outra é filha da atual Sra. Godwin com um marido anterior. Tanto para a história do “incesto” do canalha Southey – nem houve qualquer relação promíscua, ambas são invenções do execrável vilão Southey – a quem chamarei assim tão publicamente quanto ele merece. – Mary Godwin (agora Sra. Shelley) escreveu “Frankenstein” – que você resenhou pensando ser de Shelley – acho que é um trabalho maravilhoso para uma garota de dezenove anos – nem ainda dezenove, na verdade – naquela época.(Carta a John Murray, 15-5-1819, em Byron, trad. André Vallias, p. 425-426)
E o calafrio moral que o simples nome de Byron provoca nos lares burgueses viria a ser intensificado por nossa aclamação. Byron não é, por medida alguma, um poeta surrealista; mas é uma personalidade surrealista. Ele é o único poeta inglês capaz de ocupar, em nossa hierarquia, a posição ocupada na França pelo Marquês de Sade.(trad. BT)
O Vampiro [de John Polidori] revela a ligação entre Byron e Drácula de tal modo que torna-se impossível não vê-los como parentes literários; porque o romance de Stoker trouxe, para o consumo popular de sua época, a estirpe do Aristocrata Fatal com olhos penetrantes e ambições mortais, que Byron já havia capturado das páginas de Mrs. Radcliffe e transformado num culto a um personagem. (trad. BT)
Dumas escrevia assim por razões de dinheiro, recebia tanto por linha e precisava esticar. Sem contar que, enquanto escrevia a duas mãos o Monte Cristo, estava ao mesmo tempo redigindo La Dame de Montsoreau, Le Chevalier de Maison Rouge, Les Quarante-Cinq. (...)
Eis que assim se explicam aqueles que, em outra ocasião, chamei de “diálogos de empreitada”, onde os interlocutores, fazendo um parágrafo a cada fala, dizem-se durante uma ou duas páginas falas de puro relacionamento, como dois desocupados num elevador. (...)
-- Não – disse d’Artagnan - , não, confesso-o, não foi o acaso que me pôs no vosso caminho; vi uma mulher bater à porta de um amigo meu...--- De um amigo seu? – interrompeu Mme. Bonacieux.-- Certamente, Aramis é um dos meus melhores amigos.-- Aramis? Que é isso?-- Ora! Quereis dizer-me que não conheceis Aramis?-- É a primeira vez que ouço pronunciar esse nome.-- Mas então é a primeira vez que vindes a esta casa?-- Certamente.-- E não sabíeis que era habitada por um jovem?-- Não.-- Por um mosqueteiro?-- Realmente não.-- Então não era ele que vínheis visitar?-- Nem por sonho. Como viu, a pessoa com quem falei é uma mulher.-- É verdade, mas essa mulher é uma amiga de Aramis.-- Nada sei sobre ela.-- Mora com ele.-- Isso não me diz respeito.-- Mas quem é?-- Oh! Este não é um segredo meu. (...)
Tradutor 1 – Como você traduz “again”?...Tradutor 2 – Depende. Se me pagam por número de palavras, “outra vez”. Se pagam por número de caracteres, “novamente”.
Com o sucesso, Dumas assina com Le Siècle um contrato de colaboração exclusiva: 100 mil linhas por ano, a um franco e meio a linha. Para multiplicar o rendimento, Dumas encontra o diálogo monossilábico e introduz uma série de figurantes pouco loquazes. Donde, a partir de certo momento, precaução dos diretores de jornal: a linha tem de ser completa, e Dumas acaba matando vários personagens tornados inúteis. (pág. 61)
Que deveria fazer o tradutor para responder a um desafio de tal espécie? Se traduz ao pé da letra, sua dignidade se rebela, a mão hesita em repetir sem motivo a mesma palavra, a mesma expressão pré-fabricada, poucas linhas depois; o tédio exigiria que pulasse, enxugasse, encurtasse. (p. 144)
Por acaso Dumas não era um autor que trabalhava em colaboração? E por que não, então, em colaboração com um seu tradutor cem anos depois? Dumas por acaso não era artesão pronto a modificar seu produto de acordo com as exigências do mercado? E se o mercado agora lhe pedisse uma história mais enxuta, não seria ele o primeiro a autorizar cortes, encurtamentos, elipses? (pág. 144)
Pode um poema como Eugene Onegin ser traduzido eficazmente com a manutenção das rimas? A resposta, naturalmente, é que não. Reproduzir as rimas e traduzir o poema inteiro, literalmente, é matematicamente impossível. (...) É no momento em que o tradutor se dispõe a reproduzir o “espírito”, e não o mero sentido do texto, que ele começa a traduzir o autor. Ao transportar o poema de Pushkin para o meu inglês, eu sacrifiquei, em benefício da completude do significado, todos os elementos formais, inclusive o ritmo iâmbico onde quer que mantê-lo implicasse em prejudicar a fidelidade. Em favor desta minha idéia de literalismo, sacrifiquei tudo: elegância, eufonia, clareza, bom gosto, usos modernos, e mesmo a gramática – tudo que esses mimetizadores afetados prezam mais do que a verdade.(pág. 258-259, trad. BT)