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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

4917) O que existe por trás do Sol (27.2.2023)




(Sol Armorial) 
 
Quando mais jovem, em Campina Grande, trabalhei durante quase dois anos, como datilógrafo, na Reitoria da FURNe, a Fundação Universidade Regional do Nordeste (atual UEPB). Ficava em frente à Catedral, naquele prédio onde hoje funciona o Instituto Histórico.
 
Um dia eu estava indo à Faculdade de Filosofia (que ficava atrás da Catedral, a poucos metros dali) em companhia de Leopoldo, considerado o melhor datilógrafo da universidade. Era um cara mais velho do que eu, moreno, cabelo curto, não era de muita conversa mas tinha um senso de humor apurado.
 
Nesse dia a gente ia andando quando ele parou de repente.
 
– Espera um instante.
 
Voltou alguns passos e ficou examinando o chão de terra. Via-se ali um salto de sapato, salto preto, de sapato tipo Vulcabrás. O chão estava um pouco úmido e mole; Leopoldo escavou um pouco com a quina do pé, expôs o salto, deu um “bico” com um pouco de força e o salto de borracha saltou lá para a frente, deixando apenas o buraco na terra. 
 
– Tudo bem – disse Leopoldo, quando retomamos a caminhada. – É porque toda vez que eu passava aqui eu ficava pensando que tinha um cara enterrado de cabeça pra baixo, e só o salto do sapato aparecendo. 


(a antiga Reitoria da FURNe)
 
Essa imagem nunca saiu da minha cabeça (olha que já lá se vão 55 anos), porque nesse tempo eu vivia com o juízo cheio de surrealismo e de Luís Buñuel.  Fiquei fascinado com a possibilidade de você enxergar um pequeno objeto e ser capaz de visualizar, a partir dele, algo muito maior e totalmente absurdo. Como o galo de metal no campo nevado, onde o Barão de Münchausen amarra seu cavalo antes de dormir. Ao acordar, o Barão percebe que a neve derreteu e ele está numa pracinha, em frente à igreja, e o cavalo está esperneando lá no alto, preso ao galo do campanário. 
 
Corta para o Rio de Janeiro, éons depois.  Eu morava em Laranjeiras, e pegava com frequência o ônibus da linha 184 para ir ao Largo do Machado, onde tem metrô, comércio, lanchonetes, etc.  E um dia vejo pichado na parede de um prédio baixinho de apartamentos, já perto do Largo: 
 
O SOL É A BRASA DO BASEADO DE DEUS
 
Peço desculpas às pessoas religiosas que talvez se sintam ofendidas. Meu intuito aqui é apenas semiótico, porque essa frase, digna de um cartum de Moebius & Jodorowsky, tem uma construção muito semelhante à idéia de Leopoldo com o salto de sapato. É uma excelente fanopéia – na linguagem de Ezra Pound, a imagem visual vívida e instantânea, produzida por meras palavras.
 
Olhar para o sol, imaginá-lo como a brasa de um cigarro, visualizar um ser gigantesco por trás... A imagem era um tanto blasfema (Buñuel teria gostado). Mesmo assim, me lembrou outra imagem da infância, colhida talvez em Monteiro Lobato: a sugestão de que o céu da noite era uma vasta redoma de cristal escuro, e as estrelas eram buracos que os anjinhos faziam para espiar as travessuras das crianças da Terra. (Acho que isto está em Viagem ao Céu.)


O interessante dessa imagem não era nem mesmo a curiosidade dos anjinhos, mas o fato de que -- por trás dessa redoma escura e protetora existia o que? Existia uma luminosidade cegante, equivalente à do Sol, que se filtrava pelos buraquinhos. 
 
A materialidade da abóbada celeste é um tema antigo. Vivemos (dizia a imaginação medieval) no centro de uma esfera, que ora era transparente, ora opaca, ora azul, ora escura e pontilhada de brilharecos. 

Existe até a famosa gravura (que nem é medieval, é do século 19) em que um homem rompe o “vidro” dessa abóbada e enxerga por trás dela mecanismos gigantescos, engrenagens incompreensíveis.


(em L’Atmosphère: météorologie populaire, Camille Flammarion, 1888)

 
A curiosidade de saber o que existe por trás do céu vem dessa visão medieval que colocava a Terra como o centro do Universo, e este seria uma série de esferas sucessivamente maiores, como camadas-de-cebola superpostas. Um universo imóvel onde as esferas (onde estavam “pregados” o Sol a Lua, as estrelas) meramente giravam em torno do seu centro, a Terra, mas a estrutura básica era fixa.
 
Dá para imaginar o choque na cabeça dos cientistas quando tiveram que admitir por aproximações sucessivas (via Kepler, Galileu, Copérnico, Newton, Einstein) o atual formato do Universo.
 
Restou aos poetas imaginar outras alternativas, no plano simbólico. Guimarães Rosa, que era meio chegado a um cigarro convencional, projeta suas fantasias no inventivo Lalino Salãthiel de “A Volta do Marido Pródigo” (em Sagarana, 1946):
 
“Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarro lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p’ra diante, p’ra fazer de-noite e a gente poder dormir...”
 
É o caso também de Ariano Suassuna e sua forma peculiar de tratar os temas religiosos e sertanejos.  Não por acaso, um dos seus personagens mais famosos, Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, foi expulso do seminário da capital da Parahyba por causa de sua teoria do “Catolicismo Sertanejo”, no qual “a Santíssima Trindade tem cinco membros: o Pai, o Filho, o Espírito Santo, o Diabo e Nossa Senhora”.



(Irandhir Santos, como Quaderna)
 
A mitologia solar tem uma importância muito grande nessa visão-do-mundo que Quaderna expõe de maneira tão vigorosa e poética no Romance da Pedra do Reino (1971). Pudera. Todo esse romance é uma tentativa pessoal, por parte de Ariano, de equacionar o feixe de contradições e de confirmações em torno da tentativa de situar Deus e o Diabo na terra do sol. 
 
Em seu livro póstumo Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, que é uma espécie de coral de muitas vozes e muitas “personas”, Ariano atribui a Dom Pantero um longo monólogo em tom apocalíptico (passagens inteiras do Apocalipse são citadas no livro) e a certa altura ele exclama: 
 
– O Sol é o girassol do sol de Deus!
 
A imagem do girassol é frequente na literatura mística, para indicar a alma sempre voltada na direção da Divindade. Para onde Deus vai, a alma do crente gira de mansinho, para nunca perder Deus de vista, para estar sempre inundada de sua luz.



Não sei se a frase de Dom Pantero é uma formulação de Ariano ou se ele está citando alguém (o livro é repleto de citações disfarçadas – é o “Estilo Régio” de Quaderna falando no centro), mas em todo caso é uma imagem de grande beleza. Uma fanopéia notável.
 
A idéia é que assim como o girassol volta-se para o sol o tempo inteiro, para embeber-se de sua luz, assim o Sol, por sua vez, volta-se o tempo inteiro para se embeber do “sol de Deus”, que neste caso deve ser algo de brilho incomensurável, inconcebível.
 
Reencontrei há pouco essa mitologia solar na leitura do volume 3 da série “The Sandman”, de Neil Gaiman, Dream Country (1991). 
 
Na quarta história deste volume, “Façade”, aparece a super-heroína Element Girl, a mulher indestrutível, capaz de manipular à vontade qualquer elemento da matéria. Ela é Rainie Blackwell, uma agente secreta que foi transformada em Element Girl após entrar em contato com uma divindade egípcia. Agora, está decadente, infeliz, incapaz de viver uma vida normal, e tendo que criar máscaras orgânicas para esconder seu rosto verdadeiro, cuja visão é insuportável às outras pessoas.
 
No fim, ela deseja morrer, e é visitada pela Morte, que faz parte do grupo dos Perpétuos. A Morte lhe aconselha que peça ao deus egípcio para reverter o que havia feito. “Mas onde vou encontrar esse deus?”, pergunta Rainie. A Morte diz: “Deixa de ser boba, esse deus é Ra, o sol. Vai na janela e fala com ele.”


(Neil Gaiman + Colleen Doran, Malcolm Jones III, Steve Ollif, Todd Klein)
 
Ela o faz e diz:
 
-- O sol... eu não tinha percebido antes... O Sol, também, é apenas uma máscara... E o rosto por trás dele é tão belo... é...
 
Element Girl usava dezenas de máscaras para poder ser vista pelos humanos (sua casa é repleta delas), e desse modo não lhe é difícil entender que o Sol é apenas uma máscara cegante destinada a afastar a curiosidade daqueles que desejam ver “a verdadeira face de um Deus”.
 






sábado, 12 de março de 2022

4802) Creio em Deus porque é absurdo (12.3.2022)




Eu discuto política, religião, futebol... discuto qualquer coisa. O que eu não discuto são os gestos totalizadores da vontade. Eu não discuto o que é questão de fé pessoal.
 
Um gesto totalizador da vontade é quando decidimos professar uma crença absoluta, um amor absoluto, uma obediência absoluta ao que quer que seja. É um gesto “totalizador” por causa desse caráter pessoal, “de foro íntimo”, incondicional, que nos faz crer numa religião, numa doutrina política. E que, num plano mais restrito, nos faz amar uma pessoa. Ou, num plano mais superficial, torcer por um time de futebol, ser fã de um artista...
 
Por que não discuto? Porque discutir significa tentar ver algo pelo lado de fora, e quando uma pessoa executa esse gesto (crer num Deus, ter uma ideologia, etc.) é como se não existisse mais a possibilidade de um “lá fora”. Aquela crença permeia tudo, impregna tudo. Ela explica e justifica, ou explica e condena, cada gota dágua, cada grão de areia.
 
Não discuto porque discutir significa tentar decompor essa crença em seus elementos: os argumentos que a justificam, as provas (mesmo provas meramente verbais, meramente retóricas) que a confirmam. Para quem tem fé absoluta em alguma coisa, essa fé é indivisível como um número primo. Não é composta de fatores que podem ser isolados, e depois analisados separadamente. Não há fatores. Não há argumentos. É algo totalizante.
 
Há uma famosa frase da tradição religiosa, “credo quia absurdum”, que vem sendo discutida há séculos pelos exegetas. Não entrarei aqui nos labirintos latinos e teológicos, mas comentarei a frase como ela é, hoje, percebida em português, pelas pessoas de hoje.
 
Por muito tempo imaginei que essa frase, uma justificativa frequente da fé religiosa, queria dizer algo como “Eu acredito nisso, mesmo que isso pareça absurdo.” O que do meu ponto de vista, aos quinze ou vinte anos, fazia sentido. Eu também acreditava em coisas que pareciam absurdas aos adultos da época. Não me era difícil ficar alternadamente tanto na posição dos que creem quanto na posição dos que ficam atônitos.
 
Depois, fui direto às fontes e me explicaram que não é bem assim. É o contrário: “Eu acredito nisso, justamente porque é absurdo”. É por ser absurdo que eu creio. Se fosse uma coisa lógica, eu não precisaria acreditar: bastaria prová-la com dois ou três silogismos.
 
E é engraçado, porque esse argumento aparentemente contraditório me pareceu mais forte do que o anterior. Porque ele se refere a outro tipo de crença. É a crença dos iluminados, dos que um dia são fulminados por um raio de compreensão e esse raio não se extingue dentro deles.
 
Há os que são convertidos a uma causa pela razão, pela lógica, pelos argumentos, pela força da persuasão alheia. E há os que vêm cavalgando pela Estrada de Damasco e são fulminados pelo relâmpago da Fé.


(“A Conversão de São Paulo”, Nicolas-Bernard Lepicie, 1767)
 
Como explicar isso? Não sei, só sei que é assim. E é porque é assim (dizem os crentes) que eu creio. Ninguém precisou me convencer. Ninguém me fez escalar degrau por degrau, lição por lição, apostila por apostila, até um dia chegar no alto da montanha. Eu vinha andando na rua, de repente houve um clarão e eu estava no alto da montanha, “e a Verdade se desvelou para sempre diante dos meus olhos”.
 
Vai se discutir o quê com uma pessoa como essa?
 
A fé filosófica ou religiosa não se distingue muito, nesse aspecto, de outras revelações que podemos comprovar de forma experimental, em laboratório. As descobertas científicas brotam às vezes do Inconsciente (olha aí, já é uma tentativa de decompor o relâmpago).
 
Alguns exemplos são clássicos. O cientista passa meses ou anos pesquisando uma coisa, sem resultado, e um belo dia está fumando charuto numa poltrona ou subindo no ônibus, e zapt! – a resposta brota prontinha em sua mente, armada da cabeça aos pés como a deusa Palas-Atena.
 
Em casos assim, é possível mostrar que houve uma pré-elaboração dessa idéia, ela não “caiu do céu”. Não é maluquice presumir que as faculdades analíticas da mente possam ficar “rodando” como aplicativos, fora da consciência, enquanto o cientista almoça, bota os filhos pra dormir, dá aula, joga xadrez com os colegas, troca afagos com a consorte.
 
O programa está rodando, caladinho, à sorrelfa, está checando caminhos, experimentando outras variáveis. Um belo dia, zapt! – aparece uma resposta, o cientista tem um sobressalto, e voilà!...
 
Um livro muito útil a respeito desse processos é The Psychology of Invention in the Mathematical Field (1943), de Jacques Hadamard.



Voltando à fé religiosa: talvez não seja despropositado imaginar que esse é um domínio onde iluminações desse tipo possam acontecer com maior frequência, até porque não precisam ser demonstradas mediante cálculos matemáticos ou experiências de laboratório, como ocorreu com as iluminações de Isaac Newton, Einstein, Descartes, Poincaré, Kékulé e tantos outros.
 
Os raios da fé religiosa dificilmente desabam no senador da república ou na verdureira da quitanda, que têm outras preocupações. Desabam em mentes já envolvidas com questões religiosas ou existenciais mal resolvidas, desabam em pessoas que passam noites em claro, com o juízo bouleversado, tentando fazer sentido das experiências de sua vida. Essas pessoas são pára-raios prontinhos para atrair o relâmpago da fé. (Que, sempre é bom lembrar, não cai do céu – cristaliza-se no inconsciente, e com tal força que emerge, de baixo para cima.)
 
Quando o crente diz “acredito justamente pelo fato de ser algo absurdo, inacreditável”, está dizendo, por um lado, que o que pudesse haver de análise, exame, avaliação, já foi feito pelos aplicativos do seu Inconsciente, nos quais ele instintivamente confia.
 
Por outro lado, está dizendo que essa crença não é o resultado de uma operação lógica, mas um gesto da Vontade. Acredito porque decidi acreditar. Acredito porque tudo que me mobiliza intelectualmente e emocionalmente me disse que acreditasse “sem discutir”.
 
Não é muito diferente de muitos exemplos do “amor romântico”, essa outra divindade onisciente, onipotente e onipresente em nossa cultura. Claro que a maioria dos apaixonados encontra laudas e laudas laudatórias para se justificar: ela é linda, é inteligente, é carinhosa, tem caráter, tem bom coração, tem rosto formoso, corpo bacana, é de boa família, se veste bem, gosta dos Beatles, torce pelo meu time... Argumentos nunca faltam, e mesmo que faltassem à donzela todas essas qualidades aí, o romeu acharia outras, igualmente importantes.
 
A raiz do fenômeno pode ser investigada melhor naqueles casos “quia absurdum”, em que o desafortunado se rói de paixão e ele mesmo comenta: “não sei que diabo está acontecendo comigo, isso não pode dar certo nunca.”  Ou (como cantavam os Beatles), “I don’t like you but I love you; I don’t want you, but I need you” (“You’ve Really Got a Hold On Me”, de Smokey Robinson).
 
– Mas John Lennon, essa mulher é muito feia!  
– É feia mesmo que eu gosto.



(foto: Susan Wood)
 
Um crente religioso sincero passa por um processo semelhante. Crer em Deus é uma iluminação totalizadora, que nem sempre brota da Vontade, no sentido da intenção original (veja-se o caso de São Paulo, o típico perseguidor que se converte à fé dos perseguidos), mas é encampada por ela no momento em que o intelecto orgulhoso abaixa a cabeça diante de uma certeza que seus raciocínios nem sonham em abarcar.
 
Como discutir com alguém assim? Como tentar convencê-lo de que o Deus dele não existe, de que o ideal político dele é falacioso ou historicamente datado?
 
Notem que estou me referindo aos sinceros, e não aos bilhões de zumbis que aceitam aquele credo como teriam aceitado outro qualquer, desde que lhes fosse imposto nas mesmas circunstâncias da vida e por meios semelhantes.
 
“Acredito porque é absurdo”, porque diante do absurdo só existem duas reações possíveis: a rejeição prudente ou a aceitação total.








quinta-feira, 28 de maio de 2015

3826) Somos um videogame (29.5.2015)


(ilustração: Julian Garcia)



Escrevi nestes dias sobre o PlayStation Terra, o hiper-mega videogame que é o nosso universo, de acordo com uma teoria de Rich Terrile, cientista da Nasa. Ele diz que o avanço da computação e do processamento de dados leva a crer que um dia criaremos simulações de computador equivalentes a um mundo de verdade. Diz Terrile que o universo, como a computação gráfica, é formado de pixels, minúsculos pontos ou unidades indivisíveis. Há um limite da matéria além do qual não conseguimos observar, o que sugere que mesmo sendo o número de “pixels” do universo um número espantosamente grande, não é infinito, e se não é infinito é computável.

Cada um desses pixels do nosso mundo, diz ele, pode ser definido por coordenadas de tempo, espaço, volume e energia. Ele diz: “Estamos no limiar de um estado em que seremos capazes de criar um universo, uma simulação, e de descobrir que nós também estamos vivendo no interior de uma simulação parecida, que poderia por sua vez produzir mais uma, e assim por diante. Nossos seres simulados poderiam produzir novas simulações. O que me intriga é que, se existe um criador, e no futuro haverá um criador que seremos nós mesmos, isto quer dizer que nós também podemos ter sido criados por alguém. Somos como deuses, e como criaturas de deuses, e tudo é produto nosso.”

A FC brinca com essa idéia há décadas. No conto de Frederik Pohl “The tunnel under the world” (1954, texto aqui no Projeto Gutenberg: http://tinyurl.com/mbvtvfn) o personagem começa a perceber estranhas descontinuidades e repetições no seu dia-a-dia (os famosos “erros da Matrix”), até descobrir que o seu mundo é uma simulação, com pessoas dotadas de pseudo-consciência e pseudo-livre-arbítrio, feitas para testar campanhas publicitárias. (Premissa retomada por Daniel F. Galouye em seu clássico Simulacron-3, de 1964.)

Fernando Pessoa, estudioso dos filósofos gnósticos, fez experiências com essa idéia de uma hierarquia de deuses criando uns aos outros, cada novo deus menor e mais imperfeito do que o que o criou. No soneto 1 do tríptico “No Túmulo de Christian Rosenkreutz”, ele diz:  

“Quando, despertos deste sono, a vida, / soubermos o que somos, e o que foi / essa queda até corpo, essa descida / até à noite que nos a Alma obstrui, // conheceremos pois toda a escondida / verdade do que é tudo que há ou flui? / Não: nem na Alma livre é conhecida… / nem Deus, que nos criou, em Si a inclui. // Deus é o Homem de outro Deus maior: / Adão Supremo, também teve Queda; / também, como foi nosso Criador, // Foi criado, e a Verdade lhe morreu… / de Além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda; / aquém não há no Mundo, Corpo Seu.”




sexta-feira, 6 de abril de 2012

2837) Por que Deus (6,4,2012)



(Zeus e Tétis no Monte Olimpo, por Ingres, 1811)

“Os pobres precisam de Deus” (disse-me Zezim Lourenço, dono de uma birosca na favela do Gaiamum), “porque ser pobre é viver em carne viva e com nervo exposto. Deus é um lubrificante espiritual para reduzir as esfoladuras do Ser. Precisamos de Deus como da aspirina, da vaselina, do tylenol. Num mundo onde ninguém nos responde, nada melhor que alguém de quem não esperamos respostas, apenas um ocasional milagre. Mais que isto: num mundo manipulado por potestades invisíveis que do dia para a noite fazem desabar catástrofes inesperadas sobre nossas cabeças, nada melhor do que crer numa criatura benigna capaz do mesmo, mas ao nosso favor. Deus é o raio que a harmonia do Universo fará cair do céu na cabeça do mau vizinho”.

“A classe média precisa de Deus” (disse-me Léa Rubião, dona de uma confecção de roupa infantil na Praça da Redentora), “por necessitar de força de arranque, de empuxo, de impulso de ascendência vertical rumo às coberturas do planeta. A classe média é a única que conta apenas consigo e depende apenas de si. Precisa de uma rede protetora por baixo dos trapézios econômicos entre os quais se joga; de um advogado que justifique seus ocasionais maus passos; de um treinador que a incentive aos berros rumo a marcas cada vez maiores; de um padrinho todo-poderoso que lhe sussurre ao ouvido: Vá, minha filha, enriqueça e deixe as teorias comigo”.

“Os ricos precisam de Deus” (disse-me Zse Zse Montanardi, viúva do ministro Junqueira), “para dar uma textura inconsútil às suas experiências sensoriais. Precisa de um diapasão cósmico harmonizando seus sonhos e seus prazeres, precisa de um Abstrato com inicial maiúscula. Não o vemos com pasmo e reverência, mas com paternalismo, e um confortável aconchego. O mundo material é nosso, e quem nos impede de com um estalo de dedos criar um mundo espiritual que também o seja? Ting-ling-ling! Tocamos uma campainha cósmica e Deus apareceu. Deus é um mordomo a quem delegamos o que não nos interessa”.

“Os intelectuais precisam de Deus” (disse-me Julio Weissenberg, entre baforadas de cachimbo, no recolhimento de sua biblioteca no condomínio Alephville) “porque precisam de desafios à sua altura. Que desafio maior do que provar o improvável, racionalizar o absurdo, dar nó em pingo dágua, algemar a cobra, extrair a raiz de menos um? Para o intelectual Deus é a soma entre a pedra filosofal, a quadratura do círculo, o moto perpétuo e a teoria do campo unificado. O simples fato de Deus não existir demonstrou a necessidade de inventá-lo para preencher sua própria ausência. Porque não seria justo passarmos milênios acumulando tanta pólvora e não termos um fogo capaz de consumi-la”.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

2287) Nem Deus nem a Ciência (7.7.2010)



(Raimundo Carrero)

O escritor Raimundo Carrero, que é um católico penitente, sofrido, dostoievskiano, declarou numa entrevista: “O homem moderno não acredita em Deus, e, mais gravemente, tem orgulho de dizer que não acredita em Deus. E não acredita na Ciência. Está fazendo as maiores loucuras com a Terra, e não acredita também no Espírito da Terra”. É uma boa maneira de colocar o problema da catástrofe ambiental generalizada que estamos começando a vivenciar, porque para alguns este estado de coisas se deve à Ciência, ou melhor, ao poder que a Ciência adquiriu no mundo, desbancando a Religião. Para mim, não é nada disso.

Fala-se que é a Ciência que está destruindo o mundo, e que o grande mal do Homem Moderno é o excesso de racionalidade, de lógica. Peço licença para discordar. Ciência, racionalidade e lógica tem certamente um papel importante em tudo quanto existe de ruim no mundo: as guerras, a exploração econômica de países pobres e de populações ignorantes, a destruição do meio ambiente e tudo o mais. Mas isso não é tudo, e na verdade não é nem um terço da história toda.

Lógica e racionalidade são atributos do neocórtex cerebral que o ser humano desenvolveu há pouco tempo (100 ou 200 mil anos). É a parte do cérebro capaz de pensamento abstrato, planejamento, linguagem, percepção. É o cientista dentro de nós, e é a parte mais recente do nosso cérebro. Só que ela não decide muita coisa: quem decide, quem nos mobiliza e nos faz agir, são estruturas mais profundas. Por exemplo: o que os cientistas chamam de cérebro mamífero (“sistema límbico”). O cérebro mamífero é típico das criaturas de sangue quente, que amamentam filhotes e cuidam deles com altruísmo e dedicação, e que se associam em hordas, bandos e manadas obedecendo a um “contrato social” instintivo. Esse contrato lhes diz que juntos estão mais seguros e mais felizes do que sozinhos; e que um gesto de generosidade feito hoje poderá ser retribuído amanhã. Sem isso, nenhum ser sobrevive, nenhuma espécie sobrevive, como aliás estamos a ponto de constatar, por nossa conta e risco.

No entanto, por dentro destes dois, existe o mais antigo. Todo ser humano tem um cérebro réptil, o mais antigo de todos, incrustado no centro do seu. Por trás dos males do mundo, ou pelo menos por trás desse trio que acabei de citar, o que existe, como fator propulsor, é um espírito predatório e destrutivo do ser humano. Um espírito egoísta e auto-centrado, que só reconhece a si próprio como objetivo e se comporta como se o mundo lhe pertencesse por direito. Eu diria que existe em muitas sociedades humanas uma espécie de Espírito Reptiliano, um espírito de sangue frio e olho de lince, permanentemente focado em tudo quanto possa contribuir para sua sobrevivência, mesmo que à custa da sobrevivência de quem quer que seja, inclusive dos seus semelhantes, do grupo a que pertence, do planeta que habita.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

2259) Como não crer em nada (4.6.2010)



A fé é um impulso emocional, não é um raciocínio. Ninguém chega a acreditar num Deus simplesmente porque leu as discussões, avaliou os argumentos e decidiu que um lado era mais convincente do que o outro, assim como ninguém se apaixona por uma mulher porque viu fotos, tirou medidas, aplicou questionário e ficou satisfeito com o que obteve. Escolhas superficiais, como a do time de futebol por que torcemos, geralmente se devem a um contexto social. Por que este time, e não outro? Ora, porque torcemos pelo time do nosso pai, dos nossos vizinhos mais influentes, dos nossos amigos mais próximos. Crescemos naquele ambiente e quando nos damos conta nossa escolha já foi feita pelo ambiente em que vivemos (e isto inclui também aqueles que, para se rebelar contra essa escolha à revelia, pulam para o lado oposto, como tática de auto-afirmação).

Stephen Roberts disse certa vez: “Eu proponho a idéia de que todos somos ateus, mas eu acredito em um Deus a menos do que você. Quando você entender por que motivo não crê nos inúmeros outros deuses além do seu, entenderá por que eu não creio nele também”. É fácil para um judeu não crer em Cristo, para um cristão não crer em Alá, e assim por diante. Para estes, os deuses que não são o seu são meras figuras, meras ilustrações de livro. Quando perguntam a Daniel Sottomayor, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), por que motivo ele não crê em Deus ele sempre responde algo como: “Eu não sinto necessidade de crer nos deuses, porque as respostas da Ciência me parecem satisfatórias”. Colocando a palavra no plural, ele nivela todas as religiões num mesmo limbo de indiferença. Não é que ele não creia no Deus dos cristãos, ele não crê em nenhum.

Já vi muitos crentes dizerem: “Quando não me perguntam o que é Deus, sei; quando me perguntam, não sei”. Isso ocorre com alguém que age baseado em conclusões posteriores, em processos mentais longamente elaborados. Quando lhes pedem para remontar ao primeiro desses processos, eles têm dificuldade, porque já não lidam mais com esse conceito inicial e sim com todos os conceitos éticos, morais, afetivos, etc. que surgiram como consequência daquele. A decisão de crer em Deus foi tomada há muito tempo e se enraizou, faz parte da personalidade, e consequentemente é algo difícil de explicar. Ao ter de responder essa pergunta, o crente se vê forçado a reconstituir processos mentais muito antigos, nos quais não pensava há tempos. É parecido com o que Cecília Meireles disse da liberdade (“Liberdade, essa palavra / que o sonho humano alimenta: / que não há ninguém que explique / e ninguém que não entenda!”). Passamos por situação semelhante quando temos filhos pequenos que nos fazem perguntas aparentemente bobas ou simples. Por que a água molha? Por que o céu é azul? Por que as coisas caem para baixo e não para cima? Por que existe Deus? Por que não existe Deus?

domingo, 27 de junho de 2010

2203) O destino indireto (31.3.2010)



O escritor Alberto Mussa conta que quando fazia um curso universitário de Matemática usou, ao pagar as cadeiras de Cálculo, um livro-texto diferente do que seus colegas usavam. O autor do livro era um russo, um tal de Piskounov ou coisa parecida, diz ele. Espalhou-se na faculdade a notícia de que ele estudava no livro de um autor russo (era a época da ditadura) e isso imediatamente lhe conquistou um enorme prestígio entre seus colegas comunistas. Um deles deu-lhe de presente um livro de poemas de Agostinho Neto, o presidente comunista de Angola – e a vida de Mussa mudou para sempre. Não que ele tivesse virado comunista, mas foi através do poeta angolano que ele descobriu a cultura e a literatura da África, sobre as quais viria a escrever numerosas obras.

Vilma Guimarães Rosa conta no livro Relembramentos que sua tia Maria Luiza, quando jovem, precisava dar mamadeira a um sobrinho, mas não tinha relógio e estava sozinha com o bebê em casa. Para perguntar as horas a alguém confiável, ligou para um número que viu na lista, e que imaginou pertencer a uma entidade religiosa. Não era: era uma pensão de estudantes. Um rapaz atendeu, os dois começaram uma conversa, depois um namoro, e acabaram casados pelo resto da vida.

São mil histórias; cada um de nós sabe várias. É a moça que acompanha a amiga a um estúdio, onde a amiga vai gravar alguma coisa, e alguém lhe pede que faça um teste ao microfone, ela canta e vira mais cantora que a amiga. É o rapaz que vai se matricular na Faculdade, vê uma moça bonita se matriculando noutro curso e, num impulso, matricula-se ali sem outro interesse, e vira um luminar daquela ciência.

Luís Buñuel nunca tinha pisado no México. Estava meio exilado e desempregado em Hollywood quando em 1946 recebeu um recado de uma amiga, no México, chamando-o para produzirem juntos uma peça. Don Luís foi para lá. No hotel, ficou sabendo que a peça que tinham em mente fora liberada para outro produtor. Buñuel ficou no México até morrer, e realizou ali 20 filmes.

É o que eu sempre digo: "Sorte não é sonhar avestruz, jogar avestruz, e dar avestruz. Sorte é sonhar avestruz, jogar camelo por engano, e dar camelo". Em tudo que tem interferências do Acaso a gente percebe o lado aleatório da coisa, mas percebe também (ou está ansioso para perceber) a presença de um enorme Dedo empurrando os personagenzinhos nesta direção, depois naquela... Luís Buñuel tem uma afirmativa terrível: “O Acaso não pode ser uma criação de Deus, já que ele é a negação de Deus. Estes dois termos são antinômicos, excluem-se um ao outro”. Escutaram, amigos, mil catedrais desabando? O contrário de Deus não é o Diabo, que é feito da mesma essência dele e no máximo encarna o seu pólo oposto. Deus é criação, controle, onisciência, determinismo, ordem; é isto, e tudo que combinar com isto. O contrário de Deus é o Acaso. Se pudermos um dia provar a existência do Acaso provaremos a inexistência de Deus.



domingo, 13 de junho de 2010

2145) Os 10 Mandamentos do Ateu (22.1.2010)



Recolhi na Internet esta série de mandamentos, atribuídos a Richard Dawkins em seu livro Deus, um Delírio. (Em: http://bit.ly/5X3GFM) Confesso que não fui à fonte checar a procedência. O livro de Dawkins nunca me atraiu, pelo tom desaforado com que ele tratou, em entrevistas, a idéia de Deus e as religiões em geral. Vá lá que o sujeito seja ateu, mas daí a insultar o Deus dos outros... Quê que tem que as pessoas acreditem em Jesus, em Jeová, em Allah, desde que isso lhes faça bem, e as faça querer o bem dos demais? Por mim, está ótimo. Eu julgo uma crença pelo comportamento dos seus crentes.

Para explicar a razão de ser do Universo, da Terra e da vida humana, acho que as Ciências têm dado explicações bastante satisfatórias, e não vejo necessidade de outras. O que o Cristianismo nos fornece de mais importante é um humanismo, um modo de ver e considerar as outras pessoas como se fossem parte de nós mesmos. É a velha parábola do sujeito que vem andando na estrada, vê um mendigo com a perna quebrada, bota-o nas costas e leva-o até a cidade mais próxima. Lá, alguém lhe pergunta: “Não é muito pesado?”, e ele diz, “Não, é meu irmão”. Era um mero mendigo anônimo; mas o viajante o considerava um irmão, um semelhante, um igual a si. Eu diria (se não parecesse meio herético) que esta noção de igualdade é uma visão científica do ser humano. Somos todos iguais, biológica e socialmente, e temos o dever moral de ajudar aos que precisam.

Com pequenas ressalvas, é esse o espírito científico-cristão que pode ajudar as pessoas a tomarem decisões difíceis. E grande parte dele está contido no decálogo abaixo, atribuído a Dawkins:

“1) Não faça aos outros o que não quer que façam com você. 2) Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal. 3) Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito. 4) Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade. 5) Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento. 6) Sempre tente aprender algo de novo. 7) Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas idéias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles. 8) Jamais se autocensure ou fuja da dissidência; sempre respeite o direito dos outros de discordar de você. 9) Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros. 10) Questione tudo.”

Eu diria que os cinco primeiros são mandamentos cristãos e humanistas, e os cinco últimos são mandamentos científicos, de natureza racionalista e intelectual (no melhor sentido destas palavras). Problema é achar um sujeito capaz de colocar tudo isto como prática de vida, e não como assunto de colunas de jornal. Mas não custa nada tentar.

sábado, 24 de abril de 2010

1951) A minha e a sua religião (10.6.2009)



(H. L. Mencken)

O que fazer se um amigo nosso acredita, sincera e profundamente, que o planeta Terra repousa nas costas de uma tartaruga gigante, que por sua vez está sobre outra tartaruga maior ainda, e esta sobre outra ainda maior, e assim por diante, até o infinito? Claro que ninguém deixa barato uma crença como esta. A gente pigarreia, passa a mão nos cabelos, faz uma tentativa: “Olha, Fulano, a hipótese é de fato fascinante, mas você não acha que haveria, digamos, uma maneira mais simples de explicar as coisas, uma teoria com menos jeitão de réptil?...” Por mais que a gente tenha boa vontade, às vezes não adianta. Depois de anos de discussão, a intensidade da crença do nosso amigo está na proporção inversa à verossimilhança dos seus argumentos. Nesses casos a gente diz: “Tudo bem. Vamos falar de outra coisa. Que time você torce?...”

Não estaria fazendo mais do que levar em conta a frase famosa do escritor H. L. Mencken, o qual disse certa vez: “Temos que respeitar a religião de outro indivíduo, mas apenas no mesmo sentido em que respeitamos sua teoria de que sua esposa é bonita e seus filhos são inteligentes”. Não conheço comparação melhor. Religião pertence a esse mesmo território fluido e subjetivo. Não estou aqui questionando a existência de Deus, dos orixás nem das tartarugas. Refiro-me à experiência íntima de cada um, ao sentimento que ele associa à palavras “religião”, “fé”, etc. Admitindo a existência de Deus, é sensato supor que a experiência de Deus vivida por cada um de nós, mesmo a revelação do Deus da Bíblia a cada um dos seus profetas, é uma experiência única. Em seu conjunto, são todas irredutíveis entre si, incomparáveis. Imaginar de outra maneira seria igualar cada um desses profetas ao próprio Deus.

Um pouco dessa convicção subsiste na expressão surrada de que “religião é coisa de foro íntimo”. Esse foro íntimo é a alma privada de cada um, que não se comunica com as almas dos outros mas pode – admitindo-se a premissa da existência de Deus – ser acessada pela Divindade. Deus + São Pedro é uma coisa; Deus + São Paulo é outra. Cada um de nós é um grãozinho de menos-nada, mas, somado a Deus, faz uma diferençazinha que nos resgata do zero.

Dessa maneira cada um de nós tem uma experiência do Divino que se parece consigo mesmo. Revertendo a frase clássica, podemos dizer que cada homem faz o seu Deus à sua própria imagem e semelhança. Não um Deus “parecido comigo”, mas um Deus composto das coisas que sei e que sinto, das coisas que sou capaz de imaginar e de pressentir, que sou capaz de entender , de reverenciar. O Deus de Santo Agostinho e o de São Tomás de Aquino era certamente um Deus intelectual, filosofante, argumentador. O de São Francisco de Assis era cheio de emoção, de despojamento e da alegria das pequenas coisas. Todo Deus é uma espécie de espelho. Teu Deus é aquele que te define, que te cria, que determina quem és.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

1858) Pare de se preocupar (21.2.2009)



Rola na Europa uma campanha de ateus e agnósticos que coloca posters nos ônibus urbanos dizendo: “Provavelmente não existe Deus, portanto pare de se preocupar, e aproveite a vida”. A finalidade da campanha não é reduzir as preocupações dos cidadãos comuns, e sim alfinetar os grupos fundamentalistas, cujos membros caem ao chão, ciscando e espumando, toda vez que avistam uma frase desse tipo. Com todo respeito, é o mesmo que mostrar cruz a vampiro.

Eu pertenço à ala direita dos AA (sou agnóstico) e entendo a intenção da campanha, inclusive simpatizo com o bom humor e a leveza da mensagem, muito diferente das diatribes furiosas que um dos seus patrocinadores, o cientista Richard Dawkins, costuma produzir em seus próprios livros. A campanha não chama os crentes-em-Deus de imbecis nem de fanáticos, apenas diz: “Calma, esse assunto não é uma prioridade, vá cuidar de coisas mais urgentes”. É claro, no entanto, que uma pessoa que apoiou toda sua vida mental no conceito da existência de Deus, e por consequência na existência de sua própria alma imortal, não vai admitir que os aviões do ateísmo derrubem duas torres tão imponentes, das quais depende sua aposta na vida eterna.

Mais do que o conteúdo secular da proposta, contudo, o que me agradou foi o jeito de dizer as coisas, algo muito importante quando se mexe com a crença alheia. Não podemos dizer “você é um idiota por acreditar nisto” (ou “por duvidar disto”). Melhor dizer assim: vá se ocupar com outras coisas. Deus existe? Então deixe Deus quieto no canto dele e vá fazer coisas que sejam úteis para alguém mais. Eu nada tenho contra a fé religiosa, mas vejo com certo desânimo as pessoas para quem acreditar numa Divindade significa passar o dia inteiro entoando loas, louvações e elogios à Divindade. Grande parte da atividade religiosa que vejo por aí consiste apenas em ficar salmodiando: “Você é grande, gigantesco, perfeito, onipotente, etc.” É isso que uma Divindade espera ouvir de seres dotados de alma imortal e de livre arbítrio?

Todas as religiões são humanas, demasiado humanas. O que têm de transcendente ou de epifânico é uma pepita no meio de um cascalho de rituais repetidos de forma mecânica. Quando chega um grupo de pessoas e diz “pare de se preocupar e aproveite a vida” na realidade está dizendo, “pare de tratar Deus como um imperador mimado e vá fazer as coisas que ele espera que você faça”. Vá alimentar os famintos, agasalhar os que têm frio, arranjar terra para quem quer trabalhar, indicar um caminho para quem está perdido no mundo.

Se não me engano há um trecho nos Evangelhos em que Cristo diz: “O que fizerdes por eles, é por mim que estareis fazendo”. Se ele disse isso, vai ver que estava dizendo algo como: “Deus existe e sou eu. Portanto, pare de se preocupar e aproveite a vida”. (Claro que hoje em dia “aproveitar a vida” é beber, cair e levantar, mas ninguém pode botar a culpa em Jesus Cristo.)

domingo, 14 de março de 2010

1789) O céu dos agnósticos (3.12.2008)



(Blaise Pascal)

Ah, a imensa solidão do agnóstico! No centro da esfera escura e oca que é seu mundo, ele contempla à distância duas luminosidades: a luminosa certeza dos Crentes, e a luminosa certeza dos Ateus. Essas luzes (que sejam duas, que seja uma só, tanto lhe faz) não existem para ele. Ele habita o centro da treva do não-saber, do não-acreditar, e talvez os Iluminados, que o percebem de longe, dele se compadeçam. “Coitado,” pensam, “vive ali, no escuro, no frio, sem certeza de nada... Por que não lhe mandamos uma marmita, uma garrafa térmica com café, uma manta, um colchonete?...”

Obrigado, queridos amigos! Não preciso, não precisamos. Sei que “o silêncio eternal destes espaços infinitos vos amedronta”, como disse Pascal; mas a mim ele não passa do silêncio acolhedor e aconchegante que precede o sono e nos sossega as pálpebras. O ser humano é um bípede pensante, e mais do que isto: um bípede que se agita, que se socializa, que precisa desesperadamente acreditar que os outros bípedes à sua volta são reais, e daí é só um passo silogístico para acreditar na existência de um Bípede Supremo que criou o universo bipedal e o administra. Assim se criam as religiões. Tudo nelas é imagem e semelhança.

Suponhamos (por obra de argumento) que não haja um Deus. O que somos, então? Acasos biológicos que se organizaram em sociedades e criaram idiomas. É uma resposta paupérrima, insatisfatória. Eu próprio não a ouço com bons ouvidos. Suponhamos (caso contrário) que haja um Deus. Tudo que conhecemos, por conseguinte, é obra sua. Cada spin de cada elétron em cada nanossegundo é ordenado pessoalmente por ele; cada ascensão e queda de Império, cada formação de Sistema Solar, cada Big Bang. Vem daí minha questão: por que nos preocuparmos, então? Se Deus é Onisciente, Onipresente e Onipotente, é o mesmo que não existir, visto que qualquer alternativa que nos ocorra já lhe ocorreu a ele, e qualquer decisão que tomemos já foi tomada por ele desde um trilhão de Eternos Retornos atrás. É como, amigos, pegar os dois termos de uma equação e multiplicar cada um por um bilhão de bilhões de bilhões. Dá no mesmo.

Pascal (lá vem ele de novo) ponderou com argúcia sobre a conveniência de crer. Disse ele que é melhor crer do que não crer, porque se estivermos errados e Deus não existir, então nada se perde; mas se não acreditarmos em Deus e ele existir, então toda a Eternidade estará perdida para nós. Eu proponho o seguinte a Pascal: já que Deus é Onisciente (e conhece inclusive o futuro, está olhando agora o que pensarei e farei daqui a dez anos) ignoremo-lo. Ajamos como se ele não existisse, mas existisse, entre os seres humanos, um pacto recíproco de ajuda, respeito e equilíbrio. Ajamos como se o Universo fosse uma treva sem Deus, e coubesse aos homens acender nessa caverna uma luz. Que Deus (que Deus antropomorficamente bom e ético) condenaria uma humanidade tão agnóstica, mas tão mais humana do que esta?

sexta-feira, 12 de março de 2010

1782) Dawkins versus Harry Potter (25.11.2008)


O professor Richard Dawkins é um cara que gosta de pegar briga pesada. Recentemente escreveu um livro contra Deus (A Ilusão de Deus). Agora, não satisfeito, foi mais longe e resolveu enfrentar Harry Potter. 

Numa entrevista recente, Dawkins protestou contra o que ele acredita serem hábitos nocivos que os livros de J. K. Rowling estão disseminando entre os jovens, os quais, segundo ele, “estão sendo criados no hábito de acreditar em feiticeiros e encantamentos”. “O livro que vou escrever no ano que vem,” disse Dawkins, “será um livro destinado às crianças, mostrando-lhes como refletir sobre o mundo, e mostrando o contraste entre o pensamento científico e o pensamento mítico”. 

Se for apenas isto, estou de acordo, porque pensamento científico e pensamento mítico são duas coisas muito diferentes, e que precisam ser identificadas com clareza. O nó da questão, no entanto, é que Dawkins provavelmente vai dizer no seu livro que o pensamento científico é o único que está certo, e o pensamento mítico está errado. É justamente nessa bifurcação que eu divirjo e discrepo do nobre pensador. 

O pensamento científico nos serve para entender o mundo material que nos cerca. As ciências que cultivamos deveriam ser chamadas de Ciências da Matéria, porque afinal não é de outra coisa que tratam. 

O pensamento mítico, por outro lado, trata das Ciências da Mente, um domínio totalmente diverso. Elas funcionam de outro jeito, e manipulam outros parâmetros. Dawkins talvez seja (espero não estar sendo injusto com o professor) um desses caras para quem a palavra grega “mito” significa “mentira”, e este simples fato torna desnecessário qualquer estudo a respeito. Se é mentira não é verdade, e se não é verdade, para que perder tempo com isto?! 

O professor ficaria surpreso se visse que grande parte dos garotos que lêem Harry Potter e suas aventuras feiticeiras também lêem autores de ficção científica como Isaac Asimov. As duas mentalidades não apenas podem coexistir, como a literatura é justamente o melhor espaço para essa coexistência. 

A literatura imaginativa desperta a curiosidade de garotos e garotas a respeito do mundo da matéria, do mundo da mente, do mundo dos átomos, do mundo da mitologia. Garotos e garotas inteligentes lêem com o mesmo prazer livros sobre feitiçaria e sobre espaçonaves, livros sobre cavaleiros medievais e sobre robôs. Para eles, tudo pertence ao mundo da imaginação, pertence às fronteiras da realidade. Se umas coisas funcionam na vida prática e outras não, qual é o problema? É de literatura e de imaginação que estamos falando. 

Dawkins me parece às vezes um Inquisidor ao contrário, um sujeito que está numa cruzada ateísta para banir a religião do mundo mesmo que seja à base de fogueira e Santo Ofício. Um procedimento nada científico, professor. Nada científico. Me dá às vezes a impressão de que ele sofreu algum tipo de enfeitiçamento, mas, cala-te boca.





sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

1644) A voz de Deus (19.6.2008)




Numa história indiana, dois vizinhos discutiam por um lote de frutas. A árvore ficava no terreno de um deles, mas seus ramos se projetavam por cima da cerca, de modo que as frutas caíam no terreno ao lado. O primeiro alegava ser dono do lugar de onde vinham as frutas; o outro alegava ser dono do lugar onde elas brotavam e caíam. 

O juiz lhes perguntou: “Querem uma decisão tomada pelos homens, ou por Deus?” Os dois concordaram que a decisão de Deus teria mais credibilidade. O juiz então dividiu as frutas em dois lotes, tendo num deles apenas uma, e no outro todo o restante. 

E sorteou os lotes entre os dois vizinhos.

Este episódio é um entre milhares em que um tribunal humano confessa sua dificuldade em tomar uma decisão justa, e recorre a um sorteio. 

O sorteio surge da noção de que no mundo não existe o Acaso, pois mesmo os acontecimentos mais banais são determinados pela vontade de Deus. O que chamamos de Sorte ou Azar pode nos parecer inexplicável, mas faz parte dos planos divinos. Foi uma decisão dele. 

Não adianta discutir os méritos do resultado, pois, como todas as religiões repisam desde que o mundo é mundo, “os desígnios de Deus são inescrutáveis”.

Talvez por isto os jogos de azar nos despertem uma fascinação tão grande. O baralho, a roleta, o bingo, o bicho, a loteria, tudo isto são cerimônias que concebemos para, lidando com um conjunto nítido e finito de elementos, podermos ficar sabendo com certeza absoluta o que foi que Deus quis que acontecesse, mesmo que jamais percebamos o porquê.

A coisa se complica quando chega no universo tribunalício. Li em num conto de Mark Twain que os esquimós tinham uma maneira prática de saber se um sujeito era culpado ou inocente do crime que lhe atribuíam. Levavam-no para um rio de águas revoltas, e atiravam-no lá de cima. Se ele sobrevivesse, era culpado; se morresse, era inocente. 

Há um vislumbrezinho de lógica nesse sistema – se o sujeito escapava era porque era esperto, e todo sujeito esperto está a um passo de ser desonesto, ou seja, esperto às custas dos outros. Mas convenhamos que para um indivíduo inocente era um tribunal do tipo “cara eu ganho, coroa você perde”.

Quanto ao cara-ou-coroa para conhecer a Decisão Divina, há um episódio curioso ocorrido no Maracanã lá pelos anos 1950, quando o Fluminense e outro clube disputavam uma decisão. Deu empate no jogo e na prorrogação. Não se usava ainda a disputa de pênaltis, e o título seria decidido no cara-ou-coroa. 

O juiz chamou os dois times ao centro do campo, rodeados por radialistas e fotógrafos. Antes da disputa, Pinheiro, capitão do Fluminense, chamou o time de lado e cochichou algumas instruções. 

O juiz jogou a moeda para o alto, estendeu a palma da mão, mas, antes que a apanhasse, os jogadores do Fluminense esbarraram nele, e se espalharam berrando, agitando os braços, abraçando-se, e logo os foguetões pipocavam e o pó de arroz subia. Até hoje ninguém soube qual tinha sido a vontade de Deus.






sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

1587) A Potestade (13.4.2008)





(foto: Man Ray)

Sonhei que estava flutuando no espaço sideral, cercado de constelações, de portentos, de trevas fulgurantes. 

A Potestade rodeou-me com sua Presença, e dirigiu-se a mim: 

“Não crês na minha existência”, disse-me ela, e cada célula de meu corpo reverberou como um tímpano. “Por isso prefiro dirigir-me à totalidade do teu Ser, que só emerge quando adormece o cão de guarda que te sustenta vida afora, e ao qual chamas de Eu, ou Consciência”. 

Eu estava aterrado e sem palavras; só me restava escutar. Sentia-me esvoaçar em todas as direções, como uma pluma no epicentro de um tornado. 

“Admiro tua fidelidade a ti próprio,” prosseguiu. “São muitos os que não crêem, mas dizem crer por covardia, por conformismo, ou por imitação. Mais importante que a fé é a verdade. Mais importante do que crer em mim é ter a coragem de olhar dentro de si mesmo e dizer sem rebuços o que vê”.

O que via eu? Via galáxias coruscantes, aglomerados densos de matéria escura, estrelas que faiscavam como os grãos de areia no interior de um tornado. E aquela voz, que prosseguiu: 

“Deves estar te perguntando – por que eu? Por que logo eu fui chamado para este Contato, esta Revelação? E te responderei usando a linguagem do teu tempo e do teu povo. O Universo está contido em ti. Em teu corpo e tua alma estão gravados de forma indelével todas as informações necessárias para reconstruir tudo isto que vês à tua volta. Fosse este Universo destruído, bastaria que tu sobrevivesses para que toda a história dele pudesse ser reconstituída, a partir das leis que governam teus átomos e tuas células vivas. O Universo é auto-reflexo: está todo gravado em cada uma das partes vivas que contém.”  

Fez uma pausa. 

“Isto vale não só para ti, é claro, mas para qualquer outra criatura. Se te escolhi foi por mero Acaso. Quero te mostrar algo”.

Fez um gesto com a mão, e a esse gesto descerrou-se uma Cortina. Mas como posso dizer “um gesto”, se sua presença ocupava toda a face interna da esfera de espaço que me continha, como falar em mão se sua mera impressão digital era composta pelo turbilhão de galáxias que ali revoluteavam? 

Mas a esse gesto uma Dimensão abriu-se e vi ali justapostos todos os tempos, todos os passados e futuros, todos os fios entrelaçados dos mundos possíveis. 

“O mundo em que vives passa por uma crise que pode destruí-lo”, prosseguiu a Voz. “Falo do teu planeta, e do teu país. Quando crises assim se anunciam, escolho um habitante para me informar sobre a necessidade desse mundo. E é isso que te pergunto: Vale a pena que esse planeta e esse país existam? Vale a pena que prossigam? Se achares que não, desaparecerás com eles. Mas se achares que sim, desaparecerás só tu. Teu nome será obliterado, teus atos esquecidos, teus descendentes se estiolarão. Teu país prosseguirá, e desaparecerás apenas tu. Não tens que me responder agora. Vai – desperta!” 

Nesse instante o celular tocou na mesa de cabeceira. Atendi, e era engano.





sábado, 9 de janeiro de 2010

1499) Os triângulos sagrados (2.1.2008)



Dentro do misticismo cristão, há dois conjuntos de símbolos sagrados que sempre chamaram minha atenção pela sua aparente simetria, mas uma simetria que num segundo exame se mostrava imprecisa ou incompleta. Refiro-me aos dois triângulos formados pela Santíssima Trindade e pela Sagrada Família. Ambos sugerem o triângulo familiar básico (pai, mãe, filho), mas em ambos falta ou sobra um elemento. Por quê?

Vejamos a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e – no lugar da mãe – o Espírito Santo. Esta última entidade é para os não-cristãos a mais enigmática, a mais difícil de visualizar. No triângulo antropológico da família, ele é uma entidade misteriosa cuja função mais aparente é ocupar o lugar da mãe. Alguns analistas (especialmente da ala feminista) vêem nisso um sinal da impossibilidade da cultura judaica de colocar a mulher numa posição de destaque. Uma cultura patriarcal como a do Velho Testamento talvez ficasse pouco à vontade para definir Deus como “o Pai, a Mãe e o Filho”.

Comparada à Trindade, a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) reproduz a estrutura real de uma família humana. Sua incompletude só se revela quando lembramos que, de acordo com os Evangelhos, coube a São José apenas o papel de pai adotivo de Cristo, sendo que a paternidade real é atribuída justamente ao Espírito Santo, emanação da Divindade.

Ao que parece, o Espírito Santo é uma metáfora para algo que a religião se sentia desconfortável em admitir: a relação fecundante que se dá entre o homem e a mulher. Se a Santíssima Trindade fosse composta por “o Pai, o Filho e a Mãe” isto implicaria na presença de uma relação sexual no cerne mesmo da Divindade. Isto foi evitado – talvez por preconceitos de ordem moral, talvez para evitar que a Trindade, uma entidade puramente espiritual, fosse contaminada pela sugestão de um processo reprodutivo típico dos seres de carne e osso.

No caso da Sagrada Família, o processo reprodutivo era indispensável, de vez que a intenção era fazer de Jesus Cristo um ser humano de origem divina mas de carne e osso. Desta vez, em vez de se suprimir a Mãe suprimiu-se o Pai, e mais uma vez suprimiu-se com isto a necessidade da relação sexual. O Espírito Santo encarregou-se da paternidade. Ele não está diretamente presente na Sagrada Família, mas está subentendido na figura de São José, pois cumpriu a função que teoricamente seria deste.

O Divino Espírito Santo é uma essência misteriosa cuja realidade é reconhecida e louvada pela cultura que produziu esses triângulos sagrados. É uma entidade que produz êxtase, iluminação, transcendência; que é capaz de iluminar as pessoas com um fogo sagrado e de fazê-las falar em línguas diferentes. Ele é a Esposa na Santíssima Trindade, e é o Marido na Sagrada Família. É a União Mística do homem e da mulher, o símbolo insolúvel mas evidente que conecta os triângulos do Espírito e da Matéria. Quem já o experimentou não precisa de provas de sua existência.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

1331) A existência de Deus (19.6.2007)


Woody Allen disse certa vez, num desabafo metafísico: “Se ao menos Deus me desse uma prova inequívoca de sua existência! Como por exemplo fazer surgir uma conta em meu nome num banco suíço!” Este argumento lembra as queixas dos materialistas em geral, que querem provas da existência de Deus – não qualquer prova, mas uma prova dentro dos seus próprios critérios. Uma vez um cientista queixou-se a um padre que a Igreja era incapaz de provar cientificamente a existência de Deus, e o padre retrucou; “Meu amigo, nós já provamos a existência dele teologicamente. Quem não está conseguindo prová-la científicamente é a Ciência, mas aí foge à nossa alçada”.

A verdade é que o conhecimento religioso se dá através da fé, a qual é uma atitude emocional, e não o resultado de uma cadeia de raciocínios. A existência de Deus não pode ser demonstrada cientificamente, pela própria natureza do conhecimento científico. A Ciência dos últimos quinhentos anos foi se especializando cada vez mais no estudo da matéria e com isto foi se afastando cada vez mais da possibilidade de provar a existência de Deus. Foi mudando de jurisdição, por assim dizer. A Ciência prova aquilo que consegue demonstrar em termos práticos, aquilo que consegue manter sob controle experimental.

Um cientista não conseguiria provar a existência de Deus nem mesmo se esbarrasse com ele na calçada. É como naquele famoso apólogo sobre um sujeito que, durante uma enchente, ficou rezando em casa, pedindo a Deus que viesse salvá-lo. A água subiu muito, e ele subiu no teto da casa, enquanto o aguaceiro aumentava. Veio um cara de barco para salvá-lo, ele recusou e continuou rezando. Depois veio uma canoa, depois veio um helicóptero, e ele recusava tudo, continuava rezando e pedindo socorro a Deus. Aí morreu afogado. Ao chegar no Céu, foi direto reclamar a Deus: “Mas, Senhor, isso é coisa que se faça? Rezei tanto e o senhor não foi me salvar!” E Deus: “Mas rapaz, eu mandei um barco, mandei uma canoa, mandei até helicóptero... Tu queria o quê?!” Vejam bem a alta octanagem filosófica dessa história. Ela não prova que Deus existe. Ela nos lembra que outras coisas (canoas, helicópteros, etc.) existem de fato. Considerá-las ou não como prova da existência de uma instância superior, por trás delas, é decisão nossa.

Melhor acreditar no mundo, amigos. Esse ninguém nega. É como dizia Ariano Suassuna, comentando a filosofia alemã: “Kant dizia que nós não podemos afirmar a realidade exterior, que aquele jasmineiro é uma coisa para mim, outra para você, outra para ele. Mais do que isso, ele acreditava que eu nem sequer posso provar que a imagem que eu tenho corresponde ao real. É muito fácil você discutir se a imagem daquele jasmineiro corresponde ou não ao real. O jasmineiro está quieto, no canto dele. Mas eu garanto que se fosse uma onça que entrasse aqui, nem Kant iria perguntar se por acaso se tratava de uma correspondência com o real”.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

1218) A ética dos descrentes (7.2.2007)




O que pensadores religiosos de hoje questionam (como no livro Em que crêem os que não crêem, de Umberto Eco e Carlo Martini) é a dificuldade de estabelecer valores universais fundados na mera experiência humana. 

Ciência e Religião têm, entre tantas coisas em comum, a busca pelo Absoluto. A exigência de um ponto de referência inquestionável, que servisse de referência para todos os outros valores, foi, ali pelo século 17, um paradigma comum à ciência e à religião. 

Monoteísmo e física newtoniana têm um perfil muito semelhante. Existe um Centro. Existe um valor fixo, arbitrariamente estabelecido pela fé científica ou pela fé religiosa.

Quando Einstein estilhaçou o conceito físico do tempo absoluto, espaço absoluto, e todo o resto, criou um vácuo a mais entre ciência e religião. 

A física de hoje não reconhece o Absoluto, reconhece apenas “constantes”, certas grandezas inexplicáveis e inevitáveis na Natureza (a velocidade da luz, a massa do elétron, etc.). 

Essas constantes, cujo valor matemático precisa sempre ser levado em conta, são as vigas fundamentais da Natureza; todo o resto muda, elas não. São o que a Ciência de hoje tem de mais parecido com o antigo senso do Absoluto.

Ecos da mentalidade monoteísta ainda permanecem. A Teoria do Big Bang, segundo a qual o Universo estava todo concentrado num ponto, o qual explodiu, dando origem às atuais galáxias, exprime essa necessidade básica do pensamento monoteísta: a de que a Realidade tem um Centro, e pode ser visualizada como um círculo ou uma esfera. 

Quem acredita no Absoluto tem, quase sempre, uma visão geométrica das coisas. Seu Absoluto geralmente é regido por algum tipo de simetria. Círculo e esfera são formas básicas, intuitivamente atrativas; mas nada nos garante que o Universo não tem a forma, por exemplo, de uma folha de papel pautado ou de uma ampulheta.

Cosmologia à parte, esta necessidade de um Centro se dá também no plano moral. Mesmo quando julgamos as ações humanas tendo em conta que “cada caso é um caso”, essas avaliações não podem partir do zero. 

Os pensadores laicos, que não crêem no Absoluto metafísico, tentam colocar em seu lugar algumas constantes humanas de comportamento e de moral, às quais possam se apegar para elaborar leis e códigos. 

Não se pode reinventar a Ética, a Moral e o Direito a cada novo problema que surge, mas podem-se empregar constantes que não sejam mutuamente contraditórias. Verdades que se apóiam como aqueles muros onde as pedras não são unidas por argamassa, mas se fixam umas às outras devido ao peso de cada uma.

É possível criar uma Moral sem Deus, assim como já foi possível ter um Deus e atribuir-lhe uma Moral sanguinária ou colonialista (como no tempo em que, para a Igreja, os índios da América não tinham alma, e podiam ser mortos impunemente). 

As “constantes” morais dos não-cristãos refletem a sociedade que as cria. O teste de sua validade é o que acontece com a sociedade que as adota.