O primeiro filme narra o encontro entre o norte-americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Céline (Julie Delpy). Os dois têm vinte e poucos anos, e se conhecem num trem. Resolvem passar uma noite inteira caminhando por Viena até viajarem no dia seguinte, ela de volta a Paris, ele de volta aos Estados Unidos. Marcam um novo encontro para dali a seis meses.
O segundo filme mostra, nove anos depois, Jesse em Paris, autografando o livro em que fez uma auto-ficção daquela noite vienense, e que virou best-seller. Céline aparece de repente. Os dois voltam a se conectar, passam o dia caminhando por Paris e acabam no apartamento dela.
O terceiro filme mostra os dois, nove anos depois do segundo, vivendo juntos e com duas filhas pequenas, que vêm se somar ao filho adolescente que Jesse tem de um casamento anterior. Continuam juntos, mas a relação é tensa.
O que me convenceu a vê-los
foi a filmografia de Linklater, de quem admiro muito Waking Life (2001), A Scanner
Darkly (2005), Blue Moon (2025) e
Nouvelle Vague (2025). Não vi os
demais.
Mais do que uma historiazinha “boy meets girl”, os filmes de
Linklater pertencem àquele gênero tão difícil que alguém já definiu como
“filmes de papo-cabeça do começo ao fim”. São papos-cabeça porque os
personagens não conversam apenas conversa-de-namoro, eles falam sobre a vida, o
universo e tudo o mais, mesmo envolvidos desde o primeiro instante numa
situação de interesse erótico imediato e cumplicidade afetiva sendo construída
aos poucos.
O primeiro filme me pareceu o mais bem construído, como filme em
si, filme que se pretendia completo (tanto é assim que a continuação só veio
nove anos depois). Os dois simpatizam um com o outro no trem, ele convence a
moça a descer com ele em Viena, se bem que ela não precisa de muito esforço
para ser convencida.
E eles andam numa Viena colorida e acolhedora, que não tem nada
a ver com aquele labirinto gótico de O
Terceiro Homem (Carol Reed, 1949).
Há vários pequenos episódios movimentando esta típica “história onde nada acontece”. Num café, uma cigana pede para ler a mão da moça. Na beira do rio, um poeta de rua lhes dedica um poema. Numa loja de discos, eles entram numa cabine para escutar um álbum, e ficam observando um ao outro disfarçadamente, com curiosidade e atração. Numa ponte, têm um diálogo divertido com dois atores de uma peça absurdista. Num bar, fingem (teatralmente) telefonar aos amigos para comentar a pessoa incrível que acabam de conhecer.
Todos estes pequenos momentos (como aliás a trilogia inteira) se baseiam num tripé simplíssimo de recursos.
E outra coisa que só percebi a posteriori, checando as informações de filmagem e algumas resenhas: Antes do Pôr do Sol é praticamente um filme em tempo real, um filme que durante uma hora e 20 descreve o que acontece a estes personagens durante uma hora e 20 de suas vidas. Não é uma tomada contínua, claro, mas os pedaços (foram 15 dias de filmagem) são colados para dar essa impressão.
Depois de Viena e Paris, os dois estão agora na Grécia, passando férias com amigos, levando as crianças. E a carruagem está suspeitamente cor-de-abóbora.
Mais uma vez, o que sustenta o filme é a simplicidade do registro (câmera + montagem), a segurança dos atores, e o roteiro, escrito a seis mãos com o diretor.
A trilogia Before acompanha um casal dos 23 aos 41 anos de idade, e não apenas um casal de personagens. O casal de atores/roteiristas também viveu esses dezoito anos.



