No Rio de Janeiro, quando se quer falar em grande quantidade de algo se diz que tem coisa pra caramba, pra dedéu, a dar com um pau...
Certa vez, Martins Preto chegou à Fazenda Bonfim, onde seu filho, Pedro Martins, era o vaqueiro de maior confiança, procurou o proprietário, Antônio Nunes, e disse:-- Seu Antônio, eu estou muito aperreado porque Joaquim Aragão quer tomar minha terrinha e eu não sei o que vou fazer para sustentar o magote de moleque que eu tenho.(Pedro Nunes Filho, Guerreiro Togado)
“Ruma” cumpre um papel bem semelhante, e palpita-me que esse substantivo tenha alguma relação com o verbo “arrumar”, que talvez signifique, por certo ponto de vista, “enfileirar as várias rumas de coisas”... algo assim. Poeta popular gosta muito de usar esse termo:
Galinha põe todo diainvez de ovos, é capão,o trigo invez de sementebota cachadas de pão,manteiga lá, cai das nuvensfazendo ruma no chão.(Manoel Camilo dos Santos, Viagem a São Saruê)Quando o chão está molhadoaparecem coisas boas:se levantam cogumelosque as capas parecem broas;os sapos chocam de ruma,bordam com cachos de espumaos cenários das lagoas.(Sebastião Dias, cit. em De Repente, Cantoria, de Geraldo Amâncio e Vanderley Pereira)
Como toda linguagem oral, essas expressões nordestinenses dependem muitas vezes de um complemento visual ou sonoro. Nisso os nordestinos se aproximam dos italianos, que quando conversam parecem estar fazendo tradução simultânea em Libras, o tempo inteiro. Nordestino também gesticula muito, como por exemplo ao dizer “está assim de gente”.
Quanto mais eles andavammenos saíam do cantoporque o chão dessa ponteavançava o mesmo tanto,e eles não prosseguiampela força desse encanto.(Braulio Tavares, A Pedra do Meio Dia, ou Artur e Isadora)


