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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

5259) Mais Herodes do que Herodes (28.10.2026)



Todo mundo lembra do nome de Herodes por causa do famoso episódio bíblico da “Matança dos Inocentes”. Herodes foi rei da Judéia, preposto do Império Romano, e quando Jesus nasceu ele ficou sabendo do boato de que o Messias dos judeus havia nascido. Sem ter como saber onde, ou filho de quem, ele mandou matar todos os recém-nascidos da região em torno de Belém. 
 
Spoiler: Jesus escapou. 
 
A newsletter A Word A Day, que assino há muitos anos, e aconselho com entusiasmo (é gratuita: https://wordsmith.org/ ), trouxe hoje um verbete sobre esse transtornado vilão da Antiguidade, em torno de quem ocorrem algumas curiosidades linguísticas. 


Pela descrição do mestre Anu Garg (que dirige a AWAD), Herodes era um paranóico.  Tinha medo de todo mundo que pudesse arrancar o poder de suas mãos.  Mandou matar sua esposa favorita, Mariamne, e três dos seus filhos. Como eram ferozes as disputas políticas da Antiguidade! 
 
Conta-se que o imperador romano Augusto fazia com ele um trocadilho maldoso: “Lá na casa de Herodes, ser um porco é mais seguro do que ser filho dele.”  O trocadilho se baseia no fato de que Herodes professava a fé judaica (que proíbe carne de porco), e que em grego antigo “porco” é huis, e “filho” é huios. 
 
(Digressão: há muitos soberanos com este nome; este a que me refiro, “Herodes o Grande”, não deve ser confundido, por exemplo, com seu filho “Herodes Antipas”, personagem da história da dança de Salomé e da cabeça de São João Batista.) 
 
A Matança dos Inocentes, pelo que diz a newsletter, é um episódio mencionado no Evangelho Segundo São Mateus, mas que não tem (ao contrário de muitos episódios bíblicos) confirmação histórica independente. 
 
Seja histórico, seja simbólico, o episódio ficou incrustado na nossa memória cultural. Nove entre dez pessoas, ouvindo o nome desse potentado, pensarão: “Ah, sim, Herodes, o rei que mandou matar os bebês”. 


(Estátua de Harry Potter, em Leicester Square)

 
AWAD cita, usando o adjetivo correspondente, um comentário sobre a série Harry Potter:
 
Quando recém-nascido, Harry sobreviveu ao ataque herodiano de Voldemort, para tornar-se depois “o escolhido”. (Bill Wylie-Kelermann, trad. BT)
 
Ele lembra também que o adjetivo (em inglês pelo menos; não lembro desse uso em nossa língua) também significa ”pomposo, pretensioso, bombástico”, em alusão ao modo como o personagem Herodes se comportava nos dramas religiosos medievais. 
 
E dá como exemplo essa descrição de um personagem antipático: 
 
“Ele não passa de um estuprador-em-grupo arrotando sua auto-importância, e com uma insistência herodiana em dizer que ninguém é mais importante do que ele.” (Daily News, Los Angeles, 12-1-1997)
 
A língua inglesa usou este nome para criar um verbo de difícil tradução, e muito expressivo: “out-herod”, que significa ir além de Herodes, ultrapassar Herodes em matéria de crueldade. 
 
AWAD cita este exemplo de S. Nassir Ghaemi, em Perspectives in Biology and Medicine (2013): 
 
Os danos diretos infligidos por nós, médicos praticantes, que vemos os pacientes principalmente como uma fonte de lucro, ocorrem numa escala que suplanta Herodes em relação aos danos provocados pela indústria farmacêutica.


(Hamlet)

 
Este verbo, out-herod, foi tornado famoso por Shakespeare no Hamlet (Ato III, cena 2), e não se refere originalmente à crueldade, e sim ao histrionismo teatral. 
 
É a cena em que Hamlet contrata uma trupe de atores itinerantes para encenar diante do Rei Cláudio uma peça onde um rei é morto pelo irmão, e com isto provocar-lhe incômodo e fazer com que ele se traia. 
 
Hamlet, como bom diretor, dá instruções aos atores, pedindo-lhes que evitem o tom caricatural e farsesco que provavelmente estava na moda: 
 
Ah, me incomoda até a alma ficar ouvindo um brutamontes de peruca rasgar uma paixão em trapos, em farrapos, e estourar os tímpanos da fila do gargarejo, que na verdade só consegue entender pantomimas e estardalhaço; eu baixaria a chibata no lombo desses camaradas que exageram no papel de Termagante e que herodiam mais do que Herodes... pelas caridade, não façam uma coisa dessa. 
(trad. BT) 
 
Digressão: isto aí em cima é o que chamam de “tradução livre”, ou seja, uma coisa pra quebrar o galho do momento, mas que eu não apresentaria profissionalmente a um editor, para não ter que soprar no bafômetro. Fim da digressão. 
 
O importante a destacar é que quando Hamlet se refere a “herodiar mais do que Herodes”, na verdade não está se referindo à suposta crueldade do autor da Matança dos Inocentes, e sim ao histrionismo espalhafatoso dos atores populares que o interpretavam. 
 
(E me atrevo a dizer: não os que o interpretavam na época do príncipe Hamlet na Dinamarca, mas talvez os que o interpretassem na época do dramaturgo Shakespeare em Londres.  Será?) 
 
Em suma: o verbo está bem ilustrado nessa fala metalinguística onde um personagem de uma peça de teatro explica como não se deve encenar uma peça de teatro. 


(Herodes, pintor anônimo ao estilo de Arcimboldo, séc. 17)

 
Voltando ao rei Herodes histórico: o seu rompante de mandar matar os bebês, na esperança de se livrar de um possível Messias, pode ter acontecido, sim, mas numa escala menos catastrófica do que imaginamos. A Wikipedia fala que na época do nascimento de Jesus a cidade de Belém era muito pequena e a matança não seria numericamente tão grande assim, e por isso não teria sido referida por historiadores romanos como Flávio Josefo. 
 
Verídica ou não, a história deu origem a uma expressão que já vi usada por aí: “a Solução Herodes”. É quando temos um problema e decidimos resolvê-lo de um modo, digamos, truculento. Acontece um crime. A polícia tem cinco suspeitos, e prende todos os cinco, para ter certeza de que o criminoso não escapou. 
 
É o método que em computação chama-se de “força bruta”: testar (em alta velocidade) todas as alternativas possíveis até esbarrar na resposta correta, como quando é preciso adivinhar uma senha alfanumérica. Ou quando um computador está jogando xadrez e no espaço de alguns minutos tenta dezenas de milhões de possibilidades até escolher a melhor jogada. 


 
Na literatura, essa solução se relaciona com o famoso exemplo dos seis macacos com seis máquinas de escrever, que em um milhão de anos escreveria todos os livros da Biblioteca Nacional. Os termos variam muito, o que conta é a idéia: com tempo suficiente para testar todas as soluções possíveis, seria possível chegar à resposta certa mesmo sem reconhecê-la ou entendê-la.  É mais ou menos isso que a Inteligência Artificial tenta fazer de forma mais otimizada, mais eficiente. 
 
Na minha antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges (Rio: Casa da Palavra, 2005), comentei esse aspecto relacionando-o com a obra do autor argentino: 
 
Borges diz em “O imortal” que Homero compôs a Odisséia, mas, postulando um prazo infinito, seria impossível alguém não compor a Odisséia.   O conto “A Biblioteca de Babel” é uma ampliação desta idéia: a biblioteca ilimitada cujos livros contêm todas as permutações possíveis de letras, depois de palavras, depois de frases, depois de parágrafos, até que, em algum ponto aleatório do edifício, seja possível encontrar qualquer livro real ou imaginado.   Como se um super-computador cósmico tivesse sido incumbido da missão de produzir obras literárias e só fosse capaz de fazê-lo usando a Solução Herodes. A análise combinatória é uma das fixações de Borges, e está presente também nos seus comentários sobre a Cabala e seus métodos de permutações verbais e numéricas sobre o texto das Escrituras Sagradas. 


 
 




terça-feira, 27 de julho de 2021

4728) Uma música com várias letras (27.7.2021)



Sou assinante há muitos anos, desde que entrei na Internet (um quarto de século, mais ou menos), da lista de mensagens A Word A Day, que nos envia exatamente isto: Uma Palavra Por Dia. Todos os dias (exceto sábados e domingos) recebo um email enviado pelo competentíssimo Anu Garg (um norte-americano nascido na Índia) e sua equipe, com um verbete de dicionário.

Uma palavra, sua natureza gramatical, seu significado, sua origem, seu(s) emprego(s) na linguagem corrente, um ou dois exemplos tirados da imprensa e da literatura.

A gente assina mandando um email para:

https://wordsmith.org/awad/subscribe.html

Pra quem estuda inglês (quem traduz, etc.) é uma mão na roda. Todo dia uma pequena surpresa.

A pequena surpresa de hoje foi a palavra contrafactum, que eu nunca tinha visto. Copio abaixo o teor da mensagem:

contrafactum 

Pronunciation:

(KON-truh-fak-tuhm) https://wordsmith.org/words/images/sound-icon.png

 

MEANING:

noun: A composition that makes use of an existing piece of music with different lyrics.

 

ETYMOLOGY:

From Latin contrafacere (to counterfeit), from contra- (against) + facere (to make or do). Earliest documented use: 1940.

 

NOTES:

A contrafactum aka contrafact is, literally speaking, counterfeiting. It’s what you get when an existing tune is used with a new set of words. A well-known example is The Star-Spangled Banner, the national anthem of the US, which is sung to the music of “The Anacreontic Song” popularly known as a drinking song. Other examples of contrafacta are when secular music is used for religious purposes and vice versa.

 

USAGE:

“At other times, the relationship between contrafacta seems far-fetched. Why should ‘Peter’s Denial’ have the same music as Judas’s reproach of Jesus for befriending Mary Magdalene?”
Joseph P. Swain; The Broadway Musical; Scarecrow Press; 2002.

 

Como se vê, é um verbete sempre curto, objetivo, direto ao ponto, muitas vezes complementado por links úteis.

A palavra “contrafactum” me levou ao meu Dicionário Houaiss, que não a registra. E a uma breve pesquisa, porque esse assunto sempre me interessou.

A paródia musical (pegar uma canção séria e botar uma letra engraçada, na mesma melodia) é um exemplo popular de contrafactum. O brasileiro é o rei da paródia. Tenho uma turma de amigos cuja diversão era cantar a melodia de Rock Around the Clock de Bill Haley & Seus Cometas com a letra de Osório Duque Estrada para o “Hino Nacional Brasileiro”. Se aconchambrar um pouquinho, cabe.

Eu não considero que uma versão para outra língua constitua um “contrafactum”. Seja parecida com o original, ou muito diferente dele, a “versão” é necessária muitas vezes para ser gravada em outro país, é algo tão natural quanto traduzir um livro do inglês para o português. O “contrafactum” seria o equivalente a traduzir um livro do português para o português.

Existe o caso de um mesmo compositor colocar letras diferentes numa mesma melodia. Lembro o caso de Chico Buarque, com O Que Será, canção incluída na trilha sonora do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos de Bruno Barreto, gravada com três letras ligeiramente diferentes pelo próprio Chico, por Milton Nascimento (no álbum Geraes) e por Simone.

As baladas populares da Europa nos séculos 18 e 19 eram frequentemente escritas para serem cantadas com uma melodia de conhecimento público. Folheando os arquivos da época (ou vendo as fotos em livros) a gente se depara constantemente com o aviso, logo abaixo do título do poema: “To the tune of XXX” (“Para ser cantada com a melodia de XXX”), sendo XXX alguma melodia popular daquele tempo, conhecida por todo mundo.

Os comentários de Anu Garg, acima, falam que muitas vezes a música profana recebia letras religiosas, e vice-versa. Fala-se que o escritor Rudyard Kipling, que além de romancista e contista era ótimo poeta, costumava cuidar do seu jardim (seu passatempo favorito) cantarolando em voz baixa hinos protestantes. É possível que muitos dos seus poemas, que são impecavelmente metrificados, tenham sido compostos desta forma, “letrando” a melodia de um hino qualquer, o que facilita a memorização.

Um exercício interessante para a composição de canções populares seria um letrista entregar a mesma letra para cinco ou dez compositores diferentes, e cada um deles a musicaria de acordo com seu próprio estilo e inspiração. Depois, os resultados seriam agrupados num álbum.

Do mesmo modo, um compositor entregaria a mesma melodia para cinco ou dez poetas, que colocariam letras diferentes na música, cada um deles sem ver o que os outros estavam fazendo. (O projeto só teria sentido, claro, se todo mundo estivesse sabendo do que se tratava, mas sentindo-se livre para seguir a própria inspiração.) 

O objetivo de um projeto assim não seria fazer a comparação e a competição entre os resultados, mas ilustrar as incontáveis sugestões e possibilidades de combinação entre versos e melodias.

Não sei se muita gente já percebeu, mas as canções de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira Asa Branca e Assum Preto são totalmente simétricas, apesar de bem diferentes (Asa Branca é em tom maior, a outra em tom menor). Já cantei muitas vezes, em mesa de bar, uma delas com a letra da outra, e todo mundo cantou junto, sem perceber a mudança.