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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

4771) "The Beatles - Get Back" parte 2 (6.12.2021)



Estou assistindo a Parte 2 do documentário de Peter Jackson, The Beatles – Get Back (Disney Channel, 3 episódios).
 
A primeira parte terminou com a crise do afastamento de George Harrison. Ele viu a certa altura que nenhum dos companheiros estava lhe dando muita atenção, a não ser para dizer “toque isto, toque aquilo”, como se ele fosse um músico-de-estúdio pago pela banda. Levantou-se, anunciou: “Estou indo embora da banda, contratem alguém para meu lugar.”
 
Na época (1969) lembro com clareza que cheguei a ler na imprensa algo como “Depois de uma briga no ensaio com os colegas, Harrison foi visto deixando o estúdio furioso, com o nariz sangrando, após receber um soco de McCartney.” Pensávamos que os Beatles trocavam sopapos durante as gravações. Disseram na época que alguns daqueles vocais primorosos de Abbey Road, gravado meses depois, foram feitos sem que Lennon e McCartney se encontrassem pessoalmente – um botava a voz de manhã, o outro à tarde. Verdade? Não sei.
 
Já vi coisa muito mais preocupante, em ensaio, do que as discussões e os aborrecimentos que Peter Jackson mostra aqui. Os Beatles batiam boca e ficavam enfarruscados uns com os outros? Sim, e todo mundo faz isso quando está trabalhando sob pressão, precisa entregar resultado com prazo fixo, e não sabe direito como resolver os problemas que tem pela frente.
 
Yoko Ono contribuiu para isso? Sempre duvidei. Nesta série, pelo menos, Yoko é mais silenciosa do que a Mona Lisa. E Paul McCartney, num rasgo de precognição, ironiza a certa altura: “Pois é... e daqui a cinquenta anos vão dizer que os Beatles se acabaram porque Yoko sentou em cima de um amplificador.”  Mal sabia ele o quanto estava certo.


(Yoko Ono)
 
Algumas pessoas perguntam se a gente aconselha ver a série. Para quem quer se divertir, eu não aconselho. Posso aconselhar somente para as pessoas que, não sendo do ramo musical, têm curiosidade em saber como são os bastidores da música profissional, ou pelo menos como era esse ambiente meio século atrás. Muita coisa mudou. Muita coisa não mudará nunca. Mas para quem só vê esses grupos no palco, é muito esclarecedor vê-los na ralação do dia-a-dia.

Há um momento que poderia ser um curta por si só, quando McCartney lê com voz caricatural algumas matérias de jornal fazendo sensacionalismo com as brigas do grupo, enquanto Lennon cobre a voz dele com barulheira de rock. 
 
Uma das cenas mais interessantes do doc aparece na parte inicial deste segundo episódio, após a briga com George. São cerca de quatro minutos, entre o 12’ e o 16’. Lennon e McCartney afastam-se para discutir a situação. A equipe, prevendo isto, colocou um microfone disfarçado num vaso de flores. A cena fica mostrando o vaso, com leves movimentos de câmera, e ouvimos ao fundo o áudio da conversa de John e Paul, com as falas (meio abafadas) transcritas em legendas.
 
Os dois conversam, previsivelmente, sobre a necessidade de falar com George, pedir desculpas, reintegrá-lo no trabalho, que naquele momento roda todo em torno das canções da dupla... Discutem a atitude “mandona” de Paul na concepção e execução dos arranjos...


 
O mais interessante é que essa conversa é um dos raros momentos do “filme” em que os dois não estão fazendo palhaçadas ou caras-e-bocas para a câmera. Eles julgam estar a sós. E nesse áudio a fala dos dois muda muito. O sotaque (que imagino ser o “scouse”, o jeito de falar típico de Liverpool) fica acentuado a ponto da gente ter dificuldade em entender, sem a legenda, alguns trechos simples. São duas vozes que ouço (na música, filme, etc.) desde que me entendo de gente, e acho que nunca as tinha escutado num acento tão carregado, tão alienígena.
 
Já percebi que a maioria das pessoas, quando está num momento emocionalmente muito tenso, muito carregado (raiva, tristeza, desabafo, etc.) reverte ao seu sotaque regional da infância, principalmente se estiver discutindo com pessoas da família. (Eu reverto para aquele sotaque paraibano que botava Lampião pra correr.)
 
Acho que é isso que se dá com John e Paul: naquela hora, estão a sós, e num momento emocionalmente tenso. E a fala liverpudliana volta “com força”. É um momento-verdade. Não é palhaçada ou “atitude” voltada para as câmeras, como em todo o restante. Nesse momento, a série deixa de ser “reality show” e vira “escuta telefônica”.



(Peter Sellers / John Lennon)
 
E por falar em palhaçada, quem faz uma breve visita ao estúdio de Twickenham é Peter Sellers, amigo dos Beatles há muito tempo. Ele se preparava para as filmagens (ao lado de Ringo Starr) de The Magic Christian, no mesmo estúdio, dali a algumas semanas.
 
É curioso ver Lennon e Sellers lado a lado, porque muitas das macaquices e dos lero-leros de Lennon têm a ver com Peter Sellers. Ambos gostam de exibir aquela cara branca, aparvalhada, com um sorriso fixo de manequim, enquanto usam uma voz anasalada ou roufenha para dizer inconsequências, ou dialogar com fantasmas de nomes saxões.
 
Esse humorismo britânico meio abobalhado não é para todo mundo; é um gosto que se adquire aos poucos. Os Beatles sempre estiveram com um pé dentro dele. Lennon era um grande fã de The Goons, o grupo de humor radiofônico dos anos 1950 que reuniu Sellers, Harry Secombe e o impagável Spike Milligan. Muitos dos textículos absurdistas dos livros de Lennon têm grande influência da prosa caricatural de Milligan.



É bom lembrar que, anos depois, George Harrison seria um grande amigo e co-financiador de algumas das aventuras do Monty Python, herdeiros espirituais dos Goons.
 
Depois da visita de Sellers, e de um novo encontro com George, os Beatles se transferem para o estúdio da Apple, em Saville Row. Sair daquele mausoléu gelado de Twickenham fez muito bem à banda. O novo estúdio é minúsculo e apertado, mas eles retomam o trabalho com outro espírito. Também ajuda a chegada do pianista Billy Preston, bom instrumentista, meio tímido mas à vontade, e claramente alguém de quem a banda gostava (tinham se conhecido em Hamburgo, no tempo das vacas magras e dos hamburgers divididos).
 
Existe coisa mais exaustiva do que passar o dia ensaiando (música, teatro, seja o que for), das 10 às 10?
 
Existe coisa mais exaustiva do que fazer “reunião de produção” e tomar decisões irreversíveis enquanto ainda se está totalmente “no escuro” quanto às reais possibilidades?
 
Não é de admirar que os Beatles façam tanta brincadeira boba. Ou melhor: que John Lennon faça isso o tempo todo. Paul, que tinha com ele um bluetooth-telepático, embarca nas zuêras de vez em quando, mas tenta se comportar como um herdeiro hierárquico de Brian Epstein, o falecido empresário. George, reconciliado (provisoriamente) arrisca de vez em quando um sorriso, de vez em quando uma frase. Ringo é Ringo. O único ser humano Zen que já vi na vida. (O problema é que o preço de ser Zen é ser Ringo.)
 
Peter Jackson consegue a proeza de passar horas, literalmente, mostrando esse tipo de coisa, mas ele é um produto da era do “Reality Show”, tem olho atento e cronômetro embutido. Quando as tomadas começam a se alongar, ele joga um non sequitur, uma incongruência, um corte brusco de áudio, um corte brusco de movimento ou de enquadramento... e acorda o espectador.



Aqui, a parte 1: 

E a parte 3 (final):

https://mundofantasmo.blogspot.com/2021/12/4773-beatles-get-back-parte-3-12122021.html 





sexta-feira, 15 de agosto de 2014

3578) Robin Williams (15.8.2014)



Tem atores que são capazes de se concentrar num personagem real ou imaginário e recriá-lo com competência: o Hamlet de Laurence Olivier, o Hitler de Bruno Ganz, o Gandhi de Ben Kingsley, o Gonzaguinha de Júlio Andrade, o Aguirre ou o Fitzcarraldo de Klaus Kinski. Ele cria um personagem como quem ergue uma catedral, com tudo que isso envolve de planejamento a longo prazo e de improviso instantâneo, com tudo que isso implica de filigrana milimétrica e de megalomania estrutural.

Não era o caso de Robin Williams, e não porque ele não fosse um excelente imitador. Imitou competentemente desde Theodore Roosevelt até Oliver Sacks e o marinheiro Popeye.  É que Williams era mais capaz de reproduzir os tiques exteriores de alguém do que de se transformar naquele alguém, com memórias profundas e tudo o mais. As pessoas e os personagens não lhe despertavam tanto interesse assim, a ponto de fazê-lo dizer: “Passarei dois anos estudando e compondo esse personagem”. Não, acho que era mais aquela coisa do cômico de vaudeville, do rádio e do cinema mudo, que abre uma folha: “Qual é o próximo papel? Ah, pirata decadente. Já sei.”

Vi duas ou três entrevistas de Williams na TV e ele era aquele tipo não-entrevistável, porque ele nunca é ele mesmo, ele está sempre fazendo um personagem, e nunca é o mesmo personagem por mais de vinte segundos consecutivos, às vezes um pouco mais, quando a piada que está inventando se prolonga. Me lembra o que disse uma vez uma esposa de Peter Sellers: que era impossível conversar com ele, porque não havia “ele”, havia milhares de personagens que ele imitava quando precisava dizer alguma coisa. Eram mil máscaras sem um rosto por trás.

Williams sempre caminhou naquela linha difícil dos atores careteiros, a que também pertencem Jerry Lewis e Jim Carrey.  Sabem que estão sempre a um milímetro de resvalar no mau gosto, no patético, no cafona, no escatológico, mas é algo mais forte do que eles.  Fariam assim mesmo que a lei proibisse. Só sabem fazer se for assim.

Williams parece ter sido um desses caras que começou a inventar personagens-de-si-mesmo para se relacionar com os outros, e depois ficou dependente deles, porque não tinha uma voz central, um Eu principal que se responsabilizasse. Não faço idéia de como era conviver no dia-a-dia com alguém como ele ou Sellers, mas eu não gostaria, porque de um instante para outro ele seria capaz de desdizer ou desfazer tudo que tinha dito ou feito antes e dizer: “Tava brincando!”  Parecia não haver nenhum Robin Williams capaz de surgir entre as máscaras e dizer: “Rapaz, tou com um negócio sério pra te falar.”



sexta-feira, 15 de agosto de 2008

0514) O irmão fantasma (11.11.2004)


("Narciso", Salvador Dali)

Certos detalhes pouco comuns em biografias me deixam inquieto. Durante muitos anos eu soube que o pintor Salvador Dali teve um irmão, também chamado Salvador, que nasceu antes dele e morreu logo em seguida. Seus pais ficaram muito abatidos, e quando tiveram o filho seguinte repetiram o nome, chamaram-no de “Salvador”, e o garoto cresceu com esta história. O que sente um cara nessa situação? Posso apenas especular. Ele pode crescer com a impressão de que nasceu, morreu e nasceu de novo; de que é uma reencarnação do primeiro filho, de que é uma única pessoa, que sofreu um acidente de percurso mas acabou prevalecendo. Pode também achar que é um mero substituto para alguém que era a “primeira opção” de seus pais, e passar a infância achando-se uma pessoa sem valor, um mero reserva que só entrou em campo por contusão do titular. Não sei o que Salvador Dali pensava sobre isso, mas sempre achei que esse detalhe tinha uma importanciazinha no fato dele ser doido. (Porque “normal” é que ele não era mesmo)

Depois fiquei sabendo que uma coisa parecida aconteceu com Van Gogh. Seus pais tiveram um filho a que dariam o nome de “Vincent Willem Van Gogh”, usando os prenomes dos dois avós. Acontece que o garoto nasceu morto. Foi enterrado, os pais fizeram uma nova tentativa e (ao que parece) o segundo garoto nasceu exatamente um ano depois do primeiro, em 30 de março de 1853, e recebeu exatamente o mesmo nome. Diz-se que todos os dias ele passava em frente ao cemitério da família (seu pai era pastor) e via um túmulo com seu próprio nome escrito. Será que isto teve influência em sua loucura posterior, ou foi apenas algum problema genético? Há uma interessante discussão sobre o perfil clínico de Van Gogh no saite do American Journal of Psychiatry, em: http://ajp.psychiatryonline.org/cgi/content/full/159/4/519.

Conversa vai, conversa vem, e um belo dia eu folheava o livro de Pedro Karp Vásquez Na Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (Rocco, 2002), no qual me deparo com um dado curioso sobre Peter Sellers. Este grande ator e fantástico imitador de vozes alheias nasceu em 8 de setembro de 1925, e foi batizado com o nome de Richard Henry Sellers. Acontece que seus pais, um casal de atores de vaudeville, tinham tido um filho anterior chamado Peter, que nasceu morto. Começaram a chamar o novo filho de “Peter”, e não é que o nome acabou pegando?

Existe uma raridade médica a respeito de irmãos gêmeos. Durante o seu tempo no útero, acontece às vezes que um deles não se desenvolve, estaciona numa forma microscópica de embrião, e fica alojado no corpo do outro, que nem sabe de sua existência. Não quero parecer mais maluco que meus três personagens de hoje, mas será que existe algo parecido com as almas? Será que acontece às vezes de uma delas ficar incrustada na alma de um irmão que vem depois, e estas duas almas em conflito transformarem o cara num louco e num gênio?