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quinta-feira, 21 de março de 2013

3139) Livros pirateados (21.3.2013)





Em 1907, Mark Twain estava de passagem por Londres, indo para Oxford, onde receberia um título “honoris causa”, e aproveitou para se encontrar com seu amigo Bram Stoker. Os dois conversaram sobre vários temas e Twain deu conselhos ao autor de Drácula sobre como escrever histórias fantásticas: “A única maneira de escrever histórias de bruxaria é surrupiá-las por inteiro da obra de Balzac. O francês atingiu a perfeição em um dos seus ‘Contes Drôlatiques’... conheço uma livraria no Strand onde você pode comprar uma edição pirata, reproduzida por câmera fotográfica, por apenas meia coroa”.

Esse detalhe, reproduzido na biografia de Barbara Belford (Bram Stoker, Phoenix Giant, 1996), dá uma pista da desenfreada pirataria de livros que alimentava os grandes mercados editoriais do Ocidente há cem anos. Se entendi bem, os piratas não se davam o trabalho de recompor um livro no linotipo: fotografavam a página aberta em duas, e reproduziam as imagens, certamente com um mínimo de qualidade que pelo menos permitia a leitura. Mais ou menos como a galera pirateia filmes inteiros hoje em dia levando câmaras (ou mesmo celulares) para o cinema (todo mundo já viu piratas onde se avistam as cabeças dos espectadores à frente da imagem).

Twain e Stoker já tinham sido sócios numa empreitada editorial falida do primeiro. Twain foi uma espécie de Monteiro Lobato – torrava todo o dinheiro dos seus best-sellers em empreitadas editoriais mirabolantes, que acabavam dando com os burros nágua. Em 1898, ele convenceu Stoker e seu patrão, o grande ator Henry Irving (dono do teatro Lyceum, do qual Stoker era o gerente), a comprar ações do projeto de uma máquina de composição tipográfica (o “Paige Compositor”) que concorreu com o linotipo lançado por Mergenthaler, e foi derrotada por ele.  Twain trabalhou muitos anos como tipógrafo, e era um entusiasta dos novos modos de produção gráfica – consta que a primeira obra literária que chegou à editora numa versão datilografada foi o seu Vida no Mississippi (1883).

Aliás, isto pode ter influenciado Bram Stoker a dar à máquina de escrever portátil um papel importante em Drácula (1897), pois é nela que Mina Harker escreve parte do seu diário que narra a caça ao vampiro. E um grande impulso para a popularização do romance de Stoker foi que, por causa de um detalhe técnico, Drácula sempre esteve em domínio público nos EUA desde seu lançamento. Cem anos atrás, edições piratas e direitos autorais de livros impressos eram um território tão fluido quanto é, hoje, o dos livros eletrônicos. Os sucessos desse período mostram um momento em que qualidade e venda não foram antônimos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

2774) A 1a. Guerra Digital (24.1.2012)



A Primeira Guerra Digital ocorreu entre quinta e sexta-feira passadas, quando o coletivo Anonymous, reunindo cerca de 5.600 computadores espalhados pelo mundo, tirou do ar os computadores do FBI, numa represália ao fechamento do Megaupload, saite de compartilhamento de arquivos, acusado de pirataria digital. É provável que não tenha sido a primeira (sempre haverá quem já viu outras); a única certeza é de que não será a última, e de que em breve será tão permanente e banal quanto as balas perdidas.

Não foi uma batalha bélica, não houve perda de vidas nem de patrimônio material. Uma dúzia de presos, parece. Não houve tiroteio; apenas ofensivas e contraofensivas virtuais por parte dos dois grupos. O grupo pró-SOPA (que defende a lei Stop Online Piracy Act), numa carga fulminante ladeira acima, invadiu e apossou-se do território Megaupload, de aliados do Anonymous. A invasão se deu em circunstâncias tais que dificilmente esse território será retomado. Já o Anonymous mostrou que não pode anexar território para si (provavelmente é disperso demais para isto), mas, em contrapartida, bombardeou uma dúzia de “pontes”, e engavetou o acesso a pontos cruciais do território inimigo: FBI, agências do governo, grandes corporações da música e do cinema.

O grupo da SOPA perdeu a chance de forçar uma discussão e votação imediata da lei, mas apossou-se de um ativo de grande porte, sem falar na vitória moral e no marketing. A guerrilha internética do Anonymous mostrou força, e usou inclusive, como veículo de ataque, computadores de usuários distraídos; convergiu sobre as redes dos adversários e as tirou do ar. 1x1.

São agitações como as da Primavera Árabe, Ocupem Wall Street, etc. Ocorrem confrontos, mas para as multidões anônimas não interessa muito o combate físico, inclusive contra um adversário bem aparelhado. As baixas mais sérias serão um efeito colateral, um risco aceito. Elas procuram a ocupação de espaços, o corte do fluxo de informações do inimigo. Não é muito diferente de ocupar ruas, barricar passagens, impedir o tráfego, intimidar os comerciantes, fechar a rua na marra.

Grupos assim são multidão apenas no sentido de serem plural e sem rosto; mas sua movimentação é a de um grupo especial de guerrilha. O grupo deve misturar anciãos, adultos, jovens, pessoas muitíssimo bem treinadas, uma rapaziada nerd e desocupada, com disposição para um novo game. Muitos mergulharam nisso às cegas, uns por aventura, outros por missão, outros por mera alegria de viver, outros por indignação cívica, outros por fama e fortuna. Juntos, podem ir da terra ao céu num pulo, como podem voltar do céu à terra num baque.

domingo, 25 de outubro de 2009

1322) Os piratas e os sebistas (8.6.2007)



Sou freqüentador de sebos (livrarias que vendem livros usados) há mais de meio século. Cerca de dois terços dos livros que possuo em casa foram comprados em sebos ou equivalentes (calçada, banquinhas de rua, etc.). Por que? Primeiro, pelo preço. Um livro que na livraria custa 50 reais pode ser encontrado na calçada ou no sebo por 20 ou menos. Segundo, pela escassez. Uma livraria, por mais boa vontade que tenha para com um livro de cinco anos atrás, só o mantém no balcão ou nas paredes se ele estiver vendendo bem. Se eu quero um livro que não é novidade de catálogo, é mais provável que o encontre num sebo do que numa livraria. Em terceiro lugar, por algo que faz fronteira com a escassez, mas é outra coisa: a improbabilidade. Em livrarias a gente só encontra o que foi visto pelo livreiro num catálogo, pensado, discutido, encomendado à editora. Em sebo a gente vê de tudo, principalmente bibliotecas inteiras de colecionadores que passaram a vida reunindo coisas obscuras e que, quando morrem, a viúva se livra daquilo tudo a preço de banana em menos de um mês. Para onde vai? Para o sebo.

Num sebo (ou numa calçada) encontrei algumas raridades que me orgulho de possuir: A Liga dos Planetas de Albino Coutinho, o primeiro romance interplanetário brasileiro, de 1923; uma primeira edição de A Amazônia Misteriosa de Gastão Cruls, pela qual teria pago 100 reais mas o cara me ofereceu por 1 real; uma primeira edição das Vies Imaginaires de Marcel Schwob (1896), que inspirou Borges a escrever sua História Universal da Infâmia, e que achei por 10 reais; as traduções de Edgar Poe feitas por Baudelaire em reedições da década de 1890; a primeira edição de Sagarana, de Corpo de Baile. Tudo isto a preço de banana.

Nada disto poderia ser encontrado numa Saraiva ou numa Siciliano. Nem sequer numa Travessa, Cultura ou Leonardo da Vinci. O sebo é a província do imponderável, do inesperado, do raro, do obscuro, daquilo que deixou de existir um dia mas não foi obliterado de todo. Às vezes, um exemplar encontrado num sebo depois de cinqüenta anos leva um editor a dar vida nova a um livro ignorado, transformá-lo em sucesso póstumo.

Imaginem só se as livrarias oficiais, e os escritores, começassem a fazer campanha contra a existência do sebos, chamando aquilo de pirataria. Porque um sebo não paga um centavo às editoras, não paga um centavo ao autor. Se um livro meu vende na livraria eu ganho 10% do preço pago pelo leitor; num sebo, não ganho nada. Mas nem por isso temos o direito de combatê-los. O sebo prolonga a vida útil do livro, alcança o leitor de bolso raso, atinge o leitor jovem, atinge todos aqueles que têm muita curiosidade mas pouco dinheiro. Não são concorrentes da livraria. Trabalham noutra faixa de mercado. Há livros que comprei por 5 reais num sebo, meio estragadinhos, e que depois de ler corri a comprar um exemplar novo na livraria por 30 ou 40. Por que? Porque pude arriscar, e conhecer.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

1205) Os piratas analfabetos (23.1.2007)



Chegam-me à razão de uma dúzia por dia, pela Internet. São mensagens contendo vírus, programas executáveis que depois de entrar no seu computador irão apagar o disco rígido, roubar senhas bancárias, etc. Mas o problema dos piratas internéticos é semelhante ao dos vampiros nas histórias de Drácula. Se o leitor está em dia com suas leituras de Bram Stoker, deve lembrar que um Nosferatu nunca pode entrar pela primeira vez na casa de alguém sem ser convidado por alguém da casa. A partir daí, entra e sai à vontade; mas para a primeira vez precisa de autorização. Esta é uma metáfora sutil e poderosa para certas manifestações do Mal. Elas só grudam em nós quando o permitimos.

Pois assim são os vírus: programas daninhos que para invadirem nosso PC precisam de uma autorização, ou seja, de um clique. Todas estas mensagens desembocam na famosa frase “CLIQUE AQUI”. São mensagens falsas do Submarino informando uma compra caríssima e dizendo que se quisermos cancelar a compra basta clicar aqui. Mensagens oferecendo vídeos de Daniela Ciccarelli dançando o galope da beira do mar. Mensagens oferecendo fotos das vítimas da cratera do metrô de São Paulo. Mensagens dizendo que nosso nome está no SPC e que para saber o motivo basta “clicar aqui”. Mensagens (esta é do tempo do escândalo do Mensalão) dizendo que o deputado Roberto Jefferson foi assassinado e que para ver as fotos do corpo basta clicar aqui.

Existem também os famigerados “VoxCards”, e os cartões sentimentais enviados por “Seu Amor” ou “Alguém Que Te Ama Muito”. Existem ofertas de fotos de turmas escolares, onde o remetente sempre fala que a gente está meio de lado, junto de uma árvore, e pergunta se a gente reconhece alguém. Existem as falsas mensagens do nosso Banco (ou de um Banco onde nunca tivemos conta) avisando de algum problema grave ou pedindo atualização de cadastro. Existem as mensagens dizendo “você está sendo traído, estou enviando as fotos feitas num motel, clique aqui”.

Meu caro leitor: nunca clique ali. Eu prefiro o risco de apagar mensagens enviadas por amigos do que clicar num troço desses. Cliquei uma vez para visualizar um cartum do saite Humortadela, e o técnico teve que ficar aqui do meio-dia às 3 da tarde consertando o estrago. O que me consola é que 99% dessas mensagens se auto-entregam: são redigidas por capadócios precariamente alfabetizados. Nunca vi uma mensagem pirata que não tivesse erros de ortografia, mesmo quando estão cheias de logotipos da Microsoft ou do Bank of Boston. Eis um exemplo recente: “Aconteceu um terrivel acidente envolvendo um membro da sua familia sei que essa nao e uma boa maneira de se dizer isso mais enfim e melhor que fique sabendo, prezenciei as imagens de como ficou a situação do carro e da pessoa e tirei algumas fotos se quiser dar uma olhada nas fotos estao aqui as fotos -- VISUALISAR F0T0S”. Não precisa ser Zarinha nem Anésio Leão pra perceber que é golpe. Não clique ali.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

0791) O robô e o tesouro enterrado (30.9.2005)


(Arturito)

Parece título de romance de aventuras, não é mesmo? Pois não é, é uma notícia divulgada esta semana. Se eu tivesse um espaço maior aí em cima teria colocado um título melhor ainda: “Robô descobre o tesouro da ilha de Robinson Crusoe”. Uma companhia chilena vinha usando há tempos um robô submarino chamado “Arturito” para examinar o fundo do mar nos arredores da ilha chamada de “Robinson Crusoe”, a 660 km da costa chilena, e que tem este nome porque foi lá que naufragou em 1704 o marinheiro Alexander Selkirk, cuja história acabou inspirando a Daniel Defoe o romance Robinson Crusoe (1729), um dos livros mais conhecidos do mundo.

Ao que parece, ainda no século 19 um corsário espanhol enterrou perto da ilha um tesouro fabuloso, produto de anos de saques e pilhagens marítimas. O tesouro foi achado por outro marinheiro, o inglês Cornelius Webb, que acabou enterrando-o em outro ponto da mesma ilha. E desde então os indícios se perderam, e restava somente o relato destes fatos, dizendo que o tesouro consistia em 800 barris cheios de lingotes de ouro, moedas de ouro e prata, e jóias.

A empresa chilena Wagner Technologies desenvolveu “Arturito”, um robô construído para esse tipo de pesquisa submarina. O robô usa uma técnica chamada GPR, muito semelhante ao radar. Ele projeta na direção do solo um feixe de radiação eletromagnética, recebe o “eco” quando esse feixe se choca com objetos sólidos, e registra o tamanho, a massa, o formato, a profundidade, etc. E com isto vai detectando a presença de objetos anômalos, que não são propriamente o tipo de coisa (rochedos, etc.) que se espera encontrar naquele tipo de terreno. Existem várias sub-técnicas que podem ser aplicadas a este princípio básico, refinando o resultado da pesquisa.

A Wagner Technologies anunciou (talvez um tanto prematuramente) a descoberta, e diz que vai iniciar em breve as escavações. Como o tesouro (a julgar pelas descrições que constam dos documentos históricos) é avaliado hoje em dia em cerca de 10 bilhões de dólares (eu disse bilhões, com B de Bush), já começou uma briga para saber quem tem direito a ele. O governo do Chile já saiu na frente, invocando uma lei semelhante à que temos aqui no Brasil (pelo que me consta): o que está no subsolo pertence à União.

“Arturito” decerto não se parece com o robôzinho de Perdidos no Espaço. Não vi fotos, mas ele deve ser algo como um cofre-forte cheio de escotilhas, pendurado por uma corrente. Não importa. Meu coração adolescente de leitor de Julio Verne e Conan Doyle se comove com a idéia de que o ouro roubado no século 18 (com entrechoque de espadas, troar de canhões, carnificinas no convés) ficou quase 300 anos adormecido embaixo de 15 metros de rochas e plancto marítimo, aparentemente perdido para sempre, mas a ciência descobriu um jeito de encontrá-lo. Que outros briguem pelos dez bilhões. O contato imediato entre “Arturito” e o ouro dos piratas vale muito mais do que isto.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

0540) O socialismo digital (11.12.2004)



Como todo universitário brasileiro da década de 1970, passei muitas noites com o nariz enfiado em manuais de marxismo. Naquele tempo, a ditadura cometia barbaridades contra comunistas e militantes de esquerda em geral. Simpatizar com essa turma era um imperativo moral até mesmo para sujeitos como eu, incapazes não só de pegar em armas contra o regime, mas até de acordar cedo para derrubá-lo. Em seu poema “A Torre sem Degraus”, Carlos Drummond fala de pessoas decididas a mudar o mundo, desde que para isto não seja preciso mover uma palha. Era o meu caso.

Sei que há uma dúzia de marxistas que lêem esta coluna, portanto, companheiros, corrijam-me se eu estiver errado. Um dos grandes problemas do Socialismo foi que uma revolução socialista num país atrasado teria como efeito inicial “socializar a miséria”, dividir o pouco entre os muitos. O Socialismo em País Pobre teria uma distribuição de riquezas justa, mas as riquezas seriam poucas, devido ao pouco desenvolvimento dos meios de produção. Esta era, aliás, a razão por que Karl Marx duvidava que o comunismo desse certo num país agrário e retrógrado como a Rússia – como aliás não deu.

O Socialismo teria que brotar, idealmente, num país de capitalismo avançado, um país onde a tecnologia, a ciência, os meios de produção material pudessem suprir as necessidades de toda a população, se fossem socializados. Inglaterra ou Alemanha tinham industrialização sofisticada, e relações de produção ainda arcaicas, por haver uma classe que ficava com toda a riqueza em detrimento das outras. Seria necessário, portanto, uma revolução para fazer com que toda essa evolução técnica tivesse seus benefícios voltados não apenas para um pequeno grupo, mas para toda a população.

Desculpem meu simplismo, mas nunca discuti marxismo com Fernando Henrique nem com Luiz Inácio, meu marxismo foi aprendido em mesa de bar, conversando com futuros sociólogos, poetas, diretores de teatro, músicos, estudantes de engenharia e jornalistas. Mas vejam como o mundo digital de hoje (internet, queima de CDs, pirataria, Napster, MP3, downloads gratuitos, filme baixado em banda larga, códigos abertos, “Creative Commons”, etc.) é uma Revolução Socialista em processo. Distorções ocorrem (a pirataria de CDs, em primeiríssimo lugar), mas é porque ainda estamos em plena vigência da lei-da-selva capitalista, onde o aparato high-tech ainda está voltado para o enriquecimento de grupinhos de espertalhões sem escrúpulos.

A revolução digital, contudo, está a caminho de uma Estação Finlândia que já desponta no horizonte. É a reprodução em série, a mídia independente, as redes de troca, o conceito de “copyleft”, todo o fervilhar de atividades subterrâneas e informais criado nos quartos-dos-fundos, nos laptops, nos PCs canibalizados de uma galera que forçou tanto o crescimento dos meios de produção que acabou explodindo as relações produtivas. E agora não tem mais volta, babau Tia Chica.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0023) Os piratas e os corsários (18.4.2003)




(by Henk van Rensbergen)

Em sua coluna de hoje no “Diário de Pernambuco” (“Baque Solto”, sai todas as sextas-feiras, não percam) Lula Queiroga lamenta o fato de que uma atividade tão interessante quanto o pirateamento de CDs tenha sido açambarcada por gangsters milionários de Taiwan ou Hong Kong. Pegar uma matriz, copiá-la num estúdio de fundo-de-quintal e vender o produto por um terço do preço de loja é atividade para guerrilheiros culturais: galera do boné virado, piercing no nariz e tatuagem no ombro da vacina. É um recurso para a rapaziada fazer circular o CD raro daquela banda etno-jazz da Hungria ou daquele duo de italianas que vocalizam samplers de transmissões da Nasa. Não é coisa pra gangster.

Infelizmente, o dinheiro no mundo anda tão faminto que até essas táticas de guerrilha são monopolizadas pelos capitalistas do Caixa-2. Os sujeitos não pirateiam apenas discos: eles piratearam a própria pirataria. Porque o ato de piratear produtos industrializados é, como a guerra de guerrilhas, um recurso da Lei do Mais Fraco. Quem não pode bater de frente fuzila por trás. Disco pirata é para circular por baixo do pano, como nos anos 70 circulavam aqueles Manuais de Guerrilha Urbana do tamanho de um maço de cigarros. É uma atividade “cult”, conceitual, altruísta. Seu intuito não é acumular dinheiro, é distribuir informação. “Information wants to be free”, era o lema dos escritores cyberpunk que deram uma sacudida na literatura dos EUA nos anos 1980.

Lucro é sangue. Onde quer que haja lucro começam a aparecer os gangsters, como piranhas assanhadas, farejando. Uma gravadora faz um milhão de CDs de Britney Spears, e no dia do lançamento o mercado já está saturado por CDs clonados, com capa vagabunda, som mixuruca, mas, por 5 reais (e Britney Spears), quem liga? Quem percebe?

Ao contrário do meu mestre Queiroga, eu não fico com remorsos quando compro CD pirata. Gravadoras multinacionais e mafiosos intercontinentais brigam, cada um, com as armas de que dispõem. Nesse Fla-Flu eu sou botafoguense. Como compositor que recebe direitos autorais, eu torço para que as gravadoras vendam bem. Como consumidor que vê um disco dos Travelling Wilburys por 32 reais, confere a carteira e segue em frente, só me resta sonhar em ver o mesmo disco na calçada da Rua do Catete, por “cinquinho”.

A indústria fonográfica desperdiça mais dinheiro do que a administração doméstica de Saddam Hussein. É uma babilônia de coquetéis, videoclips, lançamentos, passagens aéreas, boca-livre, hotel cinco estrelas, jabá para radialistas, uísque e canapés para a imprensa, kits de divulgação que parecem propostas de arte de vanguarda. Tudo isso para quê? Para alimentar uma máquina de mil bocas comendo e uma boca cantando, a do sujeito que aparece na capa do disco. A indústria pirata economiza isso tudo, vampiriza operários chineses, e não paga imposto nem direitos autorais. Não se enganem. Capitalista que rouba capitalista tem cem anos de carência.