terça-feira, 28 de julho de 2026

5246) "Corpo de Baile" (28.7.2026)



 
Nesta quarta-feira, 29 de julho, estarei fazendo uma aula aberta, online, como prévia para divulgação para o curso que vou realizar durante o mês de agosto, tendo por objeto o livro Corpo de Baile, de Guimarães Rosa. É uma produção da “Escrevedeira”, o conhecido e dinâmico centro cultural paulistano. O curso acontecerá online, todas as segundas-feiras (dias 10, 17, 24 e 31 de agosto), das 19 às 21 horas. Inscrições e informações aqui: 
 
https://escrevedeira.com.br/curso/sete-portas-para-corpo-de-baile-uma-introducao-ao-livro-de-guimaraes-rosa/
 
A idéia deste curso surgiu de um convite da Profa. Noemi Jaffe, e se liga ao fato de que em 2026 estamos comemorando 70 anos da publicação original do Grande Sertão: Veredas e do Corpo de Baile.  
 
Guimarães Rosa fez no ano de 1956 algo que qualquer editor de bom senso desaconselharia nos tempos de hoje: publicou, com poucos meses de intervalo, dois livros gigantescos, ambos com mais de 500 páginas, escritos numa linguagem inesperada, desconcertante, difícil. 
 
Grande Sertão fez um sucesso gigantesco, e merecido. É um dos maiores e mais recompensadores romances de nossa literatura. Mas o pobre do Corpo de Baile ficou numa posição secundária, meio fora de foco, meio na sombra. É um livro magnífico, mas as pessoas que conseguem transpor o Grande Sertão de ponta a ponta soltam um suspiro de alívio, e se dão por satisfeitas. Não é todo mundo que resolve encarar o outro Everest. 
 
Na sua correspondência da época, Rosa (sempre brincalhão) chamava um dos livros de “mastodonte” e o outro de “cetáceo”. Dizia isso sem culpa e sem pompa. Sabia que eram livros enormes e difíceis. E daí? Como ele mesmo alertou, numa carta a sua tradutora norte-americana Harriet de Onís, “acabarão se acostumando”. Acostumamo-nos. Não conseguimos mais viver sem isso. 




É um bom momento para conhecer Corpo de Baile, ou para reler suas sete novelas, que valem muito a pena. É como se o Grande Sertão, com sua história una, bem costurada, implacável, ocupasse o centro desse universo ficcional, e as sete novelas de Corpo de Baile fossem prolongamentos, “puxadinhos”, expansões desse centro, mas todas com seu próprio mundo interno, seu elenco de personagens pitorescos ou góticos, suas situações bizarras, seu dramas intensamente humanos. 
 
Num artigo recente na revista 451, comentei o fato de que esse díptico de obras de Guimarães Rosa constitui uma espécie de “Guerra e Paz” do sertão mineiro. O Grande Sertão é a história da grande guerra dos jagunços; Corpo de Baile, que tem raríssimas explosões de violência, é um painel variado e pacífico desse mesmo sertão quando não é assolado pela violência armada. 
 
São sete narrativas, que Rosa, com seu típico humor irreverente, classifica como “novelas”, “romances” ou “poemas”, de modo intercambiável. Pouco importam os rótulos acadêmicos. Cada leitor encontra em cada texto o que estiver procurando. 
 
Campo Geral
É a primeira narrativa. Uma história que tem a duração de alguns meses (ou poucos anos) da infância do menino Miguilim, na fazenda do Mutum, com seus pais e irmãos. Miguilim é um menino introspectivo, que pensa muito, tem uma relação difícil com o pai, e uma amizade profunda com o irmãozinho Dito. A família passa por tragédias e momentos difíceis. Um médico de visita à região percebe que Miguilim é míope, empresta-lhe uns óculos, vê como a vida do garoto se ilumina. Ele simpatiza com Miguilim e se oferece para levá-lo para a cidade e pagar seus estudos. 
 
Uma estória de amor (A festa de Manuelzão)
O velho vaqueiro Manuelzão mora na fazenda Samarra, como capataz e administrador. Solitário, calejado pela vida de gado, Manuelzão manda construir uma capela na fazenda, e a inaugura com uma grande festa. Ao longo de dois dias e duas noites, ele recebe (e o autor descreve com fina percepção social e psicológica) dezenas de moradores da região. Manuelzão tem um filho adulto e problemático, tem uma nora atraente, tem um patrão onipresente e distante. Ao longo dessas noites de festa, reavalia sua vida e suas relações pessoais, enquanto se prepara para sair novamente conduzindo uma boiada. 
 
A estória de Lélio e Lina
Lélio é um vaqueiro jovem que chega para trabalhar na fazenda do Pinhém. Ele curte uma desilusão amorosa e procura se consolar apaixonando-se sucessivamente por várias moças da fazenda, cada uma delas com suas seduções e seus inconvenientes. Fica amigo de uma senhora, D. Lina, com idade para ser sua mãe. A fazenda é vendida para novos donos. Lélio e D. Lina acabam indo embora dali para morar juntos, numa relação que o autor descreve à distância, sem revelar muita coisa, mas mostrando como na vida real um rapaz de 25 anos e uma mulher de 70 podem estabelecer o que Shakespeare descreveu como “um matrimônio de almas sinceras”. 
 
O Recado do Morro
Uma expedição científica percorre uma região de Minas. O guia, Pedro Orósio, é um rapaz hercúleo e simplório. A certa altura, perto do Morro da Garça, um velho eremita diz ter escutado o morro falando, mandando um recado para eles. Durante o resto da viagem, esse recado meio absurdo vai sendo repetido, deformado e passado de boca em boca. Na volta, ele é transformado em canção e acaba servindo de aviso a Pedro Orósio, revelando um plano para matá-lo, e isto salva sua vida. Guimarães Rosa descrevia este conto, um dos mais vívidos e enigmáticos de sua obra, como uma ilustração do processo pelo qual uma canção é composta. 
 
Dão-Lalalão
A estória em si dura menos de 24 horas, indo de uma tarde até a manhã seguinte. O fazendeiro (ex-vaqueiro) Soropita mora como rei e senhor em sua fazenda num local remoto; sua esposa, Doralda, é uma ex-prostituta pela qual ele se apaixonou quando a encontrou num bordel de Montes Claros. Num dia comum, Soropita está voltando a cavalo para casa quando encontra na estrada um grupo de vaqueiros, entre eles seu amigo Dalberto. Convida Dalberto para pernoitar em sua fazenda. Sente ciúmes da esposa, devido à presença de Dalberto. Na manhã seguinte desabafa sua fúria e insegurança fazendo ameaças aos amigos deste. Este conto é uma das melhores ilustrações do ciúme masculino em nossa literatura. 
 
Cara-de-Bronze
Numerosos vaqueiros se encontram na fazenda do velho Cara-de-Bronze, um fazendeiro riquíssimo e recluso, meio paralítico. Estão juntando várias boiadas para viajarem juntas. Comentam o fato de que o fazendeiro vive trancado num quarto, mas tem um emissário, o Grivo, que viaja pelo sertão e lhe traz informações de todo tipo. Nesta história, Guimarães Rosa usa um surpreendente arsenal de formas narrativas: roteiro de cinema, peça de teatro, diálogo, versos de cantadores, listas de plantas e de coisas da natureza do sertão. 
 
Buriti
O veterinário Miguel (o menino Miguilim de “Campo Geral”, agora adulto) visita duas fazendas vizinhas e conhece seus donos: Nhô Gualberto, casado com uma mulher doente, e Iô Liodoro, viúvo, que tem duas filhas e está hospedando uma nora, abandonada por um dos seus filhos. É a história mais longa de todo o livro, e seu foco narrativo passa por vários personagens. É contada do ponto de vista de Miguel, e depois se transfere para o ponto de vista de duas moças, Glorinha (uma das filhas) e Lalinha (a nora). Um personagem, Mestre Ezequiel, é um homem excêntrico que de noite náo consegue dormir porque sente estar escutando todos os barulhos das criaturas do mato, o que lhe dá a impressão de ser ameaçado por inimigos invisíveis. 
 
O sertão que Guimarães Rosa descreve em Corpo de Baile está mais próximo do universo variado e surpreendente de Sagarana (1946), o livro de estréia do autor. Ali estão os enredos aparentemente simples mas cheios de labirintos e sutilezas; os personagens rurais dotados de uma psicologia inesperadamente complexa, num tempo em que a chamada “literatura regional” requentava retratos de caipiras simplórios ou abrutalhados. E, acima de tudo, a linguagem inesgotavelmente inventiva do autor, tirando um coelho novo da cartola a cada frase. 
 
Corpo de Baile era um livro enorme, tanto que o próprio autor o subdividiu depois em três volumes que podemos encontrar hoje nas livrarias: Manuelzão e Miguilim (que inclui “Campó Geral” e “Uma estória de amor”), No Urubuquaquá, no Pinhém (“O Recado do Morro”, “Cara de Bronze” e “A estória de Lélio e Lina”) e Noites do Sertão (“Dão-Lalalão” e “Buriti”).