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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

1241) O cilício (6.3.2007)


(Paola Binetti)

Repercutiu na imprensa européia a notícia de que uma senadora italiana faz uso do cilício, um instrumento antigo de mortificação corporal que muita gente supunha desaparecido, mas que voltou à evidência há pouco tempo através de um personagem de O Código Da Vinci, um monge fanático pertencente à Opus Dei que também emprega esse objeto. O cilício pode assumir várias formas, mas geralmente é um cinturão com pregos, agulhas, cacos de vidro ou outros objetos pontiagudos que causam dor. O penitente o usa durante o sono ou durante suas atividades diárias. O objetivo é mortificar a carne, cumprir penitência, fazer recordar a todo instante a idéia de pecado e punição. A senadora Paola Binetti, de 63 anos também pertence à Opus Dei (uma organização cristã ultraconservadora), e usa o cilício sob a forma de uma liga presa à perna.

Disse ela: "A mortificação é um exercício de vontade. Há pessoas que fazem votos, outras passam horas na academia para ficar em forma. E ainda há mulheres que vivem com saltos altíssimos e incômodos". Muitos italianos devem ter se escandalizado diante da revelação da senadora, mas eu não. Qual é o problema? Fé religiosa e sofrimento físico sempre estiveram associados. A dor é uma das muitas maneiras de produzir adrenalina, de provocar uma tensão física e mental que leva o indivíduo a um alto grau de concentração. Os místicos medievais rezavam nus na neve, passavam dias inteiros em posições incômodas, praticavam o jejum, faziam-se chicotear. Os muçulmanos têm ainda hoje cerimônias em que chicoteiam ritmicamente as próprias costas. Romeiros nordestinos carregam pedras na cabeça, sobem de joelhos a escadaria da Penha ou do Horto do Juazeiro. Qual é o problema de amarrar um cilício na coxa?

Há pessoas que acham esquisita esta autoflagelação e a consideram sinal de um distúrbio mental. Essas mesmas pessoas, por outro lado, acham normais certas brincadeiras eróticas de natureza sadomasoquista que antigamente eram tabu mas agora, em nossa época permissiva, aparecem o tempo inteiro no cinema, na TV, nas revistas. Pessoas fazem-se amarrar, algemar, amordaçar; pedem para levar palmadas ou chicotadas... Por que? Ora, pelo mesmo motivo acima. A dor, quando mantida sob controle e em condições de estrita confiança mútua, produz uma adrenalina que intensifica as sensações de prazer. Satisfaz uma necessidade de mortificação física e emocional, e isto produz em algumas pessoas (por motivos que Freud explica) um prazer mais intenso. Elas não o fazem para se agredir mutuamente, mas para dar-se mutuamente uma forma diferente de carinho físico e de satisfação emocional. Pode-se achar que é uma forma meio troncha, mas, e daí? Se eles gostam, é um direito deles. O cilício, para mim, tem seu uso justificado pelas mesmas razões. Se aceitamos que “qualquer maneira de amar vale a pena”, por que não podemos incluir nisto qualquer maneira de amar a Deus?

terça-feira, 7 de abril de 2009

0958) O botão do prazer (12.4.2006)



Em seu utilíssimo livro The Science in Science Fiction (New York, Alfred A. Knopf, 1983), em que examina a base científica de muitas invenções e cenários futuros propostos pela FC, Peter Nicholls refere à página 157, no capítulo “Sonhos e Pesadelos do Futuro”, um curioso experimento de laboratório. Em 1958 o Dr. James Olds localizou no cérebro dos ratos brancos uma área que ele denominou de “centro de prazer”. Quando estimulada eletricamente, esta área parecia capaz de provocar no animal uma sensação intensamente agradável.

O Dr. Olds plugou nos crânios dos ratos alguns fios ligados a este centro-de-prazer, e os trancou em pequenas cabines onde havia uma barrazinha metálica que, uma vez pressionada, produzia uma leve descarga elétrica no fio. Ou seja, cada vez que o rato erguia as patinhas e apertava a barra, sentia um prazer intenso. Num dos experimentos, um rato pressionou a barra cerca de duas mil vezes por hora, durante 24 horas seguidas, sem parar sequer para comer ou beber, e depois perdeu os sentidos, dormindo durante todo o dia seguinte. Nicholls comenta que, do ponto da vista da ficção científica, isto nos leva a imaginar sociedades futuras onde “tarefas sem sentido sejam obsessivamente repetidas através do engodo de sensações agradáveis produzidas diretamente no cérebro”.

Pelo que vejo, no meio século seguinte a Ciência do Prazer evoluiu bastante. Plugues elétricos no cérebro são complicados de executar, mas aí está a indústria químico-farmacêutica, com seus estimulantes e anti-depressivos; drogas legais como o Prozac ou ilegais como o ecstasy; e assim por diante. Não é impossível contudo, que a tecnologia da Realidade Virtual (com seus capacetes, óculos, fones, luvas, sensores corporais) venha a assimilar algo desse princípio.

Não é absurdo supor que no futuro existam, por exemplo, Bordéis Virtuais onde o sujeito se inscreve, paga uma taxa, vai para um quarto e ali entra num escafandro cheio de eletrodos. No interior do capacete ele terá estímulos visuais, auditivos, e uma estimulação dos centros de prazer do cérebro, enquanto no restante da “vestimenta” recebe pequenos impulsos elétricos que lhe dêem a ilusão de movimento, de tato, de contato. Ele se sentirá tendo relações com uma mulher escolhida num “menu” oferecido pela gerência, e, como nas jogos eletrônicos, tanto pode escolher parceiras pré-programadas (que podem incluir atrizes, modelos famosas, etc.) como pode configurar sua própria “receita de mulher”.

Mais do que as “tarefas sem sentido obsessivamente repetidas” sugeridas por Peter Nicholls, me parece que uma cultura hedonista, permissiva e narcisista como a nossa tenderá a usar esse “botão do prazer”, conjugado a estímulos químicos e ambientações virtuais, para criar uma Indústria do Desejo não muito diferente da Máquina do Sexo do filme Barbarella ou das engenhocas eróticas imaginadas por Tomi Ungerer.

terça-feira, 27 de maio de 2008

0404) Abaixo o prazer (6.7.2004)




("El Hedonismo" de Ana Roldán)

Em artigos recentes meti o porrete em vacas sagradas como a Liberdade e a Amizade. Apertem os cintos, porque hoje vou desancar o Prazer, este conceito que, usado de uma maneira distorcida e maléfica, está estragando o mundo. Não pensem que sou masoquista ou que quero transformar a vida num vale de lágrimas ou num muro das lamentações. O prazer é importantíssimo na minha vida. É tão fundamental quanto, digamos, o café recém-passado. Mas minha mãe sempre disse, sabiamente, que “tudo demais é veneno”. E prazer demais é o que está envenenando nossos conceitos, nossa sociedade, nossa vida em comum. Erigiu-se o prazer como um Bem em si, como a finalidade principal da vida, como um direito de todos. Até aí tudo bem, mas parece que a primeira consequência que todo mundo tira disto é que o Prazer é um fim que justifica quaisquer meios. O que vemos, então, é uma busca frenética e desenfreada do prazer a todo custo.

É a busca do Prazer, por exemplo, que alimenta toda a indústria da corrupção, que faz do Brasil um dos países onde mais se rouba no mundo. Cada máfia administrativa que é desmascarada pela imprensa e pelo Ministério Público tem à frente uma dúzia de indivíduos que à primeira vista parecem sequiosos de fortuna, de poder. Mas se a gente observar bem, eles são apenas a ponta de um iceberg de parentes, amigos e apaniguados que prosperam às suas custas. O dinheiro acumulado nos golpes e nas falcatruas tem como destino final viagens para Miami, noitadas em Las Vegas, cruzeiros pelo Caribe, ou sei lá como é que esse povo se diverte. O fraudador ou o desviador de verbas é um dos grandes acionistas da indústria do lazer, da boa-vida, da ostentação, do gasto supérfluo. (Sim, eu sei – gente honesta também gosta disso, mas tenho a impressão de que gente trambiqueira gosta muito mais.)

E o que dizer da indústria da droga? Algumas pessoas usam drogas por modismo, outras por status; mas a esmagadora maioria usa por prazer. A droga proporciona um prazer intenso, instantâneo, sem compromisso, e facilmente repetível – desde que você tenha grana para comprá-la indefinidamente. É este último quesito que transforma a droga num problema social, porque se o sujeito quisesse apenas entupir-se dela até cair duro era problema só dele.

Criamos uma civilização baseada no prazer, e não há nada mais egoísta do que o prazer, ou pelo menos, o tipo de prazer instantâneo que nossa civilização estabeleceu como modelo – na publicidade, e na indústria do lazer e do entretenimento. Criamos uma civilização suicida. Em 1958, o psicólogo James Ochs prendeu um eletrodo aos centros de prazer do cérebro de um rato, os quais eram estimulados quando o rato apertava uma barrinha metálica na jaula. Houve o caso de um rato que apertou a barra numa média de 2 mil vezes por hora, durante mais de 24 horas, sem parar para comer ou beber, até cair de exaustão. Guardadas as devidas proporções, é o que as elites brasileiras estão fazendo.