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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

3702) Colecionar livros (4.1.2015)



Ser colecionador de livros não é comprar tudo que aparece pela frente. 

O colecionador de verdade entra muitas vezes num sebo atrás do outro e sai de mãos vazias, por orgulhoso amor à arte.  

Ele reconhece, numa prateleira de livraria a três metros de altura, uma lombada que não vê há trinta anos, e aponta: “Aquele ali”.  

Ele completa uma coleção específica (uma Futurâmica, uma Vagalume, uma Os Audazes) e continua em busca, para a lenta substituição dos volumes mais estragados por outros mais apresentáveis.  

Ele vai passando de ônibus num bairro desconhecido, vê de relance uma livraria, salta, entra, e sai de lá com uma preciosidade caída como um raio em céu azul.

O colecionador de verdade olha para suas estantes e considera a sério a possibilidade de começar a guardar livros no corredor do prédio, no elevador. 

Ele ouve a pergunta-padrão: “Você já leu esses livros todos?” e responde: “Sim, agora estou relendo”.  

Ele tem o mesmo livro em cinco versões diferentes: uma 1ª. edição, uma cópia autografada pelo autor, um exemplar para ler metendo a caneta, outro com uma capa que vou-te-contar, e uma edição eletrônica para fazer buscas rápidas. 

Ele tem a ousadia de botar dois livros improvavelmente lado a lado na estante, e sabe que isso é uma pequena obra de arte conceitual. 

Ele separa para doação 200 livros inúteis, e no dia seguinte traz metade deles de volta às estantes, porque foram reavaliados e achados imprescindíveis.

O colecionador não consegue esquecer até hoje o livro raríssimo e caríssimo visto num sebo e deixado para comprar no dia seguinte, quando, é claro, já não havia mais sinal dele. 

Ele tem uma primeira edição rara, toda estropiada e dilacerada, e não sabe se encaderná-la é um benefício ou um sacrilégio.  

Ele para numa calçada onde há uma lona coberta de livros, avista uma preciosidade largada por entre o resto, pensa: “Até 150 reais eu pago”, pergunta quanto é, e o cara responde com um muxoxo: “Tá velhinho... me dá 1 real.”

O colecionador encontra no sebo, numa daquelas prateleiras rente-ao-chão, um livro estranho, ininteligível, de autor ignorado, sobre tema controverso, folheia, fica perturbado, leva pra casa, e meses depois esse livro torna-se a única vítima de um inusitado e nunca repetido ataque de cupins. 

Ele viaja pelo mundo e tem o hábito de, em cada cidade por onde passa, comprar pelo menos um livro que vai ficar associado àquela cidade em sua memória.  

Ele folheia seus livros ao acaso e encontra entre as páginas fotos, flores secas, sedas, ingressos de teatro ou cinema, bilhetes, pequenos souvenires que valem, cada um, um livro inteiro – tal como cada livro vale uma biblioteca.





quarta-feira, 18 de junho de 2014

3528) Relíquias (18.6.2014)




Nos livros de capa-e-espada ou de aventuras de cavalaria apareciam com frequência (geralmente numa cena de rua, de feira, cheia de pessoas anônimas) os vendedores de relíquias. Um cacho de cabelo de São Fulano, uma unha de São Sicrano, um retalho do lençol com que São Beltrano se cobria...  

As pessoas mais pobres pagavam, apertavam a relíquia de encontro ao peito e saíam tomadas por um otimismo devastador.

Um cronista desabusado comentou: 

“Na Europa, nos últimos cinquenta anos, já foram vendidos pedaços da verdadeira cruz de Cristo em tal quantidade que daria para construir com essa madeira uma esquadra inteira de navios. ‘Cravos da verdadeira cruz’ são tão numerosos que dariam para crucificar um país inteiro.”  

E no entanto as pessoas compravam, e compram ainda hoje, as relíquias mais diversas. Não me refiro a imagens e símbolos em geral, mas à relíquia de caráter único, que esteve ligada à pessoa do santo de maneira muito próxima ou muito significativa. Ou uma parte do corpo dele.

Curiosamente, a ciência moderna produziu sua própria cultura de relíquias. Há indivíduos que ao morrer deixam sêmen congelado para poderem fecundar mulheres cem anos depois de mortos.  Outros deixam amostras de sangue, de cabelo, de tecidos: para que ali se conserve o seu DNA e, num possível futuro, alguém possa produzir um clone que seja para eles uma ressurreição parcial. 

(Isso funcionaria mais para os descendentes do que para ele. Os bisnetos poderiam se auto-iludir: “Meu bisavô está de volta!”, mas ele saberia que não era o mesmo.)

Recolher DNA de amostras humanas para produzir um clone de alguém é uma idéia recente, mas quem nos garante que já não estava presente na antiguidade.  Podemos imaginar uma rede secreta de viajantes no Tempo que eventualmente, no meio dos seus contatos com os “nativos”, aconselham: “Guardem relíquias das pessoas importantes. Guardem amostras do sangue num frasco, guardem cabelo, unhas, crânios, tecidos mumificados, tudo que puder ser preservado, e que seja autenticamente daquela pessoa.  Um dia isso terá utilidade.”

E podemos imaginar também a existência de corredores transversais no tempo, ligando universos paralelos e contíguos, fazendo com que relíquias de um sejam contrabandeadas para outro. 

Isso justificaria a piada do sujeito que vê num museu um esqueleto adulto com a placa “Esqueleto de São Francisco” e um esqueleto de criança com a placa “Esqueleto de São Francisco aos cinco anos”. O mercado transdimensional de relíquias está de vento em popa. 

Por exemplo, um bilionário russo de outro universo está colecionando esqueletos de Bin Laden.






terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

3119) "O céu dos suicidas" (26.2.2013)






Já falei aqui, de vez em quando, num tipo de sujeitos que em Campina Grande a gente chama de “pertubados” (assim mesmo, sem um R). O “pertubado” é o sujeito atormentado por algo que nem ele nem ninguém sabe o que é. Uma infelicidade que o rói por dentro e o deixa instável, sujeito a ataques súbitos de irritação ou de fúria inexplicável. É um cara à beira de um ataque, eu não diria de nervos, mas de violência que ele próprio, no dia seguinte, não vai compreender. Há alguns retratos de “pertubados” na literatura. Charles Bukowski, Campos de Carvalho, Rubem Fonseca são os primeiros autores que me ocorrem que já mostraram personagens assim – problemas ambulantes, frascos de nitroglicerina prontos a explodir ao menor solavanco.

Um exemplo recente é o protagonista de O céu dos suicidas de Ricardo Lísias (Alfaguara, 2012), que tem o mesmo nome do autor. É um desses romances que correm o perigo de serem abandonados logo no começo da leitura, porque as primeiras 40 páginas são de uma tremenda monotonia. O cara é colecionador de selos, de tampinhas de garrafa, de outras coisas; é meio introvertido e macambúzio, e fala o tempo inteiro em coisas irrelevantes, repisando insistentemente detalhas sobre suas coleções... Todo colecionador faz isso; sou meio colecionador também, e conheço a compulsão de comentar, com estranhos, coisas que não lhes interessa nem um pouco. O livro vai se arrastando... até que Ricardo tem a primeira explosão.

Só nesse momento percebemos o que acontecia por trás daquela dureza, daquela falta de jogo de cintura. Revela-se que Ricardo é um transtornado, ovelha negra da família, criador de problemas, desencadeador de crises. Um dos motivos disso é o fato de ter expulsado do apartamento seu melhor amigo, André, que se enforcou dias depois. Ricardo acha que a culpa é dele, e uma dúvida o corrói: os suicidas vão para o céu?

A linguagem do autor faz o tempo inteiro, com enorme controle, um movimento de prende-e-solta, mostrando a auto-contenção de Ricardo tentando viver uma vida normal até que alguém diz uma vírgula fora do lugar e ele derrama sobre o interlocutor atônito uma saraivada de palavrões cabeludos e de insultos humilhantes. Poucas vezes a mente do “pertubado” foi descrita, ou melhor, reconstituída com tanta verossimilhança. É difícil não se comover com a tragédia de um rapaz que não é mau, mas cruza a vida como uma catástrofe engatilhada para si e para os outros. “O céu dos suicidas” é um romance (uma noveleta, na verdade) de capítulos todos do mesmo tamanho, como itens de coleção dispostos lado a lado para atenuar o tumulto de revolta e desorientação que ferve sob a superfície.



quarta-feira, 9 de junho de 2010

2127) A sanfona de Sivuca (1.1.2010)




(Sivuca, por Leo Martins)

Vi esta história numa crônica de Itamar Assière no Jornal Musical e passo adiante conforme a li. O saudoso Sivuca, como todo mundo sabe, era gente fina, um sujeito de ótimo coração, cordial com todos, paciente com todos, apesar do seu jeitão meio arredio. 

Conta o cronista que certa vez o telefone de Sivuca começou a tocar, e era uma fã querendo propor um negócio a ele. Sua esposa Glorinha transmitiu-lhe o recado: a fã queria vender a sanfona. 

Ora, Sivuca já tinha sanfona para show, para gravação, para tocar em casa... Músicos gostam de ter vários instrumentos, para necessidades diferentes. Tenho amigos que têm meia dúzia de violões em casa: acústico, elétrico, de nylon, de aço, de 6 cordas, de 12, guitarra... Sivuca agradeceu à fã e disse que não precisava.

Ela deu vários telefonemas, insistindo para que o maestro lhe comprasse a sanfona, até que Sivuca cedeu e disse à esposa: 

“Vamos trazê-la aqui, e encerrar essa história. Se a sanfona for boa e valer a pena comprar, eu lhe peço um copo dágua. Se eu não pedir, é sinal para mandá-la embora com a sanfona”. 

A visitante veio no dia combinado, foi recebida na sala, abriu a caixa que trouxera. Sivuca quase caiu para trás ao ver (segundo o artigo) uma sanfona Scandali IV-4S, de “baixo amarelo”, uma preciosidade antiga – e praticamente intacta, inclusive a caixa. A visitante explicou que o pai lhe dera o instrumento quando ela era pequena, querendo que a filha aprendesse. 

“Mas eu não tenho jeito pra tocar”, disse ela, “e queria que a sanfona ficasse com alguém que sabe”. 

Sivuca engoliu em seco e gritou lá pra dentro: “Glorinha, traga um balde dágua, geladíssima, porque eu tô aqui me acabando de sede!!!”.

O remate da história é que a tal senhora, que não era do ramo, pediu um preço muito baixo pelo instrumento. Sivuca explicou que ele valia três vezes mais, e pagou-lhe o preço que considerou justo. 

O episódio é curioso porque ele retrata o sonho dourado de todo colecionador: encontrar um tesouro nas mãos de um vendedor inocente que pede por ele um preço de banana. 

No caso de uma negociação personalizada como essa, e diante de uma pessoa que visivelmente está de boa fé, não há como negar que Sivuca procedeu corretamente, e ainda saiu ganhando. Se encontrasse a sanfona nas mãos de uma “raposa” do ramo, talvez tivesse que pagar o dobro do que acabou pagando.

Uma vez parei numa calçada do Catete e fiquei avaliando os livros espalhados na lona. Examinei alguns (os preços estavam marcados a lápis) e perguntei o preço de um volume em capa dura, que não tinha preço anotado e valeria uns 15 reais. O vendedor olhou para minha roupa, meus sapatos, a pasta que eu segurava, e cobrou 50 reais. 

Agradeci, botei o livro lá e acabei levando outro que estava do lado, por um real. Era uma primeira edição de Os Prisioneiros de Rubem Fonseca, pela qual eu pagaria de bom grado até mais do que 50, se o cara não tivesse bancado o esperto.






quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

1484) “Utz” (15.12.2007)


Este esguio romance de Bruce Chatwin tem o encanto indefinível das narrativas que parecem no umbral de um gênero, mas não dão o passo decisivo que as deixaria aprisionadas dentro da armadilha de uma convenção literária. Utz é uma biografia romanceada? Ou a história da vida de um indivíduo imaginário? É um livro sobre a Guerra Fria? Sobre a psicologia do colecionador? É a improvável história de amor entre um patrão e uma criada de meia idade?

Kaspar Utz foi um judeu tcheco, com parentes vagamente nobres, que ainda jovem começou a colecionar porcelanas de Meissen, um tipo de porcelana de extrema pureza que produz peças belíssimas. Não era rico, mas formou sua coleção aproveitando a bancarrota alheia: “Guerras, pogroms e revoluções oferecem excelentes oportunidades para o colecionador”. (Assis Chateaubriand e o Masp que o digam.) Vivendo sob o regime comunista em Praga, Utz consegue freqüentes salvo-condutos para ir à França, pretextando tratamento médico. Poderia fugir, não voltar nunca mais. Por que não o faz? Para não perder sua coleção.

A história começa com o funeral de Utz e a narração de como os dois se conheceram. (O livro é narrado na primeira pessoa; Chatwin é um desses jornalistas-autores que nunca nos dão certeza do quanto é fato e do quanto é ficção em seus relatos.) Ele é apresentado a Utz, conhece sua primorosa coleção, percebe a relação esquisita de Utz com sua fidelíssima e mal-humorada governanta. Utz o recebe meio a contragosto. Os dois discutem a obra de Kafka, discutem política, discutem alquimia, discutem a lenda do Golem (o homem artificial criado do barro, como as peças de porcelana), ironizam os europeus ocidentais que vão à Tchecoslováquia para analisar os dissidentes políticos como se estes fossem espécies em extinção.

Chatwin tem um estilo enxuto, compacto, e nas 134 páginas do livro (Companhia das Letras, 1990) cria este personagem antipático e fascinante. Seu romance é a história de um fanático que a certa altura da vida, por motivos inexplicáveis, deixa sua maior obsessão se perder. Após a morte de Utz, ninguém (nem mesmo as autoridades comunistas) tem a menor idéia do que foi feito de sua coleção, desaparecida tão misteriosamente quanto o famoso Salão de Âmbar russo, um tesouro que sumiu, não se sabe onde, nem como, nem através de quem, durante a II Guerra Mundial.

O estilo de Chatwin neste livro é notável. É como se ele tivesse escrito um livro de 600 páginas, por alguma razão não pudesse publicá-lo, e tivesse resumido cada um dos seus parágrafos numa frase. Tudo é curto. Mesmo as cenas de vinte páginas nos dão a impressão de terem sido muito mais longas. Tudo aparece ali resumido, condensado, concentrado em frases límpidas, claras, que dão uma informação, passam para a próxima e não tocam mais no assunto. Não parece um romance, geralmente um gênero acumulativo, em que as informações são reiteradas de diferentes formas. O livro de Chatwin é o contrário disto.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0041) O colecionador (9.5.2003)

Já vi gente colecionar as coisas mais diferentes. Rótulos de refrigerante, garrafas de cachaça, latas de cerveja, flâmulas, chaveiros, tampas de garrafas, caixinhas de música, marcadores de livro, selos, moedas e cédulas antigas... Se você perguntar por que ele coleciona aquilo, e não outra coisa, o sujeito vai dar de ombros. No fundo, seu trauma benigno é mais o ato de colecionar do que a natureza da coleção. Se um dia um incêndio destruir sua coleção de caixas de fósforos promocionais, ele vai começar a colecionar mini-calendários.

Colecionar “livros” ou “discos” é muito vago, e em geral os maníacos preferem definir subconjuntos específicos, que possam ser completados. Muitos leitores de ficção científica têm como hobby reunir os mais de 500 volumes da Colecção Argonauta, de Portugal, que durante muitos anos comprei na saudosa Livraria Pedrosa, desde que aos catorze encontrei ali o número 55, “Os frutos dourados do sol”, de Ray Bradbury. Meu amigo José Fernandes conseguiu completá-la. A euforia subseqüente foi substituída por uma depressão: e agora, faço o quê? Resposta: começou uma segunda coleção Argonauta, que vai de vento em pôpa. Não é muito diferente do inesquecível Jakson Agra, que tinha duas coleções completas dos Beatles, uma para ouvir, a outra para guardar.

Quem coleciona tem em geral uma mentalidade classificatória, estatística, lexicográfica. Adora tabelas e índices remissivos. Adora organizar, comparar listas. Colecionadores trazem sempre no bolso a famosa “lista de faltas”, os números que faltam para preencher sua coleção. Nos sebos, podem ser reconhecidos com facilidade. Entram, vão direto à estante específica, percorrem com o olhar e o dedo toda a prateleira, e ao se deparar com algo novo puxam a carteira, conferem a lista de faltas, pegam a preciosidade e vão direto ao caixa. Em casa puxam a caneta e riscam um X sobre aquele número. Um a menos!

Meu pai tinha um amigo em Recife que colecionava o primeiro número (“Ano I, no 1”) de qualquer publicação que aparecesse. Quem faz coleções desse tipo não tem muito a ver com, digamos, o milionário que coleciona quadros. Neste caso, trata-se de um investimento, de guardar obras que se valorizam com o tempo. Mas, colecionar postais? Bonés de times de futebol? Miniaturas de bebidas? O que move esses indivíduos é algo além do lucro material, até porque eles sabem muito bem que quando morrerem a viúva vai vender aquilo por uma merreca, em menos de um mês.

É ao espírito dos colecionadores que a História humana deve muita coisa. Muito do que sabemos hoje sobre a Idade Média ou a Antiguidade não se deve somente aos documentos preservados em mosteiros ou bibliotecas, mas ao fato de que naquelas épocas remotas já havia gente que colecionava vasos de barro, rolos de papiro, imagens rituais. O colecionador está, talvez, cumprindo um ritual gravado a ferro e fogo no DNA da espécie. “Junte, guarde, não jogue fora. Um dia, alguém pode precisar.”

0025) Posso pedir seu autógrafo? (20.4.2003)

Num amistoso recente, os jogadores da Seleção foram assediados no hotel por caçadores profissionais de autógrafos, gente que pega um avião de Londres para Lisboa para pegar dezenas de assinaturas... do mesmo jogador. Os caras dizem que são colecionadores. Devem ser colecionadores de dólares, isso sim, porque do jeito que tem gente besta no mundo deve existir muito jovem bobo e endinheirado disposto a pagar 100 ou 200 por uma foto de Ronaldo com o nome rabiscado pelo próprio.

Não vou comentar a atividade desses espertalhões, porque isso é apenas a essência do comércio: servir de intermediário entre a sede e o copo dágua. Como no tráfico de drogas, tem gente vendendo porque tem gente comprando, e vice-versa. Mas no presente caso, é a “gente comprando” que me interessa mais. Por que alguém paga a maior grana por um pedaço de papel com um nome escrito?

Se me caísse nas mãos um autógrafo de, digamos, Carlos Drummond de Andrade, eu iria ver aquele papelucho com o deslumbramento ameninado e fetichista de qualquer fã: “Eita, ele pegou nesse papel... encostou a caneta aqui... escreveu...” Funciona aí a magia por contato: um objeto tocado por alguém especial capta a sua aura, conserva-a, transmite um pouco dela para cada pessoa que o tocar também. Daí a mitologia das relíquias: o cálice em que Jesus bebeu, a cama em que o Imperador dormiu, a caneta com que o Presidente assinou o documento... A cultura de massas extrapolou essa tendência até os limites do ridículo. Houve um hotel que vendeu pedacinhos dos lençóis usados pelos Beatles quando se hospedaram lá (dizem que continua vendendo até hoje). A grama do Estádio de Wembley foi repartida em quadrados e vendida a colecionadores. Eu fico pensando que quem compra esses troços é gente que tem no quartinho dos fundos uma máquina de imprimir dinheiro.

O melhor autógrafo, no entanto, é o personalizado. “Para o grande poeta Braulio Tavares, um abraço do seu amigo e admirador, William Shakespeare...” Que tal?! Conheço gente que venderia a avó para ter um papelzinho assim, firmado por um famosão qualquer. O problema é que a imensa maioria dos autógrafos “personalizados” é dada mecanicamente, num aeroporto, num coquetel, num camarim... “Para Valdirene, um beijão de Roberto Carlos”. Valdirene vai passar o resto da vida convencida de que não apenas conhece o Rei, mas o Rei também a conhece, e se um dia alguém perguntar, ele vai responder: “Valdirene? Claro, é uma fã minha, dei um autógrafo a ela quando cantei em Palmeira dos Índios em 1979...” E Valdirene vai sonhando.

E sonho eu também, todos sonhamos que somos especiais porque alguém que a televisão considera mais especial do que os outros perdeu 15 segundos de seu tempo para rabiscar seu nome num papelzinho. São os nossos 15 segundos de fama, mas que rendem dividendos de fantasia para o resto de muitas vidas. Eu que o diga, que quando estou meio macambúzio vou reler as dedicatórias nas minhas estantes.