Mostrando postagens com marcador Zé Limeira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Zé Limeira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

4648) A Internet de Zé Limeira (4.12.2020)




(Salvador Dali, "Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha em Volta de uma Romã Um Segundo Antes de Acordar")

Podemos propor como hipótese de trabalho a idéia de que a Internet, a World Wide Web e as Redes Sociais foram criadas a fim de refinar alguns conceitos básicos do pensamento humano: o Acaso, o Significado, o Feedback, a Mediação Entre Dois Pontos Que Não Se Tocam, a Substituição Do Silogismo Causal Pelo Non-Sequitur Como Fator de Iluminação e Satori.
 
Acho que fui longe; voltemos ao ponto de partida. A mente humana (disse famosamente Philip K. Dick) anseia por significado com a mesma intensidade com que seu corpo anseia por H2O. Sem a cola do significado, a mente humana se desfaz como farofa ao vento.
 
Daí que desde muito cedo aprendemos algumas das palavras essenciais para essa junção dos pedaços soltos do mundo, das impressões sensoriais que nos assaltam desde o nascimento, ou até antes. Não devemos nunca subestimar as façanhas intelectuais das nossas crianças, que lhes permitem absorver, entender, conceituar e pôr em prática palavras como “se não”, “também”, “porém”, “nunca”, “contra”, “mais ou menos”...
 
O cérebro capaz de assimilar conceitos assim é capaz de tudo. Vamos e venhamos, mostrar uma casa e ensinar “Casa!”, mostrar um cachorro e ensinar “Cachorro!”, mostrar uma bola e ensinar “Bola!” é bolinho perto do ensino de sutilezas como “de vez em quando”.
 
À medida que o mundo se torna mais complexo, precisamos de mais palavras assim, de mais “operadores” como dizem os teóricos, palavras que não se referem a seres ou objetos, concretos ou abstratos, mas palavra que implicam em modificações específicas dos enunciados que acompanham.
 
Uma coisa é dizer: “Eu gosto de ver futebol na TV”. Outra coisa é dizer: “Eu nem sempre gosto de ver futebol na TV”.  Seu filho tem dois ou três anos e fica ali caladinho, tentando digerir essa aparente contradição. E consegue. Eu e você não conseguimos?
 
Minha proposta teórica é que o contato entre mentes distantes, conectadas apenas pelos fios virtuais do curtir e comentar, está produzindo um novo tipo de mentalidade coletiva em que associações de idéias extremamente rápidas são feitas por pessoas de culturas diferentes, idades diferentes, repertórios de informação diferentes.
 
Isso pode significar um avanço gigantesco em nossa capacidade de processar dados, de estabelecer os significados pelos quais Philip K. Dick tanto ansiava. Pode ser o deflagrar de uma nova rede neurológica mundial (em termos metafóricos, claro) onde os cérebros individuais, mesmo os mais privilegiados, os grandes filósofos, os grandes cientistas, serão meros ticos-e-tecos dessa gigantesca teia por onde as idéias serão geradas e circuladas.
 
Daí o fato de que os comentários em postagens de blog e em chats ao vivo e em redes sociais assuma muitas vezes a aparência disjuntada de um koan dos mestres Zen-budistas. Estaremos criando uma geração inteira de Zé-bundistas, como escarnecia Mário de Andrade?! 
 
O koan é aquela frase enigmática com que o mestre responde à pergunta de um discípulo, mergulhando o "pobe" numa perplexidade tão grande que o deixa a um passo da Iluminação. O discípulo pergunta: “Mestre, como posso encontrar o caminho da perfeição?”  E o Mestre responde: “Quando a chuva cai, o sapo fica contente”.
 
Eu vivo me deparando com respostas assim, aleatoriamente encorajadas pelas redes sociais.

Uma vez postei um comentário que dizia: 

“Meu problema com a literatura de José de Alencar não é sua escolha dos temas, que são épicos e vibrantes, mas do vocabulário, que é alambicado e dulçuroso”.
 
Tentativa boba de ser engraçadinho às custas de um falecido, mas recebi, entre outras de teor comum, uma resposta que não me saiu até hoje do juízo:
 
Alencar! Fala-se de Alencar como se o voluntarismo de um político não escondesse mais que uma pragmática de bolsos-sem-fundo. Para que perder tempo com esse tipo de maiêutica? Onde fica José Verissimo nesta equação?!
 
Depois que esse koan me desabou na cabeça passei três dias sem entrar no Facebook, somente pensando, o que me fez bem. E folheando a História da Literatura Brasileira de José Verissimo, cujo estilo e pensamento respeito bastante, apesar de muito pincenez, muita pena-de-ganso. Encontrei umas dez respostas; mas para perguntas outras.
 
De outra vez, comentei alguma coisa relativa à política da Europa Ocidental, que eu, que conservo minha ingenuidade intacta apesar de tantos anos, ainda sonho em ver unida e diferenciada. E me vem um distante conhecido com essa intervenção:
 
O imperador romano que perguntava pela própria alma não estava muito distante dos iludidos de hoje. Como se câmbio e políticas monetárias resolvessem tudo. Lamentável.
 
Li certa vez um artigo muito interessante dizendo que uma das coisas mentalmente mais estimulantes é a leitura da poesia surrealista clássica. Num laboratório, foram feitos diferentes grupos, cujas pessoas recebiam tipos diferentes de leitura, e nos intervalos submetiam-se a testes.
 
Ficou comprovado que as pessoas que obtinham índices mais altos nos testes, ou seja, a que estavam com as mentes mais “acesas”, mais rápidas, mais eficazes, eram as que estavam lendo a poesia aparentemente absurda e sem-sentido desses autores como André Breton, Paul Éluard, Louis Aragon, Benjamin Péret...
 
O autor do artigo propunha a explicação de que ler poemas aparentemente absurdos forçava a mente do leitor e procurar (e eventualmente encontrar) conexões de sentido, interpretações do tipo “Ele está querendo dizer que...”, o que, se nem sempre é correto do ponto de vista propriamente literário, não deixa de ser um exercício mental útil.
 
Exercício que eu ponho em prática agora, quando critico algum desses zagueiros do Flamengo e recebo:
 
Caro amigo, o junco se curva à tempestade, e são os caibros de carvalho que se despedaçam. Pense Getúlio, pense Washington Luís. O valor de um cheque não está no numerário, e sim na assinatura.
 
Toda vez que a mente humana se depara com um Non Sequitur – proposições que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra, mas são apresentadas como se tivessem – ela produz um esforço extra capaz de gerar (estou delirando, mas é o calor) cadeias de sinapses específicas que não se desfazem quando a mente muda de assunto. Essas sinapses cumprem sua função momentânea e recolhem-se, de reserva, esperando o momento em que serão convocadas de novo para explicar outra proposição aleatória qualquer.
 
Já dizia Benjamin Péret:
 
Minha cabeça de lixa de papel esfregando-se à beça nas bordas de uma taça de cristal
feita à tua imagem de ave que um javali impede de alçar o primeiro voo
está cheia da fina chuva dos teus olhos semelhantes a duas laranjas que nunca serão colhidas
teus olhos que talvez são pedra despedaçada como árvore fulminada
tudo igual ao pequeno coração que tenho no meu bolso
encostado num fogareiro mais vermelho que um zepelim em chamas.
(em Amor Sublime, Brasiliense, trad. Antonio Houaiss)
 
Já nos ensinava Zé Limeira:
 
Eu me chamo Zé Limeira
de Lima Limão Limança;
a estrada de São Bento
bezerro de vaca mansa,
valha-me Nossa Senhora
‘tão bombardeando a França.
 
E eu só gosto dessa moça
porque tem vegetação,
porteira de pau-a-pique,
três pneus de caminhão,
peido de jumenta ruça...
e haja chuva no Sertão!
 
 
 
 
 







quarta-feira, 7 de novembro de 2018

4402) Lembranças de Zé Limeira (7.11.2018)




De vez em quando eu digo a alguém que sou de Campina Grande e a pessoa diz: “Ah, então me fala alguma coisa sobre Zé Limeira... Ele era como?!”

Eu sou velho, mas pegue leve. Zé Limeira, de acordo com o indispensável Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, dos meus mestres e amigos Átila Almeida e José Alves Sobrinho, faleceu no já longínquo ano de 1955.

Quem sabe maiores detalhes sobre a vida real dele é o poeta Astier Basílio, que está preparando uma biografia de Orlando Tejo. Tejo foi “O Homem Que Viu Zé Limeira”, conforme o título do excelente documentário de Maurício Melo Júnior, que pode ser assistido aqui:

Limeira ficou conhecido como “o Poeta do Absurdo” por versos cheios de disparates impecavelmente rimados e metrificados como estes:

Eu me chamo Zé Limeira
de Lima Limão Limança;
a estrada de São Bento
bezerro de vaca mansa...
Valha-me Nossa Senhora,
tão bombardeando a França!

Eu já cantei no Recife
perto do Pronto Socorro:
ganhei duzentos mil-réis
comprei duzentos cachorro;
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro.

Eu só gosto dessa moça
porque tem vegetação,
porteira de pau-a-pique,
três pneus de caminhão,
peido de jumenta ruça...
e haja chuva no Sertão!

Eram versos que, nos meus 10, 11 anos, meu pai recitava para gargalhada geral nas noitadas boêmias do terraço da nossa casa no Alto Branco.

Orlando Tejo transformou Limeira em mito com seu livro Zé Limeira, Poeta do Absurdo (1973). É um livro irregular e brilhante, talvez o mais criativo já escrito sobre a poética dos cantadores. O “livro sobre cantadores” geralmente se desenvolve na chave do relato jornalístico e documental (registro de versos), com uma ou outra incursão descritiva do ambiente, ou rememoração lírica.

Tejo projetou nesse gênero tão severo uma dose inesperada de humor, doidice e inverossimilhança. E ao mesmo tempo uma dose de prosa de ficção, porque quando começa a contar um fato o homem se entusiasma, e a prosa se apossa dele e leva a história pra onde bem entende.

O capítulo 11 registra muitos versos e os encaixa num leve romancear que dá mais vida ao relato. Em muitos trechos de Tejo, a gente chega a se esquecer e a ler aquilo como um romance. Isso não ocorre nos relatos de cantoria. Nem mesmo dos que mais caprichavam na parte narrativa, como F. Coutinho Filho ou Leonardo Mota. Já Orlando Tejo, nesses trechos, se emparelha com Oliveira Paiva e sua descrição de festejos de fazenda, em Dona Guidinha do Poço.

O capítulo 13, “Pela última vez em Campina”, reconstitui uma longa cantoria entre Limeira e José Gonçalves, num cabaré da feira, num belo momento da prosa urbana. De fato, um leitor preguiçoso dos folcloristas tradicionais se espantaria com este parágrafo de Tejo, descrevendo o amanhecer do dia, quando os cantadores começam a se despedir:

A cidade despertava ao berro metálico das sirenes, o operariado – termostato da máquina do desenvolvimento – deslocando-se dos subúrbios para a faina do dia-a-dia, lotando os coletivos, apinhando as calçadas, chegando para as fábricas. Era o atendimento à voz das chaminés que na sua multiplicidade saturavam os céus da metrópole dos sertões nordestinos, turvando de progresso o alto da paisagem serrana.

Tejo retrata e recompõe a cantoria urbana com a mesma fluência com que resgata e reafirma o perfil da cantoria de sítio, a cantoria de vilarejo. Não sei se esse parque industrial todo já fazia parte da Campina Grande pré-1955, ou se isso já era o Tejo dos anos 1970 finalizando o livro e se entusiasmando ao teclado; pouco importa. A cantoria hoje é assim.

A parte com que eu implico no livro de Tejo é o capítulo 5, “O Poeta do Absurdo e o Absurdo dos Poetas”, quando ele começa a implicar com a poesia modernista em geral. Como poeta, Tejo era um híbrido de parnasiano e cordelista. Para improvisar um soneto bastava que lhe botassem lápis e papel na frente. Se fosse soneto de patifaria, melhor ainda.

Nessa parte do livro ele adota a tática de, para elogiar as doidices de Limeira, mostrar que os poetas ditos eruditos eram autores de disparates maiores do que os do cantador do Teixeira. E nessa varrida não escapam os surrealistas franceses nem os concretistas paulistanos. Tejo, com os bigodes eriçados de um polemista profissional, desce o chanfalho numa enorme lista de exemplos modernistas.

Zé Limeira não precisa ser comparado a nada disso. Tem sua receita personalíssima e ao mesmo tempo universal. Para imitá-lo basta ir um pouco nessa direção: a fluência na criação instantânea de neologismos, da colagem de elementos díspares, da justaposição do ilustre ao plebeu. A presteza e a articulação melódica do verso se sobrepondo a qualquer longínqua intenção de fazer sentido.

Limeira lembra alguma coisa de Marc Chagall, de Bispo do Rosário, de Gordurinha.

Me lembro de versos recitados por Dona Joana, uma mulher que ajudava minha mãe no trabalho doméstico e sabia muitos versos como este, que decorei:

Peguei na cobra jibóia
com dez dias de viagem;
pisei na ponta da vagem
tirei vinte e cinco jóia;
aonde chove e não móia
lá na várzea da agurita
onde os pombo canta e grita
dá volta no cotovelo:
quero um cacho de cabelo
da morena mais bonita.

Não sei o autor do verso, mas Limeira está todo aí. Tem a imagem visual marcante: o cara pisando a ponta do rabo de uma cobra de encontro ao chão, enquanto estica o corpo dela, abre-o (com uma faca?) e dali retira jóias como caroços de uma vagem. Tem a palavra absurda que pode ser corruptela e pode ser invenção (agurita). Tem uma Natureza surpreendente como a de um mundo de desenho animado (essa chuva, esses pombos). E tudo isso para glosar um mote bem lugar-comum, daqueles que geralmente só inspiram versos pedestres e sem imaginação.












terça-feira, 3 de julho de 2018

4363) Orlando Tejo 1935-2018 (3.7.2018)



Conheci Tejo em 1965, quando comecei a trabalhar na redação do “Diário da Borborema”, onde ele e Josusmá Viana se revezavam na secretaria. Era uma redação alegre pela presença dele, e onde pontificavam nomes como Fernando Lorenzo Maia na página de esportes, Paulo de Tarso na administração, William Tejo e Manoel Alexandrino Leite na página de política, Fernando Wallach na reportagem policial, Valdi Lira na fotografia, e tantos outros.

A veracidade aos fatos históricos me obriga a registrar que apesar desse panteão de nomes consagrados, o melhor momento do dia de trabalho era logo cedinho, sete da manhã, quando o jornal já estava na rua e o pessoal da oficina (Romão, Boní, etc.) começava a desmontar as páginas de ferro com as linhas de chumbo.

A redação (que ficava em cima, no primeiro andar) ainda estava vazia, e uma bola de papel-jornal fortemente amarrada com barbante servia para que eu, Mauro Ronaldo e Severino Brasil realizássemos ferozes campeonatos de barra-a-barra entre as mesas vazias e os arquivos de jornais que iam do piso ao teto.

Foi em meados dessa década que Orlando inventou de se candidatar a vereador, arranjou um jipe, e era visto chispando o dia inteiro ao volante, pelas ruas de Campina. a cabeleira ao vento. Não foi eleito, e continuou assinando ponto no Café São Braz, onde todo mundo até hoje passa o dia falando de três assuntos cruciais: política, futebol e a vida alheia.

Dessas conversas intermináveis surgiu o projeto do livro Zé Limeira, Poeta do Absurdo, que lhe deu fama nacional e alçou o repentista da Serra do Teixeira ao panteão mitológico do Nordeste, ao lado de Lampião, Padre Cícero e Luiz Gonzaga.

Durante os próximos séculos nossos netos e bisnetos continuarão discutindo se a maioria dos versos que aparecem naquele livro foram mesmo criados por Zé Limeira, ou se o foram por uma plêiade de poetas e boêmios que circulavam entre os poucos metros que separavam a Rádio Borborema, o Café São Braz e a Sorveteria Flórida.

Segundo meu pai (grande amigo de Orlando) o passatempo ali era inventar versos “zelimeirianos” para provocar gargalhadas, e muitas dessas inocentes contrafações foram se agregando à lenda e acabaram entrando no livro, como imigrantes ilegais. Não importa. Às vezes, mais que a verdade histórica, o que vale é o pulsar do espírito da lenda. Publique-se a lenda.

Já tive copiados à mão sonetos fesceninos de Orlando, que não reproduzo aqui porque não sei onde estão, e talvez para não chocar o espírito politicamente correto que governa com mão de ferro os costumes de hoje.

Mas a lenda de Orlando é mais polpuda de versos do que a de Zé Limeira. Há anos digo que algumas de suas improvisações poéticas deveriam ser reunidas em livro. Estão espalhadas por aí, pela internet e pela memória alheia. Um livro não garante a imortalidade, mas um Poemas Reunidos de Orlando Tejo seria pretexto para muitas noitadas de coquetéis e lembranças boas.

Como a dos versos que ele, apologista das cantorias de viola, dedicou a Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992), e a seu parceiro Severino Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990).

Os dois repentistas foram amigos de coração e antagonistas da viola por mais de meio século de embates memoráveis. No Nordeste inteiro, em bares, feiras, residências, fazendas, terraços, as pessoas se juntavam para vê-los disputando quem fazia o verso mais inspirado e quem dava alfinetadas mais agudas no outro.

No Instituto Lourival Batista, em São José do Egito (PE), há uma parede onde está imortalizado o poema de Orlando Tejo sobre essa dupla de gênio:

Grande saudade hoje sinto
das cantorias-tesouro
do gigante que foi Pinto,
do uirapuru que foi Louro.

Era uma graça, um estouro
ouvir em qualquer recinto
os trocadilhos de Louro
os desconcertos de Pinto.

Tal qual no Bar do Faminto,
do Pátio do Matadouro,
quando Louro aceitou Pinto
e Pinto abençoou Louro.

Mas no Bar Rosa de Ouro
houve um encontro distinto
Pinto elogiando Louro,
Louro chaleirando Pinto.

Jamais ficará extinto
o meu prazer de ouvir Louro
querendo derrubar Pinto,
Pinto brincando com Louro.

No Bar Casaca-de-Couro
vi o maior labirinto:
Pinto depenando Louro
e Louro esganando Pinto. (...)

O poema inteiro, que é muito longo, pode ser lido aqui, no blog Cantigas e Cantos, de Gilberto Lopes:


Outra história orlandiana impagável é contada pelos seus amigos de Brasília, onde ele foi funcionário da Câmara Federal. Apertado de grana, precisou com urgência urgentíssima de um dinheiro emprestado. Alguém lhe disse que procurasse um tal de Canindé, que poderia adiantar-lhe os trinta mil cruzeiros de que precisava para cobrir alguns cheques.

Orlando passou o dia esperando uma resposta de Canindé, que na verdade era apenas o contato com os agiotas. Em desespero, sentou-se à mesa do seu amigo, o escritor Luiz Berto (autor do igualmente lendário Romance da Besta Fubana) e produziu oito décimas implacáveis de ofensas e doestos contra o indefeso ausente:

(...) O cabra fuma e não traga
faz do crime o seu idílio!
Onde está Flávio Marcílio
que não demite esta praga?
Ao menos dava-se a vaga
pra um sujeito de fé,
já que esse indivíduo é
um tratante e delinqüente!
Haja chumbo grosso e quente
no rabo de Canindé!

Por capricho do destino
de Satanás ou Deus Brama,
o bicho também se chama
coisa e tal e Tolentino;
doido, avarento e mofino,
não conhece a Santa Sé,
faz da cola o seu rapé,
vive da desgraça alheia,
devia estar na cadeia
esse tal de Canindé! (...)

Eis senão quando toca o telefone. É Canindé, com o dinheiro liberado, pronto para ser entregue! Comemorações, abraços efusivos, e Orlando senta-se de novo à mesa, pega pena e papel, e produz mais oito estrofes neste novo teor:

Um sujeito despeitado,
desses de baixa maré,
inventou que Canindé
é um canalha safado.
Eu fiquei preocupado
com a informação até,
porém não perdi a fé
em quem merece louvores…
E haja palmas e haja flores
na fronte de Canindé.

Tenho dito e sustentado
(todo mundo sabe disso)
que na Câmara, esse cortiço,
há um cidadão honrado,
pai de família extremado,
homem de bem e de fé!
O Papa já disse até
que há no torrão brasileiro
Padre Cícero em Juazeiro
e em Brasília, Canindé.

Sei que o Papa tem razão,
mas ninguém quer saber disto.
Se já falaram de Cristo,
que se dirá de um cristão?
Porém a fofoca não
atinge um homem de fé.
e se eu descobrir quem é,
meto a mão no pé do ouvido
do sem-vergonha enxerido
que falar de Canindé! (...)

A crônica de Luiz Berto, e o texto completo das duas séries de estrofes, estão aqui, no blog da União Brasileira de Escritores / RN:

É a poesia. Muita gente lê um poema e se pergunta: Isto é verdade? Isto é mentira? O poeta é um fingidor? O leitor é um hipócrita? Que valor pode ter um texto assim cru, direto, concreto, vazado em meras palavras?

Os dois poemas de Orlando sobre Canindé mostram a verdade do poeta, qualquer poeta, que só tem a obrigação de ser fiel àquilo que no momento da escrita lhe arrebata o espírito. O poeta olha para dentro de si ou para o mundo à sua volta e relata o que vê, o que sente, o que o encandeia com sua força. O que ele escreve não é verdadeiro nem mentiroso: é apenas real.

Era assim Orlando, boêmio que largou a bebida mas não as noitadas, poeta que nunca largou a poesia, e que dias atrás decolou para o Outro Mundo e não nos largou, não nos largará em tempo algum. Concretizou agora os versos de seu alter ego Zé Limeira:

Se um dia eu fosse chamado
pra cantar no Céu, eu ia.










segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

3369) Tejo e Zé Limeira (14.12.2013)





(Orlando Tejo, por Rodrigo)



Está disponível no YouTube (http://bit.ly/IFR927) o documentário da TV Senado, dirigido por Maurício Melo Jr., O Homem Que Viu Zé Limeira, sobre o poeta Orlando Tejo e o seu famoso personagem. 

Zé Limeira é um personagem épico, no sentido de ser alguém que provavelmente teve existência física mas acabou recebendo uma estatura mitológica. Virou um agregador de lendas, um atrator da imaginação alheia. 

O cantador de Tauá tornou-se assim por obra e graça de Orlando Tejo e seu livro Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, um dos livros clássicos sobre a Cantoria de Viola, além de sobre Campina Grande e a Paraíba inteira.

Em princípios dos anos 1970, mais ou menos, Orlando Tejo decidiu-se a colocar no papel as histórias que sabia sobre Zé Limeira, que era um negro alto, de voz poderosa, e tinha um carisma peculiar onde se misturavam a simpatia, uma certa ingenuidade ou primitivismo (consta que ele tinha medo de trem de ferro) e uma capacidade inesgotável para fazer versos sem pé nem cabeça.

Toda cultura tem seu capítulo de nonsense, e muita gente já registrou, aqui mesmo no Nordeste, a presença de poetas que dão 100% de atenção ao som e zero ao sentido. Poetas que vivem para a métrica e a rima, sem dar a menor bola para o que estão dizendo. 

Zé Limeira tornou-se tão famoso, devido ao livro de Tejo, que hoje certamente muitos versos absurdos de outros poetas são transferidos para ele. Isso sem falar nos versos (esta questão é debatida no filme) que teriam sido escritos por Otacílio Batista e outros amigos de Tejo, depois que este se preocupou com a pequena quantidade de versos autênticos que teria recolhido.

Poeta contando história, os versos que achou são poucos? Não tem problema, qualquer um faz mais. Não é tão difícil, havendo um tal precedente. 

Quando eu fazia parte da Comissão de Seleção do Congresso Nacional de Violeiros, em Campina, incluí o mote “Se eu quiser eu também faço / igualzinho a Zé Limeira”, que é glosado até hoje, e aparece também no filme. 

Zé Limeira virou um estilo, pouco importa a pessoa.

O filme entrevista inúmeros poetas e fãs da cantoria (eu inclusive), mas devemos tirar um chapéu especial para Vladimir Carvalho. Deve-se a ele, e a sua mania de filmar tudo, a presença viva de Orlando Tejo neste documentário: falando, rindo, recitando, descrevendo Zé Limeira em detalhes, cantando sambas. (Eu conheço Tejo há quase 50 anos e nunca o tinha visto tocando violão.) 

Boêmio, gozador, improvisador fino, gente boa até a medula, Orlando Tejo deveria ter sua obra poética esparsa reunida em livro, e se isto acontecer um dia talvez ele acabe se tornando mais famoso do que sua mais famosa criação.







segunda-feira, 10 de março de 2008

0181) A lenda de Zé Limeira (19.10.2003)

Metade do mundo ouviu falar em Zé Limeira, o poeta do absurdo. Até nos círculos extra-cantoria, de pessoas completamente leigas sobre o assunto, o nome dele é o mais conhecido. Mesmo aquele pessoal distante, que ouviu o galo cantar mas não sabe onde, lembra vagamente, quando se fala no assunto “cantadores do Nordeste”, da figura desse poeta maluco que dizia coisas sem pé nem cabeça. Talvez ele e o Cego Aderaldo sejam os personagens mais conhecidos do público em geral, dessa turma para quem os nomes de Pinto do Monteiro ou Romano do Teixeira nada dizem.

Que Zé Limeira existiu, é fora de qualquer dúvida. Como personagem, no entanto, ele brotou no livro de Orlando Tejo, Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, que já circula pelo Brasil há uns bom 30 anos. O livro de Tejo, que tem capítulos brilhantes descrevendo cantoria-de-feira, cantoria-de-cabaré, traz uma quantidade imensa de versos improvisados por Limeira e seus parceiros. A quantidade é muito grande, para uma época em que era mais difícil conseguir um gravador do que um gerador-de-luz. Surgiu então a lenda de que muitos daqueles versos atribuídos a Limeira seriam invenção do próprio Tejo e de seus comparsas do Café São Braz em Campina e do Ponto de Cem Réis em João Pessoa. Contra esta versão, pesava o fato inconteste de que Limeira existiu de fato, são dezenas as testemunhas de suas cantorias e da maioria dos seus versos.

Fonte histórica à parte, a peça de José Bezerra O mundo louco do poeta Zé Limeira ajudou a encorpar o mito do poeta junto a um público jovem, de classe média, sem muita aproximação com a cantoria. Artigos publicados em jornais e revistas culturais do Rio e de São Paulo foram cristalizando a imagem do negão de lenço vermelho no pescoço, que só andava a pé, inventava palavras sem pé nem cabeça, misturava sem a menor cerimônia personagens da política brasileira e da Bíblia, e morreu durante uma cantoria porque ousou cantar a balada da “Pavoa Devoradora”.

Ocorreu com Zé Limeira uma coisa que vemos ocorrer o tempo inteiro diante dos nossos olhos. Um indivíduo encarna durante sua vida um tipo, um personagem. Quando ele morre, toda história que possa ser atribuída a esse personagem passa a ser atribuída a ele. É de conhecimento geral que grande parte dos crimes atribuídos a Lampião não foram cometidos por ele. No mundo pouco nítido da tradição oral, onde se superpõem versões conflitantes, incompletas, fantasiosas, equivocadas, um personagem acaba agregando a si próprio numerosos episódios alheios. Depois da morte, então, nem se fala. “Só pode ter sido coisa de Fulano!” afirma alguém. E como num passe de mágica o crime anônimo é atribuído a um bandido famoso, o milagre é creditado a Frei Damião, a frase espirituosa a Oto Lara Resende, o verso maluco a Zé Limeira. Os personagens que encarnam viram ímãs, atraindo para si tudo que corresponde àquele perfil. “Só pode ser coisa de Zé Limeira!”. E a obra póstuma do nego vai crescendo.