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sábado, 15 de julho de 2023

4962) Escutem a voz dos doidos (15.7.2023)

 

(Ariano Suassuna)


O pensamento das pessoas chamadas normais é como os automóveis no trânsito, e o pensamento dos doidos é uma bicicleta.
 
O automóvel, teoricamente, poderia andar de ré em plena rua, poderia subir na calçada, poderia dirigir na faixa da esquerda e não da direita, e assim por diante. Poderia fisicamente, é claro. Não o faz porque existem leis, códigos, punições previstas; e existe um consenso geral de que é melhor assim, é melhor que haja proibições e restrições, desde que isso deixe as possibilidades mais claras, e facilite a vida de todo mundo.
 
A bicicleta, não. O ciclista é um ser estranho, meio esquizóide. Está montado num veículo mas se considera pedestre. Ciclista sobe na calçada, anda na contramão, enfia-se a toda velocidade por um grupo de pedestres, pedala do lado esquerdo, do lado direito... Todo mundo obedece regras, mas o ciclista só obedece sua própria conveniência.
 
O juízo dos doidos é assim também – pensa o que gosta e o que consegue, e danem-se as outras formas de pensar.
 
Quando digo “os doidos” não me refiro necessariamente às pessoas com problemas mentais, internas nos manicômios, etc.  Refiro-me a todas as pessoas que pensam “fora do esquadro”, pessoas cujo raciocínio segue leis próprias; e o fazem espontaneamente, e não de forma lúcida e deliberada como o fazem os poetas, escritores, etc.
 
Exemplo do pensamento de um doido: o primeiro dicionário de polonês foi publicado em 1746, e entre outras definições tinha esta:
 
“CAVALO – Todo mundo sabe o que é um cavalo”.
 
Este dicionarista é um doente mental? Provavelmente não, mas o raciocínio que o fez redigir este verbete é o típico raciocínio de um doido.
 
G. K. Chesterton tem algumas excelentes páginas sobre a doidice no capítulo “The Maniac” de Orthodoxy (1908). É dele a famosa frase de que “um doido é alguém que perdeu tudo exceto a razão”. Vale lembrar que Chesterton dizia isso lamentando o doido, e não para celebrá-lo. O sentido profundo de sua frase é de que um doido é alguém incapaz de pensar em diferentes categorias, de compreender um ponto de vista diferente do seu. O doido é alguém “cheio de razão”, como a gente diz na Paraíba para qualificar uma pessoa arrogante, prepotente, que se recusa a entender o ponto de vista do interlocutor.


Para Chesterton, a insanidade é quando uma pessoa começa a raciocinar sem partir dos princípios corretos; ela entra num vale-tudo mental, porque a sua razão é “uma razão sem raízes, uma razão que gira no vácuo”. Um pensamento insano, mesmo que articulado de modo aparentemente correto; como certas frases sintaticamente corretas mas que nada dizem, como no caso dos cambueiros que taliscam a bata de qualquer catalunga, sem perceber que o tirambó não calistura, nem as tragas fazem qualquer pinelo.
 
A doidice – essa doidice – seria um pensamento que perdeu a semântica mas mantém um arremedo de sintaxe.
 
Chesterton abomina o doido (“o maníaco”) porque, para ele, doido é quem não é cristão, quem não parte dos princípios corretos. Na análise dele não há lugar para o doido engraçado, o doido surrealista, o doido imprevisível. O tipo que ele descreve (com o brilhantismo de sempre) é o monomaníaco, o doido vazio, o doido sem graça. Por isso ele diz que “mesmo os delírios mais poéticos dos insanos só podem ser apreciados por uma pessoa sã; para o insano, sua insanidade é extremamente prosaica, porque é real”.




Acho que foi Henri Bergson, em sua teorização sobre o Riso, quem sugeriu esse ângulo para definir o Humor: é a nossa reação quando vemos alguém se comportar cegamente, de maneira mecânica, encalhada num só tipo de visão, de reação, de raciocínio. Neste ponto há uma convergência interessante com o pensamento de Chesterton, porque esse tipo de personagem é alguém que perdeu tudo, exceto a razão, perdeu qualquer capacidade de pensar, exceto aquele pensamento mecânico que o transforma num cego repetidor de clichês, de palavras-de-ordem ou de mantras que nem ele mesmo entende.
 
Existem doidos de toda qualidade. Dizer “o Doido” é tão inconclusivo como dizer “o Artista”, porque dentro desse termo cabe um milhão de tipos.

Guimarães Rosa exclama, através do seu narrador de “A Terceira Margem do Rio”: “Ninguém é doido. Ou então todos.” Rosa era fascinado pelos doidos, e um conto como “O Recado do Morro” (hoje incluído no livro No Urubuquaquá, no Pinhém) exibe uma galeria de doidos muito variada.




Tem o “Catraz”, cientista amador, o homem que inventou um automóvel ainda incompleto, porque só funcionava na descida, “na subida e no plaino ainda não é capaz de rodar.” O Catraz queria voar para a Lua montado numa catrevage puxada por urubus amarrados, bastando-lhe erguer na ponta de uma vara um pedaço de carniça, que faria os urubus levantarem voo para alcançá-la, e como a vara estaria igualmente se elevando, acabariam desembarcando na Lua ou além.
 
Tem o “Coletor”, doido que vivia rabiscando números nos muros da cidade, contabilizando suas cabeças de gado, suas terras, seus ouros...
 
A doideira dele era uma só: imaginava de ser rico, milionário de riquíssimo, e o tempo todo passava revendo a contagem de suas posses. Escrevia em papel, riscava no chão, entalhava em casca de árvore, em qualquer parte. (...) Aquele homem tinha uma felicidade enorme.
 
Nossos magnatas de fortunas eletrônicas, virtuais, compartilham dessa imaterial felicidade, e ai de quem sugerir recolhê-los ao Pinel. Me digam em que casca de árvore ficaram os bilhões de Eike Batista ou de Bernard Madoff. São doidos? Não, são espertalhões, mas eram menos espertos do que imaginavam. Dinheiro é um poderoso alucinógeno; ele proporciona visões deslumbrantes, mas também faz o sujeito atravessar a rua na hora errada.
 
No mundo de Chesterton não há lugar para o doido esperto. O doido esperto é simplesmente o esperto que se faz de burro para enganar os burros que se consideram espertos. O exemplo clássico é o Doidim que os caras da cidade chamam e mandam escolher entre uma moeda pequena de ouro e uma moeda grande de cobre – e ele sempre pede para si a moeda maior. Quando alguém vai lhe explicar que seria mais jogo pegar a outra, ele diz: “Se eu pegar a outra, eles param de me chamar”.
 
Esse é o doido esperto, o doido ciclista, que inventa um caminho mais útil para si mesmo, aproveitando-se do fato de que os outros só raciocinam de um jeito. Perderam todas as outras formas de pensar, e só lhes resta “a razão”. São previsíveis. Podem ser driblados.



Um clássico exemplo de doido esperto é Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o narrador do Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna, um personagem mercurial, escorregadio, que ao longo do romance se faz de doido, se faz de cego, se faz de besta, se faz de intelectual, se faz de qualquer coisa que lhe convenha a cada instante. Quaderna tem, como certos doidos, a mania de grandeza, de se acreditar o futuro Imperador do Brasil, por ser descendente dos fanáticos que degolaram dezenas de pessoas em 1838, na Pedra do Reino, para desencantar um castelo e trazer de volta Dom Sebastião. Quaderna acredita nisso? Depende. Acredita quando lhe convém. Tem mais juízo do que eu ou você.
 
Meu saudoso amigo Arievaldo Viana contava esta, de algum doidim cearense:
 
Hoje encontrei um doido que anda pedindo esmola aqui na Praça Pedro Américo. Sempre eu dou-lhe um trocado.
Ele botou a mão na minha cabeça e falou: "Se você tá com Deus, um bandido bota a arma na sua cabeça, aperta o gatilho e a arma não dispara."
Perguntei: "E se for uma arma boa e disparar?"
Ele foi rápido: "Era porque você estava pronto pra ir ao encontro de Deus".


(Arievaldo Viana)




domingo, 18 de setembro de 2022

4864) "No País da Poesia Popular" (18.9.2022)



Começam hoje, domingo dia 18, as exibições do segundo episódio da série No País da Poesia Popular, no canal “Cine Brasil TV”. O Episódio 2, “História do Romanceiro Nordestino”,  será exibido nestes horários:
 
Domingo, 18 de setembro – 22:30
Terça, 20 de setembro – 22:00
Quinta, 22 de setembro – 23:30
Sexta, 23 de setembro – 11:30
Segunda, 26 de setembro – 19:30
Quarta, 28 de setembro – 13:00
 
A série, dirigida por José Araripe, e na qual sou roteirista e apresentador, é uma produção da “Truque”, de Salvador, e foi gravada em 2019. A pandemia e o resultante pandemônio encalharam por algum tempo a finalização, mas agora os 13 episódios de meia hora serão exibidos aos poucos no Cine Brasil TV.

COMO ACESSAR:
Aqui no saite do canal Cine Brasil TV é possível checar quais as operadoras:
 
https://www.cinebrasil.tv/index.php/localize-o-canal
 
O primeiro impulso de inspiração para esta série surgiu no longínquo ano de 1977, quando eu e Araripe nos conhecemos, fazendo parte do grupo Teatro Livre da Bahia, dirigido por João Augusto, no Teatro Vila Velha, de Salvador. Fizemos como atores inúmeras peças de teatro-de-rua inspiradas em folhetos de cordel como “A Briga do Fiscal com a Fateira” ou “A Chegada de Lampião no Inferno”.
 
Depois, parte desse material foi transposta por João Augusto para o espetáculo Oxente Gente, Cordel que fez várias temporadas em Salvador, e viajou no saudoso “Projeto Mambembão” para Rio, São Paulo e Brasília. Lembro também com saudade que fazia parte desse grupo o meu parceiro Zelito Miranda, outro maluco por cantoria de viola. Falecido no mês passado na Bahia, Zelito formava comigo na peça uma dupla de cantadores hilária, caricatural.


(BT e Zelito Miranda, em Oxente Gente, Cordel, Salvador, 1978)

 
Ou seja, já naquela época líamos e discutíamos ardorosamente a poesia popular. E herdamos um pouco do espírito meio anárquico e desafiador de João Augusto. Ele nos dizia o tempo todo que o cordel não estava morto, nem sequer doente; que a poesia popular não era uma coisa pura, trancada numa redoma de vidro, era uma força viva que morre e ressuscita um milhão de vezes por dia.
 
O programa No País da Poesia Popular começou a ser gravado em setembro de 2019, quando passei uma semana em Salvador. Araripe e sua equipe viajaram depois pelo Rio, São Paulo, Ceará, Paraíba e Pernambuco, num total de 17 cidades com 50 entrevistados.
 
É muito pouco, na verdade, diante das dezenas de milhares de poetas profissionais que atuam principalmente no Nordeste: folheteiros, editores, violeiros, emboladores de coco, aboiadores... Toda vez que a gente faz um trabalho tipo documentário sobre um assunto tão rico eu me lembro do comediante Zero Mostel, que queria vender uma casa e andava com um tijolo na bolsa, para servir de amostra.


(Bule-Bule, Bahia)
 

O meio acadêmico discute exaustivamente o que pode e o que não pode ser chamado de “poesia popular”. Uma discussão muito necessária. A Arte Da Palavra se manifesta de maneiras diferentes no hai-kai japonês, no soneto italiano, na rapsódia grega, no concretismo paulista, no surrealismo francês, nas trovas provençais, no rap urbano contemporâneo, no poema modernista... (E reparem, nem estou tocando na prosa, porque se entrar por aí a gente amanhece o dia.)
 
E se manifesta nas formas que a gente cultiva no Nordeste: o folheto de cordel, a cantoria de viola, o poema matuto, a mesa de glosa, o romance cantado, o aboio, o coco de embolada, e por aí vai.


[Mocinha de Passira)

 
Um pouco disto vai registrado nestes programas, cuja exibição começa com os 3 primeiros em setembro, e irá se estendendo pelos meses seguintes:
 
Episódio 01 - O Folheto e o Repente
Episódio 02 - História do Romanceiro Nordestino
Episódio 03 - O Jornal do Sertão
Episódio 04 - Quando os Bichos Eram Gente
Episódio 05 - Histórias de Amor e Sofrimento
Episódio 06 - A Fantasia Heróica
Episódio 07 - As Novelas e os Romances Clássicos
Episódio 08 - Incrível, Fantástico, Extraordinário
Episódio 09 - Os Bons, os Maus e os Feios
Episódio 10 - A Mulher no Cordel
Episódio 11 - Utilidade Pública
Episódio 12 - Humor e Sátira
Episódio 13 - Cordel e Ficção Científica



(programação do primeiro mês)
 

Todo mundo vai dizer: “Eita, faltou isso, faltou aquilo, faltou Fulano, faltou Sicrano”. E geralmente vai ter razão. Me lembro de uma vez que eu estava em Areia (PB) almoçando num bar e vendo no Globo Esporte uma matéria interessante sobre grandes batedores de pênalti do futebol brasileiro: Pinheiro, Pelé, Zico, Roberto Dinamite... Quando a matéria terminou, um bêbo no balcão cuspiu de lado e disse: “Se não falou em Luís Garapeiro, não disse nada.” E quem sou eu pra discutir? Eu vi ao vivo Luís Garapeiro batendo pênalti.



(Lirinha, São Paulo)

 
Toda esta lenga-lenga é para dizer que a poesia popular não é um panteão com uma dúzia de ídolos obrigatórios e mais nada. O programa procurou inclusive mostrar pessoas que dificilmente seriam mostradas num programa “A História da Literatura de Cordel”. Aqui estão amigos meus que são músicos, cantores, compositores, que devem muito à poesia popular, cada qual ao seu modo: Lenine, Numa Ciro, Antonio Nóbrega, Beto Brito, Lirinha, os irmãos Marinho... No Nordeste, pelo menos, poesia popular e música popular são vizinhos de porta.



(Felipe Canário, Campina Grande)


A possibilidade de uma segunda temporada é algo sempre em aberto, para séries de TV. Tudo que a gente não consegue enfiar na mala, deixa para procurar no ano que vem. Falei lá em cima a história do tijolo, representando uma casa. É mais ou menos isso. É um oceano. Você vai lá, e traz uma garrafa cheia, como amostra.


 
(Arievaldo Viana, Fortaleza, in memoriam)
 





 
 
 
 
 





sexta-feira, 15 de julho de 2022

4843) A resposta na ponta da língua (15.7.2022)

 


Quando os Beatles desembarcaram pela primeira vez nos EUA, em 1964, deram mil coletivas de imprensa. Um jornalista perguntou:
 
– Por que a música de vocês deixa as pessoas tão excitadas?
 
Houve um segundo de hesitação no grupo, e John Lennon disse:
 
– Não sabemos. Quando descobrirmos, vamos criar um novo grupo e ser empresários deles.
 
Os Beatles tinham uma enorme capacidade de improvisar respostas ao vivo. Não eram as respostas espertas, ensaiadinhas, das coletivas de hoje em dia. Hoje, todo artista tem alguns publicitários criativos em sua equipe, que lhes entregam uma lista das prováveis perguntas e das respostas espirituosas que ele deverá decorar para “ter na manga”.
 
E nos “encontros com a imprensa” de hoje, há, muitas vezes, um jornalista arraia-miúda a quem foi fornecida uma pergunta para ele fazer na hora H, servindo de “escada” ao artista, em troca de dois convites para o show. (Se eu fosse empresário de artista rico, subornaria jornalistas sem o menor remorso. Quem se vende é porque não vale nada.)
 
Os ingleses chamam de repartee a frase espirituosa dita num repente. Funciona tão bem que dá a impressão de que a pergunta (que era uma provocação) fica parecendo uma “deixa” para o cara exibir a resposta que trazia prontinha.
 
Não trazia. É improviso mesmo. Naquela mesma coletiva, alguém pergunta: “Quando vocês vão cortar o cabelo?” e George Harrison responde de bate-pronto: “O meu eu cortei ontem.”
 
É resposta decorada? Não. Provavelmente era verdade. Claro que os Beatles aparavam aquelas trunfas, principalmente antes de estrear uma turnê grande. E muitas vezes a verdade é a última coisa que se espera numa resposta assim.
 
O improviso espirituoso não é apenas uma resposta inteligente, é uma resposta que depende totalmente do modo como a pergunta foi feita. Muitas vezes a graça implica em distorcer o sentido de algum termo da pergunta. Nessa mesma coletiva (ou em outra) perguntaram aos Beatles: “Como vocês acharam a América?”. A pergunta, é claro, indagava sobre o estado de espírito dos fãs, à sua chegada. Lennon respondeu: “Virando à esquerda quando chegamos na Groenlândia”.



Bob Dylan, na sua fase sarcástica e sardônica de 1966 (aquilo que hoje está sendo chamado de “The Cate Blanchett Period”) era outro que não deixava por menos. Um pomposo entrevistador perguntou-lhe uma vez:
 
– Você tem idéia do alcance de suas canções?...
 
E ele disse:
 
– Olhe, tem as que alcançam três minutos, outras alcançam cinco, e outras, acredite se quiser, alcançam os dez ou doze minutos.
 
Muitos dos nossos melhores repentes, essas respostas instantâneas capazes de guilhotinar uma pergunta em um segundo, surgem assim porque já tínhamos pensado naquela pergunta e em nossa cabeça se formou, se não a resposta pronta e definitiva, pelo menos uma idéia de como essa resposta deveria ser.
 
Uma expressão francesa, “esprit d’escalier”, indica aquelas ocasiões melancólicas em que essas respostas arrasadoras, espirituosas, só nos ocorrem quando estamos na escada, indo embora da festa. Não importa. Perguntas embaraçosas ou provocativas costumam se repetir. A gente guarda a resposta boa. Eu já preparei uma resposta assim e guardei por mais de 25 anos; quando a pergunta veio, tirei-a do bolso sem pestanejar, e a mesa inteira aplaudiu.



G. K. Chesterton tem um ótimo livrinho de contos interligados, The Club of Queer Trades (1905), em que os personagens inventam profissões extravagantes, maneiras bizarras de ganhar a vida em Londres. A certa altura, menciona-se um cara que é “o Shakespeare do dito espirituoso”, a alma das festas, o cara que tem sempre uma frase engenhosa para desarmar o interlocutor.
 
Conto vai, conto vem, ficamos sabendo no final que esse cara espirituoso é apenas um dos clientes de um sujeito que prepara conjuntos de frases-e-respostas, e numa ocasião social qualquer, combinadamente, dá as “deixas” para que o cliente (qualquer um que pague bem) pronuncie sua frase de espírito e faça o maior sucesso. É a profissão dele: Facilitador de Respostas Espirituosas.
 
“Armações” à parte, a resposta de bate-pronto existe, e cada um de nós já presenciou inúmeros exemplos. Políticos mineiros são especialistas nisso: Tancredo Neves, Benedito Valadares, José Aparecido de Oliveira...


(busto de Antonio Marinho em S. José do Egito, foto BT)
 
Os cantadores nordestinos são, além de poetas, repentistas, ou seja, são capazes de raciocínio rápido e resposta perfeita. Conta-se que o mestre Antonio Marinho, de São José do Egito, tinha um compadre chamado Irineu. Um dia estava em casa e a esposa do compadre lhe surge à janela da rua, perguntando:
 
– Compadre Antonio, o senhor viu Irineu?...
 
E ele:
 
– Não. E fôro?...
 
É o tipo da coisa que só é engraçada na pronúncia dialetal sertaneja. “O senhor viu irem n’eu? (=irem em mim)?” – “Não!... E foram?!...”
 
O genro de Antonio, o famoso Lourival Batista, era um dos gatilhos-verbais mais rápidos do Nordeste. Lá vinha ele caminhando despreocupado pelas ruas de São José, quando um conhecido o saudou de longe, acenando da calçada oposta:
 
– Tudo bem, “Lourivarrr”?...
 
E ele, impassível:
 
“Regulal”...
 
São gracejos que ninguém poderia “trazer pronto” para responder no momento adequado; é algo concebido e executado no espaço de segundos. Nenhum de nós tem a verve repentística de Marinho ou de Louro, mas pode se dedicar à nobre arte de prever perguntas e preparar respostas.
 
E nesse aspecto lembro um caso contado pelo meu saudoso amigo Arievaldo Vianna, que vinha cruzando uma praça e dele se aproximou um doido que perambulava por ali pedindo dinheiro. O doido chegou e disse:
 
– Me dê uma grana pra provar que está com Deus. Se Deus estiver do seu lado, um bandido bota a arma na sua cabeça, aperta o gatilho, a arma encrenca e não dispara.
 
Arievaldo:
 
– Sim, mas e se a arma for novinha, e disparar?
 
O doido:
 
– Então é porque você estava pronto pra ir ao encontro de Deus!







terça-feira, 16 de junho de 2020

4590) Ariano Suassuna: 93 anos (16.6.2020)




Uma das bandeiras defendidas por Ariano Suassuna ao longo de toda sua vida foi a da poesia popular, ou, como ele costumava chamar, o Romanceiro Popular Nordestino. Ele achava esta expressão mais descritiva e mais exata do que, por exemplo, “literatura de cordel”. Esta expressão que designa os folhetos de feira, pendurados num cordel esticado horizontalmente, é um termo que veio “de fora”, era usado pelos pesquisadores, não pelos que faziam e vendiam os folhetos. (Sim, sei que isto é discutível; passemos adiante.)

Ariano chamava isso de Romanceiro Popular Nordestino chamando a atenção, não para o formato gráfico dos livrinhos, mas para a forma e o conteúdo dos versos. Os versos, afinal, são palavras, que podem ser reproduzidas de mil maneiras. A Chegada de Lampião no Inferno é literatura de cordel quando vem num folheto; continua a sê-lo se for publicada e lida numa tela de computador? Num livro de luxo, papel couché?

Romanceiro Popular Nordestino é uma expressão mais inclusiva, porque puxa para dentro de si não apenas os folhetos de cordel mas os romances recitados de memória, os poemas ibéricos que a memória nordestina conserva há séculos, e talvez alguns deles nem sejam mais lembrados em Portugal. Sobrevivem aqui, na voz das cantadeiras de antanho, como a norte-riograndense Dona Militana.


No Romance da Pedra do Reino (1971), Ariano faz algumas divertidas classificações da poesia popular, através do narrador do livro, D. Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, e de outros poetas que com ele contracenam.

Um desses poetas é o famoso João Melchíades Ferreira da Silva, o “Cantor da Borborema”, autor de uma das versões do Romance do Pavão Misterioso. (Uma biografia de Melchíades foi deixada inédita pelo meu amigo Arievaldo Viana, recentemente falecido em Fortaleza; espero que os editores se mobilizem para que esse importante trabalho não se perca.)

Ver aqui:

Na página 58 da Pedra do Reino (4a. edição), Quaderna, que foi discípulo do grande cantador, conta assim:

O velho João Melchíades ensinou-nos, ainda, que entre os romances versados havia sete tipos principais: os romances de amor; os de safadeza e putaria; os cangaceiros e cavalarianos; os de exemplo; os de esperteza, estradeirices e quengadas; os jornaleiros; e os de profecia e assombração.
(Folheto XII)




Classificações deste tipo são subjetivas, mas a vantagem de Ariano é que nesse tipo de taxonomia literária ele sempre procurou a simplicidade e a síntese. Numa publicação da Fundação Casa de Rui Barbosa (Antologia – Leandro Gomes de Barros 2, Rio, 1977) ele sugere sua classificação “oficial”, por assim dizer (já que a classificação acima é da dupla Melchíades/Quaderna):

1)      Ciclo heroico, trágico e épico
2)      Ciclo do fantástico e do maravilhoso
3)      Ciclo religioso e de moralidades
4)      Ciclo cômico, satírico e picaresco
5)      Ciclo histórico e circunstancial
6)      Ciclo de amor e de fidelidade
7)      Ciclo erótico e obsceno
8)      Ciclo político e social
9)      Ciclo de pelejas e desafios

Para quem tem de lidar com um universo de milhares de autores e dezenas de milhares de títulos essas classificações são úteis, desde que o classificador lembre, o tempo todo, que praticamente qualquer folheto pode ser igualmente classificado em mais de um ciclo. Um folheto sobre a morte de Lampião, por exemplo, tanto pode ser visto pelo lado “circunstancial” (5) quanto pelo lado “heroico, trágico e épico” (ciclo 1), e assim por diante.



É este aspecto, aliás, que faz o poeta Aderaldo Luciano erguer um alerta contra o perigo do foco excessivo nos ciclos, como se um folheto, obra literária personalíssima, fosse apenas ilustração de uma fórmula. Antes de se enquadrar em qualquer das fórmulas acima, o folheto traz, por cima do seu DNA coletivo, o DNA pessoal e intransferível do seu criador. Ninguém confunde um folheto de Leandro com um de José Pacheco, nem um folheto de Marco Haurélio com um de Rouxinol do Rinaré. As vozes são pessoais.

Voltando a Ariano, ele faz seus personagens principais (Quaderna, Samuel e Clemente, os membros da “Academia de Letras dos Emparedados do Sertão do Cariri”) se engalfinharem nas mais estéreis discussões terminológicas, a respeito de miudezas dessa qualidade. Depois de ouvir a classificação proposta por Melchíades, Quaderna já começa a desdobrá-la e recombiná-la:

Assim firmou-se em mim a importância definitiva da Poesia, única coisa que, ao mesmo tempo, poderia me tornar Rei sem risco e exalçar minha existência de Decifrador. Anexei às raízes do sangue aquela fundamental aquisição do Castelo literário, e continuei a refletir e sonhar, errante pelo mundo dos folhetos. Um dos tipos que eu mais apreciava eram os de safadeza, subdivididos em dois grupos, os de putaria e os de quengadas e estradeirices. Dos primeiros, o que mais me entusiasmava eram umas “décimas” do Cantador Leandro Gomes de Barros, glosadas sobre o mote:

Qual será o beco estreito
que três não podem cruzar?
Só entra um, ficam dois,
ajudando a trabalhar!   (Folheto XIV)


Com esses personagens simultaneamente acadêmicos e picarescos, Ariano vai propondo classificações meio delirantes, e que talvez por isso mesmo nos façam experimentar ali o peso das verdades provisórias da literatura. Como quando Melchíades volta a dizer, explicando à trinca de acadêmicos:

Existe o Poeta de loas e folhetos, e existe o Cantador de repente. Existe o Poeta de estro, cavalgação e reinaço, que é o capaz de escrever os romances de amor e putaria. Existe o Poeta de sangue, que escreve romances cangaceiros e cavalarianos. Existe o Poeta de ciência, que escreve os romances de exemplo. Existe o Poeta de pacto e estrada, que escreve os romances de espertezas e quengadas. Existe o Poeta de memória, que escreve os romances jornaleiros e passadistas. E finalmente, existe o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias e assombrações. (Folheto XXXVI)

Pode parecer excessivo, mas nada é excessivo quando a gente se depara com o hiperbolismo paraibano de Quaderna, sempre pronto a se superar na próxima página:

Assim, sou o único escritor e Escrivão-brasileiro a ter integralmente correndo em suas veias o sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia da Raça do Brasil!  (...)  Depois de pronto e devidamente versado, o meu será, portanto, o único Romance-acastelado, cangaceiro-estradício e cavalariano-bandeiroso escrito por um Poeta ao mesmo tempo de pacto, de memória, de estro, de sangue, de ciência e de planeta.  (...)  Por isso ninguém pode realmente contar a história de Sinésio, ninguém sabe qual foi, mesmo, sua verdadeira direção e seu verdadeiro destino, de modo que ninguém, exceto eu, pode contá-la, e ninguém, portanto, exceto eu, pode vir a ser o verdadeiro Gênio da Raça do Brasil! (Folheto LIX)

Modéstia à parte.


(foto: Gustavo Moura)


domingo, 22 de dezembro de 2019

4534) Leituras 2019 - 1 (22.12.2019)




Os jornalistas têm uma rotina decemberista onde comentam as novidades do ano que se encerra. Não é o meu caso. Como ninguém me paga para monitorar os lançamentos, me desobrigo de acompanhá-los, o que é um alívio. Só leio um livro novo se me interessar muito e não for muito caro. Minha leituras são fruto do acaso (pessoas que encontro e que me dão seus livros), das amizades (livros remetidos por amigos, conhecidos e desconhecidos), e de impulsos inexplicáveis que me fazem pegar, hoje, um livro que estava intocado na estante há mais de 25 anos. Por que logo hoje? Não sei, e não preciso saber.


Poesia

Leio muita poesia, mas tenho o defeito (e sei que é defeito) de na maior parte do tempo estar lendo e relendo os mesmos vinte poetas que já leio há meio século. Fazer o que? Não leio para saber de novidades. Leio para saber se o que fazia sentido continua fazendo. (Spoiler: nem sempre faz.)

Mesmo livros de poesia, que em geral são fininhos e têm vastos latifúndios de página em branco, eu não leio do começo ao fim. Livro de poesia é como caixa de chocolate. De vez em quando a pessoa vai lá e saboreia um.

Eu tenho amigos poetas que não leem os livros dos amigos, nem sequer os meus, com esta imbatível desculpa: “Não quero correr o risco de ser influenciado pelos meus adversários.” Eu não vejo os outros poetas como adversários, assim como não vejo como adversários (nem sequer como concorrentes) aquelas pessoas silenciosas e resignadas na fila da Lotérica. Estão ali fazendo sua fezinha, tal como eu.

Dito isto, destacarei entre muita boa poesia que li uns poucos livros. Um deles é de um poeta que não conheço pessoalmente, Izalco Sardenberg, e me foi enviado através de um amigo comum. É um poeta da minha idade e de leituras aproximadas às minhas, o que de certo modo aproxima os diapasões. O livro é Remissão (São Paulo: Amar-Amaro, 2019), onde se leem coisas como:

Choro por besteira,
um dia chorei ao ver a mãe
com o filho de perna mais curta que a outra.
Iam de mãos dadas, sob a guarda de um anjo cruel.
Chorei ao ouvir no Spotify uns versos
que não entendi (mas os sons, encadeados
e escandidos naquela voz eram tão belos).
Talvez seja hora de desistir,
talvez suba de novo a montanha de lava
e então encare a boca ardente.  (p. 16)

Outro poeta da mesma geração é o nosso paraibano-por-consagração W. J. Solha, que nos últimos anos vem desenvolvendo em linhas paralelas uma série de romances muito pessoais sobre a Paraíba e o sertão paraibano, e uma série de livros de poemas em versos longos, salpicados de divertidas rimas internas, onde ele rastreia, identifica e coleciona as “rimas do mundo”, as pequenas continuidades que parecem tornar a nossa civilização uma obra de arte escrita por uma consciência coletiva.

O livro da vez é Vida aberta (Guaratinguetá: Penalux, 2019), onde ele comenta:

O trem, a enferrujar na mata que lhe sobrepuja os trilhos,
não se altera ante o outro que – de repente – ao lado lhe aflora,
a quinhentos quilômetros por hora.
Vida... é isso que te põe ao lado da estrada.  (p. 33)


Li muitos cordéis este ano, em função de uma série de TV que escrevi (No País da Poesia Popular, Truque Produções, Bahia, direção de José Araripe, lançamento previsto para 2020 no CineBrasilTV). Comentei vários deles aqui no Mundo Fantasmo ou em redes sociais. Vou destacar um, pela ousadia da idéia e pelo vigor da linguagem: Veredas – versão em cordel, de Edmilson Santini (Rio: ed. Do autor, s/d).

Santini faz num cordel de tamanho padrão um resumo dramatizado dos episódios principais do romance-fluxo de Guimarães Rosa, o Grande Sertão. Usando estrofes de extensão variável, mas sempre coladas à sextilha e à décima, e seus esquemas de rima tradicionais, ele recria a prosa de Rosa com seus recursos, que não são poucos, e produz um cordel com medidas iguais de reverência e de originalidade.

Diadorim, toda gateza,
o ódio, a faca, a vantagem:
seus verdes olhos: Coragem;
Coração, toda afoiteza...
Frente à tamanha proeza,
puxei da mente meus ais,
do fundo dos embornais,
tirei alegre um suspiro;
num clim de costelas, um tiro!
Ele arriou pra jamais...  (p. 35)


São amostras, apenas. Como falei acima, não faço balanços minuciosos da produção literária. Deixo isso para os profissionais.


Memorialismo

Por gosto pessoal e eventualmente por leituras de trabalho, acabo entrando em contato com livros de pessoas que em forma de crônicas, autobiografias ou relatos confessionais falam do passado, de suas experiências, do tempo que viveram sobre a terra.


Falam de sua história familiar, como o cearense Arievaldo Viana em Sertão em desencanto (Fortaleza: Queima Bucha, 2016), uma reconstituição que parece escrita a quatro mãos por um historiador e um memorialista. O primeiro retraça as árvores genealógicas de várias gerações até um passado distante, com nomes, datas e locais escrupulosamente anotados. O segundo vai pincelando comentários ao longo dessa história, registrando lembranças, encontros pessoais com um avô ou avó, histórias pitorescas ou estranhas que passam de geração em geração como uma moeda rara que se pode dar de presente mas é proibido gastar.

Numa raia parecida corre o livro Novas cartas do sertão do Seridó (Natal : edição do autor, 2009) de Paulo Bezerra “Balá”, que já comentei mais extensamente aqui no blog. Paulo Balá, já falecido, era um fazendeiro da velha estirpe, afeito ao trabalho manual e à lida com os trabalhadores. Seu livro reconstitui histórias de época, personagens esquecidos, e principalmente serve como um documento valioso de hábitos, costumes, técnicas, detalhes da vida cotidiana nas velhas fazendas nordestinas, que ele registra com olho infalível e uma prosa sóbria e vívida.



A crônica curta e leve também cumpre esse papel, e foi pra mim uma surpresa agradável o livro Onde davam esses trilhos, de Lido Loschi (Vitória: Cousa, 2019). O autor é ator do grupo Ponto de Partida, de Barbacena (MG) e suas crônicas são todas sobre lembranças de infância. Em vez do tom meramente nostálgico e individualista do “que saudades que eu tenho da aurora da minha vida”, o livro de Lido Loschi é cheio de episódios de traquinagens (algumas meio cruéis), brincadeiras, tristezas, desobediências, aventuras que tanto terminam bem como mal, a excitação coletiva de garotos que vivem na fazenda e parecem ter o mundo à sua disposição. A prosa não é nostálgica nem sentimental: narra e descreve em palavras poucas mas precisas.

Outra surpresa foi ter folheado um volume memorialístico carioca, Antonio’s – caleidoscópio de um bar (Rio: Record, 1992), de Mário de Almeida. O Antonio’s foi um bar famoso do Leblon carioca, frequentado por músicos da Bossa Nova, artistas plásticos, escritores, diplomatas, cineastas, jornalistas e o escambau, além de políticos importantes e gente com muita grana no bolso. Seu administrador, o Manolo, era um boa-praça que cuidava dos fregueses e eventualmente lhes servia de psicanalista, confessor, avalista, enfermeiro, consultor conjugal, e sei mais o que. É a história de algumas décadas da boemia carioca, com muitos textos do autor Mário de Almeida, e numerosas contribuições fornecidas por boêmios famosos e saudosos.


E gosto de pessoas contando (meio egoisticamente, mas somos todos egoístas) os episódios da própria vida, naquela narrativa eu-eu-eu onde o resto da humanidade aparece com meros coadjuvantes. É o caso do excelente Vivir para contarla, de Gabriel Garcia Márquez (já traduzido no Brasil). Márquez tem o dom da narração, e este livro tem camadas superpostas de memorialismo familiar (talvez um terço dele se ocupe das peripécias da conquista da mãe pelo pai), relato da vida política da Colômbia (que conheço muito pouco), apanhado de leituras, descobertas e influências. Pulando de Aracataca para Cartagena, daí para Bogotá, daí para alguma outra cidade, Márquez acumulou a experiência pessoal no trato com pessoas que acabou encorpando de maneira única o seu “realismo mágico”. É um livro longo, cheio de idas e vindas, que depois da última página dá uma vontade danada de voltar para a primeira e começar a re-entender tudo aquilo.











sábado, 7 de setembro de 2019

4501) João Melchíades, o Cantor da Borborema (7.9.2019)




O dia de 7 de setembro é aniversário de muita gente importante, como meus amigos-do-coração Roberto Coura e Jakson Agra, e de instituições fundamentais para o equilíbrio do Universo, como o Treze Futebol Clube, o glorioso Galo da Borborema.

Mas resolvi dedicar este artigo a um aniversariante não menos ilustre, embora pouco conhecido, que hoje completa o seu sesquicentenário de nascimento.

Nasceu em 7 de setembro de 1869, no município de Bananeiras (PB) o poeta que veio a ser chamado “O Cantor da Borborema”, João Melchíades Ferreira da Silva.

Acabei de passar os olhos no primeiro esboço da biografia do poeta que está sendo escrita pelo pesquisador Arievaldo Viana, de Fortaleza, o mesmo que biografou o “pai do cordel” Leandro Gomes de Barros, além do precursor “Santaninha”, cuja vida ele reconstituiu juntamente com Stélio Torquato.

Aqui, as respectivas referências:

Leandro:

Santaninha:


No seu trabalho bem documentado sobre João Melchíades, sob o título provisório de A Saga Aventurosa do Cantor da Borborema, Arievaldo destaca, entre outros, três elementos importantes para fazer dele um personagem único:

1) Lutou ainda muito jovem na Guerra de Canudos.

2) Escreveu o Romance do Pavão Misterioso.

3) Foi personagem de Ariano Suassuna no ciclo da Pedra do Reino.

Melchíades teve uma vida aventurosa: raptado por ciganos antes dos dez anos de idade, só foi resgatado pela família três anos depois. Aos dezoito anos, ainda na época da monarquia, entrou para o  Exército, e em 1897, como integrante do 27º Batalhão de Infantaria das Forças Armadas, foi combater na Guerra de Canudos, onde quase perdeu a vida. Depois da guerra, foi promovido a Sargento-Mor.

Existem relatos entre seus descendentes de que ele teria voltado da guerra muito traumatizado pelos episódios de violência e crueldade que testemunhou, entre eles a visão dos cadáveres carbonizados de mães agarradas aos filhos. Em todo caso, participou da tomada das trincheiras dos jagunços ao longo das margens do rio Cocorobó, uma das batalhas mais sangrentas daquela guerra.

Melchíades casou-se em 1897 com Senhorinha Melchíades, com quem teve quatro filhos. Nessa época começou também a sua produção poética. Segundo Arievaldo Viana, a pesquisadora Ruth Brito Lemos Terra localizou um poema datado desse período.

Alguns dos folhetos mais conhecidos do poeta, que morreu em 1933, são A Guerra de Canudos, O Príncipe Roldão no Leão de Ouro, Estória do Valente Sertanejo Zé Garcia, Combate de José Colatino contra o Carranca do Piauí, História de Juvenal e Leopoldina, A Vitória dos Aliados: a Derrota da Alemanha e a Influenza Espanhola e outros.

Com relação ao célebre Romance do Pavão Misterioso, existe há muitas décadas dentro da historiografia do cordel uma polêmica acesa sobre quem seria o verdadeiro autor do folheto: José Camelo de Melo Rezende ou João Melchíades Ferreira da Silva.


Arievaldo Vianna colhe depoimentos de descendentes dos poetas e de outras fontes, e tenta pôr um pouco de ordem nesta discussão que repousa em grande parte nas opiniões de pessoas que dispõem apenas de relatos orais. Há pouca documentação impressa disponível.

Segundo Arievaldo,

...entre 1925 e 1929 circula a primeira edição impressa de O Pavão Misterioso, a qual vinha assinada por João Melchíades Ferreira da Silva. Alguns pesquisadores asseguram que já havia uma versão do poema, escrita anteriormente pelo paraibano José Camelo de Melo Resende. Esta versão supostamente “original”, no entanto, teria vindo a lume apenas sob a forma de cantoria, numa apresentação de Camelo Resende, não tendo sido publicada. Teria ocorrido então que João Melchíades, parceiro de Camelo Resende em algumas cantorias, memorizara a essência da narrativa, reescrevendo-a a seu modo.

Há indícios de que Camelo teria de fato criado a versão inicial do romance, mas Melchíades imprimiu primeiro a sua, de modo que cada um, possivelmente, achava-se com algum direito para reivindicar a primazia.

José Camelo não protestou de início porque foi esta uma fase turbulenta de sua vida; preso por ter recebido e passado adiante (inadvertidamente) algum dinheiro falso, ele levou anos para reequilibrar sua vida. E nesse processo revoltou-se contra a publicação do folheto de Melchíades, afirmando, ao publicar sua própria versão:

Quem quiser ficar ciente
da história do Pavão
leia agora este romance
com calma e muita atenção
e verá que essa história 
é minha, e de outro não!

Há muitos anos versei
esta história, e muitos dias,
fiz uso d’ela sozinho
em diversas cantorias
depois dei a cópia dela
ao cantor Romano Elias.

O cantor Romano Elias
mostrou-a a um camarada,
a João Melchíades Ferreira
e este fez-me a cilada
de publicá-la, porém,
está toda adulterada.

De fato existem diferenças textuais entre as versões dos dois autores, bem como semelhanças, que o livro de Arievaldo estuda de maneira mais minuciosa.

João Melchíades tem a honra de ser um dos poucos personagens “da vida real” que figuram no Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna (ele e o poeta-charadista Euclides Vilar). No livro, ele é o mestre poético do protagonista Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, e aparece em momentos-chave da narrativa.



O maior destaque dado a Melchíades, contudo, é numa das sequências do romance, As Infâncias de Quaderna, publicado em folhetins no Diário de Pernambuco entre 1976 e 1977, e ainda inédito em livro.

É nesta última obra que João Melchíades é visto por Quaderna pela primeira vez, no Folheto XLIII, ”A Casa do Matagal e a Chave Enferrujada”.

Quaderna tinha sido raptado por ciganos (tal como ocorreu com Melchíades na vida real) e é resgatado pelo cangaceiro Antonio Silvino, que o traz de volta para a casa de sua família. O garoto está passeando pela fazenda com seu primo Arésio Garcia-Barreto e os dois se encontram com o poeta, que reconhece Quaderna, de quem é primo distante. E passa a transmitir a este, pela primeira vez, a história da família de ambos!

João Melchíades começou a infeccionar meu sangue com aquela turva história de assassinatos sobre aras e pedras, tesouros, encantações, combates, coroas, elevação e trucidamento de Reis, violações de Princesas, incêndios, degola dos inocentes e outras coisas gloriosas e monárquicas.

Diante do menino maravilhado com tantas façanhas nobres, Melchíades continua:

– Os turcos inventaram que tinham matado O Rei Dom Sebastião, na África, mas é mentira. Ele veio para cá, numa Nau, entre nevoeiros, e depois um filho dele veio morar no Pilar, e o neto em Boqueirão de Cabaceiras, junto com o Teodósio, o Imperador Teodósio – Teodósio de Oliveira Ledo de nome. (...)

Veio a Guerra dos Quebra-Quilos em 1874: foi aí que, na estrada de Campina Grande aqui para Taperoá, degolaram seu Avô, meu tio, Pedro Alexandre. A mulher dele, Bruna, tia minha e Avó sua, pegou a cabeça cortada dele e veio para cá, pedir morada e proteção a seu outro Avô, o Barão do Cariri. (...) Bruna, que era filha do Padre Wanderley, mandou botar na salmoura a cabeça do marido dela, Pedro Alexandre, para ela não apodrecer.

É esse o mestre que injeta na imaginação fogosa de Quaderna uma boa parte dos delírios que futuramente irão desencadear os prodígios, os crimes bárbaros e as convulsões sociais do Romance da Pedra do Reino. Seu uso como personagem de ficção por Ariano mostra a importância deste poeta de verdade cujo sesquicentenário de nascimento celebramos hoje, 7 de setembro de 2019, quando o Brasil mostra que não mudou nada, nadinha.




(ilustração: Arievaldo Viana)