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sábado, 30 de setembro de 2017

4273) Ariano Suassuna e o cinema (30.9.2017)




(The Ape, 1940)

Quando Ariano Suassuna era menino, morou durante alguns meses em Campina Grande. A mãe dele, viúva, teve que passar um tempo lá para ajudar uma prima que estava doente, algo desse tipo. E lá vai Ariano, um dos filhos mais novos, morar com ela, e estudar no Colégio Alfredo Dantas, que era do Tenente Alfredo, um parente deles pelo lado materno.


(antiga fachada do Colégio Alfredo Dantas)

Isso foi logo após a inauguração do Cine Capitólio, que se deu em 1934, com o filme Cavadoras de Ouro  (“The Gold Diggers”), um dos títulos de uma série de musicais da década de 1930. Acho que era esse o filme que Ariano comentava ter visto:

– Era um filme besta danado, uma porção de mulheres abrindo caixas de chapéus e experimentando os chapéus, ô negócio mais sem graça!


(Cavadoras de Ouro)

A história mais interessante, porém, era a que ele contava de quando uma das suas tias de Campina o levou para ver um filme de terror, que eu depois identifiquei como sendo The Ape (1940), com Boris Karloff. Segundo Ariano, era a história de um cientista louco que se vestia numa pele de gorila e saía de noite pela cidade, cometendo crimes.

Acontece que a tia de Ariano era uma senhora pouco acostumada ao cinema e ia só para fazer gosto ao sobrinho-visitante. Ela tinha um raciocínio – digamos – um pouco lento para acompanhar a história, e de vez em quando fazia comentários ou perguntas que provocavam o riso nas pessoas das cadeiras próximas, e Ariano, menino, morria de vergonha, ficando com vontade de se enfiar embaixo dos assentos.


(The Ape, 1940)

Perto do fim do filme, o cientista, disfarçado de gorila, teve a luta final contra a polícia, ou algo assim, foi alvejado e caiu morto. E nesse momento acontece a clássica cena da re-transformação (comum em filmes de lobisomens e em histórias como “O homem invisível”, “O médico e o monstro”, etc.), quando após a morte o monstro revela sua identidade humana.

Os policiais examinaram o gorila caído e, rasgando a roupa de pele, viram Boris Karloff lá dentro. Um silêncio enorme pairou no Cine Capitólio e no meio do silêncio a voz excitada da tia de Ariano, que enfim entendera a história:

– Eita, Ariano!  Entendi!  O urso tinha comido o doutor!

O cinema veio abaixo e Ariano quis desaparecer.


(Vida e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, Ferdinand Zecca, 1905)

Essa história me lembra outra, que se contava lá em casa. Antigamente, durante a Semana Santa era costume dos cinemas exibir uma versão bem antiga do filme A Paixão de Cristo: um filme mudo, sempre em cópia bem estragada, com aquele movimento aceleradozinho. E o pessoal católico ia assistir todos os anos o mesmíssimo filme.

(Que ainda não sei se era o filme de Ferdinand Zecca de 1905 ou o de Cecil B. De Mille de 1927).

Aí... Hollywood produz O Rei dos Reis (1961), um filme em Technicolor, de Nicholas Ray, com Jeffrey Hunter – lourinho, bonitinho, de olhos azuis – no papel de Cristo.

Uma beata que morava nas redondezas foi ao cinema, como ia todos os anos, e voltou para casa pegando ar.

– Isso é um desaforo!  A gente vai no cinema pra ver a paixão de Nosso Senhor e eles botam um filme colorido com um artista americano!!!

– Mas tia, e que filme a senhora queria ver?

– Eu queria aquele outro que tem todo ano, o antigo, o que foi feito com Jesus Cristo de verdade!

Ela pensava que A Paixão de Cristo era um documentário filmado no ano 33 da Era Cristã.

Essas histórias são engraçadas por que mostram o caráter alucinatório que o cinema sempre teve para as populações mais simples, principalmente em suas primeiras décadas de existência. Os espectadores estavam diante de várias coisas ao mesmo tempo: uma cerimônia coletiva (centenas de pessoas) numa sala escura, contemplando uma coisa luminosa, impressionante e gigantesca – e que não entendiam por completo.

E mais do que isso: sendo forçadas a fazer sentido de uma sucessão de imagens cuja gramática e sintaxe elas levavam talvez anos para aprender.

Me lembro de ter lido um comentário de um jornalista, nas primeiras décadas do século 20, dizendo mais ou menos assim: “O filme é incompreensível. Vemos um casal sentado a uma mesa, conversando, de repente aparece a cabeça de um gigante, e em seguida vemos o casal de novo, bem tranquilo, aparentemente sem perceber nada.”  O gigante era o rosto do ator em close-up.

Isso era ainda mais notável quando sabemos que a imagem cinematográfica, em suas primeiras décadas, era muito mais sujeita do que hoje a desfoques, trepidações, manchas, má projeção, películas arranhadas ou mofadas, telas de má qualidade.

Focalizar aquelas imagens, identificá-las, fazer a conexão entre elas... isso era um trabalho insano, para mentes de garotos ou mesmo de adultos cujos cérebros jamais tinham sido submetidos a uma tal montanha-russa imagética. (Comparados ao cinema, o teatro e a ópera eram um oásis de continuidade e foco.)

Em As Palavras (“Les Mots”, 1963), Jean-Paul Sartre lembra com carinho essa fase psicodélica, alucinógena de sua infância nos cinemas parisienses repletos (tradução de J. Guinsburg):

Eu raspava minhas costas em joelhos, sentava-me num assento rangente, minha mãe introduzia uma coberta dobrada sob minhas nádegas a fim de me alçar; por fim eu olhava a tela, descobria um giz fluorescente, paisagens pestanejantes, raiadas de aguaceiros; chovia sempre, mesmo em pleno sol, mesmo nos apartamentos; às vezes um asteróide em chamas cruzava o salão de uma baronesa sem que ela parecesse espantada. Eu amava esta chuva, esta inquietação sem repouso que trabalhava a muralha. (...) Eu, por meu lado, queria ver o filme o mais de perto possível. No desconforto igualitário das salas de bairro, aprendera que a nova arte pertencia a mim, como a todos. Éramos da mesma idade mental: eu tinha sete anos e sabia ler, ela doze, e não sabia falar.

Sartre usa aí de uma certa licença poética, porque o cinema era na verdade dez anos mais velho do que ele.















quarta-feira, 4 de julho de 2012

2913) Ser célebre (4.7.2012)






Um número imenso de páginas (cartas, diários, relatos de viagens, etc.), escritas nos séculos 18 e 19 antes da invenção da fotografia, é dedicado a encontros que o autor teve com personalidades ilustres do seu tempo: estadistas, artistas, aristocratas, etc.  Daria uma antologia que poderia furtar o título do livro de Peter Brook, Encontros com Homens Notáveis.  Stendhal conta um episódio divertido de sua estadia em Terracina (Itália) em 1817, quando, conversando com um grupo de italianos, entabulou um diálogo sobre música com um homem jovem, de cabelos claros, bem apessoado; Stendhal teceu os maiores elogios às óperas de Rossini, dizendo ser o único compositor de gênio daquela época, e pelas risadas dos outros acabou descobrindo que o jovem sentado à sua frente era o próprio Rossini.

Era uma época em que o nome de um indivíduo podia ser famoso e respeitado em toda a Europa sem que se tivesse uma idéia muito clara de como era seu rosto. A fotografia não tinha sido inventada. Nobres e reis eram conhecidos através de pinturas, desenhos e gravuras, que, como se sabe, nem sempre são unânimes em sua reconstrução de fisionomias, além de correrem o risco de ficarem rapidamente defasadas porque o indivíduo envelheceu, engordou, etc. Quantas pessoas, na Paris de Maria Antonieta, tinham visto de perto o rosto de Maria Antonieta?  Há um interessante filme sobre Napoleão (A Roupa Nova do Imperador, de Alan Taylor, 2001) em que ele foge do exílio, retorna a Paris para reconquistar o trono, mas a conspiração que o ajudou é desmontada. Ele se vê sozinho, anônimo e sem dinheiro numa cidade onde ninguém o reconhece, e não adianta dizer que é Napoleão porque há centenas de malucos dizendo o mesmo.

No conto “A Liga dos Cabeças Vermelhas” (1891), Sherlock Holmes a certa altura encontra-se frente a frente com John Clay, um bandido que ele classifica como “o quarto homem mais esperto de Londres”. Críticos perguntaram: esse homem tão esperto não saberia que aparência tinha Sherlock Holmes? Talvez sim, talvez não, mas essa é uma questão que hoje, 120 anos depois, em plena ditadura da imagem, se coloca de outra forma. No tempo de Jesus Cristo, se alguém chegasse numa cidade da Judéia dizendo ser o próprio ia ter que fazer um ou dois milagres para convencer os relutantes. Duvido que durante a vida de Jesus (mesmo durante os seus três anos de militância intensa, até a crucificação) tenham circulado desenhos ou pinturas com a representação do seu rosto. O que se tinha eram descrições e comparações verbais, imprecisas como sempre, e não era uma tarefa fácil a qualquer sujeito convencer os outros de sua própria identidade.

domingo, 6 de novembro de 2011

2705) Os três Cristos (4.11.2011)



Segundo um artigo de Jenny Diski (http://bit.ly/qmGqcA), uma experiência psicológica muito interessante foi a que o Dr. Milton Rokeach realizou em 1959 com três pacientes psicóticos do Ypsilanti State Hospital (EUA). O tema da pesquisa eram os sistemas de crenças das pessoas: “como as pessoas desenvolvem e mantêm (ou modificam) suas crenças de acordo com suas necessidades e com as exigências do mundo social em que vivem”.

Rokeach afirma que existem versões conflitantes sobre o mundo e que as pessoas recorrem a algum tipo de autoridade (religiosa, científica, política, etc.) para se posicionar. Uma das crenças básicas do ser humano é a própria identidade (eu sou eu); e essa identidade é única e personalizada (eu não posso ser você; você não pode ser eu). Ele fez uma experiência em sua própria casa, trocando os nomes de suas duas filhas pequenas; no começo era uma brincadeira, mas quando ele continuou insistindo, com ar sério, as duas foram ficando nervosas e começaram a chorar.

Rokeach reuniu três internos do hospital que afirmavam ser Jesus Cristo. A experiência resultou no livro Os Três Cristos de Ypsilanti (1964). Eles eram Clyde (70 anos), Joseph (58) e Leon (40). Os dois primeiros estavam internados há décadas, o outro há cinco anos. O médico pôs os três para conviverem juntos e executarem juntos pequenas tarefas, sob vigilância constante. (Diz Jenny Diski que era algo parecido ao “Big Brother”, com a diferença de que no BB a alucinação das pessoas é de que são famosas ou interessantes.)

Os três “Cristos” desenvolveram uma convivência social em que cada um mantinha sua posição mas procurava não antagonizar os outros dois. Leon dizia: “Eu sei quem eu sou”, e Joseph respondia: “Eu não quero tirar isto de você. Pode ficar. Eu não o quero”. Joseph explicava ao médico que os outros dois eram doidos, já que estavam todos num hospital psiquiátrico. Clyde assumia um tom imperial, e era de opinião que os outros dois eram seres inferiores, e além do mais estavam mortos. Dizia ao médico: “Eu sou ele. Está vendo? Entenda, agora!”. E Leon afirmou a certa altura: “Vocês estão usando um paciente contra o outro, tentando fazer lavagem cerebral e também manipular a situação através de vudu eletrônico”.

Me veio a idéia de pegar três indivíduos sadios, que não se conhecessem entre si: um cristão, um judeu e um muçulmano. E repetir a experiência, perguntando-lhes: “Qual de vocês acredita no verdadeiro Deus?”. Teríamos então dois conjuntos de crenças conflitantes. E talvez descobríssemos semelhanças inesperadas entre eles, porque estariam fazendo afirmações igualmente impossíveis de provar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

2109) O nascimento de Cristo (11.12.2009)



Qual a data do nascimento de Jesus Cristo? Mesmo os cristãos mais fervorosos devem reconhecer que a comemoração em 25 de dezembro é meramente simbólica, uma vez que ninguém sabe ao certo em que data o Cristo histórico teria nascido. Um artigo recente na “Biblical Archaeology Review” (http://www.bib-arch.org/e-features/christmas.asp) faz um exaustivo levantamento das referências históricas a essa data, e por fim se concentra em duas hipóteses. A primeira delas, segundo o autor, Andrew McGowan, é a mais disseminada. Diz que a data de 25 de dezembro foi escolhida porque se tratava da data em que há séculos se realizavam festivais pagãos de inverno (no Hemisfério Norte). Trata-se do Solstício de Inverno, e já em 274 d.C. o imperador romano Aureliano criou nessa data a comemoração do nascimento do Sol Invictus. Pelo que entendo, é a partir dessa data (a noite mais longa do ano) que as noites vão ficando gradualmente menos longas até se chegar ao Solstício do Verão em 25 junho, quando temos (no Hemisfério Norte, claro – aqui é o contrário) a noite mais curta e o dia mais longo, e aí tudo volta a caminhar no sentido inverso.

O problema é que os comentaristas cristãos dessa época não se referem ao fato, e a primeira menção conhecida vem apenas no século 12, através de um cronista chamado Dyonisius bar-Salibi. A teoria mais interessante (diz McGowan) é a que foi ressuscitada para o mundo moderno primeiro pelo francês Louis Duchesne e depois pelo norte-americano Thomas Talley. Remonta a cerca do ano 200 da Era Cristã, quando se afirmou que o dia da morte de Cristo (“14 de Nisan”, segundo o Evangelho de S. João) correspondia a 25 de março do calendário romano.

Isto faz com que haja um intervalo de exatamente nove meses entre a data em que Cristo teria sido morrido e a data do seu nascimento; portanto, a sua data de morte seria a mesma data de concepção, o que cria um ciclo simbólico de morte e ressurreição. Vários autores antigos comentaram essa crença, entre eles Santo Agostinho, em “Sobre a Trindade”: “Pois acredita-se que Ele foi concebido a 25 de março, o mesmo dia da sua Paixão; e assim o ventre da Virgem, onde foi concebido, e de onde nenhum mortal brotou, corresponde a esse novo túmulo em que foi sepultado, e onde nenhum homem repousou, nem antes ou depois dele. Mas ele nasceu, conforme a tradição, em 25 de dezembro”. McGowan aponta a presença desse simbolismo nas muitas obras de arte representando a Anunciação, em que a imagem do infante Cristo é representada descendo do céu com uma cruz.

Verdadeira ou não, a tese mostra o quanto de literário existe na composição dos mitos, e uso a palavra “mito” aqui no sentido de narrativa elaborada coletivamente e à qual se atribui uma verdade transcendental que vai além da verossimilhança e da possibilidade de comprovação. O mito cristão faz à Morte seguir-se o Renascimento, e esse é um dos seus símbolos mais poderosos.

domingo, 21 de março de 2010

1807) Os cinco presentes de Cristo (24.12.2008)



(Cristo Amarelo, de Paul Gauguin)

De vez em quando, no Natal, eu dou uma geral nos presentes que ganhei na infância por ter sido criado numa família cristã. Cresci como os jovens da minha geração, impérvios à fé dos seus antepassados, inoculados de modernidade e de ciência, e com o misticismo (o pouco que lhe restou) pulverizado em direções diversas: Budismo, Taoísmo, etc. Mesmo assim, o Cristianismo me deu presentes que de vez em quando examino. Não direi que os uso, ou que os mereço. Mas se ganhei de presente, são meus também.

O primeiro que me vem à mente é a fraternidade, o amor fraterno para com pessoas desconhecidas. É o que menos pratico e mais admiro. Lembra-me a história do cara que vem numa estrada, embaixo do sol quente, encontra um mendigo doente que nunca viu mais magro, coloca-o nas costas e o traz para a cidade. Alguém pergunta: “Não é pesado?” e ele diz: “Não. É meu irmão”. Eu não sou capaz de carregar nas costas um mendigo que não conheço; mas não sou um caso perdido, porque se vir alguém procedendo assim não vou mangar. Eu sei o que está acontecendo ali – e tem gente que nem sequer sabe.

Segunda coisa: a simplicidade, os pés no chão. Cristo fez uma revolução humanista sem erguer uma espada, sem empunhar um lápis. Tudo que fez, fez com a simples presença, as palavras, as ações – isso que os roqueiros de hoje chamam de atitude. Era um homem que tinha a coragem de proceder de modo diferente. Foi torturado e morto, mas mudou o mundo – sem dinheiro, sem exércitos, sem mídia. E não foi o único: São Francisco e Gandhi fizeram o mesmo.

Outro presente com o qual não sei o que fazer é o perdão, a arte de esvaziar conflitos. Tenho a meu favor o fato de que nunca brigo, mas isto é mais uma estratégia de sobrevivência do que bondade inata. Não sei como eu procederia se tivesse Poder e alguém me pisasse os calos. Mas Cristo tornou possível a escolha pelo perdão; transformou o perdão numa alternativa real. Forçou cada um de nós a, pelo menos, hesitar antes da vingança. E o mundo não foi mais o mesmo.

Outro legado cristão é o Mistério – e aqui, amigos, estou num terreno meu. Quem foi o Cristo histórico? Por onde andou entre os doze anos, quando embasbacava o Templo, e os trinta, quando arrebatou a Judéia? Quem era ele de fato? O que de fato lhe ocorreu? Cristo não apenas nos ensina a beleza vertiginosa do mistério, como também nos reconcilia com o fato de que este é necessário, é insolúvel, e não há nem precisa haver respostas finais.

E finalmente vem o meu presente cristão mais precioso: o exemplo de falar por imagens vívidas, fortes, inesquecíveis. Não apenas as parábolas de Jesus, mas as comparações, os aforismos, as palavras de ordem. Cristo foi um repentista, dotado de língua mais rápida que a de Antonio Marinho e de imagens mais incisivas que as de Pinto do Monteiro. O Sermão da Montanha é uma cantoria solo, repleta de versos espantosamente belos. Este presente, pelo menos, não desperdicei de todo.

sábado, 9 de janeiro de 2010

1499) Os triângulos sagrados (2.1.2008)



Dentro do misticismo cristão, há dois conjuntos de símbolos sagrados que sempre chamaram minha atenção pela sua aparente simetria, mas uma simetria que num segundo exame se mostrava imprecisa ou incompleta. Refiro-me aos dois triângulos formados pela Santíssima Trindade e pela Sagrada Família. Ambos sugerem o triângulo familiar básico (pai, mãe, filho), mas em ambos falta ou sobra um elemento. Por quê?

Vejamos a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e – no lugar da mãe – o Espírito Santo. Esta última entidade é para os não-cristãos a mais enigmática, a mais difícil de visualizar. No triângulo antropológico da família, ele é uma entidade misteriosa cuja função mais aparente é ocupar o lugar da mãe. Alguns analistas (especialmente da ala feminista) vêem nisso um sinal da impossibilidade da cultura judaica de colocar a mulher numa posição de destaque. Uma cultura patriarcal como a do Velho Testamento talvez ficasse pouco à vontade para definir Deus como “o Pai, a Mãe e o Filho”.

Comparada à Trindade, a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) reproduz a estrutura real de uma família humana. Sua incompletude só se revela quando lembramos que, de acordo com os Evangelhos, coube a São José apenas o papel de pai adotivo de Cristo, sendo que a paternidade real é atribuída justamente ao Espírito Santo, emanação da Divindade.

Ao que parece, o Espírito Santo é uma metáfora para algo que a religião se sentia desconfortável em admitir: a relação fecundante que se dá entre o homem e a mulher. Se a Santíssima Trindade fosse composta por “o Pai, o Filho e a Mãe” isto implicaria na presença de uma relação sexual no cerne mesmo da Divindade. Isto foi evitado – talvez por preconceitos de ordem moral, talvez para evitar que a Trindade, uma entidade puramente espiritual, fosse contaminada pela sugestão de um processo reprodutivo típico dos seres de carne e osso.

No caso da Sagrada Família, o processo reprodutivo era indispensável, de vez que a intenção era fazer de Jesus Cristo um ser humano de origem divina mas de carne e osso. Desta vez, em vez de se suprimir a Mãe suprimiu-se o Pai, e mais uma vez suprimiu-se com isto a necessidade da relação sexual. O Espírito Santo encarregou-se da paternidade. Ele não está diretamente presente na Sagrada Família, mas está subentendido na figura de São José, pois cumpriu a função que teoricamente seria deste.

O Divino Espírito Santo é uma essência misteriosa cuja realidade é reconhecida e louvada pela cultura que produziu esses triângulos sagrados. É uma entidade que produz êxtase, iluminação, transcendência; que é capaz de iluminar as pessoas com um fogo sagrado e de fazê-las falar em línguas diferentes. Ele é a Esposa na Santíssima Trindade, e é o Marido na Sagrada Família. É a União Mística do homem e da mulher, o símbolo insolúvel mas evidente que conecta os triângulos do Espírito e da Matéria. Quem já o experimentou não precisa de provas de sua existência.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

1482) A tumba de Jesus (13.12.2007)


Em 1980, operários que preparavam os alicerces de um prédio de apartamentos, em Jerusalém, escavaram a entrada de uma antiga tumba, encimada (o que não era comum entre tumbas desse tipo) por um sinal que não foi decifrado: um grande V invertido tendo no centro um pequeno círculo. Arqueólogos foram chamados e tiveram três dias para mapear a tumba e retirar dali o que fosse de interesse. Eles retiraram uma meia dúzia de ossuários (pequenos esquifes de pedra) que foram para o Museu. Depois, a tumba foi lacrada, coberta, e o prédio de 15 ou 20 andares foi erguido ali em cima.

Anos depois, os pesquisadores do Museu viram que aquele grupo de ossuários era especial. Num deles estava escrito: “Maria”. Em outro, “Jesus, Filho de José”. Em outro, “Mateus”; em outro, “Tiago” (eram os nomes de dois dos presumidos irmãos de Jesus Cristo, o “Jesus histórico” como se diz). Houve um alvoroço muito grande com esses achados, e parte desse alvoroço é um documentário exibido no Canal Discovery. Existe um saite com todo o material relativo à descoberta – fotos, mapas, e um documento PDF com a descrição minuciosa do que foi encontrado na tumba. Tudo aqui: http://dsc.discovery.com/convergence/tomb/tomb.html

O filme (cerca de uma hora e meia) tem uma narrativa fascinante. Primeiro, acompanhando a decifração dos nomes, que foram rabiscados no exterior dos ossuários há dois mil anos. Depois, acompanhando os esforços dos pesquisadores para encontrar a localização exata do túmulo sob um moderno condomínio, e a sucessão de golpes de sorte que acaba por levá-los à redescoberta da tumba.

Autoridades da igreja, claro, dizem que não é nada disso. Nomes como Jesus, Maria, Tiago, etc. eram muito comuns naquela época. Os pesquisadores rebatem dizendo que eram nomes comuns, isoladamente, mas todos eles no interior de uma mesma família (tumbas daquele tipo eram próprias para sepultamentos de membros de uma família) são coincidência demais. A presença de um ossuário com o nome “Mariamne” também chama a atenção; os pesquisadores fazem um complicado raciocínio linguístico para explicar que “Mariamne” é “Maria Madalena”, e que estaria na tumba por ser esposa de Cristo, além de um outro ossuário com o nome “Judá, filho de Jesus”.

Quando a tumba foi aberta em 1980, os ossos foram acondicionados separadamente e sepultados num solo sagrado, mas num local (ao que me parece) que ninguém lembra mais onde foi. Seria uma ironia muito grande se, dois mil anos depois, tivéssemos de fato encontrados os restos físicos de Jesus Cristo e voltado a enterrá-los num lugar qualquer. Ou talvez não. Os pesquisadores rasparam a face interna dos ossuários e recolheram material para os exames de DNA (aliás, provaram que todos eram da mesma família, menos “Mariamne”, o que reforça a tese de que seria a esposa de um deles). O material era suficiente para os testes, mas não para clonar um dos personagens. Ainda bem, porque senão não sei do que seríamos capazes.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

1275) O realismo camuflado (14.4.2007)


(A Ceia de Dali)

Dois quadros famosos que exemplificam bem a questão do Realismo são as recriações da Última Ceia de Cristo, por Leonardo da Vinci e por Salvador Dali. O primeiro todo mundo conhece; o segundo pode ser achado no “Google Imagens” sob o título “The Sacrament of the Last Supper”. À primeira vista, a ceia de Da Vinci é realista e a de Dali é fantástica. Na primeira, há um recinto normal, pessoas retratadas de forma costumeira, coisa e tal. Na segunda temos uma sala que mais parece um cenário de ficção científica, com estruturas que ora parecem de metal maciço, ora parecem transparentes; o corpo de Cristo também é parcialmente transparente (podemos avistar através dele os barcos amarrados ao ancoradouro).

Um exame mais demorado, no entanto, nos mostra que não é bem assim. Ambos os quadros são uma mistura equilibrada entre o realismo e o não-realismo (não direi propriamente o Fantástico, mas o Improvável). A Ceia de Da Vinci é um retângulo deitado com uma composição em X, centralizada na cabeça de Cristo. Sempre me intrigou o fato de a gente ver treze pessoas sentadas de um lado só da mesa. O lógico, o realista, seria que estivessem distribuídos em torno dela (como aliás estão, na Ceia de Dali), mas havia na época uma convenção pictórica que fechava os olhos à lógica. A impressão que nos dá é que havia um pintor na Ceia e eles ficaram todos de um lado da mesa para todos poderem aparecer de frente. (Uma situação já satirizada por Luís Buñuel em Viridiana, na cena da ceia dos mendigos, em que posam para uma “fotografia”).

No quadro de Dali, todos os apóstolos têm corte de cabelo moderno, tipo anos 1950, o que diminui seu possível realismo. Mas devemos ter mente que o quadro de Da Vinci é também uma reinterpretação de cabelos, barbas e vestes da época de Cristo, feita no século 15, e nada nos garante que haja uma preocupação realista. A pintura sacra de todos os séculos cansou de mostrar centuriões romanos e apóstolos judeus vestidos nos trajes da época do pintor. Há um traço realista que passa despercebido, mas me parece essencial: as dobras da toalha da mesa. Da Vinci mostrou este precioso detalhe, e Dali aperfeiçoou como só ele sabia fazer. Quando desdobramos uma peça de tecido (toalha, lençol, etc.) vemos nela as marcas da dobra, formando retângulos traçados por vincos alternadamente salientes ou em forma de sulcos. É um detalhe meio imperceptível, mas que nos dois quadros me dá uma sensação de realismo maior do que todo o restante.

Última nota: a ceia de Da Vinci é um dos quadros mais copiados do mundo. As únicas reproduções autênticas são as que mostram, abaixo da figura de Cristo, a parte superior de uma porta, pois a pintura original está na parede do refeitório de uma igreja em Milão. Parte da pintura foi destruída há séculos para a abertura desta porta. Um sacrilégio, mas simbólico: não será o próprio Cristo uma porta, já que ninguém vai ao Pai senão por ele?

terça-feira, 23 de junho de 2009

1118) O espírito cristão (14.10.2006)


(os Amish, no filme de Peter Weir)

Há alguns dias, nos EUA, um homem chamado Charles Roberts entrou numa escola da comunidade Amish, na Pensilvânia. Mandou todos os meninos saírem. Queria apenas as meninas. Ficaram dez garotas entre 8 e 12 anos. Ele amarrou todas, e atirou nelas de uma em uma, antes de se matar também. Cinco das garotas morreram, outras cinco estão hospitalizadas no momento em que escrevo. As escolas norte-americanas “têm um chama” para esses Exterminadores do Futuro, que agem como se quisessem matar um Messias qualquer mas tivessem que fazê-lo às cegas.

Os Amish são um grupo religioso conservador, concentrado em alguns estados ao Nordeste dos EUA. Eles recusam coisas como a eletricidade, o automóvel, o telefone, etc. Muitos hão de se lembrar do filme A Testemunha, onde Harrison Ford, no papel de um policial disfarçado, vai viver numa destas comunidades para proteger um garoto que presenciou um assassinato. Após o crime da Pensilvânia, um grupo de 30 ou 40 pessoas da comunidade Amish foi ao enterro do criminoso, para prestar solidariedade à família. Quando eu leio uma coisa assim, perco o prumo. Se eu tivesse uma filha de dez anos e ela fosse rendida, amarrada e fuzilada a sangue frio por um sujeito, eu não compareceria ao enterro dele. Faria o possível para comparecer ao linchamento.

Como sou agnóstico na teoria e cristão na prática, é claro que não lincharia ninguém. Sou até contra a pena de morte. Mas descubro que os Amish, com seus chapéus largos, suas barbas soturnas, seus cabriolés negros, são muito mais cristãos do que eu. Li em algum lugar que sua prática religiosa (eles são cristãos anabatistas, de origem suíço-alemã) se baseia em dois conceitos. Um é o de “Gelassenheit”: submissão à vontade de Deus, deixando que as coisas sigam seu próprio rumo; e “Demut”, humildade, que para eles é o contrário de “Hochmut”, arrogância, orgulho, “húbris”. Os Amish cultivam a solidariedade, e sua recusa às máquinas deve-se em parte a acreditarem que estas diminuem a necessidade do trabalho coletivo e do apoio mútuo. Eles rejeitam a competitividade, a vaidade pessoal (não gostam de fotografias), o individualismo.

Vai daí que, depois de sepultadas as suas próprias crianças, eles se aprontam, trocam de roupa, pegam as charretes e vão confortar a viúva e os filhos pequenos do criminoso, porque acham que aquela família, tanto quanto as deles, foi vítima de uma tragédia. Seu senso comunitário os leva a solidarizar-se até mesmo com aquela família que não pertence à sua comunidade, mas que, por causa do crime cometido por um de seus membros, uniu-se a eles. Um antigo e profundo mote de Cantoria de Viola diz: “Chora a mãe do assassino / e a mãe do assassinado”. Um crime de morte é sempre uma tragédia com duas vítimas, porque pior do que morrer, para muitas religiões, é matar. No mito bíblico do primeiro assassinato, quem sofreu mais, a mãe de Abel ou a mãe de Caim?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

0623) Luz e mágica industrial (18.3.2005)


(The Sims)

Jesus Cristo convida George Lucas para uma partida de golfe. Logo na primeira tacada, a bola de Jesus vai passando direto quando de repente dá uma quebra de 90 graus na trajetória e, pimba! Cai dentro do buraco. Lucas dá um olhar meio atravessado pra ele mas não reclama. Desfere sua tacada. A bola vai direto num tronco de árvore, ricocheteia, bate numa pedra, sobre no ar, choca-se com um helicóptero que vinha passando, cai sobre um lago, é abocanhada por uma perereca, a qual por sua vez é abocanhada por uma águia que se eleva nos ares com a perereca na boca; a perereca acaba por largar a bola que cai de uma altura de cem metros, pimba! Dentro do buraco. Jesus olha meio atravessado, e George Lucas o tranqüiliza: “Calma, calma, é tudo computação gráfica”.

A computação gráfica aplicada à imagem (cinema, TV, internet, vídeo) evoluiu tanto que me proporcionou minha teoria mais importante dos últimos vinte anos: “Somos o Video-Game de Alguém”. Nosso Universo é real, é feito de matéria, é organizado exatamente da forma descrita pelos nossos cientistas. Só tem uma coisa: tudo foi criado por uma raça de Super-Seres Cósmicos, com a finalidade de entretenimento, testes científicos e enriquecimento espiritual.

Não sei se o caro leitor já jogou, ou viu alguém jogar, The Sims, aquele joguinho em CD-Rom onde criamos algumas casas, algumas famílias, e eles passam a viver, trabalhar e interagir uns com os outros. As crianças adoram. Já saíram uns dez “pacotes de expansão” cheios de novidades: os Sims agora são vistos no trabalho, na rua, nas festas, nas diversões... Eles namoram, casam, têm filhos, morrem. E a garotada não desgruda do computador. Nós somos os Sims de uma raça cósmica: “Superior Intelligence’s Mankind System”. Eles planejaram os algoritmos matemáticos que presidem à organização da matéria, à criação da vida, à formação do Sistema Solar e dos ecossistemas terrestres, e por fim ao surgimento da Humanidade. São muito, muitíssimo mais poderosos do que os alienígenas misteriosos de Clarke & Kubrick em 2001, Odisséia no Espaço. Na verdade, os alienígenas de 2001 não passam de um pacote-de-expansão do programa original.

Confesso que minha teoria não é totalmente original, foi parcialmente bebida em livros como Simulacron 3 de Daniel Galouye, “The Tunnel Under the World” de Frederik Pohl e outros, que são os avós de Matrix. A computação gráfica me serviu apenas para demonstrar a possibilidade matemática de que isto ocorra. Com nossa tecnologiazinha pré-histórica, somos capazes de determinar matematicamente cada ponto de uma imagem aparentemente tridimensional, sua cor, sua textura, sua localização, seus deslocamentos. Somos capazes de usar esses pontos para compor imagens, seres, pessoas. E criar cenas inteiras, filmes inteiros com essas nuvens de pontos coloridos, fazendo cada criatura dessas obedecer nossas instruções: “Sente ao teclado... escreva sua coluna do jornal...”