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segunda-feira, 20 de julho de 2026

5245) Copa 2026: futebol tem lógica (20.7.2026)



 

Espanha 1x0 Argentina! 
 
E pronto, a Espanha tornou-se, pela segunda vez, campeã do mundo. Na minha cabeça, isto desmente pela milésima vez o antigo clichê dos coleguinhas comentaristas esportivos: “Ah, futebol não tem lógica!...”. 
 
A lógica do futebol não é uma lógica exata, é uma lógica de Ciências Humanas, e sendo assim só pode funcionar por aproximação, ou probabilisticamente. 
 
Se, no jogo deste domingo, a Argentina conseguisse fazer 1x0 na prorrogação e ganhasse o título, o resultado também teria por trás de si uma lógica implacável, mesmo que dolorosa. Quem não faz, leva. Com a Argentina não se brinca. Com Messi em campo, tudo pode acontecer. 
 
A Ciência é forçada a lidar com esse tipo de lógica difusa (“fuzzy logic”).  Não há certezas. Mesmo uma tendência esmagadora na direção “A” pode ser revertida bruscamente na direção “B” por um fator inesperado, dificilmente previsível. E isso está na raiz do jogo de futebol. 
 
A Espanha foi campeã, mas na cabeça de muita gente esta Copa ficará conhecida como “a Copa de Cabo Verde” – essa seleção desconhecida e inesperada que não perdeu para a seleção campeã, e só foi derrotada pela vice-campeã Argentina depois de muito suor, num jogo equilibradíssimo que facilmente poderia ter tido um placar inverso. 


(foto: Chandan Kanna)
 

Toda Copa do Mundo produz uma dúzia de narrativas épicas: o grande time que fracassou na hora H, o jogador obscuro que fez o gol do título, o time azarão que aplicou uma zebra num favorito, o erro do juiz que até ele mesmo concordou, o zagueiro que fez um gol contra e foi assassinado, o potentado que tentou mudar o resultado de um jogo, o acidente lamentável que pode ter cortado pelo meio uma carreira... 
 
Cabo Verde trouxe para a Copa 2026 a aventura improvável vivida por uma ilha minúscula. Ela saiu “pegando no laço” jogadores do mundo inteiro com algum vínculo genealógico, e montou um time medianamente competitivo. Mostrou em campo que esses atletas (que não jogam no país) eram capazes de muito mais garra e determinação do que seleções consagradas e elencos com milionários contratos de publicidade. 
 
O grande jogo da Copa, para mim, foi Argentina 3x2 Cabo Verde, 120 minutos de um confronto em que cada palmo da grama foi disputado com sangue, suor e lágrimas, e com muito talento de parte a parte. 
 
Pertinho desse jogo eu colocaria Inglaterra 3x2 México, no caldeirão do Estádio Azteca, com belos gols, um clima sufocante, e uma resistência heróica dos ingleses reduzidos a dez homens em campo. 



O Brasil fez jogos mornos, sem grande brilho e sem grandes emoções. O melhor jogo nosso foi a virada sobre o Japão, não por ter mostrado um grande futebol, mas pelo sofrimento de começar perdendo, conseguir o empate, e depois fazer o gol da vitória no último minuto. 
 
Nossa Seleção joga sem alma. Joga com a tensão acabrunhada (ou com a empáfia postiça) de quem já começa devendo e sabe que não tem com que pagar. 
 
Tem um técnico que se adapta bem ao material humano de que dispõe. Foi assim que Carlo Ancelotti ganhou tudo pelo Real Madrid, mas veio parar, coitado, num covil de raposas que é a CBF, a política brasileira, a publicidade brasileira, a imprensa brasileira e as redes sociais brasileiras. Desejo-lhe sorte da próxima vez, mas sem muita esperança. Metade desta Copa ele perdeu na convocação. 
 
A Espanha foi campeã jogando esse jogo de cerca-cerca, tocando bola e chegando aos poucos. Não é o meu futebol preferido. Gosto de times rápidos, que esticam passes em profundidade... Jogadores que entram na área driblando quem aparece pela frente... Times que chutam em gol de qualquer ângulo e de qualquer distância... Sou o último romântico. 
 
Admiro a tática e a técnica, mas gosto mais da garra, daí que mesmo a contragosto aplaudi a via-crucis da Argentina e a admirável presença de Lionel Messi. Nestas últimas partidas, Messi parecia um jogador radioativo. Pegava a bola na ponta-direita e os adversários ficavam a três metros de distância. Ninguém queria partir pra cima do toureiro. 
 
E o jogo avança no formato de sempre: a bola vai para a ponta-esquerda, é tocada para o jogador mais à direita, deste para o próximo, até chegar na ponta-direita, e ai recomeça tudo no sentido inverso, num semi-círculo de passes à frente da área, à espera de um deslocamento milagroso, uma rachadura no muro da represa. 
 
É o jogo do City de Guardiola, time que admiro (também a contragosto), porque sei o quanto aquilo exige inteligência e habilidade de quem faz a bola circular daquele jeito. É só uma questão de gosto, mesmo. Gosto de times que, quando se apossam da bola, partem a toda velocidade na direção do gol, três, quatro, cinco jogadores ao mesmo tempo, como se o jogo fosse acabar daí a dez segundos. 
 
A Copa teve seus momentos baixos, claro. As absurdas intervenções do presidente dos EUA na arbitragem, e na foto da premiação. E o tratamento vergonhoso dispensado pelo Estado policial norte-americano a jogadores da África e principalmente do Irã. 



É uma coisa meio surrealista você saber que dois países estão em guerra (mesmo uma guerra não oficialmente declarada, pois o Congresso dos EUA não a autorizou) e um deles tem que receber a seleção (e os torcedores) do outro. Parece um roteiro a quatro mãos entre Douglas Adams e George Orwell. 
 
Lembro de Orwell porque o autor de Animal Farm tem um ensaio famoso contra o futebol, escrito logo após a II Guerra, quando os ódios nacionalistas da Europa ainda não tinham arrefecido. 



Aproveitando uma excursão do Dínamo de Moscou pela Inglaterra, para enfrentar times britânicos, Orwell arregaçou as mangas e mandou ver.
 
Agora que a breve visita da equipe de futebol do Dínamo chegou ao fim, é possível dizer publicamente o que muitas pessoas lúcidas vinham afirmando em privado, antes mesmo da chegada do Dínamo. Ou seja: que o esporte é uma fonte inesgotável de animosidade, e que se uma visita dessa natureza teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas foi o de torná-las um tanto pior do que já estavam.
(“The Sporting Spirit”, 1945, Essays, Penguin, 2000, trad. BT)
 
Orwell vê essas disputas, compreensivelmente, não como um enfrentamento meramente esportivo, mas como símbolos do espírito de cada nação.
 
O detalhe mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude do público e, para além do público, das próprias nações, sujeitas a ataques de fúria a propósito desses embates absurdos, e que acreditam seriamente – pelo menos por curtos períodos de tempo – que o ato de correr, pular e dar pontapés numa bola são testes para as virtudes nacionais.
 
Ele não vê muitos elementos redentores no esporte:
 
O esporte levado a sério não tem nenhuma relação com “jogo limpo”. Ele é repleto de ódio, ciúme, arrogância, desprezo pelas regras, além do prazer sádico na contemplação da violência. Em outras palavras, é a guerra, só que sem disparos de armas de fogo.
 
Acho que isso coloca em perspectiva, inclusive, o papel do Brasil dentro da história do futebol mundial. Quando começou a II Guerra, tinham acontecido apenas três Copas: 1930 (campeão Uruguai), 1934 e 1938 (bi-campeã Itália). E o conflito cancelou, obviamente, as Copas que poderiam ter acontecido em 1942 e 1946.


 
Depois de uma guerra sangrenta e um hiato de doze anos, o Brasil construiu “o maior estádio do mundo” para acolher equipes do mundo inteiro. Foi uma espécie de Woodstock da paz. Num clima de muita politicagem e demagogia, mas, enfim – foi uma grande Copa, e podemos mesmo considerar que foi uma espécie de recomeço. A moderna Copa do Mundo começou em 1950.
 
O Brasil deu chocolates memoráveis nos europeus (7x1 na Suécia, 6x1 na Espanha). João Saldanha, que não se iludia facilmente, afirmava: “A juventude da Europa foi estraçalhada pela guerra. Daqui a uma ou duas gerações a coisa vai mudar”.
 
Mas o Maracanã inteiro cantou “Touradas em Madri” fazendo Braguinha chorar na arquibancada, e o time do Uruguai introduziu, no jogo final, o pulo-do-gato da “fuzzy logic” que deixaria perplexos tantos observadores, fossem cartesianos ou marxistas.
 
Eu vejo essas coisas como torcedor, ou seja, na condição de quem compartilha uma fantasia coletiva, e toda fantasia coletiva se parece com uma Realidade. Já o bravo George Orwell não conta conversa:



(Orwell, by Baptistão) 

 
A maior parte dos esportes que hoje praticamos tem origem na Antiguidade, mas o esporte não parece ter sido encarado muito a sério entre a era romana e o século 19. Mesmo nas escolas públicas britânicas o culto aos jogos não floresceu senão a partir de meados do século passado. (...) E então, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os jogos começaram a se constituir numa atividade com pesado financiamento, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção começou a se alastrar pelos demais países. E são os esportes mais violentos, o futebol e o boxe, os que mais se espalharam. Sem dúvida isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, ao lunático hábito moderno de um indivíduo se identificar com grandes estruturas de poder e passar a enxergar todas as coisas pelo ângulo da competição e do prestígio.
 
O autor dessas linhas estava se preparando para escrever sua obra final, 1984, com seus conflitos globais entre Lestásia, Eurásia e Oceania, com seus “dois minutos de ódio” em salões coletivos, seu culto à personalidade, sua vigilância eletrônica.
 
E o nosso VAR, esse sistema misto de câmeras e computação gráfica, não acaba virando uma espécie de reescritura dos fatos e de reescritura da História pelo “Ministério da Verdade” orwelliano, em que as notícias dos jornais passados são reescritas e os jornais reimpressos, de modo a que fique valendo a versão imposta por quem detém o poder tecnológico de fornecer informação?
 
Bem, desculpem a digressão, acabei me distraindo e perdendo o fio da meada. Parabéns Espanha, parabéns Lamine Yamal e Cubarsí, jogam muito, esses garotos.



 
 





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

5152) Um paraibano na Copa do Mundo (12.2.2025)




 
Ser o primeiro jogador paraibano a disputar uma Copa do Mundo é algo tão importante quanto ser a primeira atriz brasileira (ou a segunda) a ser indicada para o Oscar. 
 
No resto do mundo, fora do “universo de interesse”, fora dessa bolha (por maior que seja, é uma bolha), pode não ter a menor importância; mas só quem chega a esse patamar sabe a ladeira que subiu. 
 
A verdade é que se um filme brasileiro ganhar um Oscar ou um escritor brasileiro ganhar um Prêmio Nobel todo brasileiro (=um grande número de brasileiros) se sentirá implicitamente valorizado por essa premiação. Um pouco dessa glória choverá sobre nós, que compartilhamos com o premiado um parâmetro dos mais importantes: somos do mesmo país, do mesmo caldo cultural. 
 
Me lembro do que dizia Jorge Luís Borges: “Talvez algum átomo de oxigênio que eu respiro agora já tenha sido respirado por Shakespeare”. 




 
Se Fernanda Torres (que eu admiro muito) ganhar um Oscar, tenho o direito (poético) de imaginar que uma raspa da estatueta dourada choverá sobre meus cabelos, e poderei espalhá-la com o pente. Serei (poeticamente) oscarizado também. 
 
Se em vez da atriz for premiado o filme, comemorarei também. Meus amigos do-contra escarnecerão: “Ah, está comemorando vitória de um bilionário? Você não diz que combate eles?...” Em primeiro lugar, não combato bilionários, combato os mosquitos da dengue, uma luta onde pelo menos posso contabilizar relativas vitórias. E se a categoria “poder aquisitivo” me distancia do bravo Walter, somos aproximados pela categoria “colaborador-na-construção-da-muralha-da-China-levemente-absurdista-que-é-o-cinema-brasileiro,-uma-indústria-em-país-ocupado”. Fica uma coisa pela outra. 
 
Uma exposição que se abriu hoje em João Pessoa (Manaíra Shopping, em frente à Livraria Leitura) celebra o jogador Índio, do Flamengo, hoje meio esquecido pela imprensa e pela torcida. É compreensível. Eu mesmo, que sou paraibano, sou flamenguista, e ainda tenho o cacoete das estatísticas de futebol, lembrava o nome dele, mas somente como atacante do Flamengo, nem lembrava dessa passagem pela Seleção.
 
E hoje cá estou eu, cheio de orgulho retroativo, imaginando como eu-menino teria me sentido, se na infância longínqua tivesse sabido que ele era paraibano. 



(Índio, com a bola, entre Evaristo de Macedo e Didi)


A exposição é organizada por Fábio Henrique Alves, também autor da biografia Índio, o Herói de 57 (Livros De Futebol, 2022), e de um documentário sobre o jogador. 
 
Quando Índio teve seu auge no futebol, no Flamengo, em meados dos anos 1950, eu nem era gente ainda. Pelo clube rubro-negro ele realizou (entre 1951 e 1957) 202 jogos e marcou 134 gols. 
 
Meu pai colecionava revistas de futebol, entre elas a inesquecível Manchete Esportiva, e foi ali que ouvi falar em Índio pela primeira vez. Não sabia que era paraibano e, pensando bem, talvez se soubesse não tivesse dado importância. Quando eu era menino, Campina Grande e o mundo eram uma coisa só. 



(A batalha de Berna: Hungria 4x2 Brasil) 

 
Há dois grandes momentos na carreira de Índio na Seleção. Ele jogou na partida conhecida como “a Batalha de Berna”, na Copa da Suíça em 1954, quando o Brasil foi eliminado pela Hungria, num jogo de muitos pontapés, algumas expulsões, que terminou 4x2 para os húngaros. 
 
O segundo momento foi em abril de 1957. O Brasil disputava um mata-mata contra o Peru. Quem ganhasse iria à Copa da Suécia em 1958. No primeiro jogo, em Lima, o Brasil conseguiu empatar por 1x1, com gol de Índio; e classificou-se na volta com 1x0, no Maracanã, graças a uma folha-seca de Didi. 




Eu soube de tudo isto lendo na Manchete Esportiva, que meu pai encadernava. Já com 12 ou 13 anos, eu sentava na poltrona com um volume ao colo (era uma revista grande, maior que a Piauí) e ia descobrindo o imprevisível passado. 
 
Índio nasceu em Cabedelo em 1931, morreu no Rio de Janeiro em 2020, aos 89 anos. Além do Flamengo, jogou no Corinthians e no Espanyol (Barcelona). 




 
Toda vez que eu, como torcedor do Flamengo, via um jogador nordestino vestindo aquela camisa, sentia um orgulho particular, semelhante ao que muitos fãs do cinema brasileiro sentem quando veem Rodrigo Santoro, Sonia Braga ou Selton Mello trabalhando em grandes produções internacionais. Eu lembrava logo o alagoano Dida, o alagoano Zagalo, o sergipano Nunes, o paraibano Júnior, sem falar em vários baianos, desde Júnior Baiano até Hernane “Brocador”.  

E, é claro, o cearense Everton Cebolinha, o maranhense Wesley, e o potiguar Ayrton Lucas (“acelera, Ayrton!”). 
 
Aqui, no “Baú do Esporte” da TV Globo, uma entrevista com Índio, aos 81 anos, e imagens raras de um Flamengo x Vasco em que ele marca gol.
https://www.youtube.com/watch?v=70JfW_T9ilQ
 
A exposição ‘Índio – O Primeiro Craque’ será realizada no Manaira Shopping (em frente a Livraria Leitura), de 12 a 16 de fevereiro, das 14h âs 20h. A Realização é do Manaira Shopping e TV Cabo Branco, afiliada da Rede Globo, na Paraíba. A exposição terá uma série de objetos utilizados pelo ex-jogador durante a sua trajetória no futebol, acervo de Fábio Henrique Alves.
 




domingo, 24 de março de 2024

5045) A Seleção de Dorival (24.3.2024)

 


Ontem, a Seleção Brasileira, de saudosa memória, deu o ar de sua graça no Estádio de Wembley.
 
Ou melhor – na “arena” que os ingleses construíram no local onde existia antigamente o Estádio de Wembley, chamado pelos nossos altissonantes locutores “o templo do esporte bretão”. 
 
Foi o primeiro jogo sob o comando de Dorival Júnior, substituindo Fernando Diniz, que após bons resultados iniciais (abre o olho, Dorival) enfileirou uma série de derrotas. 



(Dorival Júnior)
 

Não vou analisar o estilo dos dois técnicos, simpatizo com ambos, acho que no futebol brasileiro de hoje em dia são dois talentos importantes, como mostram os títulos que ambos ganharam nos anos mais recentes, por diferentes clubes. 
 
O que eu quero falar é algo mais abstrato que não tem nada a ver propriamente com o dia de hoje, é algo do próprio ofício do futebol. Um clichê do ofício, que posso resumir na seguinte fórmula: 
 
1)      Técnico de clube é uma coisa, técnico de seleção é outra. 
2)      Existem duas possibilidades para um técnico: adaptar os jogadores a um esquema de jogo que ele já traz na cabeça, e adaptar o esquema de jogo aos jogadores de que dispõe. (São pontos extremos, claro – todo técnico mistura as duas coisas.) 
 
O item 1 quer dizer: 
 
O técnico de clube tem o ano inteiro para trabalhar com seu elenco, vários dias por semana. Conversa, treina, convive, explica no quadro-negro, comemora triunfos, choraminga derrotas, treina de novo, muda o time, experimenta, volta a treinar... Meses seguidos, com (basicamente) os mesmos jogadores. Que muitas vezes não foram escolhidos por ele – quando ele chega no clube, o elenco já existia. Aos poucos (quando pode) ele pede à diretoria: preciso de Fulano, de Sicrano... Quando pode. 
 
O técnico de Seleção senta com seus assessores e diz: Quero Fulano, Sicrano e Beltrano. É a famosa convocação. Ele convoca quem quer, e em 90% dos casos o jogador vem mesmo. (Os 10% ficam por contra de contusões, de sabotagem por parte do clube onde o cara joga, etc.) 
 
Ele pode chamar Os Melhores. Mas tem pouquíssimo tempo para treinar, a não ser quando é preparação para a Copa. Ele aposta na qualidade do elenco. São os melhores? Pode até ser que sim, mas muitas vezes jamais jogaram juntos, jamais conviveram, não se sabe “como vai ser a química”. São profissionais responsáveis? Claro. Mas são também celebridades, cada um deles vive cercado por uma entourage que buzina pressões no seu ouvido o tempo todo. Nunca se sabe como vão se comportar. 
 
Ou seja: o trabalho no clube é a longo prazo, rola muito aquela conversa de “a equipe está ganhando entrosamento, vai crescer ao longo da competição...”. O trabalho na Seleção é de curtíssimo prazo. É reunir o grupo na terça, pra ganhar o jogo no domingo, valendo 3 pontos. 



E quanto ao item 2:
 
Todo técnico tem suas idéias de como uma equipe deve jogar, em diferentes situações. Há técnicos mais defensivos, outros que gostam mais de atacar, existe a Igreja Posicional dos Quadrângulos Numéricos... Mas ao mesmo tempo o técnico olha em torno e tem que saber até que ponto o grupo é capaz de executar o que ele tem em mente. 
 
Alguém dirá: “Mas ele é o comandante do grupo, basta explicar e exigir obediência!” Isso pode funcionar em quartel, mas duvido que funcione muito no futebol, inclusive quando o técnico chega de automóvel para o treino e quatro ou cinco jogadores chegam de helicóptero. 
 
O técnico que tem um esquema na cabeça é um pouco como os diretores que têm o filme na cabeça, e exigem que todo mundo faça o filme que ele quer fazer. Diretores como Alfred Hitchcock ou Stanley Kubrick. 



(Alfred Hitchcock)
 

Um jornalista perguntou a Hitchcock: “É verdade que o senhor disse que atores de cinema são gado?...”  E Alfred respondeu: “Isto é uma calúnia. O que eu disse foi que eles devem ser tratados como gado.” 
 
Hitchcock era o homem do roteiro e do storyboard. Ele escrevia o filme inteiro junto com o roteirista, e depois desenhava o filme inteiro, plano por plano. Quando entrava no estúdio para o primeiro dia de filmagem, entrava bocejando, entediado, porque para ele o filme já estava pronto. E ai de quem discordasse de um ângulo de câmera, de uma frase do diálogo. 
 
Kubrick era mais aberto à improvisação, ao acaso – e por isso mesmo experimentava em excesso durante a filmagem, até de forma desumana, mandando um ator repetir a mesma fala ou a mesma ação 120 vezes. O filme não vinha já pronto em sua cabeça, mas ia se formando em sua cabeça; todo mundo trazia 200 opções e ele batia o martelo. Ele. 



(Stanley Kubrick) 
 

Diretores assim são como coreógrafos. Eles tem um “desenho”, um “esquema”, um diagrama abstrato do que deverá ser o filme, e exigem que a equipe execute isso. 
 
É mais ou menos a maneira de trabalhar, acredito eu, de técnicos como Pep Guardiola ou Fernando Diniz, dois workaholics com idéias muito claras sobre o que querem ver em campo, e capazes de dirigir seus jogadores como um coreógrafo dirige seus bailarinos. O bailarino é bom quando sabe cumprir o que foi desenhado no papel.



(Pep Guardiola)
 

O outro tipo de técnico é um cara que sem dúvida tem as suas coreografias preferidas, mas guarda isso no bolso e pensa em primeiro lugar no grupo que está recebendo quando chega no clube. Não adianta pensar num jogo de alta velocidade quando o elenco quase todo é idoso, ou pesadão, ou está fora de forma porque o trabalho físico no clube tem sido deficiente. 
 
Esse técnico tem que olhar o grupo, fazer os primeiros treinos, confirmar as impressões que já tinha (quando é um clube que ele conhece bem à distância), e começar a armar o melhor jogo possível com o material que ele tem em mãos. 
 
É como um arquiteto que pode ter na cabeça alguns projetos geniais e mirabolantes de residência, mas sempre vai ter que atender as necessidades do cliente, o gosto pessoal do cliente, as condições físicas do terreno do cliente, e assim por diante. Ou um arranjador musical que vai fazer os arranjos de um disco e lhe oferecem um quarteto de câmara, um DJ, oito percussionistas e duas guitarras: “O que tem é isso; te vira”. 



(Fernando Diniz) 
 

Um trabalho como o de Fernando Diniz tem mais condições de render num clube, como tem rendido bons resultados no Fluminense, basta ver os títulos recentes e inéditos que conquistou. É um trabalho de cima para baixo, que um elenco precisa de tempo para assimilar, “mecanizar”, tornar quase instintivo, com reações, respostas e opções-de-jogada decididas em frações de segundo. 
 
Bem mais difícil aplicá-lo numa seleção, onde o grupo se reúne por dez dias de tantos em tantos meses. 
 
Em casos assim, parece dar mais certo o jeito de Dorival Júnior, também um bom técnico, que me lembro de ter visto no melhor time do Santos nos últimos tempos (o de Neymar e Ganso), no Flamengo recente, e por último no São Paulo, ganhando também um título inédito. 



(Vicente Feola)
 

Dizem que Vicente Feola não interferia quase nada no que o time fazia. Já vi jornalista dizer (em momento de euforia): “Feola ganhou a Copa de 58 na hora da convocação”. Ou seja: era só distribuir o grupo em campo, e quando algo não ia bem o próprio grupo chegava para ele e dizia: “Tem que botar esses meninos que estão no banco, Garrincha e Pelé.” E ele botava. 
 
Dorival Júnior vai fazer uma boa sequência na Seleção? Tomara que sim. Não sou mais de torcer por Seleção, e até os meus times preferidos eu acompanho à distância, pelo rádio. Gosto do futebol bem jogado. Admiro “técnicos de esquema” como Guardiola e “técnicos de grupo” como Ancelotti, do Real Madrid. O jogo sendo bonito e eficaz, fico satisfeito. 
 
Porém, quando olho o trabalho de um técnico de futebol é como se estivesse olhando o trabalho de um diretor de cinema, de um maestro de orquestra sinfônica, de um diretor de teatro ou dança. Há um grupo de jovens talentosos, e a gente precisa saber que nenhum grupo é igual aos outros. Como trazer de casa a idéia de uma Obra, e conseguir juntar essa idéia à realidade desse Grupo, e conseguir produzir uma terceira coisa, que ainda não sabemos o que vai ser? 



(Fitzcarraldo, dirigido por Werner Herzog)







 
 
 





quinta-feira, 14 de junho de 2018

4357) Meus planos para a Copa do Mundo (14.6.2018)



(ilustração: Alison Mees)

Vieram me perguntar se eu ia torcer pela Seleção Brasileira nesta Copa do Mundo. Eu respondi: “Vou torcer para que Salah fique bom da contusão, jogue, o Egito enfrente a Espanha e ele faça o gol da vitória”.

Para quem não sabe: Salah é o jogador egípcio que foi deslealmente machucado por um jogador espanhol, no jogo decisivo da Liga dos Campeões.

Quanto à Seleção Brasileira, desejo-lhe boa sorte, pelas inocentes alegrias que suas prováveis vitórias darão aos que encontram, nessas vitórias, uma razão para festejar.

Li dias atrás uma coluna de Luiz Antonio Simas, no Globo, onde ele cita o folclórico sambista Beto Sem Braço: “O que espanta a miséria é festa”. É uma grande verdade; e é uma frase que só vale na boca de quem sabe o que é a miséria. Nós, do lado de fora, podemos usá-la apenas entre aspas.

Vou acompanhar a Copa, sim. Vou ver os jogos no bar da esquina ou na casa dos amigos. (Não tenho mais televisão em casa.)

Quem se der o trabalho de vasculhar meu blog verá o quanto já me deixei arrastar pelo entusiasmo futebolístico. Tanto em função dos meus times de coração (Treze, Flamengo, Sport, Atlético Mineiro) quanto pela Seleção.

Continuo gostando de futebol. Gosto de ver “the beautiful game”, que nós brasileiros estamos praticando cada vez menos. O futebol bem jogado é uma mistura de balé e xadrez: o balé dos jogadores e o xadrez dos técnicos. Mas existe uma versão contemporânea que é um misto de arruaça e burocracia, respectivamente.

Gosto de ver as grandes decisões, as situações-limite em que pessoas de talento fora do comum dão tudo de si para conquistar um título numa disputa leal.

E gosto de ver quando um daqueles joguinhos chinfrins de meio de semana, noite chuvosa, dois times da série C, se transforma – por circunstâncias do momento – numa batalha épica de emoções fortes, de heroísmo, de façanhas impossíveis.

O bom do futebol é que mesmo no jogo mais medíocre entre os times mais fuleiros pode surgir a qualquer instante um lance perfeito, inesquecível, tão extraordinário quanto o gol de bicicleta de Gareth Bale naquela mesma final da Liga dos Campeões. É como na poesia: no meio de um livro totalmente banal pode brotar a qualquer instante um verso de gênio. Por isso a gente não desiste.

O futebol está cada vez mais se transformando em “Big Business” – um Business que só interessa a quem é Big. Não é o meu caso. Gosto do lado plebeu do futebol, porque sou de origem plebéia. Pra ser sincero, futebol só presta com laranja chupada ou bola de meia. Esse negócio de chuteira e bola de couro estragou o jogo. (Tou brincando.)

Futebol está no sangue da gente lá em casa. Fui jornalista esportivo com 16 anos, fui membro dos Esporões do Galo (a torcida (des)organizada do Treze), fui secretário do Treze (era eu quem datilografava os contratos e pagava o bicho dos jogadores, na gestão Zé Agra). Ainda hoje sou capaz de me interessar por um videoteipe de Ituano x Bragantino às 3 da manhã.

A Copa de 2014 contribuiu para arrefecer esse meu entusiasmo, sem extingui-lo. Não por causa do 7x1, que pra mim foi uma derrota previsível (apenas o placar foi “um tanto elástico”, como dizem os coleguinhas da crônica). Mas naquela vez parece que tudo que tem de ruim no futebol se juntou.

Foi a rapinagem deslavada, as propinas, os conchavos políticos, a repressão aos protestos, os elefantes brancos e inúteis que estão aí até hoje dando prejuízo dos Estados que caíram no conto do vigário das “coisas de Primeiro Mundo”. Millôr Fernandes dizia que transformar sua cidade em atração turística é o mesmo que botar a mãe na zona.

E agora a polícia e a imprensa descobriram, finalmente, que havia corrupção na CBF.  Engraçado, eu sabia disso desde que era a CBD de João A-Ver-Longe.

O futebol se igualou ao rock, ao cinema blockbuster. É big business. A arte é um efeito colateral, que eles incluem como isca e ainda não descobriram como descartar, mas o farão, quando descobrirem um modo de ganhar mais grana com isso.

Minha primeira Copa como torcedor foi a de 1962, que ouvi pelo rádio. E nem sempre torci pelo Brasil. Em 1974, por exemplo, torci pela Holanda, e comemorei na casa de Jakson e Marcos Agra a vitória da Laranja Mecânica sobre o Escrete Canarinho por 2x0. Por causa da ditadura? Em parte. Mas porque a Holanda era o futebol, e eu gosto mais do futebol do que dos meus times.

A Copa me irrita porque grande parte da imprensa aproveita para se lambuzar de ufanismo ilusório, de servilismo diante dos ricos e mandões. Na Copa, muito jornalista tenta compensar nosso “complexo de vira-lata” afirmando que não somos vira-latas, somos lulu de madame.

É uma época que deveria nos ensinar alguma coisa, mas acaba revolvendo camadas profundas do nosso inconsciente coletivo e revelando o lixão de História mal resolvida sobre o qual estamos edificando nossos shoppings e nossas arenas.












segunda-feira, 29 de junho de 2015

3853) O Futebusiness (30.6.2015)



A Seleção Brasileira ganhou dez amistosos seguidos mas bastou soltarem-lhe em cima duas ou três seleções sulamericanas e caímos todos na realidade. Uma coisa é ganhar de seleções européias que estão cumprindo um contrato Fifa “entre bocejos e pés de chinelos” e tirando fotos com os fãs. Outra coisa é entrar em campo para enfrentar colombianos e paraguaios com sangue no olho e cem anos de piadinhas verde-amarelas nos ouvidos.

O futebusiness internacional não deseja nem recomenda a decadência das grandes seleções. Tudo que ele quer é subir o sarrafo financeiro a ser saltado por todos: clubes, televisões, patrocinadores, seguradoras, confederações. Todo mundo está gastando mais com o futebol. O esporte corporativo gentrifica a pelada de rua e a transforma num complexo de gastos que vão do hotdog ao direito de imagem, da cadeira numerada à percentagem nos contratos. Ninguém quer diminuir com isso a qualidade do jogo, pelo contrário. Mas é como chamar um jogador e dizer: “Olha, você ganha 100 mil por ano, agora vai ganhar 25 milhões, e precisa corresponder à altura.” O jogador não sabe como multiplicar sua qualidade técnica nessa proporção; acaba multiplicando a marra, o nervosismo, o discurso pretensioso de vendedor-do-ano ou de escolhido-por-Deus.

Nosso sofrimento na Copa América foi uma mera continuidade do sofrimento numa Copa do Mundo em que nosso time não jogou uma boa partida sequer. Ganhou aos tropeções de times mal ranqueados, ganhou dando pancada (o time que fez mais faltas na Copa de 2014), ganhou cavando pênaltis ridículos. Na Copa América, esse tecido de incompetência continuou a ponto de não se enxergar a costura. De Felipão a Dunga a única mudança notável foi a entrada de mais uma leva de nulidades como Roberto Firmino, Douglas Costa, Filipe Luís... Se eu vir algum desses cidadãos jogar futebol no futuro, retirarei alegremente o que digo.

Jogadores medíocres escalados para se valorizarem no mercado, e o técnico deve dizer: “Olha, tou te dando uma chance única, vê se aproveita.” Até os que são bons jogadores sofrem uma pressão que os deixa mentalmente descompensados, como Thiago Silva, praticante de alguns dos gestos mais absurdos dos últimos anos; e Neymar, craque e prima-dona. Reitero o que disse: as megacorporações não querem enfraquecer o futebol brasileiro, não querem que o Brasil perca. Nossas vergonhas são mero efeito colateral. O que está acontecendo no mercado do futebol (e espero que o escândalo Fifa possa significar o começo do fim) é como durante uma partida arrancar o Maracanã do lugar onde está e depositá-lo em outro. Impossível não ter efeito na bola. A bola pune.





quinta-feira, 17 de julho de 2014

3553) A entropia do futebol (17.7.2014)



Há um livro, se não me engano de Neil Gaiman, em que o mundo está passando por um aumento da entropia.  Entropia é a medida da desorganização do Universo, em que há uma dissipação da energia e todas as coisas vão ficando mais caóticas e indiferenciadas. Quando a gente deixa uma xícara de café em cima da mesa, ela se degrada, esfria sozinha, perde energia. No mundo descrito por Gaiman, as fitas cassete com música gravada (clássica, popular, etc.) se guardadas por mais de duas semanas sem ninguém mexer nelas, se degradam – transformam-se todas em The Best of Queen.

O que me lembra um clássico da FC: Ubik de Philip K. Dick.  No universo em que vive o protagonista, acontece algo semelhante. O universo está involuindo, está sofrendo um aumento de entropia que faz as coisas se tornarem progressivamente mais antigas, mais atrasadas. A história se passa no futuro mas à medida que a entropia aumenta o personagem anda na rua e as pessoas começam a aparecer com roupas dos anos 1940, os carros viram carros daquela época, e assim por diante. Quando ele toma o remédio chamado “Ubik”, uma espécie de tônico miraculoso, aí tudo bem: carros, roupa, arquitetura, anúncios nas ruas, tudo volta a pertencer à época em que a história acontece.

Posso estar sendo pessimista, mas acho que estamos passando por um período ubikiano no futebol.  Esta Copa mostrou grandes times campeões do mundo jogando um futebol muitíssimo abaixo do que praticavam pouco tempo atrás, inclusive o Brasil.  Há uma diferença ubikiana entre nossa Seleção da Copa das Confederações e a da Copa do Mundo. O que dizer da fortíssima Espanha, campeã mundial em 2010, que chegou no Brasil e virou saco de pancadas, como se fosse uma espécie de Íbis?  Os grandes craques como Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta, etc., todos estavam atuando na Copa como versões bizarras de si mesmos. E não me venham falar dos poucos times ou poucos craques que jogaram bem. São a exceção que confirma a regra. (Se eu fosse rico destinaria alguns milhões de dólares ao sujeito que inventou essa frase, um 171 filosófico que permite à gente afirmar qualquer coisa e escapar impune.)

Nosso futebol, em especial, está passando por uma degradação espontânea, uma entressafra sem fim, uma fase Ubik, e urge descobrir o tônico fantástico que nos trará de volta ao jogo bonito que poderíamos estar praticando em 2014. Esta regressão entrópica, da qual nem a Seleção Brasileira escapou, está fazendo com que mesmo algumas das melhores equipes do mundo pisem no gramado para praticar um futebol bumba-meu-boi digno dos melhores (piores) momentos de algumas peladas da Concacaf ou da Oceania.


terça-feira, 15 de julho de 2014

3551) Alemanha Ano Zero (15.7.2014)




Em mais uma Copa que não teve uma grande seleção (tipo Brasil em 82 ou Holanda em 74), venceu a mais aplicada e de futebol mais ofensivo, embora com altos e baixos. A Alemanha, merecidamente campeã, teve o melhor ataque, com 18 gols contra 4. A vice-campeã Argentina fez 8 gols contra 4, no total. Fez menos gols na Copa inteira do que a Colômbia fez na fase de grupos (nove).

Valeu a simpatia dos alemães, que estudaram o ambiente e a população e souberam se cercar de um clima positivo. A Argentina promoveu a maior invasão de torcedores; foi a seleção que teve mais torcida, se bem que o Brasil deve ter sido a que teve mais espectadores-a-favor. A Holanda bateu na trave mais uma vez: começou goleando e tirando o sono dos adversários e foi minguando ao longo da competição. Seu ataque, tão talentoso (Robben, Van Persie, Sneider), lhe faltou em jogos decisivos contra Costa Rica e Argentina (0x0).

Dentre os times menores, as melhores surpresas foram a Colômbia, a Argélia, o Chile e a Costa Rica, que acabou virando o “segundo time” de todo mundo. Os grandes que decepcionaram foram a Espanha, a Inglaterra, a Itália, Portugal e Brasil.  Alguns times estão numa escalada de qualidade que vale a pena vigiar, como é o caso dos EUA e da Bélgica.  Os times africanos, desta vez, vieram muito fracos, e somente Gana e Nigéria mostraram algum futebol.

Foi uma Copa com excelente média de gols na primeira fase, prejudicada por uma série de 0x0 e 1x0 no mata-mata final. Uma Copa dos goleiros, sem dúvida, e eu escolheria Tim Howard dos EUA como representante da categoria. Uma Copa de más arbitragens, mostrando (para alegria do meu preconceito) a incompetência da Fifa na sua preparação e escalação. Justiça seja feita, a Fifa se redimiu introduzindo duas coisas que deverão se consolidar: o tira-teima eletrônico para saber se a bola entrou no gol, e o spray de espuma para marcar a posição da barreira (que o Brasil já usa há séculos).

Uma Copa que se abriu e se fechou com duas goleadas para entrar na História: os 5x1 da Holanda sobre a campeã Espanha, e os 7x1 da Alemanha sobre o Brasil, jogo sobre o qual ainda vão correr alguns atlânticos de tinta. Houve pelo menos uma dúzia de jogos de altíssima voltagem emocional. Nenhuma violência desmedida, embora a truculência que houve pudesse ter sido bem menor se as arbitragens tivessem um melhor nível. A classificação final foi justa, embora uma justiça amarga para a Argentina, que apostou tudo em Messi e o viu atuando aquém do esperado, e para o Brasil, que como dono da festa mandou a campo uma das seleções mais jovens, menos preparadas e mais emocionalmente equivocadas de toda sua história.


sexta-feira, 11 de julho de 2014

3548) 7x1 (11.7.2014)




A catastrófica derrota do Brasil para a Alemanha, na semifinal da Copa, foi um desses pesadelos que já tive inúmeras vezes na vida, sempre que nossa Seleção ia enfrentar um time bom e estava mal das pernas. Vinha o jogo, e acontecia uma surrazinha normal de 2x0 ou 3x1, que todo mundo lamentava e eu comemorava com alívio, pensando na hecatombe que tinha sonhado na véspera.  Mas é mania dos pesadelos baterem em tantas portas que um dia encontram uma que se abre. Foi assim com a porta deste 8 de julho. Paciência.

Parece que há um ciclo de dezesseis anos nos trazendo essas derrotas tão dolorosas. Começou com 1950 no Maracanã, 2x1 para o Uruguai (o jogo de Ghiggia).  Dezesseis anos depois, em 1966, tivemos os 3x1 para Portugal (o jogo de Eusébio). Com mais dezesseis, veio o 3x2 para a Itália em 1982 (o jogo de Paolo Rossi). Dezesseis anos depois, em 1998, veio a decisão dos 3x0 para a França (o jogo de Zidane). E com mais dezesseis, agora em 2014, veio essa histórica goleada alemã, e desta vez não houve um carrasco específico, o time quase todo fez gol. Vamos abrir o olho com a Copa de 2030, portanto.

O futebol é tão imprevisível que se o time de Felipão tivesse derrotado esta Alemanha de Joachim Löw não nos faltariam razões. Diríamos que Fulano e Sicrano confirmaram as boas atuações, que Beltrano desencantou, que os alemães suaram para empatar com Gana e vencer a Argélia... Nunca sabemos quando o time vai desencantar. Afinal, já houve tantas vezes em que vínhamos catando cavaco, ganhando mal de equipes pequenas, e de repente o sapo virou príncipe.,, Já fomos campeões assim. (Em 1994 e 2002, para ser mais preciso.)

Triste não é perder um jogo, é perder o próprio futebol.  O Brasil inventou o que os gringos chamam de “Beautiful Game”, exportou-o para Espanha, Alemanha, Holanda, e o trocou domesticamente pelo futebol truculento e retranqueiro de Felipão e Parreira. Até admiro as qualidades dos dois, que afinal de contas nos deram Copas, mas quando se juntaram agora parece que houve uma soma dos defeitos e um cancelamento das qualidades.  A Seleção de 2014, pelo meu gosto, jogou bem apenas no segundo tempo contra Camarões e no primeiro contra a Colômbia.

Foi uma Seleção violenta, quase desleal, que só ganhou da Colômbia criando um clima de pancadaria que acabou se voltando contra Neymar. Uma seleção militarizada, que entrava em campo com mãozinha no ombro, como cadetes sob o olhar do sargento. Uma seleção onde o marketing, os contratos publicitários, e a convivência com os vips (essa turma de sanguessugas do talento alheio) acabaram amordaçando o Jogo Bonito. Vamos em frente.  E, como sempre, que ganhe o que jogar melhor.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

3542) O mundo acaba hoje? (4.7.2014)



E lá vai entrar em campo mais uma vez a coitada da Seleção Brasileira, carregando o peso das nossas expectativas, do nosso “complexo de viralatas”, do nosso valor de “gente bronzeada”, do nosso jeitinho, da nossa “grandiosa missão histórica”, do “nosso papel no concerto das nações”... Ganhe ou perca, esse grupo de rapazes vai para o sacrifício. Se perderem, virarão os bodes expiatórios de todas as nossas frustrações. Se ganharem, virarão (como dizia Paulo Emílio Salles Gomes) “bodes exultórios”, indivíduos meio que pegados no laço e transformados em heróis desmedidos, símbolos da Pátria, modelos de cidadania e de bravura guerreira.

Nesta Copa está dando tudo ao contrário. Otimistas com a vitória na Copa das Confederações, ano passado, dissemos: “O time tá pronto, é esse aí, e vai entrar arrasando.”  Nosso medo era com relação à Copa em si – os estádios, os transportes, a rede hoteleira, os assaltos, as manifestações... Na hora H, virou: bem ou mal, a Copa está acontecendo, os problemas são os normais de qualquer megaevento em qualquer país, e há um certo consenso da imprensa de que é uma Copa muito boa do ponto de vista esportivo e logístico. O problema agora é o nosso time.

No jogo contra o Chile, as crises nervosas, o chororô, as chances perdidas, o evidente nervosismo dos jogadores nos deixaram perplexos.  Mesmo jovens, são atletas experientes que jogam em grandes clubes, ganham fortunas, estão acostumados a grandes decisões. Como sempre, no entanto, botamos nas costas deles um peso desproporcional ao de uma competição esportiva, e só continuamos na Copa graças a duas bolas chilenas na trave. Nem a torcida escapou: quem tem dinheiro para pagar os ingressos caríssimos da Fifa é (ao que parece) gente que nunca pisou numa arquibancada. Não sabem torcer, não sabem incentivar o time. Vão esperando a goleada e contando com a festa. Quando o time adversário faz um gol, eles fazem beicinho e pedem o dinheiro de volta.

O time pode ganhar hoje? Pode ser campeão? Claro que pode, porque seu potencial é o mesmo dos candidatos de sempre (Alemanha, Holanda, Argentina, França, etc.).  Pode também dar adeus hoje ou no próximo jogo, pelos mesmos motivos. O que ele quer todos também querem. O brasileiro, sem perder o Complexo de Viralatas, adquiriu um Complexo de Liga da Justiça, de achar que qualquer seleção nossa é feita de super-heróis, que somos “o país do futebol” (não somos), que temos a obrigação de ganhar sempre (não temos). Vamos relaxar, pessoal. Relaxado se joga melhor, se torce melhor. Se ganharmos, festa. Ser perdermos, mais meio século no divã. Pode ajudar a forjar a consciência incriada da nossa raça.




domingo, 30 de junho de 2013

3226) Os Adversários (30.6.2013)




(foto: Bazuki Muhammad)

No dia em que o Botafogo foi campeão com o gol de Maurício (há dezoito cariocas que se refestelam nessa frase carregada de semântica afetiva) eu vi o Flamengo tremer e o Catete vibrar. Eu morava numa casa encravada na ladeira da Tavares Bastos, no Catete, de onde eu descortinava (sim, descortinava, isto aqui é uma crônica) uma vasta visão horizontal desses bairros. Aquele jogo foi uma predestinação. O juiz era um rapaz que chamavam “Bianca”, e nosso medo era que o Botafogo, notoriamente inferior, apelasse para a violência intimidando Sua Senhoria. Sua Senhoria se saiu até que bem, e o Flamengo teve chance de vencer até o último lance de Zico em campo, uma falta que passou raspando na trave esquerda do gol alvinegro. E aí vem aquele contrataque veloz puxado pela esquerda (o Flamengo só leva gol em contrataque, por que será), bola cruzada na área, o negão se jogando pra frente como um mané-gostoso e esbarrando na bola com o pé para o fundo das redes. O chão do Rio ficou se tremendo, e os terraços se povoaram como por encanto.

Eu fico meio feliz quando, no dia em que perco, pelo menos a festa do adversário é uma festa bonita.  O torcedor de futebol não deve amar tanto seu time que não veja (mesmo que roendo-se de inveja) o momento bonito do adversário. Às vezes uma derrota que nos parece meramente incômoda, acaba-festa, desmancha-prazeres, é para nosso adversário um triunfo em Trafalgar, uma invasão de Iwo Jima, uma façanha nas Termópilas. Demos um tropeção que nos custou caro; na arquibancada deles, parecia o começo de um milênio novo. Ninguém entende direito os fatos históricos de que faz parte. A historiografia demonstra que muitos soldados ingleses só tempos depois foram saber que haviam ganho a batalha de Waterloo.

Só achamos um sabor de vitória nas derrotas elas permitem ao nosso adversário continuar vivo. Sem o Maracanazo de 1950, o futebol uruguaio poderia já ter degenerado em rugby, sua tendência mais preocupante.  Os outros times, as Itálias, as Espanhas, as Alemanhas, as Franças, também têm direito de ganhar. Os Botafogos, os Campinenses, os Vascos, os Santa Cruzes, os Cruzeiros, os Fluminenses, os Náuticos precisam existir, precisam crescer, tornarem-se grandes, porque é a grandeza da montanha que faz a do alpinista. Temos que alimentar nossos adversários, tratar bem deles, fortificá-los, dar-lhes coragem e força para as lutas que travaremos. Quando perdemos, temos que aplaudir sua vitória e agradecer sua sobrevida. Adversário só presta grande. Não queremos que desapareçam; queremos que se tornem fortes, para terem coragem de vir de novo ao nosso encontro.




sexta-feira, 30 de novembro de 2012

3044) Fuleco é de lascar (30.11.2012)




Estou puxando pela memória para tentar lembrar alguns exemplos de casos assim, em que pessoas, por falta de familiaridade com um idioma que estão estudando ou utilizando, produzem verdadeiras aberrações linguísticas ou termos sem sentido. Foi o caso da escolha do nome para o mascote da Copa do Mundo. (Pensando bem, o próprio conceito de mascote da Copa do Mundo já é uma idiotice.) (Pensando melhor ainda, Copa do Mundo também.)

A Fifa encarregou pessoas de sugerir nomes pro boneco a partir de palavras-símbolo referentes ao Brasil, à ecologia, etc.  “Zuzeco”, por exemplo, foi uma solução proposta por eles – uma mistura de “azul” (o nosso céu) e “ecologia”. Chinfrim, mas vamos em frente. Fiquei muito perplexo com outra escolha: “amijubi”. O mascote se chamaria Amijubi. Por que? Amizade e júbilo.  Pense numa palavra-naftalina do nosso idioma, é esta última. Ao longo de toda minha vida só a vi por escrito, e mesmo assim na imprensa de jornal pré-1960 e em discursos de inauguração de alguma coisa. Nunca vi um único brasileiro usar a palavra “júbilo” numa conversa.

Vai ver que eles pensaram o mesmo, e a terceira solução – e que parece já estar definitivamente aceita – foi “Fuleco”. Por que? Futebol e ecologia. Nada contra os dois, mas fuleco é de lascar.  Lembra fuleiro, fulo, furreca. Uma mistura de Fu-Manchu com Cacareco. Lembrei-me daquele livro “English as she is spoke”, um guia de idiomas, aparentemente autêntico, onde o autor pretende ensinar inglês ao leitor mas vê-se que não tem a menor idéia do que está fazendo. O título, que queria ter dito “O inglês como ele é falado”, é uma amostra das distorções e desinformações do autor.

Não custava nada chamarem o mascote de Tatu-Bola. Primeiro porque ele é um tatu-bola mesmo, e por isto foi escolhido. Segundo porque é um nome oferecido de bandeja pelo povo (incluindo-se aí os zoólogos e os dicionaristas) do país que sedia a Copa. Custava nada ser tatu-bola?  Este episódio, por mais que seja inspirador de galhofas, pode dar também uma dose de melancolia. O mundo globalizado está virando um grande mal entendido entre culturas, entre idiomas, entre hábitos e crenças. Daqui a pouco não se acha no planeta um par de pessoas que interpretem os mesmos fatos da mesma maneira.

Eu nada tenho contra palavras inventadas, mas eu gosto de snark e não gosto de Zuzeco, e gosto de supercalifragilisticspiralidocious e não gosto de Amijubi.  Gosto de nonada, parangolé, zazueira, crisbeles, riverão, alfômega, panamérica, solaris, ciberespaço, grokkar, robot, grifinória, ludopédio, convescote, monstruário, baurets, in-a-gadda-da-vida... mas não gosto de Fuleco.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

3019) Nos acréscimos (1.11.2012)




O conceito de “instante precioso” varia de pessoa para pessoa. Eu guardo o sorriso de minha mulher acordando, o choro do meu filho nascendo, uma noite de festa com fogos coloridos no céu e flocos de neve caindo, o bis da melhor canção do melhor show da melhor banda de rock do mundo... Não posso criticar o que outras pessoas escolhem para gravar para sempre no cérebro com um tiro de nanomáquinas. 

Os vizinhos bateram à minha porta na hora de começar a final da Copa no Maracanã, “sai daí, bicho do mato, eremita nerd, é hoje o dia da alegria, Braziu-ziu-ziu!”. Não deixam transparecer, mas devem ter pena de um viúvo tão jovem, que não se queixa do Destino nem do país, que vive em casa sozinho conversando com livros e plantas. Subi para a cobertura, cheia de gente que ria e gritava, a varanda embandeirada, de lá víamos os edifícios da Lagoa explodindo em foguetões e confetes verde-amarelos, o sol afogueava tudo, a TV de plasma se alargava num Maracanã por si só. Eles estavam felizes, eram generosos, e queriam que um pouco daquela felicidade tocasse em mim. Abracei todo mundo, bebi quando beberam, cantei quando cantaram.

Na hora do pênalti a casa veio abaixo, cem pessoas pulavam abraçadas até quase bater no teto, finalmente o gol iria sair, e já nos minutos de acréscimo. Catimba, preparativos, e quando o juiz limpou a área todos meteram a mão no bolso, puxaram o spray nasal. Cada um borrifou o jato de nanoquímicos que gravaria para sempre o conjunto das impressões físicas e mentais dos próximos 60, 90 segundos... “Um instante de beleza é uma alegria eterna”, repetia o estribilho da propaganda; ao borrifar, murmuraram a senha auditiva com que resgatariam aquele momento mais feliz de todos.

Não fiz como eles. Apenas bebi um gole maior de cerveja antes de ver o que milhões viram e reverão milhões de vezes, a corrida para a bola, o chute violento na trave, a zaga adversária rebatendo no susto para o meio de campo, o atacante escapando arisco, nossa defesa atônita e mal postada, a infiltração veloz, a bola morrendo na rede. Pragas. Imprecações. Gritos de revolta. E um silêncio pior do que tudo.

Abalado, imaginei quantas vezes eles iriam reviver aquela tragédia-grega-em-1-minuto. Pois é, não caí na tentação do “para sempre”, porque já caíra antes. O que guardamos para sempre serve apenas para esgarçar ainda mais o tecido fino do tempo. Sei que eles serão escravos de si mesmos, e no futuro reviverão, mil vezes, esse momento do novo maior trauma nacional – só para poderem reviver, com ele, aqueles segundos iniciais da última esperança coletiva que este país sentiu, e que mais uma vez desperdiçou.