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sexta-feira, 31 de maio de 2013

3200) O número Pi (31.5.2013)





Todo mundo estudou isso no 1º. ou no 2º. grau, mas não custa fazer uma breve revisão da matéria dada. 

Pi, em matemática, é o número que indica a relação entre a circunferência e o diâmetro de qualquer círculo. Circunferência é aquele traço que a gente faz com o lápis quando desenha um círculo. Diâmetro é qualquer linha reta que atravessa o círculo de um ponto a outro da circunferência, passando pelo centro. 

Os gregos achavam que quando se dividisse o valor numérico (a medida em milímetros, digamos) da circunferência pelo valor do círculo daria um número exato.

Os gregos eram muito racionais, eram uma espécie de contabilistas do Universo. Para eles, toda conta tinha que bater, sem deixar resto. Descobriram que essa divisão dava um número quebrado, um pouco maior que três. Isso lhes deu um calafrio de constatação da bagunça matemática que é o Universo.

Einstein defendeu uma vez a tese de que Deus não joga dados; os gregos que primeiro calcularam Pi descobriram que Deus surrupia centavos da caixa registradora. A conta não bate.

Pi é geralmente definido, para os cálculos banais, como 3,1416 (para alguns mais puristas, 3,14159). Na verdade, é um número provavelmente infinito, porque por mais que se prolongue a divisão cada cálculo sempre deixa um resto, obrigando a recomeçar indefinidamente o processo. 


A revista Wired de março publicou este espantoso e borgiano comentário:

“PI contém tudo. Seus algarismos não se repetem, e ao mesmo tempo os números de 0 a 9 parecem ocorrer em igual proporção. Se isto for verdade, qualquer série de dígitos pode ser encontrada a certa altura em Pi; já que ele é infinito, qualquer série aparecerá ali, por mera probabilidade. Se convertermos ‘O Senhor dos Anéis’ ou a série inteira dos ‘Simpsons’ em código e pegarmos essa série numérica, ela aparecerá em Pi, naquela ordem, em algum momento”.

Isto transforma Pi num equivalente digital-numérico da Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges, com seus infinitos hexágonos de livros, em cujas páginas estão registradas todas as combinações possíveis de letras, e, consequentemente, todas as obras literárias e todas as combinações de palavras pronunciadas ou não pela humanidade em todas as épocas possíveis. 

Se PI de fato é infinito e não-periódico (seus trechos não se repetem) tudo está lá, transcodificado em números. 

Estão lá a obra completa de Borges e todos os meus artigos do Mundo Fantasmo, inclusive este, que estou digitando agora à 1:50 da madrugada sem saber que estou apenas repetindo, na minha doce ilusão de livre arbítrio, uma série numérica contida no círculo úmido deixado na mesa pela lata de cerveja que estou bebendo agora.








quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

1706) A descarga do humor (30.8.2008)




Numa entrevista à revista Wired de julho, o escritor Jim Holt discute as teorias sobre a origem do humor, em função do seu recente livro Stop me if you’ve heard this: a history and philosophy of jokes. Não vi o livro, mas duas ou três coisas colocadas na entrevista me chamaram a atenção. Primeiro, o título do livro, que seria algo como “Me avise se já lhe contaram esta”. É uma advertência muito comum em sessões de piadas, e ela envolve dois aspectos contraditórios do humor-de-anedota. Em primeiro lugar, o humor é baseado numa surpresa, que é proporcionado pelo desfecho da piada. Se o sujeito já sabe o final, a piada perde a graça. Jim Holt define esse aspecto de maneira sintética: a anedota consiste em uma preparação, ou “set up” (narrativa incongruente) e desfecho, ou “punch line” (frase final que resolve a incongruência).

Mas todos nós já tivemos a experiência de ouvir uma piada várias vezes e só achá-la engraçada quando alguém a conta de um jeito especial. Performance também influi. Não porque o contador faz trejeitos, ou tem a voz engraçada. Mas porque piada é basicamente uma narrativa comprimida ao máximo (como os comerciais de 30 segundos na TV), e o menor deslize na hora de contá-la pode comprometer o resultado. Já me ocorreu inúmeras vezes ver uma piada sendo mal contada, “entender” qual é a graça, mas só rir de verdade quando um dia alguém a conta bem, com a ênfase nos detalhes corretos, as elipses bem feitas, o “timing” adequado, as escolhas verbais precisas.



Ziraldo organizou para a Editora Codecri uma série de antologias de anedotas sob o título Tem aquela do.... É outro intróito tradicional nas sessões de piadas. Por que? Porque o ritual de contar piadas se desenrola através de associações de idéias, e, mal o amigo à nossa esquerda termina de contar uma, a gente já lembrou de outra parecida, pelo tema, pelos personagens, pelo desfecho, seja lá por que for. Cada piada abre um leque de conexões para ser seguida por outra que lhe é muito próxima mas que por sua vez vai abrir um leque também amplo, em outras direções. Encaixam-se como peças de dominó.


Contar anedotas é uma atividade essencialmente intelectual: destina-se ao intelecto, à nossa capacidade de analisar situações incongruentes e de apreciar um desfecho engenhoso. Sobre a origem do riso, Holt traz essa teoria, baseada no comportamento dos primatas, que é nova para mim: “V. S. Ramachandran tem uma teoria sobre a origem do riso. Quando há um grupo na selva e ocorre uma ameaça aparente, o primeiro membro do grupo a perceber que não é uma ameaça real emite uma vocalização estereotipada. E ela é contagiosa, todos a repetem. Isto está na base da teoria do humor como alívio de tensão. É a descarga de uma tensão mental que você produziu em si mesmo para tentar entender uma situação incongruente. Kant dizia que a essência do humor é uma expectativa tensa que se dissolve em nada”.








segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

1690) O fim de “Found” (12.8.2008)



Leitores da revista Wired no mundo inteiro estão lamentando em blogs o desaparecimento de uma das suas seções mais interessantes, principalmente para quem é leitor de ficção científica. Era a última página, sob o título “Found” (aproximadamente: “objeto encontrado”). Eram objetos aparentemente do futuro, que teriam sido descobertos de forma inexplicável. Tudo não passava de uma brincadeira criativa, mostrando engenhocas de uso cotidiano que talvez venham a existir dentro de alguns anos ou décadas. Alguns eram bizarros, outros eram plausíveis, alguns certamente impossíveis de existirem um dia, e outros nos davam uma dorzinha de nostalgia: “Ô meu Deus, era tão bom se alguém inventasse isso...”

Os objetos eram criados num Photoshop, e exibidos como se fosse uma foto digital feita casualmente por quem os descobriu. Um leitor do saite Metafilter deu-se o trabalho de linkar a maior parte desses objetos aqui (http://www.metafilter.com/73510/Artifacts-from-the-Future). Há por exemplo “Diaper”, uma fralda eletrônica que comunica e analisa tudo que acontece lá dentro (“Urinanálise – Nível de hidratação: Baixo. Análise de cocô – Proteínas: Normal. Fibras: Baixo” – etc.). Tem o curioso “Love Tester”, um aparelho parecido com um fliperama onde o sujeito coloca a palma da mão, tem seu DNA examinado, e vê sua proficiência sexual medida numa escala decrescente que vai de “Casanova” até “Eunuco”.

“Contact Lens” infelizmente não dá muitos detalhes, mas vemos uma ponta de dedo, gigantesca, segurando aquele circulozinho translúcido onde é possível perceber uma porção de números digitais indicando hora, temperatura, etc., e a caixa do produto anuncia: “Agora com Google!”. Quem me dera. Também fiquei curioso (as fotos não permitem ler as letras muito miudinhas) em saber mais detalhes sobre a “Responsibeer”, a cerveja responsável, cujo rótulo anuncia ser ela “auto-resfriante” e indicar a temperatura naquele momento; e há um contador no rótulo que parece prevenir o motorista, em tempo de Lei Seca, de quanto lhe falta para ultrapassar o limite permitido.

Nem todas as descobertas são propriamente engenhocas high-tech. Há, por exemplo, o divertido “Horóscopo” com conselhos futuristas para todos os signos, como “pegue um vôo estratosférico para Veneza antes que ela afunde”, “seu Dreamcatcher Sony captou algumas imagens estranhas”. Há em “Bookstore” uma prateleira cheia de livros de auto-ajuda, cujos títulos refletem a sociedade futura: Os Sete Hábitos dos Cyborgs Altamente Eficientes, A Dieta do Homo Sapiens Superior – Por que os pós-humanos não engordam, Uma História Breve dos Blogs, e de Por Que Desapareceram, Guia em 12 Passos Para Parar de Jogar World of Warcraft, e, do famoso Francis Fukuyama, O Fim da História – Agora é pra valer.

As criações de “Found” nos davam uma saudade danada de um futuro que somente agora parece que não vai mais acontecer.

terça-feira, 17 de março de 2009

0893) Camelos e robôs (26.1.2006)


(o cientista Andrew Hetherington e um jóquei-robô)

Toquei no assunto algum tempo atrás (“O robô no camelo”, 5.8.2005) e agora, numa prova do quanto esta coluna é lida internacionalmente, a revista Wired deu uma excelente matéria assinada por Jim Lewis. A história é muito simples. Os xeiques milionários dos Emirados Árabes adoram corridas de camelos no deserto; é a vaquejada deles. Jóquei de camelo tem que ser pequeno, bem levezinho, daí que eles vão no Sudão e escravizam crianças pobres para treiná-las. “Treinar” é eufemismo, porque as crianças são mal alimentadas, mal tratadas. Há jóqueis até com quatro anos de idade. São amarrados às selas, com walkie-talkies presos ao corpo, por onde os treinadores berram instruções.

Organizações humanitárias se intrometeram, e os xeiques encomendaram jóqueis cibernéticos à empresa suíça K-Team. São pequenos robôs pesando cerca de 15 quilos, com um processador de 400 MHz, rodando Linux, com GPS (localização por satélite) e monitoramento cardíaco do camelo. Uma das mãos brande o chicote, a outra segura as rédeas. Foi preciso dar uma aparência antropomórfica aos jóqueis porque de início os camelos se assustavam com aquela máquina estranha. Daí, o robô tem algo como um corpo, e uma cabeça com capacete, óculos escuros e rosto. (A cabeça é desnecessária, e oca. Todo o equipamento está no “tórax”).

Ficou tão parecido que gerou um novo problema: a religião muçulmana proíbe a representação da figura humana, não é mesmo? Lá veio uma recomendação do Primeiro Ministro muçulmano de que os bonecos não tivessem rosto, e algumas fotos da revista mostram uma máscara inquietantemente parecida com a cara do Jason de Sexta-Feira 13). Não importa. A matéria toda (com muitos detalhes divertidos) pode ser lida em: http://www.wired.com/wired/archive/13.11/camel.html.

Não é preciso ser profeta para imaginar que diversões como a vaquejada nordestina e a tourada hispânica possam no futuro recorrer a truques semelhantes. Há três fatores nesta história que estão em curva ascendente: 1) enriquecimento de potentados regionais, cada vez mais cheios de grana; 2) sofisticação e barateamento da robótica; 3) pressão das entidades de direitos humanos e dos animais, contra essas diversões bárbaras (pode incluir aqui briga-de-galos, farra-do-boi, etc.)

Problemas sociais-culturais que admitem uma solução tecnológica geralmente precisam apenas de um pontapé inicial (como o do presente caso) para se transformarem numa norma. Aquele passatempo é intensamente mobilizador das pessoas, mas envolve maus-tratos de criaturas. Na medida em que (dependendo das tarefas, das atividades requeridas) essas criaturas possam ser substituídas por robôs, elas inevitavelmente o serão, porque haverá grupos ricos e poderosos determinados a injetar rios de dinheiro nessa solução tecnológica. É, digamos, uma lei da natureza. Robôs podem ser máquinas, mas o impulso que os criou é sempre humano, demasiado humano.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

0836) Os 360 graus do rock (20.11.2005)




O concerto de rock está se distanciando cada vez mais do show de música popular tradicional. Música é música. Rock é música mais tecnologia. O objetivo de um show de música é mostrar canções. O objetivo de um show de rock é mergulhar o espectador numa experiência sensorial que consiste basicamente em sons e luzes. Estes sons e luzes são gerados em torno de canções, mas ganham tal autonomia que as canções nem precisam ser (e geralmente não são) grande coisa. Um show acústico do U-2 pode até ter umas boas canções (eles são bons letristas e músicos), mas essas canções renderiam muito pouco nesse formato.

Um artigo recente de William Gibson na revista Wired sobre um show do U-2 traz o ponto-de-vista de um escritor de ficção científica (o cara que criou a palavra “ciberespaço”) diante de uma das grandes exibições de alta tecnologia na indústria da música. Gibson lembra a contracapa de um LP do Pink Floyd em que o fetichismo high-tech do grupo se mostrava através de uma foto em que toda a aparelhagem eletrônica usada no show era enfileirada no chão, no meio de uma estrada, formando uma imagem simétrica com todos os instrumentos, amplificadores gigantescos, até as baquetas da bateria. A foto deixava bem claro que o rock não era mais produzido apenas com o velho trio guitarra-baixo-bateria. Amplificadores, pedais, sintetizadores & companhia passavam a ter um papel igualmente importante. Não se tratava mais de organizar notas musicais, mas de (literalmente) “fazer um Som”.

Já falei aqui (“O Zé Pelintra de Chumbo”, 20.3.2004) da massa sonora que constitui um show do Led Zeppelin, onde se pode saltar em segundos de um close sonoro onde percebemos o menor deslizar dos dedos num violão acústico para um ataque de Metal Ululante capaz de erguer nossos pés dez centímetros acima do chão. Essa esfera sonora sempre foi reforçada por uma esfera luminosa equivalente. A experiência visual que tive ao ver os Rolling Stones na Praça da Apoteose com “Bridges to Babylon” foi quase uma revelação tão intensa quanto o seu recado sonoro.

Paul McCartney abriu seu histórico show no Maracanã com um longo videoclip dirigido por Richard Lester. Agora, William Gibson comenta o novo show do U-2, “Vertigo”, e seu painel luminoso com 12 mil lâmpadas coloridas, controladas por computador, compondo os 12 mil pixels das imagens que se sucedem. Câmaras em infravermelho são dirigidas para a platéia, captando detalhes e jogando-as em enormes painéis. “Cuidado para não botar o dedo no nariz durante o show”, adverte o diretor de imagem, que manipula as câmaras com o auxílio de um console de PlayStation adaptado.

O megaconcerto de rock é uma esfera sensorial com 360 graus de experiência áudio-visual controlada. Sua medula continua sendo a música produzida pela banda no palco, mas seus efeitos se expandem para abranger som, luz, imagem, e a energia cega criada pela criatura de dez mil corpos e dez mil cabeças: a Platéia.




sábado, 14 de junho de 2008

0408) A guerra sem bandeiras (10.7.2004)

(Chuck Norris)

Daqui a cem anos, esse negócio de “o país tal”, “a presidência da república”, as “fronteiras nacionais”, etc. terá terminado de escorrer pelo ralo. O capitalismo não tem nação, não reconhece nenhuma Constituição, ignora fronteiras, e envia seus exércitos para onde quer que exista o oxigênio que o mantém vivo: o Lucro. Está reservada a todos os governantes do mundo (sejam eles presidentes, reis, primeiros-ministros ou aiatolás) a dúbia função exercida pela Rainha da Inglaterra: a de reinar sem governar. O poder político vai se transformando, cada vez mais, numa espécie de encenação teatral destinada a distrair e agitar a população (“Quem será que vai ganhar? Lula ou Zé Serra? Bush ou Kerry?”) enquanto o verdadeiro poder circula de terno e pastinha pelos aeroportos, bancos e ministérios do mundo.

Um artigo recente de Bruce Sterling na revista Wired (julho) adverte: “Fomos obrigados a sofrer sob o terror sem pátria; pois agora se preparem para a guerra sem bandeiras.” Sterling está se referindo às numerosas (e cada vez maiores, e cada vez mais poderosas) empresas que fornecem segurança às companhias e aos grupos políticos que agem, por exemplo, no Iraque pós-Saddam. Aqueles quatro americanos que foram queimados, mutilados e pendurados numa ponte em Falujah trabalhavam para empresas de segurança; a imprensa informou que são profissionais ganhando entre 2 e 4 mil dólares por semana. Nada mau, mesmo correndo o risco de ser tratado como um judas-de-sábado-de-aleluia. Mas esses caras são todos metidos a Chuck Norris. Gostam de correr riscos.

As empresas de segurança não estão no Iraque para “assegurar uma transição pacífica do poder” ou para procurar Osama bin Laden: estão para garantir que o petróleo continue circulando nos numerosos dutos que o conduzem aos mercados mundiais. Sterling lembra o que ocorreu na década de 1990 em Serra Leoa, quando o governo recorreu a uma companhia de segurança (eufemismo para “exército de mercenários”) para livrar-se do rebeldes que ocupavam as minas de diamante, em troca de 40% dos lucros de exploração. Em pouco tempo a companhia, chamada Executive Outcomes, tinha se expandido para países como Angola, Quênia, Malawi, Moçambique, Sudão e Uganda. Tais companhias seguem uma ética de jagunços: proteger o patrão, passar por cima de quem se atravessar na frente, afugentar os indecisos e eliminar os descontentes.

O patrão, é claro, são as grandes companhias que foram com muita sede ao pote petrolífero de Saddam Hussein: a BDM International, a Blackwater, a Halliburton (ligada ao vice Dick Cheney), a Kellogg Brown and Root, a MPRI, a Vinelli e outras. Enquanto xiitas e sunitas se matam uns aos outros pelo simbolismo do poder político (ou por mera vingança entre clãs), e as TVs se preparam para o circo do julgamento de Saddam, os exércitos sem bandeira travam sua guerra pessoal em busca do que realmente interessa: o ouro negro.