A imagem
mais recorrente e mais expressiva (“a imagem icônica”, como se diz hoje em dia)
do filme brasileiro O Homem que Parou o Tempo (2018)
de Hilnando SM (no "Prime Vídeo") é o plano vertical das pernas do protagonista, os pés descalços
afundados na areia, sendo envolvidos pelas espumas das ondas do mar, em suas
idas e vindas, num movimento de invasão e avanço, e depois de recuo e sucção. Ele
está imóvel, enquanto o mar (o tempo) avança e recua.
João
(Gabriel Pardal) é um rapaz que programa códigos de computador (“a pior profissão
de todas”) mas nas horas vagas parece estar desenvolvendo uma teoria própria
sobre como imobilizar o tempo e concentrar toda sua energia e consciência no
momento presente. Mora num conjugado minúsculo, e sua parede é coberta de
páginas coladas com diagramas, fórmulas, gráficos, a parafernália habitual no
cinema para sugerir uma atividade científica incessante.
Tem dois
ou três amigos que insistem em trazê-lo para uma vida normal (festinhas, etc.).
Compra maconha a um deles. Uma noite, indo a uma festinha, conhece na portaria
do prédio uma garota, anda com ela pela praia – é nesses poucos minutos que o
filme ganha uma certa vida, porque a atitude simpática e não-julgadora da
garota o solta um pouco; mas tudo fica por aí.
O
problema do filme é o de muitos outros: mostrar a crise de um indivíduo que
tentou abarcar mentalmente um problema amplo demais, complexo demais. Não temos
como saber se ele de fato equacionou o problema, se está mesmo a ponto de
resolvê-lo. Não sabemos nem se o problema existe, ou se ele é apenas mais um
maluco capaz de rabiscar equações.
O
personagem e o filme estancam no meio do caminho. Nenhum dos dois consegue
dizer o que está pensando, apesar de ambos despertarem a nossa simpatia e a
nossa curiosidade.
É um
pouco o que ocorre com The Sound of
Silence (2019) de Michael Tyburski. Peter Lucian é um “afinador de casas”,
um sujeito com ouvido absoluto cuja profissão consiste em examinar as casas das
pessoas e eliminar os ruídos dissonantes ou conflitantes que prejudicam os
moradores sem que estes percebam. Uma espécie de feng shui sonoro.
Interpretado
por Peter Sasgaard, é um personagem mais maduro, mais circunspecto, e que
transmite mais a idéia de um cientista incompreendido, um gênio capaz de
perceber o que nós não entendemos. Mesmo assim, sua vida é uma sucessão de
mal-entendidos, de pequenos fracassos profissionais. Todo mundo o acha
fascinante. Todo mundo o acha esquisito. Todo mundo acha que ele está ficando
doido.
O filme
de Tyburski se torna mais bem realizado do que o de Hilnando SM por ser
visivelmente uma produção mais profissional, mas principalmente porque consegue
nos fazer penetrar pelo menos um pouco no mundo mental do protagonista. Peter
Lucian explica a vários clientes e amigos sua teoria, dá pistas concretas sobre
o que faz, vemos como ele atua, percorrendo os apartamentos com fones,
diapasões, sei lá o que mais.
O
delírio dele tem uma silhueta que nos é visível, tem um foco. Ficamos com uma
noção do que está em jogo ali. E a trilha sonora consegue criar um clima cheio
de efeitos e de harmônicos sutis, dando por vezes a impressão de que
conseguimos ouvir o que aquele maluco alega estar ouvindo.
O João
de O Homem que Parou o Tempo verbaliza
aqui e ali suas intuições, mas elas não nos avançam grande coisa. “A gente fica
com pressa e ansioso para chegar num lugar, aí acaba que a gente não vive o
momento que está vivendo. (...) A gente fica muito preocupado em chegar ao
nosso destino, e aí deixa de curtir este momento presente. Aqui, agora. O
caminho.”
Quando
ele some, no fim do filme, alguém entra no apartamento e vê o último bilhete
que ele pregou na parede: “Deixar de existir agora para estar presente sempre”.
Há um descompasso, uma distância, entre a atividade supostamente científica de
João e a verbalização que ele faz para os outros, mesmo admitindo que ele tenta
simplificar ao máximo o que pensa, porque sabe que seus amigos são leigos.
Não
parece um jovem cientista equacionando o problema do fluxo do Tempo, um dos
problemas mais fascinantes que existem. Parece um rapaz se queixando de que ele
e a vida estão em descompasso.
Um
problema semelhante, com uma solução completamente diversa destes dois filmes,
foi encarado por Darren Aronofsky em seu filme de estréia Pi (1998). Max é um jovem matemático cuja obsessão é encontrar os
padrões matemáticos que servem de base à realidade material. (Ou coisa
parecida.)
Suas
pesquisas o levam a entrar em contato com dois grupos muito diferentes. Um
deles tenta fazer previsões matemáticas da flutuações da Bolsa de Wall Street.
O outro tenta encontrar mensagens cabalísticas cifradas no texto da Torá.
O filme
de Aronofsky é uma espécie de ficção científica que eu chamo de Ciência Gótica,
pois de Ciência (no caso, a linguagem matemática, que não é propriamente uma
ciência, mas um instrumento científico) tem apenas a fachada. O que ocorre por
trás não é mais científico do que o que ocorre em Frankenstein ou em The Time
Machine ou em Neuromancer.
O que
distingue oi filme de Aronofsky dos outros dois é a quantidade de elementos
dramáticos que ele consegue extrair dessa mania de Max pela Teoria dos Números
e seus desdobramentos. De uma matéria tão árida ele extrai dois bons ganchos
para ação dramática: investimentos na Bolsa, decifração cabalística das
escrituras sagradas. Muito mais do que Tyburski consegue extrair de sua
“pesquisa sonora” e do que Hilnando extrai de sua “pesquisa temporal”.
A ficção
científica é muitas vezes acusada de ser difícil, de ser acessível apenas a
quem tem profundo conhecimento da ciência. É uma crítica despropositada. A FC
usa sistematicamente, há cerca de um século e meio, a Arte do Mumbo-Jumbo, como
dizem os norte-americanos. A arte de produzir uma série de argumentos
aparentemente profundos, mas coerentes, e expostos com inteligência.
Quando
em 1895 H. G. Wells popularizou o conceito de que o Tempo seria uma “quarta
dimensão”, isso lhe bastou para dar ao seu herói uma espécie de “automóvel
temporal” e fazê-lo viajar pelo futuro. E não apenas viajar por ele, mas
meter-se em aventuras, perigos, descobertas. A Máquina do Tempo não teria popularizado seus conceitos se o livro
inteiro se resumisse a um grupo de cientistas discutindo diante da lareira.
O
mumbo-jumbo científico, o arrazoado explicando o fluxo do tempo, a influência
subliminar dos sons ou os padrões matemáticos da matéria pode muito bem ser
explicado, até numa linguagem mais complexa, se isso acontecer no meio de uma
história humana, movimentada, imprevisível, que desperte nossa atenção e nos
envolva no destino de seus personagens. Foi essa a descoberta original da FC,
com Julio Verne, Wells e todos os demais.
E para
os que desdenham a história de aventuras, basta às vezes um mistério de peso e
uma imagem marcante. Kenoma (1998) de
Eliana Caffé, nos mostra um cientista-louco sertanejo, um gênio selvagem que
construiu num sertão remoto uma máquina do Moto Perpétuo que se parece a uma
enorme roda-gigante artesanal, feita de metal e madeira.
Ele não
compartilha suas fórmulas. Os roteiristas do filme (E. Caffé e Luís Alberto de
Abreu) não precisaram inventar o Moto Perpétuo. Bastou-lhes conceber a situação
básica, produzir um objeto visualmente impactante (direção de arte de Clóvis
Bueno) e contar com o “fulgor satânico” do ator José Dumont.
Tanto na
fantasia quanto na ficção científica, as explicações são necessárias, tanto
sobre a origem dos dragões quanto sobre a natureza do ciberespaço. Mas o leitor
(= o espectador) precisa delas apenas para se situar: ele vai ao livro e ao
filme em busca do conflito humano. Se o conflito for empolgante e conseguir arrebatá-lo,
ele consegue até mesmo digerir as racionalizações mais profundas de um Arthur
C. Clarke ou de um Stanislaw Lem.