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quinta-feira, 19 de março de 2026
5226) Segredos de infância (19.3.2026)
terça-feira, 6 de dezembro de 2022
4890) Futebolês paraibano (6.12.2022)
Como sempre, aviso que chamo isto de glossário paraibano porque foi na Paraíba que estas expressões surgiram para mim. Podem perfeitamente ser termos correntes em outros Estados brasileiros. E é bom lembrar que, como tudo na cultura oral, cada expressão assim tem formas diferentes em cada caso, ou contextos diferentes. Não existe “a forma certa”. Tudo são variantes igualmente válidas
Estamos em Copa do Mundo; ver os jogos me entusiasma pela partida em si, e me faz surgir na memória esse glossário instintivo, que às vezes me dá a impressão de estar tão antigo e olvidado quanto os hieróglifos egípcios. Essa linguagem morreu? “Morreu pra você, filho ingrato.”
É o famoso “lençol” ou “chapéu” tão conhecido no mundo inteiro, quando o jogador lança a bola por cima da cabeça do adversário e a recolhe do lado oposto. Lance de habilidade, e considerado humilhante por quem é vítima dele. Muita gente já foi pro banho-de-chuveiro antes do tempo por ter levado um banho-de-cuia.
Atenção para a vogal “ó”, aberta. Trata-se do que aqui no Rio chamam de “linha de passe”, uma brincadeira informal (=sem ser durante um jogo) em que alguns jogadores ficam trocando passes entre si, sem deixar que a bola caia no chão. Às vezes faz-se diante de uma barra com goleiro, e depois de “x” passes bem sucedidos os jogadores têm o direito de tentar o gol.
É o famoso “bobo”: uma brincadeira em que todos trocam passes sem deixar que o doidinho se aposse da bola. Quando ele consegue, passa a ser o doidinho quem perdeu a bola para ele.
No fim de uma pelada, todo mundo veste as roupas, recolhe a bola. Geralmente volta-se em grupo para as respectivas casas, mães e banhos, todo mundo ainda falando, discutindo, comentando a partida. E quando há uma goleada, digamos por 4x0, um dos vencedores puxa o coro: “Foi um?...” Todos gritam: “Nããão!...” Ele: “Foi dois?” “Nããão!...” “Foi três?” “Nããão!” A última pergunta já é feita num tom mais alto, prenunciando a resposta: “Foi quatro?...” E o berreiro dos vencedores: “Fooooooiii!...”
Cruzar a bola para dentro da área; “dar chuveirinho”. Usa-se também o substantivo correspondente: “É uma injustiça Fulano conseguir fazer um centro daqueles e não aparecer um filho de Deus que saiba como se cabeceia uma bola!”.
Grito inevitável que vem das arquibancadas quando um jogador está tendo uma péssima atuação. De tão frequente, acabou gerando um complemento igualmente inevitável: “Só se pedir pra ir se limpar, porque cagar ele já está cagando!”.
Uma ordem peremptória: “Chuta essa bola pra bem longe!...” Geralmente se usa nas horas de sufoco, quando é preciso garantir um placar. No Brasil inteiro circula uma versão mais refinada: “Bola pro mato, que o jogo é de campeonato!...”
Passe sacrificado, um “presente de grego”. Uma bola passada com defeito, que coloca o recebedor do passe numa situação difícil. Usa-se muito para qualificar bolas recuadas para o goleiro: “Eu não gosto de jogar no gol com Fulano no time. Toda vez que ele está no aperto ele manda cada isca pra gente que já vale por meio gol!...” “A culpa não foi dele! Deram a maior isca, ele não tinha como fazer o gol.”
TIVUCO, TUBA
Chute muito forte. O vocabulário brasileiro é muito rico em expressões para isto: foguete, paulada, bomba, petardo, canudo, tirambaço, sapatada... “Tivuco” e “tuba”, mais do que paraibanos, eram termos correntes entre os peladeiros do Alto Branco, e preciso deixá-los aqui registrados para a posteridade. “Lembra daquele zagueirão, um negão alto, que tinha uma tuba da gota serena?!” “Dei um tivuco que o goleiro nem se mexeu, a bola entrou lá no canto.”
BUFO-BUFO
Onomatopeia. Jogo à base de chutões para a frente e muita correria. Lembro de meu pai comentando, quando o Treze contratou para técnico o uruguaio Raul Betancourt, que era do Sport do Recife: "Eu não sei qual foi o milagre desse técnico pra fazer o Treze baixar essa bola, o Treze sempre foi um time de bufo-bufo”.
É a tradicional “bola ao chão”: reiniciar um jogo interrompido jogando-se a bola para o alto entre dois jogadores, um de cada time. Muitas vezes se dizia, a título de complemento: “Dois bolos, um em cima, outro em baixo”, para deixar claro que a bola só estaria em jogo depois de tocar o chão. O “bolo”, no caso, seria um hipotético toque da bola no ar, e depois outro no chão.
Jogar um futebol elegante, refinado, de jogadas difíceis executadas com simplicidade. É uma expressão elogiosa, e de uma época em que a presença de mulheres no estádio era mínima. Aplica-se tanto a um jogador quanto a um time inteiro. “A seleção de Telê Santana jogava pra moça ver!”
Largar a bola (diz-se com relação ao goleiro). “Era um chute despretensioso, de longe, mas aí o goleirão queimou, e num instante apareceu quem empurrasse pra dentro”. Subentende-se que a bola estava “queimando” e o goleiro não conseguiu segurar.
Grito de vitória tradicional, berrado em coro pela equipe vencedora de uma pelada, e frequentemente usado nas arquibancadas pelos torcedores num jogo de verdade: “É canja, é canja, é canja! / É canja de galinha! / Arranja outro time / pra jogar com a nossa linha!...”
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021
4672) Eu me lembro – 21 (futebol) (8.2.2021)
(Na arquibancada coberta do PV, no tarol, com José Umbelino Brasil, Arly Arnaud e outros sofredores)
1
Eu me lembro que no Estádio Presidente Vargas, o famoso “campo do Treze”, havia uma enorme placa de Cinzano por trás do gol que dá para o Quartel dos Bombeiros, à direita de quem está sentado na arquibancada coberta, onde ficam as cadeiras cativas. (O outro gol, que tem uma arquibancada por trás, dá para os portões de entrada do campo, na rua Teixeira de Freitas.) Era uma placa enorme que se elevava a uns dez metros de altura. De vez em quando, algum atacante “isolava” a bola ao tentar o gol e a bola ia direto na placa, provocando um grito unânime de euforia na torcida, mesmo quando era um jogador trezeano o autor de façanha-de-incompetência. Me lembro que o lateral-direito Braga, um negão alto e forte de chute potentíssimo, que veio do Campinense para o Galo por volta de 1964, uma vez cobrou uma falta direto na placa, que quase veio abaixo.
O jogo de pelada, quando éramos garotos, era uma das mais curiosas experiências formadoras do conceito de democracia. Pelada não tem juiz. O jogo é apitado por consenso e discussão. Tudo é motivo para divergências aos gritos. A bola saiu, não saiu, a bola entrou, não entrou, esse esbarrão foi falta, não foi, foi bola na mão, foi mão na bola... Cada decisão da “arbitragem” é tomada dessa forma, e o mais interessante é que, como tudo é discutido, a maior parte das coisas acaba sendo aceita sem discussão, a não ser quando existe uma dúvida real e ambas as partes se julgam prejudicadas. Um conceito importante para dirimir dúvidas era a de que quem desistisse primeiro da polêmica dava o impasse por perdido; considerava-se que quem fosse embora primeiro tinha “corrido de campo” e era dado como perdedor. Muitas vezes brigava-se por um gol (“foi gol – não foi”), e o jogo não prosseguia porque nenhum dos times desistia. O jogo parava, todo mundo sentava no chão, o sol se punha, a discussão cessava, depois de minutos de silêncio alguém dizia: “-- E então, aceita?” e vinha a resposta: “-- De jeito nenhum!”. Mais de uma vez, já em plena escuridão, as mães da gente, impacientes com a demora dos que deviam tomar banho e jantar, desciam furiosas até a “graminha” e tangiam os litigantes para casa embaixo de impropérios, e mesmo assim a discussão continuava: “-- Quem saiu de campo primeiro foram vocês!... – Não, foram vocês!...” Tem jogo que está pendurado até hoje.
Já gastei muito dinheiro com material de torcedor, comprando “peles” (de plástico) para os taróis e as caixas da charanga “Esporões do Galo”, nos idos de 1974-75-76. Os instrumentos eram alugados, ou melhor, surrupiados da banda marcial de algum colégio de bairro onde a mãe de algum dos integrantes ensinava ou trabalhava. No dia do jogo alguém ia lá de carro, abria-se a sala dos instrumentos, enchia-se o carro, a bateria era levada direta para o Estádio, ou para o bar do esquente. Depois do jogo, revertia-se o trajeto e os instrumentos eram devolvidos. Nosso único compromisso era substituir as peles que nosso furor alvinegro acabava rasgando, de tantos rufos. Gastei muito com bandeira também, e a bandeira que mais gostei foi desenhada por mim mesmo. Era totalmente branca, com a palavra GALO em grandes letras pretas, e foi costurada por Lídia, minha sogra. O G e o O foram riscados a lápis de grafite usando como modelo justamente a pele de um tarol, que forneceu o círculo interno da letra, cujo traço tinha uns cinco dedos de espessura; as outras letras foram traçadas a lápis e régua, na mesma proporção.
Morei alguns anos na Rua Padre Ibiapina, numa casa que era da família de minha mãe. Moramos ali mais de uma vez; meu irmão Pedro nasceu nessa casa, em 1954, e em 1967 estávamos lá de novo, na época em que entrei para o Cineclube de Campina Grande. Nossa casa ficava em frente ao engarrafamento da cachaça Paturí, e um pouco mais acima, cruzando a Rua João Suassuna, ficavam os armazéns de açúcar de Artur Freire. Em toda aquela vizinhança, dia e noite, perpassava um cheiro doce-azedo de cana de açúcar, um cheiro às vezes acre demais, às vezes enjoativo, mas que até hoje, quando sinto de passagem, me traz boas lembranças. O gerente da Paturí se chamava Dionísio, era torcedor do Campinense. E todo dia aparecia lá, para lavar o carro dele, o famoso Zé Pezinho, um lavador de carros humilde e torcedor do Treze. Bate-bocas intermináveis entre os dois! Eu me postava no terraço para assistir. Ganhasse quem ganhasse, é claro que a discussão rendia, e rendia muito, até porque Zé Pezinho era estourado e boquirroto, e Dionísio ficava se rindo, encostado na porta, provocando. Tempos depois Zé Pezinho faleceu, e minha mãe me disse: “Morreu sem um tostão, coitado, mas Dionísio tomou a frente e custeou o enterro dele, todo”. Formas de amizade que o futebol conseguia criar.
Uma das camisas do Treze que eu mais gostava foi uma que herdei de Jakson Agra, “Son”, meu amigo que morreu em 1978 num acidente de carro. Ele nem gostava de futebol, mas por influência minha começou a se abalançar como torcedor do Treze. Convocou o irmão mais novo (eram três – Son, Marcos e Aroldo) para pintar o escudo do Treze numa camisa meramente alvinegra que ele achou na Casa Esporte, com listras verticais. Aroldo era torcedor do Campinense, mas uma coisa é irmão mais velho e outra coisa é irmão mais novo, e ele se aplicou na pintura do escudo à altura do peito, com o requinte de fazer um desenho contínuo, usando tinta preta onde a listra era branca, e tinta branca onde a listra era preta. Finda a pintura, seca a tinta, um raio de terror caiu sobre a casa: na concentração detalhista de pintar, o indigitado tinha pintado o escudo nas costas da camisa, e não na frente! Única saída possível: deixar aquela pintura como estava, e pintar um novo escudo, seguindo os mesmos princípios, na parte da frente da camisa. Ficou tão massa que acabei ganhando Son no papo e trocando a camisa por alguma besteira, um LP de Chico Buarque ou um livro de Fernando Pessoa; e foi essa camisa trezeana que acompanhou meus périplos até quase os 40 anos de idade, quando eu a vestia antes de ir para o bar comemorar (com cariocas desavisados) os títulos alvinegros que o rádio me informava a distância.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
4540) Eu me lembro XVII (13.1.2020)
Eu me lembro que quando comecei a aprender violão, por
volta de 1964, o “método” que a gente (eu e minha irmã Clotilde) tinha em casa era o método de Paraguassu,
um cantor de valsas e serestas. A capa tinha o desenho de uma rua à noite,
imitando a imagem de um violão, onde as seis cordas eram os fios elétricos
entre um poste e outro e a boca do violão era uma lua cheia. Depois, ainda nos
anos 1960, veio um método emprestado por Zezé Duarte: era o de Américo
Jacomino, “Canhoto”, grande compositor de valsas. Eram métodos de violão
“pé-duro”, quadrado, baseado numa sequência onde os acordes eram chamados de
“primeira”, “acorde” (ou “preparação”), “terceira menor”, “terceira maior”,
“segunda” e voltava à “primeira”. Já nos anos 1970 usava-se o método de
Paulinho Nogueira, mais moderno, com explicações teóricas bem acessíveis, e
acordes dissonantes tipo bossa-nova. O último dessa linhagem de manuais, já no
Rio de Janeiro, foi o Dicionário de Acordes Cifrados, de Almir Chediak, que
somente a preguiça e a resignação com meus próprios limites me impediu de
estudar a fundo. Sou um violonista da escola Erasmo Carlos, que dizia: “Tudo
que eu fiz na vida foi com cinco acordes, e acho que estou no lucro.”
2
Eu me lembro do “Bingo do Treze”, um episódio controverso
na história de Campina. O Treze realizou um bingo sorteando os prêmios valiosos
habituais (eletrodomésticos, e como prêmio principal um carro). O sorteio foi
marcado para a noite, em algum ponto do lado do Açude Velho. Pelo que lembro,
do lado do colégio S. Vicente de Paula, mas como eu não estava lá posso estar
enganado. Milhares de cartelas foram vendidas, havia uma multidão enorme
acompanhando a chamada dos números pelos altofalantes. De repente, alguma coisa
provocou o estouro da boiada. Dizem que foram tiros de revólver; outros
garantem que foi algum sujeito ligando a moto e assustando as pessoas com o
barulho. O que eu sei é que houve uma debandada geral, um pânico que durou
muito tempo, feriu centenas de pessoas e derrubou dezenas delas na lama do
Açude. Nessa noite, a gente estava no terraço de casa, no Alto Branco, e nosso
vizinho Zé do Bombo voltou pra casa, descalço e enlameado. Muita gente perdeu
sapatos, bolsas, peças de roupa. Durante muitos anos, toda vez que se via
alguém com uma peça de roupa extravagante ou descombinada, perguntava: “O que
diabo é isso? Achasse no bingo do Treze?...”
3
Eu me lembro que os bingos, aliás, tiveram um surto
naquele tempo. Não eram apenas os bingos grandes e profissionais que levavam
multidões ao Estádio Municipal, ao Estádio Presidente Vargas ou à Praça da
Bandeira. Era o jogo de bingo em casa, com cartelas impressas que a gente
comprava na papelaria, ou mesmo com cartelas desenhadas domesticamente com
caneta e régua. Os números, também manuscritos, eram puxados de dentro de uma
sacola e chamados em voz alta. Minha mãe e minhas tias tinham o costume de
marcar os números chamados colocando um caroço de milho em cima de cada um,
para poderem reaproveitar a cartela noutro dia. Eu achava aquilo absurdo,
porque de vez em quando uma ventania imprevista bagunçava o ritual todo. Havia
um código brincalhão para dar animação à chamada dos números. O 44 era “Quá-quará-quaquá”.
O 22 era “Dois patinhos na lagoa”, e assim por diante. Uma vez, duas pessoas lá
de casa bateram ao mesmo tempo, a gente foi conferir e viu que as duas cartelas
tinham números diferentes (poucos coincidiam) mas todos os números de ambas
tinham de fato sido chamados, e o último número completou as duas cartelas
simultaneamente. Eu não sei calcular as possibilidades matemáticas disso
acontecer.
4
Eu me lembro que nos meus 14/15 anos, já estudando no Estadual da
Prata, eu tinha o costume de economizar o dinheiro do ônibus para comprar
livros e revistas. Na ida, 6:30 da manhã, sempre havia a carona de Frederico,
nosso vizinho no Alto Branco, que enchia de garotos “fardados” sua Caiçara (e
depois a camionete). Na volta, era cada um por si. Eu poupava avaramente os
cobres do lotação, e saindo do Gigantão pegava a rua lateral da Igreja do
Rosário (a Rodrigues Alves) e dali seguia uma reta comprida que ia acabar na
lateral do Convento das Clarissas, de onde eu rodeava o balde do Açude Novo
(àquela época seco, coberto de matagal e lamaçais, muito antes da construção do
Parque, por Evaldo Cruz). Passando ao lado do Teatro Municipal, subia a
Floriano Peixoto, dava uma olhada nos cartazes do Cine Capitólio e nas bancas
de revistas. Pegava geralmente a Marquês do Herval até o Edifício Rique, e
descia pela Epitácio Pessoa, seguindo a calçada do Chope do Alemão, até o
começo da ladeira descendente da Vigolvino Vanderley. Dali, eu avistava ao
longe a colina do Alto Branco e a fileirinha de casas, com a da gente em
destaque. Era só descer até o Ponto Cem Réis, cruzar o canal, e subir dali
beirando a estrada da Dr. Vasconcelos, virar na Rua José do Ó, passar em frente
à casa de Marcelo dos Sebomatos, depois a casa de Umbelino e Severino Brasil,
os gramados úmidos da Lavanderia, e chegar finalmente a minha rua. Isso tudo
dava uma hora, uma hora e meia de caminhada.
5
Eu me lembro que uma coisa interessante das pessoas
tímidas (como eu sempre fui) é que essa introversão compulsiva se rompe às
vezes e faz emergir comportamentos não-tímidos totalmente destoantes. Quando eu
tinha 9 ou 10 anos e morava na Miguel Couto fui uma vez (forçado por não sei
que desespero de véspera-de-prova) estudar na casa de um colega. Coisa que até
hoje me apavora, porque sempre acho que vou cometer alguma gafe. Era na rua
Solon de Lucena, de modo que talvez o colega fosse Sílvio Coentro, de cujas
irmãs Juliana e Silvana fiquei muito amigo depois de adulto. Fui lá, fizemos o
dever de casa. E eu notei que no corredor da casa havia uma estante baixinha,
de 3 ou 4 prateleiras, cheia de livros, entre os quais inúmeros livros da
Coleção Amarela, de livros policiais, da Editora Globo, de Porto Alegre. Na hora de ir embora, tartamudo
e gaguejante, perguntei à mãe do colega se eu poderia voltar noutro dia para
olhar aqueles livros. Ela respondeu que sim, sorridente e incauta. No dia
seguinte falei em casa que ia estudar de novo, rumei para lá, bati, alguma
empregada veio à porta, eu disse que tinha vindo olhar os livros, ela me reconheceu,
admitiu-me na casa e eu fui direto para a estante, onde me atraquei com uma
Agatha Christie qualquer até que a família chegou na hora do jantar, e ficou sem
saber direito o que fazer comigo.
6
Eu me lembro da “Hora dos Miseráveis”, que era o nome popular
de um momento tradicional dos jogos no Estádio Presidente Vargas: faltando
cinco ou dez minutos para terminar o jogo, os portões do estádio eram abertos,
para permitir que a torcida começasse a sair, sem muito atropelo. A principal
consequência disso era a entrada, com muita gritaria e alvoroço, de algumas
dezenas (as vezes centenas) de torcedores sem dinheiro para comprar ingresso, a
maioria deles meninos e rapazinhos. Ficavam do lado de fora do estádio o jogo
inteiro, acompanhando pelo rádio, e ouvindo a gritaria da torcida. Quando os
portões se abriam, eles entravam numa euforia danada, que fazia o pessoal da
arquibancada se divertir: “Eita!... Chegou a hora dos miseráveis!...” Ainda assim, muitos deles, assistindo os
minutos finais de um clássico, de um jogo “pegado”, de uma decisão, conseguiram
ver de graça alguns lances históricos, de partidas que só foram decididas nos
acréscimos – algo que volta e meia está acontecendo no futebol.
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
4393) Conselhos de um craque do Galo (12.10.2018)
Duvido que mesmo o pessoal de Campina Grande que tem a minha idade, que conviveu comigo alguns anos de glória do Galo do São José, lembre de um camisa 10 chamado Belame, um cara moreno, magro, alto. Um meia armador ofensivo, no sentido Sócrates do termo, no sentido Araponga do termo, no sentido Assis Paraíba do termo.
Belame jogou poucos anos porque fazia faculdade. Largou a
bola, ganhou dinheiro, virou um eterno sócio e torcedor alvinegro. A “vida de bola” não era o forte dele, embora
a bola fosse.
Virou Belame do Pandeiro, por causa de um grupo de
batucada que tem até hoje com uns amigos sabadeiros e dominicais. Bom percussionista,
diz que é “mil vezes melhor com o pandeiro do que com a bola. E além disso o
pandeiro não empata de beber”.
Belame é de Campina, nascido no Catolé. Um pouco mais
velho do que eu. Tem voz razoável, sabe muito samba antigo, sabe forrós
obscuros de Zito Borborema ou Manezinho Silva, sabe uns boleros do tempo bom.
Seus ídolos: Trio Nordestino, Demônios da Garoa, o Jorge Ben da primeira fase.
Belame sempre foi articulado, lia bastante. Hoje, avô de
netos, forte e sadio, gosta de sentar de frente para o mundão escancarado e
filosofar um pouco. Para ele qualquer esquina de beco pode virar um Corcovado
aberto.
Meses atrás estive em Campina e fui visitá-lo numa tarde tranquila,
e botamos pra beber e filosofar. Era um entardecer de domingo, ali perto da
subida da Manoel Tavares para o Alto Branco. Uma rua lateral onde mora uma
filha dele, e onde às vezes ele chama algum da gente para almoçar, tocar um
pouco e trocar idéias. Eu levei o violão, a gente ficou curtindo e apostando
repertório.
A rua era de calçamento, com uma calçadinhas estreitas e
limpas, crianças de bicicleta. A gente estava do lado de fora da casa, junto do
meio fio, uma mesinha, duas cadeiras, uma cerveja no obus de isopor, um prato
de guloseimas sanguinolentas. Dali do alto avistávamos a vastidão do céu da
Borborema, como se o sertão longínquo estivesse se incendiando, e ficamos roendo
as unhas pelo futuro do Brasil.
– E agora, Belame? – perguntei, meditativo e cheio
de respostas.
Ele serviu os copos até esvaziar a garrafa, ergueu para a
janela pedindo outra e anunciou:
– Vou lhe explicar o mundo como é. Teve uma vez, anos 60
eu acho, uma decisão no Maracanã, Fluminense e não sei quem. Final de
campeonato. Empate, não se usava pênalti pra decidir, e por incrível que pareça
foi no cara ou coroa.
– Isso mesmo – disse eu.
– O capitão do Fluminense era Pinheiro, um xerifão alto,
de bigode. Batia pênalti com uma violência que parecia um uruguaio. Era chamado
o Rei do Pênalti.
A netinha chegou trazendo a cerveja nova, ele serviu os
copos, bebeu, limpou a espuma.
– Mas nesse tempo não se decidia título no pênalti –
continuou ele. – Era na moeda: o juiz, os bandeiras, os dois capitães, num
círculo, e os dois times e um monte de babão no círculo em volta. Ah, sim, os
repórteres de pista. O que hoje chamam de trepidantes.
– Certo.
– Quando estavam se encaminhando pro centro do campo, Pinheiro
chamou o pessoal do Fluminense, deu uma instrução. Foram para o meio. Ele pediu cara,
o outro aceitou coroa, o juiz jogou pra cima, e quando a moeda começou a descer
piruetando ele disparou num berreiro, rapaz, e o time todo ao mesmo tempo, um
berreiro ensurdecedor, esbarrando, derrubando todo mundo, o time pulando aos
berros de “É campeão! É campeão!” ou sei lá como era o grito daquele tempo.
– E a moeda, tinha dado o quê?
– Ninguém viu a moeda até hoje. O que valeu foi aquilo. O
juiz não era besta de mandar voltar, a foguetaria cobrindo no centro, uma nuvem
de pó-de-arroz no Maracanã que se avistava em Niterói.
– Muita cara de pau – disse eu.
– Pois bem, isso é que as pessoas chamam de Narrativa. O
futebol é cheio dessas coisas. Já vi muita bola, no derradeiro minuto, ser jogada
para dentro do gol e o zagueiro devolver de cabeça. O juiz nessa hora pode marcar o que bem
quiser, porque certeza mesmo ninguém tem.
– Mas o outro time protesta, né?
– Jogador protesta até minuto de silêncio. Mas isso é um
exemplo do que eu chamo O Olho Ponderado. Guarde essa expressão. Significa um
olho que tem um peso maior, um valor maior que o de outros olhares.
– O olho de quem tem o Poder.
– Isso. Dentro de campo, o olho do juiz tem esse peso. É o
poder e é o risco, é a autoridade dele e é a vulnerabilidade dele: o olho dele,
o olho que fornece a decisão. Não importa se aquela bola entrou ou não. Importa
o que ele disser. É a Narrativa.
– Eu queria ser guarda-noturno e não queria ser juiz de
futebol.
Ele deu um gole silencioso, concordando. Pegou o maço de
cigarro, pensou, desistiu, largou de novo, voltou a falar.
– Voltando a Pinheiro no cara ou coroa: Pinheiro foi foda.
Figurativamente ele passou o juiz, a imprensa, as autoridades no rodo, não
deixou nada. Nada. Desmoralizou todo mundo. Rebatou a Narrativa da mão do pobre
do juiz, tu entendesse?
– Tem uma história de boxe que eu acho muito boa – disse
eu. – Uma daquelas lutas da porra de Mike Tyson com Evander Hollyfield.
– Eu era o maior fã de Myke Tyson – disse ele. – Teve três
lutas que a gente foi ver. Uma foi no antigo Miúra, outra no bar de Dermeval no
Tambor, e outra numa churrascaria véia que não existe mais... Pois toda vez, quando
a gente ainda estava se arrumando nas cadeiras e pedindo a primeira, a luta
acabava.
– Nesse dia – disse eu – Hollyfield deu uma surra
histórica em Tyson. Depois da luta, Tyson e a equipe dele estavam indo juntos
pra sala de imprensa, pra dar a entrevista. Tyson falou : “Vou dizer assim: eu
sabia que ia acabar com ele”. Aí o técnico dele disse: “É melhor não chegar lá
falando muita merda não, cara. Tu perdesse a luta.” Ele estava tão zonzo que ainda
não tinha entendido direito.
– Essa é demais – disse ele com uma risada. – Ele ainda
estava na Narrativa de antes.
– Era um fenômeno. E nessa época, data vênia o nobre
colega me permitir, eu criei um conceito.
– Fique à vontade – disse ele, desta vez acendendo e baforando
um cigarro. – A rua é pública.
– Isso é uma coisa que tem na literatura. Eu chamo O
Começo Mike Tyson. É a partir da primeira frase, num livro, você já cair
matando, não deixar o leitor respirar. Uma página, uma e meia, duas... Depois a
linguagem pode ir desacelerando, o passo vai no ritmo que convier. Mas o começo
é algo como o que Mike Tyson fazia naqueles dois ou três minutos quando o gongo
fazia “pléinn!...”. Às vezes a gente consegue fazer isso num conto.
– É verdade. Na batucada, mesma coisa. A gente vai tocar numa
manhã-de-sol num clube grande, num lugar aberto com quase mil pessoas... Abre o
show pisando levinho? Nãããão! Você entra fudendo, com uma música bem alta, pra
encerrar qualquer assunto e fazer todo mundo parar a conversa, encher o copo e
virar a cadeira pro palco.
– Boa.
– Começo Mike Tyson. Tá valendo. Pois o que Pinheiro fez,
voltando ao fio da meada, foi um final Mike Tyson. A Narrativa não é o que
aconteceu. Também não é o que a gente pensa que aconteceu. A Narrativa é a
versão de quem passa o trator por cima de todo mundo e diz: Essa porra vai ser
contada assim.
Eu bebi, meditei um pouco. Bebida não serve pro sujeito
ficar bêbado, serve pro sujeito ocupar a boca e dar tempo de pensar melhor numa
resposta.
– E agora, Belame? – perguntei, pondo o copo na mesa. –
Tudo indica que a gente perdeu a Narrativa. Faz o quê, agora?
Ele deu mais um gole, pegou o violão, que estava deitado
em cima duma cadeira próxima, formou uns acordes distraídos enquanto olhava o céu.
E o crepúsculo afogueando uma beirada inteira de Campina.
– Poeta, o futebol me ensinou que vitória de domingo se comemora
no domingo, porque quarta-feira tem jogo. E a derrota de domingo mesma coisa:
se chora no domingo, porque quarta tem jogo.
– Dá um sol menor aí – disse eu.
Ele fez um sol, ré, sol. E a gente emburacou num Nelson
Ned dos velhos tempos: “Pois tudo passa,
tudo paaaassarááá... E nada fica, nada fiiiiicarááá...
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
4383) Dez grandes jogos do Treze (6.8.2018)
(time do Treze, com Garrincha)
Mário Vinicius Carneiro é hoje o historiador do Treze
Futebol Clube, posto que herdou informalmente do inesquecível Severino Marinho
Leite. Seu livro Treze Futebol Clube: 80
Anos de História (A União, 2006) é uma obra imensa e preciosa, tornada
minúscula apenas diante da gigantesca tarefa a que se propôs: contar a história
do clube mais querido e mais heróico da Paraíba.
Ele me pede, para outro trabalho, um breve relato de “dez
jogos inesquecíveis” do Galo. Eu poderia enumerar aqui dez vitórias
arrasadoras, entre milhares. Mas prefiro destacar jogos que, independente do
seu resultado, tenham sido marcantes na minha história pessoal como torcedor.
1)
Durante muitos anos eu, garoto ainda, lamentei não ter
podido assistir a partida de 6 de janeiro de 1961 quando o Treze empatou em 1x1
com o Dínamo, de Bucarest. Consta que foi o primeiro jogo internacional
realizado em Campina Grande. Não foi o primeiro jogo internacional do Treze: em
16 de dezembro de 1951 o Galo havia perdido de 3x2 para o Vélez Sarsfield
(Argentina), num amistoso em João Pessoa. O Dínamo ficou sendo uma espécie de
lenda em Campina; o pessoal dizia que no primeiro tempo o sol forte castigou os
romenos, mas quando o sol foi esfriando eles botaram pra correr e deram uma
prensa no time do Galo.
2)
Outro jogo histórico foi quando o Treze enfrentou a
Seleção da Romênia no Estádio Presidente Vargas, em 8 de fevereiro de 1968. O
time romeno era mais ou menos o mesmo que dois anos depois seria derrotado pelo
Brasil na Copa do Mundo do México. O grande detalhe esse jogo foi a presença de
Garrincha jogando pelo Galo. Nessa época, o grande Mané vivia viajando pelo
Brasil, jogando partidas por clubes de qualquer lugar, por uns trocados. Gordo
e sem muita força para driblar, mas (segundo os que tomaram umas e outras com
ele) simpático e bem humorado. Só fez uma jogada certa: pegou a bola quase na lateral
do campo e fez um cruzamento longo na cabeça de outro atacante, e o Estádio
inteiro ficou de pé ao mesmo tempo.
3)
Não posso deixar de fora o dia histórico em que o Galo se
tornou campeão paraibano invicto de 1966, derrotando o Campinense por 1x0, gol
de Cocó. O presidente do Galo era Edvaldo do Ó, também reitor da Universidade
Regional , que costumava bater de frente com quem se atravessasse. O Treze
nesse ano rompeu com a imprensa e editou seu próprio jornal (“A Tarde”); as
rádios eram proibidas de transmitir os jogos no Estádio Presidente Vargas. Um
ano antes, quando o campeonato de 1965 ainda estava em curso, ele havia
anunciado pelo rádio: “Este campeonato já está perdido, mas eu prometo à
torcida que no ano que vem o Treze vai ser campeão invicto”.
4)
Tem jogos que nem são tão importantes assim, mas a gente
não esquece. Por volta de 1976 Treze e Campinense estavam numa fase de grandes
contratações. O Galo tinha contratado desde o ano anterior o meia Soares e o
atacante João Paulo. Foi marcado um amistoso no Amigão, uma espécie de caça-níquel
de pré-temporada, e o Treze derrotou o Campinense por 2x0, gols de Soares e
João Paulo. A imprensa rubronegra estrilou, queixando-se de que os reforços do
time Raposa não tinham chegado a tempo para o jogo. E foi marcada uma partida revanche
para a semana seguinte, no mesmo local. E dessa vez o Campinense entrou
completo, com todas as novas estrelas reluzindo. E o Treze ganhou de 2x0, gols
de Soares e João Paulo. Foi o famoso “jogo replay”.
5)
Em 8 de dezembro de 1974, um jogo histórico do Galo no
antigo Estádio Leonardo da Silveira, na capital. O Treze precisava de uma
vitória sobre o Botafogo para conquistar o quarto e último turno de um
campeonato onde o Campinense já ganhara os três primeiros. A BR-230 ficou
congestionada nesse dia de tantos ônibus e carros partindo para João Pessoa. A
torcida alvinegra invadiu o Estádio e vibrou do começo ao fim com a vitória por
2x1, gols de Fernando Canguru de cabeça e Vandinho. Foi um jogo literalmente
“ganho pela torcida”.
6)
Nessa mesma época, o Treze inaugurou os refletores do
Estádio Amigão num amistoso com o Flamengo carioca, em 13 de agosto de 1975. Isso
foi no auge do meu envolvimento como torcedor. Lembro que passei a noite da
véspera nos fundos do Cine Babilônia (cujo gerente, Luiz Teixeira, era trezeano
autêntico), dando instruções ao pintor de cartazes (cujo nome não lembro agora)
para pintar as faixas que íamos levar no dia seguinte, das quais só lembro os
dizeres de uma: “O Treze saúda a imprensa, / testemunha da sua História”. Com a
bola rolando, o Treze abriu o placar logo no início com João Paulo, e o
Flamengo virou com dois gols de Zico, vencendo por 2x1.
7)
Seria meio ufanista registrar como inesquecíveis apenas
as vitórias. As derrotas também são. Vou escolher como exemplo a da decisão do
Campeonato Paraibano em 8 de fevereiro de 1965, um jogo noturno no “Plínio
Lemos” (o estádio do Campinense). O Campinense ganhou por 2x1, de virada, com
um jogador a menos (Zé Preto foi expulso no 1º. tempo), com um gol de cabeça de
Zé Luiz. Três anos depois eu estava trabalhando na Reitoria da FURNe com Zé
Luiz, e disse a ele que jamais o perdoaria por aquele gol, ao que ele deu uma
grande gargalhada (pois agora já estava jogando no Treze.) Naquela “noche
triste”, ensopei três travesseiros de choro.
8.
Não foi propriamente um jogo, mas ficou na história. Em
1974 o Treze estava há não sei quantos jogos sem ganhar do Campinense, um
“tabu” que já durava mais de um ano. Muita coisa, considerando-se que em um ano
os “maiorais” jogam várias vezes entre si. E então veio o “Torneio Início” do
Campeonato Paraibano, um costume que não existe mais, onde os todos os times do
campeonato disputam partidas de 15 ou 20 minutos em 2 tempos, decididas nos
pênaltis em caso de empate. Nesse ano o Treze venceu o Guarabira, o Botafogo-PB
e na decisão o Campinense, todos pelo placar de 2x0. Foi esse jogo que revelou
o artilheiro Fernando Canguru, que marcou os 2 gols da decisão e virou grande
ídolo do Galo.
9.
Tentei me lembrar de alguma grande goleada, porque
goleada é sempre uma festa. E me veio à memória um período de uns dois meses,
entre julho e agosto de 1973, em que o Treze aplicou uma série de goleadas em
times paraibanos: 8x1 no Santos (de João Pessoa), 8x0 no Esporte (de Patos),
8x1 no Guarabira e 10x0 no Santa Cruz (de Santa Rita). Nessa época, eu assistia
todos os jogos na arquibancada atrás do gol do portão de entrada, e era uma
festa. Quando o Treze pegava a bola e partia em nossa direção, começava um coro
frenético: “Lá vem, goleiro! Lá vem!” E
era um bombardeio, porque tínhamos um ataque muito bom, com Assis Paraíba,
Vandinho, Zé Pequeno, Haroldo e outros. Quando a “carga da brigada ligeira”
partia e a arquibancada ficava toda de pé, era uma beleza, nunca me diverti
tanto.
10.
E para não ficarmos apenas nos jogos da antiga, registro
um que curiosamente vi na tela do computador, poucas semanas atrás: Caxias 1x3
Treze, em Caxias do Sul, quando o Treze conseguiu a ascensão para a série C do
Brasileirão. Uma partida impecável do Galo, que sofreu o gol de abertura,
empatou ainda no primeiro tempo, virou no começo do segundo e fechou-a-tampa no
finzinho com um gol sensacional de contra-ataque.
Cada jogo do Galo é uma página da História! Amar um time de futebol é ser casado com o
Imprevisível e virar sócio do Acaso. Eu vivo dizendo que larguei o vício, e de
repente olha eu aqui.
(Esta crônica foi publicada no meu livro "A Fonte dos Relâmpagos", Editora Arribaçã, Cajazeiras, 2022)
domingo, 12 de agosto de 2018
4375) Dia dos Pais (12.8.2018)
Eu não sou muito acompanhador dessas efemérides, Dia disso, Dia daquilo. Nem meu aniversário eu comemoro. (Não, não há problemas, nem teorias justificatórias. Questão de hábito, apenas.)
Como hoje está todo mundo nas redes sociais botando fotos
e contando episódios (alguns muito bonitos) sobre seus progenitores, lembrei de
postar algo sobre Seu Nilo. O pobrema é que todo ano tem essa cerimoniazinha e
não quero ficar repetindo as postagens dos anos passados.
Vai daí, reproduzo abaixo um trecho do Capítulo 4 (“Deixa
a vida me levar”) do meu romance recém-lançado Bandeira Sobrinho – Uma Vida e Alguns Versos (Fortaleza: Editora
IMEPH, 2017). É um retrato 3x4 daquela figura indescritível. (O capítulo
prossegue falando da minha mãe, mas quem quiser ler vai ter que encomendar o
livro no link abaixo.)
-oOo-
(...)
Algum tempo depois dessa cantoria
eu passei uns dez dias em Campina (eu já morava em Salvador, na época). Estava
surgindo a possibilidade de ir morar no Rio, porque Elba Ramalho tinha gravado
algumas músicas minhas que estavam rendendo direitos autorais. Ir morar no Rio!
Eu estava morrendo de medo, se bem que hoje percebo que aquilo não era medo
coisa nenhuma, era vontade.
Uma noite minha mãe (quando eu
vinha passar uns dias em Campina eu ficava na casa dos meus pais, no bairro do
Alto Branco) me disse que ia fazer um bolo porque era aniversário de alguém da
família, algum parente que vivia longe; mas tudo na vida dela era pretexto para
bolo, etc. E ia fazer um jantar mais caprichado.
Às oito da noite, eu liguei de um
orelhão, perto do Bar de Seu Manu.
– Bença, mãe.
– Deus lhe abençoe. Tá aonde?
– Tou aqui perto do Edifício Rique.
Tem bolo mesmo?
– Oxente, eu não disse que tinha? Tá
pronto. Vem jantar?
– Acho que vou. Seu Nilo tá
acordado?
– Tá por aqui, doido que você
chegue pra conversar.
– Eu vou levar um amigo meu, Bandeira
Sobrinho, aquele cantador da Rádio Borborema.
– Traga, traga mesmo. Tem bolo, tem
café, mas se quiserem cerveja vão ter que trazer.
– Deus me livre, eu de
segunda-feira pra cá tô arripunando cerveja.
Ela deu aquela risada longa dela –
“ra-rraaaai!...” – e eu desliguei.
Foi muito bom ter levado Bandeira,
porque ele e meu pai sentaram no terraço e daí a pouco se envolveram numa
discussão sobre formas de soneto, onde cada qual procurava lembrar mais
variantes do que o outro.
Para os que não conheceram meu pai,
o jornalista e poeta Nilo Tavares, basta fazer uma lista breve:
1)
Era
baixinho. Não sei a medida da altura dele. Era charadista e enigmista, membro
da TerNor (Tertúlia Nordestina), colaborador de incontáveis revistas Brasil
afora, com o pseudônimo de Pequeno Polegar. Uma vez, já morando no Rio, fui ao
Círculo Enigmístico Carioca, perto da Av. Rio Branco, pesquisar uma matéria pra
TV, e quando falei que meu pai tinha escrito um Dicionário do Que (locuções começadas com a expressão “Que...”), o
cara foi lá dentro e trouxe um exemplar encadernado.
2)
Gabava-se
de ser capaz de passar 24 horas ininterruptas recitando sonetos de autores
brasileiros, inclusive dele mesmo, mas mesmo na Paraíba nunca apareceu homem
nenhum que ousasse pegá-lo na palavra.
3)
Era do
Recife e minha mãe era de Coxixola-PB (“A Cidade Que Precisa Dizer Que
Existe”). Conheceram-se em Angelim (PE), casaram e vieram morar em Campina
Grande, onde nascemos os quatro filhos: Clotilde, eu, Pedro e Inês.
4)
Nunca foi
apologista, mas como trabalhou na Rádio Borborema conhecia os violeiros que
passaram pelo Retalhos do Sertão, um
dos mais tradicionais programas de cantoria no rádio. Para os cantadores mais
antigos, como Zé Gonçalves, eu era “o filho de Nilo”.
5)
Torcia por
três times: o Sport Club do Recife, na cidade onde se criou; o Treze Futebol
Clube, na cidade onde iniciou sua vida de chefe de família; e o Flamengo, no
seu país, que era feito em grande parte de jornais impressos e de emissoras de
rádio.
6)
É simbólico
da nossa relação que em 1975, quando o Flamengo foi a Campina jogar com o
Treze, eu perguntei: “O senhor acha que a gente ganha?”, e ele respondeu: “E tu
acha que a gente vai perder para um time fraco como o do Treze?”, e eu disse,
“Peraí, Seu Nilo, a gente é quem, no
seu vocabulário?” Foi um momento judaico-cristão em nosso relacionamento.
7)
Mas isso
prova apenas que ele era mais romântico do que eu.
Em 1980 meu pai teve o que chamamos
na época de uma “trombose”, ficou com um lado do corpo meio avariado, precisou
fazer fisioterapia. Tinha que ficar apertando uma bolinha que de vez em quando
escapava, e todo mundo corria a devolvê-la. Fisioterapia fica mais interessante
quando vira uma diversão para todos os envolvidos, não é mesmo? Uráy, o antigo
zagueiro do Treze, ia lá em casa para ajudá-lo nos exercícios, ia para dar uma
força, só pela lembrança da convivência.
Foi se recuperando aos poucos, mas
como deixou de trabalhar, sua diversão principal, além de ler, de decifrar e de
compor charadas, e de ver TV, era esperar visitas que sentassem com ele no
terraço da nossa casa na colina do Alto Branco. Ficava ali e via Campina Grande
estendida horizontalmente à frente, como num filme de 70mm. Gostava de receber
gente e conversar sobre as coisas boas da vida.
quinta-feira, 14 de junho de 2018
4357) Meus planos para a Copa do Mundo (14.6.2018)
(ilustração: Alison Mees)
Vieram me perguntar se eu ia torcer pela Seleção Brasileira nesta Copa do Mundo. Eu respondi: “Vou torcer para que Salah fique bom da contusão, jogue, o Egito enfrente a Espanha e ele faça o gol da vitória”.
Para quem não sabe: Salah é o jogador egípcio que foi
deslealmente machucado por um jogador espanhol, no jogo decisivo da Liga dos
Campeões.
Quanto à Seleção Brasileira, desejo-lhe boa sorte, pelas
inocentes alegrias que suas prováveis vitórias darão aos que encontram, nessas
vitórias, uma razão para festejar.
Li dias atrás uma coluna de Luiz Antonio Simas, no Globo, onde ele cita o folclórico
sambista Beto Sem Braço: “O que espanta a miséria é festa”. É uma grande
verdade; e é uma frase que só vale na boca de quem sabe o que é a miséria. Nós,
do lado de fora, podemos usá-la apenas entre aspas.
Vou acompanhar a Copa, sim. Vou ver os jogos no bar da
esquina ou na casa dos amigos. (Não tenho mais televisão em casa.)
Quem se der o trabalho de vasculhar meu blog verá o
quanto já me deixei arrastar pelo entusiasmo futebolístico. Tanto em função dos
meus times de coração (Treze, Flamengo, Sport, Atlético Mineiro) quanto pela
Seleção.
Continuo gostando de futebol. Gosto de ver “the beautiful
game”, que nós brasileiros estamos praticando cada vez menos. O futebol bem
jogado é uma mistura de balé e xadrez: o balé dos jogadores e o xadrez dos
técnicos. Mas existe uma versão contemporânea que é um misto de arruaça e
burocracia, respectivamente.
Gosto de ver as grandes decisões, as situações-limite em
que pessoas de talento fora do comum dão tudo de si para conquistar um título
numa disputa leal.
E gosto de ver quando um daqueles joguinhos chinfrins de
meio de semana, noite chuvosa, dois times da série C, se transforma – por
circunstâncias do momento – numa batalha épica de emoções fortes, de heroísmo,
de façanhas impossíveis.
O bom do futebol é que mesmo no jogo mais medíocre entre
os times mais fuleiros pode surgir a qualquer instante um lance perfeito,
inesquecível, tão extraordinário quanto o gol de bicicleta de Gareth Bale
naquela mesma final da Liga dos Campeões. É como na poesia: no meio de um livro
totalmente banal pode brotar a qualquer instante um verso de gênio. Por isso a
gente não desiste.
O futebol está cada vez mais se transformando em “Big
Business” – um Business que só interessa a quem é Big. Não é o meu caso. Gosto
do lado plebeu do futebol, porque sou de origem plebéia. Pra ser sincero,
futebol só presta com laranja chupada ou bola de meia. Esse negócio de chuteira
e bola de couro estragou o jogo. (Tou brincando.)
Futebol está no sangue da gente lá em casa. Fui
jornalista esportivo com 16 anos, fui membro dos Esporões do Galo (a torcida (des)organizada
do Treze), fui secretário do Treze (era eu quem datilografava os contratos e
pagava o bicho dos jogadores, na gestão Zé Agra). Ainda hoje sou capaz de me
interessar por um videoteipe de Ituano x Bragantino às 3 da manhã.
A Copa de 2014 contribuiu para arrefecer esse meu
entusiasmo, sem extingui-lo. Não por causa do 7x1, que pra mim foi uma derrota
previsível (apenas o placar foi “um tanto elástico”, como dizem os coleguinhas
da crônica). Mas naquela vez parece que tudo que tem de ruim no futebol se
juntou.
Foi a rapinagem deslavada, as propinas, os conchavos
políticos, a repressão aos protestos, os elefantes brancos e inúteis que estão
aí até hoje dando prejuízo dos Estados que caíram no conto do vigário das
“coisas de Primeiro Mundo”. Millôr Fernandes dizia que transformar sua cidade
em atração turística é o mesmo que botar a mãe na zona.
E agora a polícia e a imprensa descobriram, finalmente, que
havia corrupção na CBF. Engraçado, eu
sabia disso desde que era a CBD de João A-Ver-Longe.
O futebol se igualou ao rock, ao cinema blockbuster. É
big business. A arte é um efeito colateral, que eles incluem como isca e ainda
não descobriram como descartar, mas o farão, quando descobrirem um modo de
ganhar mais grana com isso.
Minha primeira Copa como torcedor foi a de 1962, que ouvi
pelo rádio. E nem sempre torci pelo Brasil. Em 1974, por exemplo, torci pela
Holanda, e comemorei na casa de Jakson e Marcos Agra a vitória da Laranja Mecânica
sobre o Escrete Canarinho por 2x0. Por causa da ditadura? Em parte. Mas porque
a Holanda era o futebol, e eu gosto mais do futebol do que dos meus times.
A Copa me irrita porque grande parte da imprensa
aproveita para se lambuzar de ufanismo ilusório, de servilismo diante dos ricos
e mandões. Na Copa, muito jornalista tenta compensar nosso “complexo de
vira-lata” afirmando que não somos vira-latas, somos lulu de madame.
É uma época que deveria nos ensinar alguma coisa, mas
acaba revolvendo camadas profundas do nosso inconsciente coletivo e revelando o
lixão de História mal resolvida sobre o qual estamos edificando nossos
shoppings e nossas arenas.
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