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domingo, 6 de outubro de 2024
5109) "Pat Garrett e Billy The Kid" (6.10.2024)
quarta-feira, 30 de novembro de 2022
4888) O realismo é perigoso? (30.11.2022)
A frase mais famosa de Guimarães Rosa talvez seja a de que “Viver é perigoso”, glosada e reglosada ao longo de todo o Grande Sertão: Veredas. Nas prateleiras da minha memória, está lado a lado com o “Caia na estrada, e perigas ver”, dos Novos Baianos. Dois faróis de sabedoria, que ajudam a gente a triangular trajetos.
Frederick Faust é considerado ainda hoje um poeta de
talento, no estilo clássico, erudito. Financiava sua poesia com os abundantes livros
de “Max Brand” (e outros pseudônimos), produzindo histórias de cowboys, índios,
pistoleiros, rancheiros...
Escreveu algumas raras histórias de ficção científica,
como The Smoking Land (1937), sobre
uma civilização futurista oculta no Ártico. Escreveu também aventuras
capa-e-espada ambientadas na Europa Renascentista, ao estilo de Dumas ou de Rafael
Sabatini, como as aventuras de “Tizzo, the Firebrand”, sob o nome de “George
Challis”.
Ganhou tanto dinheiro que resolveu ir morar na Itália.
Comprou uma villa nas proximidades de
Florença, onde batucava interminavelmente na máquina de escrever, enviando
contos para todo tipo de revista, desde pulp
magazines como Argosy até o caro The Saturday Evening Post.
Lee Server, um ótimo historiador da pulp fiction dos EUA, conta um aspecto interessante do estilo e da
imaginação de Max Brand:
O seu Oeste era uma ambientação acima de tudo poética, com poucos pontos de referência reais, no espaço ou no tempo. Ele usou o tema das violentas fronteiras da América como um cenário quase abstrato para a recriação de épicos da Antiguidade ou mitos clássicos. O herói de The Untamed, o misterioso jovem chamado “Whistlin’” Dan Barry, é uma referência explícita ao “grande deus Pã”. Trailin’ reconta a história de Édipo, Pillar Mountain o mito de Teseu e Hired Guns é uma versão faroeste da Ilíada. Numa atitude bem característica, Brand realizou certa vez uma viagem ao Oeste por conta de seus editores, para se aclimatar e absorver a atmosfera local; passou o tempo quase todo num quarto de hotel, escrevendo mais algum dos seus faroestes inautênticos e extraordinariamente populares.(Encyclopedia of Pulp Fiction Writers, Chackmark Books, 2002, trad. BT)
Eu conversava muitas vezes [diz Gruber] sobre os hábitos alcoólicos dele. Ele dizia apenas que conseguia escrever apenas depois de tomar algumas doses e “se evadir do mundo real”. Precisava do estímulo da bebida para se transportar àquele mundo de fantasia sobre o qual escrevia tão bem.
Para poder fazer a transição entre a escrita de poemas e a da prosa, Faust se convenceu de que precisava beber. Bebia xerez ou uísque pela manhã, cerveja ou vinho à tarde, coquetéis antes do jantar, vinho durante o jantar e uma dosezinha antes de dormir. Suas cartas para os amigos oscilavam entre declarações de que “a bebida atualmente está sob controle” a confissões de que “reconheço que só consigo escrever quando bebo.”
– Pois sabe o que eu gostaria, coronel? Gostaria de ir para a frente de batalha. Gostaria de viajar junto com uma companhia de soldados da infantaria. Comer junto com eles, dormir junto com eles, conversar à noite, ouvir suas histórias. Lutar ao lado deles, participar de ações no campo de batalha – e na volta escrever um livro contando a história daquela companhia. (trad. BT)
Quando a guerra começou ele deu um jeito de ser indicado como correspondente de guerra para Harper’s Magazine. Escreveu da Itália para a esposa: “Não perco a esperança de sair disto tudo como um homem melhor. Sempre desejei ser capaz de virar a página, subir a um patamar mais elevado. “ Foi morto em maio de 1944, durante uma carga a uma posição da artilharia alemã, nas colinas italianas. Participou do avanço no meio dos jovens soldados. Tinha cinquenta e dois anos, e era o correspondente mais idoso na frente de batalha. (trad. BT)
segunda-feira, 6 de junho de 2022
4830) "Outer Range": as famílias karamazovianas (6.6.2022)
Entre as muitas obras-primas que nunca li, mas que às vezes é como se tivesse lido, está Os Irmãos Karamazov (1880) de Fédor Dostoiévski. É a história de um patriarca russo com três filhos, e da relação tensa e explosiva entre todos eles. Uma história que envolve patriarcado, política, homicídio, religião, poder.
terça-feira, 15 de junho de 2021
4714) Primeiras Estórias: "Fatalidade" (15.6.2021)
(Ilustração: Luís Jardim)
(...) Na data e hora, estava-se em seu fundo de quintal, exercitando ao alvo, com carabinas e revólveres, revezadamente. Meu Amigo, a bom seguro que, no mundo, ninguém, jamais, atirou quanto ele tão bem – no agudo da pontaria e rapidez em sacar arma; gastava nisso, por dia, caixas de balas.
(“Fatalidade”)
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.
(GS:V)
Meu Amigo sendo de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia.
(“Fatalidade”)
(...) Viajamos para cá e ele, nos rastros, lastimando a gente. É pêta. Não me perdeu de vistas. Adonde vou, o homem me atravessa... Tenho de tomar sentido, para não entestar com ele. (...) Terá o jus disso, o que passa das marcas? É réu? É para se citar? É um homem de trapaças, eu sei. Aqui é cidade, diz-se que um pode puxar pelos seus direitos. Sou pobre, no particular. Mas eu quero é a lei...
(“Fatalidade”)
...e o falecido Herculinão, trapuz, já arriado lá, já com algo entre os próprios e infra-humanos olhos, lá nele – tapando o olho-da-rua. Não há como o curso de uma bala, e – como és bela e fugaz, vida!
(“Fatalidade”)
Quando Stoddard e Valance se confrontam no meio da rua e
sacam as armas, é Doniphon que, escondido, abate o bandoleiro, deixando que
Stoddard, no meio da confusão, seja dado como o herói, iniciando aí uma
carreira política que só trará benefícios para a cidade. É ele quem vira “o
homem que matou o facínora”.
Durante algum tempo matutei se haveria alguma influência
do filme de Ford sobre o conto de Rosa. Parecia que não, porque a grande
maioria dos contos de Primeiras Estórias
teve publicação prévia, principalmente no jornal O Globo, ao longo de 1961, portanto antes do filme, que foi lançado
nos EUA em abril de 1962. (Não pude apurar a data de exibição do filme no
Brasil.)
Não é o caso, porém, de “Fatalidade”, que não é
mencionado nessa lista de publicações (v. Em
Memória de Guimarães Rosa, José Olympio, 1968, pags. 208-210). Haveria,
portanto, uma estreita janela temporal para que Rosa, sabendo do argumento do
filme pela imprensa ou por outras vias, compusesse sua estória a ponto de ser
incluída no livro, pois a primeira edição de Primeiras Estórias foi impressa em agosto de 1962.
Não custa lembrar que o filme de John Ford se baseia num
conto homônimo de Dorothy M. Johnson, publicado nos EUA em 1953.
Bem; isso são passatempos de nerd. O que importa no conto, mais do que influências ou
inspirações, é sua mecânica sutil, sua ética rude, seu reconhecimento tácito de
que com certas qualidades de brutalismo não há conversa possível. Herculinão
merece morrer. (Contra-argumento possível, e bem fundamentado: Augusto Matraga
era também um acaba-samba da mesma má qualidade, mas bastou uma surra bem
aplicada para encaminhá-lo para o Céu, mesmo a porrete.)
quarta-feira, 7 de abril de 2021
4691) "Cat Ballou", a mocinha e os três mocinhos (7.4.2021)
Foi bom ter visto, para apreciar melhor o lado cordelesco
do filme. A crítica norte-americana sempre se refere aos músicos que narram a
história (Nat King Cole e Stubby Kaye) como “uma espécie de coro grego”, que
descreve situações, avisa o que vai acontecer e depois comenta o que aconteceu.
Acho curioso que essa crítica se detenha tão pouco sobre os “cordelistas” do
tempo do faroeste, que estão presentes (e com presença importante) em tantos
filmes.
São os poetas ambulantes que escrevem em revistinhas
baratas (chapbooks) as aventuras dos Billy
The Kid e dos Bat Masterson de sua época. Fazem o que no Nordeste faziam
Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde
narrando as proezas e as crueldades de Antonio Silvino ou Lampião.
Logo no começo do filme vemos Cat Ballou sendo embarcada
no trem por uma tia protetora, e abrindo um livrão escuro, encadernado, que ela
comenta com o vizinho de cabine ser um volume de poesias de Tennyson. Segundos
depois, escapa de dentro do livrão um chapbook
barato onde se contam as aventuras do pistoleiro Kid Shelleen. Lá pelo meio do
filme, depois que o pai é assassinado, ela reencontra o cordel e é através dele
que se dispõe a contratar Kid Shelleen para executar sua vingança. Chega-lhe à
porta um pistoleiro andrajoso, bêbado, um pistoleiro-pastelão. O desencanto
dela é o de todos que confundem a lenda impressa com a vida real.
Stubby Kaye e Nat King Cole, por sua vez, são personagens que eu acho mais brechtianos do que gregos, porque eles estão de banjo em punho no meio da rua, dentro das salas, diante do cadafalso, a poucos metros dos personagens da história que narram. Estão cantando “The Ballad of Cat Ballou” numa mistura sedutora de improviso (porque os fatos que eles narram estão acontecendo naquele instante, à sua volta) e de balada tradicional (porque é este o ponto de vista narrativo).
Stubby Kaye e Nat King Cole, por sua vez, são personagens que eu acho mais brechtianos do que gregos, porque eles estão de banjo em punho no meio da rua, dentro das salas, diante do cadafalso, a poucos metros dos personagens da história que narram. Estão cantando “The Ballad of Cat Ballou” numa mistura sedutora de improviso (porque os fatos que eles narram estão acontecendo naquele instante, à sua volta) e de balada tradicional (porque é este o ponto de vista narrativo).
Não duvido haver uma longa lista de histórias em diversos
gêneros (fantasia, cavalaria, etc.) em que uma personagem feminina aparece
acompanhada por “galantes cavaleiros” dispostos a tudo por ela. É o caso de Cat
Ballou, que conta com a ajuda e a companhia afetiva de três rapazes: o "tio", o "sobrinho" e o índio, que a ajudam a contratar o pistoleiro Kid Shelleen e
consumar sua vingança.
quinta-feira, 4 de março de 2021
4680) Crise é sinônimo de lucro (4.2.2021)
Uma amiga minha, metade francesa metade paraibana, me disse uma vez que viajar pelo Nordeste é fazer uma viagem no tempo. A pessoa desembarca em João Pessoa, e está no tempo presente. Pega um carro, segue pela BR-230 rumo ao sertão, e a cada trecho vai se sentindo na década de 1960, na década de 1930, no século XIX...
O Indomado
(“Hud”, 1961) de Martin Ritt é sobre a América de cem anos depois. Ali, no
Texas, são os criadores de gado que estão estabelecidos e representam a
Tradição. E o petróleo representa a Modernidade. Todo mundo no Texas está
vendendo suas terras para as empresas petrolíferas, e há toda uma filmografia
sobre essa época de transição. Um grande filme a respeito é Assim Caminha a Humanidade (“Giant”, 1956)
de George Stevens, onde a descoberta do petróleo desequilibra relações de poder
onde até então mandavam os criadores de gado.
O roteiro (baseado num romance de Larry McMurtry) é de Harriet Frank Jr. e Irving Ravetch. Hud Bannon (Paul Newman) é o mau-caráter charmoso que
leva todo mundo na conversa, menos seu pai Homer Bannon, um sertanejo da velha
estirpe, que se recusa a permitir a exploração do petróleo porque é um tipo de
atividade econômica inconcebível para ele.
O que é que eu posso fazer com um punhado de poços de petróleo? Eu não posso cavalgar todo dia por entre eles como faço com meu gado. Não posso ajudá-los a crescer, tratar deles, laçá-los, correr atrás deles... nada. Não posso sentir o menor orgulho por eles, porque eles não são uma coisa feita por mim.
– Pegue o telefone e venda todas as reses. Você ainda não está com as mãos atadas. Posso despachar o rebanho inteiro antes mesmo que comecem os testes.– Passar adiante uma mercadoria que pode estar estragada, para os meus vizinhos que estão de boa fé?– Você ainda não tem certeza se está estragada ou não. Posso despachar tudo para o norte antes que a notícia se espalhe.– E correr o risco de espalhar uma epidemia no país inteiro?– O país inteiro vive de epidemias. Onde é que você vive?! Epidemia de controle de preços pelas corporações, programas escrotos de TV, trambiques no imposto de renda, relatórios de despesas falsificados... Quantos homens honestos você conhece? Se tirar um pelo outro, só fica Abraham Lincoln.
– Olha, nunca me senti à vontade com essas coisas. Vítimas? Não seja melodramático. Olhe lá pra baixo. Me diga. Você ficaria mesmo com pena se um daqueles pontinhos ali parasse de se mexer de repente? Se eu lhe oferecesse 20 mil libras por cada pontinho que parasse de se mexer, hein, meu velho, você me diria mesmo que não queria? Ou você ficaria calculando quantos pontinhos daria para poupar?
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
4433) "A Balada de Buster Scruggs" (11.2.2019)
Este filme dos irmãos Coen está em streaming no Netflix, não sei se chegou a passar nos cinemas, aqui no Rio pelo menos. Os sedentários agradecem. O Netflix, o YouTube e a UbuWeb têm seus pecadilhos, mas nada que rezar uns dois rosários não absolva. Têm crédito.
Os
irmãos Coen são desses cineastas pouco convencionais que não apenas pegam
idéias de todas as direções, como não fazem muita questão de fazer filmes
parecidos uns com os outros. Este aqui, a meu ver, parece com E aí, meu irmão, cadê você? (“O Brother,
where art thou?”, 2000), acima de tudo pela ambientação tipo Velho Oeste. E
pelo agarre-o-que-puder de historietas, cáusos, anedotas.
Dias
atrás eu estava comentando no meio de uns amigos o quanto o cinema de algumas
décadas atrás nos dava filmes-em-episódios. As comédias italianas em episódios
eram imbatíveis, fossem todos eles do mesmo diretor ou de vários.
O
filme em episódios está para o longa-metragem comum assim como o livro de
contos está para o romance.
Com
aquela prudência de “acender velas a Deus e ao Diabo” dos comentaristas de
futebol, os críticos exigem do filme em episódios que ele tenha coerência, sem
por isso deixar de exibir variedade. Em Buster
Scruggs, é a ambientação histórico-geográfica que dá a unidade do filme,
por mais que as histórias que conta sejam diferentes em enredo, em tom, em
paisagem social. É como um tecido inteiriço com várias estampas diferentes: percebe-se
a mudança do desenho mas vê-se que os fios de algodão são os mesmos,
independente da cor.
O
primeiro episódio, “The Ballad of Buster Scruggs”, é o mais divertido, com Tim
Blake Nelson fazendo um herói picaresco do faroeste, que cavalga de violão em
punho na solidão dos desfiladeiros, cantando a plenos pulmões, para avisar o
público que não é realismo que se deve esperar desse conto de façanhas
munchausenianas.
O
conto é tipo literatura de cordel, cheia de jactância verbal – um dos fios que
costuram o filme inteiro. A toda hora brota um personagem com um “bife” de
página e meia para recitar, com vocabulário preciosista e (os atores são muito
bons) timing competente.
O
segundo episódio, “Near Algodones” ainda tem algo do clima de “tall tale” do
anterior, com a engenhosidade meio absurdista do caixa de Banco cheio de
recursos contra assaltos, o suspense busterkeatoniano de quando o
quase-enforcado vê o cavalo querendo ir embora de baixo dele, e assim por
diante. É mais uma história que diverte pela imprevisibilidade.
O
terceiro é “Meal Ticket”: aqui entramos no mundo meio bradburyano dos
“travelling shows” em que um homem-tronco de incrível eloquência declama
Shelley, Shakespeare, Lincoln e tudo o mais diante de embasbacadas platéias redneck oitocentistas.
Neste
“conto”, o humor-risada se retrai um pouco. O que se produz é aquela
risada-arquejo que explode e logo se contém, quando vemos algo bizarro demais
para ser verdade.
O
quarto conto, “All Gold Canyon”, baseado em Jack London, é um dos menos
movimentados, mas tem praticamente um solo de Tom Waits como um velho
garimpeiro escavando o chão escuro, úmido, de um vale espantosamente belo.
O
velho é lacônico, e ademais está falando sozinho, mas aqui a gente percebe outro
fio amarrando o filme: em praticamente todos os episódios um personagem canta
uma canção inteira, diegeticamente (ou seja, é o personagem que canta, não a
trilha sonora que aparece). Não há muita ação, a não ser na parte final; mas o
personagem e o cenário sustentam tudo nas costas.
O
quinto episódio, “The Girl Who Got Rattled” (baseado em Stewart Edward White) é
uma história de amor que surge ao longo da peregrinação de uma caravana de
carroções seguindo a famosa Trilha do Oregon, rumo à margem extrema ocidental
do continente.
Um
homem e uma mulher se conhecem, se ajudam, se entendem ao longo das pequenas
tragédias da migração. Um casal de atores (Zoe Kazan e Bill Heck) com cenas de uma
rara intensidade e contenção. Uma história que poderia ser menos cruel, mas
ainda assim é a mais emocionalmente verdadeira de todo o filme. O roteiro
severo ajuda a deixar a parte afetiva mais comprimida e poderosa.
O
sexto e último, “The Mortal Remains”, é uma diligência com o habitual elenco de
passageiros mutuamente desconhecidos que vão se revelando ao longo do trajeto.
Tem um clima maupassantiano (“Bola de Sebo”), e aqui voltamos às longas
perorações, cheias de retórica, que dão aos atores a chance de monólogos pitorescos.
E mais duas canções dentro da diligência.
Este
último episódio cria um efeito de estranhamento nas últimas cenas, como se ao
longo da viagem a diligência tivesse penetrado inadvertidamente em outro filme.
Ou os personagens, como num romance de Philip K. Dick, estivessem gradualmente
sendo conduzidos para o Além Túmulo, sem perceber.
Os
irmãos Coen conseguem harmonizar estas histórias porque é bem do temperamento
deles essa facilidade em beber de todas as fontes, e de contar uma história meio
surrealista com torção suficiente para que aquilo não só pareça ter mesmo acontecido,
como pareça ter acontecido apenas uma vez.
A
gente tem a sensação de que aquelas pessoas não se conhecem, nunca cruzaram
umas pelas outras, mas tudo aquilo aconteceu meio que simultaneamente, num
universo único, coerente. Mesmo os “tall tales”, com sua dose de mentira,
pertencem àquele mundo, são as histórias que aquelas pessoas contam umas para
as outras, em volta daquelas fogueiras entre os carroções, ou daquelas mesas de
jantar de uma casa de hóspedes.
Eu
sou suspeito, porque gosto de praticamente tudo que já vi dirigido pelos dois
irmãos. É um jeito de fazer cinema que me agrada: ao mesmo tempo são
perfecionistas e são descontraidamente leves. São eruditos e são completamente
cultura-oral. Seus filmes geralmente sabem o momento certo da cena séria e da
cena engraçada, da situação implausível e da situação dolorosamente verdadeira.
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