Os dicionários urbanos dos anos mais recentes registraram uma
palavra de origem inglesa que logo se fixou no uso geral: mansplaining. É formada por “man” (homem) e “explain” (explicar).
Refere-se ao hábito (irritante, de fato) dos homens que se
sentem no dever de explicar um assunto difícil a uma mulher, mesmo quando ela
notoriamente entende daquilo tão bem quanto eles, ou melhor.
Não importa se a mulher tem 55 anos e é doutora em teatro
elisabetano, e o homem tem 30 e acabou de ler uma peça de Shakespeare pela
primeira vez. O simples fato de ela ter mencionado o dramaturgo no meio de um
bate-papo no jantar da casa de alguém é o bastante para o cidadão passar a
explicar a ela que nem tudo que se atribui a Shakespeare deve ser levado ao pé
da letra, porque é bem provável que um tal de Francis Bacon tenha escrito
aquelas peças, porque sobre Bacon sabe-se muita coisa, enquanto que Shakespeare
era um sujeito anônimo, com poucas referências biográficas, então a lógica nos
leva a admitir que ele deve ter servido de testa-de-ferro para que os textos de
Bacon fossem encenados, porque---
E por aí vai, até ele recitar de memória um artigo que leu na Superinteressante.
Todo homem (inclusive eu) já incorreu nesse tipo de descortesia,
cuja raiz está na suposição de que os homens sabem de tudo e as mulheres não
sabem de nada. O mansplaining é um
tipo específico de paternalismo. Pode se dar de forma agressiva, humilhante,
mas muitas vezes se dá com trajes de boa vontade, de solicitude, uma atitude
meio paternal por parte de um intelectual grisalho e estabelecido, que se
dispõe a contradizer e esclarecer uma senhorita mais jovem, mostrar os pontos
onde ela está errada, ensinar-lhe o caminho certo, a realidade das coisas.
Só não faça como aquele sujeito que depois de uma sessão como
essa, sobre um tema científico qualquer, aconselhou a jovem: “Para entender
melhor, leia o livro da Doutora Fulana de Tal”, e ela respondeu: “Eu sou a Doutora Fulana de Tal”.
Nos últimos tempos surgiu um termo derivado: fansplaining. É quando um fã de uma
coisa qualquer (banda de rock, série de TV, gênero literário, etc.) julga-se o
grande conhecedor de todos os meandros e todos os detalhes daquele assunto, mas
movido por um espírito de generosidade se dispõe a dar explicações de 45
minutos sobre qualquer detalhe que por acaso alguém mencione erradamente no
meio da conversa.
– Pois é... Existe uma mania de dizer que a obra dos Beatles é
apolítica, que só fala de amor e de bobagens psicodélicas. Eles esquecem uma
música como “Revolution”, onde Lennon dizia claramente que ---
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution
9”, que é uma colagem de sons.
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution
1” e saiu no “Álbum Branco”?
– É a mesma música.
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia,
com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e
junho de 1968, e a outra em julho.
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas
como O Céu é o Limite. Decora vorazmente
livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de
repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula
em O Manto Sagrado, alguém sabe?...” e ele vai pigarrear discretamente e dizer em
tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”
Demonstrar conhecimento factual é mais importante para o
verdadeiro nerd do que defender uma
opinião subjetiva, mas ele não recua diante desta outra possibilidade. Como ele
sabe milhares de fichas técnicas de cor, acha que isso o capacita a ter poder de
veto sobre as opiniões alheias. Mesmo sobre as do artista cuja obra está em
discussão.
O escritor Neil Gaiman está agora às voltas com esse problema,
porque sua série de quadrinhos The
Sandman está para ser adaptada numa série de TV, e ele está aguentando o fansplaining de alguns admiradores sobre
o que a série pode e não pode fazer, sobre as características raciais ou de
gênero dos personagens que ele próprio criou, sobre o desenvolvimento dos
argumentos, etc. e tal.
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais
explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou
os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível
criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar
que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que
escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias,
complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e
artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs.
Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais,
numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do
YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que
nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada,
defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois
de aparecer.
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de
discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter
todas elas sob controle.
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade
de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
Todo bom romance é uma adivinhação do mundo. Os críticos
assumiram, por sua conta e risco, a grave responsabilidade de decifrá-los, e é
preciso esperar que o façam. Não me refiro, é claro, às incontáveis alusões de
caráter privado que há no meu livro, e que somente meus amigos íntimos podem
descobrir: que cada data corresponde ao aniversário de alguém, que uma
personagem tem o mesmo temperamento da minha mulher, que os nomes que alguém
pretende pôr nos filhos são os nomes dos meus filhos... e mais mil
coisas que é impossível descobrir pela simples leitura do romance. O que me
alarma, por outro lado, é que ninguém tenha assinalado uma só das 42
contradições que eu mesmo descobri depois de publicar o livro, nem os seis
erros graves que me foram indicados pelo tradutor italiano, e que não vou
corrigir nas futuras edições, nem nas outras traduções, porque não seria uma
atitude honesta.
(entrevista a Armando
Durán, Revista Nacional de Cultura, Caracas, setembro de 1968)