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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

5205) O inesgotável G. K. Chesterton (31.10.2025)



 
Aqui no Brasil, Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) foi nos anos mais recentes abduzido por uma ideologia conservadora, estreita demais para acomodar seu diâmetro e quebradiça demais para suportar seu peso.
 
Chesterton é o criador do Padre Brown, um dos grandes detetives de todos os tempos. Ao padre poderia se aplicar com perfeição aquele velho slogan do seriado radiofônico The Shadow, de que Orson Welles fez parte, há quase um século: “Quem sabe o Mal que se oculta no coração dos homens? O Sombra sabe!...”
 
O Padre Brown observa sem ilusões a comédia humana e a tragédia humana. Conhece os cordéis invisíveis que atuam sobre o pensamento destes homens e mulheres tão confortáveis no seu imaginário livre-arbítrio. Sabe que toda pessoa é (no dizer de Olavo Bilac) “capaz de horrores e de ações sublimes”. E age de acordo.




Leio o Padre Brown desde os doze ou treze anos. Comecei pelos livrinhos de bolso da saudosa Coleção Tucano (Ed. Globo de Porto Alegre). São, basicamente, cinco coletâneas de contos: A Inocência do Padre Brown (1911), A Sabedoria do Padre Brown (1914), A Incredulidade do Padre Brown (1926), O Segredo do Padre Brown (1927) e O Escândalo do Padre Brown (1935).



São 49 contos ao todo. Pelo menos um terço deles pode figurar com mérito em qualquer antologia dos melhores contos de mistério. Incluí dois deles em minhas antologias Contos Fantásticos no Labirinto de Borges, de 2005 (“A Honra de Israel Gow”) e Crimes Impossíveis, de 2021 (“A Maldição do Livro”).
 
Há uma série da TV inglesa adaptando as histórias do Padre Brown, mas não me identifiquei muito. O ator escolhido é bom ator, mas bonachão demais, gente-boa demais. Falta-lhe o que Jorge Luís Borges (um grande admirador de Chesterton) chamaria de “fulgor satânico”, e que eu encontro, por exemplo, nas feições e na atitude de Anthony Hopkins. Nele, sim, eu consigo visualizar um Padre que, apesar de seu compromisso definitivo com o Bem, conhece o Mal tanto quanto os criminosos que desmascara.



(Anthony Hopkins, em Dois Papas)

Brown vive a dualidade (e essa dualidade é a marca de Chesterton, o rei do paradoxo) de conhecer o Mal por experiência espiritual própria, se bem que não pela ação. Ele tem a palavra cristã de ética, empatia, humanismo e perdão, mas olha seus criminosos não com os olhos de um santo, e sim com os olhos azuis e frios de um Hannibal Lecter.


 
Seu romance The Napoleon of Notting Hill (1904) foi o primeiro a usar a data de “1984” para projetar uma Distopia futura (ao que se diz, George Orwell ignorava este detalhe). Seus escritos católicos tiveram grande influência. Tim Powers (autor de The Anubis Gates, On Stranger Tides etc) indicava The Everlasting Man (1925) como um livro que ajudou sua conversão ao catolicismo. Orthodoxy (1908) tem, paralelo à sua argumentação metafísica, um capítulo (“The Ethics of Elfland”) que é uma das melhores vindicações da literatura imaginativa.
 
O Homem Que Era Quinta-Feira (1908) é também, a seu modo, uma prefiguração do 1984 de Orwell – um homem é cooptado por uma organização subversiva, apenas para descobrir que quem o recrutou é da polícia. Diferentemente do que pode ocorrer com o livro de Orwell, cujo áspero realismo convoca uma vinculação emocional por parte do leitor, esse tipo de spoiler em nada atenua o interesse inesgotavelmente criativo do pesadelo de Chesterton (o subtítulo do romance é A Nightmare), nem o encanto da sua Londres saturada do insólito, do exótico e do absurdo.
 
Chesterton é criticado porque escreveu “excessivamente”. O auge de sua atividade ocorreu na imprensa londrina: não esqueçamos que em sua época os jornais e revistas eram, tanto quanto os livros, um escoadouro para a prosa de ficção. Romance, conto, poesia, ensaios, artigos, crônicas, polêmicas, em tudo ele se metia e de tudo ele se saía bem, inclusive em suas pelejas ideológicas (sempre elegantes e bem humoradas) contra autores tão talentosos quanto ele, gente como Bernard Shaw ou H. G. Wells, situados mais à esquerda do espectro político.


 
Conservador, religioso, tradicionalista; parece incrível, mas GKC se sentiria perfeitamente à vontade no mundo de hoje, o mundo da Internet e da conectividade. Mais do que qualquer outro de sua época ele se integraria com perfeição não só no ambiente acalorado das redes sociais, mas no estilo de escrita de cem anos depois.
 
Twitter, whatsapp, tik-tok, tudo isto ele tiraria de letra. Era o rei do aforismo inesperado, da frase definitiva, da piada matadora, do paradoxo desconcertante que inseria nos seus adversários o vírus fatal do esprit d’escalier. Em The Club of Queer Trades (1905) ele inventa indivíduos com profissões excêntricas; um deles é alugado para tomar parte (junto com seu “cliente”) em reuniões sociais onde lhe cabe dizer algo específico para que o cliente o conteste com uma resposta esmagadora, sob uma trovoada de risos.
 
Grandalhão, obeso, desarrumado, vestido de maneira pouco convencional, Chesterton era tido como um excêntrico, mas acabava sendo o centro de qualquer grupo de que fizesse parte. Foi homenageado por John Dickson Carr, o grande inventor dos “crimes de quarto fechado”, que usou sua figura para descrever o detetive Gideon Fell.  Neil Gaiman o trouxe para a série Sandman no papel do personagem “Fiddler’s Green”.


(Em Sandman: Fiddler's Green e Rose Walker)
 
  

Todo crime engenhoso é descoberto, em última análise, por causa de algum fato muito simples – um fato que em si não tem mistério algum. A mistificação começa no ato de encobrir o crime, em conduzir a atenção das pessoas para longe desse detalhe.

(“The Queer Feet”, trad. BT)

 




quinta-feira, 10 de abril de 2025

5170) Meu artista me decepcionou (9.4.2025)




Está acontecendo cada vez mais. Você é fã incondicional de obra de um(a) artista, lê, assiste, compra, coleciona, elogia, divulga, endeusa... E um belo dia o seu ídolo ou sua ídola revela um comportamento ou uma atitude que faz você recuar com o olhar cheio de horror. 
 
Tem alguns exemplos recentes e incômodos. Vou citar estes sem nenhuma intenção especial, apenas porque são autores que eu conheço e que (imagino) muita gente conhece. 
 
J. K. Rowling, a autora da série “Harry Potter”, andou falando contra as mulheres trans, nos últimos tempos. Não li as declarações originais. Não sei se foi em entrevistas ou em artigos, mas não importa: não estou aqui para acusá-la nem para defendê-la – apenas registro o quanto me assustei com a virulência dos ataques contra ela, virulência proporcional ao sucesso espantoso dos seus romances. (Só li dois; gostei, e dispensei-me de ler os outros cinco.) 
 
Outro exemplo que me ocorre é o de Neil Gaiman, este sim, um autor que admiro e sobre quem já escrevi várias vezes neste blog. Li vários artigos e depoimentos detalhados sobre as violências sexuais e psicológicas que ele praticou contra mulheres jovens e relativamente indefesas. E mais uma vez fiquei impressionado com a reação de uma parte do seu fandom, meio no tom de “vou queimar os livros todos em praça pública”. (Aliás, mesmo condenando as ações de Gaiman, aviso que se alguém quiser se desfazer de uma coleção completa do Sandman, pode mandar aqui para casa, pois tenho alguns volumes faltando.) 
 
Vou ficar com estes dois exemplos por enquanto, mas a lista poderia ser aumentada. Há um formato em casos assim. Alguém começa a produzir uma série de obras que, pelos motivos imprevisíveis de sempre, vendem dezenas de milhões de exemplares no mundo inteiro e dão a essa pessoa riqueza e poder impressionantes. E então essa pessoa faz algo que nos decepciona moralmente. E a reação é uma só: passar do amor para o ódio, da exaltação para o cancelamento. 
 
Em casos assim, eu sempre tento parar de pensar como fã e pensar como um crítico. Não é fácil, precisa de treino, mas basta treinar. 
 
Não vou discutir aqui o comportamento de Rowling ou Gaiman, mas a reação dos seus leitores. Por que tanto ódio por uma pessoa que até ontem à noite, até a leitura da notícia, era amada incondicionalmente? E a resposta: por isso mesmo. 
 
Nós, fãs, caímos na armadilha de amar um autor, amar um artista, projetar nesse ou nessa artista uma idealização moral e afetiva que só pode ser descrita em termos amorosos. 
 
Não é somente hipérbole, somente exagero, quando um leitor diz: “Eu amo de paixão os filmes de Pedro Almodóvar”, ou “Eu sou louca por Woody Allen”, ou “Sou apaixonado por Bob Dylan”. O leitor não conhece pessoalmente essas ilustres figuras; conhece a obra, e a “persona” pública, mas cai na armadilha de entregar a esse nevoeiro distante sua fé e seus anseios emotivos.
 
Nossa cultura (no mundo ocidental, terceira década do século 21) alimenta o conceito de Amor (e sua versão turbinada, a Paixão) como um valor absoluto, necessário, obrigatório e indiscutível. Não basta afirmar que o Amor existe: é preciso afirmar que ele é compulsório, que todos nós temos a obrigação de amar alguém nestes termos. 
 
No mundo de hoje, é mais fácil encontrar alguém que questione a existência de Deus do que quem questione a existência (ou a necessidade de existência) do Amor. 
 
Quem ama, exige. Quem ama, impõe sobre o objeto amado a Tirania Desejante, e cobra a perfeição desse objeto amado. Porque quem ama traz dentro de si um vácuo que só a perfeição pode preencher. 
 
Precisamos disso como de água ou de oxigênio. (Precisamos em nossa cultura – o Amor não é, repito, não é um valor universal.) 
 
Dizia Carlos Drummond: 
 
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
(“Amar”, em Claro Enigma, 1951)
 
Quando a obra de um(a) artista nos atinge de maneira especial, provoca em nós, fãs, um sentimento não muito distante do amor, do nosso amor-paixão por uma pessoa. 
 
E o fervor cancelatório de um fã decepcionado, nesta minha equação, equivale à de um amante traído. 
 
A obra desse artista de quem sou fã me iluminou por dentro, me abriu janelas para entender melhor o mundo, me enriqueceu como pessoa, me acalentou em momentos de desânimo ou de ceticismo-negativo. (Sim, existe o ceticismo-positivo – é o que me faz escrever.) 
 
A obra do artista tornou-se uma parte preciosa da minha vida de fã, tão preciosa que acabo me esquecendo de um fato essencial: essa obra é provavelmente o que há de melhor naquele artista. 
 
Ele esforçou-se em depurá-la, aperfeiçoá-la, torná-la mais bela, ou pelo menos mais nítida, de maneira a comunicar a alguém (a mim, no presente caso) uma impressão fugidia de como deveriam ser as coisas do mundo, e não são. 
 
Essa forma incipiente de perfeição que a Obra nos provoca acaba nos dando a impressão de que o artista é superior à obra – quando na verdade é o contrário. Todo grande artista é inferior ao que produz. 
 
Drummond dizia, num dos seus momentos de revolta (em “A Flor e a Náusea”) que “meu ódio é o melhor de mim”. Poderia dizer o mesmo do seu amor, e do seu verso, que era o resultado da briga entre esses dois. 
 
É a obra que nos apaixona, e na nossa imprudência transferimos esse afeto para a pessoa que criou essa obra, na comovente ilusão de que essa pessoa é alguém melhor do que nós, sem os nossos defeitos, sem os nossos lados rancorosos ou ridículos. Alguém que nos sirva de mestre à distância, e que possamos seguir e obedecer de olhos fechados. Porque quem é fã, quem é fanático, procura justamente isto – alguém a quem obedecer e seguir de olhos fechados. 
 
Quem tem visão crítica (ponho neste termo a ênfase mais elogiosa possível) é capaz de abrir os olhos, enxergar, interpretar, avaliar, e, quando necessário, dar um passo de lado, ou para trás, ou para fora da fila, e dizer: “Comigo, não.” 
 
 

 



sábado, 6 de janeiro de 2024

5019) Algumas leituras de 2023 - 1 (6.1.2024)



(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; livros sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. )




 
The Hemingway Hoax (1990) – Joe Haldeman
É uma história de viagem no tempo, cujo “ponto de divergência” (fato isolado que, tendo outro desfecho, gera uma linha-do-tempo diferente da nossa) é o famoso episódio em que uma valise com manuscritos de Ernest Hemingway foi perdida num trem da França. Joe Haldeman, que demonstra grande conhecimento da vida e da obra do autor de O Velho e o Mar, imagina um grupo de pessoas decididas a forjar uma pseudo-descoberta de tais manuscritos, num golpe semelhante ao de Clifford Irving que durante algum tempo enganou muita gente com seu pseudo-autêntico Diário de Hitler.
 
O que o trio de espertalhões não sabe é que por razões cósmicas quaisquer, é preciso que os textos de Hemingway continuam perdidos, desconhecidos e inéditos. As idas-a-vindas temporais que a trama acarreta produzem um suspense razoável. Em cada “universo alternativo” onde o protagonista vai parar, tanto ele quanto as outras pessoas são outras mesmo, têm características físicas, psicológicas e biográficas diferentes. 
 
Há algumas discussões literárias interessantes, inclusive sobre fraudes, falsificação, máquinas de escrever antigas (os tipos são reproduzidos graficamente na página do livro); ao mesmo tempo, o próprio Haldeman reconheceu que é o seu livro com mais cenas de sexo e de violência. (A maioria destas cenas não estavam incluídas na versão mais curta da história, publicada por Gardner Dozois na Isaac Asimov SF Magazine, abril de 1990, versão que ganhou os prêmios Hugo e Nebula de 1991.)



 
“A Lua na Caixa Dágua” (2021) – Marcelo Moutinho
A crônica carioca talvez seja, depois da música popular, a melhor maneira de conhecer o Rio de Janeiro, no sentido de saber o que os cariocas pensam, sentem, imaginam. E também de conhecer a “pequena história” dos bairros, das praias, das turmas, das épocas. Marcelo Moutinho é um dos cronistas que costuram a “cidade partida”, num vai e vem incessante entre a Zona Sul (a ponta visível do iceberg carioca) e o resto da cidade. Aqui se misturam lembranças de infância, comentário social, a história do samba, registros de lugares e pessoas que sumiram do mundo material mas ainda são passados adiante de geração em geração, pois o tempo tanto destrói quanto conserva.   



Notes on the Making of Apocalypsis Now (1979?) – Eleanor Coppola
A esposa de Francis Ford Coppola acompanhou toda a via-crucis da realização deste filme, e deste processo resultaram um documentário, espécie de “making of” (Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, 1991) e este livro, um diário que ela manteve durante a aventura. Francis Coppola é um cineasta ambicioso, daquele tipo cujos filmes são atrapalhados por um tufão ou por uma guerra civil, e não pelos quiproquós habituais. O interessante do relato de Eleanor Coppola é o acompanhamento das incertezas do dia a dia. Logo no começo do livro, ainda na pré-produção, ela diz que Coppola teve um acesso de raiva e jogou pela janela todos os seus Oscars; quatro deles se despedaçaram. Hoje sabemos que o filme é considerado um clássico, ganhou prêmios, e não levou ninguém à falência; mas durante o livro dela nada disto aparece como garantido, porque nada é contado em retrospecto e com a vantagem de já saber o fim. O que a gente tem é a incerteza absurda da vida real, as dúvidas, as catástrofes diárias (tempestades, acidentes, enfartes do elenco, etc.), e o permanente pânico do diretor reescrevendo tudo na véspera ou no instante da filmagem, sem saber ainda que história está contando. 




Corpos benzidos em metal pesado (2022), de Pedro Augusto Baía
Os nordestinos nos queixamos de pouca exposição, pouca divulgação para o Brasil todo, mas a verdade é que a literatura nordestina tem, quando se vê o conjunto de literatura brasileira, muito mais presença do que a literatura nortista. Nos últimos anos, aparecem cada vez mais livros da região Norte, como este de ótimos contos curtos. Corpos benzidos...  (ganhador do Prêmio SESC de literatura) mostra uma vivência que em alguns momentos chega a parecer irreal: de um lado, uma floresta e um rio que parecem um acesso de megalomania da Natureza, e do lado oposto forças econômicas igualmente gigantescas e impessoais, mas que passam-o-rodo em tudo usando fuzis, dinheiro, tratores. Entre estas duas forças estão pessoas simples, que leem romances, presenciam assassinatos, ouvem música, sofrem perseguições, encontram cadáveres, discutem assombrações, sentem o corpo saturado do metal invisível que boia nos rios. A epígrafe de um dos contos cita A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert: “Se os brancos de hoje conseguirem arrancá-lo [=ao metal] com suas bombas e grandes máquinas, do mesmo modo que abriram a estrada em nossa floresta, a terra se rasgará e todos os seus habitantes cairão no mundo de baixo”. 




Cinema Palacio (2022), de Ivan Noé Espadas Sosa
Anos de cineclubismo me impuseram uma mania, a de ler (e achar bom) tudo quanto se refere à experiência do cinematógrafo: a atividade de fazer filmes, assistir filmes, projetar filmes, comentar filmes, inventar filmes que não existem. Ivan Noé Espadas Sosa é filho de dono de cinema, e mais uma dessas pessoas cuja infância foi contaminada desde cedo pelas idas diárias à sala de projeção. Neste livrinho (li em edição eletrônica), ele recompõe episódios que são memórias comuns a todo garoto de cidade pequena que vivia hipnotizado pela tela. São diferentes dos cineclubistas, que vão ao cinema para ver um Fellini, para ver um John Ford. Esses meninos e meninas são encarregados de pegar as latas de filme na estação do trem (como Ivan), ou são levados ao cinema enquanto a babá namora com o projecionista (como aconteceu com Rubem Fonseca), e a ida ao cinema não tem muito a ver com o filme, com o autor do filme ou o conteúdo do filme. É o cinema que constitui sua realidade emocional: a bilheteria, a sala, o vácuo morno, a escuridão, a cortina, as cadeiras barulhentas, o facho de luz... 



Leia esta canção: Beto Guedes (2023), org. Marina Ruivo
Sou meio suspeito para falar desta antologia, da qual participo com um conto. Foi uma idéia em homenagem ao histórico disco de Beto Guedes, A Página do Relâmpago Elétrico (1977), disco que marcou minha geração já marcada pela obra de Milton Nascimento e de seu Clube da Esquina. Participam da antologia alguns amigos “clubesquinófilos” como Luiz Roberto Guedes, Fábio Fernandes e Sérgio Fantini, além de textos-bônus contribuídos por Fernando Naporano, Murilo Antunes, Benedito Bergamo e Flávio Venturini. A música mineira já me encantava quando fui morar em Belo Horizonte em janeiro de 1970 (lá se vão 54 anos), via Milton, e tudo que veio depois dele foi só deslumbramento e descoberta. 



Engenheiro Fantasma (2023), de Fabricio Corsaletti
Felizmente li este livro antes que ele ganhasse o Prêmio Jabuti duas vezes (Melhor Livro de Poesia, e Livro do Ano), porque ler um livro que traz faixa-de-prêmio ao peito é sempre um peso, um ruído na comunicação. Ficamos com os impulsos contraditórios de reverenciar e de ironizar, e a leitura propriamente dita vem contaminada de impurezas mentais. Este livro pode ser visto como uma obra de ficção em forma de sonetos. Alguém objetará que isto já foi feito, mais famosamente no Eugene Onegin (1833) de Alexander Pushkin, mas há uma diferença essencial: os sonetos de Pushkin contam a vida do personagem, e no livro de Corsaletti a moldura ficcional é dada pelo prefácio, em que ele diz ter sonhado com um livro de sonetos escritos por Bob Dylan, e resolveu escrevê-lo. 
Mais detalhes aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/04/4811-ficcao-poetica-942022.html


 
Dream Country (1991), de Neil Gaiman
A série de TV “Sandman” me conduziu sutilmente à missão auto-imposta de ler/reler os volumes da novela gráfica, cuja amplitude e variedade sempre admirei. Neste terceiro volume da obra, Gaiman está acompanhado por artistas como Kelley Jones, Malcolm Jones III, Colleen Doran e Charles Vess – sem esquecer Dave MacKean, um dos grandes capistas deste universo. Dream Country tem quatro histórias magníficas: “Calíope”, o conto brutal de um homem que sequestra uma musa para que não lhe falte inspiração; “A Dream of a Thousand Cats”, uma história onírica somente com gatos como personagens; “A Midsummer Night’s Dream”, onde Gaiman reconstitui Shakespeare e sua trupe ambulante encenado uma peça fantástica com a ajuda de seres fantásticos; e “Façade”, em que uma super-heroína monstruosa está cansada de usar máscaras para esconder sua feiura, e recebe uma ajuda inesperada da Morte. Gaiman é um dos meus autores fantásticos preferidos, e minha intenção é ler a série completa do “Sandman” nos próximos anos. Como dizia José Saramago: “Vida havendo, e saúde não faltando...” 
 
 
(continua no próximo dia 9)
 






segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

4917) O que existe por trás do Sol (27.2.2023)




(Sol Armorial) 
 
Quando mais jovem, em Campina Grande, trabalhei durante quase dois anos, como datilógrafo, na Reitoria da FURNe, a Fundação Universidade Regional do Nordeste (atual UEPB). Ficava em frente à Catedral, naquele prédio onde hoje funciona o Instituto Histórico.
 
Um dia eu estava indo à Faculdade de Filosofia (que ficava atrás da Catedral, a poucos metros dali) em companhia de Leopoldo, considerado o melhor datilógrafo da universidade. Era um cara mais velho do que eu, moreno, cabelo curto, não era de muita conversa mas tinha um senso de humor apurado.
 
Nesse dia a gente ia andando quando ele parou de repente.
 
– Espera um instante.
 
Voltou alguns passos e ficou examinando o chão de terra. Via-se ali um salto de sapato, salto preto, de sapato tipo Vulcabrás. O chão estava um pouco úmido e mole; Leopoldo escavou um pouco com a quina do pé, expôs o salto, deu um “bico” com um pouco de força e o salto de borracha saltou lá para a frente, deixando apenas o buraco na terra. 
 
– Tudo bem – disse Leopoldo, quando retomamos a caminhada. – É porque toda vez que eu passava aqui eu ficava pensando que tinha um cara enterrado de cabeça pra baixo, e só o salto do sapato aparecendo. 


(a antiga Reitoria da FURNe)
 
Essa imagem nunca saiu da minha cabeça (olha que já lá se vão 55 anos), porque nesse tempo eu vivia com o juízo cheio de surrealismo e de Luís Buñuel.  Fiquei fascinado com a possibilidade de você enxergar um pequeno objeto e ser capaz de visualizar, a partir dele, algo muito maior e totalmente absurdo. Como o galo de metal no campo nevado, onde o Barão de Münchausen amarra seu cavalo antes de dormir. Ao acordar, o Barão percebe que a neve derreteu e ele está numa pracinha, em frente à igreja, e o cavalo está esperneando lá no alto, preso ao galo do campanário. 
 
Corta para o Rio de Janeiro, éons depois.  Eu morava em Laranjeiras, e pegava com frequência o ônibus da linha 184 para ir ao Largo do Machado, onde tem metrô, comércio, lanchonetes, etc.  E um dia vejo pichado na parede de um prédio baixinho de apartamentos, já perto do Largo: 
 
O SOL É A BRASA DO BASEADO DE DEUS
 
Peço desculpas às pessoas religiosas que talvez se sintam ofendidas. Meu intuito aqui é apenas semiótico, porque essa frase, digna de um cartum de Moebius & Jodorowsky, tem uma construção muito semelhante à idéia de Leopoldo com o salto de sapato. É uma excelente fanopéia – na linguagem de Ezra Pound, a imagem visual vívida e instantânea, produzida por meras palavras.
 
Olhar para o sol, imaginá-lo como a brasa de um cigarro, visualizar um ser gigantesco por trás... A imagem era um tanto blasfema (Buñuel teria gostado). Mesmo assim, me lembrou outra imagem da infância, colhida talvez em Monteiro Lobato: a sugestão de que o céu da noite era uma vasta redoma de cristal escuro, e as estrelas eram buracos que os anjinhos faziam para espiar as travessuras das crianças da Terra. (Acho que isto está em Viagem ao Céu.)


O interessante dessa imagem não era nem mesmo a curiosidade dos anjinhos, mas o fato de que -- por trás dessa redoma escura e protetora existia o que? Existia uma luminosidade cegante, equivalente à do Sol, que se filtrava pelos buraquinhos. 
 
A materialidade da abóbada celeste é um tema antigo. Vivemos (dizia a imaginação medieval) no centro de uma esfera, que ora era transparente, ora opaca, ora azul, ora escura e pontilhada de brilharecos. 

Existe até a famosa gravura (que nem é medieval, é do século 19) em que um homem rompe o “vidro” dessa abóbada e enxerga por trás dela mecanismos gigantescos, engrenagens incompreensíveis.


(em L’Atmosphère: météorologie populaire, Camille Flammarion, 1888)

 
A curiosidade de saber o que existe por trás do céu vem dessa visão medieval que colocava a Terra como o centro do Universo, e este seria uma série de esferas sucessivamente maiores, como camadas-de-cebola superpostas. Um universo imóvel onde as esferas (onde estavam “pregados” o Sol a Lua, as estrelas) meramente giravam em torno do seu centro, a Terra, mas a estrutura básica era fixa.
 
Dá para imaginar o choque na cabeça dos cientistas quando tiveram que admitir por aproximações sucessivas (via Kepler, Galileu, Copérnico, Newton, Einstein) o atual formato do Universo.
 
Restou aos poetas imaginar outras alternativas, no plano simbólico. Guimarães Rosa, que era meio chegado a um cigarro convencional, projeta suas fantasias no inventivo Lalino Salãthiel de “A Volta do Marido Pródigo” (em Sagarana, 1946):
 
“Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarro lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p’ra diante, p’ra fazer de-noite e a gente poder dormir...”
 
É o caso também de Ariano Suassuna e sua forma peculiar de tratar os temas religiosos e sertanejos.  Não por acaso, um dos seus personagens mais famosos, Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, foi expulso do seminário da capital da Parahyba por causa de sua teoria do “Catolicismo Sertanejo”, no qual “a Santíssima Trindade tem cinco membros: o Pai, o Filho, o Espírito Santo, o Diabo e Nossa Senhora”.



(Irandhir Santos, como Quaderna)
 
A mitologia solar tem uma importância muito grande nessa visão-do-mundo que Quaderna expõe de maneira tão vigorosa e poética no Romance da Pedra do Reino (1971). Pudera. Todo esse romance é uma tentativa pessoal, por parte de Ariano, de equacionar o feixe de contradições e de confirmações em torno da tentativa de situar Deus e o Diabo na terra do sol. 
 
Em seu livro póstumo Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, que é uma espécie de coral de muitas vozes e muitas “personas”, Ariano atribui a Dom Pantero um longo monólogo em tom apocalíptico (passagens inteiras do Apocalipse são citadas no livro) e a certa altura ele exclama: 
 
– O Sol é o girassol do sol de Deus!
 
A imagem do girassol é frequente na literatura mística, para indicar a alma sempre voltada na direção da Divindade. Para onde Deus vai, a alma do crente gira de mansinho, para nunca perder Deus de vista, para estar sempre inundada de sua luz.



Não sei se a frase de Dom Pantero é uma formulação de Ariano ou se ele está citando alguém (o livro é repleto de citações disfarçadas – é o “Estilo Régio” de Quaderna falando no centro), mas em todo caso é uma imagem de grande beleza. Uma fanopéia notável.
 
A idéia é que assim como o girassol volta-se para o sol o tempo inteiro, para embeber-se de sua luz, assim o Sol, por sua vez, volta-se o tempo inteiro para se embeber do “sol de Deus”, que neste caso deve ser algo de brilho incomensurável, inconcebível.
 
Reencontrei há pouco essa mitologia solar na leitura do volume 3 da série “The Sandman”, de Neil Gaiman, Dream Country (1991). 
 
Na quarta história deste volume, “Façade”, aparece a super-heroína Element Girl, a mulher indestrutível, capaz de manipular à vontade qualquer elemento da matéria. Ela é Rainie Blackwell, uma agente secreta que foi transformada em Element Girl após entrar em contato com uma divindade egípcia. Agora, está decadente, infeliz, incapaz de viver uma vida normal, e tendo que criar máscaras orgânicas para esconder seu rosto verdadeiro, cuja visão é insuportável às outras pessoas.
 
No fim, ela deseja morrer, e é visitada pela Morte, que faz parte do grupo dos Perpétuos. A Morte lhe aconselha que peça ao deus egípcio para reverter o que havia feito. “Mas onde vou encontrar esse deus?”, pergunta Rainie. A Morte diz: “Deixa de ser boba, esse deus é Ra, o sol. Vai na janela e fala com ele.”


(Neil Gaiman + Colleen Doran, Malcolm Jones III, Steve Ollif, Todd Klein)
 
Ela o faz e diz:
 
-- O sol... eu não tinha percebido antes... O Sol, também, é apenas uma máscara... E o rosto por trás dele é tão belo... é...
 
Element Girl usava dezenas de máscaras para poder ser vista pelos humanos (sua casa é repleta delas), e desse modo não lhe é difícil entender que o Sol é apenas uma máscara cegante destinada a afastar a curiosidade daqueles que desejam ver “a verdadeira face de um Deus”.
 






quinta-feira, 24 de novembro de 2022

4886) "Em tradução livre" (24.11.2022)




Volta e meia eu me deparo, na imprensa, com essa expressão. Que eu entendo, e posso até usar; mas acho que tem gente usando sem necessidade.
 
Vi uma matéria sobre o lançamento do novo livro de Bob Dylan, um ensaio onde ele comenta canções clássicas (e algumas obscuras) da música norte-americana. Às folhas tantas, a matéria diz: 
 
Tudo aconteceu quando Bob Dylan mencionou Joe Satriani em uma fala de seu novo livro, "Philosophy of the Modern Song" ("Filosofia da Canção Moderna", em tradução livre).
 
Sinceramente, não me ocorre nenhuma outra tradução possível, livre ou não-livre, para esse título. E olha que eu sempre defendo a teoria de que “toda” frase pode ser traduzida de muitas maneiras diferentes.
 
Quando a pessoa usa esse álibi, está se precavendo contra uma possível crítica dos leitores. Está avisando: “Olha, eu não sou tradutor profissional, não sou especialista em tradução. Estou só dando essa versão livre, em português, para dar uma idéia ao leitor que não conhece inglês. Desculpe qualquer coisa.”
 
Uma escusa perfeitamente legítima.
 
Me acontece muitas vezes, principalmente ao escrever aqui no blog, que preciso citar e traduzir uma frase, um título, uma expressão qualquer. É uma frase complicadinha e eu fico hesitando entre duas ou três soluções possíveis. Mas... ora que diabos, estou só dando um exemplo, isto aqui é uma conversa. (Eu vejo blog como uma conversa, que pode ser mais formal ou menos, conforme o dia e a veneta.) O que faço? Mando a versão que no momento me parece mais passável, e sigo adiante.
 
Esse tipo de tradução é provisório, não-definitivo, não é preso a um atestado de legitimidade absoluta. Quem usa essa expressão o faz de maneira modesta, discreta, quase que pedindo desculpas por se meter a traduzir sem ser tradutor. Uma posição até elogiável, numa época de muita gente cheia-de-razão, como se diz na Paraíba.
 
Pouco tempo atrás estava rolando uma discussão sobre a série de TV Sandman, baseada na série de quadrinhos de Neil Gaiman. É um título que já havia sido usado por E. T. A. Hoffmann num conto famoso (“Der Sandmann”, 1817), sobre uma figura de pesadelo do folclore europeu.



Quando incluí o conto de Hoffmann numa antologia (Freud e o Estranho, Casa da Palavra, 2007), ele foi traduzido como “O Homem de Areia”. Tempos depois me ocorreu que uma tradução igualmente válida seria “O Homem da Areia” – porque esse personagem derrama areia nos olhos das crianças que não dormem, fazendo-os arder.
 
“O Homem de Areia”, título geralmente usado no Brasil, sugere um homem feito de areia; “O Homem da Areia” pode sugerir um homem que usa a areia para um fim específico, e a traz consigo num saquinho (como faz o personagem Morpheus, de Gaiman).
 
Sempre é possível encontrar uma tradução melhor que outra. Por isso os livros importantes são periodicamente traduzidos, para adequá-los à linguagem de cada época, à dicção de cada época, às nuances de vocabulário – que mudam o tempo todo.
 
O epíteto se aplica quando o livre-tradutor admite a probabilidade de outras soluções tradutórias  para aquela frase mas, por variadas razões, não quer se deter no exame dessas alternativas, até mesmo para não se desviar do assunto principal.
 
Muitas coisas que eu traduzo “en passant” (“de passagem”, em tradução livre) têm esta justificativa: “Olha, pessoal, esta frase aqui mereceria um exame mais aprofundado, mas vou botar esta versão quebra-galho, só pra dar uma idéia do que se trata”.



Se eu fosse me referir à canção mais famosa de Bob Dylan, “Blowin’ in the Wind”, diria: “Soprando no vento”. É a tradução mais imediata, mais ao pé da letra. Porque o sentido mesmo do verbo pediria algo como “Sendo soprada no vento”, ou “pelo vento”. The answer is blowin’ in the wind. A resposta está flutuando no vento, está pairando no vento, está sendo levada pelo vento...
 
Enfim: em diferentes momentos, eu optaria por diferentes soluções. Qualquer escolha deixaria uma inquietude de coisa-faltando. E eu acabaria apelando para a fórmula: “em tradução livre”.
 
 
 




domingo, 21 de agosto de 2022

4855) "Sandman", a série (21.8.2022)




Estou assistindo a série de TV Sandman, no Netflix. Comentarei agora os episódios de 1 a 6 desta primeira temporada, que correspondem mais ou menos ao primeiro volume dos quadrinhos, Prelúdios e Noturnos.  Comentarei os episódios 7 a 10 (e tem um extra, o 11) depois que reler o volume correspondente, Casa de Bonecas.
 
A série é extremamente bem realizada como obra autônoma e como adaptação de uma obra já existente, no sentido de que amplia e enriquece muitos elementos da obra original, permanecendo fiel ao seu espírito. Claro que diferentes leitores terão diferentes expectativas. Eu sou apenas um leitor casual. Não li nem a metade dos dez volumes da graphic novel. Leio porque gosto, não porque sou fã.
 
Acho bom lembrar que quem faz uma série assim não está se dirigindo apenas aos especialistas que conhecem cada detalhe e aos fãs que já leram 50 vezes cada história. Está se dirigindo a gente como eu, que conhece de longe a obra do autor, gosta, quer conhecer melhor, mas vê com olhos de espectador, não de crítico.
 
De todos os “Perpétuos”, os seres sobrenaturais que administram as vidas humanas, Morpheus (o Sonho, o “Homem da Areia”) é o mais interessante. É uma figura trágica, não porque um final terrível o aguarde, mas porque está preso a um papel, como a maioria dos “heróis” ou semideuses. Heróis não são livres: eles têm uma função a desempenhar e às vezes invejam nos humanos a nossa desorientação, nossa ignorância, nossa disponibilidade, nossa bagunça, nossa ausência de um roteiro cósmico a cumprir.
 
Morpheus, na tela, exibe o fatalismo de um gótico e a impassibilidade de um vulcano. Ele é menos humano do que o corvo que o acompanha, o previsível sidekick atrapalhado, tagarela, útil, presente em tantos desenhos animados para servir de efeito de contraste a um herói insondável e lacônico.



Assistindo a série não consegui deixar de ver por toda parte a paleta de Dave McKean, o capista que fez muito para “dar o tom” da série escrita. Ele pode não ter feito parte da equipe, mas serviu de parâmetro, de referência de implantes visuais. Cenas do sobrenatural em ação, sonhos, paisagens bizarras e de universo-fora-dos-gonzos estão cobertas por aquelas cores de um fogo enferrujado, borrifos espalhando-se sobre lâminas flexíveis, vultos e rostos deformados através dos quais se avista um bosque, uma carta de arcano ou um músculo dissecado. Xeroxes coloridas raspadas com lixa de madeira, colagens enxertadas sobre guaches pegajosas, tudo em movimento digital, como num fundo-do-mar por onde os personagens se deslocam.
 
Não faço restrições ao casting, à escolha dos atores. Personagens são máscaras. Já vi Macbeth interpretado por Denzel Washington e por Orson Welles, mas na minha memória afetiva seu rosto será sempre o do Jon Finch do filme de Polanski. Há uma enorme latitude de interpretação, mas também de risco, ao se mexer com personagens que o público acha que já conhece (e tem razões para isso). A questão principal é se o público entende o que o personagem significa, ou se apenas se acostumou com um tipo de ator. De minha parte, acho que só não poderia mesmo aceitar um Sherlock Holmes gordo ou um Nero Wolfe magro.


(David Thewlis, como John Dee)

A série é um enriquecimento da obra original, e penso assim porque alguns dos meus episódios preferidos nos livros (Caim e Abel, John Dee pegando carona ao fugir do hospício, as pessoas presas na lanchonete, o duelo no Inferno, a conversa entre Morpheus e a Morte) estão mais densos, menos extravagantes, mais carregados de uma maturidade onde dá para ver o Neil Gaiman de 60 anos conversando com o Neil Gaiman de 30.


(Neil Gaiman)

Tenho observado que uma boa parte do cinema/TV que se baseiam em temas de FC/fantástico precisam, por causa do assunto e da ambientação, recorrer a cenários impressionantes, extravagantes, rebuscados, surrealistas... Há a necessidade de propor um universo que o público nunca imaginou, e propô-lo visualmente, já que o meio é visual.
 
Muitas vezes o peso visual do ambiente toma conta da imagem e pressiona a ação. O exotismo do cenário, seja ele de paisagens sobrenaturais ou de arquitetura futurista, acaba virando um retentor da ação dramática, como se de repente a história inteira se visse enclausurada numa sucessão de aquários luminosos.


E então essas narrativas perdem a leveza que é a vantagem da câmera cinematográfica (esse Mercúrio com asinhas nos pés). E perdem o espaçotempo picotado pela montagem (=”edição”) e tornam-se, inesperadamente, uma espécie de teatro filmado. Uma sucessão de cenas estáticas, dialogadas, com um mínimo de movimentação e de marcações para os atores, o que se justificaria um pouco mais se os diálogos fossem (como no teatro filmado) de nível bem alto. Se a narrativa é assim, paradona, cheia de tablôs e de retórica, melhor assistir Shakespeare filmado por Kenneth Branagh.
 
Foi essa a armadilha em que caiu, por exemplo, a recente adaptação da série Fundação, de Isaac Asimov, que teve um bom primeiro episódio, inclusive com ousadias de enredo, propondo cenas (a explosão do elevador espacial) ausentes no original; mas depois desandou numa sucessão de reuniões políticas, com diálogos aliás bem pedestres, em cenários cuja escala monumental drenava toda a dramaticidade da ação, ao invés de conferir-lhe força.
 
Sandman tem escapado à maioria dessas arapucas, talvez pelo ritmo HQ da história de origem – em cada prancha/página uma ou duas reviravoltas na ação. É uma narrativa onde cenas de ação rápida e violência brutal ficam engastadas num arco de avanço mais lento, um tanto inexorável (a busca de Morpheus pelos três objetos roubados) que puxa a história para um “andar de cima” onde vigora o tempo dos Perpétuos.
 
Um tempo que em relação ao nosso é como o nosso (do mundo real) em relação ao tempo de um filme, onde tudo ocorre às pressas, em blocos sucessivos de ação retalhada por elipses. Personagens têm direito apenas a essas poucas horas de som e fúria sobre um palco, essas fatiazinhas de vida, entrecortadas, efêmeras. Quando saímos da sala de projeção, estamos de volta ao nosso tempo esférico, imutável, que não acelera nem retarda. Pobres personagens de filme: nós somos os Perpétuos deles.








domingo, 6 de junho de 2021

4711) O que é "fansplaining" (6.6.2021)



Os dicionários urbanos dos anos mais recentes registraram uma palavra de origem inglesa que logo se fixou no uso geral: mansplaining. É formada por “man” (homem) e “explain” (explicar).
 
Refere-se ao hábito (irritante, de fato) dos homens que se sentem no dever de explicar um assunto difícil a uma mulher, mesmo quando ela notoriamente entende daquilo tão bem quanto eles, ou melhor.
 
Não importa se a mulher tem 55 anos e é doutora em teatro elisabetano, e o homem tem 30 e acabou de ler uma peça de Shakespeare pela primeira vez. O simples fato de ela ter mencionado o dramaturgo no meio de um bate-papo no jantar da casa de alguém é o bastante para o cidadão passar a explicar a ela que nem tudo que se atribui a Shakespeare deve ser levado ao pé da letra, porque é bem provável que um tal de Francis Bacon tenha escrito aquelas peças, porque sobre Bacon sabe-se muita coisa, enquanto que Shakespeare era um sujeito anônimo, com poucas referências biográficas, então a lógica nos leva a admitir que ele deve ter servido de testa-de-ferro para que os textos de Bacon fossem encenados, porque---
 
E por aí vai, até ele recitar de memória um artigo que leu na Superinteressante.
 
Todo homem (inclusive eu) já incorreu nesse tipo de descortesia, cuja raiz está na suposição de que os homens sabem de tudo e as mulheres não sabem de nada. O mansplaining é um tipo específico de paternalismo. Pode se dar de forma agressiva, humilhante, mas muitas vezes se dá com trajes de boa vontade, de solicitude, uma atitude meio paternal por parte de um intelectual grisalho e estabelecido, que se dispõe a contradizer e esclarecer uma senhorita mais jovem, mostrar os pontos onde ela está errada, ensinar-lhe o caminho certo, a realidade das coisas.
 
Só não faça como aquele sujeito que depois de uma sessão como essa, sobre um tema científico qualquer, aconselhou a jovem: “Para entender melhor, leia o livro da Doutora Fulana de Tal”, e ela respondeu: “Eu sou a Doutora Fulana de Tal”.
 
Nos últimos tempos surgiu um termo derivado: fansplaining. É quando um fã de uma coisa qualquer (banda de rock, série de TV, gênero literário, etc.) julga-se o grande conhecedor de todos os meandros e todos os detalhes daquele assunto, mas movido por um espírito de generosidade se dispõe a dar explicações de 45 minutos sobre qualquer detalhe que por acaso alguém mencione erradamente no meio da conversa.


– Pois é... Existe uma mania de dizer que a obra dos Beatles é apolítica, que só fala de amor e de bobagens psicodélicas. Eles esquecem uma música como “Revolution”, onde Lennon dizia claramente que ---
 
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution 9”, que é uma colagem de sons.
 
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
 
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution 1” e saiu no “Álbum Branco”?
 
– É a mesma música.
 
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia, com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e junho de 1968, e a outra em julho.
 
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas como O Céu é o Limite. Decora vorazmente livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula em O Manto Sagrado, alguém sabe?...”  e ele vai pigarrear discretamente e dizer em tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”


Demonstrar conhecimento factual é mais importante para o verdadeiro nerd do que defender uma opinião subjetiva, mas ele não recua diante desta outra possibilidade. Como ele sabe milhares de fichas técnicas de cor, acha que isso o capacita a ter poder de veto sobre as opiniões alheias. Mesmo sobre as do artista cuja obra está em discussão.


O escritor Neil Gaiman está agora às voltas com esse problema, porque sua série de quadrinhos The Sandman está para ser adaptada numa série de TV, e ele está aguentando o fansplaining de alguns admiradores sobre o que a série pode e não pode fazer, sobre as características raciais ou de gênero dos personagens que ele próprio criou, sobre o desenvolvimento dos argumentos, etc. e tal.
 
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
 
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
 
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias, complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
 
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs. Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais, numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
 
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada, defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois de aparecer.
 
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter todas elas sob controle.
 
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
 
Todo bom romance é uma adivinhação do mundo. Os críticos assumiram, por sua conta e risco, a grave responsabilidade de decifrá-los, e é preciso esperar que o façam. Não me refiro, é claro, às incontáveis alusões de caráter privado que há no meu livro, e que somente meus amigos íntimos podem descobrir: que cada data corresponde ao aniversário de alguém, que uma personagem tem o mesmo temperamento da minha mulher, que os nomes que alguém pretende pôr nos filhos são os nomes dos meus filhos... e mais mil coisas que é impossível descobrir pela simples leitura do romance. O que me alarma, por outro lado, é que ninguém tenha assinalado uma só das 42 contradições que eu mesmo descobri depois de publicar o livro, nem os seis erros graves que me foram indicados pelo tradutor italiano, e que não vou corrigir nas futuras edições, nem nas outras traduções, porque não seria uma atitude honesta.
 
(entrevista a Armando Durán, Revista Nacional de Cultura, Caracas, setembro de 1968)