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sábado, 6 de agosto de 2022

4850) O sol e a chuva (6.8.2022)



(Luiz Gonzaga)

Uma imagem poética parece ter uma plasticidade infinita.  Pode ser utilizada de mil maneiras, e cada contexto lhe dá uma significação nova.  Podemos dizer inclusive que a poesia é o triunfo absoluto do contexto sobre o sentido original das palavras, a palavra “em estado de dicionário”, como disse Drummond. 

 

Uma palavra num texto poético (e aqui incluo tanto os poemas escritos quanto as letras de canções) existe e significa para o contexto em que está sendo usada.  Tirada dali, seu sentido é zerado novamente.

 

Veja-se, por exemplo, um tema antiquíssimo na poesia: o contraste entre o sol e a chuva.  Em contextos poéticos diferentes, os dois recebem tratamentos diferentes.  No Nordeste, por exemplo, o sol é um mal necessário.  Sem ele seria impossível a vida no planeta, mas também não precisava exagerar .  No Cancioneiro Nordestino, o sol provoca medo, ou um respeito misturado com repulsa, uma mágoa que não tem perdão que cure.  Como cantava Marinês: 

 

No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra

não se vê uma folha verde na baixa ou na serra...”

(“Aquarela Nordestina”, Rosil Cavalcanti). 

 

O sol é sempre visto como o sol da seca, o sol da morte, do calor insuportável. Como dizia Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas: “a luz assassinava demais”.

 

O poeta nordestino vê o sol como uma ameaça, como mostram os versos de “Súplica Cearense”, de Gordurinha: 

 

Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

pedi pra chover, mas chover de mansinho

pra ver se nascia uma planta no chão.

 

O sol é uma ameaça permanente, uma ameaça que não pode ser exorcizada com súplicas ou com preces.  Sua presença nas canções sertanejas é sempre ominosa, massacrante, transformando a paisagem num inferno.

 

Que braseiro, que fornalha,

nem um pé de plantação...

(“Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

 

Quando o sol tostou as folhas

e bebeu o riachão

fui inté o Juazeiro

pra fazer minha oração...

(“Légua Tirana”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

 

Por outro lado, a chuva é vista pelo poeta nordestino como uma bênção.  Um dia chuvoso é uma festa transbordante de alegria.

 

Rios correndo, as cachoeiras estão zoando,

terra molhada, mato verde, que riqueza!

e a asa branca à tarde canta, que beleza,

ai ai, o povo alegre, mais alegre a Natureza!

(“A Volta da Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

 

Uma tarde de inverno no sertão

é um grande espetáculo pra quem passa

serra envolta nos tufos de fumaça

água forte rolando pelo chão;

o estrondo da máquina do trovão

entre as nuvens do céu arroxeado;

o raio caindo assombra o gado

atolado por entre as lamas pretas.

rosna o vento fazendo piruetas

nas espigas de milho do roçado.

(“Inverno no Sertão”, Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio).

 


(Cartola)

Muito diferente é o modo de ver o sol e a chuva no Rio de Janeiro.  Para um poeta carioca, sol é sinônimo de alegria, chuva é um fenômeno melancólico com o qual é preciso se conformar.  A indagação mais ansiosamente murmurada pelos cariocas, dia após dia, ano após ano, é: “Será que vai dar praia?...” – enquanto os olhos súplices se voltam para o céu, buscando o sol com a mesma ansiedade com que os sertanejos buscam as nuvens grossas e cinzentas que podem salvar sua vida.  

 

O Cancioneiro Carioca reflete esse estilo de vida, desde o samba até o rock e a bossa-nova.  Desta vez é a chuva que é um mal necessário, mas todos rezam para que passe logo.

 

Finda a tempestade, o sol nascerá,

finda esta saudade, hei de ter outro alguém para amar...

(“O Sol Nascerá”, Cartola e Elton Medeiros)

 

Chove chuva, chove sem parar...

Mas eu vou fazer uma prece

pra Deus, nosso Senhor,

pra chuva parar de molhar o meu divino amor...

(“Chove chuva”, Jorge Benjor)

 

Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...

(“Estrada do Sol”, Tom Jobim e Dolores Duran)

 

"Vamos sair pra ver o sol!"  Que sertanejo diria isto à sua amada? 



Mas mesmo o amor ao sol pode ganhar contextos diferentes.  Uma coisa é amar o sol no Rio de Janeiro; outra coisa é amá-lo num país frio e nublado como é a Inglaterra na maior parte do tempo.  Daí que as letras dos Beatles, por exemplo, estejam cheias de referências ao sol, como símbolo da alegria:

 

Veja, querida,

o sorriso retornando aos seus rostos.

Veja, querida,

parece que faz anos desde que ele esteve aqui.

Lá vem o sol...

E eu digo que está tudo bem.

(“Here Comes the Sun”, George Harrison)

 

Um dia você vai olhar e ver que eu parti;

pois amanhã pode chover, então... eu seguirei o sol.

(“I’ll follow the sun”, Lennon & McCartney)

 

Eu preciso rir, e quando o sol aparece

eu tenho um motivo para rir...  Bom dia, luz do sol!...

(“Good Day, Sunshine”, Lennon & McCartney)

 

Aí vem o rei sol, aí vem o rei sol

Todos estão rindo, todos estão felizes

(“Sun King”, Lennon & McCartney)

 

Em termos de simbolismo poético nunca se tem uma relação única entre imagem e sentido, ou mesmo uma solução sim-ou-não.  As soluções poéticas são múltiplas, e mesmo quando coincidem, pode ser por motivos diferentes.  Tanto cariocas quanto londrinos amam o sol e abominam a chuva – mas os dois vivem em cidades de clima totalmente oposto.  Em Londres, o normal é o dia nublado e chuvoso, e o dia de sol é uma festa da Natureza.  No Rio, o sol é um direito civil, um piso mínimo de liberdade e alegria a que todos têm direito, e um dia sem ele é como um dia passado na cadeia. 

 

Não há soluções poéticas óbvias, ou, pelo menos, sempre é possível fugir ao óbvio, desviar-se do clichê, recusar a enganadora facilidade do que já foi dito e repetido.  Razão, como sempre, tinha John Lennon, quando dizia:

 

Sento num jardim inglês, esperando o sol,

e se o sol não vier

eu me bronzearei na chuva inglesa.

(“I Am the Walrus”, Lennon & McCartney)

 

(Este artigo foi originalmente publicado da revista Língua Portuguesa, Editora Segmento (São Paulo), número especial, novembro 2010)

 

 

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

2456) "O Cavaleiro de Bronze" (18.1.2011)



As chuvas catastróficas no Estado do Rio neste começo do ano aconteceram, por sincronicidade, na mesma semana em que eu estava lendo, no livro de Marshall Berman Tudo que é Sólido se Desmancha no Ar, o capítulo dedicado à cidade de São Petersburgo, e à sua importância na consolidação dos projetos modernistas da Europa. Berman explica que Petersburgo foi uma cidade conquistada ao mar, um triunfo da engenharia e do urbanismo de sua época, uma espécie de apoteose do pensamento modernista de que a ciência, a tecnologia e a razão são capazes de vencer qualquer obstáculo, e que suas vitórias sempre representam a passagem para um estágio superior da vida humana.

Berman comenta o poema de Puchkin “O Cavaleiro de Bronze”, em que Petersburgo é destruída por uma enchente do rio: “O rio desabou com ódio e tumulto, inundou as ilhas, fez-se cada vez mais feroz, elevou-se e rugiu como uma máquina exalando vapor e, frenético, desabou finalmente sobre a cidade. (...) Um cerco! Um ataque! Ondas sobem até as janelas, como bestas selvagens. Barcos, numa massa desordenada, quebram os vidros com as popas. Pontes que o dilúvio rompeu, fragmentos de cabines, vigas, tetos, as mercadorias dos comerciantes precavidos, os pertences arruinados dos pobres, as rodas das carruagens da cidade, os caixões do cemitério, tudo flutua à deriva pela cidade”.

A criação da cidade pela engenharia e sua parcial destruição pelo rio/mar ganham dimensão simbólica pela força da poesia de Puchkin e da análise de Berman. Cada cidade é um pequeno triunfo modernista e tecnológico, uma modesta derrota imposta à Natureza (porque é em termos de conflito contra a Natureza que as cidades em geral são vistas). Cada vez que o império da Natureza contra-ataca, conquista, por sua vez, uma modesta vitória. O mundo moderno, conforme Berman o enxerga, perde cidades inteiras como uma cobra perde pele: como uma fase natural de seu próprio crescimento.

As obras da antiguidade sonhavam em permanecer de pé durante 40 séculos; as de hoje querem ser a apoteose do presente. Até quando desmoronam são um triunfo, porque o capitalismo/modernismo, insaciável, constrói outra por cima das ruínas da primeira. Nossas cidades são o avanço do descartável, do efêmero, bairros construídos sobre lixões, favelas espalhadas no mangue da beira-rio, efeitos colaterais da briga com a Natureza e primeiras vítimas dos seus contragolpes. Cada pirâmide precisa de 150 mil operários e consequentemente de 150 mil barracos; não existem pirâmides onde não existem barracos.

As enchentes de Teresópolis, Friburgo, São Paulo, bem como as de Palmares e de cidades alagoanas ano passado, são a pororoca entre civilização e natureza. Nossas cidades se desmancham no ar porque seu sentido se esgotou (para quem as construiu) no empreendimento da construção. É a civilização do presente, que constrói como se o futuro não viesse nunca, como se já tivéssemos atingido o fim da História.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

2243) Os bombeiros do futuro (16.5.2010)



As chuvas que mataram muita gente no Estado do Rio deixaram algumas imagens poderosas na imprensa, como sempre. Uma que me comoveu foi uma que saiu enorme da capa do “Globo”, uma foto de André Teixeira mostrando o abraço entre dois homens diante do corpo de um garoto, no Morro dos Prazeres, no Rio. O garoto era filho de um deles, ficou soterrado e manteve-se vivo durante horas, respondendo aos chamados. O outro homem era o bombeiro que trabalhou um dia inteiro para retirar o garoto, mas quando conseguiu fazê-lo o menino já estava morto. Pai e bombeiro, dois mulatos que poderiam ser dois irmãos, choram juntos, abraçados e sujos de lama.

Essa foto pra mim faz parelha com a foto famosa tirada nos EUA diante do prédio destruído por uma bomba terrorista em Oklahoma: um bombeiro de roupa amarela tendo nos braços uma criança morta pela explosão. Mostra o sofrimento de um cara que não conseguiu salvar uma vítima indefesa. Acho que desde o atentado ao World Trade Center no 11 de setembro que os bombeiros deixaram de ser vistos por muita gente como alguém que simplesmente apaga incêndio, os “bravos soldados do fogo”, segundo o clichê das redações atarefadas. O bombeiro executa tarefas de salvamento que vão desde buscar um gato que não consegue descer da árvore até arrancar gente viva de baixo de um prédio que desmoronou.

O bombeiro é o soldado que não mata, o soldado que se limita a salvar quem corre o risco de morrer. A existência de exércitos dá uma medida do rudimentarismo de nosso mundo, um mundo em que ainda é necessário recrutar rapazes e gastar fortunas para torná-los fortes, resistentes, bem preparados, com a finalidade de matar outros rapazes de outro país, tão fortes e bem preparados quanto eles. Vemos às vezes partes da população, ou da imprensa, vendo o despreparo da polícia para enfrentar o crime, pedir o Exército no policiamento das ruas. E nessas horas sempre aparece uma autoridade do Exército para dizer, com frieza mas com bom senso; “Não podemos fazer isso, porque nossos homens não são preparados para tomar conta de ruas, são preparados para matar”.

Dia virá em que não haverá mais soldados, e todos nós seremos bombeiros? Se isto acontecer será um sinal de que a Humanidade se civilizou. Soldados serão sempre necessários, não para nos defender de outros soldados, mas para nos defender de inundações, desmoronamentos, incêndios, tsunamis, terremotos, acidentes de todo tipo. Desastres e catástrofes nunca deixarão de haver – e a julgar pelo que temos feito ao planeta nos dois últimos séculos, vão se tornar cada vez mais frequentes, mais mortais, mais imprevisíveis. Vai chegar um momento em que precisaremos transformar todas as Forças Armadas do mundo em bombeiros. A Terceira Guerra Mundial, ironicamente, será travada entre a Humanidade e a Natureza. E para isso precisamos dos verdadeiros Soldados do Futuro, aqueles que são treinados não para matar, mas para salvar vidas.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

2211) Uma chuva pesada vai cair (9.4.2010)



Quando “o maior temporal dos últimos 40 anos” caiu sobre o Rio de Janeiro, eu estava longe, mas foi como se estivesse lá. Estava lendo os últimos capítulos do livro Forty Signs of Rain de Kim Stanley Robinson (2004), um thriller político de ficção científica, parte de uma trilogia prosseguida com Fifty Degrees Below (2005) e Sixty Days and Counting (2007). A obra de Robinson descreve a atividade de um grupo de cientistas e políticos tentando atenuar os efeitos da presente catástrofe ambiental, que já começou, mas que as pessoas só se lembram que está em curso quando acontece algo nas suas cidades.

Os últimos capítulos de Forty Signs of Rain mostram Washington D.C. sendo devastada por um toró com origem igual à do que atingiu o Rio de Janeiro esta semana, só que muito mais forte. Ruas e avenidas submersas, prédios públicos alagados até o terceiro andar, a capital do país mais rico do mundo paralisada, e até os animais do Zoológico sendo soltos para não serem arrastados pelas gigantesca enxurrada que varre o parque. Até as reações dos poderes públicos são parecidas. No Rio, pediram ao prefeito Eduardo Paes para dar uma nota de 0 a 10 à infraestrutura da cidade, e ele respondeu: “Menos que zero”. No livro de Robinson, o presidente dos EUA (uma mistura de Bush e Reagan) bate em retirada para Camp David, declara os Estados de Virginia, Maryland e Delaware uma “área de calamidade pública”, e diz que o Distrito de Columbia (onde fica a capital) está “ainda pior do que isto”.

Catástrofes são sempre anunciadas com antecedência; acho que a única catástrofe que acontece de repente é a queda de um raio, e mesmo esta pode ser estatisticamente prevista. Catástrofes climáticas fazem parte da vida na Terra, mas as que estão ocorrendo agora são resultado da ação do homem sobre a Terra. Ninguém age por maldade, ninguém quer destruir o planeta. As pessoas querem apenas viver suas vidas, e trabalhar em paz, mesmo que isto implique em despejar dejetos nos rios, queimar combustíveis que destroem a camada de ozônio, produzir toneladas de lixo desnecessário, devastar regiões inteiras com monoculturas predatórias, consumir sem necessidade e desperdiçar sem remorso. Diz Robinson em seu livro: “É mais fácil destruir o mundo do que mudar o capitalismo um ‘tantinho’ assim”.

Robinson cria, no primeiro volume de sua trilogia (vou encarar agora as 520 páginas do segundo) uma galeria de cientistas com seus problemas pessoais e ideológicos. Um deles trabalha em casa cuidando dos filhos pequenos, e há uma cena hilária em que ele tem de discutir ambientalismo com o Presidente dos EUA carregando o guri de um ano e meio numa mochila às costas. Vidas pessoais e o destino do planeta se entrelaçam de uma maneira que só a literatura de visão panorâmica (da qual a FC é um ramo) pode nos revelar. A literatura cujo personagem principal é a Humanidade, a única que nos permite ver a totalidade do momento presente.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

1299) Massa concentrada (12.5.2007)



A NASA criou o termo “mascon” (derivado de “mass concentration”, que podemos adaptar, para manter a ordem dos termos, para “massa concentrada”) para designar certas regiões da superfície da Lua com uma anomalia gravitacional, exercendo uma atração maior que o normal, devido à existência de grande concentração de massa no subsolo. O crítico literário Stephen Henderson apropriou-se deste termo para indicar palavras, que ele chama de “mascon words”, que embora sejam palavras comuns para outras pessoas, possuem na cultura Afro-americana um peso maior, porque correspondem a uma massa de experiência oculta, subterrânea, compartilhada apenas pelas pessoas de raça negra. Palavras como “blues”, “train”, “home”, etc. são ouvidas e escutadas de maneira diferente por um norte-americano negro.

Vejam em português a palavra “chuva”. Para um sertanejo, é uma palavra sagrada, sinônimo de esperança, de vida. Para quem vive no campo com a mão na testa tocaiando as nuvens, chover ou não chover é uma questão de vida ou de morte. Uma vez, aqui no Rio, vi uma pessoa dizer para outra, brincando: “Você tem cara de quem gosta de chuva”. Pensei cá comigo: “E pode existir alguém que não goste de chuva?!” Claro que pode. Chuva, aqui no Rio, significa transtorno para quem está preso no trânsito rumo ao escritório, ou então uma má notícia para quem pretendia ir à praia. É, tanto quanto no Sertão, uma palavra “mascon”, só que neste caso com uma concentração de energia totalmente inversa.

Podemos pegar a palavra “sol”, por exemplo. Curiosamente, o sertanejo não detesta o sol, não tem horror ao sol, por mais que nossas canções o chamem de “sol inclemente”, sol que “calcina a terra”, sol que “queimou as folhas e bebeu o ribeirão”. Em qualquer simbologia sertaneja o sol é visto como uma divindade, mas que precisa ser encarada com cautela, como o Fogo.

É curioso ver como “Sol” é também uma palavra “mascon” em outros contextos musicais. O Sol é endeusado, tratado quase como um Deus Egípcio, tanto na música carioca quanto na música inglesa – só que por motivos inteiramente diversos. Na música do Rio, o sol é sinônimo de praia, festa, luz, alegria, sensualidade, corpos jovens e bronzeados. Acostumado a uma superabundância de sol, o carioca o considera indispensável ao “estar vivo”, não admite separar-se dele um dia sequer. Já na música inglesa, o sol é símbolo de calor, vida, motivo para sair de casa, para tirar o paletó e aproveitar aquele breve episódio de luz e calor numa vida úmida, sombria, vivida entre quatro paredes. Tendo tão poucas chances para apreciar o sol, o britânico o reverencia como algo raro e muito precioso, algo a ser fruído segundo por segundo, porque nunca se sabe quando ele surgirá de novo. Porque, como diziam os Beatles, “amanhã pode chover, e nesse caso, eu irei atrás do Sol”. Palavras com massa concentrada: massa de emoções individuais e coletivas, palavras que cristalizam toda uma cultura.

sábado, 11 de outubro de 2008

0595) O charme de um dia nublado (13.2.2005)


(Bradley Schmehl, "Voice of the City")

Nada tenho contra o sol, contra esta cascata dourada de raios de fogo que parecem tornar o mundo inteiro mais colorido, mais vivo, mais vibrante de uma energia alegre e boa. Mas pergunto: por que motivo os Adoradores do Sol, essa multidão monoteísta que se acotovela nas praias e nas piscinas, é incapaz de reconhecer a beleza e a poesia de um dia nublado? O sol recorta contrastes lancinantes, fende o mundo com suas lâminas, e o deixa fatiado em placas de luz e de sombra. No dia nublado, a redoma de nuvens filtra e esbate esse brilho excessivo. O mundo fica tomado por uma luminosidade leitosa, espessa, macia. É uma luz que parece vir de todas as direções, que não projeta sombras, uma luz democrática e onipresente, a única capaz de mostrar o mundo como ele realmente é.

Nada tenho contra o Sol, repito. Admiro-o como admiro um leão, um tigre: ele lá e eu cá. Reconheço sua beleza e sua importância, mas francamente, não preciso da companhia dele o tempo todo. Tá liberado, companheiro! Vá aquecer os fiordes da Escandinávia, vá dourar os trigos da Suécia, vá bronzear Bjork. Eu por aqui vou indo muito bem, tomando banho-de-lua, como Celly Campello. O sol é um uísque-caubói duplo, e quem sou eu para negar seus méritos? Tem seus momentos, sem dúvida, mas para o correr normal dos meus dias prefiro um vinho suave, um crepúsculo roxo-lilás com nuvens e estrelas.

Gosto de “dias brancos” como os de Geraldo Azevedo & Renato Rocha, como gosto das “noites brancas” de Dostoiévsky. Gosto de ver a cidade trancada nesta caverna de claridade uniforme, ao abrigo daquela fogueira nuclear que nos cresta a retina e nos esturrica a pele. Gosto ainda mais do ar frio que geralmente sopra nesses dias, um friozinho gostoso que nos faz procurar o conforto de um casaco, e o calor aconchegante da companheira, porque tudo passa a ser pretexto para enlaçar-lhe a cintura, colar corpo com corpo, acelerar o sangue. É um ar fino, que clareia os pulmões; como se todos os Bancos do mundo tivessem desaparecido e deixado atrás de si apenas o ar condicionado, a única coisa que têm de bom.

Dêem-me dias brancos, dias nublados, dias propícios à meditação e à paz, ao cultivo das emoções tranqüilas e dos afetos prolongados, e à contemplação da Terra sem o clamor ensurdecedor das fornalhas do Sol. Dêem-me esses dias parecidos comigo, esses dias que vibram no meu diapasão contemplativo e sereno. Podem ficar com os outros – e isto me alegra duplamente, porque sei o quanto farei feliz a Humanidade, distribuindo-lhe dias ensolarados às mancheias. Mas guardarei para mim essas moedas de modesta prata, este céu com nuvens brancas de Chagall ou cinzentas de El Greco, este meio-dia no inverno da Serra da Borborema onde minha alma se formou, e onde aprendi que é possível haver no mundo beleza sem alarde, alegria sem frivolidade, e paz sem tédio.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

0499) O sol e a chuva (24.10.2004)



Alguns dias atrás falei aqui sobre a luz e a treva, e a injustiça de se atribuírem valores absolutos a cada uma (a luz como algo necessariamente bom, a treva uma coisa má). 

Outra parelha dessas que sempre me chamou a atenção foi o sol e a chuva. Qualquer nordestino, por exemplo, sabe que o sol é um mal necessário. Sem ele seria impossível a vida na terra, mas o problema é que com ele a situação não melhora tanto assim. 

Ouçam o Cancioneiro Nordestino de A a Z, meus camaradinhas, para vocês verem como o sol nos provoca medo, ou um respeito misturado com repulsa, uma mágoa que não tem perdão que cure. 

“No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra...” 

“Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho...” 

E a chuva? Ave Maria! Chuva é festa, é alegria, é banho de barreiro, é menino sapateando em poça de lama, é o véio mais a véia tomando banho na bica... Chuva traz as coisas boas da vida.

Aí a gente dá um pulo pro Rio de Janeiro, e tudo muda de figura. Chuva aqui é palavrão, e o sol é a panacéia universal, o remédio que cura todos os males. A indagação mais ansiosamente murmurada pelos cariocas, dia após dia, ano após ano, é: “Será que vai dar praia?...” – enquanto os olhos súplices se voltam para o céu, buscando o sol com a mesma ansiedade com que os sertanejos buscam as nuvens grossas e cinzentas que podem salvar sua vida. 

E dêem uma olhada no Cancioneiro Carioca, desde o samba até o rock circo-voador e a bossa-nova. “Fim da tempestade, o sol nascerá...” “Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...” Que sertanejo diria à sua amada uma heresia destas proporções?

Mas isto não é tudo. Bote o passaporte no bolso e vamos dar um pulo maior, até a Inglaterra. 

O Cancioneiro Beatle também está cheio de referências ao sol e à chuva. 

“Pois amanhã pode chover, então... eu seguirei o sol.” 

“Aí vem o sol, e eu digo que está tudo bem...” 

“Eu preciso rir, e quando o sol aparece eu tenho um motivo para rir... Bom dia, raio de sol...” 

Meu amigo!... Que sertanejo no mundo pronunciaria semelhante absurdo?!

Na verdade, isto mostra que em termos de simbolismo poético nunca se tem uma solução única, ou mesmo uma solução sim-ou-não. As soluções poéticas são múltiplas, e mesmo quando coincidem, pode ser por motivos diferentes. 

Tanto cariocas quanto londrinos amam o sol e abominam a chuva – mas os dois vivem em cidades de clima totalmente oposto. Em Londres, o normal é o dia nublado e chuvoso, e o dia de sol é uma festa da Natureza. No Rio, o sol é um direito civil, um piso mínimo de liberdade e alegria a que todos têm direito, e um dia sem ele é como um dia passado na cadeia.

Não há soluções poéticas óbvias, ou, pelo menos, sempre é possível fugir ao óbvio, desviar-se do clichê, recusar a enganadora facilidade do que já foi dito e repetido. Razão, como sempre, tinha John Lennon, quando dizia: 

“Sento num jardim inglês, esperando o sol, e se o sol não vier eu me bronzearei na chuva inglesa.”






quinta-feira, 27 de março de 2008

0302) Retrato do artista quando chove (9.3.2004)




Eu não tenho nada contra o sol, mas me sinto muito mais à vontade na companhia da chuva. Estou falando bem baixinho para que não me escutem no Rio de Janeiro, onde moro, e em João Pessoa, onde este jornal também circula.

Que isto fique somente entre nós, campinenses, que aprendemos desde a infância a arte sutil de saborear a textura diáfana de uma neblina, e que não nos sentimos de maneira alguma prejudicados quando a tarde se acinzenta, as nuvens se avolumam, e o céu cai por cima de nós com toda força.

Tenho pensado muito nisto agora, com essas chuvas que andam desabando pelo Nordeste, derruindo pontes, invadindo casas, expulsando populações inteiras. Muita gente aqui no Rio fica perplexa, porque os telejornais ficam mostrando imagens alternadas de catástrofes e de comemorações; adultos em lágrimas com os troços na cabeça e pirralhos felizes tibungando na barragem. A mente cartesiana dos civilizados trava um pouco diante disto.

É difícil explicar que num lugar apocalíptico como o velho Nordeste tudo está sempre a uma vírgula de uma catástrofe qualquer. Chover é problema, mas não chover também é problema, e já que tudo é problema nós apenas vivemos num nível mais problemático de normalidade – e é só tocar o barco como sempre se fêz.

O bom da chuva, reconheço, é quando se mora numa casa segura, num apartamento ao abrigo das enchentes e de outros incômodos. (Calma, amigos, sou solidário com as populações ribeirinhas e periféricas, mas tenho meus momentos poéticos!) A chuva que sangra açudes, desmorona barragens, engrossa rios e alaga bairros é uma chuva prosaica, uma chuva desencadeadora de meros fatos. Eu gosto mesmo é da chuva que se escuta lá fora, de preferência à noite.

Primeiro é um barulho ciciante que parece vir de todas as direções, cada vez mais alto; então escutamos o tamborilar das primeiras gotas no vidro da janela, e logo é um verdadeiro jorro de água que fustiga o vidro. Pelo meio-fio desce a enxurrada marrom onde passam velozmente galhos, sacos plásticos, latas amassadas.

A chuva lava o mundo lá fora, e o ruído da chuva parece que lava a gente aqui por dentro, como uma ducha fria em tarde quente, arrastando até o último grão de poeira em nossos cabelos e em nossa pele.

A chuva lembra à gente que o mundo está vivo. Numa hora qualquer de sol ou de noite aberta, a gente até pensa que está num lugar morto, numa espécie de Marte que ainda não virou deserto mas onde a Natureza não existe mais. Durante um temporal, contudo, não há como não perceber que aquilo é uma espécie de voz dizendo alguma coisa.

Quando chove estamos escutando, como diria Stanislaw Lem, “uma sinfonia que cria a si mesma”, a música que o mundo tocava para si mesmo antes de ser habitado por criaturas que produzem sons com instrumentos inventados. A chuva nos diz algo que só entendemos aqui, no escuro, à luz dos relâmpagos e ao som dos trovões, no calor aconchegante de quem retornou a águas antigas.