sexta-feira, 12 de abril de 2024

5051) "O Problema dos 3 Corpos" (12.4.2024)




Acabei de ver as duas adaptações, para série de TV, deste romance de Cixin Liu, muito elogiado e premiado por aí, certamente o primeiro livro de ficção científica chinesa a produzir um impacto tão grande no Ocidente. 
 
A tradução em inglês, feita por Ken Liu, ganhou o Prêmio Hugo de Melhor Romance, em 2015, e também foi indicada para o Prêmio Nebula (que acabaria sendo concedido nesse ano a Aniquilação, de Jeff Vandermeer). 
 
A série chinesa foi lançada em 2023, com 30 capítulos (pode ser vista no YouTube, com legendas em inglês). A série norte-americana foi lançada este ano, com 8 capítulos na primeira temporada. Ambas as adaptações são competentes, com grandes momentos, e ambas têm coisas que não estão muito bem resolvidas, como qualquer série de TV. 
 
Vale a pena vê-las? Sem dúvida. Qual das duas? Difícil responder, porque são dois resultados “fílmicos” muito diferentes. 




A série chinesa (dirigida por Lei Yang) tem um desenvolvimento mais arrastado. Alguns temas (como o das “contagens regressivas” implantadas nos olhos dos personagens) são esticados longamente, enquanto na série norte-americana isto é resolvido num vapt-vupt. 
 
Do mesmo modo, a série chinesa explora com muitas ramificações as atividades dos os grupos de “devotos” dos alienígenas (“Fronteiras da Ciência”, os Adventistas, os Redencionistas, os Sobreviventes...) e suas brigas internas, o que produz vários subplots de espionagem, assassinatos, etc. 



(Yu Hewei)


O elenco chinês é em geral muito bom: o detetive meio fanfarrão mas esperto (Yu Hewei) é um dos melhores. A exceção é a “Sala de Guerra” cheia de canastrões ocidentais usando farda e condecorações; nenhum presta. As expressões são forçadas, os diálogos ocos. 



(Liam Cunningham e Benedict Wong)
 

O elenco norte-americano oscila bastante, porque tem momentos um tanto novela-das-sete, mas eu gosto do detetive de Benedict Wong, da cientista Jess Hong (“Jin”) e do cientista Jovan Adepo (“Saul Durand”). Encontrei velhos conhecidos de Game of Thrones (outro projeto de Benioff & Weiss): Liam Cunningham (o “Mestre Davos”, voltando agora como o implacável comandante Wade) e John Bradley (“Samwell Tarly”, aqui como o milionário Jack Rooney). 
 
O ponto em que a série chinesa dá de goleada na norte-americana, contudo, é justamente na criação da personagem Ye Wanjie (interpretada por Ziwen Wang, na juventude, e Jin Chen, idosa) a cientista cujo pai é morto pela Guarda Vermelha maoísta, mas depois é aproveitada, pelo seu talento, na Base da Costa Vermelha. Ali ela irá trabalhar na antena emissora e, mais tarde, lançar o chamado para os alienígenas. Existe nesta versão da história uma sensação real de tempo passado por ela na Red Coast Base. Acompanhamos sua subida na carreira profissional, sua relação com os chefes imediatos, o acesso aos aparelhos, a mensagem, a decisão final de deixar oculta a resposta dos extraterrestres. 



(Jin Chen, como “Ye Wanjie”)


Ye Wanjie é o personagem central dessa narrativa, um personagem complexo que me deu vontade de ler o livro. (Não que o livro não tenha, certamente, outras qualidades.) Não é uma vilã convencional; suas motivações são complexas, e a imensa tensão emocional e intelectual da personagem é bem explorada com muitos pequenos episódios esclarecedores. Isto fica faltando na série norte-americana, onde ela não passa de uma personagem secundária, mesmo sendo a deflagradora da trama. 
 
Em geral, ambas as séries fazem escolhas com o pensamento no público que pretendem atingir. Os jovens cientistas chineses são contidos, travados, e quando destravam endoidecem. 
 
(Ambas as séries, aliás, recorrem ao batido clichê do “cientista pirado” que se dá o trabalho de cobrir todas as paredes e o chão com rabiscos matemáticos; isto virou no cinema de hoje um equivalente ao “laboratório gótico” dos velhos filmes de terror, com tubos de ensaio espumando e retortas soltando vapor.) 




Os jovens cientistas ocidentais têm todos os cacoetes dos personagens jovens da TV. Os namoros instáveis, as amizades à base de rompimentos e reaproximações, as piscadelas humorísticas na direção da platéia. Esse tipo de personagem compõe o que a gente poderia chamar de “realismo estatístico”. Cacoete de Hollywood? Nem tanto; tem até alguma herança do “realismo socialista”, com sua busca de personagens típicos vivendo situações típicas e tomando decisões típicas.  
 
As duas séries tratam de modo parecido e diferente um dos episódios mas vigorosos, em termos de dramaticidade e de efeitos especiais: a emboscada no Canal do Panamá. 
 
Na adaptação chinesa, o procedimento de ataque ao navio é antes longamente discutido, explicado, exemplificado, e o suspense que experimentamos resulta da expectativa em ver se um plano tão mirabolante vai dar certo. 
 
Na adaptação Netflix, sabemos que o navio vai ser atacado, mas o roteiro não revela como vai ser exatamente. Cada detalhe que surge é uma surpresa, e aos poucos entendemos a tecnologia usada pelos atacantes. 
 
Uma solução é certa, a outra é errada? Acho que não. Como tantas vezes acontece, tanto o suspense quanto a surpresa têm seu valor dramático, mas dependem acima de tudo da eficiência narrativa de quem dirige. E nos dois casos, são cenas bem sucedidas. 
 
Outro aspecto cientificamente simpático do enredo é a larguíssima janela de espera pela chegada de uma frota estelar alienígena. Soa mais realista do que aquelas histórias em que tudo acontece num piscar de olhos. “Naves foram construídas, e anos depois os humanos desembarcavam no planeta Zargon-14...” 
 
A longa viagem da frota bélica dos Tri-Solarianos (ou “Santi”) na direção da Terra me trouxe à lembrança a Guerra das Malvinas nos anos 1980, quando após a invasão argentina às ilhas a Primeira-Ministra Margareth Thatcher despachou uma “força tarefa” que viajou pelo Atlântico durante semanas, com o mundo na maior expectativa, até entrar em choque com as tropas argentinas. Uma guerra não acontece de repente; precisa de um vasto deslocamento de forças, tropas, veículos... Antes do primeiro tiro, a guerra já começou. 
 
É imensa a estante de obras de FC em que alienígenas ultra-poderosos são vistos como deuses. Arthur C. Clarke dizia que toda tecnologia suficientemente avançada fica indistinguível da mágica. De certo modo, o que adoramos religiosamente se confunde com o que não somos capazes de explicar de maneira racional. 



("Tatiana Haas")
 
Um dos melhores personagens da série Netflix é “Tatiana Haas” (Marlo Kelly), a jovem seguidora da seita dos “adoradores dos alienígenas”, uma matadora que tem o olhar vidrado e o sorriso fixo dos verdadeiros fanáticos. Sua equivalente, na série chinesa, é a mocinha de boné branco (cujo nome não consegui localizar) que destronca o pescoço de um assassino profissional com a facilidade de quem abre uma cerveja long-neck. 
 
Fanatismo político, fanatismo religioso, e fanatismo científico são colorações diferentes de uma mesma psicose. (Eu ia incluir também o fanatismo futebolístico, o fanatismo literário, etc., etc., mas por enquanto não é preciso.) Durante milênios a Humanidade olhou para o céu, fazendo perguntas e esperando respostas. Acho que foi Blaise Pascal quem disse: “O silêncio eterno desses espaços infinitos me dá medo.” As religiões são um conjunto de possíveis respostas. A busca por alienígenas, também. Ninguém quer aceitar a responsabilidade de ser a única inteligência do Universo. 




A obra de Cixin Liu é uma trilogia. O título em inglês, Remembrance of Earth’s Past, alude a Marcel Proust, e pode ser traduzido como Em Busca da Terra Perdida. Os três volumes são The Three Body Problem (2006), The Dark Forest (2008) e Death’s End (2010). Enquanto a série chinesa se detém no primeiro volume, trechos importantes do segundo e do terceiro foram transpostos para a série Netflix, que pode ser considerada mais representativa da trilogia como um todo. 
 
Pelo que as duas séries apresentaram, creio que vale a leitura dos livros, até por exprimir uma visão “chinesa” dos grandes problemas do gênero. A literatura é sempre uma expressão individual, mas também-sempre contaminada por ambiente social, leituras, interações, nosso inevitável mergulho no coletivo. Assim como existe em toda sociedade um “espírito do Tempo” (Zeitgeist) existe também um “espírito do Espaço” (Raumgeist?...) – que deve ser o que se chama por aí de nacionalismo. 
 
Às vezes me perguntam como escrever ficção científica “brasileira”. Respondo que a melhor maneira é ser pessoal como escritor. Não é ser “narcisista”, nem “autobiográfico”; é projetar-se por inteiro em tudo que lhe interessa: como escritor, como leitor, como pessoa. O resultado, mesmo que a ação transcorra em Betelgueuse ou no Século 2222, terá algo de brasileiro, que nem o próprio escritor estava percebendo.