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quinta-feira, 21 de setembro de 2023

4984) A literatura de mundo afora (21.9.2023)




(Ngugi Wa Thiong'o)


Andei lendo, misturadamente, duas entrevistas de autores muito distantes entre si mas que trazem a discussão para um terreno comum: o da experiência transnacional, dos escritores exilados (voluntariamente ou não) em outro país ou outra língua, os escritores que se afastam de sua terra natal e assim podem até enxergá-la melhor.
 
Aqui no Brasil existe um viés nacionalista muito forte desde que nossa literatura começou a existir “oficialmente”, como fenômeno coletivo de fato, no segundo Império, em meados do século 19.  Ser nacionalista refletia os nossos arrufos de independência de Portugal, a nossa necessidade de falar do que era tipicamente brasileiro e só brasileiro, incluindo aí a nossa maneira peculiar de escrever, de falar, de recriar o idioma.
 
William Gibson se referia ao mundo do futuro imediato como “pós-geográfico”, talvez não no sentido de que países e fronteiras deixarão de existir, mas colocando em primeiro plano as conexões eletrônicas e internéticas que propõem novas formas de contato, aproximação, diálogo, agrupamento, acesso, compartilhamento.
 
Um refugiado, numa dessas levas recentes de êxodos coletivos, entrevistado na Europa, queixou-se de que, depois de semanas de fuga no meio de uma migração caótica, perdeu o celular. “Senti nesse momento que tinha saído do meu país.”  A experiência do exílio é física, presencial, mas a um toque e a um clique do aparelho alguém pode ter a impressão de estar de volta ao ambiente que frequentava, contando com imagens de câmera, sons em tempo real.
 
Dizem que D. Pedro II levou para seu exílio parisiense um travesseiro cheio de terra do Brasil, para manter a conexão simbólica. Sempre precisamos de objetos que, por uma espécie de “magia de contato” nos dão a sensação de estarmos tocando um lugar ausente. E quando Fernando Pessoa dizia que “minha pátria é minha língua”, não deixa de haver uma certa sutileza nisso, quando se sabe que foi criado na África do Sul e grande parte de suas primeiras leituras e primeiros escritos foi em inglês.
 
https://lareviewofbooks.org/article/prison-left-me-laughing-a-conversation-with-ngugi-wa-thiongo/
 
O queniano Ngugi Wa Thiong’o, cujo idioma nativo é o gikuyu, conversou com a Los Angeles Review of Books e lembrou a importância de ter uma língua natal. O jornalista perguntou-lhe se escrever em sua própria língua era uma questão de “salvação pessoal” ou de “libertação coletiva”.
 
NWT – Eu suponho que quando alguém escreve em inglês escreve para sua salvação pessoal. Joseph Conrad era polonês, mas aprendeu inglês aos 19 anos e produziu uma incrível obra literária nesse idioma. Foi uma questão pessoal, no sentido de que ele se realizou coo escritor, ou algo assim, mas ele não contribuiu para com a literatura polonesa. O mesmo se aplica a escritores como Chinua Achebe e eu. Things Fall Apart (1958), de Achebe, é um romance brilhante, em inglês; mas que não fez nada, absolutamente nada, pela literatura ibo. O mesmo no caso de James Joyce e muitos escritores irlandeses, pois o irlandês foi também sistematicamente destruído pelos colonizadores ingleses. James Joyce, na verdade, é bastante consciente, em seus escritos, da questão do idioma, mas ainda assim ele escreveu em inglês. O mesmo se aplica a meus primeiros romances, escritos em inglês: Weep Not, Child (1964), The River Between (1965), A Grain of Wheat (1967) e Petals of Blood (1977). Sou feliz por tê-los escrito, mas estou mais satisfeito ainda por ter escrito meus romances subsequentes em gikuyu.
 
(...)
 
Eu recuso uma hierarquia de línguas onde algumas línguas presumem ser mais elevadas do que outras – especialmente nos países pós-coloniais que experimentam algum tipo de sistema de opressão. Ao mesmo tempo, acredito que todas as línguas são únicas, especiais. Cada língua, por menor que seja, possui uma musicalidade única, que não pode ser substituída por outra. Gosto de compará-las a instrumentos musicais. Um piano tem seu som ou sua musicalidade específica, que não pode ser confundida com a de uma guitarra. Quando diferentes instrumentos estão tocando juntos, produzem harmonia; uma orquestra de muitas línguas.
 
Por que razão o senhor se recusa a usar o termo “língua de minorias” em seu livro?
 
NWT – Porque esse termo é geralmente usado de uma maneira ridícula. Pense, por exemplo, num idioma da Índia, que é falado por milhões de pessoas, mas ainda é chamado de “língua das minorias”. (Risos) Esses termos são parte do sistema hierárquico que eu rejeito. Mas existem línguas de poder? É claro! A língua do poder é a língua da nação dominante, ou a língua da classe dominante em uma nação. Eu sou do Quênia, e a minha língua materna é o gikuyu, mas no Quênia o inglês é a língua da administração pública e da educação – a língua do poder – mesmo que 90% dos quenianos não o usem. Se você pretende se educar ou alcançar qualquer posição no governo, tem que se curvar à linguagem do poder.
 
O senhor satirizou o modo como países africanos exploram os desfavorecidos para criar uma imagem pública. Há uma cena no começo de Wizard Of The Crow em que o narrador menciona que mendigos e moscas estão sendo usados nas ruas de Aburiria para atrair turistas.
 
NWT – (Risos) Olhe para as imagens da África. Elas mostram, em geral, a pobreza extrema, ou a riqueza da fauna e da flora, mas ignoram as pessoas comuns e as pessoas ricas que vivem ali. A África não é feita somente de pobres, de narizes escorrendo e moscas em volta dos olhos; está cheia de gente dirigindo Mercedes-Benz e helicópteros. O essencial seria mostrar as duas coisas. Não falo em ignorar a pobreza, mas em mostrar os dois lados, e revelar suas conexões. Se eu vier à Bélgica com a minha câmera, não vou apontá-la apenas para os palácios e os arranha-céus, mas também para as ruas, e o modo como o povo vive.
 


(Bruce Sterling)

Bruce Sterling, escritor de ficção científica, é um dos criadores do movimento cyberpunk, e seu trabalho eventual como jornalista (para revistas como Wired e outras) o levou a viajar pelo mundo todo. Ele acabou casando com uma sérvia, e em 2007 estava morando em Belgrado. Numa entrevista à Locus (#561, outubro 2007), ele comentou essa experiência de expatriamento voluntário, curiosidade por outras culturas e o choque que o olhar norte-americano (que ele considera meio provinciano, tacanho) experimenta diante da realidade da Europa Oriental.
 
 
BS – Uma coisa em que venho pensando ultimamente é um romance “regional” sobre o Planeta Terra. O mundo tornou-se um lugar pequeno, e é preciso que se escreva um romance-de-cidadezinha-pequena a respeito dele. Eu sou de uma região [Texas] muito voltada para o romance regional. O romance regional texano gira em torno da angústia do Gótico Sulista, sobre pais e filhos e a posse da terra – coisas tipo Lonesome Dove. Precisamos de um livro que relate o que aconteceu conosco de um ponto de vista transnacional, para interpretar o sentido cultural de tudo isto e fazer julgamentos de valor a seu respeito, porque é algo cada vez mais forte, e está acontecendo muito depressa. Isto vai ser bom para o quê, vai ser ruim para o quê? Quem são os vencedores, quem são os derrotados? O que temos a ganhar com isso tudo? Alguém precisa criar obras literárias sobre a globalização, mas não é o meu caso, porque não sou um grande romancista. (...)
 
Eu vivo hoje num país [a Sérvia] que já atravessou seis colapsos econômicos, mas você ainda consegue sair de casa e obter um jantar. Belgrado é uma cidade em gráfico ascendente no momento atual. Eles já passaram por uma hiperinflação, onde você vai ao mercado com um carrinho de mão cheio de cédulas e compra um pão; e não apenas todas as pessoas perderam suas economias, como depois vieram os bandidos e atearam fogo à cidade. Mas o mundo não se acabou (ele se acaba quando para de chover por dois anos e toda a vegetação morre). Essa situação econômica é apenas um epifenômeno. Você pode visitar lugares por toda a Europa onde a economia já entrou em colapso. A Europa é cheia de sociedade pós-catástrofes.” (...)
 
Se você viaja pelos Bálcãs, vê o tempo inteiro pessoas que já perderam tudo. Eles têm uma espécie de resiliência, um humor sinistro a esse respeito. Para mim, é uma espécie de segundo lar espiritual, de muitas maneiras, uma sociedade com um temperamento muito mais sombrio. Eu sou uma espécie de figura piadista, fazendo frases de mau-humor ao estilo de Mencken, mas em Belgrado eles me veem como um cara leve, um cara divertido. “Você é um americano amistoso, sempre espirituoso, sempre com uma frase engraçada.” Na América, dizem: “Por que você vive escrevendo sobre distopias?”  Não são distopias, é o mundo que é assim.”

Existe provavelmente espaço para o crescimento de uma literatura transnacionalista que não abra mão de todas as conquistas linguísticas, temáticas e ideológicas dos nacionalismos literários, mas que seja capaz de articular esse nacionalismo aos seus equivalentes mundo afora. Seria uma maneira de combater a padronização, a uniformização das narrativas, a propagação de uma literatura consumista que seria a mesma em todos os continentes.


 











sexta-feira, 21 de julho de 2023

4964) O não-espaço (21.7.2023)



(ilustração: Sujit Sudhi)



Um não-espaço é qualquer lugar capaz de servir como uma negação (mesmo uma negação puramente simbólica) do espaço convencionalmente aceito. 
 
Não é um conceito científico, é dramatúrgico. Tem função na literatura e em outras artes narrativas. Serve para o autor pegar um personagem e retirá-lo do espaço comum a todos, engastando-o num local onde tudo tem que se reorganizar em torno dele. 
 
“A Terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa (em Primeiras Estórias, 1962) é um bom exemplo desse conceito. Um homem já idoso constrói para si uma pequena canoa e, abandonando a família sem dar explicações, mete-se na canoa rio adentro, mas sem se deixar levar pela correnteza e sem atravessar o rio por completo. Fica para lá e para cá, indo e voltando, no meio do rio. 
 
É um não-espaço no sentido de que ele procura permanecer num espaço que, em uso comum, serve apenas como fluxo, como espaço a ser transposto e deixado para trás. Nesse espaço de não-permanência, ele se instala e não faz menção de sair. 



(O Terminal)

Outro exemplo, mas com características totalmente diversas, é o filme O Terminal (Steven Spielberg, 2004). Tom Hanks faz o papel de um cidadão de um pequeno país em turbulência política. Ao desembarcar no aeroporto de Nova York, ele fica sabendo que devido a um golpe de Estado seu país não existe mais, e seu passaporte não tem valor. Ele não pode embarcar de volta, não pode ser aceito em território dos EUA, não pode embarcar para outro lugar. Fica morando no não-espaço do aeroporto.
 
Um local de passagem, de fluxo, onde ele é forçado a criar técnicas e truques de morador permanente.


(Simão do Deserto) 

O não-espaço pode ser escolhido por motivos publicamente aceitáveis. É o caso do protagonista de Simão do Deserto (Luís Buñuel, 1965), uma reconstituição fantástica da vida de alguns santos medievais, principalmente Simão Estilita, que passou 37 anos vivendo no alto de uma pilastra. O santo se isola ali no alto para se martirizar, para fugir às tentações do mundo, e também para servir de exemplo, pois multidões se reúnem para assistir o “não-espetáculo”. 
 
A coluna do santo faz lembrar outro conto de Guimarães Rosa, no mesmo livro: “Darandina”. Um homem chega a uma Casa de Saúde ou hospício e pede para ser internado, pois acha que o mundo lá fora está ficando cada vez mais louco e se o destino dele é ficar doido também é melhor garantir desde logo um bom lugar. Como o homem não parece doido coisa nenhuma, não é aceito; mas imediatamente vai para o meio da rua, rouba pertences dos passantes e escala uma enorme palmeira que há na praça. 




Lá em cima, o homem grita frases de efeito para a multidão que rapidamente se reúne, e acaba tirando a roupa por completo e jogando-a lá do alto. Os bombeiros vêm mas hesitam, com medo de que ele se jogue, mas de repente o surto acaba, ele se horroriza e desce de boa vontade.
 
O alto da palmeira é um não-espaço, um lugar onde alguém só subiria para cumprir alguma tarefa rápida e descer em seguida. É um lugar onde ninguém é proibido de ir, mas só um doido quereria se demorar ali em cima. 


Uma situação parecida com  personagem de Ítalo Calvino em O Barão nas Árvores (1957), em que um rapaz decide passar o resto da vida morando nas ramagens das árvores, sem voltar a pôr o pé no chão. É uma decisão não muito distante da do barqueiro de “A Terceira Margem do Rio”, e embora a história percorra caminhos diferentes, o não-espaço está ali: o espaço de que só pode se locomover sem tocar no chão. 
 
O não-espaço é muitas vezes uma espécie de limbo, de lugar isolado de tudo, um lugar não-lugar. Fora do espaço-tempo, talvez – e é neste aspecto que a ficção científica multiplica as situações em que alguém se situa num tal “ponto negativo”. 


 
Isto vem desde a FC mais pulp fiction, como as narrativas do imaginoso e envolvente F. Richard-Bessière. Em A Máquina Infernal do Tempo ("Carrefour du Temps"Tecnoprint, s/d, trad. David Jardim Júnior) ele mostra como o repórter Sidney Gordon, por ter praticado um ato que ameaçava a própria existência do nosso Universo, é “exilado” dele e instalado num “não espaço”. Ele acorda à noite em seu apartamento e estranha a escuridão absoluta no quarto:
 
O pior, porém, foi quando me debrucei sobre a sacada. Diante e embaixo de mim, não havia coisa alguma, a não ser o vácuo impalpável e aterrador. Dir-se-ia que a vida material tivesse desaparecido, além daquele peitoril e que não existisse a própria cidade. Acima, de mim, a mesma coisa. Senti, então, o maior medo de toda a minha vida, pois pensei que estivesse cego. O grito que quis dar não saiu da minha garganta, e foi com a mão trêmula que acendi o isqueiro...
Graças a Deus, não estava cego... Estava vendo tudo que se encontrava DENTRO do quarto, mas coisa alguma que estivesse FORA dele. 
Que se passava?
Corri para a porta e abri-a, bruscamente.
Não sei o que se teria passado, se eu não tivesse recuado instintivamente. Dessa vez, gritei mesmo, e senti um suor frio escorrer-me ao longo da espinha. O que se estava passando era fantasmagórico, alucinante. Para além da porta não havia mais o corredor. Em seu lugar estava o nada, o vácuo, o infinito, o desconhecido... 
 
Este tipo de não-espaço não tem verossimilhança científica, e é produzido apenas para efeito dramático. (Praticamente tudo na pulp fiction visa apenas ao efeito dramático, e a Ciência que vá pastar.)



Ligeiramente menos implausível, pelo menos em termos narrativos, é o não-espaço onde um personagem é projetado em Zeitgeist (2000, Bruce Sterling). Por estar muito próximo ao local da explosão de uma bomba atômica, no deserto do Novo México, o Vovô Joe deixa de existir no aqui-e-agora do nosso espaço-tempo, e vê-se espalhado ao longo de todo o século 20, como quando a gente espalha com a mão uma mancha úmida de tinta. Um não-espaço que na verdade é um não-tempo: há resíduos dele espalhados ao longo de todo o século 20, mas ele permanece lúcido e consegue se comunicar com o neto. 
 
Não acho que seja forçação de barra comparar o destino de Vovô Joe com o destino do “nosso Pai” de “A terceira margem do rio”. É a força do símbolo (e do símbolo em branco, sem conteúdo pré-fixado) que inspira e arrasta estas histórias: a nossa fascinação pela possibilidade de imaginar um destino improvável mas que corresponde, pela simples negação, à realidade em que vivemos. Ajuda a ver essa realidade “de fora”, de um espaço que é virtual, conceitual, dramatúrgico, alegórico, nocional: um não-espaço. 
 
 







terça-feira, 24 de maio de 2022

4826) "Love, Death & Robots - ano 3" (24.5.2022)



 
Os derradeiros despojos da ficção científica dos Estados Unidos foram repartidos entre a Disneylândia e o Pentágono.
 
A frase acima não representa minha opinião oficial sobre o tema. É apenas um gracejo que me ocorreu, enquanto assistia a terceira temporada da ótima série de animação Love, Death and Robots (produzida por David Fincher), que entrou recentemente na Netflix. O nível técnico da série (a animação em si) é de excelente qualidade, as histórias são rotineiras mas bem desenvolvidas. Há várias adaptações de contos de autores da “primeira linha” da FC (Ellison, Scalzi, Bacigalupi, Ballard, etc. – e nesta terceira série, Bruce Sterling e Michael Swanwick.).
 
Aqui, minhas impressões sobre os nove episódios desta série mais recente.
 

Ep. 1 – “Three Robots: Exit Strategies”, de Patrick Osborn, bas. em John Scalzi.
São três robozinhos exploradores dos resíduos da civilização humana. Ficaram como uma espécie de personagens-símbolo da série. Diálogos curtos e ferinos, mostrando as razões do fracasso do processo civilizatório no planeta Terra, fracasso que já em 2022 era irreversível e de conhecimento público, mas, fazer o quê?  Fazer humor, melhor que nada.

 

Ep. 2 – “Bad Travelling”, de David Fincher, bas. em Neal Asher
Um monstro meio crustáceo-antropófago se apodera de um navio e sequestra a tripulação. Uma narrativa totalmente noturna e dark, que não tem nada de mais mas acaba se destacando por sua ambientação marítima e retrô, fugindo ao tom de space opera da maioria dos episódios da série.
 



Ep. 3 – “The very pulse of the machine”, de Emily Dean, bas. em Michael Swanwick
Uma astronauta “naufraga” num satélite e precisa aproveitar o oxigênio da companheira que morreu no acidente, enquanto atravessa a pé um deserto e se enche de drogas para manter-se viva. Visões alucinógenas, comunicação telepática... uma daquelas “robinsonadas” da FC, pessoa sozinha tentando sobreviver em meio hostil. 
 
 

Ep. 4 – “Night of the Mini Dead”, de Robert Bisi & Andy Lion, bas. em Jeff Fowler & Tim Miller.
Um dos melhores episódios, descrevendo a escalada gradual (mas acelerada) de um apocalipse zumbi que começa no cemitério de uma cidade e acaba se espalhado pelo planeta. O uso permanente da imagem distanciada é um recurso simples mas muito eficaz. A narrativa é tão acelerada quando a ação. Lembra o episódio “Ice Age” da 1ª. temporada, em que toda uma civilização se desenvolve e se auto-destrói em poucos dias, no freezer de um casal.



Ep. 5 – “Kill Team Kill”, de Jennifer Yuh Nelson, bas. em Justin Coates
Um fucking team de soldados armados até os fucking dentes enfrenta na floresta um fucking urso-cyborg criado pela CIA, numa orgia de disparos, rajadas e fucking explosões. Uma prova de que as armas de fogo não passam de um substituto-potencializador da ejaculação masculina (ou pelo menos é isso que um personagem dá a entender, lá na fucking linguagem dele).
 



Ep. 6 – “Swarm”, de Tim Miller, bas. em Bruce Sterling
É a única história desta série que eu já conhecia, baseado num dos contos mais intrigantes de Sterling (1982; no livro Crystal Express, 1989), da sua série “Shaper/Mechanist”. Cientistas humanos mergulham num mundo subterrâneo (ou subaquático?), comunicando-se com espécies alienígenas através de feromônios. Não reli o conto, não sei até que ponto o enredo se mantém, mas a estranheza do ambiente e dos seres é muito bem reconstituída. A animação a serviço da imaginação pura, cheia de alusões e de subtextos biológicos. Um dos melhores episódios desta série.
 


Ep. 7 – “Mason’s Rats”, de Carlos Stevens, bas. em Neal Asher
Um fazendeiro precisa de livrar de uma praga de ratos mutantes, inteligentes, e recorre a um vendedor de armamento de extermínio high-tech. Desgraça vai se amontoando por cima de desgraça, enquanto ele é forçado a comprar armas cada vez mais sofisticadas e mais caras, que fazem os ratos evoluírem milênios em questão de dias. O fazendeiro começa a ficar de saco cheio com aquilo, e a ter idéias. Ótimo episódio de tiroteio, com humor e criatividade.



Ep. 8 – “In vaulted halls entombed”, de Jerome Chen, bas. em Alan Baxter
Outra fucking aventura de um fucking grupo de super-soldados invadindo uma caverna protegida por enxames (?) de fucking aranhas metálicas antropófagas. Os sobreviventes acabam tendo acesso a um fucking templo megalítico subterrâneo, onde (depois que a munição deles se esgota) uma fucking criatura lovecraftiana os hipnotiza e pede para ser libertada. Fuck.



Ep. 9 – “Jibaro”, de Alberto Mielgo.
É o episódio mais enigmático e elusivo de todos, mostrando um grupo de guerreiros numa floresta sendo atraídos a um lago por uma aparição feminina que lembra um destaque de Escola de Samba e que causa um morticínio geral. Faço piadas, mas o episódio tem uma belíssima sucessão de imagens, tem uma narrativa puramente visual que lembra em alguns momentos o ritmo “aos solavancos” dos videogames, e nele a violência é um elemento, apenas, numa mandala narrativa de mitologia e mistério. O diretor Mielgo (ao que parece, autor do argumento) já havia apresentado, na temporada 1, o episódio “The Witness”.
 
Três temporadas já são o suficiente para fazer desta série uma das melhores séries antologia de FC em streaming, comparável aos melhores momentos de Black Mirror. O fato de ser em animação é um atrativo a mais, porque de história para história não mudamos apenas de ambiente e personagens, mudamos o alfabeto visual por inteiro. Mesmo com as inevitáveis repetições!  Grupos de mercenários fuzilando monstros, pessoas trancafiadas com monstros em ambientes fechados, robôs frankensteinianamente descontrolados, personagens aparentemente frágeis ou ingênuos revelando-se páreo-duro para monstros ou exércitos...
 
São os clichês e as convenções de qualquer gênero bem sucedido quando encontra um novo nicho de expressão e exibição. É sempre bom levar em conta que mesmo um clichê acaba sendo visto pela primeira vez por alguém, porque novas gerações de espectadores não param de surgir. E la nave va.
 
 
 
 







sábado, 1 de abril de 2017

4222) O palíndromo na literatura (1.4.2017)



O palíndromo é aquela frase que pode ser lida do começo para o fim e do fim para o começo e dá o mesmo resultado.

O palíndromo básico, talvez o mais famoso em nossa língua, é: ROMA ME TEM AMOR. É tão famoso que é citado até em livros em inglês, como o clássico I Love Me, vol. I, de Michael Donner (Algonquin Books, 1996)


O meu palíndromo preferido em português sempre foi este, que me lembra uma cena pitoresca do filme de Hitchcock, O Homem que Sabia Demais:

SOCORRAM-ME! SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS  

É a cena no começo do filme, em que James Stewart e sua família, viajando por Marrocos, começam a se enredar por acaso numa trama de espionagem que vai colocar suas vidas em perigo:


Para quem, como eu, tem uma certa idéia fixa num assunto tão desnecessário para a vida prática, aconselho também esse fininho e riquíssimo volume, Palindromes and Anagrams de Howard W. Bergerson (Dover, 1973):


Por alguma razão misteriosa, mas que me parece auto-evidente, muitos autores de literatura fantástica têm uma certa fascinação pelos palíndromos. Acho que a primeira pista disso me veio no conto de Julio Cortázar “A distante” (em Bestiário,1951). A narradora usa charadas e jogos de palavras variados para combater a insônia, inclusive palíndromos:

Os fáceis, pula Lênin o atlas; amigo não gema; os mais difíceis e formosos, ata-o, demoníaco Caim, ou me delata; Anás usou teu auto, Susana.
(trad. Remy Gorga Filho)



O tradutor optou por verter diretamente as frases para o português, e elas perderam o caráter palindrômico que têm em espanhol:

SALTA LENIN EL ATLAS
AMIGO NO GIMA
ATA-LE, DEMONIACO CAIN, O ME DELATA
ANAS USO TU AUTO, SUSANA

Na mesma época em que Bestiário era um modesto sucesso de vendas e de leituras no Brasil, Osman Lins publicou seu monumental romance Avalovara (Melhoramentos, 1973) um romance estruturado em cima de duas imagens geométricas (uma espiral e um quadrado) sendo que neste último, dividido em cinco linhas de cinco quadrados cada uma, está inscrita a frase latina SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, que significa aproximadamente “o lavrador mentém com cuidado o arado nos sulcos”. (Sem contar com as interpretações místico-herméticas, que são muitas).



Cortázar e Osman são autores que nessa época dos anos 1970 estiveram associados ao tal realismo mágico, um estilo ou gênero ou movimento de literatura fantástica latino-americano. Os dois tinham preocupações estruturalistas e uma certa tendência a ver os aspectos literários que envolvem jogo, enigma, decifração, uma espécie de duelo brincalhão, mas profundo, entre o autor e o leitor.

Depois, no entanto, vim a reencontrar os palíndromos em obras mais próximas da ficção científica do que do realismo mágico latino-americano.

Tim Powers, em Expiration Date (1995) postulou a existência de fantasmas de pessoas que ficam, após a morte, meio de bobeira no mundo material. Eles têm uma inteligência rudimentar e com seus filamentos ectoplásmicos conseguem mover coisas materiais levezinhas: poeira, fios de cabelo, pedregulhos, pequenos pedaços de alguma coisa.


Nesse mundo (Califórnia, contemporânea) existe um mercado de espíritos, e a trama do romance, que é cheio de perseguições, fugas e peripécias, é a busca do espírito de Thomas Edison que alguém recolheu num vidro no momento de sua morte – pois a alma da pessoa deixa o corpo juntamente com seu último suspiro.

Nesse mercado de fantasmas, uma das técnicas usadas para atraí-los é escrever palíndromos e deixá-los bem à vista num lugar que se sabe frequentado por eles. Com a inteligenciazinha que têm, eles veem aquela mensagem escrita e têm curiosidade de saber o que é. Começam a ler e se deparam com frases como:

SIT ON A POTATO PAN, OTIS (sente numa lata de batatas, Otis)
GO HANG A SALAMI, I’M A LASAGNA HOG (pode pendurar seu salame, eu gosto é de lasanha)

...e assim por diante. O que acontece? Quando chega ao fim da frase os fantasmas (que eu suponho serem meio míopes, e que leem aquilo com o nariz ectoplásmico quase encostado no papel) voltam no sentido inverso, maravilhando-se com o fato de aquilo continuar a fazer sentido. Com isso, ficam presos ali durante horas, indo e voltando, e quando os caça-fantasmas vêm checar a armadilha é só sugar cada espectro para dentro de um vidrinho adrede preparado.

Sim, admito que uma teoria como essa tem muito pouco de ficção científica. Esqueci de avisar que Tim Powers pertence, mais do que à FC (onde produziu livros notáveis como Os Portais de Anúbis, 1983, e O Palácio dos Pervertidos, 1985) a uma espécie de fantasia urbana contemporânea na faixa de Neil Gaiman, Jonathan Carroll e Angela Carter.

Quem é ficção científica mesmo é Bruce Sterling, um dos inventores do movimento cyberpunk. Em 2000 Sterling publicou um dos seus romances mais divertidos, Zeitgeist, onde ele recorre a um dos seus personagens constantes, Leggy Starlitz (cujo nome se diz inspirado no de Ziggy Stardust, de David Bowie).


Starlitz é o protótipo do sujeito descolado do século 21, uma Deep Web ambulante de informações secretas, truques cibernéticos, manobras marginais. Um talento à margem do sistema, combatendo o sistema e vivendo do sistema.

Em Zeitgeist, Starlitz vive de uma idéia genial: ele monta uma banda feminina de rock chamada G-7, com sete pseudo-cantoras gostosinhas e que não cantam nada (é tudo playback), representando os sete países que mandam no mundo. O mercado-alvo são os países do Terceiro Mundo, cujas populações são incapazes de distinguir a boa música pop da música pop que não vale nada.

A banda não vive em função dos shows: Starlitz quer ficar rico vendendo os direitos relativos a bonecos, chaveiros, mochilas, bonés e toda a parafernália comercial do mundo pop. É uma espécie de “último grande golpe para se aposentar rico”.

A certa altura, Starlitz pega um avião e vai aos EUA, levando a filha pequena, para se aconselhar com seu pai. O pai dele tem uma história interessante. Por detalhes longos demais para explicar aqui, o velho estava justamente no local onde foi explodida uma bomba atômica no deserto do Novo México. A consequência disso é que ele foi projetado no continuum espaço-tempo mais ou menos como alguém espalha com a mão uma mancha de tinta úmida. Ou seja: existem resíduos de Vovô Joe ao longo de todo o restante do século.

Vovô Joe, que era um índio nativo americano, só pode ser contactado via complicados rituais – e quando se comunica é através de palíndromos. O Javanese Navajo (“Oh, navajo javanês!”), exclama ele, que é índio navajo de origem. Mais adiante diz: Ma is as selfless as I am (“Mamãe é tão altruísta quanto eu sou”).

A comunicação Leggy/Vovô é meio indireta, e Leggy escuta os palíndromos ditos pelo fantasma do velho e os explica (com bastante liberdade imaginativa) à filha. Mais ou menos como os gregos deviam fazer com as frases cabalísticas ditas pela pitonisa de Delfos ou pela sibila de Cumas.

O palíndromo serve a escritores assim como um objeto de crucial e perigosa simetria, um objeto sagrado em que a alteração de uma só letra faria desmoronar toda a estrutura. São objetos verbais perfeitos, e como tal podem assumir (dramaturgicamente) poderes mágicos, hipnóticos, simbólicos, sobrenaturais.

Num universo sujeito à Segunda Lei da Termodinâmica, um universo que marcha inexoravelmente numa só direção do Tempo, o palíndromo parece nos dizer que é possível fugir a essa lei de ferro e marchar na direção inversa – mesmo que seja somente para continuar dizendo as mesmas coisas. 









terça-feira, 21 de outubro de 2014

3636) "Distraction" (21.10.2014)


Isaac Asimov disse certa vez que, quando a bomba de Hiroshima explodiu, o mundo inteiro percebeu que estava vivendo numa ilha-da-fantasia, e que as únicas pessoas que viviam no mundo real eram os escritores de ficção científica.  Isto não se deve a alguma suposta capacidade dos escritores de FC para “prever o futuro”.  Nem todo escritor de FC está querendo “prever o futuro” quando escreve.  Alguns querem simplesmente criar uma história fantástica, envolvendo coisas que não existem e ambientes que não se encontram neste mundo daqui.  A possibilidade de estarem “profetizando o que vai acontecer um dia” lhes pareceria ridícula. 


Outros são escritores que conhecem de maneira extensa e profunda o mundo atual; sabem o que está ocorrendo na tecnologia, na economia, na política -- ambientes onde coisas novas acontecem o tempo inteiro, e continuam a acontecer por muito tempo.  Nós é que não sabemos; estamos preocupados com nossas vidas, nosso trabalho, e os fatos comuns em nossa cidade.  Só tomamos conhecimento de alguma revolução tecnológica ou política quando ela explode nas manchetes do mundo inteiro.  Alguém aí já tinha ouvido falar na Al-Qaeda antes do 11 de setembro?  Eu não tinha.



Bruce Sterling é um desses escritores que “sabem tudo” que está ocorrendo no mundo de hoje, e seus livros são rotulados como ficção científica por mera comodidade editorial, e porque alguns deles ocorrem num futuro próximo – dez ou vinte anos para a frente.  Tirando isto, são livros que fazem um retrato rico e impiedoso de coisas já latentes no mundo atual.  Distraction (1998) é a história de Oscar Valparaiso, um personagem meio picaresco, surreal, divertido.  Oscar é uma espécie de bebê-de-proveta criado num laboratório clandestino por traficantes-de-bebês colombianos, e adotado por um astro de Hollywood.  Depois de crescido, ele torna-se coordenador da campanha de um Senador.  O livro começa aí, num período em que os EUA estão entregues ao caos, depois que a concorrência com a China “quebrou” o país, reduzindo-o à bancarrota.



Oscar é aquele cara que tem um “jeitinho brasileiro” para tudo; negociador infatigável, cheio de recursos e de armações, que não desiste de nada.  Tem espírito de marqueteiro de campanha misturado com investidor na Bolsa. A história ocorre em grande parte numa Louisiana de pesadelo (o livro é pré-Katrina), e num futuro em que os EUA estão mais caóticos e entregues às milícias do que a Rússia de hoje. A destruição do país foi econômica e política, uma implosão de dentro para fora. É um futuro plausível, surrealista, mais possível a cada ano que passa.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

3430) Histórias de espiões (23.2.2014)



O romance de espionagem teve seu “boom” a partir dos anos 1960, auge da Guerra Fria, mas já vem de longe. Se brincar, remonta até a Baronesa de Orczy e suas aventuras do “Pimpinela Escarlate” ajudando nobres a fugirem da guilhotina durante a Revolução Francesa.  Muitos escritores ilustres não apenas escreveram romances de espionagem, como também trabalharam como espiões para a Inglaterra – foi o caso de Somerset Maugham na I Guerra Mundial e de Graham Greene na segunda.

É de Maugham o romance Ashenden – o Agente Secreto (1928), na verdade um “fix-up” – conjunto de narrativas unificadas mediante um personagem, tema ou ambientação.  (O livro serviu de base para o filme homônimo de Hitchcock.) O protagonista é um escritor convocado para ajudar o Serviço Secreto britânico na Europa durante a Guerra. Suas missões incluem vigiar pessoas, facilitar contatos, mas também ajudar na execução de um ou outro agente inimigo. Não é uma leitura para os fãs de Ian Fleming ou de John Le Carré, que turbinaram a dramaticidade do gênero em termos de suspense, intensa movimentação, enredos intrincados como armações de xadrez. Maugham se baseou em suas experiências, e o livro tem aquele teor meio vago e inconcluso dos acontecimentos da vida real.

Quem foi grande fã do livro foi Raymond Chandler, para quem (em 1949) o romance de Maugham estava “muito à frente de qualquer outra história de espionagem já escrita”, e chegou a pedir ao seu editor inglês uma cópia autografada (e conseguiu). Disse ele: “É como se houvesse o tempo inteiro algo vago e sinistro por trás das cortinas. Na maioria dos outros livros, você apenas tem medo do cara com um revólver.”

Além do jogo político-ideológico, sempre tenso e interessante, o romance de espionagem, melhor do que qualquer outro, explora essa sensação imprecisa de perigos invisíveis, intenções duplas ou triplas por trás de cada ação, dúvida constante sobre cada personagem. Em Ashenden, a espionagem é o reino do mistério constante, onde o agente segue as instruções sem saber ao certo para que servem, ou o quê, precisamente, está em jogo.

A trilogia recente de William Gibson, da qual já foram traduzidos aqui Reconhecimento de Padrões e Território Fantasma, recupera essa sensação de aventuras individuais arrastadas em conspirações globais invisíveis, as tramas “vagas e sinistras” a que Chandler se refere.  A onipresença da Web como instrumento de manipulação resulta em histórias como “Maneki Neko” (1998) de Bruce Sterling, em que, como Ashenden, o protagonista cumpre ações que não entende, para dar seguimento a uma manobra internacional onde não passa de um simples peão.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

3181) O Dono do Mundo (9.5.2013)






Nossa literatura sempre gostou de contar a história dos Donos do Mundo. Qualquer cara merecedor desse título, mesmo em escala regional, merece um romance ou um filme 35mm, não é verdade? 

O regionalismo nordestino nos deu inúmeros donos-do-mundo na pessoa dos fazendeiros de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, e por aí vai. Cada senhor de engenho ou criador de gado sabia-se dono de um mundo, e como era o único mundo de que ele tomava conhecimento, essa consciência era invulnerável a argumentos.

O Cinema Novo e o Realismo Mágico trouxeram uma dimensão extra a esse mito. O Dono do Mundo deixou de ser objeto de análises e descrições históricas e pulou direto para a categoria de mito, de lenda, de personagem maior-que-a-vida. 

Em O Senhor Presidente de Astúrias, O Outono do Patriarca de Garcia Márquez, Cabeças Cortadas de Glauber Rocha e inúmeras outras obras o Dono do Mundo é um indivíduo neurótico, desmedido, imprevisível, alucinado... 

Como os deuses bêbados das antigas mitologias, ele detém o poder total sobre nosso mundo mas não tem o menor controle sobre as próprias emoções. Como os reis bêbados (nos quais, certamente, o conceito antigo de Deus se inspirou), podem nos dar hoje a fortuna, amanhã o cadafalso, e depois de amanhã chorar nossa ausência.

A ficção científica está transpondo esse conceito para os ricos do nosso tempo. São aqueles bilionários, CEOs de megacorporações, políticos, altos funcionários, etc., que praticamente vivem em seus jatinhos, saltando de capital em capital e costurando a rede das finanças globalizadas. 

São o Hubertus Bigend dos livros de William Gibson, o governador Huey Hugelet de Bruce Sterling, o Weyland (Guy Pearce) do filme Prometheus... Não são indivíduos onipotentes, por mais poderes que tenham. São guerreiros envolvidos em conflitos que nós, formiguinhas perdidas na poeira das ruas, mal somos capazes de vislumbrar.

Ninguém melhor do que a FC para recuperar a aura mítica, surpreendente, aterrorizante e fascinante, daqueles ditadores latino-americanos “capazes de horrores e de ações sublimes”. 

São personagens de estatura mítica pela dimensão cósmica de sua ambição, crueldade, esperteza, magnetismo. Um pouco semideuses, um pouco super-heróis, não têm poderes de natureza física como Superman. Seu poder é totalmente social (os cargos que ocupam) e psicológico (as qualidades que têm). Projetamos neles nossos medos e nossas ambições. 

Eles são, de certo modo, o que qualquer um de nós seria se de uma hora para outra se tornasse bilionário, poderoso, influente, respeitado, paparicado. A FC é a única literatura que pode descrever adequadamente os Donos do Mundo de nosso tempo.









quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

2776) A Guerra de 12 (26.1.2012)




Houve várias “guerras de 12” referentes a 1912, e não duvido que 1812 tenha oferecido algumas guerras famosas também. A que conheço melhor é aquela que o advogado e fazendeiro Augusto Santa Cruz moveu, à frente de 200 jagunços, contra as autoridades de Alagoa do Monteiro, por duas vezes. Na primeira, em 1911, prendeu e desmoralizou todos, em praça pública, mas foi combatido, bateu em retirada e refugiou-se sob a proteção do Padre Cícero, enquanto os desafetos destruíam e incendiavam sua fazenda. Voltou em 12, reorganizou o bando, juntou-se a Franklin Dantas. Tornou a invadir Monteiro, e desta vez foi em frente, invadiu Taperoá, Patos, Santa Luzia do Sabugi, Soledade; foi derrotado apenas em São João do Cariri. A história dessa guerra está no brilhante livro Guerreiro Togado, de Pedro Nunes Filho.

Mas a Guerra de Doze a que me refiro é a que está em curso, a Guerra Digital entre as autoridades e empresas que pretendem interferir na troca livre de arquivos via Internet, e as empresas, grupos ou indivíduos que não admitem isso. Entre 19 e 20 de janeiro a polícia prendeu os responsáveis pelo portal Megaupload e tirou o saite do ar, e o coletivo Anonymous tirou do ar por algum tempo saites das autoridades, como o FBI, e de empresas. O que foi chamado nas redes sociais de Primeira Guerra Digital pode ter sido a primeira escaramuça de uma guerra maior. Até que ponto um lado tem poder policial e político para continuar fechando saites e aprovando leis de censura? Até que ponto o outro lado pode bloquear saites, e que outras formas de represália cibernética (ou não) ele pode utilizar?

Em 1992, Bruce Sterling lançou o livro The Hacker Crackdown, sobre a operação do Serviço Secreto norte-americano, que em 1990 invadiu a “Steven Jackson Games” e apreendeu material da empresa (em 1993 um tribunal considerou essa operação “executada sem cuidado, ilegal, e completamente injustificada”). O livro de Sterling mostra como a Internet recebeu o poderoso afluente das tecnologias telefônicas dos EUA para ser o que é. E foi também o primeiro livro (ou pelo menos o primeiro livro que já era sucesso de vendas) a ser oferecido gratuitamente para download. Neste momento, alguém envolvido nessas guerras deve estar juntando material para escrever um livro análogo. Ou o livro está sendo escrito ao mesmo tempo por pessoas que não se conhecem, em países diferentes, sem que elas mesmas tenham isto em mente; é um livro descentralizado, sem índice, sem ordem cronológica, um livro apenas páginas de texto que vão sendo digitadas no dia a dia por escritores tão anônimos que não sabem que são escritores.

sábado, 1 de maio de 2010

1982) Moiré, o infotografável (16.7.2009)



(Moiré, à esquerda)

Existem pessoas não-fotografáveis, pessoas cuja imagem, por alguma razão, é impossível captar através das câmaras? Um artigo de Lytle Shaw, publicado no Cabinet Magazine (http://www.cabinetmagazine.org/issues/7/ernstmoire.php) diz que era justamente isto que acontecia com o fotógrafo suíço Ernst Moiré (1857-1929). As fotos de Moiré que sobrevivem (e que Shaw reproduz em seu artigo) mostram imagens distorcidas. Uma interferência visual impede que seus traços sejam corretamente captados pelas lentes ou reproduzidos depois no papel fotográfico. Segundo ele, Moiré deu seu nome ao efeito muito conhecido nas artes visuais, em que duas séries justapostas de linhas paralelas produzem um efeito de ondas ou de curvas distorcendo as linhas que as compõem.

Ou teria sido o contrário? O efeito já existia, e Shaw, numa jogada borgiana que hoje já virou lugar comum (eu mesmo a emprego a três por dois) inventou um autor fictício para justificar o nome? Diz ele que Moiré existiu, sim, e que, segundo o governo suíço, um fotógrafo chamado Moiré era considerado, na Suíça dos anos 1920, como impérvio à fotografia, e que esses seus desaparecimentos bizarros tornaram-se uma fonte de orgulho nacionalista. Moiré era louvado, por ser um Ludita anti-tecnológico, pelos membros anti-modernistas da cultura popular suíça, por essa sua “neutralidade visual” que driblava o rigor tecnológico. Diz-se (continua Shaw) que os arquivos municipais de Zurique abrigam uma coleção de fotografias em que aparece uma figura borrada, “ilegível”, que seria em todos os casos o próprio Moiré.

O artigo de Shaw prossegue relatando sua ida a Suíça, financiada pelo “Cabinet Magazine”, sua exumação do passado da família Moiré, e sua descoberta de outros detalhes enigmáticos da vida do fotógrafo, como o fato de que costumava não assinar os próprios documentos, e de que fez várias descobertas técnicas no campo da reprodução fotográfica mas foi incapaz de patenteá-las, sendo sistematicamente ultrapassado por outros pesquisadores que, hoje, figuram nos livros de História. A criação do termo “efeito Moiré” deveu-se a um erro de impressão (placas fotográficas mal alinhadas, produzindo um borrão) num trabalho para o governo; o sócio de Moiré, Willi Ostler, tentou esquivar-se à fúria do contratante dizendo que o defeito de impressão tinha sido culpa de Moiré.

Bem, não posso resumir aqui todo o longo artigo de Shaw. Seja ele verdadeiro ou seja uma “pegadinha” borgiana, o fato é que o tema do indivíduo infotografável foi retomado por Bruce Sterling em sua série de histórias sobre o personagem Leggy Starlitz, uma espécie de herói picaresco do século 21, eternamente envolvido com contrabando, negociatas, espionagem industrial e política. Toda vez que alguém tenta fotografá-lo ou filmá-lo, a máquina enguiça. Por que? O próprio Starlitz não sabe. Pode ser o efeito Moiré: o fato de que o Mito só é visível para a mente.

sábado, 24 de abril de 2010

1952) Escândalos sexuais (11.6.2009)



O escritor Bruce Sterling sugeriu o termo “centopéia” para descrever um tipo de crime (não sei se a palavra tecnicamente se aplica) que sempre existiu na política mas que se intensificou com a cultura digital. A centopéia é um conjunto de informações verdadeiras e falsas, misturadas e divulgadas de forma a liquidar a carreira de um político. Todo político tem as fraquezas de qualquer ser humano, agravadas pela embriaguez de poder de quem ocupa um cargo e imagina que continuará ali para sempre. Oportunidades não faltam, e, como dizia Oscar Wilde, “sou capaz de resistir a tudo, menos a uma tentação”.

A centopéia é geralmente um escândalo sexual habilmente preparado pelos adversários da vítima. Segundo Cory Doctorow, que divulgou a teoria no blog BoingBoing, “ela dá a impressão de ser espontânea e estar preocupada com valores morais, mas na verdade é planejada e está visando o poder”. Sterling a chama de centopéia porque ela é segmentada, age às escondidas, e é cheia de veneno. Os ingredientes principais são:

1) Uma vítima numa posição de poder. 2) Um(a) parceiro(a) sexual da vítima. 3) Informações vazadas sobre a conduta sexual da vítima. 4) Militantes online: blogs, listas de mensagens, websaites de vídeos. 5) Atrizes, cantoras ou modelos com algum tipo de envolvimento no caso, para atrair com seu glamour a atenção da massa. Diz Sterling: “um político que tenha um caso com uma mulher feia, gorda, de meia-idade e de origem proletária é praticamente à prova de centopéias”. 6) Políticos de oposição que afirmem estar chocados e peçam a imediata punição da vítima. 7) Mídia digital, tablóides, TV a cabo e redes de TV aberta (que serão exploradas exatamente nesta ordem). 8) Uma investigação policial ou o mero boato a respeito de uma. 9) Uma população feroz e devassa, que se enfurece com a mera idéia de que políticos possam ter o mesmo tipo de relações sexuais ilícitas que eles têm. 10) Aspectos que, quando ocorrem, dão sabor mais picante ao caso: uso de drogas, adolescentes molestados, líderes religiosos (líderes de campanhas anti-pornografia são especialmente vulneráveis a centopéias), venda clandestina de vídeos comprometedores, vazamento de emails e chats, computadores confiscados, roubo de celulares com câmara, grampos telefônicos, malas-diretas anônimas com DVDs difamatórios.

Em geral (diz Sterling) uma centopéia bem feita derruba um político em pouco tempo. Uma centopéia mal sucedida se dilui em mero boato maldoso. A maioria delas é visivelmente produzida por alguém, com revelações sendo liberadas numa sequência que obedece um plano estratégico. O BoingBoing cita exemplos de 2008 na Índia, Grécia, Polônia, Indonésia, África do Sul, Grã-Bretanha e EUA. Mas a centopéia parece se dar bem com o clima moral dos EUA, um país bifronte onde o Moralista e o Depravado moram parede-meia um com o outro, e adivinhem qual dos dois olha pela fechadura para saber o que o outro vive fazendo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

1658) O que é steampunk (5.7.2008)




Um dos meus ramos preferidos da ficção científica é o gênero chamado “steampunk”, histórias de FC ambientadas na segunda metade do século 19, de preferência em Londres. Como surgiu esse subgênero? Talvez tenha algo a ver com uma homenagem a escritores que foram pioneiros da FC e Fantasia escrevendo nesse período: H. G. Wells, Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, H. Rider Haggard, Bram Stoker, etc.

O nome “steampunk” é uma “variante de “cyberpunk”. Este último fala dos marginais (“punk”) numa sociedade cibernética; o outro fala dos marginais numa sociedade movida a vapor (“steam”). Os romances “steampunk” transcorrem numa civilização em que as invenções fictícias coexistem com lampiões de gás, zepelins, balões, coches puxados a cavalo, locomotivas, etc. É o mundo de Sherlock Holmes, de Jack o Estripador, dos heróis de Charles Dickens, só que invadido de repente por alienígenas, homens artificiais, computadores mecânicos, máquinas do tempo, sociedades secretas, etc.

Em The Difference Engine, de William Gibson & Bruce Sterling, imagina-se que foi possível aos britânicos construir o gigantesco computador mecânico imaginado por Charles Babbage, que funcionava de modo parecido com aquelas calculadoras manuais que tínhamos antigamente nos escritórios – engrenagens, alavancas, rodas dentadas... Um computador assim jamais foi construído (seria, dizem, inviável do ponto de vista mecânico); mas Gibson & Sterling imaginam que ele foi construído, funcionou, e a partir daí colocam na sociedade inglesa de 1855 uma série de elementos transformadores que, na vida real, só vieram a acontecer 150 anos depois.

Um filme “steampunk” recente é O Grande Truque (The Prestige), em que Christian Bale e Hugh Jackman fazem dois mágicos de teatro envolvidos numa batalha de egos; o lado FC da história vem através da presença do inventor Nikolas Tesla, a quem cabe transformar o filme numa história legítima de FC.

O charme maior do “steampunk” é a mistura anacrônica entre o antigo e o futurista. Paradoxalmente, o futurista às vezes é muito próximo ao nosso cotidiano do século 21, principalmente no que se refere a informática, equipamentos eletrônicos, etc. E a tecnologia da época Vitoriana nos leva de volta a uma época em que havia uma crença ilimitada na razão da Ciência e nos inevitáveis benefícios que ela nos traria. A Ciência de hoje está inextricavelmente entrelaçada ao nosso cotidiano, aos nossos problemas. Engenharia genética, clones, DNA, tudo isto está permeado de comercialismo e exploração industrial. O programa espacial vive marcando passo. Os computadores dominaram o mundo, mas se nivelaram ao automóvel e à TV, banalizaram-se como meras engenhocas domésticas. O cenário Vitoriano, levando-nos de volta aos tempos de Julio Verne e H. G. Wells, nos transporta para um momento mágico da História em que tudo parecia ainda mais possível do que hoje.