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terça-feira, 20 de outubro de 2015

3950) Nós fumo (21.10.2015)



“Não é somente no cinema que isto veio a se cristalizar como clichê, mas também na literatura,” disse Philip Marlowe, batendo a cinza do Camel num cinzeiro redondo de vidro. Levou o cigarro aos lábios, aspirou a fumaça, soltou-a em dois tubos paralelos, parodiando um touro enfurecido. “Nem todos os autores têm facilidade para preencher os tempos mortos de uma cena onde duas ou mais pessoas falam entre si. É preciso fazer com que essas pessoas interajam com o ambiente, façam algum gesto. Os outros personagens me servem bebidas, oferecem-me tabaco, e quando eu bebo eu acabo aceitando.”

“Pois eu não sabia o que fazer com as mãos,” disse James Bond, cigarrilha no dedo.  “Não era disso que aquelas coadjuvantes se queixavam,” observou Miss Marple, firmemente limitada ao seu chá de sempre. “Minha cara senhora,” disse Bond fazendo uma curvatura risonha, “na mesa de jogo ou no leito amoroso geralmente já se sabe o que se vai fazer. O problema, como nosso bom Marlowe assinalou, são os bate-papos dos personagens. A ‘conversation piece’ dos nossos pintores. Descrever o que alguém faz com o cigarro ajuda a intercalar as falas com algo que contenta os olhos. Alguns leitores precisam dessas informações visuais mais do que outros.”

“E alguns autores sabem fornecer isto melhor do que outros, Mr. Bond, mas permita lembrar-lhe que nem só de cigarros vive a nossa estirpe,” disse Sherlock Holmes, sugando repetidamente ao cachimbo de roseira-brava, constatando-o de fogo morto, riscando um fósforo de cera, aplicando-o ao fornilho inerte e vendo-o esbrasear-se e consumir-se quase que de dentro para fora. “A proverbial nitidez e o proverbial claro-escuro de tudo que é ficção vitoriana, sem dúvida”, disse Miss Marple, “sempre levando em conta, claro, que quem viveu a era vitoriana desconhecia essa palavra e descreveria seu próprio tempo, talvez, em termos muito diversos.”

“Nós somos no fundo uns neo-vitorianos,” disse Doc Sportello, enquanto estendia na mesinha a seda, deslindava berlotas, enfileirava o matagal picadinho, dava a enrolada final na múmia e acendia o prepúcio de papel. “A Califórnia é uma Londres, só que ensolarada pelo lado de fora.”  Marlowe puxou um charuto cubano do bolso interno do paletó, mordeu-lhe a ponta, cuspiu-a pela janela que dava para o Tâmisa e disse: “Todo romance na verdade conta duas histórias, a história do que aconteceu, e as falas que os personagens pronunciaram. Quem sabe um dia invadirão o descanso eterno das nossas sepulturas para cortar nosso texto. No futuro, censores condenarão esta pequena antologia. No futuro ninguém saberá que fumávamos”. “Fumarei a isto”, disse alguma voz.



sexta-feira, 25 de junho de 2010

2193) A capa sobre a lama (19.3.2010)




(A Hard Day's Night)

No final do século 16 Sir Walter Raleigh era um dos nobres da Corte presentes num evento social em que a Rainha Elizabeth I, ao caminhar, deteve-se, hesitante, diante de uma poça de lama. 

Todo mundo ficou pensando em alguma coisa para fazer, mas Raleigh adiantou-se e fez: arrancou sua capa de veludo, que custava uma nota preta, e a estendeu sobre a lama para que a Rainha não sujasse os sapatinhos e a barra do vestido. 

Qual a Rainha que não se apaixona, diante de uma galanteria como esta? Sir Walter caiu nas graças de Elizabeth, e o resto, como se diz, é História. 

Ou Estória, porque este episódio (segundo os historiadores) nunca ocorreu. Seu maior popularizador foi o romance histórico Kenilworth de Walter Scott (1821), em que o caso todo é recontado com certo charme.

Gestos assim se fixam no inconsciente coletivo de um povo, porque em 1899, em seu livro The Wind Among the Reeds, William Butler Yeats publicou um pequenino poema, hoje um dos mais famosos de sua obra, intitulado “He Wishes For the Clothes of Heaven”, que diz: 

Se eu fosse dono dos panos bordados do Céu 
tecidos com luz de ouro e de prata 
os panos azuis e escuros e negros da noite 
e da luz e da meia-luz do crepúsculo 
eu estenderia esses panos aos teus pés; 
mas, já que sou pobre, tenho apenas os meus sonhos 
e os estendi aos teus pés; 
pisa devagar, porque estás pisando sobre os meus sonhos. 

Além da historicidade do gesto (familiar a qualquer britânico, pela tradição), o poema encanta pela beleza das imagens e pelo paradoxo de alguém não ter nada precioso para oferecer a sua dama, mas este mesmo fato torna preciosa a única coisa que ele tem: os seus sonhos.

Tudo que mergulha e se deposita no inconsciente coletivo pode ser trazido à tona pelo humor, que é uma perfuratriz capaz de atingir qualquer Pré-Sal em dois segundos. Em 1964, Richard Lester dirigiu o primeiro filme sobre os Beatles A Hard Day’s Night. Uma das sequências mostra Ringo Starr saindo dos estúdios, onde os amigos esperam a hora do ensaio, e indo passear sem destino por Londres. 

A certa altura, ele está atravessando algo que parece um canteiro de obras (não tenho o filme à mão agora, estou citando de memória). Aparece uma dama elegante que hesita diante de uma poça de água e lama. Ringo cobre a poça com sua capa, a dama passa e sorri. Mais adiante, outra poça. Ringo repete o gesto, ela fica ainda mais feliz. Mais à frente, uma terceira poça. Ringo coloca a capa mais uma vez, a dama pisa... e afunda até desaparecer, pois era um buraco enorme.

John Lennon, na letra de “I’m so Tired”, referiu-se a Raleigh: 

Embora eu esteja tão cansado 
vou acender outro cigarro 
e maldito seja Sir Walter Raleigh 
aquele bastardo tão estúpido. 

É uma referência a outra lenda: que um criado de Raleigh teria despejado um balde dágua sobre o patrão quando o viu fumando, por não saber o que era aquilo. Raleigh foi um dos responsáveis pela introdução do tabaco na Europa.





domingo, 2 de maio de 2010

1985) A desinvenção do cigarro (19.7.2009)



Eu vejo uns 10 ou 15 filmes por mês, a maioria deles no DVD e na TV a cabo. Filmes de todas as épocas, desde o cinema mudo até lançamentos atuais. E, nos filmes mais antigos, uma coisa que sempre me impressiona é a quantidade de cigarros que o pessoal fuma. Toda cena tem alguém fumando. Casais namoram no sofá, trocando juras de amor e beijos, e cada um tem um cigarro fumegante entre os dedos. Sabemos hoje que a indústria do cigarro investiu pesado no cinema como canal de merchandising subliminar, para impor ao público dos anos 1940, 1950, por aí, a noção de que fumar era sofisticado, era chique, era moderno, era para os homens uma demonstração de masculinidade e para as mulheres uma afirmação de independência. O resultado? Comprem um maço de cigarro e olhem no verso.

No cinema se explica: os diretores perceberam logo que as volutas de fumaça davam um charme à imagem luminosa, davam um movimento, uma poesia visual. Como dizia John Ford, “nada como uma fogueira acesa para dar vida a um plano”. E os atores gostavam, porque o cigarro lhes dava (como disse certa vez James Bond) “algo que fazer com as mãos”. Mas na vida real o câncer, o enfisema e o enfarte foram comendo o mercado do fumo pelas beiras. Em Nova York, há mais de dez anos, fiquei intrigado ao ver dezenas de executivos de ambos os sexos, no frio, parados no pátio externo dos edifícios de escritórios, em grupos de vinte ou trinta pessoas. Alguns conversavam, mas a maioria estava apenas parada, o olhar perdido, o gesto impaciente... e fumando. Tinham que sair do prédio para fumar. Isto me surpreendeu. Na época, os aviões reservavam os assentos do fundo para os fumantes. Não havia a campanha feroz que existe hoje.

Li um depoimento de um combatente do fumo em que ele afirmava: “No futuro, os cigarros e os cinzeiros serão tão obsoletos e parecerão tão estapafúrdios quanto nos parecem, hoje, os rolos de tabaco levados no bolso e as escarradeiras nos lugares públicos”. E de fato, eu ainda alcancei um tempo em que as pessoas, numa bodega, mordiam e mastigavam aquele fumo-de-rolo escuro, e cuspiam o resultado em esguicho, na calçada.

Os EUA inventaram o mito e o comércio do cigarro – e agora o estão desinventando. No filme de Al Gore, Uma Verdade Inconveniente, ele conta que a fortuna da família veio com plantações de tabaco, e que a irmã, fumante, morreu de câncer no pulmão. Uma pequena metáfora de todo esse processo. Existe hoje uma mobilização geral no país para restringir os espaços dos fumantes. Por outro lado, na Europa, principalmente na França, com seu pendor anti-dominação-americana, existe um apego ao cigarro como “exercício da liberdade”. Os franceses se apegam ao fumo como demonstração de independência cultural. Mas a desinvenção do cigarro é mais um exemplo da “grana que ergue e destrói”. Se os EUA acabarem de fato com o hábito do fumo, pra mim isso é uma prova de que nada no mundo é impossível.