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segunda-feira, 20 de julho de 2026

5245) Copa 2026: futebol tem lógica (20.7.2026)



 

Espanha 1x0 Argentina! 
 
E pronto, a Espanha tornou-se, pela segunda vez, campeã do mundo. Na minha cabeça, isto desmente pela milésima vez o antigo clichê dos coleguinhas comentaristas esportivos: “Ah, futebol não tem lógica!...”. 
 
A lógica do futebol não é uma lógica exata, é uma lógica de Ciências Humanas, e sendo assim só pode funcionar por aproximação, ou probabilisticamente. 
 
Se, no jogo deste domingo, a Argentina conseguisse fazer 1x0 na prorrogação e ganhasse o título, o resultado também teria por trás de si uma lógica implacável, mesmo que dolorosa. Quem não faz, leva. Com a Argentina não se brinca. Com Messi em campo, tudo pode acontecer. 
 
A Ciência é forçada a lidar com esse tipo de lógica difusa (“fuzzy logic”).  Não há certezas. Mesmo uma tendência esmagadora na direção “A” pode ser revertida bruscamente na direção “B” por um fator inesperado, dificilmente previsível. E isso está na raiz do jogo de futebol. 
 
A Espanha foi campeã, mas na cabeça de muita gente esta Copa ficará conhecida como “a Copa de Cabo Verde” – essa seleção desconhecida e inesperada que não perdeu para a seleção campeã, e só foi derrotada pela vice-campeã Argentina depois de muito suor, num jogo equilibradíssimo que facilmente poderia ter tido um placar inverso. 


(foto: Chandan Kanna)
 

Toda Copa do Mundo produz uma dúzia de narrativas épicas: o grande time que fracassou na hora H, o jogador obscuro que fez o gol do título, o time azarão que aplicou uma zebra num favorito, o erro do juiz que até ele mesmo concordou, o zagueiro que fez um gol contra e foi assassinado, o potentado que tentou mudar o resultado de um jogo, o acidente lamentável que pode ter cortado pelo meio uma carreira... 
 
Cabo Verde trouxe para a Copa 2026 a aventura improvável vivida por uma ilha minúscula. Ela saiu “pegando no laço” jogadores do mundo inteiro com algum vínculo genealógico, e montou um time medianamente competitivo. Mostrou em campo que esses atletas (que não jogam no país) eram capazes de muito mais garra e determinação do que seleções consagradas e elencos com milionários contratos de publicidade. 
 
O grande jogo da Copa, para mim, foi Argentina 3x2 Cabo Verde, 120 minutos de um confronto em que cada palmo da grama foi disputado com sangue, suor e lágrimas, e com muito talento de parte a parte. 
 
Pertinho desse jogo eu colocaria Inglaterra 3x2 México, no caldeirão do Estádio Azteca, com belos gols, um clima sufocante, e uma resistência heróica dos ingleses reduzidos a dez homens em campo. 



O Brasil fez jogos mornos, sem grande brilho e sem grandes emoções. O melhor jogo nosso foi a virada sobre o Japão, não por ter mostrado um grande futebol, mas pelo sofrimento de começar perdendo, conseguir o empate, e depois fazer o gol da vitória no último minuto. 
 
Nossa Seleção joga sem alma. Joga com a tensão acabrunhada (ou com a empáfia postiça) de quem já começa devendo e sabe que não tem com que pagar. 
 
Tem um técnico que se adapta bem ao material humano de que dispõe. Foi assim que Carlo Ancelotti ganhou tudo pelo Real Madrid, mas veio parar, coitado, num covil de raposas que é a CBF, a política brasileira, a publicidade brasileira, a imprensa brasileira e as redes sociais brasileiras. Desejo-lhe sorte da próxima vez, mas sem muita esperança. Metade desta Copa ele perdeu na convocação. 
 
A Espanha foi campeã jogando esse jogo de cerca-cerca, tocando bola e chegando aos poucos. Não é o meu futebol preferido. Gosto de times rápidos, que esticam passes em profundidade... Jogadores que entram na área driblando quem aparece pela frente... Times que chutam em gol de qualquer ângulo e de qualquer distância... Sou o último romântico. 
 
Admiro a tática e a técnica, mas gosto mais da garra, daí que mesmo a contragosto aplaudi a via-crucis da Argentina e a admirável presença de Lionel Messi. Nestas últimas partidas, Messi parecia um jogador radioativo. Pegava a bola na ponta-direita e os adversários ficavam a três metros de distância. Ninguém queria partir pra cima do toureiro. 
 
E o jogo avança no formato de sempre: a bola vai para a ponta-esquerda, é tocada para o jogador mais à direita, deste para o próximo, até chegar na ponta-direita, e ai recomeça tudo no sentido inverso, num semi-círculo de passes à frente da área, à espera de um deslocamento milagroso, uma rachadura no muro da represa. 
 
É o jogo do City de Guardiola, time que admiro (também a contragosto), porque sei o quanto aquilo exige inteligência e habilidade de quem faz a bola circular daquele jeito. É só uma questão de gosto, mesmo. Gosto de times que, quando se apossam da bola, partem a toda velocidade na direção do gol, três, quatro, cinco jogadores ao mesmo tempo, como se o jogo fosse acabar daí a dez segundos. 
 
A Copa teve seus momentos baixos, claro. As absurdas intervenções do presidente dos EUA na arbitragem, e na foto da premiação. E o tratamento vergonhoso dispensado pelo Estado policial norte-americano a jogadores da África e principalmente do Irã. 



É uma coisa meio surrealista você saber que dois países estão em guerra (mesmo uma guerra não oficialmente declarada, pois o Congresso dos EUA não a autorizou) e um deles tem que receber a seleção (e os torcedores) do outro. Parece um roteiro a quatro mãos entre Douglas Adams e George Orwell. 
 
Lembro de Orwell porque o autor de Animal Farm tem um ensaio famoso contra o futebol, escrito logo após a II Guerra, quando os ódios nacionalistas da Europa ainda não tinham arrefecido. 



Aproveitando uma excursão do Dínamo de Moscou pela Inglaterra, para enfrentar times britânicos, Orwell arregaçou as mangas e mandou ver.
 
Agora que a breve visita da equipe de futebol do Dínamo chegou ao fim, é possível dizer publicamente o que muitas pessoas lúcidas vinham afirmando em privado, antes mesmo da chegada do Dínamo. Ou seja: que o esporte é uma fonte inesgotável de animosidade, e que se uma visita dessa natureza teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas foi o de torná-las um tanto pior do que já estavam.
(“The Sporting Spirit”, 1945, Essays, Penguin, 2000, trad. BT)
 
Orwell vê essas disputas, compreensivelmente, não como um enfrentamento meramente esportivo, mas como símbolos do espírito de cada nação.
 
O detalhe mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude do público e, para além do público, das próprias nações, sujeitas a ataques de fúria a propósito desses embates absurdos, e que acreditam seriamente – pelo menos por curtos períodos de tempo – que o ato de correr, pular e dar pontapés numa bola são testes para as virtudes nacionais.
 
Ele não vê muitos elementos redentores no esporte:
 
O esporte levado a sério não tem nenhuma relação com “jogo limpo”. Ele é repleto de ódio, ciúme, arrogância, desprezo pelas regras, além do prazer sádico na contemplação da violência. Em outras palavras, é a guerra, só que sem disparos de armas de fogo.
 
Acho que isso coloca em perspectiva, inclusive, o papel do Brasil dentro da história do futebol mundial. Quando começou a II Guerra, tinham acontecido apenas três Copas: 1930 (campeão Uruguai), 1934 e 1938 (bi-campeã Itália). E o conflito cancelou, obviamente, as Copas que poderiam ter acontecido em 1942 e 1946.


 
Depois de uma guerra sangrenta e um hiato de doze anos, o Brasil construiu “o maior estádio do mundo” para acolher equipes do mundo inteiro. Foi uma espécie de Woodstock da paz. Num clima de muita politicagem e demagogia, mas, enfim – foi uma grande Copa, e podemos mesmo considerar que foi uma espécie de recomeço. A moderna Copa do Mundo começou em 1950.
 
O Brasil deu chocolates memoráveis nos europeus (7x1 na Suécia, 6x1 na Espanha). João Saldanha, que não se iludia facilmente, afirmava: “A juventude da Europa foi estraçalhada pela guerra. Daqui a uma ou duas gerações a coisa vai mudar”.
 
Mas o Maracanã inteiro cantou “Touradas em Madri” fazendo Braguinha chorar na arquibancada, e o time do Uruguai introduziu, no jogo final, o pulo-do-gato da “fuzzy logic” que deixaria perplexos tantos observadores, fossem cartesianos ou marxistas.
 
Eu vejo essas coisas como torcedor, ou seja, na condição de quem compartilha uma fantasia coletiva, e toda fantasia coletiva se parece com uma Realidade. Já o bravo George Orwell não conta conversa:



(Orwell, by Baptistão) 

 
A maior parte dos esportes que hoje praticamos tem origem na Antiguidade, mas o esporte não parece ter sido encarado muito a sério entre a era romana e o século 19. Mesmo nas escolas públicas britânicas o culto aos jogos não floresceu senão a partir de meados do século passado. (...) E então, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os jogos começaram a se constituir numa atividade com pesado financiamento, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção começou a se alastrar pelos demais países. E são os esportes mais violentos, o futebol e o boxe, os que mais se espalharam. Sem dúvida isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, ao lunático hábito moderno de um indivíduo se identificar com grandes estruturas de poder e passar a enxergar todas as coisas pelo ângulo da competição e do prestígio.
 
O autor dessas linhas estava se preparando para escrever sua obra final, 1984, com seus conflitos globais entre Lestásia, Eurásia e Oceania, com seus “dois minutos de ódio” em salões coletivos, seu culto à personalidade, sua vigilância eletrônica.
 
E o nosso VAR, esse sistema misto de câmeras e computação gráfica, não acaba virando uma espécie de reescritura dos fatos e de reescritura da História pelo “Ministério da Verdade” orwelliano, em que as notícias dos jornais passados são reescritas e os jornais reimpressos, de modo a que fique valendo a versão imposta por quem detém o poder tecnológico de fornecer informação?
 
Bem, desculpem a digressão, acabei me distraindo e perdendo o fio da meada. Parabéns Espanha, parabéns Lamine Yamal e Cubarsí, jogam muito, esses garotos.



 
 





quarta-feira, 1 de julho de 2026

5242) À sombra das chuteiras imortais (1.7.2026)



 
Era este o título de uma série de crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol, no jornal O Globo, que eu lia com devoção, tanto quanto lia o “Meu Personagem da Semana”, a página dupla mantida por ele na antiga Manchete Esportiva que meu pai não só colecionava como encadernava. 
 
Não sei onde Nelson foi buscar essa frase, que é sonora, imponente, bem àquele estilo de tribuno nordestino amante dos gestos largos e da voz estentórica. Ele e seu irmão Mário Filho (que deu o nome ao estádio do Maracanã) eram iguais e antípodas ao mesmo tempo. Iguais no amor à literatura e ao futebol; antípodas no modo de ser e de escrever. 
 
Nelson tinha era um escritor cheio de veemência, de barroquismo. Mário era um espírito lúcido, pausado, preciso; escrevia com a elegância de um Machado e o bom humor de um Verissimo. 


(Nelson Rodrigues e Mário Filho) 

 
Resultado: Nelson marcou gerações inteiras com sua personalidade conturbada, cínica, emotiva, e sua linguagem cheia de exageros retóricos. Quanto a Mário Filho... poucos o leem hoje, e os outros não sabem o que estão perdendo. 
 
Nelson marcou para sempre o jeito de se escrever sobre futebol, e curiosamente ele mesmo dizia que não entendia muito de esquemas táticos ou sutilezas estratégicas. Sua matéria-prima era a emoção do futebol. Eram os destinos e as vicissitudes do sucesso e do fracasso; os grandes dramas e as grandes comédias, o lado épico e o lado picaresco do esporte bretão. E a tudo isto Nelson respondia com um vocabulário imprevisível, e com um impagável senso crítico sobre a comédia humana. 



 
Reza a lenda que certa vez um jornalista amigo de Nelson o abordou, um tanto enciumado de seu sucesso.
 
-- Puxa vida, Nelson, você escreve bem pra caramba, mas se repete muito.
 
-- Eu me repito? Qual nada.
 
-- Claro que se repete. Volta e meia você está reutilizando seus próprios clichês.
 
-- Isso é um absurdo, eu não tenho clichês.
 
-- Como não tem? “O olho rútilo e o lábio trêmulo...” “Uma granfina com narinas de cadáver...”  “Calçar as sandálias da humildade...” “Até uma cambaxirra paraplégica teria conseguido fazer esse gol...” “Subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional...” “Gorda e patusca como uma viúva machadiana...” Reconhece tudo isto?
 
-- Está vendo? – disse Nelson, triunfante. – Se eu não repetisse, você não teria se lembrado.
 
Não sei se o teor da conversa foi este, mas a lição de Nelson não foi outra. Quando a gente produz uma frase memorável, não deve atirá-la à vala comum do “uma só vez”. É preciso repeti-la, porque na vez seguinte dez pessoas a reconhecerão e duzentas estarão sendo apresentadas a ela somente agora. E assim por diante. As grandes tiradas afundam na areia movediça da desmemória coletiva se não forem resgatadas e postas a trabalhar de novo, vez em quando. Repita a frase, colega. Ela é sua. 



Nelson deixou marcados esses seus bordões porque era o homem da página de jornal e do palco de teatro, não o do livro capa-dura com lombada gravada a ouro. Sua literatura era uma literatura de feira-livre onde os produtos têm prazo de validade curto, mas podem ser substituídos na semana que vem por um equivalente perfeito. 


 
Nelson, fluminense roxo, ou melhor, verde-branco-grená, dizia que “o Fla-Flu começou a existir cinco minutos antes do Gênesis”. Na verdade, aposto que não foi bem isto que ele disse, mas já li de tantas formas e em tantas variantes que não importa mais: importa a idéia de grandeza cósmica que ele tenta aplicar ao jogo que mais mexia com as suas coronárias. 
 
E é assim que os grandes achados verbais perduram e se propagam: eles usam palavras inesperadas para comunicar uma idéia nova, e quando são bem sucedidos a idéia se fixa de tal modo na cabeça de quem ouve que na vez seguinte as palavras nem precisam ser as mesmas. 
 
Vale, também para as frases, aquele princípio essencial dos roteiristas de cinema sobre as histórias: história que dá filme é aquela que você pode recontar com suas próprias palavras e produzir o mesmo efeito, sem depender do léxico ou do fraseado do autor. 
 
O léxico e o fraseado de Nelson, porém, eram impagáveis, porque ele usava a língua portuguesa, ou a língua brasileira (tá bom, tá bom: a língua PB) como lhe dava na telha. No Brasil, os exemplos e os modelos do “escrever bem” se concentram em torno de Machado de Assis, de Guimarães Rosa, de Gilberto Freyre, de Antonio Cândido... Todos escrevem maravilhosamente, pelos meus critérios pessoais, mas dou graças aos céus dos agnósticos por ter assimilado doses maciças de Nelson na adolescência. “Escreva do jeito que você anda”, diria ele; “escreva com o que você tem.” 



 
E a “sombra das chuteiras imortais”? Estou aqui me coçando para ver se encomendo na Livraria Folha Seca o volume que tem esse título, porque meu pai o achava a coisa mais bonita do mundo, e eu, como sempre, ia no seu rastro. Não foi senão muito depois que comecei a questionar muita coisa, e no meio disso as tais sombras das chuteiras. 
 
Como é a sombra de uma chuteira? Bem, se alguém já as pendurou, a sombra se projeta oblíqua na parede. Mas se não é o caso, a sombra de um par de chuteiras tem exatamente o formato delas duas, dos seus solados com travas, em cima da grama onde pisam. É só isso que um jogador tem. 

O campo de futebol tem medidas vastíssimas, mesmo pelos parâmetros do futebol superatlético de hoje em dia. É um latifúndio, e a parte que cabe a um jogador, nesse latifúndio, é a parte onde pousam seus pés, onde pousa a sombra das chuteiras imortais. 
 
Estamos em tempo de Copa do Mundo, e esta é sempre uma época em que eu sinto o espírito de Nelson baixar sobre mim. 
 
Gosto de acompanhar futebol internacional, agora que tudo está no YouTube e equivalentes. Jogos da Champions League, jogos dos campeonatos inglês e espanhol (os dois que me interessam), algumas disputas de seleções (Eurocopa, etc.). 


 
(foto: Ina Fassbender) 
 

Não torço por ninguém, e não acho que o futebol só possa ser fruído, saboreado, se a gente torcer por um dos times. Acho que o espetáculo vale por si, o drama vale por si. Eu sou aquele cara que centenas de vezes na vida ligou a TV de tarde para ver o videotape de XV de Jaú vs. Ponte Preta. Por que? Sei lá. Porque em qualquer jogo de futebol pode acontecer uma coisa genial a qualquer instante. 



Quando chega Copa do Mundo, no entanto, menos do que o lance genial ou o gol de placa eu passo a acompanhar o sonho, o drama, o paraíso, o pesadelo. Não é um clube, é um país inteiro que está ali. E sinto isso muitíssimo mais forte quando se trata de pequenos países, de seleções sem muita tarimba. 
 
Esta Copa, com seu despropositado número de 48 participantes, tem essa atenuante: está trazendo seleções que nunca, ou raramente, disputaram uma fase de grupos, quanto mais um mata-mata. 
 
E em momentos assim eu viro uma espécie de Nelson Rodrigues, esqueço o gol de placa e me concentro no épico improvável de uma vitória do Equador ou do Paraguai (que começou a Copa tão mal) diante da Alemanha, ou de um empate de Cabo Verde com a Espanha, ou do heroísmo do Marrocos diante da Holanda. 
 
Acho que o brasileiro tem uma certa tendência a torcer pelo “underdog”, pelo time mais fraco. E por cima disso vem a identificação com essas torcidas (a maioria gente mais endinheirada do que eu, mas não importa) que está lá de joelhos, chorando, rezando, cuspindo, esbravejando, vivendo algumas semanas de vitórias impossíveis e derrotas insuportáveis. 
 
Cabo Verde virou a “cinderela” da Copa, a história que todo mundo gosta de ouvir contar. Pouco importa se não joga um futebol coletivo tão bem encaixado quanto o da Argentina, ou se não tem um elenco “Ocean’s Eleven” como o da França. Não vemos seus jogos em busca de novidades táticas ou de um novo Messi. Vemos para prestar homenagem a quem está vivendo um sonho, e para fazer parte desse sonho feliz antes que ele acabe. 



(foto: Chandan Kanna) 



 
 








quarta-feira, 13 de maio de 2026

5234) A bola e a fama (13.5.2026)

  




(fotos meramente ilustrativas)

1
 
Minha família se mudou para o Alto Branco em 1961, quando o Alto Branco era um continente à espera de Cristóvão Colombo. Era considerado um bairro distante, e não tinha sequer uma linha de ônibus – havia apenas uma precária linha de kombis onde todo mundo se amontoava e se espremia na maior festa, principalmente em dia de feira. 
 
E tinha vastas extensões de campo aberto, coberto de grama ou de areia fina, alqueires e mais alqueires disponíveis para a prática do esporte bretão. 
 
A maioria da turma da nossa rua estudava de manhã, de modo que a partir das 3 da tarde, quando o sol esfriava, corria todo mundo a jogar futebol. Futebol é um esporte adaptável, mutante. A gente jogava descalço, a bola era de plástico, e a barra eram duas pedras, ou dois montes de roupa. Barra-com-traves era um luxo raro.  


 
Foi um verdadeiro rito-de-passagem quando conseguimos nos cotizar para uma bola de couro marca Drible, número 3, que eu e Severino Brasil compramos na Casa Esporte, ao velho Fuba, e levamos trocando passes pela rua afora até chegar à casa dele na Napoleão Laureano. Já nos víamos como profissionais, porque eu e ele, com quinze anos, trabalhávamos no “Diário da Borborema” e recebíamos salário de verdade. 
 
E vou inserir aqui um personagem fictício mas simbólico. Um amigo nosso, que vou chamar aqui de “Aderbal”, e que era um dos mais animados com o jogo. Seu sonho era ser goleiro, não importava muito se do Treze, do Campinense ou do Paulistano (era no tempo em que existia o Paulistano). Os ídolos dele não eram Pelé nem Garrincha: eram Gilmar, Manga, Pompéia, Marcial, Cabeção... Sem esquecer, é claro, os ídolos locais: Waldemar, Augusto, Brito, Dudinha, Galego, Elias, Apinagés... 



 
Aderbal cultivava a mitologia goleirística com uma dedicação assombrosa. Um dia, apareceu de boné. Chamei Severino de banda.
 
-- Que moda é essa agora?
 
-- Ele disse que é por causa de Yashin – explicou ele. --  O boné protege a visão.
 
-- Então pra semana ele vem de óculos?!...
 
O boné tudo bem, mas o que invocava a gente é que quando vinha uma bola propícia Aderbal caprichava no salto. O modelo dele era Pompéia, do América, que a imprensa chamava “o Constellation”, uma marca de avião daquele tempo. Quando a bola era chutada de longe e vinha descrevendo um arco manso, descendente, Aderbal caprichava e se erguia no ar como um acrobata, corpo esticado, braços estendidos, sob os aplausos da molecada menor que se amontoava em volta do campinho para assistir.
 
-- Aderbal, a bola!
 
-- Não deu! – Ele se erguia esbaforido, espanando a poeira. – Muita força.
 
-- Rapaz, a bola era rasteira, tu pulasse pra cima!
 
Ele não pulava para a bola: pulava para os fotógrafos, aqueles fotógrafos imaginários que na fantasia dele haveriam de preservar seu vôo para as gerações futuras.
 
O jogo, para ele, era uma mera formalidade. O resultado da partida era irrelevante. Todo aquele moído acontecia apenas para que ele se erguesse no ar feito um albatroz e fosse clicado pelos fotógrafos do futuro. E quem de nós tinha o direito de criticar? Éramos meninos, cheios de energia, e todos sonhando. Sonhar com a foto não era muito diferente de sonhar com o gol.
 
Eu, Pedro, Severino, Geraldo, Jovany, Jânio, Fredinho, Pedro Augusto, Marinaldo, Luisão, Zezito, Zé Novo, Chiquinho Perácio, Jacinto, Belo, Nenê, Mizinho... O que importava mesmo era a alegria, no campo da Graminha ou das Barreiras. Ninguém ali estava destinado a sair com foto na página de esportes. (Bem – Luisão, que torcia pelo Campinense, chegou a jogar no Treze, e a treinar no Náutico.)



 
2

A gente pisca o olho, e passaram-se sessenta anos. O mundo é outro e o ser humano é o mesmo.
 
Dias atrás o jornal The New York Times produziu uma matéria intitulada “Os 30 Maiores Compositores Americanos Vivos”. Deu o que falar, porque o jornal convocou cerca de 250 votantes por todo o país para fornecerem suas listas, mas na verdade quem escolheu a lista final foram seis críticos do próprio jornal.
 
A polêmica está lavrando por lá, não apenas porque a escolha dos críticos “xóvens” deixou de fora inúmeros nomes respeitados, mas porque eles gravaram um videocast justificando suas escolhas – e foi possível constatar o quanto esse pessoal é autossuficiente, posudo, esnobe e todos os adjetivos equivalentes.
 
Fiquei sabendo da confusão através de dois comentaristas que respeito. O crítico Ted Gioia, que sigo na plataforma Substack, e o músico Rick Beato, cujos vídeos de análise musical vejo há anos no YouTube.  Nem sempre concordo com eles, claro; assim como nem sempre concordo comigo. Não importa. São os conceitos que contam, são os critérios que me fazem prestar atenção e manter respeito.

 
Disse Ted Gioia, numa postagem recente no Substack, sobre os “cricríticos” do New York Times:
 
https://www.honest-broker.com/p/rick-beato-versus-the-ny-times
 
Por uma curiosa coincidência, eu tinha postado uma crítica musical um dia antes desse vídeo do Times ser divulgado. Nesse artgo, intitulado “Nove Regras da Crítica de Música”, fiz esta afirmação:
 
“Confie na sua resposta emocional a um trabalho de criação artística, e abra o olho com as posições críticas que vão de encontro ao modo como você se sente. Abra o olho com qualquer crítico que menospreza a sua fruição da música ou de alguma outra forma de arte. Não estou dizendo que o crítico precisa concordar com essas reações suas, mas, uma clara hostilidade e um menosprezo doutrinário às suas reações emotivas a uma obra qualquer são um sinal de alerta.” (...)
 
Ted Gioia cita uma resposta do pianista de jazz Brad Mehldau, que descreve um tipo muito comum de crítico de música:
 
É um esnobe, ansioso para “estar por dentro”, e por isso torna-se crítico. Ele ouve música, não porque goste de música, mas porque é a música que define o seu modo narcisista de entender a si mesmo.
 
 
E aqui tem Rick Beato pegando-ar com a rapaziada:
 
https://www.youtube.com/watch?v=IQTMkjQvHoc
 
Não é só na música popular, concordam? É na crítica literária, na crítica de cinema, na crítica de teatro. Até mesmo nos comentaristas de futebol ou de política. O sujeito conquista posições de poder e usa esse poder para ser temido e bajulado. Seus critérios visam pessoas. São acima de tudo pessoais e pragmáticos, e têm pouco a ver com a qualidade artística (ou seu equivalente) do que parecem estar analisando. São narcisos afundando devagar nas águas turvas de si mesmos.
 
Isso é um pecado, é um crime? Talvez não seja, mas a questão não é esta. A crítica de arte, o jornalismo cultural, os prêmios literários e tudo que se assemelha a isto usam critérios pessoais. Sendo pessoais, precisam ser muito claros. Porque lidam com o subjetivo, com o gosto pessoal de cada um. O público precisa saber que não está sendo enganado, e que aquele crítico  não apenas “fez o dever de casa” (ninguém pode ser crítico sem estudo) mas também tem um respeito sincero pelas obras que está enaltecendo ou destruindo.
 
Sem esse respeito não há crítica. A crítica não pode ser um conjunto de abstrações teóricas impostas de cima para baixo, ou um conjunto de atitudes irônicas, piadinhas, rompantes furiosos, lacrações, venetas, julgamentos subjetivos que se recusam a examinar a si mesmos, que se recusam a submeter-se a algum tipo de freios-e-contrapesos.
 
Um crítico não tem o direito de dizer: “Não sei, só sei que foi assim”. (Um poeta tem.)
 
Críticos podem ser bajuladores, servis, interesseiros... E podem ser cruéis. Lembro que David Lean, o diretor de Lawrence da Arábia e de Doutor Jivago, caiu na besteira de aceitar um convite para um almoço com críticos de cinema novaiorquinos, quando lançou A Filha de Ryan, e saiu dali tão abalado que passou anos sem coragem de fazer outro filme.
 
Sou do tempo em que uma crítica musical no Jornal do Brasil tirava de cartaz um show que acabara de estrear no Canecão. O show era bom? Era ruim? Não importa. Essa concentração de poder é perigosa, e o excesso de poder, a gente já sabe, costuma puxar de dentro das pessoas o que elas têm de pior.
 
Quando vejo algumas barbaridades ditas por alguns “jornalistas” ou “influenciadores” contemporâneos, do alto de sua orgulhosa desinformação e de seus milhões de seguidores, a vontade que me dá é de murmurar baixinho: “Aderbal, olha a bola!”.


terça-feira, 3 de março de 2026

5224) O Flamengo está bêbado (3.3.2026)




O dinheiro é talvez a mais perigosa das drogas, porque não tem sintomas aparentes. O indivíduo bêbado-de-dinheiro parece normal, mas está sujeito, ou mais que isto, está condenado a praticar todo tipo de insensatez. 
 
O dinheiro produz sensações combinadas de invulnerabilidade, de impunidade, de onipotência, de estar-com-a-razão. Produz até mesmo a ilusão de ser amado, pela quantidade de gente sorridente que atrai. 
 
Já fiquei bêbado algumas vezes, mas, mais do que isso, já pastorei muito bêbo chato. Aquele amigo que se embebeda e não quer ir para casa, quer tomar a saideira, nem que seja na lata de lixo onde acabou de vomitar. 
 
Uma vez era um amigo que tinha acabado de assinar um contrato absurdamente desproporcional com sua vida financeira até então, e recebeu umas “luvas” astronômicas. Pegou o telefone, convocou todo mundo, patrocinou uma mesa de vinte pessoas num restaurante cujo nome não vem ao caso, insistiu em trazer três litros de uísque para uma mesa em que todo mundo só queria chope. (Era verão carioca. Verão é outra droga embriagadora, merece um capítulo à parte.) 



 
Ele não permitiu que ninguém puxasse a carteira. A noite desceu pelo ralo, todo mundo foi embora e fiquei eu, de olho nele, visto que morávamos no mesmo bairro e nenhum dos dois tinha carro, então sobrou pra mim. 
 
Um garçom, já à paisana, nos conduziu amável mas firmemente à porta; saímos para a rua nos primeiros rubores da aurora. Meu amigo cambaleou, abriu os braços para o mar, para a possibilidade do sol, eu com a mão no ombro dele para navegá-lo. Paramos num dogão da madruga. Ele apontou: 
 
-- Eu adoro essas coisas. Já teve noite que eu queria comer um desse e não podia pagar. 
 
-- Eu também – concordei, e era verdade. – Mas a gente acabou de comer uma bacalhoada. 
 
-- Dois, completos! – berrou ele, de dedo em riste, para a moça de olhos redondos e sonolentos. – Com tudo que tiver direito! Milho, maionese, ervilha, bacon, coentro... Tem coentro? 
 
-- Eu não quero – avisei. – E você não precisa. Olha, lá vem um táxi. Bora pegar esse. 
 
-- Pra viagem! – insistiu ele. – Come amanhã. 
 
Perdemos três táxis que passaram devagar, se oferecendo, até que recebemos os dois pacotes (nessas horas, concordar é mais simples). Ele puxou do bolso uma nota de cem reais, botou no balcão. 
 
-- Senhor, o seu troco. 
 
-- Não precisa! 
 
Semana passada, muitos anos depois, estávamos eu e ele na calçada de outro boteco, conversando abobrinhas, chorando pitangas, desdenhando as uvas verdes do sucesso alheio, e eu lembrei esse episódio. Ele passou a mão pelo cabelo agora branco, e disse: 
 
-- Rapaz, aquele foi um período muito maluco. Eu vi tanto dinheiro que pensei que estava vendo o dobro. 
 
Mudamos de assunto. Águas passadas. Sobrevivemos, não é verdade? Estamos aqui. Vamos pedir mais um chope e ficar de olho na pilhazinha de cartões. Vamos descontrair, vamos falar de futebol. 




Vamos falar do Flamengo, e seus 144 milhões de reais para contar com o ponta-esquerda Samuel Lino, e seus 58 milhões de reais pelo lateral-direito Emerson Royal, e seus 263 milhões de reais pelo meia-atacante Lucas Paquetá. 
 
(Não venham me corrigir as cifras, peguei no Google, e os valores são meramente ilustrativos.) 
 
Existe uma enorme semelhança entre o futebol e as altas finanças. São dois universos que se fundamentam na competição: as chances são poucas, os concorrentes muitos. Tudo é concorrência, é disputa, é antagonismo, tudo são desfechos onde alguém vai ganhar e alguém vai perder. E quem decide isso é o deus que preside esse dois universos: o Número. 
 
O futebol (os esportes, por extensão) se baseia no Número. É bem verdade que mil interpretações subjetivas podem ser aplicadas a um confronto, flutuação de critérios, sutilezas qualitativas, o escambau. Mas um a zero é um a zero, sete a um é sete a um. No mundo mental e emocional dessas pessoas, o Número é a última e definitiva instância que determina a realidade dos fatos, a direção da História. Os números são estes. Eu ganhei. Você perdeu. 
 
Eu ganhei mais vezes, eu perdi menos vezes, minha percentagem é maior, minha margem de erro é menor, minha média está subindo. Eu e você queríamos comprar algo, você ofereceu 5, eu ofereci 6 e levei. Eu sou o primeiro desta lista. Eu consegui isto mais vezes do que qualquer um. 
 
E nada disto é “opinião”: tudo é Número, a única coisa indiscutível do universo. 



 
O Brasil tem cerca de 300 bilionários. Vinte anos atrás, eram dois ou três. Não é exagero dizer que metade desses indivíduos vivem mais transtornados do que um inquilino da cracolândia. 
 
E milionários? São (é o que me traz a pesquisa de dois cliques) 572 mil no país, e entre estes pode incluir jogadores dos grandes times do mundo. Adivinhem quem está entre os grandes times do mundo. 
 
Não nos enganemos, quem manda no mundo é o conceito de Número, muito mais do que o conceito de Deus, que aceita diferentes versões, ou o de Democracia, que aparentemente ninguém leva a sério. 
 
O futebol é o universo dos empurrões, cabeçadas, quedas, cotoveladas, dribles, matadas no peito, embaixadinhas, folhas secas, lençóis, bola na trave, bola na bochecha da rede, gol de placa, chute na orelha da bola, cama-de-gato, corta-luz, drible da vaca... Mas tudo isto em função de um número. 
 
As altas finanças são compostas de ativos, passivos, debêntures, papéis da dívida, ações preferenciais, mercados futuros, helicópteros, jatinhos, carpetes, limos, charutos... Mas tudo isto, também, em função dos números. 
 
E a sensação numérica da fortuna financeira é mais grave do que “café espresso” ou outras drogas excitantes. 



 
Num dos seus contos de Dublinenses (1914), “Depois da Corrida”, James Joyce diagnosticava: “O deslocamento muito rápido pelo espaço nos deixa inebriados; o mesmo se dá com a fama; o mesmo se dá com a posse de dinheiro”. 
 
Joyce se referia às corridas de automóveis do começo do século passado. No conto, um rapaz irlandês, classe mediazinha, aficionado das corridas, faz uma farra-de-amanhecer-o-dia junto com amigos bem mais ricos do que ele, todos eles europeus do continente. Acaba torrando um dinheiro que não tem. 

Eu estava finalizando este artigo na madrugada de ontem para hoje, enlevado pela goleada de 8x0 que o Flamengo aplicou no time-com-10-homens do Madureira. Faltou a James Joyce completar: “Uma grande quantidade de gols nos deixa inebriados”. 
 
E nesse momento pipocaram nas redes sociais as notícias da demissão do técnico Filipe Luís e eu achei que não precisava dizer mais nada. Deixa o pessoal se divertir, antes que venha a ressaca. 









sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

5218) Cometa alguns erros (23.1.2026)




Eu estava vendo no YouTube uma interessante mesa-redonda (“Oscar Actors Roundtable”), realizada no fim do ano passado, com alguns atores que naquele momento estavam sendo cotados para indicação ao Oscar e a outros prêmios de Hollywood. 

Ali está o nosso Wagner Moura (O Agente Secreto) batendo papo com Benicio Del Toro (Uma Batalha Atrás da Outra), Jacob Elordi (Frankenstein), Will Arnett (Is This Thing On?) e Jesse Plemons (Bugonia). 
 
Outro participante é o veterano Stellan Skarsgard, de Sentimental Values. Os rapazes estão trocando idéias sobre a arte de ser ator de cinema, e a certa altura o sueco dá um exemplo do filme Breaking The Waves, de Lars von Trier. 
 
Diz ele que no set de filmagem havia uma placa enome, colocada bem alto, na parede, para todo mundo ver: Cometam alguns erros. E o próprio Von Trier dizia de vez em quando: “Ei, vocês não estão cometendo muitos erros, vou cometer um agora!...” E fazia uma bobagem qualquer, e todos riam. 
 
Esse tipo de recomendação tem um efeito terapêutico. Não existe trabalho artístico mais tenso e mais arriscado do que o de ator e atriz. Você chega ali, na frente de dezenas de estranhos, com a incumbência de criar uma pessoa que não existe, baseando-se em instruções que geralmente foram escritas sem saber que era você que iria interpretá-las. 



(Gloria Swanson) 

 
E tudo que você tem a oferecer é sua cara, seu corpo, sua voz, seus gestos... E muitas vezes cometer erros ridículos, pagar micos imperdoáveis diante da uma equipe de técnicos que (você sabe) estão ali num silêncio respeitoso, mas à noite, no alojamento, se esbaldarão de gargalhadas lembrando a besteira que você fez. 
 
Não existe entrega maior, disponibilidade maior, auto-sacrifício maior. É somente por isso que eu relevo e descarto os defeitos que às vezes se grudam ao casco de quem exerce essa profissão. Como a vaidade, uma espécie de glutoneria de louvações para aplacar o medo do ridículo, esse medo latejante que é pior que o medo da dor física. A pose blasé, a carapaça de artificialidade protetora. E os rompantes de criança mimada, os pitis, as exigências mirabolantes, as chantagens passivo-agressivas... Tudo isso é perdoável. Fiquem em paz, e Deus os abençoe. Vocês são uma fênix que morre em cada take para renascer no próximo. 



(Shelley Duvall / Stanley Kubrick)

 
Devia ser um pesadelo trabalhar com gente como Stanley Kubrick, famoso por ordenhar cada gota de sangue do seu elenco. “Take 175!... Vamos, faça de novo.”  Alguns artistas se abalavam para sempre, como Shelley Duvall (O Iluminado). Outros rasgavam o contrato e iam embora, como Harvey Keitel (Eyes Wide Shut). Um ator, uma atriz reivindicam o direito de errar, mas isso é outra coisa. 
 
E o que é “errar”? Quem trabalhava com um neurótico perfeccionista como Kubrick via-se meio que obrigado a ler o pensamento dele, adivinhar o que ele queria com tantas repetições. Nos primeiros 20 ou 30 takes, o ator se diverte, experimentando variantes, mudando a voz, mudando o andar, arriscando coisas que nunca seriam sua primeira opção. Mas... Chega uma hora em que ela pensa: “Esse cara tá de sacanagem comigo.” 



 
Samuel Beckett já disse, famosamente (fornecendo a cada um de nós o alívio de um álibi): 
 
Sempre tentei. Sempre falhei. Não importa. Tente de novo. Falhe de novo. Falhe melhor. 
 
Me valho também da sabedoria popular do futebol, para mim encarnada neste princípio que o técnico Vanderlei Luxemburgo não cansava de repetir: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”. 



Quando você tem medo de errar, acaba fazendo apenas o mais previsível, o já conhecido, o já garantido, o que comprovadamente já funcionou cem vezes. “Fulano, fale pra gente sobre seu trabalho no filme tal.”  “Mas eu não trabalhei nesse filme. Eu fui lá, fiz tudo no piloto-automático, embolsei a grana e voltei para casa”. Quantas vezes a gente não já viu conversas assim? 
 
A placa colocada no set por Lars Von Trier é um recado apaziguador, uma espécie de “Relaxa, vamos trabalhar duro, sim, mas vamos também nos divertir um pouco”. E não existe nada mais divertido, para quem gosta deste ofício, do que experimentar coisas. Naquele ótimo programa Inside the Actor’s Studio (tem muitos no YouTube) a gente tanto escuta histórias arrepiantes de terror profissional quanto histórias divertidas sobre o lado lúdico, brincalhão, experimental, dessa profissão de inventar coisas “do nada” diante de uma câmera rodando. 
 
Já vi um diretor dizendo como combinou um papel difícil com uma atriz: 
 
Eu disse a ela: esse papel é complicado, fique tranquila, vamos experimentar várias vozes, várias posturas, várias dinâmicas... Faça de conta que está na loja experimentando vestidos na frente do espelho, sem compromisso, até achar um que você diga: Maravilha, vai ser este aqui. 
 
O difícil, claro, é manter essa descontração lúdica num ambiente de trabalho carregado, nervoso, às vezes numa situação de estouro de orçamento e de cronograma. Ou num ambiente de hostilidade, rivalidade pessoal. Ou de indiferença impaciente, do tipo “Vamos, meu rapaz, não dê maçada na gente, resolva logo essa sua cena para a gente poder fazer algo mais importante.”  




Uma vez perguntaram a uma atriz jovem como ela sabia se o take tinha ficado bom ou não, e ela disse: 
 
O diretor geralmente diz que ficou uma maravilha, e pede pra fazer de novo. Está no papel dele, que é tranquilizar os atores. Mas eu olho para o pessoal da técnica, o pessoal que está em volta da câmera, ou com o equipamento de som. Pela reação deles, a gente sabe se ficou bom ou se ficou um porcaria. Ninguém presta atenção neles, e a reação deles é de verdade. 
 
Todo mundo erra, e quem mais erra, em geral, é quem acerta muito – porque ousou muito. É como no futebol. Diante de uma área repleta de zagueiros, o mais fácil é trocar passes laterais. Alguém vai ter que receber a bola e pensar: “Vou entrar driblando e vou chutar, e seja o que Deus quiser”. Quando perde a bola, é chamado de idiota. Quando faz o gol, se ajoelha e ergue os dois indicadores pro céu. 
 
É como dizia Fernando Pessoa: “Às vezes sou o Deus que trago em mim.” 




(Stellan Skarsgard)

 
Quem mais paga mico em toda a história do cinema (teatro, etc.) são os grandes atores e atrizes. Na mesma mesa-redonda do YouTube, a entrevistadora Yvonne Villareeal quer saber se eles, como atores, dão ouvidos aos críticos, se leem resenhas. E mais uma vez o veterano Skarsgard conta que estava atuando numa peça teatral e um crítico, numa resenha devastadora, apontou alguma coisa que ele estava fazendo errado. “E você fez o quê?”, pergunta alguém. E ele, com simplicidade: “Corrigi o erro nas noites seguintes”. 
 
Abençoado teatro, essa possibilidade de Reencarnação, de metempsicose, essa segunda-chance de viver de novo uma vida inteira, corrigindo os próprios erros. O cinema é impiedoso. O erro que vai para a tela fica lá o resto da vida, e vida ali só existe uma. 



(Sir Alec Guiness) 

 
É fato sabido que o grande Alec Guiness, o inesquecível Obi-Wan Kenobi de Star Wars, nunca deu muita importância a esse papel, que provavelmente aceitou só pela grana. Mas li uma entrevista dele, na época, em que ele dizia (estou parafraseando): 
 
É um filme infanto-juvenil, eu fui lá e fiz o que me pediram. Só me arrependo de uma coisa, um gesto que fiz numa cena, perto do fim do filme... Uma coisa ridícula, que me dá vontade de esconder a cara toda vez que me lembro, mas no atropelo das filmagens acabou ficando, e não deu para refazer, vou ficar com essa vergonha para o resto da vida. 
 
O mais interessante é que eu já revi o filme mais de uma vez e não sei que gesto é esse. 
 
Não ter medo de errar é não ter medo de acabar carregando pelo resto da vida esse constrangimento, esse arrependimento, esse “duh”, esse “facepalm”, esse “cringe”. Fazer o quê? É uma lei da vida. Só cai da montanha quem subiu a certa altura. 
 
Ou, como se diz no futebol, “sucesso” é poder ajeitar a bola na marca do pênalti e recuar cinco passos. 
 
Só erra quem tenta, e só acerta quem tenta, também. E por incrível que pareça o público não apenas perdoa a maioria dos erros, como nem percebe. Já vi muito músico, em camarim pós-show, batendo com a cabeça na parede por ter errado uma convenção ou falhado um acorde, erro que foi notado pelos outros músicos e por ZERO PESSOAS na platéia. 
 
Um grande filme não é grande por uma suposta ausência de defeitos. Eles geralmente tem uma porção de defeitos. O que o torna um grande filme é a presença de uma série de qualidades que o tornam memorável, forte, e que nos fazem revê-lo com a mesma expectativa pela segunda vez, a terceira, a quarta. 
 
O filme tem defeitos? Ora, todo filme bom tem defeitos. O ator fez umas caras-e-bocas ridículas? Tem algumas cenas chatas? A câmera treme aqui, desfoca ali? A música não é grande coisa? Não importa. É para rever as qualidades que voltamos ao cinema. Para rever as qualidades de Casablanca, ou de Deus e o Diabo na Terra do Sol, ou de Blade Runner, ou de Acossado, ou de Veludo Azul, ou de After Hours ou de O Agente Secreto, nosso espião infiltrado em Hollywood.