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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

5199) Os hermetismos pascoais (18.9.2025)




Eu tinha pensado em publicar aqui uma daquelas crônicas-obituários, mas dei uma olhada na página do blog e me deu um arrepio ao ver como esses necrológios estão se enfileirando. Vôte. Daqui a pouco vou ficar sem outro assunto senão me despedir dos amigos e das pessoas que mais admiro. 
 
Me vieram à mente as vozes de Jessier Quirino e Jorge Filó: “A morte é um doido limpando mato”. É a sabedoria visual dos cantadores de viola, capazes de criar, em uma linha, um cartum inesquecível. Dê uma foice e uma instrução a um doido, e ele vai sair cortando o que aparece pela frente, seja touceira de urtiga ou o galho da roseira. 
 
Por falar nisso, passei recentemente uma madrugada assistindo clipes de vídeo e de áudio com as performances musicais de Hermeto Paschoal. Eu só, não: eu e a torcida do Treze. (Não boto “eu e a torcida do Flamengo” porque esta anda bastante alegrinha, e o momento é de certa melancolia.) 
 
O primeiro show de Hermeto Paschoal que eu assisti foi ali por volta de 1979 ou 1980, quando eu morava em Salvador. Algum produtor inspirado pelas musas trouxe para o palco do Teatro Castro Alves ele e Sivuca, só os dois, sem banda (“sem outros músicos atrapalhando”, como dizia um amigo meu de maus-bofes). Foi um diálogo bate-rebate, um pingue-pongue, um barra-a-barra, os dois se divertindo pra valer, tocando juntos e separados. 



(Hermeto e Sivuca) 

 
Separados no berço, disse alguém na época.  Dois sanfoneiros albinos parecem uma dupla de personagens inventada por Salman Rushdie ou João Ubaldo Ribeiro, que são chegados a um “realismo histérico”. Não importa. Um era paraibano, o outro alagoano, mas era como se alguém tivesse preparado uma fórmula mágica e pingado em dois tubos-de-ensaio diferentes, deixando maturar ali durante algumas décadas para ver os resultados. 
 
Em todo caso, não é Sivuca a figura com quem geralmente me ocorre comparar Hermeto, e sim com outro companheiro seu de geração, o baiano Tom Zé, que vi há poucas semanas no Circo Voador. 
 
Tom Zé é poucos meses mais novo que Hermeto (os dois são de 1936). As trajetórias dos dois são muito diferentes, mas como eu os acompanho há seis décadas sempre percebi alguns pontos em comum. Os principais são: erudição, experimentalismo-lúdico e pés no chão. 
 
Primeiro, a erudição. Músico erudito, no meu dicionário pessoal, é músico que sabe ler e escrever partitura. Não importa se é pianista da sinfônica de Berlim ou trombonista da orquestra-de-frevo da Bomba do Hemetério. Para mim, que olhando no papel não distingo um dó de um ré, ele é erudito. É alfabetizado, e eu não. 



(partitura de Hermeto) 

 
Claro que não basta isso, mas isso pesa. A música é uma língua estrangeira: a notação musical, a linguagem musical, as noções estabelecidas de harmonia, ritmo, contagem de compassos, modulações e o escambau...  Tudo isto é um idioma secreto que eles compartilham e nós espiamos pelo lado de fora. 
 
Vemos os resultados e podemos apreciá-los: qualquer pessoa mediana pode sentir a beleza de um quarteto de Mozart, mesmo que não saiba os nomes das notas que estão sendo tocadas. Mas uma coisa é reconhecer a beleza (ou a mera complexidade) quando a vemos, e outra coisa é ser capaz de reproduzi-la. 
 
Digo isto porque grande parte do respeito que um músico como Hermeto desperta lá fora do Brasil (onde chegava sem ninguém saber quem era ele) vem da percepção imediata, com quinze minutos de show no palco, de que “aquele cara sabe do que está falando”. Ele não era um mero talento bruto, primitivo, “uma força da natureza” – algo também importante. Era um cara que tinha domínio sobre essa língua universal, a linguagem-escrita da música. 



 
E aí me refiro a uma coisa importante na vida artística (como na vida em geral), que é o respeito entre seus pares. Ser respeitado pelas pessoas que praticam aquilo. Pode até ser que o público em geral, o público parecido comigo, esteja vendo o show e remungue: “Que som complicado, não estou entendendo nada”. Mas o músico profissional que está de pé ao meu lado, lata de cerveja em punho, fala baixinho: “Cara, esse sujeito é muito bom.”  E isso pesa. 
 
Ser erudito parece um pouco com ser rico. Que graça tem ser rico sozinho?!  E Hermeto tinha um aspecto formador, distributivo, de canalizar essa riqueza teórico-prática e passá-la adiante. Formou gerações de músicos. 
 
A erudição não salva ninguém. Na música, na literatura, na filosofia, onde quer que seja. O sujeito pode saber de cor todos os clássicos e todos os Manuais de Escrita Criativa disponíveis no mercado, mas isso não garante que seja capaz de produzir uma crônica que se aproveite. 
 
Aí entra um aspecto desconcertante que Hermeto tinha, o tal “experimentalismo lúdico”. Aquilo que faz o músico de concerto dar um passo adiante na direção do desconcerto. Uma curiosidade incessante de inventar formas novas, redescobrir formas esquecidas, fazer algo que nunca foi feito, aproximar coisas que estavam em universos separados... É para isso que serve a erudição. Tem muito erudito que se refestela no conforto, na repetição, mas essa técnica toda que acumulou poderia também lhe servir de estímulo para aventurar-se no desconhecido, mas com fundamento, com base, com um GPS auditivo que o mantenha na rota. 
 
E experimentar de maneira lúdica – brincando, divertindo-se, desafiando a si mesmo e aos outros, jogando na mesa pequenas provocações criativas, despertando os sonolentos, chacoalhando os rotineiros... Experimentar com prazer. Não o prazer egoísta de quem tenta deixar os outros do lado de fora, mas o prazer de abrir um novo espaço e tentar puxar alguém para dentro. 




Tem uma anedota que contam de Hermeto, com várias versões. Numa delas ele estava executando um número com sua banda e a certa altura um músico tinha a incumbência de soltar moedas numa bacia de metal. Alguém da platéia reagiu: “Ei, eu vim aqui para ouvir música, isso não é música!...”  Hermeto, ao piano, mandou o músico jogar outra moeda, ouviu o “plin!...”, e tocou o mesmíssimo som numa tecla do piano: “É música, sim.” 
 
Isso quer dizer que qualquer barulho, qualquer som  é uma nota musical? Não. Uma nota musical é a depuração de um som, a destilação, a purificação de um som num conjunto de vibrações alinhadas entre si. A nota musical é o tipo de som mais puro que existe. A nota musical está para o som assim como o vidro está para a areia. 
 
Hermeto não disse isto, quem está dizendo sou eu, todo animadinho com meu boné de teórico na cabeça. E isso só está me vindo à mente porque ele mandou o músico jogar uma moeda na bacia. 
 
Joguem moedas na bacia, que o músico está precisando. 
 
Botem notas na bandeja, porque os cantadores ao pé-da-parede estão precisando. Criar o que não existe também é trabalho. 
 
E isso nos traz ao terceiro elemento que está na obra (e acho que na vida) de Hermeto: pés no chão. Parecia ser o sujeito menos hermético do mundo, um camarada simples, sem pose. Não precisava chamar a atenção de ninguém – a natureza já tinha se encarregado disso. A pose, em si, não desmerece nem desvaloriza um artista, mas tem gente que recorre à pose por mera insegurança íntima, por mera necessidade ansiosa de imaginar-se superior; e o sujeito entra numa sala como se fosse um boneco do carnaval de Olinda. Não precisa. 
 
O famoso “passeio na rua” em que Hermeto arrebanhava uma platéia inteira para sair do teatro atrás dele e dar a volta ao quarteirão era a sua versão pessoal (uma versão pés-no-chão, uma versão desconstrutora!) desse carisma de liderança, de flautista-de-Hamelin, de líder capaz de conduzir multidões. Bora sair, bora dar uma volta na calçada, bora chamar a atenção do povo, bora botar o povo pra dançar, os “pobe” tão voltando do trabalho, todo mundo cansado, nem jantou ainda, aí eles veem a gente tocando e vêm atrás, dançam um tiquinho, o caba se distrai, volta pra casa mais leve, dá um cheiro na mulher, dá um cheiro nos menino. Agora pronto, vamos voltar pro teatro, que minha bolsa ficou lá.  
 

(Hermeto e banda)
 
 
 
 
 




 


 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

4972) A não-música de John Cage (15.8.2023)



 
No mês de setembro completam-se 111 anos do nascimento de John Cage, o compositor mais fora-de-esquadro da música dos Estados Unidos. Chamado de gênio e de charlatão por muita gente. É o que acontece com muitos artistas de vanguarda que inventam um conceito de criação artística, aferram-se a ele com uma monomania quase psicótica, e acabam sendo compreendidos por um certo número de pessoas, em quantidade (e importância) suficientes para garantir a sobrevivência das suas obras. 
 
Cage é visto como um dos integrantes do que alguns gozadores chamam “a turma do barulho”, compositores de formação erudita que utilizam métodos não-convencionais para produzir música. Instrumentos, notações, estruturas, tudo a serviço de composições que parecem querer, insistentemente, desmontar nosso conceito do que é música. 
 
Perguntado num programa de TV se de fato fazia música, ele disse: “Sim. Eu considero que música é a produção de sons, então posso chamar de música isto que faço”.
 
Cage faz música experimental de muitos tipos. Um deles consiste em descobrir sonoridade e expressividade em sons de origem diferente e estrutura diferente do que se observa numa música orquestral comum.
 
Acho que é mais fácil entendê-lo quando pensamos nas experiências do nosso Hermeto Paschoal na música popular. O albino Hermeto toca chaleira, toca badalo de vaca, bota porco para roncar numa gravação, balança uma lata cheia de tampas de garrafa... É música? Eu acho que sim, porque, sendo músico popular, ele envolve tudo isso num colchão sonoro de música convencional, feita com teclados, saxofones, etc. 
 
Em Hermeto, os sons não-convencionais passam como mero complemento da música dele. Uma música às vezes estranha, mas jazzística, meio erudita, meio popularzona, uma música que tudo recebe e tudo acolhe. 
 
John Cage, não. Ele oferece ao ouvinte o som concreto, cru e cumulativo de campainhas, percussões aleatórias usando vidro e metal, água jorrando ou sendo chacoalhada, ruído de aparelhos culinários, rádio captando estática... Ele faz essa música propositalmente não-melódica, não-rítmica e não-harmônica (creio eu) não para agredir nossos ouvidos, mas para despertá-los.
 
A música que nós ouvimos (erudita ou popular) é feita de um repertório de sons muito vasto, os sons produzidos pelos instrumentos de uma orquestra, uma banda de rock, uma escola de samba, etc. Sua riqueza é espantosa, inesgotável, mas é um conjunto de timbres, fraseados melódicos, estrutura e cadências com as quais já nos acostumamos. Reagimos a ela como um cachorro reage a uma campainha. Fomos treinados para aceitá-la, e nossa balança de gosto/não-gosto funciona em torno do cardápio que ela oferece. 
 
Mas... Basta ouvir meia hora de música oriental ou africana para perceber o quanto ignoramos e o quanto provavelmente estamos perdendo. Bastava ouvir mais, prestar atenção, ler um pouco a respeito, construir uma nova sensibilidade... Mas a verdade é que pouca gente tem tempo pra isso. Contenta-se com o que já conhece, e que não é pouco. 
 
Cage é um artista provocativo, com muito da atitude dos artistas plásticos de vanguarda. Ele faz uma composição que consiste apenas de silêncio, o que equivale às telas em "Branco sobre branco" de Malévitch. Com um complemento: a peça 4’33” exige que o concertista se sente ao piano, mas sem tocar, e a peça sonora será composta pelos ruídos da plateia. 
 
Todo o trabalho de Cage (incluindo livros, palestras, entrevistas) mostra os bastidores da música, a discussão do que constitui uma música, o limite entre a música na cabeça do compositor e o resultado final mostrado ao público. Em geral, essa discussão não nos interessa. Somo consumidores, somos ouvintes, queremos o resultado pronto. Não queremos participar da discussão criativa, queremos fruir uma criação e passar para a próxima.  
 
Esse “queremos” é relativo, claro, porque milhares de pessoas (eu por exemplo) tem algum interesse por essas discussões. Não queremos só andar no carro, queremos saber como o motor funciona.  
 
Daí que a língua inglesa tem um expressão-padrão para isso: “a poet’s poet” é um poeta que escreve para outros poetas, “a painter’s painter” é um pintor cuja obra interessa mais a outros pintores do que ao público, e assim por diante. Não tem nada demais nisso, e só mesmo o furor consumista e anti-intelectual de nossa época para considerá-lo uma forma de elitismo.
 
Em todo caso, Cage é abraçado e estudado não apenas por músicos eruditos. Roqueiros como Frank Zappa, Brian Eno, e outros tocam para multidões, fazem música dançante para balançar o esqueleto, mas gostam de refletir sobre a filosofia da composição, e de estudar em profundidade a matéria primas (o som e o silêncio) que estão manipulando, e os instrumentos que utilizam. E a obra de Cage é uma referência para eles.
 
No documentário John Cage: Journeys in Sound (2012) de Allan Miller e Paul Smaczny, Cage aparece em papos-cabeça com John Lennon e Yoko Ono; explicando sua obsessão por cogumelos comestíveis; compondo com o auxílio do I-Ching, o Livro das Mutações. É um experimentalista, um curioso com erudição, um cara que gosta – pra usar um clichê do momento – de “pensar fora da caixa”.
 
No programa de TV que aparece no documentário, Cage conta que às vezes o pai o levava para caçar no bosque, e os dois não conseguiam abater nenhuma caça para o jantar. Então o pai dizia: “Não faz mal, a gente sempre pode ir na cidade e comprar alguma coisa de verdade”. Os animais caçados pessoalmente são vistos como um substituto da comida “de verdade” – a industrializada, que se compra no supermercado. 
 
Essa curiosa dicotomia está na raiz da música de Cage. Para ele, os sons de verdade, a música de verdade, são as sonoridades livres, selvagens e à solta que existem no mundo: barulho de chuva, de trânsito, de talher de metal em prato de louça, de porta rangendo, de vidro quebrando, de papel sendo amassado... E não a música radiofônica, feita como sonoridades industrializadas, codificadas, domesticadas, padronizadas... A comida-enlatada do som.
 
No mesmo programa de TV o apresentador previne Cage, antes do “concerto”, que algumas pessoas da platéia poderão rir durante os seus números “musicais”. Ele responde, tranquilo: “Tudo bem. Eu acho o riso melhor do que as lágrimas”.
 
 



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

4910) "Tár": os artistas maus (6.2.2023)




O filme Tár, de Todd Field, conta a história da maestrina (ou maestra, já nem sei mais) Lydia Tár, interpretada por Cate Blanchett. À frente da Filarmônica de Berlim, ela se prepara para uma histórica gravação ao vivo de uma sinfonia de Mahler.
 
É uma excelente ilustração de um tema que as pessoas se matam de discutir: Como é possível que um(a) grande artista seja ao mesmo tempo uma pessoa de mau caráter, uma pessoa com deformações de personalidade, uma pessoa com graves defeitos éticos que parecem um desmentido vivo daquilo que ela produz com sua arte?
 
Lydia vive entre Nova York e Berlim, pertence a essa estirpe de cidadãos transnacionais produzidos nos circuitos da arte de elite.


Na primeira sequência do filme, ela é entrevistada, diante de um teatro à cunha, por um jornalista que faz seu próprio papel (Adam Gopnik, da revista The New Yorker). Precedida pela leitura de um currículo impressionante, Lydia fala longamente sobre sua carreira e sua visão da música. Cate Blanchett deita e rola nessa abertura, numa mistura de charme e de autoridade intelectual que chega a lembrar figuras como Denise Stockler e Marília Gabriela, mulheres totalmente à vontade diante de platéias exigentes.
 
Toda a entrevista é uma calma demonstração de força, exibindo uma pessoa capaz de destemor sem destempero, uma artista ambiciosa mas que parece estar mantendo bem apertados todos os parafusos de sua ambição; sua máquina não sacoleja.
 
Na segunda sequência, logo após, ela tem um almoço com seu amigo e investidor Eliot Kaplan. Na confortável intimidade de quem trabalha junto há muito tempo, ela lhe comunica algumas medidas que está se preparando para tomar na orquestra. É o jogo da política de bastidores, o xadrez das posições e dos cargos em que um maestro precisa também ser craque, pois envolve projetos de vida, vaidades, sensibilidades, ambições.



Na terceira sequência, Lydia dá uma aula prática a alunos na Escola Juilliard, famosa escola de música de Nova York. E entra em choque com um aluno negro e LGBT para quem J. S. Bach não passa de um compositor branco, careta, conservador, etc.  Lydia trata o rapaz com certo sarcasmo provocativo. Ele abandona a sala em protesto.
 
De volta a Berlim, ela fica sabendo de sua esposa Sharon (violinista da Filarmônica) que a filha adotiva está tendo problemas na escola. Pergunta à garota quem a está incomodando. Deixa a filha na escola, localiza a garota incômoda, chama-a para uma conversa em voz baixa e diz algo como “Se você chatear minha filha, eu venho aqui e acabo com você. Entendeu?”  A garota entende.


 
Lydia Tár é assim, uma mulher capaz de floreios diplomáticos e de defenestrações sumárias, uma artista de enorme sensibilidade para com as camadas harmônicas de uma sinfonia e capaz de pisar sem pena no pé que alguém coloque à sua frente.  Um tanque de guerra coberto de graffitti art-nouveau.
 
Aos poucos vamos percebendo que ela é uma sedutora, uma conquistadora inveterada, que troca de amores como quem troca de orquestra, e que é do tipo que numa batalha não volta atrás para recolher feridos. É cruel? Talvez, mas capaz também de grandes momentos de ternura e de cumplicidade afetiva. Como todo mundo, aliás.


 
“Quer saber quem é uma pessoa?”, pergunta a sabedoria popular.“Dê-lhe poder.”  Dizem que o Poder corrompe, mas dizem também que o Poder apenas revela. Homens ou mulheres que chegam a uma posição de destaque como a de Lydia Tár aprendem durante a subida que às vezes basta-lhes apontar um dedo e pronunciar uma frase para que seus desejos se cumpram. A lâmpada de Aladim, que não existe, empalidece diante deste poder, que nos rodeia em todos os lugares. Quem não já sofreu na unha de um gerente sádico, de uma chefe invejosa?
 
O filme de Todd Field começa com Lydia Tár no ápice de sua fama e de seu poder, mas daí em diante as coisas começam a degringolar, as rédeas a fugir-lhe das mãos, como numa orquestra que a cada apresentação tivesse que incluir mais e mais instrumentos. Chega um instante em que não dá para manter tudo sob controle. 
 
O filme começa a introduzir esse ominoso tema secundário de forma discreta mas crescente. A vida caseira de Lydia não é tão harmoniosa como deve ter sido algum tempo atrás. Ela acorda de noite. Que barulho é aquele?  Sua alucinação é auditiva, um som incessante e longínquo que crava nela a agulha da insônia e a deixa remexendo-se na cama. Ela levanta, olha por toda parte. E nós, aqui fora, julgamos ouvir o que ela julga que ouve, como um diapasão desafinado soando dentro de um buraco negro. Ou um metrônomo tentando pedir socorro. 


 
Uma nova paixão aparece, uma cellista russa que parece mais interessada na vaga da orquestra do que em Lydia, que mesmo assim a cerca com o semi-sorriso de quem dá a coisa como favas contadas. E vem outro episódio insólito, quando ela tenta seguir a moça no interior de um prédio velho, aparentemente abandonado, e se vê à mercê de algo que parece um cão de pesadelo.
 
Decisões irrefletidas vão comprometendo sua posição, e tudo explode com o suicídio de uma ex-discípula e ex-namorada, que a joga na berlinda, e fornece uma excelente chance para seus desafetos botarem as unhas de fora. Tár não é um filme sobre música, é um filme sobre política musical, o jogo de poder que envolve a criação musical (maestros, artistas, produtores, gravadoras, imprensa, patrocinadores, público, etc.). 
 
Uma coisa é a literatura, e outra é a política literária – tem gente que é excelente numa e péssima na outra, ou vice-versa.  A política teatral, dos grupos, diretores, estrelas, novatos com metas a bater, veteranos tentando manter-se à tona. A política cinematográfica, a política jornalística, a política das artes plásticas, a política da Cantoria de Viola...
 
Onde há poder, há política. E se numa guerra a primeira vítima é a Verdade, numa carreira artística em ascensão uma das primeiras vítimas é a Palavra Dada, é a lealdade aos companheiros de ontem diante das oportunidades de hoje, a fidelidade a afetos que infelizmente ressecaram, a paciência dos velozes quando há lerdos atrapalhando um avanço.



É essa política que parte a coluna vertebral aparentemente tão sólida da carreira de Lydia Tár, porque em questão de minutos (dentro do filme) ela começa a ver que todo mundo que estava tão de-bem com ela afinal não estava tão de-bem assim, todo mundo tem uma conta para lhe cobrar, e vêm todas ao mesmo tempo.
 
O diretor Todd Field criou neste filme uma estrutura dramática curiosa (e que, pelo que vi, não funcionou com muitos espectadores) em que os acontecimentos finais se precipitam de maneira desconjuntada, elíptica. Se a maior parte do filme tem uma narrativa rigorosamente medida e pesada, os 15 ou 20 minutos finais mostram fragmentos, saltos bruscos, non-sequiturs, cenas que dão a impressão de que vão marchar para um clímax dramatúrgico qualquer mas são cortadas ao meio e na imagem seguinte já estamos dias depois, mergulhando em outra situação.
 
A sabedoria popular costuma dizer também que “a subida é vagarosa mas a queda é num instante”. É mais ou menos o que acontece com Lydia Tár nesse trecho final – cada nova cena bate mais um prego no caixão, e isso nos entristeceria se não soubéssemos que foi ela mesma quem forneceu prego e martelo aos seus coveiros.
 
Espero não ter dado muitos spoilers, até porque as propagandas do filme falam sempre coisas como “a ascensão e a queda de uma grande regente de orquestra”. E na verdade o filme não guarda muitas surpresas – é como uma peça musical que se inicia com um tema dominante, digamos que seja O Sucesso, e ele desde logo vai se misturando a um sub-tema, O Fracasso, que acaba por predominar, triunfal. 
 
O diretor Todd Field é mais conhecido do grande público como ator. Em Eyes Wide Shut (1999) de Stanley Kubrick ele faz o papel de Nick Nightingale, o pianista amigo de Tom Cruise que acaba induzindo este a entrar “de penetra” naquela orgia gregoriana numa mansão. Como diretor, a narrativa segura e a direção de atores em Tár não me surpreendeu: Field dirigiu o excelente In the Bedroom (2001), uma tensa narrativa de crime e justiçamento, com Tom Wilkinson e Sissy Spacek.
 
  
 
 








sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

4909) A arte feita pelas máquinas (3.2.2023)



 
O primeiro parágrafo do conto de James Blish, “A Work of Art” (1956) é assim:
 
Instantaneamente, ele se lembrou do momento em que morrera. Lembrou, no entanto, como que a dois patamares de distância: como se estivesse recordando uma lembrança, e não o evento em si; e como se ele mesmo não estivesse presente no instante em que morrera.
(trad. BT)
 
Personagens que ressuscitam (e que às vezes ressuscitam amnésicos) são comuns na ficção científica.
 
Um começo inesquecível, para mim, é o da brilhante noveleta de Kim Stanley Robinson, “A Short, Sharp Shock” (1990):
 
Quando ele voltou a si, estava se afogando.
 
Não é propriamente uma ressurreição (a história depois se revela mais complicada ainda), e em termos de verossimilhança científica perde para a arrepiante frase de abertura do romance de Greg Egan Distress (1995): 
 
– OK, ele está morto. Pode conversar com ele agora.
 
É um mundo futuro onde uma pessoa morta pode ser revivida por alguns minutos mediante uma overdose de estimulantes, que a fazem recuperar (fugazmente) a consciência, mas ajudam bastante quando é o caso (como neste livro) de um homicídio em que a vítima pode fornecer pistas sobre o criminoso. 


Para quem se interessa pelo tema, vale a pena rastrear a curiosa antologia Five Fates (ed. Keith Laumer, 1970), com 5 contos (Keith Laumer, Poul Anderson, Frank Herbert, Gordon Dickson e Harlan Ellison) que começam todos com o mesmo prólogo, a morte do protagonista, e cada história imagina sua posterior ressurreição.
 
No caso de “A Work of Art”, bastam duas páginas para entendermos o que se passa. O homem que está sendo ressuscitado é o maestro e compositor Richard Strauss (1864-1949), autor de inúmeras óperas e da famosa Assim Falou Zaratustra (1896), cuja fanfarra inicial foi usada por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisséia no Espaço.


(Richard Strauss)
 

Strauss é despertado por um cientista que se apresenta como Barkun Kris, “um escultor de mentes”. Depois de se certificar que o paciente está fisicamente bem, e lúcido, ele informa a Strauss que estão no ano de 2161, ou seja, 112 anos após a morte do maestro, e que houve um trabalho de reconstituição da memória e da personalidade original dele para um novo corpo, saudável e mais jovem.
 
Para se certificar de que tudo correu bem, ele faz um pequeno questionário biográfico. Quem era um indivíduo com as iniciais R. K. L., que Strauss conheceu quando regia a ópera de Viena? “Sem dúvida foi Kurt List,” diz Strauss; “seu primeiro nome era Richard, mas ele nunca o usava. Era meu assistente de palco.”
 
“Por que motivo” (pergunta o doutor) “o senhor escreveu uma nova abertura para A Mulher Sem Sombra, e doou o manuscrito à prefeitura de Viena?...” Ele responde: “Para ser dispensado do pagamento da taxa de remoção do lixo da ‘villa’ que eles me deram de presente”.
 
Bastam algumas perguntas deste tipo para confirmar que o maestro está com suas memórias intactas, e em pleno uso de suas faculdades mentais. Strauss é liberado pelos médicos, descobre que tem dinheiro suficiente para se manter com certo conforto, e que todo mundo espera que ele volte a compor e a reger. 
 
Entrega-se ao trabalho, cheio de ânimo, mas fica desconcertado com a música do ano 2161. Ele constata que a música do século 22 está infestada de compositores dodecafônicos, cujos deuses são Alban Berg, Schoenberg e von Webern; e que ali prolifera também a tendência da música estocástica, regida pelo acaso e que tem como ideal “...produzir uma música que seja ‘universal’ – ou seja, totalmente expurgada de qualquer traço da individualidade do compositor”. 
 
(Note-se que nada há de propriamente futurista neste aspecto: Blish estava satirizando a música da década de 1950. Ele era de formação erudita, e dizia detestar “os Beatles e demais coleópteros”.)


 
A sátira vem aqui, quando ele se refere a outra moda a da “science music”:
 
Este termo não refletia nada a não ser os títulos das composições, que aludiam ao voo espacial, às viagens no tempo e outros temas de natureza romântica ou improvável. Não existia nada de científico nessa música, que consistia apenas de uma colagem de clichês e de imitações dos sons do mundo natural, e na qual Strauss percebia horrorizado sua própria imagem, diluída e distorcida pelo tempo. 
 
É uma alusão mordaz à “science fiction”. Essa música colhida entre “os sons do mundo natural” lembra a obra de autores modernos como Edgard Varèse (um ídolo de Frank Zappa), do qual já possuí um LP estranhíssimo, e tudo isto me deu uma idéia que acabei glosando em meu conto “Stuntmind” (1989):
 
Outro dia, igual a todos. Estou agora nu, meu corpo gira entre os colchões de ar no interior do cilindro, estou imponderável e vertical, flutuo, descrevo giros em torno de mim, no meio do círculo de lâmpadas bronzeadoras. Nos ouvidos, fones com música documental: os sons do resgate de um galeão espanhol naufragado há cinco séculos. O ar aquecido me faz bem. São 23 horas e 14 minutos de uma noite de inverno... lá fora. 

Como será a música do futuro? Que sensibilidades deformadas, aperfeiçoadas, desviadas, recompostas, terão os nossos descendentes?... Talvez sejam capazes de apreciar um Mozart ou um Tom Jobim, mas... como serão os artistas deles, os artistas cuja música só poderia ter sido composta no tempo deles?  
 
Strauss convive de forma meio rebelde com os compositores da ISCM, a “Interplanetary Society for Contemporary Music”. Quando vai se registrar na entidade, é submetido de má vontade a testes, e ouve o funcionário referir-se aos “mestre do passado, como Shilkrit, Steiner, Tiomkin e Pearl”...  Vejo aí, no mínimo, a citação a dois compositores de trilhas sonoras de Hollywood: Max Steiner (Casablanca, ...E o Vento Levou) e Dmitri Tiomkin (Matar ou Morrer, Duelo ao Sol).
 
Strauss continua a ser um homem de seu tempo, e decide compor uma nova ópera, lançando mão, teimosamente, de um libreto de um autor do século 20 – Venus Observed (1950), de Christopher Fry.  Ele trabalha, irrita-se, decepciona-se, entusiasma-se... enfim o trabalho habitual de um compositor de ópera.



Vem a noite da estréia, salão repleto, cheio de autoridades – e ele vê nas filas da frente a nata da guilda dos “escultores mentais”, em torno de seu ressuscitador, o dr. Barkun Kris. Começa a ópera, Strauss rege com ardor, mas começa a perceber que alguma coisa não está correndo bem. 
 
E de súbito, no meio do terceiro ato, ele compreendeu.
Não havia nada de novo naquela música. Quem estava ali era o velho Strauss – porém mais fraco, mais diluído do que nunca. (...) Suas resoluções, sua determinação de abandonar os velhos clichês e maneirismos, a decisão de dizer algo de novo – tudo tinha desaparecido diante da força do hábito.
 
De certo modo essa constatação de Strauss já seria um desfecho satisfatório para o conto. Um homem pode ser ressuscitado, mas a “chama” da sua vida original é irrecuperável, etc. 
 
Blish, porém, tem um pulo-do-gato para executar diante do leitor. Porque quando as luzes se acendem e a imensa platéia fica de pé, Strauss percebe que os aplausos não se dirigem a ele, o compositor, o regente – mas ao dr. Barkun Kris, que sobe os degraus do palco e se posta ao lado do pódio e do maestro.
 
E aí se dá a revelação. Dirigindo-se a Strauss, o doutor lhe explica que ele na verdade se chama Jerom Busch, e foi escolhido como objeto daquela “escultura mental”, depois de muita pesquisa, por ser um indivíduo totalmente destituído de ouvido musical e de talento para a composição. Com base nas informações biográficas sobre Richard Strauss, a mente de Busch foi “esculpida” de modo a imaginar que era o compositor ressuscitado; e assim tornou-se capaz de compor uma ópera. 
 
A qualidade musical dessa ópera era irrelevante, secundária – porque a verdadeira obra de arte em todo aquele episódio não era a música, e sim a escultura mental. “Strauss” não era o artista. Era a obra de arte.


(James Blish)
 
O conto de Blish coloca um problema que estamos discutindo hoje com intensidade: qual o elemento humano que caracteriza a Arte?
 
Damos instruções verbais a um programa como Midjourney e em minutos ele produz uma ilustração detalhada, surpreendente. Seja boa ou má, ela em princípio não se distingue da ilustração feita por uma pessoa. Isto é arte?
 
Damos instruções ao Music LM (do Google), seja uma descrição verbal, seja assobiando um tema musical... e ele compõe trechos musicais de acordo. Isto é música?
 
Damos instruções a um ChatGPT (a ferramenta da OpenAI) e ele nos redige um artigo acadêmico (meio bobinho ainda; mas aguardem mais algum tempo), uma letra “de Bob Dylan”, um poema “de Dylan Thomas”. Isto é literatura?


 
 (chatGPT)
 
No mesmo conto “Stuntmind”, que citei acima, incluí a possibilidade (já extensamente discutida nos anos 1980) de “conversar” por escrito com computadores que utilizariam “personas” literárias:
 
Volto à Biblioteca. Sento diante de um dos micros, escolho programas ao acaso (De Assis, De Camp, De Quincey, De Sade...), troco cartas durante algumas horas.
 
Em “A Work of Art”, James Blish nos ilude o tempo inteiro, porque ao nos mostrar um Richard Strauss possivelmente ressuscitado (ou mesmo reconstituído), imaginamos que é porque esse mundo futuro quer ter em si talentos equivalentes aos talentos do passado. Precisa de obras de arte humanas, verdadeiras. E o “Strauss” produz apenas uma colagem derivativa – mais ou menos o que acusamos, hoje, nas criações do Midjourney, ChatGPT, etc. Falta o elemento humano: criador, personalizado, imprevisível.
 
Na reviravolta final, ficamos sabendo que a obra de arte que estava em questão não era a ópera escrita por “Strauss” – era a escultura mental produzida peplo dr. Barkun Kris, e esta parece ter sido plenamente satisfatória. Fez um analfabeto em música criar uma ópera de Richard Strauss, uma façanha que corresponderia ao Pierre Menard, do conto de Borges, reescrever por conta própria uma página de Cervantes. 
 
Do ponto de vista de “Strauss”, a ópera foi um fracasso. Revelou-se sem mérito, sem talento, uma simples re-arrumação mecânica dos cacoetes e truques criativos do verdadeiro Richard Strauss. Uma obra de arte frustrada, portanto.
 
Do ponto de vista do dr. Barkun Kris, a escultura mental foi um sucesso, mesmo que a ópera resultasse medíocre. E na verdade, Kris parece nem perceber (com sua mentalidade musical de 2161) que a ópera não era boa. Diante da platéia, no final, ele elogia a genialidade da personalidade “Strauss” que ele criou.
 
Ocorre, no entanto, que o falso “Strauss” percebeu que a ópera era medíocre. E nesse momento ele tornou-se equivalente ao Richard Strauss verdadeiro: um artista capaz de saber se o que produz é bom ou não. E dessa forma ele acabou fazendo da escultura mental do dr. Kris um sucesso maior do que este seria capaz de supor. Por um breve período, ele conseguiu de fato produzir alguém com a mente criadora (com a visão autocrítica) de Richard Strauss.










quarta-feira, 6 de junho de 2018

4354) Dez álbuns: 7 - Erik Satie (6.6.2018)




Há diferentes maneiras de ouvir discos. Pode ser numa sala cheia de amigos, todos conversando e bebendo, com o som em toda altura. Ou sozinho em casa, trancado no quarto de adolescente, com o som infelizmente baixo para não atrair a ira parental. Na casa dos amigos, em mudez reverente, absorvendo com avidez aquele vinil importado que talvez seja a única cópia existente no país. Na cama com a namorada, curtindo aquele som.

E outra: a música que a gente ouve enquanto escreve.

Romances contemporâneos trazem muitas vezes uma lista do tipo: “Este livro foi escrito ao som de New Order, Cocteau Twins, Electric Light Orchestra, Joe Zawinul e Nina Simone”. Tipo isso.

Escrever ao som de música é produzir artificialmente em si mesmo um estado de espírito previsível e controlável. Cada música injeta um sentimento diferente em nossa maneira de compor as frases, ajeitar as idéias, formular um ritmo. Ou então simplesmente fornece “um astral”, “um clima”, uma energia informe que ferve nos neurônios; é possível escutar Iron Maiden e usar essa energia para escrever haikais zen-budistas, desde que você tenha um transformador.

Uma coisa é escrever ouvindo Rolling Stones, outra coisa é ouvindo Tom Jobim.

E outra coisa é escutar Erik Satie, cujas peças curtas para piano estão entre as coisas mais “exquisitamente” agradáveis que conheço. Como essas peças têm centenas de interpretações pianísticas em centenas de coletâneas, fica difícil citar “um álbum” específico. Mas eu considero para o presente efeito qualquer álbum que contenha as Gymnopédies, as Gnossiennes, as Sarabandes, os Sports et Divertissements e por aí vai.

São a trilha sonora de muita coisa que escrevi de madrugada.

Gymnopédies:

Gnossiennes:



Meu primeiro contato com essa música foi através do “Blood, Sweat & Tears”, que no seu disco de 1968 gravou uma faixa das "Gymnopédies" de Satie. Depois, quando fui morar em Salvador, trabalhando no Clube de Cinema da Bahia, que funcionava nas instalações do ICBA, acompanhei a montagem de uma exposição de Bené Fonteles que tinha Satie na trilha sonora. Por força do expediente eu passava a tarde e a noite escutando aquilo, fragmentariamente, e pensando, armaria, que coisa linda.

Satie (1866-1925) é um miniaturista musical, criando pequenos bonsais de harmonia levemente dissonante que (dizem os estudiosos) influenciaram grandemente a geração de Debussy, com o qual ele teve uma amizade de idas e vindas. Satie era um excêntrico, um amalucado, um sujeito fora-de-esquadro cujas atitudes absurdistas e declarações inexplicáveis acabaram muitas vezes dificultando sua aceitação no pomposo e solene meio musical francês da virada do século.



Ele costumava acompanhar suas peças para piano com pequenos textos poéticos. No conjunto Sports et Divertissements (1914), cada faixa tem um poeminha:

O FOGO DE ARTIFÍCIO
Como está escuro!
Oh! Um rojão! Um rojão todo azul!
Todos se admiram.
Um velho enlouquece.
O buquê!

***

O POLVO
O polvo está dentro de sua toca.
Brinca com um caranguejo.
Engole-o e engasga.
Apavorado, pisoteia seus próprios pés.
Bebe um copo de água salgada.
Isso faz-lhe grande bem, e clareia suas idéias.

***

O BANHO DE MAR
O mar é imenso, senhora.
Em todo caso, é bem profundo.
Não sente no fundo. É muito úmido.
Eis que chegam minhas velhas amigas, as ondas. Estão cheia de água.
– A senhora está toda molhada!
Sim, senhor.

Há um vinil da pianista Cordélia Canabrava Arruda com estas peças (Fermata, 1981), além de La Piège de la Meduse (1913), Sonneries de la Rose+Croix (1892), com uma bela capa dupla trazendo todos estes poeminhas, ilustrados.



Não se pode compreender a obra musical de Satie sem pensar no contexto geral da Paris de sua época, onde a cada cinco anos uma revolução estética abalava o mundo: o impressionismo, o fauvismo, o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo... Satie (segundo a boa biografia de Rollo Myers) foi um precursor disso tudo. Suas inovações musicais foram retomadas depois por compositores mais populares ou mais respeitados do que ele.



O filme Entr’Acte (1924) de René Clair mostra Satie (com seu obrigatório terno, chapéu coco e guarda-chuva) e o pintor Francis Picabia, na abertura, dando enormes saltos em câmera lenta e preparando um canhão para disparar sobre Paris.

Entr’Acte, abertura:

O tom anarco-surrealista deste clássico do cinema mudo (depois sonorizado com a música dele) tem tudo a ver com os pequenos happenings que o compositor apreciava. A noite de estréia de seu balé Folga (“Rêlache”) fez o público dar de cara com o teatro fechado e uma placa indicando que o teatro estava mesmo de folga.

Tristan Tzara, Jean Cocteau, Man Ray, Picabia e outros faziam parte do seu círculo de amizades, e para eles deviam parecer muito naturais textos como as Memórias de Um Amnésico, fragmentos meio surrealistas e satíricos que ele publicava de vez em quando nas revistas literárias.

Satie era maluco, era um autista, era um desorientado? Há um caso famoso em que propuseram a Stravinsky um trabalho remunerado, mas o compositor cobrou um preço muito  alto. O produtor pensou então em Satie, e fez-lhe a proposta, só que num valor bem menor. Satie ficou ofendidíssimo por alguém lhe oferecer tanto dinheiro para compor uma peça, e só aceitou o trabalho quando o pagamento foi reduzido a uma soma insignificante.


(Satie, por Santiago Rossignol)

Quando Satie morreu, seu amigo Darius Milhaud foi uma das primeiras pessoas a entrar no quarto onde ele vivia, num subúrbio distante. Encontraram ali dois pianos (um em cima do outro), sem molas e sem cordas; oito ternos não-usados, intactos, ainda na caixa; duzentos guarda-chuvas; o chão coberto de camisas que ele usava uma vez e jogava fora. Não havia água corrente nem aquecimento. Os lençóis da cama estavam enegrecidos porque não haviam sido trocados em vinte anos. Estavam costurados às cobertas num complicado arranjo cheio de garrafas vazias, que ele enchia de água quente à noite.

Não sei analisar musicalmente a obra de Satie, mas as palavras que associo a ela são delicadeza, miniatura, perfeição, dissonância, imprevisibilidade, distanciamento. Já ouvi um maestro dizer que Chopin é o “Roberto Carlos” da música para piano. Se for assim, então Satie é o Tom Zé.

“Quando eu era jovem, me diziam: Você vai ver, quando tiver cinquenta anos. Pois bem: estou com cinquenta anos, e não vi nada ainda.” (Satie)





quarta-feira, 27 de outubro de 2010

2384) Uma Ópera em 1787 (27.10.2010)




Um artigo de Richard Fairman no Financial Times (http://tinyurl.com/2c2are6) procura imaginar, baseado em documentos de época (cartas, memórias, etc.) como teria sido a première da ópera Don Giovanni de Mozart, que foi apresentada pela primeira vez no Teatro Nacional de Praga, em 29 de outubro daquele ano. 

Não sei se as avaliações dele são fundamentadas; em todo caso, dão o que pensar. Hoje uma ópera de alto nível é um evento exaustivamente ensaiado por semanas ou meses a fio por cantores, coro e orquestra. Em 1787, diz Fairman, 

“...Mozart ficou perplexo ao chegar em Praga e descobrir que o elenco ainda não estava pronto. Como era costume naquela época, ele havia deixado alguns números musicais para compor depois de chegar na cidade (a abertura, algumas árias e todo o final do segundo ato), talvez para adaptá-los aos recursos dos intérpretes. Mesmo adiando a estreia por duas vezes, parece que a abertura só ficou pronta na véspera do ensaio geral, e a tinta ainda estava úmida nas partituras na noite da estreia”.

Parece mais com o nosso showbiz MPB/Pop do que com o que entendemos por ópera, a menos que a gente lembre que a ópera era o MPB/pop daquele tempo. 

Hoje, o imenso repertório de óperas dos grandes teatros do mundo é em cima de partituras e libretos com séculos de idade. Um intérprete profissional que sobe ao palco para cantar Mozart ou Verdi já os vem cantando desde o Conservatório.

Havia uma certa descontração, por cima dessa pressa toda, talvez porque uma ópera nem sempre fosse (como um show de MPB de hoje nem sempre é) um espetáculo formal, tenso, onde nada pode dar errado. Em certos ambientes, o texto escrito (música e letra) era apenas um ponto de partida para improvisos dos intérpretes. 

Fairman cita Luigi Bassi, o jovem (22 anos) intérprete do papel título, comparando a estreia e uma performance posterior em Dresden: 

“A cena da ceia estava sem a espontaneidade, a liberdade que o Grande Mestre esperava. Em Praga, não cantamos esta cena da mesma maneira duas vezes seguidas. Sem ligar muito para o tempo, trocávamos piadas, piadas novas a cada noite, e ficávamos de olho na orquestra. Tudo era quase que falado, como se estivéssemos improvisando, de acordo com o desejo do próprio Mozart”.

E ele lembra que a audiência não ligava muito, porque apenas uma minoria das 800 pessoas que enchiam o Teatro de Praga iam lá para ouvir a música. O restante ia para “aparecer socialmente” ou para paquerar as cantoras. Não era raro que no intervalo entre dois atos de uma ópera um admirador conseguisse convencer uma cantora a sair com ele, e o resto da apresentação tinha que continuar sem ela. 

Já ouvi falar que Shakespeare começava suas peças com cenas impressionantes (um fantasma em Hamlet, bruxas em Macbeth) para fazer com que a plateia se calasse. Talvez ele e Mozart ficassem espantados com a gravidade quase religiosa com que são tratados hoje em dia, logo eles, tão populares, tão pop.






sexta-feira, 2 de julho de 2010

2218) Música Erudita e Música Espontânea (17.4.2010)




Um dos clichês mais frequentes no jornalismo cultural (como este que eu pratico) é o de contrapor música erudita e música popular. 

Qualquer leitor de suplementos culturais entende o que é isso. Eruditos são Bach, Beethoven, Chopin; populares são Roberto Carlos, Michael Jackson, Luiz Gonzaga. Parece que, mesmo que não exista uma linha nítida separando os dois grupos, eles são mesmo dois, e diferentes um do outro.

Existem, entretanto, artistas que tanto podem ser incluídos num grupo quanto no outro. Wagner Tiso, Edu Lobo, Paulo Moura, são eruditos ou são populares? Eu acho que esta é uma falsa questão, e direi por que.

A divisão entre Erudito e Popular é equivocada porque mistura critérios heterogêneos, que se referem a coisas diferentes. Parece aquele verso de Drummond em que ele se refere à “vitória do pequeno contra o muito”. Um não é o contrário do outro, é o contrário de algo que se parece com o outro.

“Popular”, por exemplo, é o contrário de “aristocrático”. Refere-se à origem social de uma cultura qualquer.

Aristocracia, em princípio, nada mais tem a ver com erudição. Pensamos que tem a ver porque essa música que chamamos de erudita foi criada no contexto da aristocracia, foi patrocinada por ela ao longo de séculos; identificou-se com ela; mas difundiu-se a tal ponto que perdeu essa exclusividade. Muitos grandes músicos compositores dessa própria música de origem aristocrática tiveram origem pobre. Hoje, a música erudita é ensinada em Conservatórios para rapazes de moças de qualquer origem social.

Qual é o contrário de Música Erudita, então? Eu diria que é “Música Espontânea”, música feita sem estudo teórico, formal, sistematizado.

Música ensinada e aprendida por mero lazer, num contexto familiar ou de amizade, ao invés de num contexto de ensino formal. Poderíamos usar como pedra-de-toque ou tira-teima, para diferenciar as duas, a prática da música escrita. No momento (eu diria) em que um músico é capaz de ler e escrever, é capaz de registrar algo numa partitura e de ler e tocar algo que está escrito em outra, ele deixa de pertencer à Música Espontânea e passa a pertencer ao mundo da Música Erudita, independentemente de sua origem social, ou do tipo de ritmo que está tocando, pode ser uma sinfonia ou um forró.

Um músico de frevo que toca por partitura é Popular por origem social e Erudito pela educação que recebeu.

Erudito e Espontâneo indicam os dois pontos extremos numa escala de absorção de uma norma culta musical, criada e mantida há séculos. Mais uma vez, não há uma linha nítida separando as duas; são gradações.

Qualquer tocador de cavaquinho que faça um acorde está se beneficiando de algo criado há séculos no contexto da Música Erudita. Esta, no entanto, não é mais sinônimo de Música Aristocrática, embora pareça, e seus rituais públicos (concertos, etc.) ainda se revistam, por tradição e charme, dos rituais da classe social que lhes deu origem.