A crítica literária já glosou e reglosou o tema da “contabilidade
afetiva” em Machado de Assis, o tema das afeições avaliadas por critérios
monetários ou financeiros. Parece que Machado tinha um prazer mórbido em
mostrar seus personagens comparando amores a fortunas, troca de afagos a câmbio
de moedas.
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de
réis”, queixa-se (ou vangloria-se) Brás Cubas. Amor e dinheiro andam de mãos
dadas, ou não conseguem andar.
O conto “Anedota Pecuniária” é uma das melhores
ilustrações desse sentimento. Publicado na Gazeta
de Notícias (6-19-1883), foi recolhido depois em Histórias Sem Data (1884). É a história de Falcão, um homem que ama
o dinheiro, e aqui chegamos ao osso da questão. Outros personagens podem amar
uma mulher rica; Falcão vai direto ao ponto, e ama a riqueza em si.
Logo nas primeiras páginas, o autor, que ainda está nos
explicando a alma desse sujeito, narra como ele tirou a dúvida de um garoto, na
rua, sobre se uma nota de cinco mil réis era verdadeira ou falsa.
Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se disso em
caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou trêmulo na nota, examinou-a bem,
virou-a, revirou-a...
-- É falsa? - perguntou com impaciência um dos meninos.
-- Não; é verdadeira.
-- Dê cá - disseram ambos.
Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima;
depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por
ele, disse-lhe com a maior candura do mundo:
-- Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto ver.
É um solteirão (“Casar
era botar dinheiro fora”), mas o destino lhe põe no colo uma sobrinha de 11
anos, após a morte do irmão e da cunhada. Ele cria a órfã, Jacinta, com todo
carinho. Cerca a menina de cuidados.
Aos treze [anos], Jacinta mandava na casa; aos dezessete era verdadeira
dona. Não abusou do domínio; era naturalmente modesta, frugal, poupada.
Machado tem uma adjetivação curiosa. Quando ele diz
“modesta, frugal, poupada”, são qualidades à primeira vista tão próximas que um
professor de workshop literária mandaria cortar uma ou duas. São redundantes.
Ao mesmo tempo, porém, dão-nos a idéia de que as qualidades da menina-moça não
eram muito expansivas, muito espaçosas; eram qualidades muito próximas umas às
outras, como pessoas numa madrugada chuvosa, num ponto de ônibus.
Falcão cultiva essa filha (que não lhe custou muito
investimento) até pô-la moça e visível aos olhos do amigo Chico Borges, que
volta e meia aparece para jogar cartas. Chico e a moça começam a encompridar
olhares, mas quando Falcão recebe a notícia do namoro não reage bem.
Vem aí o lado contemporâneo de Machado. O leitor de hoje
que o folheia pela primeira vez pensa: “Quem diria que o povo daquele tempo era
tão moderno, tão 2026, tão Faria Lima!”.
A ver:
Era isto em 1869. No princípio de 1870 Falcão propôs ao outro uma venda
de ações. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um só
lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente
que andava pensando em oferecer-lhe a mesma cousa. Uma vez que ambos queriam
vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro.
Acharam o terceiro, e fecharam o contrato a sessenta dias. Falcão estava tão
contente, ao voltar do negócio, que o sócio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a
mão de Jacinta.
Quem são Falcão e Chico Borges? São os famosos investidores,
aqueles indivíduos que têm algum dinheiro sobrando, in-ativo, des-empregado,
sub-utilizado, capital descarregando a bateria por falta de uso. Esse dinheiro
tem que ser investido em alguma coisa. Coisas, em sessenta dias, podem se
valorizar, podem também se desvalorizar, e temos aqui a receita de um jogo mais
interessante do que o voltarete ou a canastra.
É na inebriação do investimento financeiro que Chico
Borges pede a mão da moça, mas Falcão é avarento de seus afetos, e recusa. A
vida, porém, é cheia de esquinas, e às vezes é dobrando esquinas que rodeamos o
quarteirão e, sem ter recuado um passo, nos encontramos de novo numa cena já
vivida. Porque, sessenta dias depois...
Entretanto, o sol, modelo
de funcionários, continuou a servir pontualmente os dias, um a um, até chegar
aos dois meses do prazo marcado para a entrega das ações. Estas deviam baixar,
segundo a previsão dos dois; mas as ações, como as loterias e as batalhas,
zombam dos cálculos humanos. Naquele caso, além de zombaria, houve crueldade,
porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o esperado lucro
de quarenta contos numa perda de vinte.
Foi aqui que o Chico
Borges teve uma inspiração de gênio. Na véspera, quando o Falcão, abatido e
mudo, passeava na sala o seu desapontamento, propôs ele custear todo o deficit, se lhe desse a sobrinha.
Justiça seja feita a Falcão: não vendeu a sobrinha ali,
no quente da oferta. Negou-se, a princípio; foi para casa, consultou-se com a
Insônia (“essa musa de olhos arregalados”,
como dizia Dom Casmurro) e somente na manhã seguinte correu à casa de Chico
para fechar o acordo.
Jacinta e Chico Borges se casam, mas o escritor, que
também gosta de revisitar situações, faz com que outra sobrinha órfã, Virginia,
venha parar sob a asa de Falcão, após a morte de uma irmã viúva. E repetem-se
ciclicamente os afetos... os cuidados recíprocos... a vigilância ciumenta (“...janelas cerradas, advertências à
preta, raros passeios, só com ele e de olhos baixos.”)...
Falcão gosta sinceramente da segunda menina, tal como
gostara da primeira; mas tudo nele é investimento e planilha. Ele sabe que
precisa planejar a própria morte, e vez em quando prepara o espírito de
Virginia.
-- Esta há de fechar-me os olhos - repetia ele consigo mesmo. Um dia,
chegou a pensá-lo em voz alta: - Não é verdade que você me há de fechar os
olhos?
-- Não diga tolices!
Conquanto estivesse na rua, ele parou, apertou-lhe muito as mãos,
agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria
provavelmente com os olhos úmidos.
Pobre de Falcão, a rua era outra mas o quarteirão tinha o
mesmo formato. Na vida de Virginia aparece um tal de Reginaldo, que já vem de
caso pronto, já vem planejando pedido, noivado, e o mais que se segue. Reginaldo
é moderno, mora em New York e economiza em dollars
(Machado grafa assim). E logo na primeira conversa, espalha trunfos na
mesa.
Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New York,
com trinta anos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro
horas depois visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o
Reginaldo era fino e prático; atinou com a principal corda do homem, e
vibrou-a. Contou-lhe os prodígios de negócio nos Estados Unidos, as hordas de
moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falcão ouvia deslumbrado, e
pedia mais. Então o outro fez-lhe uma extensa computação das companhias e
bancos, ações, saldos de orçamento público, riquezas particulares, receita
municipal de New York; descreveu-lhe os grandes palácios do comércio...
Um homem não pode lutar contra o Destino, ainda mais quando
esse Destino na verdade é ele mesmo. Falcão deixa-se levar. Deixa-se levar à
casa de Reginaldo para ver sua coleção de moedas do mundo inteiro, que deve ser
algo mais deslumbrante do que uma coleção de revistas de ficção científica dos
anos 1940, ou de folhetos de cordel dessa mesma safra. Falcão fica em êxtase.
Falcão foi. Reginaldo
mostrou-lhe a coleção metida num móvel envidraçado por todos os lados. A
surpresa de Falcão foi extraordinária; esperava uma caixinha com um exemplar de
cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de bronze e de cobre.
Falcão mirou-as primeiro de um
olhar universal e coletivo; depois, começou a fixá-las especificamente. Só
conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o
Reginaldo nomeou-as todas: florins, coroas, rublos, dracmas, piastras, pesos,
rupias, toda a numismática do trabalho, concluiu ele poeticamente.
-- Mas que paciência a sua
para ajuntar tudo isto! - disse ele.
-- Não fui eu que ajuntei -
replicou o Reginaldo -; a coleção pertencia ao espólio de um sujeito
de Filadélfia. Custou-me uma bagatela: - cinco mil dollars.
Na verdade, valia mais. Falcão
saiu dali com a coleção na alma; falou dela à sobrinha, e, imaginariamente,
desarrumou e tornou a arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para
toucá-la outra vez.
Moedas, amantes, não é tudo a mesma coisa?... Não
contarei o final do conto, porque o leitor já o adivinha, mas vale a pena olhar
no original a puxada de tapete de Machado de Assis nas expectativas do seu
leitor de 1883, numa piscadela metalinguística.
Fala-se muito na importância do amor sincero, mas
pergunto se o amor de um avarento pelo seu ouro não será sincero também. É
assim o “nosso homem” Falcão, cujo ascetismo me lembra o banqueiro Daniel
Dantas, bilionário que mantém em casa um sofá rasgado e só se alimenta de arroz
e batatas (segundo os jornalistas que o têm entrevistado).
O Rei Midas da mitologia transformava em ouro tudo em que
encostasse a mão. Homens como Falcão transformam em preço tudo que tocam com a
mente ou com o olhar. É o olhar do inseto, já nos advertia Philip K. Dick; ou o
olhar do viciado em drogas, que ao ver um objeto ou uma pessoa, pensa logo:
“Por quanto posso vendê-lo na primeira calçada? Quantos gramas de droga isso aí
pode me fornecer?”.
Entretanto [diz Machado],
basta ver este olhar felino, estes dois beiços, mestres de cálculo, que, ainda
fechados, parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição
capital do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: ele faz arte
pela arte, não ama o dinheiro pelo que ele pode dar, mas pelo que é em si
mesmo! Ninguém lhe vá falar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa
fina, nem carruagem, nem comenda. Não se ganha dinheiro para esbanjá-lo,
dizia ele. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação.
O amor do tipo “arte
pela arte” não é o amor pelo consumo conspícuo, pela esbórnia, pela ostentação,
pela orgia. É o amor pelo Número.