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sexta-feira, 30 de outubro de 2020

4636) A Espinha Dorsal e o Mundo Fantasmo (30.10.2020)



 
Estou há várias semanas promovendo no saite “Catarse” a campanha de financiamento coletivo (“financol”) dos meus livros A Espinha Dorsal da Memória e Mundo Fantasmo, coordenada pela Editora Bandeirola (São Paulo), a quem caberá a publicação dos livros.
 
A campanha, aliás, vai até o dia 10/11/2020 às 23h59m59s.
 
No saite do CATARSE estão todas as explicações, descrição dos livros, descrições dos brindes, instruções sobre o modo de apoiar, pagar com cartão, pagar parcelado, todo o “caminho das pedras”:
 
https://www.catarse.me/a_espinha_dorsal
 
Julguei de bom alvitre, portanto, mexer na poeira do baú das recordações, e tirar de lá algumas informações tão antigas quanto a expressão “de bom alvitre”. Porque são livros escritos e lançados há mais de vinte anos. Há muito tempo eu não os relia, e tive que reler tudo agora, para fazer a revisão final dos originais.
 
Faço sempre a ressalva de que não sou um autor especializado em ficção científica. Escrevo poesia, escrevo ficção mainstream, escrevo ensaios, crônicas, literatura de cordel, teatro e mais uma porção de coisas. Como já afirmei muitas vezes em palestras no saudoso Fantasticon, o evento de FC promovido em São Paulo por Sílvio Alexandre: “No mundo do mainstream, falo da FC: no mundo da FC, falo do mainstream”.
 
Tenho pela FC um afeto pessoal porque faz parte da minha história, É algo que leio por prazer, e se a leitura de um livro específico não me der prazer, largo e pego outro. (Isso seria no melhor dos mundos – mas quando a gente se mete a pesquisador, tem que ler muito livro chato até o fim. Tem que falar sabendo do que está falando.)
 
A Espinha Dorsal da Memória, não é meu primeiro livro: antes dele publiquei livros de poesia, folhetos de cordel, um ensaio sobre FC (O que é ficção científica, Ed. Brasiliense, 1986). Foi, no entanto, minha estréia na prosa de ficção, e foi uma aposta alta que fiz, com o destemor característico dos apressados. Ganhei um prêmio, e tive ótimas respostas na imprensa. Esta edição da Bandeirola virá com a transcrição de uma “Fortuna Crítica” recolhida pelo livro junto à imprensa e aos fanzines, no Brasil e em Portugal.
 
Mundo Fantasmo, publicado sete anos depois, é quase um prolongamento do primeiro livro, em termos estilísticos e temáticos, mas já pertence a outro momento. A Espinha foi todo escrito na máquina de escrever; Mundo Fantasmo foi escrito quase todo no computador.



(as edições portuguesas dos dois livros)


É interessante, hoje, para mim, perceber que um conto sobre alguém que escreve num computador, como “Breves Histórias do Tempo” (no Mundo Fantasmo) foi escrito na máquina de escrever convencional, porque nessa época eu ainda não conhecia o computador, tudo ali foi tirado das coisas que eu via em revistas e jornais.
 
Não estou me gabando: William Gibson também escreveu Neuromancer (1984) antes de usar um computador. É só para lembrar que a ficção científica precisa dos fatos, mas precisa que a imaginação se antecipe ou se sobreponha aos fatos. É uma literatura de fantasia tecnológica, não é um realismo a mais.
 
Nada contra o realismo, mas, por que não ter os dois modos de expressão? Por que ter apenas um? Imagine se alguém chegasse para Marc Chagall e perguntasse: “Mas por que o senhor não pinta as coisas como Vermeer?”, e vice-versa.


Nesses dois livros, procurei colocar lado a lado histórias de FC, de fantasia heróica, de fantasia urbana... Modulações diferentes do fantástico, coisas que tenho prazer em ler e que me estimulam a ter idéias.
 
Nos dezenove contos reunidos estão presentes dois ciclos de histórias que vim desenvolvendo ao longo dos anos.
 
O primeiro é o ciclo dos Intrusos, histórias de FC sobre o contato da humanidade com uma raça ultra-poderosa da Galáxia; esses contos compõem a Parte II de A Espinha Dorsal.... O ciclo foi retomado no conto “O Molusco e o Transatlântico”, que saiu recentemente no meu livro Fanfic (São Paulo: Patuá, 2019).



O segundo é o ciclo de Campinoigandres: histórias ambientadas nessa cidade imaginária da Península Ibérica, e que incluem “História de Maldun, o Mensageiro” (em A Espinha...), “História de Cassim, o Peregrino” (em Mundo Fantasmo), e também o romance A Máquina Voadora (Rio: Rocco, 1994; Lisboa: Caminho, 1997).


O sistema de financiamento coletivo, a cargo do saite Catarse e da Editora Bandeirola, prevê o envio de brindes para quem apoiar o projeto em faixas de preço sucessivamente mais altas. Há brindes como marcadores de livros, uma ecobag com desenho de Romero Cavalcanti (autor das capas destas reedições dos dois livros)... Há também reproduções fac-similares de trechos dos datiloscritos e esboços originais.
 
Há alguns que eu quero destacar, por serem trabalhos raros, que um leitor jamais vai encontrar numa livraria, porque não foram feitos para distribuição comercial convencional.


Peleja de Braulio Tavares com Marco Haurélio (32 páginas)
Uma peleja que travei com meu amigo e parceiro, o cordelista e pesquisador Marco Haurélio, via Facebook: eu no Rio, ele em São Paulo. Os versos foram trocados no Facebook, em tempo real, com testemunho e comentários de centenas de pessoas. Saiu pela Editora Tupynanquim, do meu amigo Klévisson Viana (Fortaleza).

 
O Tesouro de Antonio Silvino (20 páginas)
Um romance de cordel que escrevi a partir de uma história que me foi contada pelo cordelista e pesquisador Kydelmir Dantas, e editado por ele via Editora Cordel (Mossoró). Kydelmir me contou a história, e eu falei: “Isso dá um folheto”. Ele disse: “Escreva que eu publico”. Tá aí o resultado

Malassombrado (4 páginas)
Adaptação em quadrinhos feita por Cavani Rosas, a partir do conto de abertura de A Espinha Dorsal... Cavani é um parceiro antigo, e estamos preparando juntos um álbum de desenhos e poesia a sair em breve, Na Torre da Lua Cheia.

Outros brindes são mais voltados para os colecionadores. Por exemplo: cópias fac-símile da primeira página dos originais dos contos (datilografados) da Espinha Dorsal:


 
Há também brindes de "cartões-poemas", dez cartões postais que podem ser mandados pelo Correio, tendo no verso, em vez de uma foto, um poema meu, autografado:



Esses brindes servem de complemento aos livros de contos, e são um dos aspectos que acho mais interessantes nas campanhas de financiamento coletivo. Quero lembrar novamente que todas as ilustrações dos livros e do material correlato são de outro amigo e parceiro de longa data, Romero Cavalcanti, com quem fiz uma longa série de antologias de contos fantásticos pela editora Casa da Palavra.
 
Antologias que serão retomadas agora, com novos temas e novos autores, através da Editora Bandeirola; é um dos nossos projetos para 2021, sobre o qual falaremos oportunamente.
 
 


 
 
 






sexta-feira, 18 de abril de 2014

3477) Escrever no Brasil (19.4.2014)




Numa discussão sobre ficção científica brasileira, com dois ou três amigos, me queixei do pouco que o Brasil é retratado em histórias de FC nacionais. Todo mundo ambienta suas histórias em outro país ou outro planeta, e histórias ambientadas no Brasil são proporcionalmente poucas. Por que?  Alguém questionou: “Peraí, que dirigismo é esse? Então o escritor é um funcionário, tem que obedecer um Plano Quinquenal de Romances Futuristas?  O autor não é livre pra criar? Tem que produzir dentro de uma fórmula fornecida pelos críticos, ou pelo governo?” 

A crítica é procedente, e concordei. Cada sujeito, quando se senta para escrever, é livre para ambientar suas histórias onde bem quiser. Dei como exemplo eu mesmo: nos 19 contos de meus dois livros de FC, há dois que só poderiam ser ambientados (como são) no Rio de Janeiro. São dois contos sobre um Rio do futuro (“Príncipe das Sombras” e “Jogo Rápido”). O resto, ou é em outros planetas, ou numa cidade que poderia ser qualquer uma. (Há um conto, “Oh Lord, won’t you buy me”, ambientado em São Paulo, mas sua primeira versão, que escrevi nos EUA, era ambientada em Chicago, e o conto era exatamente o mesmo.)

O que acontece é que o questionamento sobre ambientação não deve ser feito aos indivíduos, e sim à uma geração inteira dos autores, depois dos livros escritos.  Cada um de nós, autores, é livre para ambientar suas histórias onde quiser, mas nós, críticos, temos o direito de estranhar se somente uma fatiazinha desses livros brasileiros diz respeito ao Brasil. Não se pode cobrar nada de cada escritor (cada um é livre, repito) mas se o país está conspicuamente ausente dessa produção literária isto é um sintoma cultural que não pode ser ignorado.  O crítico tem a obrigação moral e intelectual de perguntar por que é assim.

Um fato assim indica um viés, uma preferência. É mais fácil escrever sobre Marte do que sobre o Brasil?  Para mim, pelo menos é.  Se eu pudesse ambientar todas as minhas histórias em Londres na década de 1890, ô beleza, eu escreveria um conto por semana, porque não existe ambiente literário mais cômodo (pra mim) do que esse.  Doses cavalares de Conan Doyle, Stevenson, Chesterton, James, etc. me deixaram à vontade para passear literariamente por essa cidade (que nem conheço, aliás).  Ambientar no Brasil me leva a uma contaminação de realidade que, pra quem dá importância à verossimilhança externa do que escreve, chega a ser paralisante. É como pedir a um chargista para pintar a Capela Sistina.  O Brasil, como cenário minimamente verossímil, parece estar além da capacidade de muitos autores, inclusive eu mesmo.

(Por distração, este artigo, que é do "Jornal da Paraíba" do sábado 19 de abril, foi postado aqui neste blog no dia 18, sexta. A postagem correta referente à a sexta 18 é "3476) Roubado não é bom".)

sábado, 23 de março de 2013

3141) Dez anos (23.3.2013)





Não sou de comemorar datas. Nem mesmo meu aniversário eu comemoro. Prefiro comemorar façanhas: o lançamento de um livro, por exemplo. Aí, sim tenho a sensação de estar celebrando uma coisa concreta, real, e não uma simples coincidência aritmética. No presente caso, entretanto, acho que vale comemorar, porque as duas coisas estão juntas.

Hoje, 23 de março de 2013, completo dez anos como titular desta coluna no “Jornal da Paraíba”, para onde fui trazido, pela ordem de conversa, por Rômulo Azevedo, Luiz Carlos de Souza e Guilherme Lima. Orgulho-me de afirmar que, como bom jornalista, não faltei um dia sequer, e este é o artigo de número 3.141 (tenho todos devidamente salvos e com back-up). Além do mais, todos estão disponíveis no meu blog Mundo Fantasmo (http://mundofantasmo.blogspot.com), onde procuro postá-los diariamente, para quem se interessar. Duas coletâneas deles já foram publicadas: “A Nuvem de Hoje” (Editora Latus/UEPB, Campina Grande, 2011) e “A Arte de Olhar Diferente” (Ed. Hedra, São Paulo 2012).

Ao longo deste tempo o jornal passou por algumas reformas gráficas, e a partir de setembro de 2011 o tamanho máximo da coluna, que era de 3.000 caracteres com espaços, foi reduzido para 2.680.  De início chiei, porque para mim é mais fácil escrever muito do que escrever pouco; mas a gente se acostuma, quando tem que fazer algo todo dia. O que mais me incomodou foi o limite máximo de 21 caracteres para o título, porque muitas vezes não cabe o nome inteiro do filme ou do livro que a gente está comentando.

Me perguntam sempre: Como é que você consegue escrever um artigo por dia? Respondo dizendo que jornal é assim, tem que escrever, esteja inspirado ou não, esteja com boas idéias ou não. Às vezes a gente passa uma semana sem idéias, mas escreve. Às vezes tem seis idéias geniais antes do café da manhã, e nesse caso o melhor que faz é escrever logo todas seis e ficar com a semana pronta.

Agradeço aos leitores fiéis que acompanham esta coluna desde que ela começou, e aos outros que ganhei através do blog. Nem tudo que escrevo interessa ou agrada a todo mundo, e é bom que seja assim, para a gente não ficar esperando somente a aprovação, a concordância, o elogio. Quando eles vêm, são bem vindos e preciosos. Mas a gente não escreve para agradar, escreve para interferir, para provocar, para compartilhar, para prevenir. Escreve para deixar registrada uma informação que será importante daqui a mais dez ou vinte anos. Alguns escritores passam a vida redigindo um “Diário Íntimo”. Eu acho que vale mais a pena escrever um “Diário Público”, discutindo o que interessa a muita gente – ou pelo menos a intenção é esta.