Depois o homem manuseia e rasga algumas fotografias (que
supostamente reproduzem sua vida desde a infância), e um desenho pregado na
parede. Por fim, a câmera (que estava
sempre às suas costas) mostra seu rosto: ele usa uma venda negra sobre o olho
esquerdo, e quando olha para a câmera vê-se a si mesmo, como se a câmera fosse
seu “duplo”, vigiando-o sem parar.
No saite “UbuWeb” (o “YouTube da vanguarda”) há um relato
do diretor Alan Schneider descrevendo o entusiasmo e o horror de alguém que
está dirigindo um filme-de-verdade pela primeira vez. Exultante por estar
trabalhando com dois dos artistas que mais admirava, ele lamenta a própria
inépcia, a própria inexperiência, e faz comentários tipo: “O segundo dia de filmagem nos trouxe diferentes problemas, mas foi tão
horrendo quanto o primeiro”.
A Wikipedia (na sua versão em inglês) tem um verbete
surpreendentemente longo e opinativo sobre o filme. Um dos comentários mais
interessantes é o que o compara ao poema de Victor Hugo “La Conscience”, em que
o poeta compara a consciência humana a um olho sempre em vigia, um olho que
nunca se fecha. Comparação que não deixa de me evocar a imagem do morcego, no
soneto famoso de Augusto dos Anjos:
A consciência humana é este morcego!Por mais que a gente faça, à noite, ele entraimperceptivelmente em nosso quarto!
Vejam só que adendo providencial. O detetive é “o cavaleiro andante do olho privado e da consciência pública”. Traduzo “private eye” (=detetive particular) ao pé da letra para manter essa equivalência: o Olho é a consciência controladora que nos segue, o drone, a câmera da vigilância.
Samuel Beckett era um misantropo permanentemente recluso,
com poucos contatos sociais. Embora seus
amigos mais íntimos desmentissem certos mitos em torno dele, sua vida e sua
obra são um longo obituário da comunicação humana. Quando tinha trinta e poucos
anos, Beckett foi esfaqueado na rua por um desconhecido; durante o inquérito,
perguntou ao atacante por quê fizera aquilo, e ele respondeu: “Não sei,
senhor... desculpe”.
(Alan Schneider)
O absurdo também visitou o diretor Alan Schneider. Em
1984 ele estava em Londres, dirigindo uma peça, e atravessou uma rua com a
intenção de postar uma carta para seu amigo Beckett. Esquecido de que a “mão
inglesa” é ao contrário da norte-americana, ele olhou para o lado errado e
morreu atropelado por uma moto.
https://www.ubu.com/film/beckett_film.html
O depoimento do diretor:
https://www.ubu.com/papers/beckett_schneider.html

