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domingo, 12 de fevereiro de 2017

4208) Sagarana: "O Duelo" (11.2.2017)




(ilustração de Poty para Sagarana)

Este era o título do filme que Paulo Thiago dirigiu em 1973, adaptando o quarto conto do livro de Guimarães Rosa, cujos 70 anos comemoramos recentemente. Estou comentando devagar os contos do livro, pela ordem. Um dos temas que os costuram é o tema da ida e volta, já prenunciado numa das epígrafes do próprio livro (“for a walk and back again”).  Em “O Duelo” esse tema ganha um desenho novo, inclusive com uma nova epígrafe em que cabe a uma piranha dar “um pulo de ida-e-volta”.

Porque “O Duelo” é a história de dois homens armados, cada um deles em busca do outro para matá-lo, mas é uma busca vagarosa, em que os dois vão e vêm a cavalo de vila em vila, sem pressa, colhendo pistas, pedindo informações, largando manobras de despistamento, num jogo de negaceios em que ambos estão literalmente indo e voltando o tempo todo.

É o que, segundo um comentário de Jorge Luis Borges, Julio Verne chamava de “duelo à americana”: dois homens juram-se mutuamente se morte, armam-se, preparam-se e se embrenham num bosque, um à caça do outro:


Fosse isto aqui uma aula e eu passaria como dever de casa a tarefa de rastrear os lugarejos que os dois pistoleiros percorrem, discriminando (se possível) quais são os lugares reais e quais os inventados, porque todos fazem parte da saborosa toponímia rosiana: o Borrachudo, as Tabocas, as Catorze-Cruzes, o Dêcámão, a Piedade do Bagre, o Cuba, a Sela do Ginete, o Mosquito, o Paredão do Urucuia, as Abóboras... 

Quem sabe uma busca como essa não descobre que os dois cavalgarilhos acabam traçando um símbolo esotérico qualquer, com seus vais e seus vens, tal como o nome escrito ruas afora pelo traçado das caminhadas do personagem de Paul Auster na “Trilogia de Nova York”? Com Guimarães Rosa, desconfie-se de tudo!

A história: Turíbio Todo pega no flagra sua mulher Dona Silivana (que “tinha grandes olhos bonitos, de cabra tonta”) em plenos folguedos com um tal de Cassiano Gomes, “ex-anspeçada do 1º. pelotão da 2ª. companhia do 5º. Batalhão de Infantaria da Força Pública”. Vê sem ser visto; a prudência pode mais do que a revolta, e Turíbio, que é um capiau papudo e solerte, espera pelo dia seguinte, quando embosca o desafeto e planta-lhe à distância uma bala na nuca.

Quis o Roteirista do Mundo que o vulto alvejado, de longe e de costas, fosse o irmão de Cassiano, muito parecido com ele, e após o enterro a quase-futura-vítima já entendeu tudo e começa os preparativos para caçar o marido metido a brabo, que à essa altura já deu às de vila-diogo e se embrenhou sertões adentro, bem amontado.

E lá vão os dois, cada qual com seus armamentos e seus planos, costurando os vales, prontos para o entrevero, porque, claro, “quem puder mais é que vai ter razão”. Fazem ziguezagues, pegam pistas que não dão em nada, “e, perto do Saco-dos-Cochos, eles cruzaram, passando a menos de um quilômetro um do outro, armados em guerra e esganados por vingança”.

Quem conhece o Grande Sertão: Veredas conhece o lado épico e heróico da violência em J. G. Rosa.  Este lado está presente, em Sagarana, no último conto, “A Hora e Vez de Augusto Matraga”. Mas o que tantas outras vezes aparece na obra do mineiro é o lado não-épico e não-heróico, a violência como uma brutalidade pequena, de irrompe no cotidiano e em questão de segundos desgraça uma vida, às vezes duas.

Há um longo interlúdio no meio do conto: o encontro de Cassiano e depois de Turíbio Todo com Chico Barqueiro, que faz travessia de margem a margem do rio, um encontro que começa com uma equivocada troca de tiros entre eles. Chico dialoga primeiro com um, que vai embora, depois com o outro, a quem atravessa na balsa.

O ir e voltar no balseiro, sempre rumo à “outra banda do rio” dá-lhe uma posição estratégica na narrativa, de ser ponto-atrator de um encontro que por um triz não se cumpre. Durante a travessia, o barqueiro fala, fala, sempre de outros assuntos. Turíbio, nada. Até que: “A terra veio avançando. Encostaram no abicadouro. Turíbio pagou”.

A narrativa é toda polvilhada dos aforismos, provérbios e ditos sentenciosos de que Rosa era mestre, não apenas de ouvido mas de imaginação, como quando Turíbio Todo, depois de cruzar dois rios seguidos, refuga diante de um terceiro, e afirma, como quem lembra um mote: “quem passa três rios grandes esquece o seu bem-querer...”

O bem-querer dele, Dona Silivana, “a mulher fatal da história”, continua se encontrando com Cassiano Gomes, que regressou ao arraial ao sentir o agravamento de um mal cardíaco que motivara seu desligamento da polícia. Os desencontros, principalmente aquele patrocinado passivamente pelo barqueiro, acabam esmorecendo a perseguição mútua, pois, enquanto Cassiano retorna, Turíbio parte para São Paulo, talvez com o mesmo sonho irrealizável do Lalino Salãthiel de “A Volta do Marido Pródigo”.

Cassiano vende o que tem e parte para uma última visita à mãe, que mora longe. Vai parar num lugarejo “onde a gente não tinha vontade de parar, só de medo de ter de ficar para sempre vivendo ali”. O coração afracado o cansa. Ele faz pouso, faz amizade com um capiau baixinho, dá-lhe dinheiro, salva-lhe o filho doente, torna-se padrinho.

E nas vascas de morrer tem uma longa conversa com o capiau, Timpim  Vinte-e-Um, conversa tão secreta que nem o autor conseguiu escutá-la:

Mandava o dinheiro para a mãe? Não. Mandou vir o Timpim, para nele rever a boa ação. Conversaram. Depois o moribundo disse:
– Esse dinheiro fica todo para você, meu compadre Vinte-e-Um...
Aí, tomou uma cara feliz, falou na mãe, apertou nos dedos a medalhinha de Nossa Senhora das Dores, morreu e foi para o Céu.

Turíbio toma ciência do passamento do desafeto e volta de São Paulo; será sua última volta. As cidades grandes aparecem na obra de Guimarães Rosa sempre indiretamente, através de seus reflexos nas pessoas (Lalino Salãthiel é um dos melhores exemplos), e o mesmo se dá com o papudo Turíbio:

Saltou do trem também com uma piteira, um relógio de pulso, boas roupas e uma nova concepção do universo.

Um capiau concebendo o universo! Eu não imagino uma liberdade como essa num texto de Afonso Arinos, Simões Lopes Neto, José Américo de Almeida ou José Lins do Rego. Não que esses sejam fracos, mas é que trabalhavam num quadro limitado de referências regionalistas. Guimarães Rosa explodiu o quadro e o recompôs num quadro muito maior, onde cabia tudo que ele próprio sabia. Seus matutos vivem num mato muito maior e mais visível.

Mas pobre do Turíbio, não tem quadro, mesmo recomposto, onde o Destino das tragédias gregas não esteja de emboscada, mesmo que seja na figura de “um cavalinho ou égua, magro, pampa e apequirado, de tornozelos escandalosamente espessos e cabeludos, com um camarada meio-quilo de gente em cima”.

O autor, sem revelar o nome do capiauzinho (que a essa altura o leitor mais obtuso terá adivinhado) o faz acompanhar Turíbio ao longo de algumas páginas, conversando, picando fumo, aproximando-se cada vez mais do inevitável desfecho, até que:

– Seu Turíbio! Se apeie e reza, que agora eu vou lhe matar!

E Turíbio, assustado pelo imprevisto da coisa, “sentia o medonho que é a falta de tempo para a gente poder pensar”, a vertigem do “No Time To Think” que Bob Dylan encapsulou numa canção sobre os últimos segundos de vida de um guerreiro.

Turíbio sente a queda da Morte sobre si e ainda tem um último reflexo de valentia:

E levantou a mão à testa, se benzendo, com voz gritada, em que o choro já começava a tremer:
– Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amém!... Padre nosso...
Mas, não! Assim como um carneiro, não! Curvou de banda e puxou o revólver, e foi um golpe de rédeas e outro de esporas, fazendo o cavalo se empinar.
Mas a garrucha não negou fogo. Turíbio Todo pendeu e se afundou na sela, com uma bala na cara esquerda e outra na testa. O cavalo correu; o pé do defunto se soltou do estribo. O corpo prancheou, pronou, e ficou estatelado.

“O Duelo” é na verdade a história de um duelo que não chega a acontecer, porque Turíbio atirou somente no irmão de Cassiano, e Cassiano não atirou em ninguém, apenas delegou a Timpim Vinte-e-Um o encargo de fechar o circuito e empatar o jogo mortal. Numa hipotética antologia intitulada Contos de Vingança e Justiçamento, esta história caberia com louvores.








sexta-feira, 9 de abril de 2010

1888) A arte do duelo (28.3.2009)




Nos diários de sua convivência com Jorge Luís Borges, intitulados Borges, à pag. 223, Adolfo Bioy Casares conta a comparação feita pelo seu colega entre dois tipos de duelos praticados nos EUA no século 19 (ou na literatura do século 19, uma vez que os exemplos vêm de livros de Mark Twain e Julio Verne). 

O primeiro exemplo é o que Twain chama de “duelo à californiana”. Dois indivíduos se insultavam mutuamente e se juravam de morte. Quando se defrontavam, geralmente num “saloon”, o mais rápido puxava a arma primeiro e alvejava o outro, que também sacava a sua e se defendia da melhor maneira possível. Diz Borges: “As baixas, às vezes, não se contavam entre os duelistas”.

É o duelo tradicional que o filme de far-west refinou até produzir aquela cena clássica que na vida real terá ocorrido muito poucas vezes: os dois inimigos, frente a frente, na rua vazia (todo mundo está do lado de dentro, colado às janelas, espiando), caminham na direção um do outro. 

A sutileza deste tipo de duelo nasce da presunção de que quem puxa a arma primeiro está ameaçando o outro de morte, portanto o outro tem o direito de matar em legítima defesa. Cada um tem que esperar que o outro saque primeiro, e espera ser rápido o bastante para atirar (e acertar) primeiro.

O outro tipo, chamado por Julio Verne de “duelo à americana”, é travado no capítulo 21 de Da Terra à Lua, entre Barbicane e Nicholl. (Li o livro há 40 anos e francamente não recordo esta cena.) Borges diz que nunca viu menção a esse tipo de duelo em outros autores, e especula se não será uma invenção de Verne. 

Nesta modalidade, dois homens que se juram de morte embrenham-se num bosque, como caçadores, levando consigo armas, munição, mantimentos. Caçam-se por vários dias: “dormem, com muitas precauções, perseguem-se, evitam-se, despistam um ao outro, armam emboscadas até que um dos dois consegue surpreender o outro e matá-lo”.

É este último tipo de duelo que me parece, hoje, mais rico de possibilidades dramatúrgicas do que o velho face-a-face do faroeste. 

Basta lembrar Enemy at the Gates (2001), o filme de Jean-Jacques Annaud em que Jude Law e Ed Harris são dois atiradores de elite durante a II Guerra (um soviético, o outro nazista) que se perseguem mutuamente. 

Há também o curioso e um tanto excêntrico filme de Ridley Scott Os Duelistas, ambientado na época de Napoleão, em que Harvey Keitel e Keith Carradine são dois oficiais que se detestam e, sempre que se cruzam, às vezes com anos de intervalo, desafiam-se mutuamente para um duelo à espada.

O “duelo às claras”, o confronto clássico do faroeste, é rápido. Exige uma longa preparação, e uma tensão que se avoluma, mas tipicamente se resolve em alguns segundos. Somente alguns casos raros, como o famoso duelo no Curral OK, podem ser explorados em longas sequências. O duelo às escondidas, com seu jogo de gato e rato, suas alternativas, pode render filmes ou romances inteiros.






terça-feira, 31 de março de 2009

0930) O duelo de honra (10.3.2006)



O duelo de honra é uma nobre instituição da civilização européia. Deve ter tido origem ali pela Idade Média mas avançou pela Renascença adentro e até pouco tempo atrás, nos anos 1800, era largamente praticado pelos homens mais esclarecidos do Continente. O duelo se baseia no conceito abstrato de que cada indivíduo é detentor de uma honra pessoal – um conjunto de atributos que, por assim dizer, determinam a cotação de sua masculinidade e da sua respeitabilidade no mercado das relações sociais. E quando essa honra é ofendida tem que ser lavada com sangue.

Quando eu era garoto, o guri que levasse uma tapa na cara e não reagisse é porque era “viado”. O cara levava uma tapa, reagia, e aí levava a surra completa; voltava do recreio com o nariz sangrando e alguns dentes moles, mas cercado do respeito (e ouso dizer da inveja) do resto da classe. Na aristocracia francesa não era muito diferente. Ser esbofeteado era a maior das ignomínias. (Já vi num romance uma bizantina discussão sobre que tipo de tapa era mais ofensivo: com a palma, ou com as costas da mão?) O sujeito que levasse uma tapa tinha uma única frase a dizer: “Em guarda, senhor!” – puxando a espada, e intimando o desafeto a fazer o mesmo.

O duelo passou a ter regras. A frase virou: “Minhas testemunhas o procurarão!” Porque o duelo não podia ser ali, no quente da hora. Ficava automaticamente marcado para a manhã seguinte, e cada duelista levava duas testemunhas para garantir a lisura do encontro e para depois explicar às autoridades o que tinha acontecido. (O sujeito sair de casa pra morrer já é ruim. Imagine ter que fazer isso à 5 da matina.) Como em tudo que envolve a violência, esse processo foi sendo diluído através de uma ritualização simbólica cada vez maior. Para se desafiar alguém a um duelo, não era mais preciso esbofeteá-lo: bastava descalçar a luva e arremessá-la em seu rosto. Depois, bastava atirar a luva aos pés do desafiado.

Paralelamente, a violência do próprio duelo foi sendo esvaziada. Em alguma época foi determinado que para “lavar a honra” não era preciso mais matar o adversário, e foi criado o conceito de “primeiro sangue”. Quando o primeiro sangue (ou seja, um ferimento leve) fosse derramado, o duelo era interrompido e as exigências da honra eram declaradas oficialmente satisfeitas. Já vi romances em que bastava o “cruzar ferros”, ou seja, bastava o primeiro choque entre as espadas, para que a honra estivesse satisfeita. Nesse processo parece ter predominado a tendência de ritualização da violência, que deixa de ser luta mortal e se transforma em mera coreografia (ver “O Sol de Austerlitz”, 15.12.2005). A forma mais civilizada de eliminar a violência não é reprimi-la. É esvaziá-la, transformá-la em ritual, em esporte (o duelo virou esgrima olímpica, a capoeira virou dança ou esporte). Quanto à honra... bem, um conceito apenas simbólico pode muito bem ser defendido por meios meramente retóricos, por que não?