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terça-feira, 5 de agosto de 2014

3569) "Viagem" de Graciliano (5.8.2014)



(1a. edição - capa de Cândido Portinari)

“Viagem” (1954) é um livro póstumo de Graciliano Ramos, contando sua visita à Checoslováquia e à União Soviética em 1952. O visitante já morreu e os países visitados não existem mais; o livro vale pela lenda deixada por cada um e pelo resíduo pessoal que livros assim guardam para sempre. Graciliano, um comunista sincero, descreve os triunfos industriais e copia as estatísticas acachapantes fornecidas pelas autoridades stalinistas, mas é tão reticente e desconfiado quanto sempre o foi com sua própria pátria. (Ou até sobre seu Estado natal, pois ele disse uma vez que Alagoas “daria um excelente golfo”.) O escritor foi numa caravana de dezenas de brasileiros (o livro tem várias fotos deles misturados a escritores russos) e percorreu o roteiro propagandístico habitual nessas viagens, em que os visitantes são ciceroneados por guias solícitos, sempre prontos a dar a versão oficial de qualquer coisa.

O frio e a vodka são personagens constantes dessa trajetória entre hotéis, aeroportos (Graciliano ainda usa o termo “aeródromo”), escolas, fábricas, paradas militares, recepções, concertos, uma agenda estafante de visitas, para exibir aos visitantes (de dezenas de países) os triunfos e a eficiência do regime comunista. A visita ocorreu menos de um ano antes da morte de Stálin (em março de 1953) e reflete uma época em que a fama dele como “pai do povo”, “grande líder”, estava no auge. Graciliano não era imune a essa fama, e o capítulo 9 do livro é uma defesa do ditador que ainda hoje incomoda nossa crítica literária. Expressões (dirigidas a Stalin) como “tremendo condutor de povos”, “defensor da classe trabalhadora”, soam mais como editoriais do jornal do Partido do que como uma expressão literária espontânea.

Aliás, o livro inteiro desagrada aos que têm envolvimento político: os comunistas esperavam um elogio eufórico, os anti-comunistas esperavam uma crítica demolidora, uma denúncia indignada dos expurgos e fuzilamentos. O autor, embora claramente a favor do regime, é meio incrédulo diante das estatísticas, desconfiado de tantas amabilidades, incomodado pelo excesso de solicitude. O capítulo 9 chega a parecer um texto destinado a ser lido pelos censores do Partido para garantir o “imprima-se”. Os melhores momentos são aqueles em que o comunista cede lugar ao escritor, como a noite em que se perde nas ruas desertas e geladas, sem encontrar o hotel, ou o encontro com uma descendente de príncipes num jardim onde vê um nordestino pé de quipá.  Era um Graciliano velho, carcomido pela doença, já sem forças para duvidar. Graciliano morreu também em 1953, duas semanas depois de Stalin.


sexta-feira, 14 de março de 2014

3446) Os dois escorpiões (14.3.2014)




(Josef Stálin, Bernard Madoff)

O Comunismo era um escorpião feito de ferro, cimento, vapor, eletricidade, com duzentos milhões de células humanas. Karl Marx dizia que o comunismo só poderia ser estabelecido num país plenamente desenvolvido e industrializado, como a Inglaterra ou a Alemanha de seu tempo.  Por uma dessas ironias da História, Lênin tentou implantá-lo na Rússia, o país mais vasto do mundo, e um dos mais atrasados, embora tivesse uma elite refinada, cavalheiresca e culta. Confirmando a advertência de Marx, não deu certo. Lênin morreu no meio do caminho e foi substituído por Stálin, um dos exemplos mais rematados de gangster que a história já conheceu.  Questionar o comunismo alegando Stálin é como questionar o Islã alegando Saddam Hussein. Se Marx tivesse visto a Revolução Russa teria ficado furioso com as liberdades filosóficas e partidárias tomadas por Lênin. Se visse Stálin, daria um tiro nos miolos.  Lênin tinha muitos defeitos (inclusive caretice poética e cinematográfica) mas era um pensador de verdade e um ativista de verdade, numa só pessoa.  Já Stálin era um Al Capone  canastrão, cercado de ghost-writers.  Como todo gangster bem sucedido, tinha faro de fera e olho de rapina quando se tratava de guerras ou de intrigas palacianas.  O Stalinismo começou a afundar com sua morte, mas só terminou quando caiu o Muro de Berlim.  O Comunismo (sua versão soviética) suicidou-se ritualmente por excesso de concentração, de centralização, de fechamento e colapso em black-hole.

Já o nosso confortável Capitalismo está morrendo por excesso de Liberdade, ou melhor, pela enorme plasticidade com que esta importante palavrinha se encaixa em qualquer discurso. A atual mega-crise financeira cujo abalo mais forte foi em 2008 parece ser uma combinação de filosofias de lucro a qualquer custo e lealdades a qualquer preço.  Não o espectro comunista, mas o fantasma da liberdade: “o mercado tem que ser livre”.  Ou seja, eu devo ser livre para mudar as regras do jogo que meu time está disputando.  Houve um desmonte programado de fiscalizações, atividades de agências reguladoras, trocas de poder, vitórias pirotécnicas de um grupo de investidores sobre outros. Na América, a terra natal do dinheiro eletrônico, isso virou um jogo, onde até mesmo os bilhões ficam em segundo plano. Mais importante do que ser rico é ter desempenho nesse complicado RPG, um game que esses grandes investidores praticam a sério. A URSS morreu de concentração centrípeta, os EUA vão morrer de espiral centrífuga.  O Capitalismo é um escorpião feito de néon, silício, LCD, vapor browniano e filamento incandescente de carvão.





quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

3049) Ser comunista (6.12.2012)






Tanto esquerda quanto direita já fizeram tentativas de impor ao mundo real conceitos abstratos extraídos de um silogismo filosófico qualquer. É uma atitude que, previsivelmente, é encampada com facilidade por intelectuais jovens com muita leitura e pouca vivência nas ruas. Você desenvolve uma argumentação veemente numa lógica irretorquível. Quando vai botar em prática, leva uma rasteira da Realidade. Nada mais irritante para um filósofo do que predizer uma castástrofe e não vê-la acontecer. Ou vê-la, dependendo do caso.

O marxismo sempre teve um lado ficção científica, no aspecto teórico. Ele se apresentava como uma interpretação científica da realidade, para se distinguir do socialismo utópico ou do comunismo  primitivo dos índios. O Materialismo Científico não era muito diferente da Psico-História de Hari Seldon, na trilogia da Fundação de Asimov. Uma teoria ambiciosa, assustadoramente veraz, com duas tintas de ingenuidade messiânica e mais quinze gotas de militarismo introjetado. Perto da seriedade do marxismo, qualquer outra teoria da história humana fica parecendo inventada por Robert Sheckley ou Douglas Adams.

As pessoas mais honestas, altruístas e corajosas que já conheci estão nestes dois grupos: as pessoas religiosas e os comunistas. Dois grupos que, em muitas circunstâncias, não se veem com bons olhos. Um erro da esquerda é um revolucionarismo que desdenha a alegria e tudo submete a uma moral puritana e sombria. Karel Tchápek, o autor de “A Fábrica dos Robôs”, disse certa vez:

“Numa de suas baladas o poeta comunista Jiri Wolker diz: ‘Nas profundezas do coração de vocês, meu povo, eu posso ver o ódio’. É uma palavra horrível, mas o mais interessante é que é totalmente inadequada. Nas profundezas do coração dos pobres o que existe mesmo é uma alegria espantosa e bela. O operário no torno conta piadas e se diverte muito mais do que o dono ou o diretor da fábrica. Pedreiros de construção se divertem mais do que o mestre-de-obras ou o proprietário.  E se dentro de uma casa houver uma pessoa cantando, é muito mais provável que seja a criada do que a patroa. Esse povo a que chamam proletário tem uma inclinação natural para uma concepção de vida quase infantil de tão alegre; o pessimismo comunista e o seu ódio melancólico são injetados artificialmente neles, e através de condutos impuros. Chama-se a adoção dessa depressão desesperada ‘a educação das massas rumo ao revolucionarismo’ ou ‘a reafirmação da consciência de classe’. Os pobres, tendo tão pouco de seu, passam agora a ser privados de sua primitiva alegria de viver; este é o primeiro pagamento que fazem para chegar a um mundo melhor no futuro”.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

2841) Dinheiro é droga (11.4.2012)




O Capitalismo começa como uma espécie de realismo pragmático, mas depois de um certo ponto degenera em delírio quantitativo. 

No começo, ele é materialista até a medula. Escarnece da religião, faz pouco das ideologias, torce o nariz para a arte, dá um chega-pra-lá em todos os subjetivismos e diz que no mundo somente as coisas materiais contam. Só conta o que dá resultado, o que gera riqueza, o que produz. 

É nessa fase, por exemplo, que as manifestações artísticas são enxotadas para o sótão dos “Passatempos Para Gente Desocupada”. Por que perder tempo com coisas que provocam apenas prazer estético e enriquecimento espiritual? Já que ninguém pode quantificar prazer estético, ninguém pode lucrar planejadamente com ele. Quanto ao enriquecimento espiritual, pra começo de conversa não existe essa coisa chamada espírito.

Na sua fase produtiva, o capitalismo impõe um culto à produção, à matéria, às transformações das matérias primas em produtos. Esse culto é tão forte que contaminou o próprio comunismo, em suas tentativas falhadas de substituir o adversário. Estatizando o Capital e glorificando o Trabalho, o comunismo perpetuou e ampliou as ladainhas à máquina, à indústria, à produtividade, à transformação da natureza. 

Materialista por definição, o comunismo foi, neste aspecto, uma mutação avançada do capitalismo. Só existe o que é “material”.

O que destruiu o capitalismo e vai destruir o mundo (não se enganem) é o estágio seguinte, em que a Matéria cede lugar ao Símbolo. 

O capitalismo deixa de ser concreto e passa a ser abstrato. Já não conta mais quantas moedas de ouro você possui, e sim quantos zeros você acumula em suas contas bancárias. 

O Capitalismo Financeiro sucedeu ao Capitalismo Produtivo e começou a tirar milhões de coelhos virtuais de dentro da inesgotável cartola das manipulações bancárias. É irônico que um sistema de pensamento tão voltado para o que é sólido tenha se desmanchado no ar com tanta facilidade; e que as “águas glaciais do cálculo egoísta” tenham se evaporado nessa neblina impalpável, nessa nuvem dos trilhões de dólares inexistentes que são negociados todos os dias nos mercados mundiais. 

Trilhões de zeros que bancos, empresas e países vendem, compram, revendem, emprestam, dividem, partilham, multiplicam, como se esses zeros todos valessem alguma coisa, como se existisse algum lastro produtivo (ouro, prata, grãos, capim, sei lá, qualquer coisa que servisse para algo no mundo real). 

O Capitalismo embebedou-se de Capital, passou a se alimentar não de produção mas de ficções financeiras, como um drogado que deixa de comer e de beber água, para poder continuar se drogando.





sábado, 2 de abril de 2011

2520) “O Homem com a Câmara” (2.4.2011)



Este filme de Dziga Vertov, exibido recentemente na TV a cabo (e que pode ser visto no YouTube, dividido em segmentos) talvez tenha inaugurado o gênero “documentário poético”, onde se juntam duas coisas aparentemente incompatíveis, o registro direto de imagens reais que ocorrem à revelia do diretor e a manipulação dessas imagens para produzir uma idéia ou emoção que vai muito além delas. O filme é basicamente um passeio pela Rússia dos anos 1920. Acho que surgiu como um subproduto ou efeito colateral do cinema de propaganda soviético, quando Lênin mandou os cineastas para a rua para documentar a construção do socialismo e mostrar como o novo regime e a industrialização acelerada estavam transformando o país para melhor. Propaganda estatal? Dirigismo da ditadura? Pode até ser, mas o fato é que todo o grande cinema russo desse tempo (Eisenstein, Pudovkin, Dovjenko, etc.) foi feito às custas do Estado e com intenções propagandísticas. Dziga Vertov (1896-1954), inventor do conceito de “câmera olho”, foi o principal documentarista desse período.

O filme é uma colagem de imagens do povo russo andando na rua, trabalhando nas fábricas, divertindo-se nos parques, etc. As imagens em si têm pouca coisa de excepcional, além do fato de serem plasticamente belas, bem enquadradas, de vez em quando explorando ângulos inusitados, etc. O filme resulta da justaposição dessas imagens, e na verdade foram os russos desse período que criaram as maiores façanhas de montagem cinematográfica. Ninguém como eles sabia encadear tão bem imagens que, filmadas em lugares e épocas diferentes, por cinegrafistas diferentes que improvisavam na rua sem roteiro, pareciam feitas uma para a outra.

Há duas imagens recorrentes que para mim sintetizam o filme. Uma delas é a que lhe dá o título: o homem com a câmara, filmando no meio da rua. Porque o diretor filmou os camera-men que estavam fazendo o filme, numa metalinguagem sem nada de pretensioso ou narcisista. Vemos um carro sem capota andando numa rua, cheio de gente sorridente que olha a paisagem urbana. Um segundo depois, de outro ângulo, vemos o mesmo carro, e ao lado dele outro carro que vai na mesma velocidade, tendo em cima um tripé com uma câmara e um homem rodando a manivela: é a câmara que filmou a imagem anterior. Basta isto para nos projetar numa cadeia infinita de possibilidades e pensar que por trás de cada câmara que filma há outra que filma esta, e assim por diante. (E lembrar o verso de Fernando Pessoa: “Deus é o Homem de outro Deus maior...”).

A outra cena é a da mulher (a esposa de Vertov) na mesa de montagem, manipulando pedaços de filmes com rostos de crianças, cortando-os, pendurando-os; e em seguida vemos esses mesmos pedacinhos se animando, entrando em movimento. Existe uma poesia nisso. Talvez a melhor definição de cinéfilo seja: “Pessoa capaz de se maravilhar com o fato de que o cinema dá a ilusão de movimento através de uma sucessão de imagens paradas”.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

2323) “A Chinesa” de Godard (18.8.2010)



Este filme é descrito pelos detratores de Jean-Luc Godard como o seu filme mais chato. (Todo detrator de Godard o conhece pouco. Se acham La Chinoise chato, coitados, nunca viram One plus One ou Vent d’Est.) Afinal, que graça pode ter uma hora e meia de filme mostrando meia dúzia de rapazes e moças trancados dentro de um apartamento, falando sem parar? Anos depois, o Big Brother Brasil respondeu esta pergunta: os rapazes e moças teriam que ser “saradões” e “gostosas”, e deveriam conversar apenas o equivalente verbal a Cheetos, M&M ou Potato Chips.

O filme de Godard é um BBB fictício sobre os jovens maoístas que, um ano depois (o filme é de 1967) encheriam Paris de carros com os pneus para cima, barricadas, coquetéis Molotov e slogans incendiários. Quando vi A Chinesa pela primeira vez, em 1970, tive reações contraditórias. Um terço das palavras-de-ordem dos jovens maoístas eu não compreendia, absolutamente. Um terço eu renegava de corpo e alma. E um terço eu concordava com fervor. Não sei se cometerei a obviedade retórica de afirmar que hoje, quarenta anos depois, tive as mesmas reações, mudando apenas as palavras-de-ordem que as provocavam. (Não; melhor não dizer.)

Minha ingenuidade de cineclubista adolescente, na época, consistia em imaginar que Godard era maoísta e que o filme era uma apologia do que aqueles rapazes e moças estavam fazendo. Hoje, minha surpresa é que Godard não tenha sido explodido, por um homem-bomba maoísta, no dia seguinte à pré-estréia. Seu retrato dos jovens adoradores do Livro Vermelho é tão impiedoso quanto o que ele faria hoje sobre os participantes do Big Brother Brasil (que coisa, maoísmo e BBB continuam voltando juntos ao meu juízo!). Há detalhes tão impagáveis e irônicos que os considero injustos. Não é possível que jovens sensatos defendessem tais idéias. Mas é possível, sim. Tudo, quase tudo, é possível.

O humor de Godard. Um dos jovens pega um guidom de bicicleta, coloca-o na cabeça como um par de chifres, e encena uma tourada, brincando. Depois, joga o guidom no lixo; um vizinho o apanha e diz: “Que belo guidom de bicicleta!”. Ele comenta, maravilhado: “Os operários são criativos. Ele transformou um touro num guidom de bicicleta!”. Precisa mais? Véronique vai a um prédio para assassinar um diplomata soviético (os maoístas odeiam os soviéticos mais do que odeiam os capitalistas). Quando volta, percebe que confundiu o ap. 32 com o 23 e matou a pessoa errada; volta e mata a pessoa certa. Precisa mais?

Ainda assim, Godard consegue ver nesses rapazes e moças maoístas o que eles de fato são: rapazes e moças. Eram maoístas como poderiam ser qualquer outra coisa que lhes desse a sensação de que estavam vivos, de que o que faziam tinha importância para o mundo, de que estavam vivendo uma grande aventura, de que a vida era bela, e de que “se o marxismo-leninismo existe, tudo é permitido”. Hoje, tudo é permitido porque ele não existe mais.

sábado, 29 de maio de 2010

2085) Piadas comunistas (13.11.2009)



O humor é a melhor forma de resistência à opressão (às vezes, a única). A melhor época do humor brasileiro foi o período entre 1964 (o golpe militar) e 1985 (eleição de Tancredo Neves). Há diferentes razões para isso. O humor alivia a tensão de quem solta uma boa gargalhada. Ao mesmo tempo, desinfla e esvazia a pompa de quem quer parecer importante demais, poderoso demais. O humor é uma torção do discurso habitual, virando uma esquina imprevista: nada melhor, portanto, para revelar as contradições ou as falácias do discurso de alguém. O humor é basicamente cultura oral (com a devida vênia aos coleguinhas do humor gráfico), portanto nada melhor para sobreviver sem provas num ambiente repressivo, para se infiltrar por entre as junturas do sistema, para ser sussurrado “à sorrelfa, à socapa, à boca pequena” (como dizia Nilson) pelos becos e pelos botecos. Um dos aspectos mais arrepiantes e pessimistas de “1984” é a ausência de humor. As pessoas dali já estão num estágio tão avançado de repressão que desaprenderam a mangar dos tiranos.

Quem assistiu o ótimo filme alemão “A Vida dos Outros” deve lembrar a cena arrepiante em que um funcionário, num refeitório, conta uma piada satirizando o líder da Alemanha Oriental, e no meio da piada percebe que está sendo escutado (jovialmente, sorridentemente) pelo chefe da polícia política, que o encoraja a prosseguir. O cara conta de maneira chocha o fim da piada, e é rebaixado de função (vai ver que o chefe gostou da piada e o livrou do fuzilamento). Agora, estão emergindo os registros de espiões sobre piadas colhidas em cartas ou em telefonemas grampeados. A principal fonte são os arquivos de espionagem da Alemanha Ocidental, onde era recolhida qualquer informação que pudesse dar uma idéia do clima político do país comunista vizinho.

Há uma clássica, que já vi sendo aplicada a vários governos (inclusive o do PT): “O que aconteceria se o deserto do Saara se tornasse comunista? A princípio, nada, mas daí a pouco ia começar a faltar areia”. O desabastecimento e o racionamento são pesadelos do comunismo (e um pesadelo ainda maior para quem vive na superabundância de supérfluos do capitalismo, e teme ser rebaixado), por isso os alemães orientais afirmavam não descender do macaco, como o resto da Humanidade: “Um macaco não sobreviveria com uma cota de duas bananas por ano”.

A Stasi (polícia política) mantinha 91 mil funcionários e 189 mil informantes civis, vigiando a população dia e noite. Um artigo no Der Spiegel (http://tinyurl.com/yjdwgl2) comenta essa época. Para os alemães orientais, Chernobyl não passou de um programa do governo soviético para tentar submeter a população ao Raio-X. Outro alvo preferido do humor alemão era o Trabant, o precário automóvel que era o orgulho da indústria automobilística comunista. Dizia-se que o próximo modelo iria ser lançado com dois canos de escape em vez de um: “Assim ele pode ser usado como carrinho de mão”.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

1671) A Comilança (20.7.2008)



Do meu tempo de faculdade, lembro de aulas sobre “stakhanovismo”. Stakhanov era um operário-padrão na ditadura estalinista na União Soviética. A URSS vivia se esfalfando para sair de uma economia feudalista e competir com o capitalismo norte-americano. Era preciso industrializar o país da noite para o dia, era preciso bater recordes de produção, era preciso criar uma mitologia da produtividade.

Alexei Stakhanov (1906-1977) era um desses caras resolutos e obstinados que um belo dia decidem entrar para a História. Trabalhava numa mina de carvão, e era bombardeado pelas mensagens de incentivo do Partido Comunista: “Trabalhe! Produza! Vamos mostrar a esses porcos capitalistas que somos melhores do que eles!” Em agosto de 1935, Stakhanov extraiu sozinho 102 toneladas de carvão em pouco mais de cinco horas de trabalho. Era um recorde extraordinário, cerca de 14 vezes a quota que se esperava de um operário comum. Em setembro, ele foi mais adiante: extraiu 227 toneladas num único turno de trabalho. Virou herói nacional na URSS e, de certa forma, também nos EUA, pois apareceu na capa da revista “Time” em dezembro daquele ano.

O que é isto? A ilusão comunista? Não, amigos, apenas a doença mais característica de nossa época, o Delírio Quantitativo, que, por pertencer à época, não liga para sutilezas como regime político ou econômico. É algo que vai mais longe e mais fundo. Num século de explosão populacional, de intenso apelo à produtividade/consumo, e de comunicações instantâneas, sempre importa saber quem é o Mais, o Melhor, o Maior. São os parâmetros instintivos do Espírito do Tempo, da religião do Número.

Stakhanov é o herói típico da economia comunista, e não duvido que na China de hoje haja praças e estátuas em sua homenagem. Já no hemisfério capitalista, o Delírio Quantitativo se manifesta de formas mais heterogêneas. O Livro Guiness dos Recordes, por exemplo, não passa de um catálogo, atualizado anualmente, dos stakhanovs do entretenimento, do lazer, da banalidade. A produtividade soviética sempre teve o perfil ascético dos que trabalham por um abstrato Bem Coletivo, enquanto a produtividade norte-americana parece endeusar o concretíssimo Bem Individual. Os soviéticos se orgulham dos seus recordes de trabalho e produção; os americanos, dos seus recordes de lazer e consumo.

Vai daí que dias atrás um tal de Joey Chestnut recebeu um prêmio de 10 mil dólares por ter comido 59 hot-dogs em dez minutos. A prova existe desde 1946. Chestnut empatou com o recorde do japonês Takeru Kobayashi, mas conseguiu comer cinco salsichas a mais, e venceu no desempate. Os norte-americanos adoram concursos de comilança. Assim como os soviéticos se julgavam na obrigação de produzir mais do que a média da humanidade, para provar a superioridade do regime comunista, os EUA se julgam na obrigação de consumir mais do que a média mundial, para provar a superioridade do seu sistema. Quem duvidar, vá aqui: http://eatfeats.com/.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

1125) Sobre Prestes e Vargas (22.10.2006)


(Luís Carlos Prestes, o "Cavaleiro da Esperança")

É impossível sabermos o que uma pessoa está pensando, ou o que pensou num instante qualquer da vida. Podemos apenas ouvir o que ela diz, observar o que ela faz, comparar com ditos e feitos anteriores, e fazer suposições. Funciona – e vivemos assim desde as cavernas. Pode não ser o ideal, mas dá para ir tocando o barco.

Nas entrevistas que deu ao longo da vida, Luís Carlos Prestes afirmava que apertou a mão de Getúlio Vargas porque no momento em que o Brasil precisava se colocar contra o Nazismo ele, Prestes, tinha que colocar os interesses da Pátria acima dos seus interesses pessoais, ou seja, da sua revolta pelo que Vargas tinha feito a Olga Benário. Esqueçamos agora a questão histórica e pessoal de Prestes (“Foi mesmo isto, ou ele tinha outras motivações?”) e vamos discutir o princípio geral. Suponhamos, por hipótese-de-trabalho, que Prestes falou a verdade, e de fato agiu daquele forma pelo motivo que alegou. Agiu certo ou errado?

Olga Benário fôra encarregada pela URSS de proteger Prestes a todo custo. Casou com ele, lutou ao seu lado na clandestinidade, salvou-lhe a vida algumas vezes. Por ironia, hoje é mais famosa entre os jovens do que ele, sendo celebrada em livro, filme, etc. Presa por Getúlio, grávida, foi entregue pelo ditador à polícia de Hitler, e depois de dar à luz morreu num campo de concentração. Em honra à sua memória (dizem) o viúvo jamais poderia cumprimentar publicamente e apoiar politicamente o ditador que a entregou para a morte. Mas suponhamos que o viúvo tenha achado mais importante, naquele momento, incentivar o rompimento de Vargas com o Eixo e o envio de tropas brasileiras para combater o nazi-fascismo. Isto não seria motivo suficiente para fazê-lo esquecer por um instante sua tragédia pessoal?

O Brasil é cheio de políticos que colocam, acima dos interesses do país (que, diga-se de passagem, eles são regiamente pagos para defender) as suas amizades pessoais, suas conveniências familiares, suas fidelidades de Partido ou de clã. Nossa República desconhece o conceito abstrato de Pátria, a não ser na hora de fazer discurso. O que nela existe de sentimentos nobres (lealdade, fidelidade, generosidade, etc.) se destina à parentela, aos amigos e aos aliados de ocasião. É por isto que o gesto de Prestes nos horroriza, porque achamos que seria moralmente mais nobre o ajuste de contas com o ditador, e a Pátria que se danasse.

Prestes nunca deu certo na política brasileira. Era um mito revolucionário, não uma raposa política como Lênin ou Trotsky. Um sujeito com uma idéia fixa, com um Ideal. Vi-o falar muitas vezes na TV: nunca o vi sorrir. Parecia-me um homem seco, inflexível, que impunha respeito mas não despertava afeto. Excelente como símbolo de um causa; devia ser péssimo no varejo-de-conchavos que são os corredores do Congresso. A política brasileira pode até ter superado os seus defeitos, mas bem que poderia ter herdado as suas qualidades.

terça-feira, 14 de abril de 2009

0978) Adeus, Lênin (5.5.2006)



Vi com atraso este belo e ocasionalmente divertido filme alemão, onde uma mulher na Alemanha Oriental passa alguns anos em coma e, quando desperta, força seus filhos a uma complicada manobra de despiste para que ela não perceba que o Comunismo acabou. Presa à cama, ela recebe a visita de pessoas cuidadosamente vestidas com as roupas modestas da era comunista, come os alimentos que se encontravam nos supermercados antes da Queda do Muro, e assim por diante.

Toda a conspiração é urdida pelo filho mais novo, que quer evitar que a mãe tenha um enfarte ao saber que o Comunismo, pelo qual ela lutou a vida inteira, acabou fracassando. Como o rapaz tem um amigo que tem acesso a uma ilha de edição e tem veleidades de cineasta, os dois começam a produzir falsos telejornais com notícias otimistas sobre a Alemanha Oriental, usando para isto uma cuidadosa edição de imagens. As cenas da Queda do Muro de Berlim, por exemplo, são vistas pela mulher como sendo o resultado de pressões políticas dos jovens do lado ocidental, cansados de consumismo e querendo viver uma vida mais solidária e mais participativa, no lado comunista.

É um filme sobre amor filial e sobre o clássico conceito da “piedosa mentira”, em que enganar alguém resulta numa boa ação. Mas é também um filme que mostra as infinitas possibilidades de manipulação das pessoas através de texto e imagem. Quando a mulher doente vê um painel da Coca-Cola num edifício próximo, o filho “produz” uma reportagem em que demonstra que a fórmula original do refrigerante tinha sido inventada na Europa comunista, e que a companhia americana cedeu à Alemanha Oriental os direitos de fabricação. Nenhuma notícia parece inverossímil quando é respaldada pela enorme credibilidade de um telejornal, cujas imagens cuidadosamente editadas são tidas como prova suficiente.

A imagem mais forte de Adeus, Lênin é talvez a cena em que a mulher consegue vestir um roupão e sair à rua, onde vê out-doors capitalistas, carros ocidentais, etc. A certa altura, ela vem caminhando pela calçada de um parque quando vê aproximar-se um helicóptero que conduz, pendurada por um enorme cabo de aço, uma estátua de Lênin, na pose tradicional com o braço esticado e o dedo em riste. A estátua passa a alguns metros de distância da mulher, como se olhasse para ela, e vai embora.

É um filme sobre manipulação da realidade. Os alemães orientais viveram décadas de propaganda estatal garantindo-lhes que eles viviam no melhor dos mundos e na mais justa das sociedades, apesar da visível diferença entre o que era dito pela mídia e o que era visto na ruas. Depois da Queda do Muro e da unificação, será que os alemães aceitam passivamente a propaganda da mídia capitalista, como aceitaram a outra? Bem que alguém poderia fazer um segundo filme em continuação a este, mostrando que às vezes a gente acorda de um pesadelo para se encontrar no interior de outro.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

0741) A natureza humana (3.8.2005)


(Mikhail Bakunin)

Leio no blog do jornalista Ricardo Noblat uma citação do anarquista russo Mikhail Bakunin, um trecho que parece ao dono do blog (e a mim também) imbuído de um ominoso sentido profético. Diz Bakunin: "Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."


Pensou o mesmo que eu pensei, caro leitor? Então, passemos adiante. Tudo bem: é a natureza humana. Mas a natureza humana será só isto? Marx, um sujeito furiosamente otimista, dizia que não. Que os nossos valores éticos são condicionados pelo ambiente moralmente poluído do capitalismo, onde a lei é “cada um por si e Deus contra”, onde para ganhar dinheiro o sujeito é capaz de vender a mãe e dar a sogra de brinde. Nesse clima de competitividade feroz, e de fácil enriquecimento uma vez que se chegue a determinada altura da “escada social”, todo mundo é corrompível, todo mundo tem um preço. Mas (prosseguia o barbudo redator da “Gazeta Renana”) com o advento do socialismo tudo seria diferente. O socialismo e sua conseqüência final, o comunismo, iriam instituir um novo clima moral, uma nova super-estrutura de valores, idéias e princípios.

Bem, isso para mim é tão válido quanto dizer que no ano 2500 teremos colonizado Marte e que lá o cinema vai ser de graça e o futebol não vai ter impedimento. Ou seja: a previsão é tão a-longo-prazo que de certo modo se auto-invalida, porque daqui até lá, como naquela história popular, “ou morro eu, ou morre o rei, ou morre o burro”. Nunca saberemos como será a “natureza humana” daqui a cem ou duzentos anos, e só podemos lidar com o que temos à mão agora. A frase de Bakunin aplica-se a operários que chegam ao Poder, mas poderia aplicar-se também a sociólogos de esquerda que chegam ao Poder, ou a católicos apostólicos romanos que chegam ao Poder. Não importa sua origem ou suas idéias anteriores: o Poder é uma espécie de kryptonita que anula suas qualidades e nivela a todos diante de uma máquina surda, cega e muda, uma máquina secular de auto-enriquecimento.

Dinheiro é a mais perigosa das drogas. Vicie um cara em dinheiro, e ele fará de tudo para conseguir mais. A maior parte de nós não vive sem uma dosezinha no fim do mês, não é mesmo? Dinheiro é perigosíssimo, inclusive porque dá aos viciados aquela ilusão de onipotência tão característica de algumas drogas. Não existe “natureza humana”: existem as “culturas humanas”, e quando viciadas em dinheiro elas ficam entregues aos traficantes de sempre.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0704) Destampou a caçarola (21.6.2005)


(o deputado Roberto Jefferson)

Meu vôo para o Rio fez escala em Brasília no dia em que o Deputado Roberto Jefferson prestou depoimento na Comissão de Ética da Câmara. Tivemos quase duas horas de atraso. O piloto avisou que havia mais de 15 aviões à nossa frente na lista de decolagem, e um engraçadinho lá atrás comentou: “É o pessoal do PT abandonando o barco”. Depois, outro engraçadinho comentou que de agora em diante a palavra “corruto” tem que se escrever “corrupto”, porque o PT não pode ficar de fora. E quem está divulgando estas graçolas? Eu, que voto no PT há mais de vinte anos (com ocasionais puladas-da-cerca em benefício do PSDB).

A defesa da honestidade e da ética, que o PT sempre ergueu como bandeira, foram uma pedra no sapato de muitos políticos salafrários. Esse discurso ético, se repetido com a devida insistência, acaba incomodando indivíduos que passam a vida toda mergulhados no toma-lá-dá-cá dos favores por baixo do pano, das comissões de 10%, das concorrências fajutas, das sobras do caixa de campanha, das falcatruas que todo mundo sabe e finge que não vê. Eles não ligam a mínima para honestidade. Só ficam irritados porque percebem que aqueles comunistas metidos a besta acham-se superiores a eles. E, como é sabido, o ideal do desonesto é propagar a noção de que todo mundo é desonesto. Quanto mais esta idéia se espalha, mais ele se sente acobertado e autorizado a ir em frente.

O que tem acontecido em certos setores do poder em Brasília me parece aquelas histórias em que numa turma de amigos tem um que não bebe, não fuma, não joga e não freqüenta a Zona. Na primeira chance que têm, os amigos embebedam o cara e o levam para o Cabaré de Zefa, encorajando-o a todas as patifarias. No dia seguinte, mostram-lhe as fotos: “Tá vendo, camarada? Você não é melhor do que ninguém. Você é igual à gente”.

O PT tem nobres intenções e inevitáveis defeitos; o mais recente deles é ter chegado ao Poder. No Poder, o sujeito percebe mais do que nunca que vive entre feras, e sente uma augustiana “necessidade de também ser fera”. O pessoal do PT traz consigo aquela flama incorruptível de uma esquerda que se criou lendo Gorki e Maiakóvski. Um idealismo humanista, baseado na crença (talvez ingênua) de que os seres humanos são fundamentalmente bons.

Acontece que, em política, ninguém é mais honesto do que os aliados que arranja. Fazer alianças é (para usar uma oportuna e reveladora metáfora do presidente Lula) passar um cheque em branco. Tudo que o aliado fizer, estamos assinando embaixo. E no Brasil ninguém governa se não se aliar com a Direita. Não a Direita nazistóide dos integralistas ou da TFP: mas a Direita anti-ideológica que há séculos se dedica à atividade predatória de enriquecer por todos os meios disponíveis. O Brasil é governado há 500 anos por gente que topa tudo por dinheiro, e que sussurra sem parar no ouvido de cada recém-chegado ao Palácio: “Deixa disso. Você é igual à gente”.

domingo, 14 de setembro de 2008

0548) O Partido Fantasma (21.12.2004)



Alguns dias atrás (“O protagonista invisível”, 18 de novembro) comentei um curioso personagem de Hitchcock no filme Intriga Internacional: o agente secreto Kaplan, com o qual Cary Grant é confundido durante grande parte da trama, sofrendo seqüestros e tentativas de assassinato por parte de outros espiões. Só lá pela metade do filme Grant, que está no encalço do tal Kaplan, para saber por que motivo o confundem com ele, começa a interrogar os empregados do hotel onde ele se hospeda e descobre que na verdade nenhum deles o vira. A reserva é feita pelo telefone, a bagagem é remetida por alguém, as roupas são deixadas para lavar em cima da cama... mas ninguém jamais viu Mr. Kaplan em carne e osso. Pela simples razão de que ele não existe, é um personagem fictício criado pelo Serviço Secreto para... bom, vão ver o filme que vocês entendem.

Parece mirabolante? Não é tanto quanto a vida real. No começo de dezembro, um professor holandês confessou à imprensa que durante anos serviu de espião para o Ocidente junto à China comunista, fazendo-se passar pelo presidente de um Partido Comunista que simplesmente não existia. Pieter Boevé foi recrutado pelo serviço secreto holandês ainda muito jovem, após uma viagem à China para um desses encontros nacionais da juventude. O serviço secreto criou um fictício Partido Marxista-Leninista Holandês (MLPN) e Boeve durante doze anos atuou como presidente deste partido fantasma, fazendo repetidas visitas à China, onde era tratado com honrarias.

A farsa incluía a publicação de um jornal, De Kommunist, totalmente redigido pelo Serviço Secreto. Boevé, hoje com 76 anos, comenta que o MPLN foi o único partido radical totalmente forjado da História, e certamente o único que funcionou de fato. Boeve usava o nome-de-guerra de Chris Petersen, e o suposto partido gabava-se de ter 600 membros, mas o número real nunca passou de doze. Alguns eram comunistas sinceros que, como Paul Wartena, hoje professor da Universidade de Utrecht, doavam 20% de seus salários para a entidade. Wartena, após o desmascaramento público do MPLN, está exigindo que o Serviço Secreto holandês o reembolse.

Nada disto é estranho para quem leu 1984 de George Orwell (1949), onde uma célula comunista é criada pela polícia para atrair comunistas, ou O Homem que Era Quinta-Feira de G. K. Chesterton (1908) onde um policial infiltrado num grupo subversivos acaba descobrindo que todos os outros membros também pertencem à polícia. A história da espionagem é, para além do mero jogo político-ideológico e das atividades criminosas, uma das melhores alegorias para o caráter ilusório das atividades humanas. Como saber que alguém é o que diz ser? Como provar a alguém que somos o que dizemos ser? Como saber, dentro de nós mesmos, se somos de fato o que pensamos ser? A história da espionagem é talvez, reduzida aos seus termos mais simples, a mais metafísica das tramas policiais.

domingo, 13 de julho de 2008

0441) O fantasma do Comunismo (18.8.2004)



Passei a vida cercado de comunistas à esquerda e de anti-comunistas à direita. E todos me diziam: “Eu não sei como é que um cara inteligente como você consegue andar na companhia daquele pessoal.” Aqui entre nós, eu considero essa façanha uma bela prova da minha inteligência, porque sempre consegui uma convivência equilibrada com todo mundo, sem ter que dar a qualquer um dos grupos a ilusão de que eu iria me tornar um sócio “de carteirinha”.

Existe uma diferença fundamental, no entanto. Quando a ditadura militar brasileira começou, eu tinha 13 anos. Quando acabou, eu tinha 34. Isto significa que passei os meus “anos formativos”, a transição da adolescência para a juventude, e desta para a maturidade, num regime anticomunista, cujas barbaridades faziam empalidecer as barbaridades semelhantes praticadas pelo Comunismo em outras regiões do mundo. Nunca simpatizei com Stálin, nem com Kruschev, nem com Brejnev, nem com Kossiguin, nem com Andropov, nem com nenhum desses outros golems fabricados pelo laboratório-de-frankenstein do Kremlin. Mas eu sabia que podia ser chamado de comunista pelo simples fato de andar na “companhia” de Maiakóvski, Eisenstein, Prokofiev, Górki... Era do lado deles que eu estava. (Só para esclarecer – nesse mesmo período eu estava ao lado de Jimi Hendrix, Bob Dylan e outros marginais do grupo adversário).

Condenar as idéias socialistas por causa dos “gulags” soviéticos, albaneses ou cubanos é o mesmo que condenar a religião católica por causa das torturas da Inquisição espanhola ou da pedofilia nas dioceses norte-americanas. Quanto mais idealista uma teoria, maior a desilusão dos que tentam praticá-la. Isto vale em especial para sistemas filosóficos que são concebidos por meia-dúzia de sujeitos cheios de boas intenções, e na hora H caem nas mãos de milhares de pessoas que só querem “se dar bem”.

No tempo em que eu era estudante, muita gente afirmava ser comunista por uma questão de dignidade pessoal, de vergonha na cara, porque não dizer isto significaria dizer: “Estou de acordo com tudo isto que está acontecendo: os seqüestros, a Censura, as prisões arbitrárias, as torturas, as mortes mal-explicadas, os desaparecimentos nunca esclarecidos, o fechamento de jornais e cineclubes, a proibição de livros e de discos.” Se todas estas coisas eram feitas em nome do anticomunismo, tinha que haver um mínimo de hombridade e de ética que nos empurrava para o Comunismo; assim como o oposto certamente ocorria em países onde em nome do Comunismo se praticavam as mesmas violências.

A Ética é o maior engodo da política. Todos temos a ilusão de que aderindo àquela atividade estaremos ajudando a transformar o mundo num lugar melhor e mais justo. Mas a História parece dar razão a uma frase que o finado Paulo Francis costumava citar: “O Comunismo apela para o que há de melhor na Humanidade, e por isto deu errado. O Capitalismo apela para o que ela tem de pior, e por isto deu certo.”