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segunda-feira, 23 de março de 2020

4562) A quarentena do planeta Terra (23.3.2020)




Quarentenas? A ficção científica tem algumas, talvez até mais interessantes do que A Peste do grande Albert Camus.

Vou pegar um exemplo apenas, um romance de um dos meus escritores preferidos de FC hard, Greg Egan. Quarantine (1999) foi o seu primeiro romance, depois de vários contos surgidos nas principais revistas de FC. 

O enredo de Quarantine começa de maneira simples.

Nick Stavrianos é uma espécie de detetive particular, no ano de 2067, em Perth, na Austrália (a cidade onde vive o autor). Ser detetive nessa época é uma atividade interessante, porque o desenvolvimento da nanotecnologia criou implementos chamados de mods, que são implantados no cérebro e funcionam mais ou menos como o que hoje chamamos de apps – aplicativos que executam funções específicas.

Isso possibilita a Nick ativar, apenas pela vontade, qualquer um desses aplicativos, como por exemplo o “... CypherClerk (Neuro Comm, $ 5.999)” que atende chamadas telefônicas, projetando-as diretamente no cérebro. Combinado com o “... The Night Switchboard (Axon, $ 17.999)”, espécie de secretária eletrônica que atende durante o sono, ele nem sequer precisa “escutar” o que diz o interlocutor do outro lado: ele já acorda sabendo do que se trata.

E assim Nick desperta, na primeira página, para investigar o desaparecimento misterioso de Laura Andrews, trinta e dois anos, paciente de uma clínica de reabilitação. Laura nasceu com uma grave deficiência cerebral e tem a capacidade mental de uma criança de seis meses. A família a internou ali para ser cuidada, e ela viveu a vida inteira numa pequena cela, sendo alimentada, medicada, etc., como qualquer paciente semi-inválido, de família rica.

Só que Laura desapareceu dias atrás dessa cela hermeticamente fechada, vigiada 24 horas por câmeras e enfermeiros. Todo mundo está perplexo. E lá vai Nick Stavrianos, ajudado pelos seus mods, investigar o caso.


Um desses mods, curiosamente, é um aplicativo que produz no cérebro de Nick a sensação da presença de sua esposa Karen, que morreu tragicamente. Quando o mod está ativado, ele vê “Karen” ao seu lado, conversa com ela, consegue tocá-la. “Karen” se manifesta de modo autônomo, recorrendo ao banco-de-dados das lembranças dele, mas usando algoritmos próprios, de modo que na “companhia” dessa projeção mental ele se sente como se a mulher estivessse viva ao seu lado.

E a quarentena?

Bem, todo esse enredo iniciado acima ocorre no contexto de um fenômeno cosmológico espantoso, chamado A Bolha. No dia 15 de novembro de 2034 (portanto, trinta e três anos antes da ação do livro) o nosso sistema solar foi, em questão de minutos, envolvido por uma gigantesca bolha de escuridão, como uma esfera opaca, apagando todas as estrelas do céu. A Terra foi trancada numa quarentena cósmica. Por quê? Por quem?  Ninguém sabe.


Aconteceu e ficou por isso mesmo, com as previsíveis consequências: pânico, destruição, crise universal da ciência, proliferação desordenada de seitas místicas e de profetas do apocalipse. Durante vários anos, o caos. Depois, a poeira foi baixando. Todo mundo precisava comer, viver, trabalhar. A materialidade de vida cotidiana se impôs. E em última análise, o Sol, a Lua e todos os planetas continuavam se movendo como sempre – só as estrelas (todas as estrelas) tinham sumido. E Nick filosofa:

Quanto às estrelas... nunca tinham sido nossas, de modo que não as perdemos. Na verdade, perdemos somente a ilusão de que elas estavam próximas.

Uma das seitas religiosas mais atuantes nesse mundo futuro é a das Crianças do Abismo, formada apenas por pessoas nascidas após o aparecimento da Bolha. (Lembra um pouco o tema de Midnight Children, de Salman Rushdie, o romance sobre as crianças nascidas exatamente na virada do Dia da Independência da Índia.) A seita tem propósitos nebulosos, que não excluem o assassinato em massa.

Seguindo uma pista possível do desaparecimento de Laura (como é possível uma pessoa comum, tida inclusive como retardada mental, desaparecer de um quarto trancado e vigiado?), Nick vai parar em New Hong Kong, uma região da Austrália que hospedou a migração em massa de habitantes de Hong Kong, após uma violenta crise desta com a China, a partir de 2029.

E é lá que Nick está expandindo suas investigações, acompanhado por “Karen”, o cyberghost de sua mulher, quando eles param numa tenda num mercado ao ar livre. Uma moça está redigindo horóscopos por um preço módico. “Karen” sugere a Nick que encomende um. Ele ri e diz que nenhum deles dois acredita naquilo, e além do mais...

– Horóscopo, quando nem existem mais estrelas?!

 Ela insiste. Ele diz à moça:

– 10 de abril.

– Não é o meu horóscopo, idiota. O de Laura.

Ele pede o horóscopo para o dia 3 de agosto de 2035, dia do nascimento da mulher desaparecida. Lê as previsões, que são banais, e volta para o hotel. Mas aquilo não sai de sua cabeça. Ele sabe que “Karen” é apenas um algoritmo que mexe em suas lembranças inconscientes – e está querendo lhe dizer alguma coisa.

Ele lembra que, no prontuário médico de Laura, na clínica, ele soube que o nascimento dela foi levemente prematuro. Gestação de trinta e cinco ou trinta e oito semanas, mais ou menos. Portanto... O momento da concepção de Laura teria sido num período de uma semana em torno do dia 15 de novembro de 2034. O Dia da Bolha.

E ele pensa: "Bem, que importância tem para mim o fato de que Laura pode ter sido concebida no momento exato em que a Bolha cercou o Sistema Solar?" 

E pensa em seguida: “Para mim, não. Mas para a Seita das Crianças do Abismo, pode ter uma importância enorme”.




Acreditem: não estou dando spoiler nenhum. O resumo acima se refere às primeiras 50 páginas de Quarantine, que tem 280. Nick Stavrianos avança muito mais em suas investigações, por entre perseguições, fugas, sequestros, lavagens cerebrais, violências individuais e coletivas.

O segredo que envolve A Bolha e o desaparecimento de Laura tem a ver com o modo como a mente humana faz “colapsar” um conjunto de futuros possíveis num único presente concreto. O exemplo clássico disto é o famoso “Gato de Schrodinger” – o gato que pode estar vivo ou morto até o momento em que o cientista abre a caixa onde ele está trancado. A mente humana tem o poder de destruir universos no instante mesmo em que toma uma decisão, optando por apenas um deles.

Quarantine é uma história de aventuras, um thriller tecnológico e uma meditação cosmológica sobre os perigos da existência humana. E se a nossa espécie fosse um risco não apenas para o planeta Terra, mas para o Universo inteiro?

Greg Egan é um personagem meio low profile na FC. Já ganhou inúmeros prêmios, publicou cerca de 20 livros, eu acompanho sua carreira há mais de duas décadas, e nunca vi uma foto dele. Consta que mora em Perth (Austrália) e trabalha com informática.



Egan é um desses escritores obsessivos, que pegam uma idéia e a examinam por todos os lados, avaliam todas as consequências possíveis, as dúvidas, as objeções de alguém, respondem a essas objeções... e escrevem essa idéia num parágrafo de oito ou dez linhas, numa prosa clara e direta, condensando ali informações que dão o que pensar por uma hora inteira.

Já publiquei dois contos dele em minhas antologias, aqui no Brasil: “Mais perto” (“Closer”, trad. BT), em Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Rio: Ímã Editorial, 2011) e “A Carícia” (“The Caress”, trad. Fábio Fernandes) em Detetives do Sobrenatural (Rio: Casa da Palavra, 2014).





Websaite sobre o livro:
http://www.gregegan.net/QUARANTINE/Quarantine.html










sábado, 12 de maio de 2018

4346) O mundo dos clones (12.5.2018)



Evoluir é deixar de ser. Numa transformação ganhamos algumas coisas, que naquele momento nos parecem o grande salto transcendental, e vamos perdendo outras cuja ausência a princípio não faz falta, mas que aos poucos vão mostrando o quanto eram silenciosamente importantes.

H. G. Wells tem uma explicação bastante pragmática para isto no capítulo 4 de A Máquina do Tempo (1895), quando o Viajante do Tempo contempla do alto as verdes colinas do futuro. Ele foi parar num mundo que parece a imagem de desktop do Windows XP, habitado por uma espécie de hippies louros, infantis e puros, os Elois.

O Viajante raciocina que grande parte do esforço científico humano é para diminuir as asperezas e os riscos da vida, torná-la segura, tranquila, agradável. Ao fim dos confrontos com as dificuldades do mundo, cada geração que surge está menos equipada para enfrentar problemas. Porque foi para poupá-los de enfrentar dificuldades que os pais aceitaram enfrentar tantas. Não teria sido preciso.

Os Elois do livro acabam se revelando ainda mais ingênuos do que ele imaginava então, mas o Viajante tem um bom argumento histórico nesse exemplo. É uma linha entrópica que lembra uma pouco aquela frase tradicional sobre tantas famílias ilustres: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”.

A primeira geração é a dos que saem da favela e constroem um império do nada. A segunda, filha destes, é a que terá o projeto e o desafio de manter o império.  Quando isso não é muito a sua praia, é possível que a terceira geração não cresça no interior de um império, mas de uma derrocada.

Nem precisamos chegar ao ano 802.701 para  ver eses sintomas (e Wellls decerto teria exemplos ou paralelos londrinos na ponta da língua, se a gente lhe perguntasse). Os psicólogos recentes têm usado a expressão Geração Floco de Neve para designar um conjunto de jovens atuais excessivamente sensíveis, meticulosos, capazes de se magoar ou se revoltar por muito pouco.

Dizem eles que há três variantes dessa fragilidade: 1) Superproteção; crianças que foram excessivamente cuidadas e não puderam desenvolver algumas qualidades de autonomia. 2) O senso do Eu: um individualismo muito grande, dificuldade em entender o ponto de vista de outras pessoas. 3) Impressão de catástrofe: pessoas que acham o tempo inteiro que algo terrível vai acontecer e destruir seu mundo.

São jovens de hoje, criados em suas bolhas sociais e cibernéticas. Os games são um sucedâneo importante para essa escassez de oferta de aventuras em carne e osso. Os games, contudo, só levam até um certo ponto, e dali não passam. São iguais aos livros, que também só nos levam até um certo ponto, e dali não passam.

Esse “ponto” que se deve ultrapassar é o ponto da vida, de um conjunto de situações que (ao contrário do game ou do livro) não está sob nosso controle e pode nos afetar de forma grave.

Os Eloi de 2018 são chamados “Flocos de Neve” pela sua fragilidade, por serem algo que está a um risco de desfazer-se. E isso me trouxe à lembrança um livro que eu tinha interrompido há anos e agora li até o fim: Where Late the Sweet Birds Sang (1976), da recentemente falecida Kate Wilhelm.


Esse livro ganhou prêmios importantes como o Hugo e o Locus. É a história pós-apocalíptica sobre uma família rica no vale de Shenandoah, na Virginia, que consegue sobreviver a um conflito nuclear isolando-se nas montanhas onde tem suas terras e reproduzindo-se por clonagem.

O livro tem vários enredos sucessivos, mas na parte 3, “At the Still Point”, brota uma crise entre os clones. Os clones de Kate Wilhelm são meio que ligados numa corrente telepática, são uma psi-colmeia (uma hive-mind). Clonados de um “Harry” ou de uma “Susan” original, p.ex., são chamados “os harrys” e “as susans”: uma meia dúzia de rapazes idênticos ou de moças iguaizinhas que só andam juntos, que falam entre si o tempo inteiro, que não têm segredos, que não podem ser separados desse grupo sem passar por uma crise psíquica que pode ser fatal.

A primeira expedição que deixa a fazenda após o Armageddon (é a Parte 2 do livro, “Shenandoah”) começa a ter problemas mentais à medida que os membros se afastam de seu grupo de origem. Alguns, no retorno, ficaram insanos. Outros, como Molly, adquirem uma personalidade própria; aos vinte anos de idade surge nela uma personalidade que é só dela, não é compartilhada com suas gêmeas telepatas. Ela se torna uma outsider.

Molly vem a ter às escondidas um filho, Mark (numa época de esterilidade galopante, daí os clones) que ao crescer se torna, na Parte 3, o condutor da ação. Mark cresce como um marginal, uma espécie de Mogli ou Tarzan, esperto, safo, capaz de sobreviver sozinho no mato fechado ou num pântano radioativo. Os clones da sua idade são incapazes de penetrar cem metros no mato sem perder a direção.

Sua ascendência sobre os clones em geral é porque ele é capaz de ser original, diferente, imprevisível. Os clones, porém, executam com primor o que aprendem a fazer, mas são incapazes de ter uma iniciativa. Num momento de emergência, não sabem inventar uma solução, não entendem uma instrução que nunca receberam.

E são todos iguaizinhos. E não conseguem pensar por si. Mark garoto constrói um boneco de neve e alguns dos meninos não conseguem, nem a pau, enxergar ali um boneco antropomorfo. Veem apenas um monte de neve com alguns objetos cravados.


E Barry, um dos cientistas responáveis pelo processo da clonagem, reflete:

A neve foi soprada para longe, e ele ficou matutando na individualidade de cada floco de neve. Como milhões de outros antes dele, pensou, boquiabertos ante a complexidade da natureza. Pensou de repente se Andrew, a pessoa que ele tinha sido aos trinta anos, já teria se sentido de boca aberta diante das complexidades da natureza.  Pensou se cada uma daquelas tantas crianças que tinham ali sabia que cada floco de neve era diferente de todos os outros. Se alguém dissesse a eles que era assim, e recebessem a ordem de examinar flocos de neve como parte do projeto, eles chegariam a perceber a diferença? Achariam aquilo a coisa mais maravilhosa do mundo? Ou o aceitariam como se fosse um lição a mais das muitas que eles tinham de aprender, e nesse caso eles a estudariam conscienciosamente, mas sem extrair daquilo nenhum tipo de prazer ou satisfação na aquisição de um conhecimento novo?

Esses clones futuristas do vale de Shenandoah me lembraram um conto de Greg Egan em que uma nave tripulada tenta sair do Sistema Solar mas a certa altura seus tripulantes começam a cair em coma súbito, um depois do outro. No final, descobrem que uma mente humana qualquer é apenas uma gota de um oceano mental, e que da órbita de Júpiter (por exemplo) em diante essa ligação se rompe... e a pessoa cai, como se alguém tivesse puxado uma tomada.

Greg Egan projeta para a humanidade inteira essa consciência telepática do seu conto; Kate Wilhelm a projeta de forma concentrada em suas gêmeas-clones, que compartilham quase uma “phone-call telepathy”.

Mark leva os amigos (sob supervisão) para a floresta na montanha, e larga-os ali. Indefesos, porque vivem mais absorvidos na bandalarga telepática de que desfrutam 24 horas por dia do que em registrar marcas em troncos de árvores ou pedras deslocadas para indicar por onde o grupo passou. Os clones correm para a zona de conforto que são seus gêmeos, suas gêmeas.

Quando Mark os deixa por si sós, todos endoidecem, não conseguem achar o caminho de volta nem as árvores que vieram obedientemente marcando durante a subida. Os clones de Kate Wilhelm acabam lembrando menos os telepatas malignos de A Aldeia dos Amaldiçoados (“The Midwich Cuckoos”, 1957), o livro de John Wyndham que já rendeu pelo menos dois filmes, do que os Elois árcades e ripongos do filme de George Pal, The Time Machine (1960).

O livro de Wilhelm mostra a relativa frieza dos clones ao tomar decisões de vida ou morte, e ao mesmo tempo a dependência quase insetóide que eles têm de um grupo. Como um graveto, que cai pra longe da fogueira e se apaga porque ficou sozinho. O livro mostra a contraposição entre o modo de pensar e de agir dos clones e o das pessoas “assimétricas”, por assim dizer, as de comportamento menos previsível.

É uma boa discussão sobre as camadas mentais superpostas que mantêm uma pessoa funcionando. Em certos momentos da Parte 2 do livro, “Shenandoah”, é possível perceber a noção de um Eu, de uma personalidade única, surgindo em Molly, a jovem desenhista da expedição.

Como se um “Eu” fosse uma excrescência, algo em princípio desnecessário à vida, e que só é preciso desenvolver dentro de nós mesmos quando estamos jogados no tropel do mundo, sem wifi para nossa telepatia genética, e alguma coisa precisa ser feita.

Os flocos de neve são tão únicos quanto uma mandala de Maldelbrot, mas se derretem com facilidade. Há uma boa expressão em inglês para dizer que o cara está mal: é dizer que ele tem as mesmas chances de sobrevivência de uma bola de neve no inferno. Que são as mesmas chances de uma obra de arte ou um simples boneco de neve não serem enxergados, mesmo sendo vistos – porque aquelas pessoas não foram formalmente ensinadas a enxergar assim.











sábado, 30 de outubro de 2010

2387) Os autistas voluntários (30.10.2010)



Greg Egan, um dos grandes escritores da FC de hoje, colocou um capítulo sobre o autismo em seu romance Distress (1995). O tema do livro é outro, e o autismo só aparece no capítulo 6, numa entrevista feita pelo protagonista, um jornalista investigativo. Ele dá voz a um personagem, James Rourke, pertencente a um grupo chamado Associação dos Autistas Voluntários (a história se passa em 2055). Nesse futuro hipotético, foi descoberta uma área do cérebro chamada “área de Lamont”, e se postula que o autismo resulta de uma lesão produzida nessa área por uma variedade de razões. O mais interessante do caso, no entanto, é a existência da própria associação. Descobertas as causas do autismo, esses autistas não querem ser curados. Preferem permanecer do jeito que são.

Diz James Rourke que a mente humana desenvolveu ao longo de milênios de evolução uma capacidade para compor modelos das outras mentes. Somos capazes de imaginar o que os outros estão pensando ou sentindo. Somos capazes de nos identificar com esses sentimentos, desenvolvendo um senso de intimidade, ou de empatia. A evolução foi fortalecida pelos laços monogâmicos que os homens criaram com suas companheiras. Intimidade, empatia e amor são três aspectos básicos do nosso quadro de valores emocionais.

O que ocorre quando um indivíduo – um autista – é incapaz de produzir esses modelos de outras mentes? Segundo o personagem, esse talento não passa, na verdade, de um talento para a auto-ilusão. As pessoas na verdade não sabem o que as outras pensam ou sentem: elas apenas imaginam saber. E como é necessário, por razões evolutivas, que sejamos capazes de manter essa ilusão, que “dá liga” a nossa vida em grupo, somos condicionados a achar que somos capazes de empatia e de compreensão, mesmo quando encontramos provas e mais provas de que isso não ocorre. Mas precisamos dessa ilusão para que a espécie continue evoluindo.

Os Autistas Voluntários do livro não querem alimentar essa ilusão. Eles consideram que não sabem e nunca saberão, intuitivamente, o que se passa nas mentes alheias, e que só podem se relacionar com outras pessoas através de processos mais formais e explícitos, como a linguagem verbal. Para eles, continuar autista é uma recusa a deixar-se enganar. E Rourke faz uma provocação final, ao comparar os Autistas Voluntários com os transexuais. Diz ele que nossa sociedade acha que é justo uma pessoa mudar de sexo para que seu corpo corresponda à sua imagem mental de si mesma. Por que então proibir que pessoas acostumadas a interagir sem emoções, sem empatia, sem intimidade com as outras, mantenham essa condição? Será que mudar de sexo é normal, mas não ter empatia é uma anomalia que precisa ser curada? Um autista pode viver sem abraços, sem olho-no-olho, sem demonstrações de afetividade e ainda assim ser querido e respeitado pelas outras pessoas, e sentir-se em paz consigo mesmo. Por que motivo a sociedade quer lhe negar este direito?

sábado, 8 de maio de 2010

2019) A Razão e a Fé (28.8.2009)



O problema com a Razão é que ela é incapaz de sustentar-se sozinha: precisa sempre se apoiar em algum tipo de Fé. 

Para meus amigos cartesianos, a Razão é uma espécie de solvente universal, que tudo liquefaz. Mas o cientista que vive da Razão não pode abrir mão da Fé. Não a fé no sobrenatural, mas, justamente, a fé no natural. A crença de que o mundo da matéria se baseia em constantes, em continuidades. A fé na coerência dos fenômenos físicos. 

É esse tipo de fé que garante (a mim pelo menos) que amanhã o sol vai nascer aproximadamente no mesmo ponto do horizonte em que nasceu hoje, e não 20 graus à direita ou à esquerda. Que a água vai ferver a 100 graus, e não a 120 ou a 67. Que as constelações de ontem irão se repetir no céu de hoje. Que (enfim) o Universo não muda as regras do jogo do dia para a noite. 

Por mais que ocorram fenômenos inexplicáveis, o que foi explicado se repete, se repetidas as condições iniciais. Eu tenho fé nisso, como tenho na minha própria existência.

Por isso, não devemos ficar irritados quando pessoas diferentes têm fé em outras coisas. A Fé é um sentimento essencial na vida, e vai muito além do mero misticismo ou da mera religião. Não uso o termo “mero” para desvalorizar essas coisas, mas para lembrar que são facetas de nossa vida mental. 

A Fé também é algo que vai além da mera ciência, da mera arte, da mera filosofia. Quando educamos uma criança, é essa Fé que estamos lhe transmitindo. Quando lhe ensinamos que este objeto se chama por esta ou aquela palavra, estamos lhe transmitindo uma das bases dessa continuidade. 

(Falo isto porque já li experiências sobre crianças de 1 ou 2 anos a quem todo dia se ensinavam nomes diferentes, e inventados, para os objetos, para ver como elas reagiam. Reagiam, penso eu, com confusão mental e desinteresse pelas coisas.)

Um dos contos de ficção científica mais atemorizantes e mais comoventes que já li foi “The safe-deposit box” de Greg Egan. Por um fenômeno cuja razão não vem ao caso (mas é explicada no final da história, mesmo que de forma fantástica) o protagonista é uma mente, um “Eu”, que todos os dias de sua vida desperta num corpo diferente, de alguém com aproximadamente sua idade cronológica, em uma cidade de tamanho médio. Sempre foi assim. Num dia ele acorda na casa de José, no corpo de José; na manhã seguinte, na casa de Antonio e corpo de Antonio; no outro, na casa de Manuel e corpo de Manuel... 

Quando o conto começa, ele tem cerca de 30 anos de idade e conseguiu, ao longo desses milhares de saltos inexplicáveis, criar uma história pessoal para si, uma biografia que guarda num cofre de segurança num banco da cidade.

Esse sentido de continuidade, mesmo nas condições mais adversas, é o que mais precisamos conservar. Precisamos de um senso de continuidade do Eu e de um senso de continuidade do Mundo. Nada nos prova de que essa continuidade existe, mas sem essa Fé não há religião, não há filosofia, não há ciência e não há vida.






segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

0745) O amigo silencioso (7.8.2005)




(Peter Quasim)

O escritor australiano Greg Egan, a quem cito com freqüência nesta coluna, correspondeu-se durante alguns anos com um indiano da Cachemira chamado Peter Qasim, preso na Austrália por imigração ilegal. 

Sei pouco sobre Egan. Apesar de publicadíssimo e premiado, é um autor que não gosta de badalação; dele só se sabe que trabalha com informática e mora em Perth, na costa ocidental da Austrália (seu saite fica em: http://gregegan.customer.netspace.net.au/

Ele começou a se corresponder com Peter Qasim enquanto este movia um interminável processo para ser posto em liberdade. Trocavam opiniões sobre ciência, astronomia, livros, política e religião – sendo Egan um ateu convicto e Qasim um homem religioso. 

Depois de uma imensa batalha legal, Qasim foi finalmente libertado este ano, depois de 6 anos e 10 meses de prisão. Numa de suas cartas para Egan, Qasim afirmou que precisava de Deus “como um amigo na solidão, um amigo que não fala, não ri e não chora”. Achei bonita e madura essa descrição. Eu, como todo agnóstico, tenho uma pulga atrás da orelha para todos esses papos de gente que diz que conversa com Deus, que ouve conselhos de Deus, que Deus lhe ordenou que fizesse isso ou fizesse aquilo. 

É um pouco como esses caras que onde chegam dão um jeito de enfiar na conversa a informação de que são “assim” com o Presidente da República, sabe como é? Boa coisa eles não têm em mente.

Não digo que todo mundo que acredita conversar com Deus seja um desonesto; muitas vezes é apenas uma pessoa auto-sugestionável, que atribui a Deus os conselhos que dá a si próprio. “Eu estava sem saber se guardava o dinheiro ou se trocava de carro, aí fiz uma prece, e Deus me disse: “Que é isso, meu filho, troque de carro, afinal você merece, trabalha tanto...” 

O Deus de Peter Qasim tem outro perfil. Talvez perca um pouco dessa face paternal, aconchegante, mão-no-ombro; talvez não tenha essa capacidade (milagrosa, de fato) de dizer-nos exatamente aquilo que mais precisamos ouvir.

Esse Deus é como um sujeito a quem respeitamos e tememos, de quem gostamos, em quem confiamos. Ele não nos diz nada, mas está sempre do nosso lado, olhando, prestando uma atenção danada. Se agimos mal, ele não diz “Êpa!”, não interfere, nem sequer balança a cabeça em sinal de desaprovação. Não precisa. A gente já sabe o que pode e o que não pode. 

Ele está ali do lado para ver, e para ouvir; mas a decisão é nossa, e a confissão do erro, caso haja, é também iniciativa nossa. Ele não dá conselhos nem ordens. Se estamos num momento de depressão profunda, ele não surge envolto em luz para dizer: “Siga o seu coração...” Não precisa; nós já sabemos. 

A função dele é justamente, pela força catalisadora de sua presença, do simples fato de ele existir, nos levar à ação e à reflexão, nos conceder a liberdade e a responsabilidade, sabendo o tempo inteiro que não estamos sós. (Bem, pra quem acredita, imagino que deva ser assim.)






segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

0693) O Oceano Mental (8.6.2005)




Há um conto de Greg Egan em que um grupo de astronautas embarca numa missão que deve levá-los além dos limites do Sistema Solar; é a primeira vez que uma tal viagem está se concretizando. Tudo vai bem, eles atravessam a órbita da Lua, seguem rumo a Marte, rumo aos planetas exteriores. 

De repente, coisas inexplicáveis começam a acontecer. Alguns astronautas desmaiam e ficam numa espécie de coma ou estado catatônico. Outros começam a perder a memória, ficam conscientes mas incapazes de pensar, de fixar sua atenção no que quer que seja. Um a um vão baqueando, até que a única alternativa é abortar a missão e regressar à Terra.

A resposta (que surge nas páginas finais do conto) é que essa missão demonstrou uma verdade inesperada: a consciência humana não é alguns bilhões de consciências individuais vivendo lado a lado, mas um único oceano pensante, dentro do qual cada um de nós tem direito a percepção diferenciada, devido aos órgãos dos sentidos, mas deve a maior parte de sua existência mental a esta enorme e invisível camada pensante em que nascemos e passamos a vida mergulhados. 

Mal comparando, é como um arquipélago no mar, onde as ilhas, vistas de longe, dão a impressão de serem porções soltas de terra, boiando na água, mas se olharmos por baixo veremos que ela são apenas os picos de uma cordilheira submersa. 

Ao se afastar da Terra, o ser humano perde esta parte submersa, fica restrito à conscienciazinha individual que bruxuleia em seu minúsculo cérebro. Daí para a extinção é um passo, do mesmo modo com uma brasa retirada da fogueira e colocada à distância logo se apaga.

Das inumeráveis metáforas produzidas pela ficção científica sobre o que é a nossa espécie, no Universo, poucas me parecem tão plausíveis quanto esta. Não tenho a menor prova concreta a respeito, mas intuitivamente pressinto uma verdade-verdadeira por trás deste fantasioso conto publicado numa revistinha mensal. 

Esta história tem pontos de contato com outras teorias, como a Teoria de Gaia, segundo a qual nosso planeta é um organismo vivo e uno, só que de uma espécie muito mais complexa que as espécies que conhecemos (animais e vegetais); também se liga à teoria do Inconsciente Coletivo, de Jung, segundo a qual nossa consciência individual tem por baixo de si imensas camadas ocultas de recordações armazenadas em nosso DNA ou coisa parecida.

A metáfora criada por Greg Egan nos ajuda a aceitar que só somos o que somos e só pensamos o que pensamos porque estamos mergulhados neste oceano mental, neste mar humano e invisível. É pela presença dele que nossa mente é ativada, e que conseguimos fazer sentido das coisas que vemos. 

Somos como um rádio que só reproduz o que capta, e se for levado para um lugar onde não cheguem as ondas das transmissões, ele ficará mudo. Ficção científica, “por suposto”, mas talvez seja esta a minha maneira de acreditar cientificamente na existência da alma.






quarta-feira, 13 de agosto de 2008

0510) O autista e o amor (6.11.2004)




(Greg Egan, Klein's Quartic Curve, http://math.ucr.edu/home/baez/KleinDual.gif)

Uma característica comum a vários tipos de autismo é a incapacidade de perceber subtextos, segundas intenções. Jovens ou adultos autistas têm a tendência de interpretar ao pé da letra o que ouvem; não conseguem entender uma ironia. 

Um autista vê um sujeito suado, carregando nas costas uma pedra de 50 quilos, e pergunta: “Como vai?”. “Estou ótimo,” diz o outro, “nunca me senti melhor em minha vida.” E o autista vai embora satisfeito, acreditando piamente no que ouviu. 

Um autista não consegue jogar pôquer direito. Ele absorve com rapidez as regras do jogo, porque tem sempre uma habilidade espantosa para números, séries, etc. Mas não entende o que é um blefe.

Vai daí que muitos autistas não têm senso de humor, porque o senso de humor depende muitas vezes de um duplo sentido, depende da nossa capacidade de interpretar uma frase ou uma situação, e, uma fração de segundo depois, perceber que no contexto específico daquela historinha aquela frase ou situação admite uma interpretação completamente diferente, que inverte por completo o significado da cena. O riso é uma descarga nervosa causada pela surpresa diante dessa reviravolta mental e do contraste entre as duas interpretações. O autista é incapaz de perceber essa duplicidade de leituras, e, se a percebe, isto o deixa indiferente. Ele nasce geneticamente vacinado contra a ironia, o sarcasmo, a insinuação, a mentira diplomática.

Greg Egan imagina em seu romance Distress (1995) uma organização intitulada Voluntary Autists Organization. É uma entidade de autistas que querem ter o direito de ser como são, porque estão satisfeitos assim. As pessoas “normais” (dizem eles) têm uma capacidade inata para observar as outras e imaginar o que estão pensando a partir de seus gestos, palavras, etc. “Modelamos” em nossa mente, sem parar, a mente das pessoas que nos cercam, e nos comportamos de acordo com isto. Ao longo da evolução humana, essa capacidade se funde ao comportamento afetivo instintivo dos mamíferos e ao impulso reprodutivo, e dá origem ao sentimento chamado “empatia afetivo-sexual”, ou “amor”.

No livro de Egan, o autismo é atribuído a uma lesão cerebral que anula essa capacidade para se identificar emocionalmente com outras pessoas. E os indivíduos que têm uma lesão parcial querem que a Constituição lhes dê o direito de aumentá-la, cancelando por completo sua capacidade para a empatia. Eles invocam o mesmo direito alegado pelos transexuais: “Quero ter o direito de ser como sou, por inteiro.” Identificar-se com outro ser humano (alegam eles) é uma ilusão, uma mentira. Deveríamos nos comportar de acordo com regras e valores morais, não com uma ilusão de afeto mútuo. A noção de empatia, de intimidade psíquica com outro ser humano, é uma premissa falsa. E aí eu pergunto: se um transexual tem o direito de mudar de sexo, um semi-autista tem o direito de amputar suas próprias emoções, e viver em paz, sem ser obrigado a fazer algo que considera uma mentira?