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quarta-feira, 27 de maio de 2026

5236) O riso de Rosa (27.5.2026)




 
Um aspecto muito visível na obra de Guimarães Rosa, mas talvez pouco comentado, é o humor que a atravessa em todos os sentidos. Não o humor da mera piada, ou da anedota-de-mesa-de-bar, embora elas estejam presentes e apareçam quando menos se espera; mas, mais frequentemente, o humor de pequenas situações engraçadas da vida diária, tornadas mais engraçadas ainda quando recontadas por jagunços ou capiaus de quem às vezes não esperamos tanta finura, tanta ironia, tanto discernimento. 
 
Falei nas anedotas de mesa de bar, e não é que Tutaméia (1967) nos traz uma verdadeira antologia delas no prefácio “Nós, os Temulentos”? Se não tropecei na contagem, são vinte e oito vinhetas curtas, vinte e oito anedotas de bêbados que Rosa, fiel ao seu próprio espírito, corta e cose numa historieta só. A historieta de um bêbado, de noite, tentando voltar para casa. Ou seja: tudo aquilo que já ouvimos aconteceu com um único bêbado, o tal do Chico, em volta de quem ele costura essa Odisséia etílica. 
 
A mesma Tutaméia, aliás, principia com um outro prefácio (são quatro prefácios e quarenta contos), “Aletria e Hermenêutica”, em que o autor faz um passeio desconcertante por metalinguagem, paradoxos, absurdismo. 



(Eusélio Oliveira)
 

Falei que são quatro prefácios, e me lembro do saudoso Eusélio Oliveira, patrono do cineclubismo nordestino, a quem certa vez um amigo pediu “um prefácio, ou posfácio” para um livro de poemas. Eusélio, sempre inovador, ofereceu-se para redigir um “mesofácio”, que depois foi convenientemente intercalado no centro do livro. 
 
Rosa faz o mesmo em Tutaméia, em cujo índice de leitura, na abertura do livro, vê-se que os textos (contos e prefácios) estão todos misturados, e organizados por ordem alfabética. (Com uma pequena irregularidade, que comentarei depois.) E na altura da letra H surge mais um, “Hipotrélico”, que segue os outros no uso de títulos abstrusos. 
 
O autor se apressa a dizer que “hipotrélico” é palavra nova, e a explica: “indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a opinião alheia”. Esclarece também que um hipotrélico é um sujeito que detesta neologismos e com isto desmente a própria existência. 



 
E é sobre neologismos que se estende esse prefácio ou mesofácio, o que o aproxima dos outros dois citados acima. Isso dá uma pista sobre o método de trabalho de Rosa. Ele era um cara que: 1) interessava-se vivamente por coisas diferentes, surpreendentes, engraçadas; 2) fazia listas delas. Não me surpreenderei se um dia eu vier a visitar o Arquivo Guimarães Rosa, na USP, e encontrar ali as origens destes três prefácios: algumas listas de pequenos absurdos, de piadas de bêbado, de palavras inventadas. 
 
Rosa anotava compulsivamente, e na hora de escrever engastava esse material anotado, com relativa parcimônia, no fluir do texto ficcional. O material cresceu tanto que três dessas “listagens engraçadas” nos deram os três primeiros prefácios deste livro. (O quarto, “Sobre a Escova e a Dúvida”, é o texto mais longo de Tutaméia, orçando em cerca de 21 páginas, e é de natureza mais complexa e heterogênea.) 
 
Pequenos “causos” humorísticos também despontam nos diálogos do Grande Sertão: Veredas. Como o diálogo entre José Misuso e Etelvininho: 
 
Um José Misuso uma vez estava ensinando a um Etelvininho, a troco de quarenta mil-réis, como é que se faz a arte de um inimigo ter de errar o tiro que é destinado na gente. Do que deu o preceito: - “... Só o sangue -frio de fé é que se carece – pra, na horinha, se encarar o outro, e um grito pensar, somente: Tu erra esse tiro, tu erra, tu erra, a bala sai vindo de lado, não acerta em mim, tu erra, tu erra, filho de uma cã!...” 
Assim ele ensinou ao Etelvininho, o Misuso. Mas, aí, o Etelvininho reclamou: - “Ara, pois, se é só isso, só issozinho, pois então eu já sabia, mesmo por mim, sem ninguém me ensinar – já fiz, executei assim, umas muitas vezes...” - “E fez igualzinho, conforme o que eu defini?” – indagou o José Misuso, duvidando.
-- “Igualzinho justo. Só que, no fim, eu pensava insultado era: ... seu filho duma cuia!...” – o Etelvininho respondeu. - “Ah, pois então” – o José Misuso cortou a questão - “... pois então basta que tu me pague só uns vinte mil-réis...”
(pág. 618, edição digital) 



É o humor brasileiro da cultura oral, da memória de ouvido, do lero-lero ocioso de botequim com tamboretes na calçada e mesa de plástico. Um anedotário que também foi recolhido, sem muita pressa, em romances de autores como Jorge Amado, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, João Ubaldo Ribeiro... e tantos outros beneficiários das literaturas da voz. 
 
Com maior frequência, porém, o que se vê no modo de ser de Guimarães Rosa, no seu comportamento entre outras pessoas (entrevistadores, etc.) não é propriamente o humorismo, mas o bom humor. O jeitão que Carlos Drummond, num poema-obituário, comparou com um “boi risonho”. Uma predisposição para o sorriso, o gracejo, a brincadeira, o exercício ininterrupto de uma visão lúdica de pessoas, palavras, coisas. 
 
Como quando ele mostrou um texto a João Cabral de Melo Neto e lhe perguntou se tinha notado a pontuação num trecho em que um boi era ferido na veia. “Não sei,” disse Cabral, “o que seria?...”  “Olhe aqui,” disse Rosa, mostrando o fim da frase: .!.  Eram três pontos, só que o do meio estava substituido por um ponto de exclamação. “É para dar a idéia visual do esguicho do sangue!” explicava Rosa, com uma risada. 
 
Um leitor desavisado imagina, às vezes, que ousadias desse tipo são produzidas por algum indivíduo sisudo, erudito, rigidamente compenetrado da importância de um compromisso vanguardista qualquer. Não é o presente caso. Aqui, é um inventor que se diverte com a concepção e execução de algo que não tinha ocorrido a ninguém. 



E voltamos ao índice de Tutaméia, em que os quarenta e quatro textos vêm enfileirados por ordem alfabética, uma ordem que pode ser reproduzida assim: 
 
AAAAABCCDDEEEFHHIJGRLMMNNOOOPPQRRRSSSSTTUUVZ
 
Paulo Rónai, grande estudioso da obra de Rosa, em seu “Apêndice” a este livro, comenta: 
 
Mostrou-me depois o índice no começo do volume, curioso de ver se eu lhe descobria o macete. 
-- Será a ordem alfabética em que os títulos estão arrumados? 
-- Olhe melhor: há dois que estão fora de ordem. 
-- Por que? 
-- Senão eles achavam tudo fácil. 
“Eles” eram evidentemente os críticos. 
 
As letras fora de ordem, visivelmente, reproduzem as iniciais “JGR” do autor. 
 
Num prefácio que fez à décima edição de Sagarana, o crítico português Óscar Lopes percebeu essa fagulha de gracejo sempre presente desde o livro de estréia do escritor brasileiro. Ele destaca “um humor que desconhecíamos...”, “esta versatilidade viva de humor...”, “um humor humano muito especial que nos leva a sorrir.” Não é o humor da piada comum, e sim o riso de surpresa diante de uma revelação, da redescoberta de algo que não sabíamos que sabíamos.  


 

E nesse capítulo, é claro, entram as tiradas sentenciosas, aforísticas, proverbiais, do grande fazedor de frases que foi Rosa. 
 
Alguns exemplos, de Tutaméia apenas: 
 
“Ao dono da faca é que pertence a bainha.” (“Retrato de Cavalo”) 
 
“Tanto vai a nada a flor, que um dia se despetala.” (“Arroio das Antas”) 
 
“A gente quer mas não consegue furtar no peso da vida.” (“Rebimba, o bom”) 
 
“Velho sacode facilmente a cabeça.” (“Presepe”) 
 
“Duro e mau como uma quina de mesa.” (“Tapiiraiauara”) 
 
“O mundo do rio não é o mundo da ponte.” (“Orientação”) 
 
 “Amar não é verbo: é luz lembrada.” (“João Porém, o caçador de perus”) 
 
“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.” (“Desenredo”) 
 
“Como são curtos os séculos, menos este!” (“Sobre a escova e a dúvida, II”) 
 




 
 





quinta-feira, 24 de março de 2022

4806) Primeiras Estórias: O Cavalo que Bebia Cerveja (24.3.2022)



Num dos seus astutos comentários à obra de Guimarães Rosa, que ele conhecia tão bem, Paulo Rónai lembra que o contista era quase que um especialista em histórias onde “o conflito esperado deixa de se cumprir”, e que o autor gosta de histórias com “dois enredos que se completam e se explicam, sendo que o secundário só se entrevê intervaladamente.”  São observações que se lê em sua introdução (“Os Vastos Espaços”) às primeiras edições do livro Primeiras Estórias (1962).
 
É mais ou menos o que sucede em “O Cavalo que Bebia Cerveja”, o décimo-terceiro conto do livro. O rabisco do enredo é simples. O narrador é Reivalino Belarmino, cujo nome oficial só no fim do conto ficamos sabendo. Ele mora com a mãe perto de uma chácara cercada de altas árvores, protegida, meio oculta, pela qual eles têm que passar todo dia. 

A chácara foi comprada por um estrangeiro misterioso, homem cheio de sotaque, que come de maneira espalhafatosa e pouco educada. O rapaz meio que antipatiza com ele, mas acaba se tornando seu empregado, fazendo pequenos mandados, e o conto é o estreitamento gradual dessa relação.
 
O segundo enredo é o que acontece no vilarejo, onde de vez em quando chegam homens de fora interessados nos detalhes da vida do gringo, que se chama “Giovânio”, tem sotaque italianado (“bisonha outra garrafa”, “lei quer ver?”, “não laxa as armas!”), tem um cachorro chamado “Mussulino”... O narrador registra que o gringo comprou a chácara “no ano da espanhola”, ou seja, 1918 aproximadamente.
 
Os homens de fora têm perguntas específicas para fazer ao rapaz, sobre seu empregador: “se ele não tinha numa perna, em baixo, sinal velho de coleira, argolão de ferro, de criminoso fugido da prisão”. Não; nada.
 
Todo gringo é excêntrico; pode-se argumentar que um migrante é alguém que se afastou do próprio centro, e sempre vai ser visto meio de viés pelos naturais do centro-alheio onde se instala.
 
Guimarães Rosa vai desenhando esse personagem através dos olhos do rapaz, o narrador, cheio das pequenas picuinhas dos interioranos contra quem vem de fora, “vindo comprar terra cristã” e que decerto “tinha remorso, de ser estrangeiro e rico.”  
 
Um dia, ele se vê novamente convocado ao vilarejo para dar parte aos forasteiros, desconfortavelmente, dos hábitos de seu empregador, mediante pequenas gratificações, que embolsa, carrancudo. Ele diz que Seu Giovânio lhe pede que compre cerveja, explicando que é para o cavalo, e quando as autoridades o visitam na chácara, e o submetem a teste, pois não é que o cavalo bebe cerveja mesmo?! 
 
Mesmo assim, a aura de mistério permanece. Reivalino percebe desde cedo que a casa, que é grande, vive trancada, e Seu Giovânio dorme, cozinha e come nos espaços do lado de fora. Quando as autoridades dão uma incerta, ele abre a casa e os conduz a um aposento onde todos se deparam, espantados, com “um cavalão branco, empalhado”, em tamanho natural, trabalho perfeito, e que deve ter exigido um grande esforço no traslado e remontagem.
 
Na reta final do conto, Seu Giovânio abre o jogo, chama as autoridades e revela o segredo: seu irmão, “Josepe”, que vivia trancado na casa, acaba de morrer. E quanto a autoridade local exige exame do cadáver...
 
Mas aí se viu só o horror, de nós todos, com caridade de olhos: o morto não tinha cara, a bem dizer – só um buracão enorme, cicatrizado antigo, medonho, sem nariz, sem faces – a gente devassava alvos ossos, o começo da goela, gorgomilhos, golas – “Que esta é a guerra,” seu Giovânio explicou...
 
A narrativa nos faz suspeitar desde o início, por detalhes variados, de um criminoso comum (ou criminoso de guerra) que ali se esconde; a impressão que fica no fim é de dois fugitivos da guerra, um cuidando do outro. Um irmão interno que se esconde na casa, que nunca sai, nunca é visto, e até sua existência é ignorada enquanto vive; e um irmão externo que se encarrega dos cuidados, que entra em contato com o mundo, que vive praticamente do lado de fora da casa, pelo bem do outro.
 
No final, Reivalino conta:
 
Não avistei mais o meu Patrão. Soube que ele morreu, quando em testamento deixou a chácara para mim. Mandei erguer sepulturas, dizer as missas, por ele, pelo irmão, por minha mãe. Mandei vender o lugar, mas, primeiro, cortarem abaixo as árvores, e enterrar no campo o trem, que se achava, naquele referido quarto.
 
É um meio mistério que se deslinda numa revelação menos espantosa mas igualmente dramática (o irmão desfigurado); e é a história dessa relação atritada e pouco cômoda entre seu Giovânio e “Irivalíni”, com ele chama o rapaz. O qual passa de empregado-a-contragosto a possível delator do patrão, depois a solidário, depois a herdeiro.
 
Os manuais literários norte-americanos nos ensinam que toda história se baseia num conflito, no confronto entre duas forças, e na vitória final de uma delas. Essa fórmula corresponde, com perfeição, a todas as histórias que são escritas com ela em mente.
 
Os conflitos roseanos são de outra natureza, e neste conto o conflito principal (entre o jovem matuto mineiro e o velho migrante italiano) é um lento atrito que ao longo dos anos vai aplainando as antipatias dos dois e que no final, lubrificado por uma boa herança, se resolve em missas e escrituras.
 
É o que Paulo Rónai assim avalia: “Nesse corajoso – e convincente – emprego do anticlímax deve-se ver prova decisiva de mestria na arte de tramar histórias.” 
 






quarta-feira, 13 de março de 2019

4445) Os doidos literários (13.3.2019)



Raymond Queneau chamou de “doidos literários" ("fous littéraires"), em seu livro Les Enfants du Limon (1938), todos aqueles sujeitos fora-de-esquadro que se dedicam fervorosamente ao estudo e à especulação, e acabam produzindo teorias sem pé nem cabeça sobre o Sistema Solar, ou sobre a Pedra Filosofal, ou sobre a Quadratura do Círculo, ou qualquer outro tipo de “viagem” pseudocientífica.

Queneau passou muitos anos de sua vida estudando esse pessoal tipo Terra Plana, Universo de Gelo, e assim por diante. Não só esses – também os “linguistas de fim de semana”, capazes de inventar um idioma totalmente arbitrário que, acham eles, se fosse aprendido por toda a humanidade acabaria com as guerras e as epidemias.

Neste capítulo, aliás, é imbatível (e divertidíssimo) o livro Babel e Antibabel de Paulo Rónai (Ed. Perspectiva, São Paulo), onde ele analisa as linguas inventadas mais conhecidas, como o Esperanto e o Volapuk, e outras mais excêntricas.


O que leva esses malucos a dedicarem sua vida inteira a projetos gigantescos dessa dimensão? Maldo eu que é uma mistura de Complexo de Inferioridade com Complexo de Superioridade, uma receita mais frequente do que se imagina.

Muitos deles são indivíduos com baixa auto-estima, tímidos, macambúzios, com pouco traquejo social. Muitos são solteirões misantropos, outros se refugiam em casamentos formais onde há uma mulher que cuida deles e não faz perguntas. Ganham a vida como bancários, professores, contabilistas, qualquer profissão que possa ser mantida numa rotina confortável.

Uma vez obtida esta segurança, eles decolam numa viagem (=delírio) de grandeza, de genialidade, uma verdadeira embriaguez conceitual de quem se considera o Gênio Supremo da Humanidade.

A pesquisa de Queneau localizou centenas de “doidos literários”; ele não conseguiu publicá-la (a pesquisa em si já estava se parecendo um pouco com as doidices dos pesquisados), mas conseguiu contrabandeá-la para o romance Les Enfants du Limon, "Os filhos do barro", onde ela aparece como o projeto intelectual de Monsieur Chambernac e seu ajudante Purpulan, uma dupla meio “Bouvard e Pécuchet”.

Chambernac afirma estar pesquisando apenas “os doidos literários franceses do século 19”. São aqueles cuja existência foi confirmada mas que não tiveram a glória de formar uma seita de seguidores. Para Chambernac/Queneau, quem chegou a ter discípulos não pode ser considerado “um doido literário”.

Essa pesquisa foi retomada depois por André Blavier no catatau de 924 páginas Les Fous Littéraires (Ed. Henri Veyrier, Alençon, 1982), com um impressionante repertório de pesquisa, ampliado a partir do de Queneau, de quem Blavier (1922-2001) foi amigo e discípulo.

Uma pequena amostra, com o “Sumário” de seu livro:



O que são os doidos literários?

Queneau, em Enfants..., estabelece que não basta ser um autor meio excêntrico que imagina ter feito uma super-descoberta pseudo-científica. É preciso não haver seguidores, não haver fama, não haver o elogio da crítica, não haver reedições de sucesso. Ou seja: quando o Doido Literário começa a ter um certo poder social, sua obra perde a graça, a graça do sintoma.

Queneau sabia muito bem o quanto as multidões podem ser levadas a acreditar numa teoria sem pé nem cabeça, seja ela científica ou religiosa. Ele eliminava (Enfants, cap. XXI) “todos os místicos, visionários, espíritas, teosofistas etc., cujas elucubrações possam ser ligadas a outras já mais ou menos reconhecidas, e que a prudência me aconselha a não tratar de forma leviana.”

A Pseudo-Ciência é uma arma política poderosa. Vale a leitura dos capítulos que Pauwels & Bergier dedicaram em O Despertar dos Mágicos às teorias do maluco Hans Hörbiger, chamado por alguns “o guru de Adolf Hitler”, propositor de uma Cosmogonia Glacial em que o Universo era visto como uma luta entre o Fogo e o Gelo.

Todos eles sabem que as pessoas não são motivadas pelo que compreendem, e sim pelo que desejam de forma profunda, e que se esse desejo for satisfeito, ou se a expectativa dele for estimulada, o sujeito é capaz de “compreender” tudo que lhe explicarem, inclusive que dois e dois são cinco e que tamanduá e bicicleta são a mesma coisa.

Os trechos dos doidos literários citados em Les Enfants... (Le Barbier, Roux, Hussenot, etc. etc.) são de deixar perplexo um leitor moderno. Não pelo trabalho conceitual de inventar tudo aquilo, porque afinal de contas um escritor de ficção científica ou de fantasia (como Tolkien) é capaz de criar enciclopédias igualmente gigantescas e detalhistas. Mas o escritor sabe que está inventando. O doido literário pensa que está descobrindo.

É a certeza da própria certeza (e da própria genialidade) que move esses indíviduos, e é uma sorte da humanidade que eles sejam, na esmagadora maioria, sujeitos obscuros e arredios. Uma mistura de Policarpo Quaresma com Bispo do Rosário.

Porque quando acontece de ser um cara com carisma, com eloquência, extrovertido, ambicioso,  arregimentador, calculista... Deixa de ser um doido literário. Passa a ser um perigo para a literatura, e para o mundo.