Fui assistir este filme de Clint Bentley, que está
disponível no Netflix, porque nele temos mais um brasileiro indicado ao Oscar:
o diretor de fotografia Adolpho Veloso.
Como as indicações para O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho estão (merecidamente)
atraindo todas as atenções, levei algum tempo para saber que havia outro
brasileiro concorrendo, e fui ver o filme. Não me arrependi.
Sonhos de Trem conta
a história de um lenhador no noroeste dos EUA, aquela região fria e montanhosa
entre os Estados de Washington, Montana, Idaho, e a fronteira do Canadá.
Houve um tempo em que existiam passagens dando acesso ao mundo antigo;
trilhas estranhas, atalhos ocultos. Você virava uma esquina e de repente estava
cara-a-cara com o grande mistério, o alicerce de todas as coisas. E mesmo que
esse mundo antigo já tenha desaparecido, mesmo tendo sido enrolado como um
velho rolo de pergaminho e guardado em algum lugar, ainda dá para escutar os
seus ecos. (Da narração do filme)
É um filme sobre memória e a tentativa de fazer com que
algo não desapareça para sempre. Pessoas, principalmente. Neste aspecto, se parece
com O Agente Secreto, seu concorrente
nas premiações distribuídas pela mão invisível do mercado. O ótimo Joel
Edgerton perdeu o Golden Globe para Wagner Moura; agora, as duas produções concorrem
ao Oscar de “Melhor Filme”.
É a história de Robert Grainier, um homem introspectivo, defensivo,
consciente de que está lidando com forças desconhecidas que a qualquer momento
podem se voltar contra ele. E isto não o
impede de viver épocas felizes.
Grainier se preocupava cada vez mais que algo terrível o estivesse
seguindo, que a morte o encontraria ali, longe do único lugar onde ele
realmente queria estar.
Ele tem uma esposa e uma filhinha, mora numa cabana de
madeira, que eles mesmos construíram, junto a um rio. Mas precisa viajar para
longe, na época da derrubada das árvores, e ficar meses sem ver a família.
Os fiscais-de-título hão de implicar também com este,
porque de fato são muito rápidas as cenas em que Robert faz as suas longas
viagens em ferrovias entre sua cabana (perto de Spokane, no estado de
Washington) e as florestas remotas onde trabalha de-alugado.
Lenhador é uma profissão sofrida para um homem que tenha
temperamento meditativo, empático. Os deste filme parecem broncos; são uns
sujeitos ensimesmados, rudes, mas de vez em quando se saem com algumas
reflexões que (graças ao milagre da literatura) não parecem estranhas às suas
vozes, às suas testas franzidas, à sua percepão do que são e do que fazem.
O ótimo William H. Macy, irreconhecível no centro de uma
barba branca, faz um personagem ímpar. Ele é Arn Peeples, um dinamitador
veterano, conversador, gabola. Gosta de ficar contando histórias pitorescas,
sentado num tronco, enquanto os outros fazem força braçal. Nisto, acaba se
parecendo com um personagem encantador de Guimarães Rosa, o Lalino Salãthiel de
“A Volta do Marido Pródigo”.
Arn Peeples tem sempre uma frase afiada para animar a
conversa.
PEEPLES
Acabamos de derrubar árvores que estão aqui há 500 anos. Isso perturba
a alma de um homem, quer você reconheça ou não. (...) Este mundo é cheio de
conexões sutis, rapazes. Cada fio que puxamos, não sabemos como influenciará o
todo. Somos só crianças neste planeta, tirando parafusos da roda gigante,
pensando que somos deuses.
OUTRO LENHADOR:
Isso é besteira. Já morei em Washington também. Cortei madeira por todo
o Canadá e voltei. Tem árvores suficientes para cortarmos por mil anos. E
quando a última for cortada, a primeira já estará tão grande quanto qualquer
uma de hoje.
PEEPLES
Eu me lembro que pensava isso mesmo quando era jovem. Exatamente o
mesmo.
O caladão Robert fica escutando essas conversas, à noite,
na beira da fogueira. Escuta, observa, absorve. E sonha: seus sonhos são
fragmentos de lembranças, flashbacks que
surgem no filme sem grande originalidade narrativa, mas pelo menos poupando o
espectador daquele clichê, hoje incontornável, de mostrar o personagem
erguendo-se na cama, arquejante, de olhos arregalados.
Joel Edgerton tem uma interpretação contida, atenta, produzindo
uma presença sólida, mas vulnerável. Nos diálogos, tem a tendência de não
encarar o interlocutor, ficar virado para o horizonte, escutando tudo mas
olhando para longe.
O filme se baseia na novela homônima de Denis Johnson, indicada
ao Prêmio Pulitzer. E usa, de maneira muito eficiente, uma narração em off com o texto do livro. Já vi
roteiristas dizerem que “a narração em off
é o derradeiro refúgio dos incompetentes”, e concordo que ela é uma das
escapatórias mais preguiçosas para quem escreve roteiro. Mas neste filme, ela
funciona com perfeição, para meu ouvido.
Primeiro, porque o livro conta a história de Robert
Grainier de maneira distanciada, informativa, em terceira pessoa, como se
estivesse fazendo um resumo da vida dele para alguém que vai usar isso para um
trabalho mais profundo. Quem faz a narração, no filme, é o ator Will Patton,
especialista em audiobooks, e que gravou também o audiobook da novela de Denis
Johnson. A voz de Patton é uma voz “contemporânea”, com ritmo e inflexões
modernas, e isso produz o curioso efeito de aumentar ainda mais o
distanciamento, por estar contando a vida de um homem de cerca de cem anos
atrás, em ambientes e paisagens de cem anos atrás.
Assim, sempre que a narração em off volta a se ouvir, somos arrancados daquele ambiente tão
realista (e a fotografia de Adolpho Veloso é excelente, sim) e ficamos com a
impressão de estar espreitando o passado através de algum daqueles
“cronoscópios” da ficção científica: uma engenhoca com
que alguém de hoje nos conta e mostra, como numa TV, uma história de 1910.
O diretor Clint Bentley, numa entrevista, citou dois
títulos que o ajudaram a criar esse efeito de narração na terceira pessoa: Jules et Jim (1962) de François Truffaut
e Y Tu Mamá También (2001) de Alfonso
Cuarón.
Os lenhadores de Sonhos
de Trem têm um pequeno ritual quando sepultam na floresta um dos seus,
vítimas dos frequentes acidentes nas quedas das árvores. Pregam no tronco de
uma árvore o par de botas do defunto. As pessoas no futuro ficarão sabendo que
ali pertinho está enterrado um lenhador, e sua passagem neste mundo não será
esquecida por completo.