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segunda-feira, 15 de maio de 2023
4942) O erro traz uma idéia (15.5.2023)
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terça-feira, 1 de março de 2016
4064) "O Santo Sujo" (2.3.2016)
Lendo sobre o Modernismo brasileiro, conheci o nome de Jayme
Ovalle como sendo o parceiro musical de Manuel Bandeira na canção famosa
“Azulão”, uma pequena peça de melodia dolente e versos nostálgicos, que entrou
no repertório de numerosos intérpretes do canto lírico. As leituras se
ampliaram, e o nome de Ovalle começou a pipocar por toda parte. Não se encontra
por aí um só livro dele, um só disco, mas todo mundo concorda ter sido ele uma
espécie de anjo inspirador da boêmia modernista do Rio de Janeiro.
A biografia O Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 2008), de Humberto
Werneck, tem uma pesquisa cheia de surpresas pitorescas, e a prosa rica e
precisa do colunista do Estado de São Paulo. Werneck faz surgir a imagem de
Ovalle como um escritor que não precisava de livro, poeta que esnobava poemas,
músico para quem as canções eram mero efeito colateral da música, alguém capaz
de inspirar a todos mas sempre deixando para depois a grande obra que parecia
destinado a criar. Não muita coisa: vinte ou trinta canções líricas, um volume
de poesias. Deixou, acima de tudo (como o Almotásim de Borges), seu reflexo nos
que o cercavam, e o brilho desse reflexo nos permite imaginar a luz própria da
pessoa.
Era grande fazedor de frases. “O câncer é a tristeza das
células”, “o chato é o verdadeiro psiquiatra”, “a morte é a única coisa nossa;
nosso nascimento, por exemplo, pertence aos nossos pais”. Não era um
intelectual, era um intuitivo, místico, cheio de tiradas brilhantes, como um
menino que presta atenção a tudo. Rezava muito, chorava com facilidade,
apaixonava-se dia sim dia não. Era arquiteto de complicadas teorias estéticas,
um terno sedutor de mulheres e um inflamado enfeitiçador de homens.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
3946) "O Desatino da Rapaziada" (16.10.2015)
Terminei a leitura, que passou voando, de O Desatino da Rapaziada – Jornalistas e Escritores em Minas Gerais 1920-1970” de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1992). Digo que passou voando porque é assim que parece passar esse período nas letras e na imprensa de Minas Gerais, com uma sucessão de jornais, revistas e suplementos ou tablóides literários que sobem aos céus de Minas em girândolas de boas intenções e versos febris, brilham durante alguns anos ou alguns números e depois se desfazem em fumaça e cinza enquanto um novo tablóide alça sua própria explosão.
Sempre pensamos no escritor brasileiro como um funcionário
público com histórias para contar, papel em abundância e tempo de sobra. O
livro de Humberto Werneck nos lembra que não só as repartições: as redações de
jornais também foram um valhacouto onde se homiziaram muitos beletristas
acusados de poetas. E lembra que a reportagem diária, com seus percalços,
revelou muitos dos nossos talentos na ficção.
HW examina em seu livro gerações sucessivas de
jornalistas-literatos, começando pela época do Modernismo, com Carlos Drummond
de Andrade sendo a figura que mais se destaca, e depois vem abordando a geração
“encontro marcado” em alusão ao romance homônimo de Fernando Sabino (cujo grupo
se complementa com Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino),
até a explosão dos “contistas mineiros” dos anos 1960 em diante, de Murilo
Rubião a Luiz Vilela.
Aliás, é bom qualificar minha afirmação mais acima, porque
ser jornalista era, também, uma forma de ser funcionário público. Os jornais
geralmente faziam parte de projetos pessoais de governadores, prefeitos,
políticos necessitados de um altofalante para seus interesses. O jornalista geralmente não tinha
estabilidade, nem salários polpudos nem proteção trabalhista, mas era possível
aproveitar os entusiasmos eleitoreiros deste ou daquele partido para encher as
ruas de papel impresso. Surgiam daí os jornaizinhos combativos que na metade da
frente defendiam os interesses do patrão e na metade de trás traficavam as
subversões estéticas do seu tempo.
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