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quinta-feira, 19 de março de 2026

5226) Segredos de infância (19.3.2026)





Li em algum livro psicanalítico ou equivalente que um momento crucial na infância é quando uma criança mente aos pais pela primeira vez e escapa impune. Ela percebe que não é apenas um grão-de-areia passivo na ventania do mundo. Ela não está apenas sendo rebocada para um lado e depois para outro; não tem apenas a obrigação de ouvir e obedecer; ela pode também manipular os acontecimentos, e os relatos sobre esses acontecimentos, a seu favor. Que é (pensando bem) o que seus pais fazem o tempo inteiro (como todo adulto). 
 
Não se trata (pelo menos neste estágio) da questão moral de mentir, de enganar, até porque nessa fase da vida as mentiras são em geral mentiras bobinhas. (Sim, sei que existem crianças assassinas e psicopatas, há livros e filmes sobre isto, de Ellery Queen a Robert Mulligan, de Jerome Bixby a William Golding, de Agatha Christie a John Wyndham, etc.). 
 
Estou me referindo a mentiras tipo “já arrumei meu quarto”, “fiz o dever de casa”, “não sei quem quebrou o jarro”, “comi meu almoço todo e não sei que comida é essa na lata de lixo”, etc. 
 
Os psicólogos advertem que esse tipo de mentira, mais do que configurar um mau-caratismo em botão, tem uma finalidade mais importante: revelar à criança que o mundo mental dela é só dela. Um mundo ambíguo onde ela é o único e todo-poderoso habitante, e uma prisão de onde jamais poderá sair. 
 
O raciocínio de “a mentira é importante para afirmar a noção do Eu” evolui para o seguinte: não, o importante não é apenas o mentir, o enganar; o importante é estabelecer um fato mental de que somente eu tenho conhecimento, e os adultos não. 
 
Quando eu tinha por volta de 9 ou 10 anos moramos a cem metros do Estádio Presidente Vargas, o “campo do Treze”, do meu time do coração. Era tão perto que quando tinha jogo noturno a gente aproveitava e jogava pelada na rua, aproveitando a iluminação dos refletores. 



 
Meu pai tinha duas cadeiras cativas, cuja caderneta eu por muitos anos (já adulto) exibia orgulhoso no portão que dava acesso à parte de cima da arquibancada. Mas nessa fase dos dez anos a minha primeira tarefa ao chegar no local era subir na cadeira e olhar através dos cobogós da parede: de lá, avistava a parte traseira da nossa casa, e nosso quintal! Era uma reafirmação de que o mundo existia mesmo, e por isso nunca dei ouvidos ao Bispo Berkeley. 
 
Depois, refinei um pouco essa percepção. A gente sempre via o jogo comendo amendoim, meu pai comprava logo um punhado de pacotinhos. Um dia, amassei o papel de um saco de amendoim, fazendo uma bolinha, e o enfiei no cobogó. A dúvida (não formulada nestes termos, evidentemente) era: a cadeira cativa de onde eu via o jogo (e por extensão a arquibancada, o estádio, o mundo em si) era sempre a mesma? 
 
Domingo que vem, o Treze joga de novo, lá vamos nós, e bingo! A bolinha de papel estava lá! E era a mesma: tive o cuidado de desamarrotar e conferir. O mundo existia independentemente da minha percepção. E por isso nunca dei ouvidos a Philip K. Dick. 
 
Não preciso relatar aqui o número de vezes em que pensei naquela bolinha de papel durante a semana. A bolinha, que era um pedaço da minha vida, estava escondida naquele cobogó anônimo, mas nas semanas seguintes (claro que a pus de volta) virou um pedacinho meu existindo à distância de mim. 
 
Na minha memória afetiva, isto se conecta com um conto que eu li mais ou menos nessa época: “O abacaxi de ferro”, de Eden Phillpotts, em que um homem sente amor por um abacaxi de ferro, parte da decoração do portão de uma casa por onde ele passa de vez em quando. Ele inexplicavelmente se apaixona por esse abacaxi e de noite, quando chove, fica deitado em sua cama, no escuro, pensando se o abacaxi está com frio. 



 
Republiquei esse conto em minha antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges (Casa da Palavra, 2005, trad. Julio Silveira). 
 
O que era isso? Acho que remete de volta àquele papo anterior dos psicólogos sobre as mentiras da infância. Não é a mentira. É o segredo. É aquela coisa que faz parte de mim, e cuja existência (ou importância) somente eu percebo. É uma extensão de minha consciência afetiva. 


 

Por isto uma das melhores cenas de O Último Imperador (1987) de Bernardo Bertolucci é quando o ex-imperador Puyi, já adulto e destronado, tem acesso ao trono onde sentava quando era imperador, e cutuca lá dentro e tira de lá um inseto ou coisa parecida que ali colocou quando menino. 
 
Críticos de cinema, os famosos catadores-de-lêndeas, argumentaram que um bichinho como aquele não teria sobrevivido tantos anos. São os idiotas da objetividade, como dizia Nelson Rodrigues. 


 
Por isto uma das melhores cenas de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) de Jean-Pierre Jeunet é quando ela descobre no rodapé da casa em que mora uma cavidade em que algum garoto antigo guardou uns brinquedos e depois esqueceu; e na sequência ela pesquisa a família, descobre o garoto (agora adulto) e faz chegar às suas mãos (anonimamente) os brinquedos. 
 
São segredos, mas não são segredos criminosos ou vergonhosos ou inconfessáveis. São segredos apenas porque são algo que só uma pessoa sabe, e ela se deslumbra quando confere que aquilo ainda existe, e ela pira quando Alguém demonstra (e de uma maneira discretamente carinhosa) revela que descobriu tudo. 
 
E o segredo permite controlar um pedacinho do mundo, porque sabemos algo que outras pessoas ignoram. Li nas redes sociais um episódio divertido, aparentemente algo que ocorreu na Inglaterra. Lá existe a tradição/superstição da “Fada do Dente” (“the Tooth Fairy”), que costuma “comprar” os dentes de leite das crianças. Quando o dentinho cai, é só colocar embaixo do travesseiro, e na manhã seguinte a Fada deixou ali uma moeda! 
 
Pois teve um garoto que resolveu fazer um experimento. Depois de “vender” alguns dentes para a Fada, ele resolveu esconder de todo mundo que outro dentinho tinha caído. Ficou na moita, pôs o dente embaixo do travesseiro por três noites... e nada. Então ele comunicou aos pais que o dente caíra, e repetiu o ritual. Na manhã seguinte, a moeda estava lá. E o garoto rasgou: “A Fada são vocês!...”. 
 
O seu segredo é uma parte essencial da sua realidade, porque é uma coisa que só você sabe, e esse saber é muitas vezes uma vantagem. Dá para pensar que esse garoto vai se dar bem no mundo empresarial ou político. 
 
Mas mesmo um segredo pequeno, inofensivo, é uma coisa que talvez morra com você caso você não a compartilhe com alguém. Por isso as novelas e os romances usam tanto esta expressão, de que “Fulano de Tal levou o seu segredo para o túmulo”. Tecnicamente, claro, não levou nada. O segredo deixou de existir simultaneamente com a sua atividade cerebral, mas aí quem está sendo catador-de-lêndeas sou eu. 
 
 






domingo, 3 de março de 2013

3124) A pedra e o mandarim (3.3.2013)





Algumas correntes da psicologia dizem que um dos traços distintivos do ser humano é o que se chama de “compaixão” ou “empatia” (que filologicamente são quase a mesma coisa): a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir (ou de imaginar que está sentindo) o que o outro sente.

Mario Quintana tem um pequeno poema que é a concentração da empatia numa pílula irretocável. Eis o poema (que, aliás, deu título a um livro de Caio Fernando Abreu), intitulado “Trecho de Diário”: 

Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. 
Numa determinada pedra em certa rua de Calcutá. 
Solta. Sozinha. Quem repara nela? 
Só eu, que nunca fui lá. 
Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento... 
Minha pedra de Calcutá!. 

Essa capacidade de se comover com o minúsculo, o insignificante (e, no caso, um minúsculo e insignificante admitidamente fantasioso) exprime a empatia instintiva de certas pessoas. 

Me lembra o conto “O abacaxi de ferro” de Eden Philpotts (que incluí na antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges), em que um cara se apaixona (sim, a palavra é esta) por um dos abacaxis de ferro que ele avista no gradil decorativo de uma casa, na cidade em que mora.

O contrário desse amor capaz de “amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro” (Drummond) é a indiferença pela sorte alheia, a frieza diante do semelhante. 

É o que caracteriza os sociopatas, que pensam somente em si mesmos e para quem os demais não passam de figuras ornamentais, sem vida. 

Quem explorou literariamente esse dilema foi Eça de Queiroz em O Mandarim (1880). O Diabo faz ao protagonista, Teodoro, essa proposta: 

“No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fábula ou a História contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição dum avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?”.

Dois indivíduos pensando em algo ou alguém no outro lado do mundo (Calcutá, Mongólia). 

Quintana imagina, sem que ninguém lhe peça, uma pedrinha numa rua do Oriente, comove-se com ela, chama-a “sua”. 

Teodoro toca a campainha, fulmina o mandarim e herda-lhe as riquezas. 

São exemplos da empatia e da indiferença para com os outros. As duas atitudes que Philip K. Dick descrevia como a afetividade da “moça de cabelos negros” e a frieza assassina de um inseto.









quinta-feira, 27 de março de 2008

0305) O ananás de ferro (12.3.2004)




Quando eu era pequeno passava as férias em Recife, na casa de minha avó paterna, Vó Clotilde, uma velhinha muito esperta, parecida com Agatha Christie. Tão parecida que foi ela mesma quem me aplicou a obra da Dama do Crime. Aos 10 anos li O caso dos 10 negrinhos, para descontentamento de minha mãe quando descobriu que Vó tinha me dado um livro tão maquiavélico. Bobagem: pouco depois ela própria estava com a cara enfiada no livro, e achando o máximo. Todas as minhas leituras dessa época foram edificantes, mas poucas o terão sido tanto quanto um conto desconhecido de um autor obscuro, numa antologia chamada “Os Mais Belos Contos Alucinantes” (que garoto resiste a um título assim?)

O conto era “O ananás de ferro” de Eden Philpotts, e tenho uma teoria pessoal de que foi ele quem inspirou a Jorge Luís Borges a obra-prima “O Zahir”, a história do objeto inesquecível, o objeto que ocupa a mente de alguém e não pode mais ser desalojado dali. Borges certamente leu este conto, pois em seus ensaios elogia o romance mais famoso de Philpotts (The Red Redmaynes, de 1922), e publicou conto seu na antologia Los Mejores Cuentos Policiales (2a. série, 1951). Naquele conto, o protagonista é um sujeito meio obsessivo, que se deixa facilmente dominar por idéias fixas. Um dia ele avista, na cerca de ferro de uma propriedade próxima, uma fileira de ananases de ferro que servem de adorno. E ele fica obcecado por um deles. São vários, e todos iguais; mas o que o fascina é o terceiro do lado norte do gradil. Por que? Ele não sabe. Só sabe que aquele objeto insignificante tornou-se a coisa mais importante de sua vida.

Diz ele: “Pensava nele como um ser sensível; considerava-o uma criatura que podia sentir, sofrer e compreender. Nas noites úmidas imaginava que o ananás de ferro devia sentir frio; nos dias de calor receava que ele estivesse sofrendo com o sol de verão! Da comodidade e conforto de minha cama, imaginava-o acorrentado ao seu pedestal solitário no meio da escuridão. Quando caía uma trovoada, tinha medo que um raio atingisse o ananás de ferro e o destruísse para sempre.”

O conto tem um desfecho banal (um crime é cometido), mas o seu valor está em registrar esta curiosa emoção humana chamada paixão. Quando nos apaixonamos por outra pessoa, justificamos esta paixão com uma porção de explicações lógicas (identificação de espíritos, atração sexual, admiração recíproca, auto-estima social, etc.), como se tudo isto fosse a “causa” da paixão. Quando nos apaixonamos por um ananás de ferro é que percebemos, sem o adorno dessas racionalizações “a posteriori”, o quanto a paixão não tem causas racionais. É absurda e ao mesmo tempo revestida de uma lógica inflexível; gratuita, e ao mesmo tempo auto-justificada. Nossa alma está inexplicavelmente acorrentada àquele ser onipresente. Não o entendemos e não o esperávamos, mas esse obscuro objeto de desejo transformou-se na coisa mais importante de nossa vida.