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sábado, 19 de julho de 2025

5190) Nove fatos acontecidos (19.7.2025)




1
Quando jovem, a escritora Ruth Rendell (criadora dos romances policiais com o Inspetor Wexford) arranjou emprego de repórter num jornal. Caiu-lhe nas mãos a tarefa de cobrir o jantar anual de um Clube de Tênis. Para não perder a noite com uma tarefa tão sem graça, ela não foi ao jantar: redigiu a matéria dando informações banais sobre o evento e comentando trechos do discurso do convidado de honra. Somente no dia seguinte, ao ser demitida, ficou sabendo que o orador morrera de enfarte durante o discurso.  
 
2
A escritora francesa Colette estava passeando num jardim com a condessa de Noailles, uma célebre aristocrata parisiense, muito rica, patrocinadora das artes e das letras, que gostava de se cercar de artistas. Pararam diante de um arbusto florido e a condessa exclamou: “Que flor mais linda! Como será que se chama?...”  Colette respondeu: “É um amaranto, condessa.” E a outra: “Amaranto?!  Mas é a flor de quem falo tanto nos meus poemas!...” 
 
3
Quando Erico Verissimo “estourou” para o sucesso com o romance Olhai os Lírios do Campo (1938) viajou a São Paulo para fazer palestras e noites de autógrafos. Um amigo, médico, lhe fez um pedido: que fosse a um hospital visitar uma senhorita, grande admiradora sua, que estava internada com grave tuberculose. Verissimo remanejou a agenda, cancelou compromissos, e foi com ele ao hospital. Chegando no quarto da moça, o médico disse: “Fulana, olhe quem está aqui: Erico Verissimo!”  A moça olhou os dois com estranheza e disse não saber quem era. O médico lembrou: “É o escritor que você admira... o que escreveu Olhai os Lírios do Campo”.  E a moça: “Mas, doutor, o senhor está enganado. O escritor que eu disse que gosto é Humberto de Campos!”. 
 
4
Aos 46 anos de idade, o compositor Cole Porter estava cavalgando num clube, quando o cavalo tropeçou e caiu por cima dele, quebrando-lhe as pernas. Ninguém presenciou o acidente (era num local afastado) e Porter ficou sob o corpo do cavalo durante cerca de seis horas. Sofreu fraturas graves que o obrigaram a fazer várias cirurgias e a usar muletas dali em diante. Cole Porter afirma que durante essas longas horas entreteve-se compondo um trecho da canção “At Long Last Love”, em que diz: “Será um terremoto, ou apenas um choque? É uma sopa-de-tartaruga legítima, ou uma falsa? Será que é só um coquetel, esta sensação de felicidade? Ou isto que eu estou sentindo é a-coisa-pra-valer?”. 
 
5
Ibn-Battuta, o grande viajante árabe do século 14 (descrito como “o homem que conheceu o mundo mais do que qualquer outro antes dele”), estava de visita à corte do sultão de Mul-Jawa quando presenciou uma audiência em que um homem postou-se diante do trono e fez para o sultão uma longa declaração emotiva, numa língua desconhecida para o viajante, e em seguida ergueu um facão afiado e cortou o próprio pescoço, com tal violência que sua cabeça rolou pelo chão. Depois disso, alguém explicou ao viajante que o suicida era um escravo, e seu discurso tinha sido de devoção e amor pelo sultão, afirmando que iria se matar diante dele assim como seu pai se matara diante do pai do sultão, e seu avô diante do avô do sultão; e que dali em diante sua família seria coberta de ouro e honrarias. 
 
  
6
Conta-se que em 1817 o escritor Stendhal, autor de O Vermelho e o Negro, viajava pela Itália e estava num hotel de luxo em Terracina, quando foi convidado a juntar-se a uma mesa onde estavam outros viajantes, recém-chegados de Nápoles. A conversa derivou na direção da música e Stendhal viu-se fazendo perguntas a um rapaz de vinte e poucos anos, que lhe dava respostas interessantes e bem fundamentadas. Vendo seu interesse pelo assunto, Stendhal perguntou-lhe se quando chegasse a Nápoles teria chance de ver a ópera Otelo, de Rossini, que estreara recentemente; e falou de sua ansiedade, pois na sua opinião Rossini, que não conhecia, era o único compositor vivo dotado de verdadeiro gênio musical. O rapaz ficou constrangido e o resto da mesa caiu na gargalhada, porque o rapaz era o próprio Rossini. 
 
7
Numa noite quente de verão em 1939, o compositor Ary Barroso vestiu seu terno elegante, penteou o cabelo e preparou-se para sair e curtir a noite com seus amigos de boemia. Nesse momento desabou uma daquelas furiosas tempestades de verão, bem conhecidas por quem mora no Rio de Janeiro. Inconformado com a chuva desmancha-prazeres, Ary resignou-se a ficar em casa e perder aquela noitada. Sentou-se ao piano, passou os dedos pelas teclas. Teve a idéia (é ele quem relata) “de libertar o samba das tragédias da vida”, e começou a compor uma sequência de acordes em que o ruído da chuva sugeria as “batidas sincopadas de tamborins fantásticos”. E graças a esse toró inesperado nasceu “Aquarela do Brasil”. 
 
8
Francis Fletcher (1555-1819) era capelão na frota do explorador e aventureiro Sir Francis Drake, que deu a volta ao mundo entre 1577 e 1580, repetindo a façanha de Fernão de Magalhães. Conta ele que, quando estavam atracados na costa do Peru, internaram-se na mata à procura de água potável, e em certo ponto se depararam com um espanhol exausto, profundamente adormecido, tendo ao lado treze barras de prata cujo valor aproximado seria de 4 mil ducados. E narra: “Vendo como ele corria dessa forma um grande perigo, nós o aliviamos dessa carga, e deixamos que aproveitasse o resto do seu sono em completa segurança”. 
 
9
Numa conversa com o artista gráfico Ziraldo, o poeta Carlos Drummond de Andrade confidenciava algumas das paixões que manteve na vida adulta – à distância ou, às vezes, chegando às vias de fato. Relata ele que certa vez manteve um caso com uma senhora que acabou por traí-lo e abandoná-lo. O poeta não contou conversa: pegou um trem, foi para Belo Horizonte, de lá pegou um ônibus para Itabira, arranjou um cavalo e partiu na direção de uma fazenda conhecida sua, que tinha um pomar enorme. E todos os dias ia para o pomar, subia numa árvore, e lá de cima, sozinho, começava a berrar os maiores palavrões: “filha da puta, traidora, safada, cretina!”. E remata: “Sabe que eu voltei bem melhor?...” 
 






quinta-feira, 26 de junho de 2008

0426) A epifania da criação (31.7.2004)

(Cole Porter)


Sempre acreditei que o momento da criação artística (tanto quanto o momento da criação científica, visto que os dois são essencialmente a mesma coisa) é um estado alterado de consciência, um momento de epifania em que todos os interesses de ordem prática recuam para segundo plano, e a mente focaliza-se com toda sua energia naquela idéia que está brotando e desenvolvendo-se. São momentos raros, decerto. A maior parte da criação artística é pedestre, sofrida, e não se compara ao vôo de uma águia, e sim a um hipopótamo escalando uma montanha. Mas sempre me impressionou o fato de Augusto dos Anjos ter composto em seus últimos dias, febril, delirante, invadido pela pneumonia, um dos seus sonetos mais belos, “O último número”: “Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado, a idéia estertorava-se...” Sim, mas mesmo estertorando-se compunha um poema de inquietante simbolismo filosófico – o conceito de Último Número é notável, ainda mais numa época em que poesia e matemática eram consideradas coisas incompatíveis.

Um artigo recente de John Lahr na revista The New Yorker comenta um episódio curioso na vida do compositor Cole Porter. Aos 46 anos Porter estava andando a cavalo num clube quando o cavalo tropeçou e caiu sobre ele, quebrando-lhe as pernas. Este acidente mudou a vida do compositor, que passou por numerosas cirurgias e nunca se recuperou totalmente, sendo forçado a usar muletas até sua morte, muitos anos depois. Sobre este episódio, Porter afirmava (e o seu biógrafo William McBrien achava difícil acreditar) que durante as seis horas em que ficou caído, esperando socorro, ficou trabalhando mentalmente numa das estrofes de uma canção que compunha na época, “At Long Last Love” (“O amor, até que enfim”). Os versos dizem: “Is it an earthquake or simply a shock? / Is it the good turtle soup or merely the mock? / Is it a cocktail, this feeling of joy? / Or is what I feel the real McCoy?” (“Será um terremoto, ou apenas um choque? É uma sopa-de-tartaruga legítima, ou uma falsa? Será que é só um coquetel, esta sensação de felicidade? Ou isto que eu estou sentindo é a-coisa-pra-valer?”).

Talvez num estado de tensão extrema a mente busque energias onde parecia não as ter; talvez o desespero, a dor física, desencadeiem no cérebro alguma compensação química que uma mente criativa seja capaz de utilizar como combustível para a criação. Em todo caso, o que é admirável é a decisão de criar, a decisão de, mesmo diante da morte certa (caso de Augusto) ou possível (caso de Cole Porter), concentrar o que resta de energia na composição de versos que, sem dúvida, já vinham sendo ruminados e planejados pelo poeta há algum tempo, como é habitual na criação literária. O momento de criar é uma epifania, um momento de iluminação íntima, um momento revelatório. O fato de versos serem produzidos em circunstâncias tão adversas não são um contra-senso: ele demonstra por A + B a excepcionalidade do momento da criação.