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quarta-feira, 20 de maio de 2026

5235) A faca e Salman Rushdie (20.5.2026)




Para muita gente, Salman Rushdie é apenas o autor do livro blasfemo Os Versos Satânicos (1989), que desencadeou contra ele o ódio de muçulmanos fanáticos. O romance tratava de maneira desabusada e irreverente algumas figuras sagradas do Islã, e fez com que o aiatolá Khomeini decretasse a famosa Fatwa, a sentença de morte contra o autor. 
 
A oferta de Khomeini pela vida de Rushdie, segundo se diz, chegou a 3 milhões de dólares.
 
Dinheiro que, pelo que entendo, jamais chegou a ir para a conta de ninguém. Os radicais não mataram Rushdie. Mataram seu tradutor japonês – o que mais uma vez demonstra que, na cadeia alimentar da literatura, o tradutor é o primeiro a ser devorado.
 
Conheci o nome do indiano Rushdie (educado em Londres) muito antes disso e, curiosamente, ouvi falar nele pela primeira vez em 1981, num verbete da minha querida The Encyclopedia of Science Fiction (1978; ed. Peter Nicholls e John Clute). Ele era mencionado ali por obra e graça de seu romance de estréia Grimus (1975), uma fábula meio surreal sobre universos paralelos e transcendência mística. 


 
Um livro (fiquei sabendo depois) de que ninguém gosta, exceto eu e Rushdie, talvez. Minto: tenho dois ou três amigos que apreciam o livro. A questão é que como ficção científica ele não se sustenta (nem precisa), porque está mais próximo dos delírios alegóricos de Jodorowsky (tipo A Montanha Sagrada) do que de Blade Runner ou Star Wars.
 
O livro de estréia, contudo, acabou produzindo um episódio que mostra o quanto o Deus da Literatura tem caninos brancos e garras de veludo. Como registra Bryan Appleyard, do The Sunday Times
 
https://web.archive.org/web/20080516000740/http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/books/article2961480.ece
 
Na década de 1970, os escritores Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss eram jurados num concurso para escolher o melhor romance de ficção científica do ano. Decidiram dar esse prêmio a Grimus, o livro de estréia de Salman Rushdie, No último minuto, porém, os organizadores decidiram desclassificar o livro. Não queriam Grimus na prateleira de ficção científica. “Se esse livro tivesse ganho”, disse Aldiss, o sarcástico romancista de 82 anos, o padrinho da FC britânica, “Rushdie teria que ser promovido como autor de FC, e nunca mais ninguém ouviria falar do seu nome.” 
 
Exilado do planeta FC, Rushdie acabou se consagrando em 1981 com Midnight Children, romance fantástico sobre a geração nascida na noite da independência da Índia. Ganhou o Booker Prize, e o resto é história. 



Li agora um dos seus livros mais recentes, Faca: Reflexões Sobre um Atentado (Companhia das Letras, 2024, trad. Cássio Arantes Leite e José Rubens Siqueira). É o relato da tentativa mais recente de cumprir a fatwa. Em agosto de 2022, numa palestra pública nos EUA, Rushdie foi atacado por um fanático que subiu ao palco e, antes de ser contido, desferiu 15 facadas no escritor, atingindo o seu rosto, o peito, o pescoço, uma mão. 
 
Rushdie correu sério perigo de perder a vida, mas recuperou-se parcialmente. Perdeu a visão do olho direito, e parte do uso da mão esquerda, mas voltou a trabalhar, viajar, escrever, dar palestras. E neste livro ele reconstitui e comenta a experiência do atentado. 
 
O escritor indiano lembra em seu livro um outro atentado famoso – a primeira coisa que me veio à cabeça quando eu soube do que tinha ocorrido. Em 1938, o dramaturgo Samuel Beckett foi esfaqueado numa rua de Paris e correu risco de vida. Depois, conseguiu um encontro pessoal com o seu atacante (que estava preso) e perguntou-lhe por que fizera aquilo. O homem respondeu: “Não sei, senhor, me desculpe”. 
 
Salman Rushdie não quis ter nenhum encontro face a face com o homem que tentou tirar sua vida. Mas romancista é romancista, e a parte II de seu livro Faca é a ficcionalização de um diálogo entre os dois. Não me pareceu a melhor parte do livro – o autor, claramente revoltado com o que passou, transforma essa entrevista imaginária numa espécie de desabafo em que ele meio que ridiculariza o criminoso por ser fanático, por não ter cultura literária, e assim por diante. 
 
Depois de meses de internação hospitalar, Rushdie foi se recuperando aos poucos, recebeu alta para voltar ao seu apartamento em New York. Algum tempo depois, pediu para revisitar o lugar onde sofreu o ataque, no Instituto Chautauqua, na cidade de Pittsburgh. Acompanhado de sua mulher, Eliza (que não estava presente no dia do atentado) ele reviu o auditório onde mal tinha começado a falar para a platéia quando aquele homem mascarado (que no livro ele chama de “o A.”, o Agressor) correu para o palco, subiu e o atacou. 
 
O palco também estava vazio, um amplo espaço de tábuas polidas. Tentei recriar o momento para Eliza. Havia duas cadeiras, para Henry e para mim, contei, aproximadamente aqui e aqui, e o microfone que Sony Ton-Aime usou para nos apresentar estava ali. E o A. — quando o vi pela primeira vez — deve ter se levantado de um lugar um pouco mais à direita. Ali. E veio correndo e subiu esses degraus. Aqui. E então me atacou. E quando eu caí foi mais ou menos aqui. Bem aqui. 
 
Diz um ditado popular que “o criminoso sempre volta ao local do crime”. Como toda frase desse tipo, ela tem um tom demasiado taxativo (“sempre”). Seria mais científico dizer: "os criminosos geralmente têm um forte impulso de voltar ao local do crime." 
 
E as vítimas (as quase vítimas-fatais) também. Acho que qualquer psicólogo consegue explicar os mecanismos mentais que levam alguém a esse tipo de acerto de contas com a própria memória. 
 
Varia muito, é claro. Algumas pessoas, passando por um acidente grave, por exemplo, passam a evitar aquela rua, ou aquele transporte que estavam usando, ou qualquer outra coisa que lembre o momento traumático. 
 
Outras, no entanto, sentem a necessidade de fazer uma espécie de “reconstituição ritual do trauma”. Como se fosse uma visita a um local onde lhes aconteceu uma coisa maravilhosa, não uma coisa terrível. E que coisa maravilhosa foi essa? “Eu escapei”, ela dirá. Não é o lugar onde quase morreu, é o lugar onde nasceu de novo. 
 
Pontos dolorosos do nosso passado imploram por uma visita, exigem que voltemos lá. Para quê? Não sabemos, mas essa tentativa de revisitar o trauma fornece um excelente material para romancistas, cineastas, dramaturgos em geral. A obra de Luís Buñuel está cheia de histórias sobre pessoas que sentem a compulsão de recriar uma cena precisa do passado, retornar a um momento do passado, para apagar uma dor que continua acesa. 
 
Rushdie é um prosador brilhante, inventivo, com uma imaginação portentosa. Seus escritos têm um lado londrino, cosmopolita, e têm outro lado que facilmente chuta para o alto o pau-da-barraca do Realismo e mergulha numa aventura surreal sem pedir licença antes nem desculpas depois. É um dos melhores estilistas daquilo que o respeitável James Wood chamou de “realismo histérico”, um tipo de literatura fabulatória onde não se recua diante do grotesco, do improvável, do rebuscado, do incompreensível. 
 
Ele escreveu um livro enorme, Joseph Anton (2012), sobre a fase em que, devido à sentença de morte dos aiatolás, passou alguns anos clandestino, protegido pelo Serviço Secreto da Inglaterra. Mas só o escreveu depois, quando a ameaça afrouxou e ele saiu de novo à luz, vindo inclusive à FLIP, em Paraty, onde tomou cerveja, deu autógrafos e conversou livremente com todo o mundo. 
 
Os romances que produziu com a Fatwa pendendo sobre a cabeça, contudo, conseguiram evitar dois perigos, segundo ele: o vitimismo e o revanchismo. Diz ele, em Faca
 
Imagine que você não saiba nada a meu respeito, que você veio de outro planeta, talvez, e alguém lhe deu meus livros para ler, e você nunca ouviu falar no meu nome nem tem nenhuma informação sobre minha vida ou sobre o ataque contra os Versos satânicos em 1989. Assim, se você lesse meus livros na ordem cronológica, não acredito que pudesse concluir que “alguma calamidade aconteceu na vida desse escritor em 1989”. Os livros têm sua própria jornada a percorrer. 
 
Eu me lembrava de pensar na época que havia duas maneiras de a fatwa me desencaminhar, me destruir enquanto artista: se eu começasse a escrever livros “temerosos” ou se passasse a escrever livros “vingativos”. Ambas as opções destruiriam minha individualidade e independência e fariam de mim nada mais que uma cria daquele ataque. Ele me dominaria e eu não seria mais eu mesmo. 
 
Realismo histérico ou não, a literatura de Rushdie mergulha em referências indianas milenares e ao mesmo tempo mostra ser escrita por um cara que escuta Bob Dylan e torce pelo Tottenham Hotspur. É uma imaginação literária sem barreiras, aceitando as imagens e os enredos do modo como lhe vêm. 
 
Em Faca, ele conta que já em Pittsburgh, na véspera da palestra, ficou algum tempo sozinho, à noite, diante do lago. A lua de agosto estava tão bonita que ele lembrou de trechos de seu romance mais recente, que aborda deuses pertencentes a uma “Linhagem Lunar”. Lembrou de uma piada relativa a Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua; lembrou de um conto de Ítalo Calvino em As Cosmicômicas, em que a Lua está tão próxima da Terra que é possível pular de uma para a outra. 

E nessa associação de idéias lembrou do filme de Georges Méliès, La Voyage dans la Lune, em que o foguete lançado da Terra – na verdade, uma bala de canhão – se crava no olho direito da Lua. E diz: “Eu não fazia idéia do que a manhã seguinte reservava para o meu olho direito.” 


(Méliès, "Viagem à Lua", 1902)
 
O atentado foi brutal, e ele escapou por pouco. Um homem de 75 anos foi esfaqueado por outro de 27, que lhe aplicou quinze facadas em menos de trinta segundos. Um médico disse ao escritor: “O senhor só escapou com vida porque seu assaltante não tinha a mínima idéia de como se mata alguém com uma faca”. 
 
E ele diz:
 
Se não fosse por Henry e a plateia, eu não estaria hoje aqui, escrevendo estas palavras. Não vi o rosto deles e não sei seus nomes, mas foram as primeiras pessoas a salvar minha vida. De forma que, naquela manhã em Chautauqua, vivenciei o pior e o melhor da natureza humana, quase ao mesmo tempo. É isso que somos como espécie: temos dentro de nós tanto a possibilidade de assassinar um velho estranho por quase nenhuma razão, o potencial do Iago de Shakespeare que Coleridge chamou de “malignidade sem causa”, e contemos também o antídoto para essa doença: coragem, desapego, disposição de arriscar a vida para ajudar aquele velho estrangeiro caído no chão. 
 
 




sábado, 10 de setembro de 2016

4157) O mistério do 11 de setembro (10.9.2016)




(foto: Richard Drew / Associated Press)

Quando aconteceu o atentado às Torres Gêmeas, eu fiquei pregado à TV durante um dia inteiro, porque justamente na véspera um pequeno problema de hardware me deixara sem acesso à Internet. (Fiquei irritado porque 11 de setembro era a data marcada para o lançamento do álbum Love and Theft de Bob Dylan, e eu queria ver os clips de lançamento.)

Na época eu fazia freelancer para a Editora Guanabara, que estava para lançar um Atlas Histórico ligado à Enciclopédia Delta; e minha editora Liana Pérola Schipper me encomendou uma matéria longa, especial, sobre o assunto. Nos dias seguintes, resolvido o problema de conexão, eu praticamente não fiz outra coisa senão ler e capturar textos e imagens a respeito da catástrofe do WTC.

(Digressão: acho que isto é uma resposta neurótica comum, em mim pelo menos, diante de um fato esmagador e terrível. O processo de juntar e organizar informações sobre o fato de certa forma nos protege do perigo de pensar sobre ele. É uma fase intensa mas passageira.)

Quando o indivíduo é leitor de romance policial e de ficção científica, não há como não ser um cultor, em certa medida, das Teorias da Conspiração.

A literatura policial nos ensina que não há um limite visível para a cobiça humana por dinheiro, nem para as maldades que seres humanos são capazes de fazer para ter mais Poder. A ficção científica expande esse conceito para o Universo como um todo.

Li na época uma entrevista com um dirigente da CIA em que, depois de explicar mais ou menos (ainda se estava em plena investigação) como os terroristas tinham sido treinados para usar os aviões e tudo o mais, ele disse:

“O que me deixa mais acabrunhado é pensar que nós (a CIA) não teríamos ousado pensar num plano como este, e, se pensássemos, não teríamos acreditado que era possível.”

Modéstia do rapaz. Eu atribuo à CIA (e se não foi a CIA foi alguma outra agência da “sopa de letrinhas” de que falava John Michael Hayes, o roteirista de Intriga Internacional) um plano ainda mais mirabolante do que o de meia dúzia de jihadistas sequestrando o cockpit de três ou quatro aviões.  (Digo 3 ou 4 porque até hoje não vi o famigerado “avião” que teria sido jogado no Pentágono.)

Este link (http://www.europhysicsnews.org/articles/epn/pdf/2016/04/epn2016474p21.pdf) conduz a uma matéria do saite Europhysics News sobre o atentado, intitulada: “15 Years Later: On The Physics Of High-Rise Buildings Collapses”, de Steven Jones, Robert Korol, Anthony Szamboti e Ted Walter.

O cerne da questão é: como se explica que as duas Torres, que tinham estrutura de metal, tenham desmoronado daquela forma, se todos os testes provam que a temperatura daquele fogo seria insuficiente para fazer ceder o metal? E mais ainda: como se explica que o WC7, o terceiro prédio a desmoronar naquele dia, tenha aluído praticamente todo ao mesmo tempo, horas depois do choque dos aviões?

Já escrevi a respeito, aqui:



Em matéria de história mal contada, o World Trade Center nunca vai deixar de assombrar nossas noites mal dormidas. Mal contada – não por escassez de explicações, mas pelo excesso. A melhor maneira de esconder uma informação não é proibindo que seja divulgada, é disfarçando-a no meio de uma selva de informações irrelevantes e parecidas. (Aprendi isto com Agatha Christie.)

Poucos acontecimentos do novo século podem se comparar ao impacto da queda das Torres. Mesmo a Guerra do Iraque e a do Afeganistão, que se seguiram, foram guerras convencionais, iguais a qualquer outra guerra.  O atentado do 11 de setembro teve acima de tudo o impacto do ineditismo, do nunca-acontecido, do fato que estourou-a-costura da nossa imaginação.

Talvez um dia seja confirmado que a queda das Torres não se deveu à ação de terroristas islâmicos, e foi na verdade uma gigantesca queima-de-arquivo de empresas privadas e do Governo que estavam metidas em enrascadas mil, além de uma excelente oportunidade de sofrer um ataque estrangeiro que obriga a um revide imediato, como em Pearl Harbor.

Há muitas teorias de que na II Guerra os EUA precisavam de um pretexto para entrar numa guerra que a população via com distanciamento, e adotaram uma atitude passiva-agressiva, pedindo ao Japão: “Me dê motivo”.  Os japoneses, em sua euforia expansionista, caíram na armadilha e bombardearam o porto.

Se confirmarem um dia que os próprios EUA derrubaram as Torres, este fato será tão relevante e tão impactante quanto a queda das Torres, quinze anos atrás.

E será uma revelação crucial sobre a natureza de nossa civilização: uma civilização em que qualquer história gigantescamente absurda pode ser impingida como verdade à população, durante uma quantidade de tempo finita (mas suficiente para os objetivos estratégicos imediatos).






domingo, 11 de janeiro de 2015

3708) A Gréia e a Zuêra (11.1.2015)



(foto: Christopher McKenney)

Todo humorista que trabalha e publica num país sob ditadura sabe que se falar mal do Grande Irmão pode ir para a cadeia, o hospital ou o cemitério.  Mesmo assim, humoristas do mundo inteiro topam correr esses riscos, e muitos se dão mal.  Tiro o chapéu para esses caras, porque se eu vivesse (como já vivi) num país sob ditadura eu provavelmente iria sair pela tangente e satirizar Nabucodonosor ou Calígula. 

E não me refiro apenas às ditaduras convencionais. O massacre do Charlie Hebdo em Paris, onde morreram vários desenhistas e funcionários do jornal, foi realizado por um tipo especial de ditadura que está crescendo no mundo.  Não é mais o ditador cuja estátua e efigie estão por toda parte, é o ditador oculto e às vezes anônimo, que quase ninguém ouviu falar. Não é a ditadura dos tanques de guerra na rua, é a ditadura de bomba na mochila.  Uma não é menos ditadura do que a outra.

Que o diga Salman Rushdie, perseguido durante anos por ordem de um aiatolá. O simples fato dele ainda estar vivo mereceria ser comemorado diariamente (inclusive porque é um ótimo escritor). A ditadura terrorista não é menos cruel nem menos absurda do que a Ditadura de Estado.  Não é onipresente como ela, mas por ser invisível parece estar a ponto de brotar em qualquer canto.

Todos devemos ter direito à Gréia (a deusa grega da Galhofa e da Esculhambação) e à Zuêra (a deusa africana da Gozação e do Escárnio). Sem elas, não poderíamos viver. Saber aguentar uma piada sem perder o sorriso e a pose é uma prova de traquejo social e de segurança íntima.  Quando o camarada reage com violência a uma piada, revela de pronto seu calcanhar de Aquiles.

Sendo o mundo o que é, porém, a piada é vista (e às vezes é feita) como mera ofensa sem humor, desaforo gratuito.  Humoristas vêm catucando onças com varas curtas desde que o mundo é mundo. Os humoristas deviam ser mortos, pelo que diziam?  Não. Deveriam ser proibidos de dizê-lo?  Não.  Mas todo humorista sabe que caminha em terreno minado; aceita o risco como o soldado que vai pra guerra está aceitando o seu. Que um cara tenha a coragem suicida de fazer isso é uma coisa admirável. Extremismos e fanatismos estão recrudescendo por toda parte. Esse humor demolidor e de escracho com símbolos alheios está sendo feito num contexto de guerra, mesmo uma guerra declarada unilateralmente, como a dos terroristas. Nosso verniz de democracia é tênue; às vezes basta o peso de um cartum para rachá-lo, e aí a verdadeira natureza do Poder se revela. Porque o país pode até ser uma democracia formal, mas o mundo, como um todo, continua sujeito à Ditadura do Terror.





sábado, 10 de janeiro de 2015

3707) Wolinski (10.1.2015)



E os extremistas mataram Wolinski, o único cartunista francês cujo nome e cujo traço eu sabia de cor.  Conheci a obra dele lá por 1980, em Olinda, quando eu me asilava na casa de Paulo Santos de Oliveira, perto do Alto da Sé.  Paulo era cartunista (hoje é romancista: A Noiva da Revolução) e junto à sua prancheta havia uma estante cheia de álbuns trazidos das andanças européias. Wolinski tinha aquele traço minimalista e acelerado que Henfil, entre nós, levou aos píncaros mais delirantes. Seu personagem típico era um cara careca de nariz batatudo, queixo noel-rosa, sempre cercado por sereias vulcânicas que ou se recusavam ao sexo com ele ou se ofereciam sem que ele percebesse. A sacanagem de Wolinski nada tinha da nossa sacanagem moreno-tropical, era o mundo daqueles magrelos e branquelos franceses, discutindo Godard ou Sartre mas pensando o tempo todo naquilo.  Me identifiquei no ato.

Depois saíram álbuns dele aqui, pela Editora Três, se não me engano. Foi um alívio, porque o francês daqueles baluns era um dialeto críptico muito diferente do francês do “Cahiers do Cinéma”, que eu conseguia decifrar às apalpadelas. O humor era escrachado, e, pro meu temperamento cauteloso, ousado demais.  Nem a turma do Pasquim pegava tão pesado quanto o daquelas publicações, o Charlie Hebdo, o Canard Enchainé, o Echo des Savanes, outros nomes que agora me vêm brotando na memória, por entre a fuzilaria.

Quando o sujeito passa 50 anos satirizando Deus e o Mundo, um destes dois acaba reagindo. Em geral não é Deus.  Vi uma piada ótima na esteira do massacre, um twitter em inglês dizendo: “Eu sou Deus Todo Poderoso, sou Onisciente e Onipresente, o criador dos Tempos e dos Espaços, e posso muito bem aguentar uma porra duma piada”. Já o Mundo, infelizmente, não tem o mesmo senso de humor do Pai Eterno. Não sei ainda (alguém chegará um dia a saber?) se os assassinos são fanáticos ressentidos ou se são paus-mandados para apimentar uma crise geopolítica. Ou uma terceira coisa, ainda pior que estas duas. Mas é no meu artista que penso, o artista cujo rosto só vi, pela primeira vez, nos necrológios.

Disseram os sobreviventes que os Ninja-do-Mal entraram de rifles em punho na redação e “fizeram a chamada”, mandando que todos se identificassem para serem abatidos. Nas linhas que a tinta da História deixa em branco, todo mundo é capaz de rabiscar a lápis a lenda que mais lhe agrada. Criei para mim a fantasia consolatória de que ao ouvir seu nome, pronunciado com ódio pelos enviados do ódio, Wolinski, 80 anos, uma vida plena, uma vida ganha, ligou o “foda-se”, ficou de pé e disse: “Wolinski sou eu.  Algum problema?”




terça-feira, 12 de agosto de 2014

3575) "Bar Don Juan" (12.8.2014)





A história da guerrilha comunista no Brasil já foi contada em livros, filmes, reportagens. Os romances, que eu me lembre, são poucos, mas o primeiro que li, e que mais me marcou, foi Bar Don Juan (1971) de Antonio Callado. É o livro do meio de uma espécie de trilogia que ele iniciou com o imenso e épico Quarup (1967) e concluiu com o multilingue e compacto Reflexos do Baile (1976). 

Callado tinha talvez o equilíbrio necessário para escrever sobre a guerrilha. Um equilíbrio que não vinha da neutralidade, mas do seu envolvimento ideológico e pessoal, que lhe permitia ser simpático a algumas intenções do movimento, e crítico quanto ao seu modo de atuação.


Por volta de 1968, na Zona Sul do Rio, um grupo de jornalistas, cineastas, escritores, junto com alguns de origem militar ou religiosa, se reúne para criar um foco de guerrilha na região de Corumbá. Seria uma ponte para a guerrilha que Che Guevara estava implantando (aos trancos e barrancos, na verdade) na Bolívia. 

Uns já tem experiência de combate, outros são “verdes”, alguns são claramente porraloucas, mas estão decididos ao sacrifício: “Em épocas como a nossa a vida particular é um vício. Um maconheiro que procura mudar o mundo é mais virtuoso do que um atleta ou um santo.”

Callado bebia uísque com aqueles jovens, presenciava suas discussões, entendia seu entusiasmo, e a crônica daquela derrota sangrenta é narrada com um distanciamento melancólico. 

Ele cobriu a Guerra do Vietnam e provavelmente entendia mais de vivência de guerra do que aquele grupo de jovens “que olhava o Banco como um terrorista árabe olhando uma sinagoga.” 

O bar e o livro podiam se chamar Bar Dom Quixote, porque a guerrilha rural planejada e arregimentada entre uísques nas noitadas do Leblon é também o resultado de leituras desordenadas, sentimentos nobres, ambições heróicas e leitura paranóica do Real. 

A arrogância ingênua da guerrilha se reflete no bordão com que os pretendentes a guerrilheiros se referem à conexão com a guerrilha boliviana do Che: “Com o Comandante a gente vence. É matemático.” 

É típico do desejo se fantasiar de necessidade. Quando queremos muito alguma coisa é forte a tentação de imaginar que o Universo inteiro conspira a favor daquilo.  Ou, para usar o jargão da época, dizemos que aquele evento será a consequência necessária da marcha inelutável da História, o resultado concreto de forças históricas objetivas.

Um personagem diz a certa altura que “no Brasil a pressão da vida particular das pessoas sobre a vida ideológica era provavelmente a mais alta do mundo”.  Que o resultado disto seja a opção pela luta armada só confirma a magnitude do choque entre essas duas realidades.






sexta-feira, 26 de abril de 2013

3170) Teorias da Conspiração (26.4.2013)






O atentado a bomba na Maratona de Boston e o subsequente cerco policial aos irmãos chechenos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev estão sendo tomografados e dissecados na Internet. Muita gente questiona as explicações oficiais . Os mais veementes bradam que foi tudo mentira, tudo encenação, tudo é uma conspiração entre o Governo e algumas agências secretas, obscuras, cujos propósitos não podem ser coisa muito boa para qualquer país.

Acham que os irmãos entraram como bodes expiatórios. Que parte dos feridos eram atores, manchados de sangue artificial, que as verdadeiras bombas foram colocadas por outras pessoas, que Tamerlane foi preso vivo e chegou morto ao hospital, etc.  Há um vídeo absurdo, não explicado, em que ele (supõe-se que seja ele) aparece nu, algemado, entrando na viatura. E dizem que morreu no tiroteio, inclusive atropelado pelo irmão na fuga? Assim como o que ocorreu no 11 de setembro, há um matagal de coisas mal explicadas.

Já notei que os mais entusiastas defensores das Teorias da Conspiração são os jovens. Sua virtude é duvidar de tudo, seu defeito é crer de tudo, e passam de um para o outro com uma facilidade assombrosa. Sei disso porque fui e creio até que ainda sou um deles, dos que se apaixonam por uma teoria não pelo seu teor profético ou antecipatório, mas pela beleza da cambalhota mental de quem a fez. Uma teoria tem que ser como uma paranóia; um arranjo de idéias tão de-ferro que ninguém consiga produzir-lhe um “dente”; e tão flexível que assimile tudo, justifique tudo.

Os jovens acabaram de fazer a transição traumática entre certas crenças de criança e certas verdades de adolescente. Descobrem que foram frequente e variadamente enganados por pais, professores, presidentes. Desse dia em diante sua vida é regida por Kafka e George Orwell.  Eles não acreditam e não confiam mais em ninguém.

Sou assim. Dois dos meus livros fundadores são (ferozmente questionados, como também cultuados por toda parte): O Despertar dos Mágicos de Pauwels e Bergier, e As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano. Um é meio contracultura, o outro é meio de esquerda, mas mesmo quem ironiza essas épocas precisa recorrer a sua imaginação. Estes livros são dois exemplos cabais de teorias conspiratórias encharcadas de verdades, fervilhantes de fatos. Seja o delírio alquímico-surreal e FC-ocultista dos franceses, seja o jornalismo investigativo e imaginativo, a colagem de lendas e notícias do uruguaio. Mesmo que todos os nomes próprios ali fossem trocados, aquelas histórias continuariam substancialmente verdadeiras, como o são todas as fábulas, todas as grandes obras de ficção.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

2660) Onze de setembro (13.9.2011)



(manuscrito do séc. XIII)
 

Naquele dia, meu filho Gabriel, que na época tinha nove anos, mudou de canal, do Cartoon Network para a Globo, para assistir Dragonball Z no programa da Xuxa. Acordei não tanto com o volume da TV, mas como o tom angustiado e nervoso na voz do locutor; e já estava diante da tela quando o segundo avião explodiu de encontro à segunda torre. 

Fiquei colado ali, e perplexo como todo mundo. Antes do meio-dia, atendi telefonemas (sabe Deus como conseguiram meu número) da Rádio Jovem Pan e da Folha de São Paulo, ambas com a mesma pergunta: A ficção científica previra algo assim? 

Falei que a FC propriamente dita não, mas escritores de techno-thrillers como Tom Clancy tinham chegado perto. E comentei, com certa imodéstia, que meu conto “Jogo Rápido” (em A Espinha Dorsal da Memória, 1989) também postulava um ataque a um “cartão postal” – neste caso, um grupo terrorista que arrancava e roubava a cabeça do Cristo Redentor. (Não eram terroristas políticos, eram terroristas estéticos, um grupo de milionários que colecionava cabeças de estátuas famosas do mundo inteiro). 

Fantasioso, eu? De jeito nenhum, pensei, diante da TV onde as torres desmoronavam coreografadamente. Nos dias seguintes, li o depoimento do compositor Stockhausen, dizendo (e causando um tremendo escândalo junto à imprensa): “Aquilo foi a maior obra de arte que já existiu. Pessoas passam dez anos se preparando para um ‘concerto’, e no momento da execução morrem”. 

Eu já havia escrito os parágrafos acima quando, pouco antes da meia-noite entre sábado e domingo passados (de 10 para 11 de setembro) terminei a leitura da coletânea de contos Saffron and Brimstone de Elizabeth Hand, e me surpreendi ao ver no fim do livro uma “Afterword” datada de 11 de setembro de 2006. 

Hand fala que alguns contos do livro foram inspirados por um amigo que ela julgou ter perdido no atentado ao WTC. O último conto do livro, “The Saffron Gatherers”, mostra San Francisco sendo destruída por um terremoto no momento em que o avião da protagonista decola (ela vê tudo lá de cima). 

Diz Hand que a história desse amigo se tornou “a personificação das minhas ansiedades: desejo e perda; a ameaça do apocalipse; o poder e a vulnerabilidade do artista; meu fracasso constante em criar alguma coisa a partir da tristeza e do desespero”. 

Foi só mais uma sincronicidade (me ocorre com frequência ler por acaso um livro em que surge a mesma data em que o estou lendo), mas acho que exprime o que os atentados de 2001 passaram a significar para muitos escritores e artistas em geral. A necessidade, e a impossibilidade, de fazer literatura e arte sobre uma catástrofe tão esmagadora.






terça-feira, 10 de maio de 2011

2552) A bomba do Riocentro (10.5.2011)



Lembro, como se fosse hoje, a noite em que explodiu a bomba do Riocentro, evento que completou agora trinta anos. Eu estava numa barraca de Olinda, perto do famoso Bar Atlântico, tomando cerveja com a rapaziada, e a barraca tinha uma TV ligada. Passava da meia-noite, acho. De repente entrou uma chamada do telejornal da Globo e o cara da barraca aumentou o volume. Paramos a conversa para escutar, porque foram logo falando em bomba. Estava havendo um show musical no Riocentro e terroristas tinham jogado uma bomba num carro com dois oficiais do Exército. Ficamos de olho pregado na tela. Apareceu um carro todo esfrangalhado pela explosão. E então veio uma imagem da mala do carro aberta, e o repórter dizendo: “Foram encontradas outras bombas na mala do carro. Não há pistas sobre a autoria do atentado”. Quando terminou a matéria eu perguntei; “Olha, se os militares estavam no carro, e alguém jogou uma bomba neles, o que essas outras bombas estavam fazendo na mala do carro DELES?”.

Este é um episódio curioso na minha vida porque desde a manhã seguinte nunca mais ninguém tocou no assunto “outras bombas”. Em vão li jornais dos dias seguintes sobre o atentado, cada vez mais convencido do óbvio: os militares estavam ali para jogar a bomba em alguém e deram uma mancada. Por conta disso, escrevi uns versinhos, finalizando uma estrofe de martelo, que eram muito aplaudidos na época, quando os cantava em público: “Sou gangrena depois da infecção, sou a presa dum bicho peçonhento, sou a bomba no colo do sargento, explodindo o infeliz do capitão”.

Sigmund Freud tem alguns ensaios muito interessantes sobre o que ele chama de falsas memórias, ou memórias fabricadas. Ao evocar um episódio do passado distante, colocamos nele coisas que não estavam ali. Não colocamos pelo impulso de mentir ou de falsificar, mas porque estamos montando às pressas um quebra-cabeças e, quando falta uma peça, a gente inconscientemente fabrica uma peça antes inexistente, mas que se encaixa naquele lugar.

Terei imaginado as bombas na mala do carro? Talvez. Mas o fato estava acontecendo naquele instante, estávamos todos tomados de surpresa, e me lembro que foi a visão das bombas não-explodidas que me fez achar, perplexo, que aquilo não tinha sido um atentado terrorista. O pessoal dizia: “Mas o locutor falou que foram os terroristas que jogaram uma bomba no carro dos caras”. E eu dizia: “Ok, nada contra. Mas então o que estavam as bombas não-explodidas fazendo justamente no carro dos caras?”.

O atentado do Riocentro é um dos maiores escândalos jurídicos da época da ditadura, porque foi alvo de uma pseudo-investigação, conduzida pelo Exército com uma desfaçatez sem medida. Coube à imprensa e às organizações de direitos humanos montar o quebra-cabeças ao longo dos anos. Mas ainda não sei se a imagem daquelas bombas na mala do carro existiu mesmo ou é fruto da minha fértil imaginação.

sábado, 7 de maio de 2011

2550) Obama vs. Osama (7.5.2011)



Depois da execução sumária de Osama Bin Laden num aparelho subversivo instalado numa cidade do Paquistão, saiu na Internet: “Não confunda Obama com Osama. Um deles é o líder de um grupo terrorista. O outro está no fundo do mar.” A morte de Bin Laden não foi muito diferente de morte de Carlos Marighella ou de Carlos Lamarca, dois dos mais famosos terroristas brasileiros. Terroristas, em geral, escolhem morrer mediante uma execução sumária, impiedosa. Eles sabem disso. Foram eles que impuseram, aos regimes que combatiam, as regras do combate. As regras dos terroristas são sempre adotadas pelos governos que os perseguem. Essas regras envolvem: violência planejada; desprezo pelas tecnicalidades jurídicas e pelos preceitos constitucionais; ação rápida, implacável, cruel; intensa participação da mídia, para que o maior número possível de pessoas saiba o que aconteceu; retórica bombástica, salvacionista, sempre invocando princípios abstratos e clichês com que pessoas de mente rudimentar podem se identificar sem muito esforço.

Isto é posto em prática tanto pelos insetos quanto pelos descupinizadores; vale para as “almas sebosas” e para os “justiceiros”. O terrorismo não pertence ao universo da política, pertence ao universo da literatura de terror. Seu objetivo não é substituir um governo por outro, um partido por outro, um regime por outro. Seu objetivo é produzir o terror. Acho que todo mundo conhece aquela fábula do escorpião que pede carona a um sapo para atravessar um rio. O sapo diz: “Eu, hein, você é capaz de me ferroar durante a travessia”. O escorpião retruca: “Ora, eu não sei nadar, se eu ferroar você eu morro afogado”. O sapo acha que aquilo tem lógica, bota o escorpião nas costas e começa a atravessar o rio. No meio da travessia, o escorpião o ferroa. Morrendo envenenado, o sapo grita: “Mas assim você vai morrer também!”. E o escorpião: “Eu sei, mas, não posso evitar, é minha natureza”.

É da natureza do terrorismo morrer, desde que alguém mate. É de sua natureza transformar o mundo da paz no seu mundo da guerra, o mundo da tranquilidade no seu mundo do medo, o mundo do contrato social no seu mundo com sangue nos dentes e nas unhas. Osama Bin Laden quer mostrar ao mundo que quem governa o mundo não são as intenções de Barack Obama, mas as suas. Vejam só que terrível e cruel ironia a História nos proporciona. Barack Obama subiu ao poder nos EUA prometendo extinguir a prisão de Guantánamo, prometendo acabar com as guerras, prometendo, sei lá, uma porção de coisas. Talvez tenha acreditado (como tanta gente acredita, inclusive no Brasil) que ser presidente dos EUA é ser “o homem mais poderoso do mundo”. Já bombardeou a Líbia, torturou prisioneiros em Guantánamo, invadiu o Paquistão, executou um homem desarmado, destruiu provas, jogou (ou alega ter jogado) seu corpo ao mar. Obama virou Osama, e isso mostra que Osama venceu.

terça-feira, 6 de julho de 2010

2235) Atentado em Nova York (7.5.2010)



Vejam que coisa insólita esse episódio do quase-atentado ocorrido dias atrás em Nova York. No sábado à noite, camelôs avistam um carro estacionado junto à calçada, perto de Times Square, soltando uma fumaça suspeita, e avisam a polícia, que descobre lá dentro bujões de gás, explosivos, etc. Rastreando a origem do carro, descobrem que ele havia sido vendido uma semana antes para um paquistanês. Saem à sua caça, e na 2a.feira à noite o descobrem num avião prestes a decolar rumo a Dubai. O paquistanês é preso e confessa tudo.

Beleza não é mesmo? O dr. Watson, por exemplo, fechou o jornal e exclamou: “Maravilha, Holmes! A rapidez dedutiva e a pronta ação da polícia estadunidense são de entusiasmar qualquer um! Telegrafarei hoje mesmo ao presidente Obama, e...” Sherlock Holmes interrompeu seu solo de violino e disse: “Meu caro Watson... Você não acha que essa história está mais mal-contada do que um capítulo de Viver a Vida ou Tempos Modernos? Reflita, meu caro doutor. Que terrorista é esse que não sabe preparar um detonador decente, um que realmente explôda e mande pelos ares, se não um quarteirão inteiro, pelo menos as lojas e os transeuntes num raio de cinquenta metros?” Watson cofiou o bigode nervosamente: “Ora, Holmes, a bomba era potente. Segundo o NY Times, consistia de três latas de propano, duas de gasolina, oito sacos de fertilizante, fogos de artifício e dois relógios.”

Holmes soltou uma risada escarninha e começou a caminhar pela sala: “Excelente descrição, Watson! Parece um carro-bomba preparado por uma comissão multi-partidária, onde cada qual conseguiu enfiar o que mais lhe interessava. Não me admiraria se, procurando melhor, a polícia encontrasse seis garrafas de champanhe, um tubo de oxigênio e 500 caixas de fósforos com a data de validade vencida. Quem preparou essa bomba não foi a Al-Qaeda, foram dois casais de meia-idade, bêbados, durante um churrasco”.

O dr. Watson ainda tartamudeou algumas justificativas, mas Holmes já empunhara o jornal e apontava outra matéria: “E diga-me, Watson, qual o terrorista profissional que, precisando de um carro para um atentado, compraria um, fornecendo na transação o seu próprio número de celular? Foi assim que o rastrearam, não é mesmo? No Rio de Janeiro, muitos bandidos não sabem ler, mas quando querem sequestrar um comerciante roubam o carro de que precisam. E que terrorista é esse que deixa uma bomba para explodir no sábado e só embarca para longe do país 48 horas depois? Ora, ora, Watson. Até mesmo você, cidadão exemplar, tomaria a prudente iniciativa de deixar a bomba ligada e rumar direto dali para o aeroporto, não é mesmo?” “Por Deus, Holmes!”, gritou o doutor. “Quem poderá estar por trás disso, então? Que cérebro diabólico...” Holmes o interrompeu: “Não sei, Watson... Mas depois que o professor Moriarty deixou crescer a barba, converteu-se ao islamismo e adotou o nome de Osama Bin Laden... tudo, tudo é possível”.

domingo, 27 de junho de 2010

2198) “O que fazer em caso de incêndio” (25.3.2010)



Este filme alemão dirigido por Gregor Schnitzler em 2001 (Was tun, wenn’s brennt?) conta a história de um grupo de anarquistas berlinenses que, depois da queda do Muro de Berlim, se deixa absorver e cooptar (este era o verbo usado pela esquerda aqui no Brasil, no tempo da ditadura) pelo Capitalismo triunfante. Um deles vira publicitário, outro advogado, uma vira socialite, a outra mãe de família... Somente dois deles continuam vestindo casacos de couro, hirsutos, radicais, vociferantes, morando em invasões urbanas (um deles anda em cadeira de rodas, o amigo lhe serve de anjo-da-guarda).

Acontece que eles tinham colocado uma bomba num prédio, e por defeito técnico a bomba não explodiu. Doze anos depois, explode por acaso. A polícia dá uma batida no apartamento dos dois malucos e confisca latas e mais latas de cinema underground feito por eles. E no meio das latas, existe uma mostrando o preparo e a instalação da bomba. O resto do filme mostra os dois recorrendo aos amigos aburguesados para tentar reaver (ou destruir) o filme que incrimina a todos – e de maneira especial aos que agora “se passaram para o lado do inimigo”.

Desde sua sequência inicial o filme se assemelha ao Watchmen recentemente dirigido (2009) por Zack Snyder. Em ambos, o mesmo tema da “volta dos que não foram”, ou seja, o retorno de um grupo de ativistas que na verdade nunca foi realmente extinto. Em ambos, a sequência inicial de apresentação dos créditos resumindo a situação para que o filme propriamente dito comece em seguida (em Incêndio, a preparação da bomba; em Watchmen, o triunfo dos governos de extrema direita nos EUA). Em ambos, os conflitos internos de ativistas políticos e sua dificuldade de sobreviver num país em que o Capitalismo ganhou a guerra política.

Mais curiosas do que as semelhanças, no entanto, são as diferenças entre os dois filmes. Watchmen, apesar de escrito por Alan Moore, um autor de ácidas HQs, não deixa de ser um super-espetáculo comercial. Entra no mercado como um “filme de super-heróis” destinado a grandes bilheterias e com foco nos adolescentes de todas as idades. O filme alemão parecia ser (pelo menos para mim) uma produção mais modesta porém mais independente, uma avaliação política de uma situação política.

Na prática é o contrário, e curiosamente Watchmen é o mais político dos dois. O filme de Schnitzler, apesar de simpático e bem realizado, parece um filme norte-americano pelos clichês que emprega, como a tipificação dos ex-revolucionários, e pela altíssima improbabilidade dos atentados, fugas, arrombamentos, infiltrações e escapadas do grupo. Tudo acontece com uma facilidade digna de seriados da Sessão da Tarde. A guerra da esquerda alemã já está servindo para gerar histórias de entretenimento sem compromisso. Se os revolucionários se dão bem no final do filme, é porque o filme é uma vitória do cinema capitalista de entretenimento.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

2133) Os embaraços da ficção científica (8.1.2010)



Em 2 de setembro de 2001, um domingo, a comunidade da FC norte-americana reuniu-se no Marriott Hotel, na Filadélfia, para a cerimônia de entrega do Prêmio Hugo, considerado o Oscar da ficção-científica nos EUA. A cerimônia ocorreu durante a 51a. Worldcon, a convenção mundial da FC, uma festa gigantesca que ocorre todos os anos, geralmente nos EUA. Com a presença de cerca de 6.200 fãs, foi uma das convenções mais numerosas das últimas décadas. O “gran finale” da Worldcon é a entrega do Prêmio Hugo nas categorias de melhor romance, melhor noveleta, melhor conto, etc. e tal.

Americanos adoram cerimônias desse tipo, e o Hugo é o prêmio de maior visibilidade no mundo da FC. Daí que não foi sem uma certa perplexidade que, ao ser aberto o último envelope da noite, constatou-se que o melhor romance de ficção científica escolhido em 2001 foi “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, de J. K. Rowling. Tem gente esbravejando até hoje. Na Internet e nas revistas especializadas muita gente considerou isto uma infantilização do prêmio, uma tapa na cara dos fãs mais radicais de FC. O Hugo ir para um mau livro de FC já rende polêmica bastante, mas foi esta a primeira vez que isto aconteceu com uma obra que, embora ligada ao que chamamos “literatura de gênero” (e que inclui FC, fantasia e horror), não tinha o menor vínculo com a FC, e era, ainda por cima, um livro infantil. A FC estava deixando de lado seu papel de observadora do futuro?

Parece que sim, porque nove dias depois dessa cerimônia na Filadélfia todo mundo sabe o que aconteceu. Minha imaginação doentia me faz supor que havia pelo menos uns 500 leitores de FC tomando cafezinho e discutindo o resultado do Prêmio Hugo em diferentes andares do World Trade Center quando os aviões sequestrados explodiram nas duas torres. Terrível ironia para um gênero que é tido pelo grande público (embora erradamente, a meu ver) como uma literatura que nos avisa sobre o que vai acontecer no futuro. O futuro eram os terroristas islâmicos estudando nos EUA como decolar (mas não como pousar) um Boeing. A FC, naquele momento, era Harry Potter.

Vendo tudo à distância, hoje, é melhor reconhecer que o prêmio (para o qual votam todos os participantes da Worldcon, independentemente de sexo, idade ou preferências literárias) refletiu a chegada de uma geração de leitores mais jovens, apaixonados por Harry Potter, e muitos dos quais estavam votando no Hugo pela primeira vez. Não há como negar, no entanto, que o resultado simbólico desse prêmio mostrou um ponto de inflexão que o mercado da FC estava tomando naquele momento, em pleno terremoto editorial. Grandes conglomerados não-livreiros estavam adquirindo editoras de peso e de renome no mundo inteiro, e quem dava o tom eram os “grandes sucessos”. O mercado editorial, que sempre havia sido mais ou menos autônomo, tornou-se um apêndice (muitas vezes um apêndice facilmente extirpável) do grande mercado corporativo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

2099) Instruções para o Homem-bomba (29.11.2009)



“Este é o cinturão, que deve ficar bem preso ao corpo. Aperte o máximo que aguentar, para evitar que faça volume. Cada um desses bolsos tem alguns centímetros cúbicos de explosivo plástico, e para cada um deles há um detonador. No momento em que você puxar o cordão, todos os detonadores serão acionados ao mesmo tempo. São oito; mesmo que sete deles venham a falhar, basta que apenas um deles detone. Até hoje não houve um caso em que nenhum funcionasse. Este modelo que você vai usar é o mesmo que foi usado no ano passado por seus primos, Sayd e Malek. Que Alá os recompense.

“Agora, o casaco. Você usará uma camisa escura, por fora da calça, para disfarçar o cinto, e o casaco vai por cima dela. Ele será sua garantia. Foi tirado de um dos infiéis que sequestramos. Com ele, este boné com insígnias e este crachá você se fará passar por um membro da Guarda de Segurança e terá passagem livre nos postos de vigilância em torno do Hotel. Somente no derradeiro posto eles revistam todas as pessoas. No momento em que você se aproximar dessa última barreira, um dos nossos, que você não conhece e não sabe onde estará, vai atirar uma granada. Você deve aproveitar a explosão e o corre-corre para ultrapassar a barreira. Fique de costas para o Hotel e ande apressado, recuando, gritando ordens, como se estivesse saindo do Hotel na hora da explosão e agora voltasse para se abrigar.

“Ao cruzar a porta do Hotel, enfie as mãos nos bolsos e pegue ambos os cordões do detonador. Daí em diante, qualquer local que você escolha para detonar será abençoado por Alá, mas o ideal é que pegue a escadaria do lado esquerdo, suba ao mezzanino que dá acesso às salas de reuniões, e entre em qualquer uma delas. É certo que nesse horário todas estarão ocupadas por líderes dos infiéis, e o ambiente fechado irá potencializar a explosão. Escolha qualquer uma das salas. Se alguém desconfiar e o perseguir, fique pronto para puxar os cordões, mesmo que seja atingido por um tiro.

“O momento da explosão fará com que você perca os sentidos. Quando despertar, Sayd e Malek estarão lá para recebê-lo. Aqui está um papel com os recados que as famílias dos dois estão enviando. Procure memorizar tudo, para transmitir-lhes no momento em que se encontrarem. Pode ser que quem esteja à sua espera, por alguma razão, seja um desconhecido. Nada receie, ele estará ali para cuidar de você. Assim que estiver em condições, identifique-se, diga seu nome, o nome da sua Brigada e sua cidade de origem. Você será encaminhado aos seus primos, a quem caberá sua adaptação inicial no Paraíso. Diga-lhes que estamos todos orgulhosos de vocês. Permaneça ao lado deles e siga todas as instruções que eles lhe darão, porque os primeiros momentos costumam ser um pouco difíceis. Daqui a alguns meses, será sua vez de receber o próximo enviado. Agora, vá, e que Alá o acompanhe.”

sexta-feira, 30 de abril de 2010

1979) O país dos espiões (12.7.2009)



(William Gibson)

Em seu recente Spook Country, William Gibson produz um curioso romance de espionagem que “The New York Times Book Review” chamou de “o primeiro exemplo do romance pós-11 de setembro, cujos personagens estão cansados de serem empurrados para lá e para cá por forças maiores do que eles – a Burocracia, a História, e, sempre, a Tecnologia – e finalmente decidiram-se a enfrentá-las”. Chamar o livro de Gibson de “thriller” seria forçar um pouco a barra, porque um thriller é por definição um livro que visa produzir emoções fortes, e Gibson afasta-se mais disso a cada livro que publica. Seu estilo é lúcido, contemplativo, e mesmo quando descreve intensa ação física, como uma perseguição, uma tentativa de atropelamento, uma briga, ele verbaliza as coisas de tal modo que o leitor sente estar tendo acesso a uma descrição analítica de um fato, e não à ilusão do fato propriamente dito.

Spook Country conta a minuciosa preparação de algo que imaginamos ser um atentado terrorista, ou um assalto de grande porte, ou um crime político... Vemos os preparativos, mas os vemos através dos olhos de personagens que no livro são protagonistas, mas não passam de meros figurantes no fato. Eles entendem as coisas fragmentadamente, com avanços e recuos, dúvidas e surpresas... Aos poucos vão montando o quebra-cabeças; e nós também.

A certa altura, um dos personagens de Gibson diz: “Uma nação consiste em suas leis. Uma nação não consiste em sua situação num dado momento. Se a moral de um indivíduo é uma moral situacional, este indivíduo não possui uma moral. Se as leis de uma nação são leis situacionais, essa nação não possui leis, e dentro em pouco deixará de ser uma nação. (...) Será que vocês estão tão apavorados com os terroristas que estão dispostos a destruir as estruturas que fizeram da América o que ela é? (...) Se for assim, estarão permitindo que os terroristas vençam. Porque esse é exatamente o seu objetivo, seu único e específico objetivo: amedrontar vocês até fazê-los abrir mão de suas leis. É por isto que são chamados terroristas. Eles usam ameaças aterrorizantes para fazer com que vocês degradem sua própria sociedade. (...) E tudo se baseia no mesmo defeito da psicologia humana que faz as pessoas acreditarem que podem ganhar na loteria. Estatisticamente, quase ninguém ganha na loteria. Estatisticamente, ataques terroristas quase nunca acontecem”.

Desde que Gibson inventou o conceito literário de ciberespaço e fundou o movimento “cyberpunk” sua literatura mudou enormemente, embora em essência permaneça a mesma. Seu estilo tornou-se mais límpido; perto de Spook Country, um livro como Neuromancer é um delírio surreal. Seu tema básico – humanismo vs. alta tecnologia – continua a perpassar tudo que escreve. Vinte e cinco anos após sua estréia em livro, o humanismo está descendo aos Infernos, e a tecnologia subindo ao Paraíso. Gibson tem a ubiquidade de espírito necessária para documentar os dois.

domingo, 4 de abril de 2010

1865) O bonzo e o terrorista (1.3.2009)





Foi um imagem que marcou minha adolescência, nos agora inatingíveis anos 1960. Guerras lavravam pelo mundo afora; ditaduras prendiam e torturavam; tanques invadiam países e depunham governos eleitos pelo povo. Havia no ar uma sensação de revolta moral, de desespero impotente, e de que “era preciso fazer alguma coisa”. E então... um belo dia abríamos a Veja ou a Manchete e víamos a foto de um bonzo oriental ardendo em chamas. A história era sempre a mesma. O monge dirigia-se, com seu manto colorido, sua cabeça raspada, para uma praça cheia de gente, no centro de alguma grande capital européia. Derramava sobre si mesmo um galão de gasolina, sentava-se na posição do lótus, e riscava um fósforo. Permanecia imóvel e em silêncio enquanto o fogo o consumia, o carbonizava, até que seus ossos comburidos se esfarelavam e eram espalhados pelo vento, diante das câmaras das agências Reuters, UPI, Associated Press e outras.

Corte rápido. Passaram-se quarenta anos. Não vejo mais bonzos ardendo em chamas nas praças da Europa, mas isto não quer dizer que não haja mais gente disposta a dar a vida por um ideal político. O bonzo de hoje em dia é o Homem Bomba, o terrorista que amarra em volta do tórax dezenas de invólucros de explosivo plástico ou bananas de dinamite, veste um casacão por cima, e vai se explodir num restaurante ou num ônibus lotado. Morre do mesmo jeito; oferece-se para morrer do mesmo jeito. Passa dias se preparando para o próprio suicídio, assim como fazia o Bonzo. Sua morte não é resultado de um impulso, de um desespero momentâneo. Ele tem todo o tempo do mundo para se arrepender e mudar de idéia, mas não o faz. Em termos de bruta fé, de crença impura e sem vacilos, é tão sólido quanto o bonzo budista.

Muita gente irá considerar que a passagem do Bonzo para o Homem Bomba é a subida de um degrau numa escalada rumo ao absurdo. Antigamente, os pobres monges se suicidavam em sinal de protesto; hoje, terroristas sanguinários matam não apenas a si próprios, mas a pessoas inocentes que nada têm a ver com o peixe. Mas é justamente essa motivação que me faz ver as coisas de outro modo. Para mim, o absurdo era a morte do Bonzo. A morte do Homem Bomba é plenamente explicável pela lógica da guerra. Trata-se de fazer vítimas entre a população inimiga, aterrorizá-la, fazê-la sentir na carne as injustiças que comete e temer os inimigos que arranja. O que pode ser mais lógico do que isto? Pode ser moralmente censurável, mas que tem lógica tem.

O que ainda me deixa intrigado é o sacrifício dos Bonzos. Matar a si mesmo na esperança de que uma única morte, por ser auto-infligida, possa comover os que matam milhões de pessoas, e fazê-los parar! Que esperança mais utópica do que esta pode haver? E se não é essa a esperança deles, qual poderá ser? O suicídio dos bonzos é algo que nos dá um recado sobre a natureza humana, que não entendemos porque ainda não estamos maduros para entender.



quinta-feira, 1 de abril de 2010

1857) Do estupro ao terrorismo (20.2.2009)



Um dos objetivos do terrorismo é espalhar o terror entre uma população que nunca sabe de onde virá o próximo ataque-surpresa, nem como, nem quando. Muito diferente das guerras galantes da Idade Média, em que um cavaleiro ajudava a erguer do chão o cavaleiro caído a quem tentaria matar no minuto seguinte. O terrorismo sempre ataca pelas costas, por assim dizer, atingindo pessoas desarmadas e desprevenidas. Seu objetivo é dizer: “Nossa guerra é contra todos, inclusive contra os que não estão em guerra. Nossa guerra é contra qualquer um, inclusive contra você.”

O Velho da Montanha é um personagem lendário da história islâmica. Encastelado numa fortaleza, ele dopava com haxixe rapazes vigorosos mas ingênuos. Produzia uma espécie de “pegadinha” em que o rapaz, sob a influência da droga, era acariciado por belíssimas mulheres nuas, que lhe serviam comida deliciosa e vinhos finos. Ao despertar, ele ficava sabendo que tinha passado algumas horas no Paraíso, e teria direito a visitá-lo novamente caso concordasse em se sacrificar pela causa, matando Fulano de Tal. Claro que o jovem lavrador, bronco, de poucas leituras, com os hormônios esfuziando, topava na hora. Assim surgiram os “hashishin”, ou “assassinos”.

Bons tempos. Hoje, a História humana parece estar sendo escrita a quatro mãos pelo Barão de Munchausen e pelo Marquês de Sade. A imprensa acaba de divulgar que a iraquiana Samira Hassan, de 51 anos, foi presa sob acusação de fornecer mulheres-bomba para atentados contra as forças invasoras internacionais em seu país. Como é feito o recrutamento? Com promessas de ir para o Paraíso? Não, apenas isto: o grupo liderado por ela atacava as mulheres e as estuprava. Uma iraquiana estuprada tem que suportar, talvez, uma vergonha mais intensa do que uma mulher ocidental, pelos agravantes típicos de sua cultura. Desesperada, sem alternativa para a vida, a estuprada era então abordada e lhe ofereciam a opção de virar mulher-bomba. Sacrificando-se pela causa, seu “pecado” seria perdoado e ela iria ao Paraíso. Cerca de 80 mulheres passaram por este processo e foram pelos ares.

Se uma mulher estuprada experimenta uma tal vergonha, que dizer de um rapaz heterossexual que sofra o mesmo vexame? É o que tem sido posto em prática na Argélia, segundo um artigo de Tom Newton Dunn no “The Sun”. Um militante argelino arrependido, Abu Baçir El Assimi, afirmou: “Os atos sexuais praticados sobre jovens recrutas entre 16 e 19 anos foram uma maneira de pressioná-los a se engajar em operações suicidas”. Numa cultura moralista, e fortemente machista, a humilhação de um rapaz sodomizado à força não tem limite. A primeira coisa em que ele pensa, talvez, é em suicídio. Os terroristas lhe oferecem, então, um “suicídio útil”, e a possível ida ao Paraíso. O terrorismo torna-se isto: um exército de aterrorizados, vítimas de um estelionato moral, sacrificando-se em busca de redenção.

sábado, 20 de março de 2010

1802) Terror em Mumbai (18.12.2008)



Existe no mundo uma Nova Guerra em curso, um novo conceito de guerra que nada tem a ver com imensas tropas, armamento pesado, invasão maciça de cidades, etc. A Nova Guerra é um prolongamento do terrorismo de 1914 (anarquistas jogando uma granada no carro do ministro, etc.) e consiste em enviar tropas minuciosamente treinadas para massacrar civis anônimos num local que tenha peso simbólico. Os atentados recentes em Mumbai voltam a demonstrar que essa estratégia é a que produz mais impacto.

Em Mumbai, um relato arrepiante saiu na “Forbes”, feito pelo americano Michael Pollack, cuja esposa é indiana. Os dois jantavam no Hotel Taj Mahal quando o tiroteio começou, e passaram a noite fugindo de prédio em prédio, de sala em sala, no escuro, caçados implacavelmente pelos terroristas, junto com dezenas de outras pessoas. (Leia a história toda em: http://bit.ly/bBkbRX).

Perseguidos pelos terroristas, Pollack e a esposa resolveram fugir separados, para aumentar as chances de que pelo menos um dos dois sobrevivesse para cuidar dos filhos. Os funcionários dos restaurantes, em muitos casos, trancaram os clientes em salões e deram a vida para protegê-los. Estamos falando de restaurantes de luxo, frequentados pela super-elite indiana e mundial. Ao que parece, quem trabalha com essas pessoas as considera dignas do sacrifício da própria vida, o que por um lado indica uma coragem admirável, por outra dá um retrato melancólico do poder moral das elites milionárias. Como dizia Orwell, “uns são sempre mais iguais do que os outros”.

Encurralados em salões de luzes apagadas, amontoados às dezenas no chão, os clientes usavam seus celulares e Blackberrys para se comunicar com parentes, com a imprensa, com as forças de segurança. Cochichavam, mandavam torpedos, davam e recebiam instruções. Em muitos momentos foram salvos porque alguém da polícia informava: “O terceiro andar acaba de ser tomado pelos terroristas, fujam daí”. Pollack, trancado numa latrina na escuridão total, ouviu a sala ao lado ser invadida e as pessoas serem fuziladas uma a uma: “Ninguém deu um grito sequer. Ouvíamos apenas os passos dos terroristas e os tiros sendo disparados”.

Há detalhes que parecem inventados por um bom escritor de thrillers como John Farris ou Stephen King: “Eu tinha perdido meu sapato direito na fuga, e precisei pegar no chão uma toalha de mesa e enrolá-la no pé, para poder caminhar sobre os cacos de vidro”. Ao amanhecer, Pollack consegue escapar, e do lado de fora do Taj reencontra a esposa, Anjali. Ele não sabia se ela sobrevivera, porque há três horas estavam sem contato. Os dois se abraçam. Pollack diz que quer tirar uma foto com o celular, com os dois diante do hotel em chamas, mas Anjali queria apenas sair dali o mais depressa possível. Tirar uma foto com o celular numa hora dessas! A Guerra pode ser nova, mas a Paz continua a mesma.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

1722) O massacre do apontador de lápis (18.9.2008)



Entre as muitas coisas que coleciono estão as notícias sobre a paranóia anti-terrorista nos EUA. O anti-terrorismo norte-americano trabalha em duas frentes simultâneas. A Frente Externa procura e combate os terroristas de fora, como os islâmicos da Al-Qaeda, responsáveis por atentados como o do World Trade Center. A Frente Interna combate o terrorismo apolítico dos próprios norte-americanos, cuja melhor expressão são os massacres inexplicáveis – um veterano do Vietnam que entra numa lanchonete e fuzila vinte pessoas, ou, mais tipicamente, um estudante que invade um prédio escolar e sai matando quem encontra pela frente. Até hoje não sei qual dos dois é mais absurdo, qual é mais perigoso, qual é mais invencível (pelo menos com as técnicas adotadas até agora).

O mais recente episódio na Frente Interna ocorreu em Hilton Head Island, na Carolina do Sul. Um estudante de dez anos foi visto pela professora segurando uma lâmina de metal. A professora chamou a supervisora. A supervisora chamou a polícia e avisou a mãe do suspeito. Todos se reuniram para investigar o incidente. O suspeito afirmou que, na véspera, a lâmina do seu apontador de lápis tinha quebrado, e ele resolveu trazer o pedaço, com cerca de 2 centímetros, para fazer a ponta do lápis durante a aula. A supervisora admitiu para o policial que o suspeito era um bom aluno e nunca havia se envolvido em qualquer incidente. Revistando a mochila do suspeito, o policial encontrou um pedaço de lápis com aproximadamente 2 centímetros e meio de comprimento, cuja ponta parecia ter sido feita recentemente. O policial registrou em seu relatório que a reação do suspeito (choro) deixava claro que ele compreendia a gravidade de trazer para o ambiente escolar qualquer objeto que pudesse se assemelhar a uma arma.

Pelo relatório do policial (que pode ser lido aqui: http://www.boingboing.net/2008/09/12/fourth-grader-suspen.html) julgo perceber o quanto ele procura levar o caso a sério para tranqüilizar a professora e a supervisora. Quanto a estas duas, espero não ser chamado de machista se achar que são apenas duas mulheres à beira de um ataque de nervos. Não é machismo. O mundo está cheio também de machões à beira de um ataque de nervos, por motivos ainda mais insignificantes do que este. E o mais patético é que nem mesmo esse clima kafkeano criado por pessoas super-zelosas e sem o menor bom-senso consegue evitar massacres como o da Virginia Tech.

É muito mais fácil pegar um inocente inofensivo do que um psicopata mal-intencionado. O excesso de vigilância acaba infernizando e enlouquecendo os 90% de inocentes, pegando em sua malha fina uns 9% de indivíduos problemáticos (e evitando os problemas que causariam) mas raramente consegue captar o 1% de sujeitos que saem de casa armados dos pés a cabeça, executando uma estratégia longamente planejada. Cabe às autoridades e à população decidir se essa relação custo-benefício interessa ou não.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1711) Resnais: “A Guerra Acabou” (5.9.2008)



Num festival dedicado a Alain Resnais no CCBB do Rio, revi este filme discreto e magnífico de 1966. É a história do cansaço e do princípio de desilusão de um revolucionário de meia-idade. Diego (Yves Montand) é um comunista espanhol que trabalha na clandestinidade contra a ditadura do General Franco, indo e voltando entre Madri, onde atua, e Paris, onde tem uma namorada (a bergmaniana Ingrid Thulin), e onde fica sediado o grupo subversivo a que pertence. Vindo depois de Hiroshima, meu amor e de O ano passado em Marienbad, que fizeram a fama de Resnais, é um filme surpreendentemente linear e narrativo, chegando em vários momentos a ser um thriller de suspense, pois acompanhamos um indivíduo que vive no fio da navalha, prestes a ser desmascarado e preso pelas autoridades.

O roteiro é do espanhol Jorge Semprun, o mesmo que escreveu Z de Costa-Gavras e vários outros filmes políticos. Acompanhamos as viagens com passaporte falso, os encontros clandestinos, as senhas e mensagens em código, toda a encenação permanente em que vivem os membros do “underground” político que Semprun conhece tão bem. Vemos o cansaço de Diego, um homem movido mais pelo hábito, pela falta de alternativas e pelo dever ético do que pela paixão revolucionária; e podemos contrastar seu comportamento com o dos jovens esquerdistas parisienses que contrabandeiam explosivos para um atentado, dispostos a sabotar o turismo que sustenta o governo de Franco. Nesses jovens enraivecidos, vociferantes, cheios-de-razão, citando Lênin a propósito de tudo, vemos os irmãos espirituais dos jovens maoístas que Godard no ano seguinte imortalizaria em A Chinesa.

Em sua ausência de retórica esquerdista, contudo, esse filme se aparenta muito mais a O pequeno soldado de Godard. Resnais se dedica a construir uma narrativa meticulosa, às vezes inesperada. Neste filme ele aperfeiçoou o uso do “flash-forward” os vislumbres de imaginação do personagem, que, como num romance de Robbe-Grillet, imagina (e projeta na tela) diferentes desfechos de algo programado para acontecer horas depois: chegará na hora, chegará atrasado, encontrará Fulano na estação, encontrará no trem, não o encontrará... Tudo isso se sucede rapidamente na tela, fazendo-nos compartilhar das indecisões e incertezas do personagem. Quando ele imagina como será Nadine, a moça a quem deve devolver o passaporte falso, vemos várias moças caminhando, todas de costas, sem mostrar o rosto: loura, morena, cabelo longo, cabelo curto, cabelo preso... É um processo mental por que todos nós passamos (fantasiar previamente como será alguém que estamos prestes a conhecer), mas que o cinema raramente mostrou, e jamais mostrou com tanta simplicidade. As duas cenas de cama (Montand com Geneviève Bujold, depois com Thulin) são também uma prova da maestria de Resnais para filmar olhos, cabelos, mãos, peles, rostos, e nos transmitir a sensação de plenitude e paz produzida pelo amor físico.