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sexta-feira, 6 de março de 2015

3754) Syd Field falou (6.3.2015)



Ele é o deus-pequenino das oficinas de roteiro, e tem uma fórmula mágica pra fazer um filme dar certo. Syd Field já veio ao Brasil trocentas vezes, e espalha pelo mundo sua mensagem com a fé e a euforia de quem descobriu o universo.  Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.  Discordo da faceta engessadora e bitolada da sua teoria de que todo filme tem que ter três atos, todo ato precisa ser encerrado com uma cena de tal ou tal tipo (que ele chama “pinça”, “ponto de virada”, sei lá mais o que).  Por que combato? A fórmula não funciona? Ah, funciona, sim.  Para algum tipo de filme.  Querer impor essa fórmula em todo filme é como se Leonardo da Vinci fosse dar aulas de pintura e dissesse: “Todo quadro tem que mostrar uma mulher sentada, com as mãos pousadas no colo, e sorrindo.  São os três elementos básicos da pintura.”

Mas Field, é claro, dá muitos conselhos úteis.  Alguns passam meio despercebidos.  Por exemplo, em Como resolver problemas de roteiro (Ed. Objetiva, 2002) ele diz: “A informação visual que recebemos é cumulativa.”  Ou seja: não temos que mostrar tudo de uma vez só, mas tentar fazer com que cada plano mostre um pedaço a mais da ação ou do ambiente.  Uma das coisas que a narrativa do cinema conquistou com grande esforço foi a capacidade de ajudar o público a visualizar um complexo ambiente interno (uma casa com muitos corredores, salas, etc.) com alguns poucos planos, de modo a que o espectador perceba como estão em relação um ao outro. 

Se a informação faz sentido para o público, é possível encadear os planos numa certa relação: “eles passaram do terraço para o salão... essa escadaria leva ao primeiro andar... esse terraço fica do outro lado da casa, voltado para aquele pomar...”  Às vezes um plano parece desnecessário (uma pessoa sai de um quarto com um candelabro, segue pelo corredor, vira à esquerda) mas ele mostra a que distância e em que direção ficam os quartos de A, B ou C.  O espectador tem que acompanhar os diálogos, entender a história, conhecer os personagens, e também quer entender o espaço onde a ação acontece.

“Encontrar formas de expandir o roteiro visualmente.  Atenção aos detalhes da cena que podem permitir um close, um movimento, um corte brusco, um plano de detalhe.”  Cada avanço ou recuo da câmara, cada mudança de luz amplia o espaço do filme. Um quarto na penumbra.  Um homem deitado. Uma mulher entra, vai direto à janela, abre de par em par, chama o homem com alegria para ver alguma coisa.  Ele levanta, os dois debruçam na janela, ficam tagarelando, mas a luz da janela revelou uma terceira coisa que é agora tudo que o espectador vê, e que os dois não percebem.




quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

1609) As lições de Syd Field (9.5.2008)



(ilustração: Angel Boligan)

Já falei aqui sobre a fórmula descoberta pelo roteirista Syd Field para um filme de ficção de longa-metragem: três atos, dois pontos de viradas, duas “pinças” no meio do segundo ato, e assim por diante. 

Field virou um deus-pequenino no universo dos roteiristas, professores e produtores de cinema. Seus livros têm o tom messiânico, jovial e otimista que encontramos nos livros de auto-ajuda. Ele repete e repisa as coisas que acha importantes – e está muito certo. Professor que diz uma coisa importante apenas uma vez não irá longe na profissão.

O problema com Field é o dos que descobrem uma fórmula para fazer uma coisa: começam a achar que a fórmula deles é a única. Foi assim com o Surrealismo, com a Poesia Concreta, com o Rock Progressivo, com o Punk. O sujeito se deslumbra com o universo que acabou de criar, abraça-se a ele, e esquece do Universo maior que está em volta dos dois. 

Field repete até a exaustão clichês do cinema americano, como o de que “cinema é conflito” (do qual discordo radicalmente). É um conceito de cinema que pretende agarrar a atenção do espectador, seqüestrar sua mente sem largá-la por um segundo sequer. 

Um conceito de espetáculo mais próximo da TV (onde há mil distrações, e a possibilidade de mudar de canal) do que do cinema. Cinema não é para agarrar o espectador, é para chamá-lo, ir na frente, esperando que o espectador o siga, sem se distanciar. No máximo levando-o amigavelmente pela mão.

Ainda assim, Field diz coisas essenciais. “A essência da tragédia”, reconhece ele, “não deriva de um personagem estar certo e o outro errado, mas de ambos estarem certos, só que em direções opostas”. O cinema maniqueísta de hoje bem que podia dar atenção a este detalhe. 

Outro conselho essencial repisado por Field é “entrar na cena tarde, e sair cedo”. Grande parte dos filmes se tornam chatos porque a cena surge na tela muito antes do necessário. (Não me refiro aqui ao cinema que explora os silêncios e as demoras, como os filmes de Jim Jarmusch ou Bergman) Se o que queremos é ação narrativa, o melhor é entrar na cena com a ação já acontecendo, e sair antes que ela termine de todo.

Outro mandamento importante: “O espectador deve descobrir o que está acontecendo ao mesmo tempo que o personagem” Isto leva o espectador para o centro da ação e das surpresas. Claro que o contrário disso também funciona: quando sabemos o que vai acontecer, o personagem não sabe, e ficamos nos desesperando em nome dele. Mas o que Field quer dizer é que o cinema pode nos transmitir, como nenhum outro meio, a sensação do imprevisível e do inesperado que há na vida. 

O que bate certinho com outro conselho dele: “Evitar que os incidentes e os acontecimentos sejam muito planejados e muito previsíveis”. A vida não é assim, e num filme de intenções realistas tudo não pode dar muito certinho. Fica parecendo uma pessoa que telefona para a gente e está lendo num papel – a gente percebe na hora.






domingo, 31 de janeiro de 2010

1596) A fórmula de Syd Field (24.4.2008)




Cacá Diegues disse uma vez que aqui no Brasil “cinema” é abreviatura de “cinema americano”. Isto é cada vez mais verdade, e uma prova é a importância que têm assumido os manuais de roteiro em nosso mercado editorial. 

Quando comecei a me interessar por cinema, os únicos livros que davam dicas de como fazer um roteiro eram Argumento e Roteiro e Elementos de Estética Cinematográfica de Umberto Barbaro, O Processo de Criação no Cinema de John Howard Lawson, um ou outro de Pudovkin. Hoje, em qualquer Siciliano ou Sodiler brasileira, os manuais de roteiro abundam.

Já me vi em situações delicadas quando meu interlocutor, lendo algo escrito por mim, opinava: “Olha, sinto muito mas não está de acordo com Syd Field”. Quando é o contratante que diz uma coisa assim, você gela, porque vê seu cheque batendo asas e acenando com o lenço, fugindo pela janela. Syd Field é o principal oficineiro e manualista de roteiros do cinema americano, e seus livros, lidos febrilmente aqui no Brasil, viraram uma espécie de Bíblia.

Field tem uma fórmula de roteiro (ele diz que não é fórmula, mas é), em que uma história é dividida em três atos. O Ato I tem 20 ou 30 páginas, o Ato II tem 60, e o Ato III tem 20 ou 30. 

Estes atos estão separados por dois “pontos de virada”, que são os pontos de transição entre os atos, definidos por reviravoltas que reacendem o interesse do espectador. 

E o ato mais longo, o do meio, tem o que ele chama de duas “pinças”, que ocorrem por volta das páginas 45 e 75, e são “incidentes ou acontecimentos que mantêm a história nos trilhos”. E assim por diante.

Está errado? Não. Field e seus seguidores (que são Legião) estudam a fundo o cinema norte-americano, e os americanos, como disse um crítico europeu, “descobriram o segredo do ritmo cinematográfico”. Questionar o ritmo cinematográfico de Hollywood é como questionar as orquestrações da música clássica européia ou a estrutura formal do soneto. Não se pode negá-las. Funcionam, e acabou-se. Mas não são a única possibilidade.

Field teoriza e receita um tipo de cinema, e suas receitas só valem para quem quer fazer cinema narrativo ao estilo norte-americano. O qual não é o único modo de fazer cinema. 

Atos, pontos de virada, pinças e tudo o mais não são “universais fílmicos”. São recursos técnicos inventados por uma cultura e um mercado. Nada obriga um cineasta sueco ou romeno a segui-los. Nada obriga um brasileiro. 

E não estou me referindo a filmes de arte (Godard, Bergman, Raul Ruiz), onde a platéia deve se curvar aos interesses do diretor. O cinema de entretenimento, em que o diretor deve se curvar aos interesses da platéia, é tão necessário quanto qualquer outro, mas não precisa seguir a fórmula Syd Field, por mais eficaz que ela seja. 

Seria como dizer que a fórmula da Coca-Cola é satisfatória, e que por isto o guaraná, a fanta ou a soda limonada “estão erradas”. Fórmulas existem para serem seguidas, mas também para serem inventadas.