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quinta-feira, 3 de março de 2022

4799) Os Revenantes, os fantasmas modernos (3.3.2022)




Escrevo de vez em quando sobre fantasmas, não porque acredite neles, mas justamente porque, não acreditando, fico incrível com a persistência desse visionarismo cultural em todos os tempos, em todas as culturas.
 
Na literatura de ficção, a história de fantasmas (ghost story), mesmo sendo tão sujeita a repetições e uso de fórmulas, oferece infinitas possibilidades dramatúrgicas. (Uso “dramaturgia” no sentido mais amplo de “criação de narrativas”; não necessariamente para o teatro.)
 
A principal limitação para a história de fantasmas, pelo meu juízo, é o fato de que a raiz da maioria delas é uma raiz meramente religiosa: a crença de que cada pessoa tem uma alma imortal e que, depois da morte do corpo, essa alma pode ser avistada pelos vivos, comunicar-se com eles, influir no seu comportamento.
 
Nada contra a hipótese religiosa, que é sempre uma fonte suculenta de inspiração. Mas eu tenho interesse especial por histórias de fantasmas onde a “aparição” não é a alma de um penitente em busca de consolo ou vingança, e sim – por exemplo – o resultado de uma fissura entre dois universos paralelos, fazendo com que pessoas de um sejam vistas no outro.
 
Seria uma hipótese mais científica, digamos, embora em termos rigorosamente científicos a existência de universos paralelos esteja tão longe de ser comprovada quanto a da alma imortal.
 
Uma variante que tem se desenvolvido nos anos mais recentes (embora com precedentes históricos um tanto antigões) é a dos revenantes, os retornados, os-que-voltaram. Pessoas oficialmente mortas que, de modo inexplicável, voltam à vida, mantendo características físicas e psicológicas que tinham antes, mantendo a memória de sua vida anterior, e tentando reintegrar-se ao mundo onde foram dados como falecidos.


O exemplo mais atual é o filme francês Les Revenants (2010) de Robin Campillo, que já foi ampliado para série de TV.  Ao ver esse filme, com seus defuntos que voltam à vida intactos, barbeados, limpos, de roupa limpa, mas amnésicos, me veio à mente a trilogia Southern Reach (2014) de Jeff VanderMeer. Comentei aqui essas duas obras:
 
 
Parecem-se um pouco com o clássico de ficção científica Solaris – livro de Stanislaw Lem (1961) e filme de Andrei Tarkovsky (1972).
 
Ali, também, pessoas mortas parecem voltar à vida meio desorientadas, sem lembrar onde estiveram, e sem saber direito o que estão fazendo ali. O protagonista deduz que elas são corpos formados por neutrinos, por influência do planeta Solaris, onde eles se encontram. O planeta acessa as lembranças mais profundas dos astronautas e as “esculpe” em matéria, dando-lhes vida.


No caso mais doloroso, é a esposa do cientista, que se suicidou porque o marido lhe dava pouca atenção. Ela volta agora, linda, jovem, carinhosa, sem saber o que lhe aconteceu, querendo afagos, e o cientista roendo-se em culpa, duplicada agora por esse retorno impossível mas real.
 
Na tradição mística oriental fala-se no conceito de tulpa. Uma tulpa, segundo os tibetanos, é uma réplica de um ser humano produzida pelo pensamento, uma projeção mental que se materializa em carne e osso. Um dos mais entusiasmados investigadores do Oculto, Colin Wilson, em Mysteries (Parte III, cap. 2) fala de pessoas que imaginaram criaturas assim, conseguiram materializá-las, mas depois perderam o controle sobre elas, tendo muito dificuldade para fazê-las desaparecer.



É nessa direção que a série Twin Peaks de David Lynch explora não apenas o reaparecimento de pessoas tidas como mortas mas também a multiplicação de réplicas de uma pessoa específica, como o Agente Cooper (Kyle MacLachlan).


Usos recentes do tema têm sido marcantes nas séries de TV. Katla  (série islandesa, uma temporada, 2021) mostra um povoado próximo a um vulcão em erupção contínua, e o reaparecimento não apenas de pessoas oficialmente mortas e sepultadas, mas de réplicas idênticas a pessoas vivas da região, que de uma hora para outra precisam encarar “clones” de si mesmas, que reivindicam para si os mesmos direitos.


Na literatura brasileira não é difícil encontrar exemplos, como o recente conto de Cristhiano Aguiar, “Lázaro” (em Gótico Nordestino, Alfaguara, 2022), em que os médicos tentam meio às pressas explicar por que razão pessoas mortas de Covid-19 começam a ressuscitar e retornar para a sociedade, que os chama de “lázaros”.

 
Roberto de Sousa Causo, em O Par – Uma Novela Amazônica (São Paulo: Humanitas, 2008), descreve uma Amazônia num futuro próximo, visitada por naves alienígenas e ocupada por forças militares. Um fenômeno estranho, deflagrado pela proximidade dos extraterrestres, faz com que no corpo de alguns indivíduos brotem “caroços” de rápido crescimento que acabam se desprendendo e se transformando em pessoas. No caso do protagonista, a falecida esposa, que passa a fazer-lhe companhia na mata.
 
Estão longe os tempos góticos quando os fantasmas eram silhuetas etéreas, ectoplásmicas, nuvens de brilho luminoso e lunar, produzindo gemidos distantes.
 
Os revenantes, os fantasmas modernos, são feitos de carne e osso, são feitos à imagem e semelhança de si mesmos. Os do filme francês surgem em casa intactos, de roupa limpa e passada (por quem?), corpos inteiros após anos de sepultura (como?).
 
E são materiais, mesmo que não sejam uma escultura de neutrinos como as aparições de Solaris. É como se no tempo de hoje, tempo do hiperrealismo nas fotos, dos vídeos de um milhão de pixels, dos clipezinhos em 5G, da tela-plana digital mostrando rugas e espinhas do âncora, precisássemos de fantasmas à altura desse excesso de realidade.
 
Fantasmas que acabam sendo uma espécie de deep-fake em três dimensões, e mais: com os arquivos de memória do defunto, porque esses revenantes conversam, voltam aos seus quartos, perguntam pela camisa tal, ou pelo livro que estavam lendo, abraçam seus cônjuges que os aceitam com um misto de desejo, saudade, repulsa e desespero.
 
Os fantasmas parecem vir de uma Matrix superposta a este mundo, e causam medo, não porque sejam agressivos ou ameaçadores, longe disso. Causam medo porque diante deles sabemos como são frágeis os nossos conceitos para definir o que é real, e o que não é.  


 
("Les Revenants", 2015)
 





segunda-feira, 23 de setembro de 2019

4506) W. J. Solha e a Decifração do Mundo (23.9.2019)




Saiu mais um volume de uma série de livros-poemas que W. J. Solha vem publicando, e que até o momento inclui: Trigal com Corvos (Viseu, Portugal: Palimage, 2004), Marco do Mundo (João Pessoa: Ideia, 2012), Esse é o Homem (João Pessoa: Ideia, 2013), e agora Vida Aberta (Guaratinguetá: Penalux, 2019).

Aqui, meu comentário sobre o primeiro livro:

Solha pratica na poesia o verso-largo de Walt Whitman, Allen Ginsberg, Álvaro de Campos: a linha caudalosa e discursiva que só se interrompe ao fim de um fôlego. Um verso livre e indomesticável que tanto pode se alongar por trinta palavras como ser cortado de uma em uma.

Mais curiosa do que sua métrica é o seu uso da rima, que ele usa geralmente como rima interna, em posições não-fixas, mas reiteradamente fazendo comentários sonoros. No terceiro livro ele tem ampliado o uso de reticências para destacar essas rimas internas:

O... cúmulo, não ser mais que um hífen no meio de duas datas,
num túmulo! (p. 38)

Seu texto é torrencial, incessante, praticamente o mesmo fluxo nos três livros, a mesma voz que se interrompe ao fim de um volume e anos depois, em outro, recomeça de onde parou. Seu tema é A Decifração do Mundo, a tentativa de entender a natureza, a cultura, a civilização, o destino coletivo da humanidade e o destino pessoal desse indivíduo que pensa e escreve sem parar para respirar.


(Philip K. Dick, por Richard Crumb)

Philip K. Dick disse, em algum dos seus textos metafísicos, que a mente humana absorve Significado como uma esponja absorve água. Nossa mente precisa de sentido para existir, precisa impor um padrão inteligível a tudo que vê, como aquelas pessoas que enxergam formas animais nas nuvens, nas manchas de lodo numa parede, no borrão de tinta de um cartão Rorschach.

W. J. Solha, que é romancista, ator, artista plástico, vive à cata de sentido, de correspondências, de padrões, de rimas visuais ou sonoras em meio à proliferação caótica de coisas no mundo. Vive à cata de um elemento a partir do qual todo o resto possa ser enquadrado, definido, “inteligido”.

E... nossa sorte
é que a bússola aponta todas as direções
no que só nos mostra
o norte!

A catadupa de referências a personagens eruditos (pintores, compositores, romancistas, cientistas, filósofos) pode dar a impressão errada de que se trata de um poema embebido de saber livresco. Mas é acima de tudo o saber direto, intuitivo, total, que o poema celebra; o que ele chama de “saber não-saber”:

E há os povos de tartaruguinhas a sair dos ovos e a emergir
da areia,
na praia, em que,
sob o comando da Terra (pros gregos, “Gaia”),
disparam pro mar,
sem saber, sabendo que... sabem
nadar.  (p. 12)

Há dois aspectos (aparentemente contraditórios) com que me identifico nesse ciclo poético de Solha. O primeiro é a sensação de pertencimento a uma certa aristocracia do espírito, a uma elite capaz de encontrar, assimilar e entender o que há de elevado e refinado na cultura, seja a pintura renascentista, seja a poesia épica da antiguidade, o teatro shakespeariano, a arquitetura gótica ou barroca, a física teórica, a música sinfônica. Sim, tudo isto foi feito para nós, foi feito para que gente como nós o aprecie.

Pouco importa se mais da metade da espécie humana não liga para essas coisas. Que fiquem em paz, cuidando do que lhes interessa. Essas obras foram feitas para quem gosta, para quem é capaz de dar a vida por elas.


(W. J. Solha, no filme “O Som Ao Redor”)

Por outro lado, me identifico com um viés oposto: somos intelectuais de origem plebéia, sem pedigri, sem heráldica, sem sobrenomes compostos, sem quadros a óleo dos antepassados enfileirados num corredor da Ala Oeste da mansão. Somos plebeus mesmo, pés-rapados interioranos, gente que precisou trabalhar desde cedo com coisas de que não gostava, e sempre soube que teria pouquíssimas chances de uma graduação em Harvard e de uma pós-com-bolsa em Cambridge. O Monte Olimpo fica ali, a uma caminhada de distância, mas parece que nosso destino será o de ficar aqui na Arcádia mesmo, pastoreando cabras, tocando nossa flautinha e colhendo azeitonas.

Menos mal; estamos em boa companhia. Tem outros autores em quem eu identifico essa energia incontrolável que movimenta as engrenagens dos poemas de Solha. Henry Miller, por exemplo. Injustamente rotulado de pornográfico porque ousou falar de sexo na sala-de-visitas literária, Miller é na verdade um vulcão de energia vital capaz de por tudo se interessar, tudo procurar, tudo absorver.



(Henry Miller)

Poucos autores do século passado tiveram uma atitude tão vital (não encontro outro termo), de se jogar de corpo inteiro em tudo quanto a vida oferecesse. Miller lia espantosamente muito, mas nunca foi um desses eruditos passadores-de-pente-fino capazes de escrever vinte páginas sobre as diferentes acepções de uma palavra grega. (Não digo que isso seja inútil – estou apenas questionando quem diz que inútil é ler Henry Miller.)

Foi sempre um sujeito comum, um empregado dos correios, aguentou trezentos empreguinhos estupidificantes, foi sustentado pela mulher que fazia programas com caras ricos, tudo isso para manter seu projeto literário. Foi, no dizer, de J. G. Ballard (A User’s Guide to the Millenium), “o primeiro escritor proletário a criar uma literatura pornográfica baseada na linguagem e no comportamento sexual da classe trabalhadora (...), um Proust proletário, noção que formou a base de toda sua carreira.”

Toda a obra literária de Henry Miller, da melhor à pior, é estuante desse prazer vital, em que trepar e filosofar são basicamente a mesma coisa, a ser feita com uma energia avassaladora, alegre e sem culpa.

O outro autor “plebeu” que eu reencontro em Solha (como em mim mesmo) é Colin Wilson, cujo defeito maior como escritor deve ter sido escrever demais, publicar demais, embarcar demais em qualquer idéia mirabolante (geralmente no campo da paranormalidade) capaz de despertar sua grande qualidade: uma curiosidade inesgotável pelo Universo.

(Colin Wilson)

Desde o clássico O Outsider (1956) Wilson defende a teoria um tanto visionária, talvez mais próxima da literatura do que da filosofia, de que a mente humana sofre sérias limitações do seu potencial mas poderia, se devidamente organizada, assumir poderes quase sobre-humanos.

O Outsider analisa escritores (Dostoiévski, D. H. Lawrence), artistas (Van Gogh, William Blake), pensadores-aventureiros (Lawrence da Arábia, Gurdjieff) para expor sua visão de que o Outsider, o estranho, o estrangeiro, o intruso, é o indivíduo de grande potencial que acaba entrando em choque permanente com a sociedade. Em muitos casos, torna-se um criminoso, e vai daí que os melhores romances de Wilson sejam romances policiais como Ritual nas Trevas (1960), A Gaiola de Vidro (1966), O Matador (1970), Necessary Doubt (1964) etc.

Neste último, um personagem diz:

Olhe, eu sempre pensei na consciência humana como uma espécie de luz néon com motor fraco. Sabe quando a gente liga uma dessas luzes e ela tenta acender e não consegue... A luz tenta saltar ao longo do tubo, começa a brilhar nas duas extremidades, pisca por um momento... e depois se apaga. Pensei que o orgasmo sexual era a mesma coisa: uma tentativa de consciência real. Mas não posso deixar de imaginar que qualquer dia destes a luz vai se acender ao longo do tubo, e de repente teremos atingido a consciência verdadeira.

Esses momentos de iluminação (que Freud chamava de “experiências oceânicas”, e Jung de “experiências numinosas”) são raros porque vivemos numa espécie de sonambulismo-do-cotidiano, conversando, comendo, trocando de roupa, trabalhando, movidos por um piloto automático que nos impede de pensar com toda a profundidade que poderíamos.



Wilson aplica essa teoria e seus desdobramentos ao escrever sobre o mundo do crime (Order of Assassins, 1972), o ocultismo (O Oculto, 1971), o sexo (Origins of the Sexual Impulse, 1963), a religião (Religion and the Rebel, 1957), a literatura fantástica (The Strenght to Dream, 1962) e assim por diante. Sua obra, em sua parte mais bem realizada, produz um efeito euforizante que nos faz imaginar que “as possibilidades, como sempre, são infinitas”.

E esse mesmo Wilson era filho de um sapateiro, estudou irregularmente aqui e ali mas foi basicamente um auto-didata que lia quantidades enormes de livros e aos catorze anos já tinha escrito um Manual Geral de Ciências em vários volumes. Um plebeu de origem, sem graus acadêmicos significativos: um sujeito que (como eu mesmo) se educou nos salões das bibliotecas, nas enciclopédias encadernadas e nas coleções de fascículos vendidas em bancas.

Plebeus de origem mas aristocratas do espírito, destinados a viver numa cultura (os EUA de Miller, a Inglaterra de Wilson) dominada em grande parte por cavalgaduras engravatadas incapazes de entender um silogismo ou de explicar por que uma lâmpada elétrica acende.

E no entanto, que importância tem isso?  O universo está à sua (à nossa) disposição. A vida está aberta para quem sabe pensar,

feito o balão
que,
como num jogo,
se eleva,
no que leva o fogo
que o leva.  (p. 64)




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

3749) "The Black Room" (28.2.2015)



Colin Wilson, escritor existencialista britânico, propôs o conceito de “outsider” para designar o indivíduo inquieto, rebelde, movido por uma intensa busca de sentido na vida, e que tanto pode derivar para a grande arte quanto para o crime.  Muitos livros seus têm como centro personagens que realizam essa busca.  Neste romance de 1971, a história acompanha o compositor erudito Christopher “Kit” Butler, que aceita, meio na esportiva, o convite de um amigo que faz parte do Serviço Secreto britânico, o MI5, para participar de uma experiência científica como cobaia altamente qualificada.  A experiência, realizada numa espécie de hotel-com-laboratório num lugar remoto, consiste em submeter-se durante dias à experiência da total privação dos sentidos da visão e (tanto quanto possível) da audição.  O objetivo é medir o grau de resistência ao tédio e ao isolamento, para seleção e treinamento futuro de espiões.

Butler é o porta-voz das teorias de Wilson, e discute com os cientistas e as outras cobaias sobre energia mental, concentração, autocontrole emocional, etc.  Ao mesmo tempo, ele percebe que outras agências, como a CIA, a KGB e uma misteriosa “Estação X”, espionam as pesquisas dos ingleses.  Na segunda parte do livro, Butler, já aprovado, está em Praga numa missão um tanto inócua mas arriscada. É sequestrado e depois de algumas aventuras violentas vai parar na sede da misteriosa Estação X, onde se defronta com um chefe cheio de teorias próprias sobre o assunto.

Em matéria de escritor popular, conheço poucos como Colin Wilson capazes de encadear uma discussão filosófica e psicológica superficial, mas que faz sentido, com aventuras e um senso de realidade satisfatório.  Os seus romances policiais são bem melhores que sua ficção científica, e The Black Room lembra um pouco aquelas histórias de espionagem cheias de traições, subentendidos e reviravoltas, tipo John Le Carré.  O único defeito do livro, se é que é defeito e não um corte ousadíssimo, é que ele não acaba, interrompe-se bruscamente.  Há um desfecho em vista, mas precisaria de mais 20 ou 30 páginas para dar-lhe alguma conclusão satisfatória numa situação política tão complicada, embora haja algumas alusões interessantes à política européia de 1968. 

Pode-se dizer de Wilson o que já foi dito de Philip K. Dick: que a leitura de sua obra pode começar com qualquer título, porque sua visão do mundo está inteira em cada um, e cada um conduz aos demais como se todos fossem continuação de todos. A fé infatigável de Wilson nos poderes da mente humana perpassa sua filosofia, seus romances populares, suas antologias, sua obra sobre crimes e sobre ocultismo.







sábado, 20 de setembro de 2014

3609) Tempos interessantes (20.9.2014)




(livraria em Londres durante a II Guerra)


Os chineses têm uma expressão para rogar praga a alguém: “Tomara que você viva em tempos interessantes”. É o contrário de desejar a alguém paz e tranquilidade, não é mesmo?  

Doris Lessing dizia que os bombardeios nazistas sobre Londres trouxeram morte e terror para muita gente, mas também trouxeram um pouco de animação para suas vidas. Uma senhora londrina bem idosa lhe disse uma vez: “It was a nice change.” (“Foi uma mudança agradável”). 

Pode ter sido. Para pessoas que levavam uma vida tediosa, reprimida, asfixiante, a guerra pode ter representado uma liberação, uma instabilidade onde era possível meter os pés, arregaçar as mangas, tomar decisões, viver intensamente, em suma. Tempos interessantes.



Algo parecido é dito por Colin Wilson em vários livros: que durante os bombardeios da II Guerra Mundial os londrinos se divertiam a valer nos bares instalados nos porões. O chão tremia, as bombas caíam a algumas dezenas de metros, mas a música não parava, a bebida rolava solta, todo mundo namorava e dançava pra valer. 

A proximidade e a possibilidade da morte (bem como a impossibilidade de fazer algo a respeito) pareciam tornar cada minuto mais carregado de significado.



F. Scott Fitzgerald (Echoes of the Jazz Age, 1931) dizia que a palavra jazz estava associada “a um estado de estimulação nervosa não muito diferente daquele das grandes cidades logo aquém do front de batalha. Para muitos ingleses, a guerra ainda continua, porque todas as forças que os ameaçavam ainda estão em atividade. Portanto, vamos comer, vamos beber e nos divertir, porque amanhã a gente morre.” 

Note-se o quanto Fitzgerald tinha razão: a guerra a que ele se refere era a Primeira, e os ingleses tinham uma percepção muito sensata do que lhes vinha pela frente.


Quem gosta de tempos interessantes são as pessoas que gostam de desafios, de aventuras, as que não temem a incerteza, que sabem conviver permanentemente com os próprios medos. 

Pessoas pacatas são sabem conviver com o medo. Quando estão numa situação mediana e satisfatória de estabilidade, querem que tudo permaneça assim. Têm moradia, comida, trabalho, o básico da vida; e a última coisa que desejam é que essa estabilidade precária seja ameaçada.  Diante do novo e do desconhecido, esperneiam e vociferam. São capazes de tudo para manter as coisas do jeito que estão. 

Entre a aventura de querer melhorar e a segurança de se agarrar ao que já têm, preferirão sempre esta última. Temem as próprias limitações, acham sempre “que não vai dar”, agarram com desespero o pássaro-na-mão que o destino lhes concedeu até agora. Não querem viver em tempos interessantes.









quarta-feira, 11 de abril de 2012

2840) Detetives psíquicos (10.4.2012)



(At the European Concert, Seurat, 1887-1888)

A paranormalidade é uma zona crepuscular entre a ciência e as doutrinas espiritualistas. Envolve uma quantidade enorme de fatos extraordinários (telepatia, precognição, psicometria, clarividência, etc.), para os quais a ciência ainda não tem explicação. As doutrinas espiritualistas os explicam com a sua hipótese padrão, a de que os seres humanos possuem uma alma que sobrevive à morte do corpo físico e é capaz de se comunicar com os vivos, em circunstâncias especiais. Os dois grupos trabalham com critérios e parâmetros diferentes, e cada um recusa os parâmetros do outro. É como aquela discussão entre um cosmólogo e um bispo, em que o cosmólogo se queixou de que ninguém era capaz de provar cientificamente a existência de Deus. O bispo retrucou que ninguém conseguira provar teologicamente a existência do Universo. (Talvez o bispo não estivesse bem informado, porque me parece que muitos dos filósofos cristãos aceitam, sim, a existência do Universo – se bem que como um efeito colateral da existência de Deus.)

Teorias à parte, o que existe é um impressionante acúmulo de fatos paranormais. Como não há explicação científica para eles, muitos cientistas tentam desqualificá-los com acusações de charlatanismo, auto-sugestão, alucinação, coincidências, histórias mal contadas, testemunhas não confiáveis, etc. Colin Wilson é um dos mais dedicados pesquisadores desses fatos, conhecido dos leitores brasileiros, nessa área, pelo ótimo O Oculto (Ed. Francisco Alves). Estive relendo The Psychic Detectives (1984), em que ele examina a paranormalidade em geral e depois se concentra na atividade dos detetives psíquicos, indivíduos a quem a polícia recorre quando não consegue elucidar um crime ou localizar uma pessoa desaparecida. Esses “psíquicos” (a palavra em português é apenas adjetivo, mas em inglês é usada também como substantivo, designando a pessoa que tem essa capacidade) são capazes de “ver” flashes do crime apenas pegando numa peça de roupa, numa fotografia, num papel manuscrito ou em qualquer objeto que tenha estado em contato com ela. Às vezes basta-lhes olhar um mapa para indicar com precisão o local do crime ou o local onde a vítima foi oculta.

Wilson compara esses psíquicos a concertistas musicais, e diz: “Esse nível de habilidade é mantido por uma prática constante, esforço constante; até mesmo um grande pianista sabe que precisa praticar várias horas por dia. Uma das razões pelas quais os psíquicos são muito mais erráticos do que os pianistas é, sem dúvida, que eles tendem a ser preguiçosos a respeito do seu dom, aceitando-o como algo natural, que não precisa ser desenvolvido”.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1715) Machado: “O Espelho” (10.9.2008)



(Machado, por Batistão)

É um dos contos de Machado de Assis mais elogiados pelos críticos. Vou abordá-lo aqui de um ângulo que talvez seja novo para os leitores, o da psicologia existencialista do crime, desenvolvida por Colin Wilson. O enredo do conto é simples. Num Polígono Boêmio de indivíduos de meia idade, um tal de Jacobina refere um episódio de sua juventude. Ele tinha acabado de ser promovido a alferes da Guarda Nacional, e foi passar uns tempos na fazenda de uma tia. Lá, todos estavam orgulhosíssimos de sua patente, que em termos de “status” social da época era algo como trazer uma medalha de ouro dos Jogos Olímpicos. Os parentes, os escravos, todos o tratavam por “senhor alferes”.

Um belo dia, a tia tem que viajar, e o deixa só na fazenda. Sem a patroa por perto, os escravos debandam. De repente, o rapaz vê-se sozinho. E um fenômeno curioso sucede: ele não consegue se enxergar no espelho. Vê a própria imagem “vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra”. Ele percebe que o espelho o reflete de acordo com as leis físicas, mas é ele próprio que não se enxerga: move o braço, e “o gesto lá estava, mas disperso, esgarçado, mutilado...” É tomado pelo medo, mas ocorre-lhe uma solução, e veste a farda de alferes. Vai ao espelho, e bingo! Agora sim, consegue ver-se nítido, integral. Nasce daí a teoria do Jacobina, de que as pessoas têm duas almas, sendo que uma lhes é externa – a dele era a farda e a condição de alferes. Sem elas, não era ninguém.

Colin Wilson, em Order of Assassins: The Psychology of Murder (1972) cita o conto de Machado para avalizar sua própria teoria da auto-imagem. Para Wilson, nosso erro fundamental a respeito da consciência é considerar que ela é um processo automático, como a respiração. Não é. Ela depende de um esforço permanente, como a natação; quando a gente pára, afunda. O conto de Machado revela que “o mundo ao nosso redor é um espelho que nos reflete. Quando a nossa vitalidade está elevada, ele nos reflete de maneira nítida e clara; mas às vezes estamos tão difusos que mal conseguimos nos enxergar”.

Precisamos do aval e do reconhecimento do mundo à nossa volta. Sem isto, corremos o risco de ser (diz Wilson) como o padrasto de Jean-Paul Sartre, descrito pelo próprio: “Nos domingos, ele se recolhia dentro de si mesmo, encontrava ali um deserto, e se perdia”. Em muitos criminosos conjugam-se a agressividade, a baixa auto-estima, e a necessidade de afirmação. O crime, diz ele, é um instante em que um indivíduo passivo, abatido, humilhado, pratica um ato de intensidade arrebatadora e consegue enxergar de novo a própria imagem. É o mendigo que estupra e mata uma moça à beira da estrada, o assaltante que invade uma casa e chacina uns desconhecidos. É também, no caso dos serial killers, o momento em que um sujeito medíocre mata alguém, e vê toda a imprensa do país pensando nele, falando nele, doida para saber quem é ele. E a imagem no espelho do quarto fica nítida de novo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

1329) “Clube da Luta” (16.6.2007)



Clube da Luta, de David Fincher (1999) é um desses filmes polêmicos cujos críticos contra e a favor se exaltam a tal ponto que a gente vê a hora eles se transformarem em outro clube-da-luta como aquele em que Edward Norton e Brad Pitt se esmurram até transformarem a cara um do outro em postas sanguinolentas. O filme tem uma história inquietante, um roteiro extremamente tenso e energético, uma realização visual rica de efeitos. Mas eu não gosto do filme. Por quê?

Ele se divide em três partes. Na primeira, mostrando a vida de um executivo rico, “banana”, abestalhado, o filme é uma crítica ao consumismo, à passividade, à burocracia. Na segunda, quando ele fica amigo de Pitt e os dois criam um clube dedicado a brigas corporais, ocorre uma regressão ao animalismo, ao vitalismo, ao sentido zoológico da vida, ao materialismo corporal como reação à falta de sentido da vida em sociedade. Na terceira parte, eles começam a criar milícias voltadas para a violência cega, para a destruição gratuita de símbolos do Poder Econômico, como as firmas de cartões de crédito. A esta altura, o filme descambou para um homossexualismo machista sem sexo, fundado na agressividade, num sadomasoquismo militarizado e anarquista.

O primeiro terço do filme é uma excelente sátira à sociedade americana. O segundo terço é um desabafo vitalista, uma sacudida brutal que choca, impressiona, e é intelectualmente compreensível. O terceiro terço é um sintoma da desorientação dos próprios autores, que acabam mergulhando no delírio que criaram e acreditando na fantasia para-fascista com que tentaram satirizar a sociedade que renegam. Quando os cidadãos pacatos começam a participar do Clube da Luta (a respeito do qual é preciso manter segredo absoluto), sentem-se como garotos admitidos no interior de uma Sociedade Secreta onde podem dar vazão a sua agressividade, mesmo que seja ao preço de ter os dentes e o nariz partidos. Sentem-se vivos pela primeira vez. A mim, isto lembra a teoria do “Outsider” de Colin Wilson – o sujeito de inteligência superior que não consegue se adaptar a uma sociedade incapaz de compreendê-lo e de utilizar seus talentos. Para não morrer de tédio ou de depressão, ele às vezes vira um criminoso – só “para se sentir vivo de verdade”.

O filme de Fincher tem uma visão Bin Laden da política: para combater os males do capitalismo, basta explodir seus arranha-céus. É uma visão apocalíptica, destrutiva e fascista da política atual. Por ser tecnicamente muito bom, o filme inquieta, já que tudo que diz parece plausível. E o filme emperra numa situação que sempre existiu no cinema, mas parece estar existindo cada vez mais: o cara mostra aquilo tudo para criticar, ou porque gosta daquilo e quer mostrar a todo mundo? É uma discussão antiga, principalmente com filmes violentos. Fincher parece às vezes aquele fotógrafo que vai cobrir uma passeata e acaba participando dela.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

1220) Os reféns do robô (9.2.2007)




Raul Seixas dizia, numa canção famosa, que o ser humano só usa dez por cento de sua cabeça animal. Não sei se é verdade científica, mas o fato é que quando ele disse isto todo mundo acreditou na mesma hora. Por que? Porque sentimos, intuitivamente, que é verdade. Sabemos que durante a maior parte do nosso tempo estamos sub-utilizando nossos neurônios. 

Vivemos numa espécie de sonambulismo lúcido, que nos permite conversar, sair de casa, trabalhar, comer, ir ao cinema, usando apenas um mínimo da inteligência de que dispomos. Um enorme desperdício – mas é tão cômodo, e nós somos tão preguiçosos... Não custa nada viver assim. Dá menos trabalho.

Os cientistas têm utilizado a ressonância magnética para mapear o que acontece no cérebro das pessoas quando estão executando tarefas e quando estão simplesmente descansando entre uma tarefa e outra. Voluntários recebem cálculos mentais, ou tarefas de memorização, e o resultado da ressonância mostra certas áreas do cérebro intensamente envolvidas. 

Nos intervalos, quando são deixados a sós, mas ainda sob monitoração, outras áreas, as mesmas em cada indivíduo, assumem o comando. Depois, todos confessam que estavam “pensando bobagem” ou devaneando.

Colin Wilson é um dos ensaístas que mais se desesperam com este estado de coisas. Ele compara nossa mente consciente a um robô, a um piloto automático, e analisa (em O Oculto, ed. Francisco Alves) a obra de Gurdjieff, pensador russo que para uns era um mago, para outros um charlatão, mas que parece ter compreendido como ninguém certos segredos do funcionamento de nossa mente. 

Para Gurdjieff, o que chamamos de consciência não passa de um devaneio constante. Nossa mente só desperta de verdade quando algo urgente nos ocorre, ou quando experimentamos um estímulo mental muito poderoso (uma música, um texto, etc.). 

Nesses momentos, mente e corpo acendem todas as suas luzes, passam a trabalhar a todo vapor. Somos invadidos por uma energia que não sabemos de onde surgiu; nossa percepção sensorial se torna aguda e nítida, nossa mente parece raciocinar a uma velocidade espantosa.

Perguntam Gurdjieff e Wilson: não poderia ser assim o tempo todo? Por que nos resignamos a esta vida mecânica, repetitiva, em que achamos que estamos “acordados” simplesmente porque estamos andando na rua e conversando com outras pessoas, mas na verdade estamos num estado meio sonambúlico? 

Psicólogos e neurologistas têm confirmado estas opiniões de Gurdjieff. Para eles, passamos a maior parte do tempo reféns do robô, entretidos em devaneios sem rumo, recordando fatos recentes ou planejando coisas: um trabalho, uma conversa com alguém. Tudo isto exige apenas um mínimo de esforço mental, e é algo que brota espontaneamente em nosso cérebro quando ele não está sendo exigido para nada urgente, mais ou menos como um “screen saver”, ou protetor de tela, toma conta do monitor de nosso computador se ele passar algum tempo sem ser utilizado.






sexta-feira, 17 de julho de 2009

1155) A Síndrome de Bonnet (25.11.2006)


("Darby O'Gill")

A Síndrome de Charles Bonnet (a sigla em inglês é CBS, e nada tem a ver com a rede de TV norte-americana) é uma rara anomalia visual em que as pessoas vêem objetos ou seres que não estão ali. Não se trata de uma alucinação, porque nas alucinações o senso de realidade da “vítima” fica prejudicado: ela tem dúvidas sobre a realidade ou não do que está vendo, e às vezes acredita piamente nas supostas aparições. Na Síndrome de Bonnet, a pessoa fica assustada, desorientada e preocupada com o que pode estar lhe acontecendo, mas como regra geral não lhe passa pela cabeça, nem por um momento, que aquelas coisas estejam de fato ali. É um erro do sistema visual, não um delírio da mente.

Há pessoas que vêem gnomos, há pessoas que vêm gente ou animais passando pelo meio da sala, há pessoas que vêem apenas padrões geométricos de linhas e formas. Não se sabe exatamente por que isto acontece, mas está ligado ao modo como o cérebro processa os estímulos que recebe através do nervo ótico e os organiza numa imagem coerente. E este processo não é simples. Por exemplo: as imagens que vemos são todas de cabeça para baixo, porque é assim que elas se formam numa câmara escura (como uma máquina fotográfica tradicional). Bebês vêem as coisas de cabeça para baixo, e só com um longo treinamento, através do tato, do andar, etc., aprendem a remontar essa imagem de modo a corresponder com a real posição das coisas.

Fico pensando se muito do que existe na literatura não será o produto indireto de visões deste tipo. A Síndrome de Bonnet ocorre em pessoas com problemas clínicos de visão, e acontece com mais freqüência em momentos de repouso, quando a pessoa está num ambiente familiar. Uma hipótese sugere que problemas de visão podem fazer o cérebro produzir imagens por conta própria, de modo meio descoordenado, para preencher regiões visuais que não estão captando bem a luz. Um amigo meu, médico, me contou uma vez que teve um problema neurológico que o impedia de ver tudo que havia no lado superior esquerdo de seu campo visual. Via tudo escuro? Não, diz ele: simplesmente aquele lado não existia, não era registrado pelo cérebro. Em casos parecidos, a Síndrome de Bonnet pode colocar ali gnomos, alienígenas, vacas pastando, janelas inexistentes.

Alucinações visuais e auditivas são recorrentes em pessoas submetidas a experiência de privação sensorial. Colocadas num quarto escuro e com isolamento sonoro, as pessoas daí a pouco começam a “ver” e “ouvir” coisas. Isto me lembra uma idéia recorrente na obra de Colin Wilson, a de que a consciência é um ato intencional. Não recebemos passivamente as idéias que pensamos: pensamos o que queremos pensar. A percepção sensorial (o que vemos, ouvimos, etc.) pode ser passiva, mas o ato de interpretá-las e organizá-las mentalmente é resultado da vontade. Em momentos de desequilíbrio, a mente produz seu próprio alimento. Os sonhos e a Síndrome de Bonnet podem ser dois lados de um mesmo processo.

terça-feira, 24 de março de 2009

0912) O freio-de-mão da mente (17.2.2006)




Não sei se o leitor já passou por esta experiência. Eu passo de vez em quando, e posso garantir que é uma das sensações mais eufóricas que um ser humano pode sentir. Um êxtase, uma vertigem, um verdadeiro arrebatamento mental e emocional. Porre-de-lança perde. 

Refiro-me à sensação de profundo alívio que temos quando conseguimos por fim resolver um problema que estava enganchado há muito tempo em nosso juízo, uma daquelas complicações insuportáveis, irritantes, coisas do dia-a-dia que nos consomem a paciência e o bom-humor. 

Ficamos dias, às vezes semanas, com um impasse qualquer instalado em nossa mente. Situações exasperantes cuja solução às vezes não depende de nós, ou depende de uma decisão que ainda não estamos prontos para tomar, ou então é uma dessas escolhas-de-Sofia em que a gente precisa optar entre o prejuízo-A ou o prejuízo- B.

Quando uma situação assim se resolve, e ainda mais quando se resolve de modo satisfatório, a sensação de alívio é tão grande que nos embriaga. Dá tontura. 

Lembro de dois episódios assim. Um deles foi quando fui dispensado do serviço militar, e voltei do Quartel da Conceição até o Alto Branco sem que meus pés tocassem no chão. Vim alado, flutuando, com asinhas nos tornozelos feito o Deus Hermes, e com a sensação de que meu cérebro era um balão cheio de algum gás mais leve que o ar, querendo me alçar às amplidões do Universo. 

Outro foi quando, no Curso Clássico, com 18 anos, tive que apresentar um trabalho oral sobre “A Monocultura da Cana-de-Açúcar”, logo eu, incapaz de dizer uma frase em público! Passei uma semana no Purgatório, preparando o trabalho. No dia, sabe Deus como, fui lá na frente e falei, encorajado por alguns pares de olhos expectantes da platéia feminina, e gostei tanto da experiência que vivo a repeti-la até hoje.

Psicanálise, dianética, terapias dos mais diversos tipos sabem esta verdade intuitiva. Umas são mais científicas do que as outras, mas mesmo os charlatães mais cara-de-pau sabem o quanto a obtenção de resultados simples (e a resultante euforia que provocam no cliente) é importante para sua atividade. 

O sujeito que delega a outro a função de resolver seus próprios problemas está abrindo mão de um delicado poder. Colin Wilson, veterano explorador da mente humana, refere em muitas de suas obras esse processo pelo qual os problemas não resolvidos ficam girando perpetuamente em nosso cérebro, consumindo energia, minando forças, desgastando a matéria-prima de nossa vida. 

Para Wilson, no momento em que um desses “nós” é desatado é que nos damos conta das imensas energias que estávamos desperdiçando por causa dele. É como um sujeito que tenta dirigir seu carro, no meio do trânsito, com o freio de mão puxado. Ele consegue se deslocar, mas às custas de um enorme desgaste e desperdício de energia. No momento em que ele soltar o freio, vai perceber por que motivo tudo que parecia fácil para os outros era tão difícil para ele.






segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

0677) Teoria da inspiração (20.5.2005)




(Colin Wilson)

Não tem pra onde correr. Toda vez que um cineasta, teatrólogo, escritor, etc. dá uma entrevista, lá vem a pergunta de sempre: “E de onde vem a inspiração?” 

Eu entendo e compartilho o drama dos coleguinhas da imprensa, que todos os dias são forçados a fazer uma prancheta inteira de perguntas a desconhecidos. Mas isso não me poupa do suspiro resignado diante desta questão específica, que, caso vocês não saibam, é uma das mais desnecessárias entre as que abordam a criação artística. A inspiração, para o sujeito que cria, é o óbvio, é o inevitável, é o mais-que-possível. 

Um leigo deve pensar que um artista é um sujeito igual a todo mundo, que acorda, escova os dentes, dedica-se a tarefas rotineiras, e de repente é possuído por um espírito, ou atingido por um raio, e passa a produzir febrilmente uma obra de arte, antes que aqueles minutos de iluminação mística se dissolvam no ar. 

Concordo que de vez em quando acontece algo assim, mas, creiam-me, isto é um acesso eventual, e o processo normal da inspiração se dá por canais muito diferentes. Perguntar a um artista de onde vem a inspiração é como perguntar a um casal em lua-de-mel de onde vem aquela vontade de ficarem juntos o tempo todo. 

A inspiração não é um relâmpago eventual que cai quando menos se espera: é um estado permanente da alma, é uma condição mental que uma vez instaurada só pode ser revertida à custa de muita lavagem cerebral, muita discussão de besteira, muito trabalho tedioso, muito tempo desperdiçado com as irrelevâncias da vida.

O mais errôneo da pergunta, no entanto, é falsear o eixo da questão, ao sugerir que a inspiração “vem” até nós. É justamente o contrário. A inspiração é um estado mental auto-induzido. É um gesto da vontade. É uma decisão que tomamos: 

“Vou botar a cabeça pra funcionar. Vou pensar em coisas interessantes, vou examinar idéias que me atraem e me intrigam, vou começar a brincar com formas que me dão intenso prazer, vou criar variantes, vou criar comentários, vou criar respostas às coisas que estou vendo.”

Um dos meus pensadores preferidos, Colin Wilson, afirma (citando as teorias filosóficas de Husserl) que a consciência é um ato intencional. Ele a compara ao jato de uma mangueira dágua dirigido sobre os objetos. 

Quando estamos frouxos, esvaziados, deprimidos, olhamos para as coisas e elas não nos despertam nenhuma emoção, nenhuma idéia. Por que? Porque não são elas que têm de vir até nós. “Que tristes são a coisas” , dizia Drummond, “consideradas sem ênfase”. Somos nós que temos de dirigir para as coisas o nosso jato de vontade, de ênfase, de entusiasmo pensador e criador, embebê-las com toda a carga emocional de nossa memória e de nossa imaginação, encharcá-las com nossas emoções. 

Eu diria que o gesto artístico não depende de inspiração, e sim de “expiração”: ele é o sopro criador que dirigimos sobre as coisas inertes do mundo, transmitindo-lhes a vida que existe em nós, e somente em nós.





sexta-feira, 1 de agosto de 2008

0483) O jipe abandonado (6.10.2004)



Sempre que me detenho a pensar sobre os mistérios do funcionamento da mente humana (ou seja, umas dez vezes por dia) me vêm à mente dois extremos. Um deles é a denúncia desesperada de Raul Seixas, de que só usamos dez por cento de nossa cabeça animal. Coitado de Raul, que danou-se a tomar tudo quanto lhe aparecia pela frente, pensando que estava a desbravar os noventa por cento restantes, mas estava de fato era bombardeando os dez que tinha. O outro extremo é o otimismo sem limites de Colin Wilson, cujos personagens lêem um livro do filósofo Husserl e ganham um tal nível de consciência dos próprios poderes que são capazes de fazer a Lua girar usando a força mental (não, não estou exagerando, leiam Parasitas da Mente).

O que me vem à lembrança nessas horas é um episódio que li certa vez numa revista. Um grupo de antropólogos estava estudando uma tribo africana. Depois de encerrados os estudos (ou talvez, mais realistamente, depois de consumida a verba do Governo), voltaram para casa e deixaram nas proximidades da tribo um jipe velho que não valia a pena trazer de volta. Mal os cientistas partiram, a tribo apossou-se festivamente do veículo, que para eles era um símbolo dos poderes mágicos do homem branco.

Acostumados a ver o jipe indo e voltando, os índios fizeram de tudo para pô-lo em funcionamento, tentando repetir os gestos que tinham visto os brancos fazendo. Sem sucesso, claro; o motor estava batido, o tanque vazio. Depois de muito tentarem, um pajé mais prático sugeriu puxarem o jipe com uma junta de bois, o que foi feito. Daí em diante, em todas as ocasiões festivas o cacique, o pajé e seus assessores se empoleiravam no jipe, e a junta de bois dava dez voltas com ele em torno das cabanas, sob os aplausos da tribo inteira.

Tudo muito bem, mas eles sabiam que faltava alguma coisa. O jipe estava muito pesado e exigia muito dos bois, porque, misteriosamente, as rodas estavam emperradas, e se recusavam a girar como faziam antes. Vai daí que um belo dia, quando o passeio festivo estava se cumprindo, um índio mais curioso começou a mexer na alavanca do freio-de-mão, e de repente – Shazam! Abracadabra! As rodas foram liberadas, giraram com facilidade, o jipe ficou levíssimo e veloz. O descobridor deve ter sido promovido a cacique, ou no mínimo a Ministro Chefe da Casa Civil. E daí em diante o jipe não parou mais de circular.

Pois é assim nossa relação com a mente. De vez em quando descobrimos algo que parece, por fim, nos dar acesso a todas as suas possibilidades. Não importa o quê: hipnotismo, meditação, LSD, implantes cibernéticos, Método Silva de Controle Mental, cientologia, Prozac, não importa. Acreditamos ter finalmente transposto o umbral das portas da percepção, acreditamos ter-nos tornado, por fim, iguais aos deuses. Mas estamos tão iludidos quanto os nossos aborígines rebocando um jipe que nunca vai funcionar direito.

sábado, 5 de julho de 2008

0438) O Manuscrito Voynich (14.8.2004)



(Manuscrito Voynich)

O mundo das bibliotecas fervilha de mistérios, de segredos, de manuscritos obscuros, de obras esquecidas, de revelações estonteantes guardadas para daqui a décadas ou séculos quando descobrirmos um velho alfarrábio esquecido e formos capazes de decifrar seu conteúdo. Não estou exagerando, leitor. A carta de Pero Vaz de Caminha, talvez nosso mais importante documento histórico, ficou ignorada durante séculos até ser achada em 1793 na Torre do Tombo. Julio Verne escreveu em 1863 um romance, “Paris no Século 20”, que só foi descoberto em 1989 pelo seu bisneto, num cofre esquecido. Há grandes descobertas esperando para acontecer.

Uma das que eu aguardo com mais ansiedade é a decifração do Manuscrito Voynich, que já foi chamado, com justiça, “o livro mais misterioso do mundo”. Tomei conhecimento dele através dos escritos de Colin Wilson, que lhe dedica um capítulo de sua Encyclopedia of Unsolved Mysteries (1988), mas quando fui atrás descobri que existe uma enorme comunidade internacional (incluindo historiadores, bibliófilos, criptógrafos e lingüistas) mobilizada em torno deste livro enigmático. Um bom saite para quem quiser ter uma idéia é o de René Zandbergen (http://www.voynich.nu/).

Vamos aos fatos. Trata-se de um livrinho de 15 por 22 centímetros, com pouco mais de 100 páginas, em pergaminho. Está escrito num alfabeto que não foi decifrado até hoje (é este o grande desafio), e fartamente ilustrado, como desenhos em quase todas as páginas. Os desenhos mostram plantas desconhecidas, órbitas astronômicas, figuras humanas, e desenhos que lembram cortes anatômicos. Parece ser uma espécie de manual ou almanaque com conhecimentos básicos de ciências naturais. Quem quiser poupar tempo e ver imagens digitalizadas das páginas do livro, pode ir para: http://beinecke.library.yale.edu/brbldl/, e digitar “Voynich”.

O manuscrito parece ter sido escrito entre 1450 e 1500; houve quem o atribuísse ao cientista Roger Bacon. Há documentos indicando que por volta de 1666 ele foi enviado ao jesuíta Athanasius Kirchner (o famoso inventor da “lanterna mágica”), com um pedido de decifração. Passou por várias mãos até que em 1912 foi adquirido pelo antiquário Wilfrid M. Voynich, que o levou para os EUA e iniciou uma campanha para estudá-lo, ficando o livro a partir daí conhecido como “Manuscrito Voynich”. Atualmente, ele está na Biblioteca Beinecke de Livros Raros, na Universidade de Yale (EUA).

Teorias recentes sugerem que o livro não passa de uma fraude bem elaborada, com um idioma tão inventado quanto as ilustrações. Dezenas de criptógrafos dedicaram-se durante décadas a elaborar teorias e propostas de decifração, até hoje sem resultado. Se você é bom em códigos, leitor, arrisque sua sorte. O sujeito que decifrar este livro vai entrar para a História, ao lado de Champollion, que decifrou os hieróglifos egípcios. Está aí uma coisa que eu não gostaria de morrer sem saber a resposta!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

0375) Os mundos de Colin Wilson (2.6.2004)



Por que há tanto preconceito contra os livros de auto-ajuda? Que mal há em se ler um livro para levantar o astral, encorpar o otimismo, acreditar que-a-vida-vale-a-pena? Sou um sujeito meio kafkeano, meio gótico, e tem uma duziazinha de autores a que sempre recorro quando preciso de motivação metafísica para continuar respirando. Um deles é Colin Wilson, que já publicou dezenas de livros, já traduzidos no Brasil. Alguém irá objetar que seus livros não são de auto-ajuda, mas este é o X da questão. Minha auto-ajuda é de alto nível, rapaziada. Autor de auto-ajuda pra mim tem que ser um filósofo existencialista que escreve romances de mistério e de ficção científica, pesquisa a paranormalidade, e acredita em magia sexual. Ou seja: Colin Wilson.

Seus romances de FC são mais-ou-menos (Parasitas da Mente, Vampiros do Espaço), mas seus romances policiais são excelentes (Ritual nas Trevas, O Matador, A Gaiola de Vidro); talvez os melhores estudos literários de serial-killers. Seus livros sobre ocultismo (O Oculto, Mysteries) são ótimos, e neles Wilson desenvolve uma de suas teorias principais: a de que o ser humano utiliza apenas uma pequena fração de seus poderes mentais, os quais podem ser desenvolvidos através de técnicas específicas. Os grandes artistas e os grandes místicos são pessoas que conseguem produzir em si mesmos, e sustentar, esses estados de exaltação espiritual em que tudo parece fazer sentido. Wilson chama a esse poder mental de “Faculdade X” (um nome pouco imaginativo, reconheço). Diz ele: “Parece nada haver que o homem não consiga fazer quando dirige a mente para o que pretende. Uma vez formada claramente a idéia do que ele deseja, ele parece insuperável. Seu problema nunca foi força de vontade, mas imaginação: saber para onde dirigir sua vontade”.

Wilson ficou famoso muito jovem, ao publicar seu livro fundamental, O Outsider (1956). O outsider é o indivíduo talentoso mas desajustado, possuído por um impulso imperioso de realizar algo, dotado de uma visão privilegiada, mas que entra em choque com sociedades conservadoras ou repressivas. Os outsiders podem virar grandes artistas à beira da loucura (Dostoiévski, Nijinski, Van Gogh), líderes políticos ou espirituais (Lawrence da Arábia, Gurdjieff), visionários (William Blake) e também podem tornar-se criminosos.

Por que os livros desse cara me servem de auto-ajuda? Acho que tudo é uma questão de credibilidade. Acredito em Colin Wilson mais do que em Nietzsche, Aristóteles, Karl Marx, Paulo Coelho, Khalil Gibran. Acho que é porque os gostos dele são parecidos com os meus. É um cara que se interessa pelo Abominável Homem das Neves e pelos crimes de Jack o Estripador; que leu Van Vogt e Lovecraft, além de Sartre e Kafka. Falamos a mesma língua. Se ele acredita na Faculdade X, e já escreveu 100 livros a respeito, por que não posso eu acreditar, e escrever outros tantos? Mãos à obra. Estão vendo como funciona?

domingo, 9 de março de 2008

0133) O canto das sereias (24.8.2003)




(George Turner, "Snowstorm")


Uma coincidência é um mote que o Acaso joga na bandeja à nossa frente: “Quê que tu consegue fazer com isso aí?...” É uma dica, uma provocação. Ontem li em dois lugares totalmente diferentes (um artigo de J. C. Avellar sobre cinema numa revista, um texto sobre pintura figurativa na Internet) referências a um mesmo episódio. Em 1842, o pintor inglês George Turner, famoso pelas suas pinturas marítimas, fêz-se amarrar ao mastro de um navio, durante uma tempestade, para poder contemplar a fúria dos elementos sem correr o perigo de ser arremessado para fora do tombadilho por algum vagalhão mais impetuoso. Aguentou por 4 horas o sacrifício, em nome de arte, e produziu uma bela pintura intitulada “Snow Storm”.

A imagem do indivíduo atado ao mastro é um episódio da “Odisséia”. Ulisses ordena aos seus marinheiros que ponham cera nos ouvidos e que o amarrem ao mastro. Assim, os marinheiros remam sem ser perturbados, e ele pode conhecer o canto das sereias sem atirar-se ao mar em busca delas, como faziam todos os que se aventuravam por aqueles mares. Eu mesmo publiquei um poema inspirado neste episódio (“Bilhete cínico aos trabalhadores”, no livro “Balada do andarilho Ramón”).

Em síntese, essa imagem representa o artista que quer chegar perto do abismo, mas quer também ter a certeza de voltar. Pelo bem da arte, ele quer ter uma experiência transcendente e perigosa, mas quer fazê-lo cercado de algumas garantias. Parece haver nisto uma certa covardia, mas existe lógica: se o artista morrer durante a experiência, ela terá sido em vão, porque ele não foi capaz de retratá-la numa obra de arte. O objetivo do artista é a obra, ou seja, a “reportagem do que aconteceu”, e não a experiência em si. Quando Aldous Huxley, em maio de 1953, tomou quatro decigramas de mescalina dissolvidas em meio copo dágua, ele o fêz acompanhado da esposa e de um cientista que pesquisava o efeito das drogas, e gravou em fita tudo que foi conversado naquela manhã – o que lhe serviu de base para o livro “As portas da percepção”.

Jean-Paul Sartre foi outro que experimentou a mescalina antes que ela fosse transformada em modismo na era Woodstock. Em 1935, ele tomou mescalina e teve terríveis alucinações com monstros e caranguejos que o perseguiam. Há relatos de que ele julgava ver um enorme orangotango espreitando-o do lado de fora da janela (fico imaginando se não seria influência do filme “King Kong”, lançado dois anos antes). Uma parte do impacto mental desta experiência foi reconstituído em A Náusea, que é tanto um romance existencialista quanto um relato de estado alterado de consciência. Em Beyond the Outsider, o livro em que descreve sua própria experiência com mescalina, Colin Wilson observa que a experiência de Huxley foi próxima de uma iluminação mística, e a de Sartre uma verdadeira “bad trip”. Por mais que se tomem precauções, ninguém volta ileso de uma descida ao abismo, porque no fundo de todo abismo existe um espelho.