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quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

4895) Leituras 2022 -- 3 (21.12.2022)



Não costumo fazer listas de “dez melhores”, mas sempre gosto de dar um balanço, no fim do ano, de alguns livros que li e que por variadas razões não comentei aqui no blog. Quisera eu ser daqueles sujeitos organizados que “ficham” cada livro que leem, redigindo pelo menos meia página de observações. Não é o meu caso. Estas anotações, porém, podem servir como dicas de leitura, ou para que o leitor compare com suas próprias impressões.

 

CLÁSSICOS
“Wise Blood” (1952), de Flannery O’Connor
Flannery O’Connor é uma contista de estilo e cenas tão imprevisíveis quanto Clarice Lispector. Suas histórias curtas sobre aquele mundo de pernas para o ar que é o Sul dos Estados Unidos estão em todas as antologias. Procurei este romance depois de ver e rever a excelente (e fiel) adaptação de John Huston, com Brad Dourif no papel de Hazel Motes, o rapaz que volta da guerra transtornado. Ele se perde da família, fica vagando sem rumo certo, se apaixona pela filha de um pastor charlatão que finge ser cego, e embarca num delírio psico-religioso que o leva a algumas catástrofes pessoais. No meio de tudo isto ainda cabem o roubo da múmia de um anão, um automóvel jogado num lago, um homem que queima os próprios olhos, uma fila de garotos para apertar a mão de um gorila, e por aí vai. 
 
A literatura de Flannery O’Connor me parece existir num terreno fora dos EUA (sem com isto deixar de ser intensamente norte-americana), mas uma terra-de-ninguém onde se situam também vários romances do “realismo mágico” latino-americano, vários romances nordestinos com um pé no insólito e no bizarro... Em suma, histórias que constroem delírios em torno da visão mágica do universo, a qual não é muito distante da visão religiosa, principalmente a visão dos fanáticos religiosos ou dos “messias artesanais” – os profetas por conta própria, como é o caso de Hazel Motes.
 
Dentro da literatura norte-americana este livro pode evocar algo daquelas histórias de dark fantasy como em Ray Bradbury (Something Wicked This Way Comes), Jonathan Carroll, Charles G. Finney (The Circus of Dr. Lao). Mas a visão de Flannery não tem aquelas interfaces confortáveis com a fantasia-de-gênero. Parece uma obra brotada de uma enorme solidão, onde a autora vê o mundo, vê Deus, não duvida da existência de nenhum dos dois, mas duvida que qualquer um deles tenha razão de existir.
 



AUTOR NACIONAL
“Onde as verdades nascem” (Patuá, 2022) de Julio César Bernardes
Primeiro livro de contos do autor paulista. Histórias que roçam pelo fantástico e pelo insólito, numa prosa trabalhada. São ambientadas geralmente em cidades do interior onde acontecem fatos bizarros. As histórias são contadas num tom vagaroso e impassível, deixando os elementos insólitos aparecerem como parte integrante daquele ambiente que se desvenda; em geral não há surpresa a não ser a dos personagens envolvidos. Esse tom se mantém mesmo quando a narrativa é na primeira pessoa e por mais estranhos que sejam os fatos relatados: cabeças cortadas que começam a aparecer nas ruas de um bairro, um menino sonha uma vida completa com outra família num país desconhecido, um vagabundo de rua parece deter o segredo de um acidente que se abaterá sobre a cidade, a cidadezinha de litoral que não sabe o que fazer com a carcaça de uma baleia gigantesca onde um homem sem-teto resolve fazer morada. 
 
 

EXPERIMENTAL
“The Conversions” (1962), de Harry Matthews
É um típico romance do pessoal da OuLiPo, a Oficina de Literatura Potencial formada por um grupo parisiense. Aqui, um milionário deixa uma fortuna em testamento para quem for capaz de responder algumas perguntas absurdas e misteriosas, e o narrador mergulha numa série de eventos bizarros, encontrando gente estranha que se comporta de modo inexplicável. Tudo está contido numa série de “chaves” verbais, como o enunciado de uma charada, que em si mesmo não faz sentido, mas é narrado ao pé da letra, como se fizesse. Não é para todos os gostos. Eu gosto. 




MEMÓRIA
“Tarcísio Pereira: Todos os Livros do Mundo” (Recife, CEPE, 2022), de Homero Fonseca
A vida cultural do Recife nunca teria sido a mesma sem a influência de um dos seus maiores livreiros. Tarcísio (falecido em 2021, vítima da Covid) foi o homem que criou nos anos 1970 a “Livro 7”, mistura de livraria, bar, centro cultural e reduto de resistência política. Homero Fonseca pesquisou com carinho e reconstruiu o ambiente que possibilitou a existência da “maior livraria do Brasil”. Amigos do biógrafo e do biografado contribuíram com artigos, fotos, depoimentos, documentos de época; eu forneci um poema, “A Caverna Luminosa”, porque sou em grande parte um produto daquele aqui-e-agora.



POLICIAL
“Hotel Iris” (1996), de Yoko Ogawa
Uma garota adolescente, cuja mãe administra um hotel, se deixa fascinar por um homem mais velho que costuma se hospedar ali com prostitutas. Ela passa a segui-lo, até ser levada para a casa dele, onde os dois se entregam a rituais previsivelmente bizarros. O livro é contado do ponto de vista dela, com uma espécie de fascinação robotizada. Lembra a teoria da “vitimologia” de Julio Cortázar, para quem algumas histórias de crime são desencadeadas em igual medida pelo criminoso e pela vítima, a qual encara o perigo com o mesmo destemor anestesiado com que um viciado encara a droga que o está destruindo.
 



AUTOR NACIONAL
“O que a casa criou” (Record, 2021), de Diogo Monteiro
Este livro, vencedor do Prêmio Sesc de contos, tem uma prosa burilada minuciosamente, cada frase é inteira em si própria, sem servir de mero veículo para o fluxo da narração. Seria chamada de prosa poética, se isso não fosse hoje um termo meio maldito, principalmente no Brasil; mas mesmo assim é a narração que predomina. Mesmo elíptica e onírica em muitos pontos, é sempre uma história que está sendo contada, em ambientações rurais ou interioranas: o circo mambembe que viaja guardado numa caminhonete (“Várzea”), o lago que devolve as pedras jogadas dentro dele (“Repique”), o menino cujas partes do corpo desaparecem de uma em uma sem que isso cause alarme à sua mãe (“Campainha”). Todo um estilo, caprichado e imaginativo, se desdobrando.



FICÇÃO CIENTÍFICA
“The Other Nineteenth Century” (2001), de Avram Davidson
Avram Davidson era um judeu novaiorquino, baixinho, barbudo e irascível. Morou algum tempo no México e depois nas Honduras Britânicas (América Central), antes de se estabelecer na Caifórnia. Foi um desses indivíduos com leituras vastas e ecléticas, um vasculhador incansável de alfarrábios, arquivos, bibliotecas empoeiradas, hemerotecas de um tempo em que este termo ainda estava em uso.
 
The Other 19th Century é uma coletânea póstuma das principais histórias que ele ambientou nesse século, com o qual se identificava. Muitas de suas histórias de FC têm lugar no passado, com episódios bizarros relativos à descoberta e exploração da eletricidade, rádio, etc.  Bastaria esta coletânea para que Davidson pudesse ser considerado um precursor do gênero steampunk, porque ele mostra, além da fascinação pela tecnologia vintage, o exotismo de uma época delirantemente imperial, e a mestiçagem cultural resultante do refluxo, para dentro das capitais dos impérios, de tudo que existe de improvável e ininteligível na cultura das colônias.
 
Davidson (1923-1993) sempre foi uma espécie de “estranho no ninho” na FC norte-americana – ainda assim, ganhou prêmios como o Hugo, o World Fantasy Award e o Edgar (de literatura policial). Ursula LeGuin disse certa vez, referindo-se a Philip K. Dick, que este seria “o Borges do nosso país”. Acho que Avram Davidson é quem mereceria essa qualificação, por mais de um motivo.
 
O título completo deste livro é: O Outro Século Dezenove: Uma Coletânea de Histórias de Avram Davidson, Contendo Extraordinárias Revelações sobre as Vidas de Pessoas da Literatura; bem como Relatos Fidedignos sobre Fósseis Vivos, a Câmera de Montavarde, a Máquina de Irradiodifusão, e o Vilvoy das Ilhas; com Crimes Nefandos, Nobres Damas em Adversidade, Brilhantes Deduções, Eunucos Imperiais, Maquinações Políticas, etc etc



CLÁSSICOS
“Orlando” (1928), de Virginia Woolf
Li este livro em tradução brasileira, quando tinha trinta e poucos anos, e tive a sensação de que estava lendo um livro de alguém tão hábil com as palavras e com os pensamentos quanto Machado de Assis. (Li na edição do Círculo do Livro, e até hoje não consegui descobrir quem traduziu esta versão.) Reli agora no original inglês, e achei o livro muito melhor, mas muito mesmo. O impulso de reler veio por ter assistido a ótima adaptação feita por Sally Potter em 1992, com Tilda Swinton no papel-título.
 
Virginia Woolf tem o dom, que nem todos os escritores (mesmo os que são geniais) têm, de puxar o leitor pelo fio das palavras da maneira como uma criança puxa pelo fio de uma linha a sua pipa (arraia, coruja, pandorga, etc.).  Basta um fio de palavras, e como o fio tem solidez e tensão suficientes, ele arrasta o leitor para o século tal, para Londres, para Istambul, para o oceano, para o passado e o futuro... Virginia Woolf escreve o tempo todo como quem começa a contar uma história para os frequentadores de um café egípcio, e poucos parágrafos mais à frente tudo acontece como se estivesse acontecendo de verdade, ou seja, num filme de verdade, com atores e tudo, navios e tudo, explosões e tudo; e mal se dissipa o fumo das explosões lá vem o fio das frases nos arrebatando e nos levando de novo na direção que a autora bem entende, e até em direções que ela confessa não entender por completo, mas afinal, como é ela que está levando, ela leva mesmo, lá vai ela e lá vamos nós. 
 
Este livro é uma beleza, li traduzido em edição de papel, li agora em inglês (em PDF no celular), e pretendo comprar outra versão em papel para me deleitar sublinhando. 
 

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Outras indicações: 

https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/12/4892-leituras-2022-1-12122022.htm

https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/12/4893-leituras-2022-2-15122022.html 





domingo, 6 de fevereiro de 2022

4791) A falsa profundidade (6.2.2022)



Há uma figura literária pouco estudada que eu chamo de A Falsa Profundidade. São aquelas frases que parecem estar dizendo algo muito profundo, sério, merecedor de reflexão – mas se a gente encostar um alfinetezinho de análise, a frase pipóca que é uma beleza.

Pensei nisto lendo um conto de Avram Davidson, um dos autores mais eruditos e mais fora-de-esquadro da ficção científica dos EUA. (Rotular Davidson como “um autor de ficção científica” é como rotular Millôr Fernandes como “um piadista”.) Ele é um cara de leituras vastas e heterogêneas, um daqueles judeus novaiorquinos baixinhos, barbudos, irascíveis, mas na hora de pegar na pena tem uma finura estilística e uma ironia admiráveis.


Às folhas-tantas do conto “El Vilvoy de Las Islas” (1988), ele está falando de um arquipélago imaginário lá para as bandas da Patagônia, as tensões militares entre aquelas republiquetas fictícias e diz (as traduções são minhas):

Quem controla o mar, controla a costa; e quem controla a costa, controla o interior. Por conseguinte, quem controla o mar, por paradoxal que isto pareça, controla o interior.

“Há uma certa lógica nisto,” pensei, do alto de minha ignorância em matérias militares. Se uma Armada cerca uma faixa extensa do litoral, está controlando quem chega e quem sai dali, e uma consequência disso é isolar o interior... Parece fazer sentido.



Mas nessa tentativa de entender, pensei que a frase de Davidson se parece bastante com uma frase famosa de George Orwell (em 1984), que quando a li pela primeira vez me produziu um efeito semelhante. Diz Orwell:

Quem controla o passado controla o futuro; e quem controla o presente controla o passado.

Mais uma vez, o raciocínio parece fazer sentido. No livro, o protagonista Winston trabalha num departamento do governo a quem cabe reescrever os jornais de antigamente. Cada vez que um político cai em desgraça, é preciso pegar as principais referências elogiosas a ele, feitas anos atrás, e cortá-las. E o raciocínio se aplica desta forma: se no ano de 2022 for possível destruir informações de qualquer natureza sobre o Passado, esses fatos deixarão de fazer parte da memória coletiva. E o futuro lerá esse Passado de uma maneira que nós, hoje, estamos determinando qual será.

Como eu sou um leitor desconfiado, boto a mão no fogo em que nem todo mundo se dá o trabalho de pensar assim. E para essas pessoas seria praticamente o mesmo dizer: “Quem controla o passado, controla o presente, e quem controla o presente controla o futuro”. Ou alguma outra variante.

Poucas páginas adiante, no mesmo conto de Davidson, encontro isto:

A História, sem a Geografia, é uma carcaça ambulante, ou talvez seja o contrário disto.

Ou seja, tanto faz (para o narrador) dizer isto ou dizer que “a Geografia, sem a História, é uma carcaça ambulante”.

Por que? Porque é uma comparação meio inesperada, que vale porque o efeito de estranheza nos obriga a refletir, a tentar interpretar, a aconchambrar um significado qualquer nessa imagem tão pouco acadêmica. Talvez faça mais sentido atribuir essa comparação à História, porque a História é dinâmica, está em movimento, por conseguinte é mais “ambulante” do que a Geografia, que em princípio é uma visão estática...

Bom; o simples fato do narrador do conto sugerir que se inverta a comparação feita por ele próprio me sugeriu a possibilidade de que tudo não passe de mera retórica, mero palavrório pomposo. Os demagogos de palanque sabem muito bem que o povo engole qualquer coisa bradada no tom certo:

– Povo da minha terra! Não se enganem! A Democracia é mais importante do que o Progresso, porque sem a Democracia não existe o Civismo, e sem o Civismo não existirá o Progresso, ou a própria Democracia!

Isto não quer dizer rigorosamente nada. É mero palavrório de palanque. Na inauguração seguinte pode ser substituído, sem perda aparente, por:

– Povo da minha terra! Não se enganem! O Civismo é mais importante do que a Democracia, porque sem o Civismo não existe o Progresso, e sem o Progresso não existirá a Democracia, ou o próprio Civismo!

And so it goes

E já que falei em Avram Davidson não houve como não lembrar de Machado de Assis, seu primo-carnal em matérias de ironia e finura.

Todo mundo deve lembrar o divertido Capítulo LV do Dom Casmurro, em que Bentinho, no quarto escuro, tenta compor mentalmente um soneto durante uma noite de insônia, essa “musa de olhos arregalados”. Isto ocorre em sua fase de seminário. Ele mexe e remexe alguns versos soltos que lhe vêm à cabeça de adolescente (pensa abrir o soneto com: “Ó flor do céu! Ó flor cândida e pura!”), e chega a este decassílabo final:

“Perde-se a vida, ganha-se a batalha!”

Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre.

Mas a noite avança e Bentinho não sai disso; quer fazer deste verso a chave-de-ouro, o verso que encerra o soneto, mas tudo que tem nas mãos é um final sem começo além daquela outra idéia igualmente solta e flutuante. Bentinho sabe que o último verso é o mais importante (“imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura”). E lhe ocorre simplesmente inverter os termos!

“Ganha-se a vida, perde-se a batalha!”

O sentido vinha a ser justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu.

Há muita ironia neste trecho de Machado, mas vejo nele também uma compassividade, uma compreensão de tudo que existe de mecânico e (paradoxalmente) de aleatório no processo de criação poética, principalmente na cabeça de um jovem escaldado no Latim e na Retórica. Bentinho não tem idéias, tem impulsos oratórios e estilísticos; as idéias podem ser quaisquer, contanto que as palavras que elas cavalgam sejam sonoras, e batam cascos numa cadência boa.

Quantas vezes nós todos não escrevemos assim? As palavras surgem, parecem dizer alguma coisa, é meio como estar ouvindo uma música em inglês ou francês. A gente capta uns farrapos do sentido, e o resto de sentido que lhes falta é complementado pela emoção que nos sobra.

E para encerrar, um exemplo mais cruel que os de Machado e de Avram Davidson.

Michael Gray é um dos principais estudiosos da obra poética e musical de Bob Dylan. Ele é autor do assombroso Song and Dance Man III (2000), com quase mil páginas de análise da obra dylaniana. Outro trabalho utilíssimo seu é The Bob Dylan Encyclopedia (2006), com mais 700 páginas de verbetes alfabéticos.

Na enciclopédia, Gray comenta a obra crítica de Greil Marcus, outro dos meus dylanólogos preferidos, e não deixa o colega-concorrente passar sem uma alfinetadazinha. No verbete a ele dedicado, Gray comenta o estilo de Marcus, e diz:

[Greil Marcus] às vezes chega perto da auto-paródia, e às vezes parece que não está dizendo nada. Aqui está ele, por exemplo, num ensaio [...] de 1998: “All Along The Watchtower, na interpretação de Bob Dylan, tem lugar fora do tempo; a de Jimi Hendrix aceita o tempo, mas depois o desenreda.” É uma ótima técnica, quando usada com economia, e a escrita de Marcus parece tirar do nada esses vereditos – vereditos com todo o poder críptico das falas de um guru sobre uma pilastra, de tal modo que o leitor indefeso sente-se incapaz de questionar tanto a suprema auto-confiança daquela oratória quanto o conteúdo em si, visto que este é tão impalpável quanto é vigorosamente dito.

Um bom teste seria inverter os termos, e ver se faz alguma diferença. “All Along The Watchtower, na interpretação de Jimi Hendrix, tem lugar fora do tempo; a de Bob Dylan aceita o tempo, mas depois o desenreda.” Hmmmm.

Todo mundo escreve desse jeito em algum momento, inclusive todos os autores citados acima. O que os salva da mediocridade é o simancol, o desconfiômetro, a obrigação de cobrar de si próprio; mas todos publicam coisas como se dissessem para o leitor: “Ficou bom? Faz sentido pra você?”  Como um ator de teatro pergunta ao diretor, após um improviso no ensaio; ou um músico pergunta ao diretor musical.

Fiz isso. Ficou bonito? Além de ficar bonito, disse alguma coisa? Eu não sei. Você sabe? Se não... perde-se o tempo, ganha-se uma crônica.

 

 

 

 

 

 

 

 






segunda-feira, 20 de abril de 2015

3793) Uns títulos (21.4.2015)



Ouvi falar de um cara cujo romance lhe veio à mente de vez, praticamente pronto, e ele passou a limpo o texto durante alguns dias insones. Como tinha que dar um nome ao arquivo onde estava salvando o texto, e ainda não tinha uma boa idéia, olhou de lado, viu um chiclete sobre a mesa, batizou o arquivo como “Trident”, e salvou. Daí em diante ficou usando esse nome, coisa e tal, e aquilo foi se integrando de tal maneira à obra que na hora depois da revisão final, hora de mandar para a editora, ele chegou à conclusão de que seu drama existencialista sobre a vulnerabilidade do Eu na sociedade pós-moderna iria mesmo se intitular Trident, não porque isto tivesse alguma relação com a narrativa, mas porque ele não conseguia mais pensar no livro com outro título senão aquele.

Damon Knight afirmou certa vez, comentando uns contos de Avram Davidson: “Uma das minhas muitas teorias a respeito de contos é que tanto os seus títulos quanto as suas primeiras linhas devem ser memoráveis, porque se não forem memoráveis eles não serão lembrados, e se não forem lembrados os contos não serão reeditados (porque ninguém vai conseguir encontrá-los).”  Knight considera que um dos títulos mais memoráveis das histórias de Davidson é “Meu Namorado Chama-se Jello” (“My Boy Friend’s Name is Jello”). Ele diz que, mesmo tendo lido a história várias vezes, não consegue mais lembrar o que ela conta. Mas o título grudou.

Davidson é autor de um conto ganhador do Prêmio Hugo sob o título de “Or All the Seas with Oysters” (“Ou Todos os Mares com Ostras”). É uma alusão a Conan Doyle, do conto “O detetive agonizante”, em que Sherlock Holmes, doente, delira diante do Dr. Watson e especula sobre os oceanos e a quantidade de ostras que há dentro deles: “Francamente, não consigo compreender por que todo o leito do oceano não é uma única massa compacta de ostras, tão prolíferas me parecem essas criaturas”.  O título de Davidson, aliás, tem pouco a ver com o conteúdo do conto, mas é dos mais inesquecíveis que existem.

Eu tenho uma inveja inofensiva e sincera dos caras que deram a suas histórias ou seus livros títulos como “Sagarana”, “O Homem que Era Quinta-feira”, “Mas Não se Mata Cavalo?”, “O Ganido dos Cães Chicoteados”, “O Carteiro Sempre Toca Duas Vezes”, “Estrelas em Meu Bolso Como Grãos de Areia”, “Cinquenta Anos Falando Sozinho”, “Um Faca Só Lâmina”, “O Acrobata Pede Desculpas e Cai”, “Porque Eu Toquei no Céu”, “O Amor nos Tempos do Cólera”, “Neuromancer”, “Todos os Fogos o Fogo”, “PanAmérica”, “Será que Andróides Sonham com Carneiros Elétricos?”, “Claro Enigma”, “O Desastronauta”, “Os Frutos Dourados do Sol”, “Dormindo nas Chamas”.







sábado, 8 de novembro de 2014

3653) As Ruritânias (8.11.2014)





As Ruritânias são aqueles países imaginários em que muitos escritores gostam de ambientar seus livros sem a obrigação de verossimilhança, exatidão, pesquisa, etc., que seria exigida por uma ambientação num país de verdade como Hungria ou Romênia.  Quem propôs essa nação fictícia foi Anthony Hope numa série de romances de aventuras iniciada com O Prisioneiro de Zenda (1894), uma clássica história do cara que é sósia de um príncipe, serve de dublê e substituto para ele, e acaba sendo confundido de verdade com ele.  (É uma história já filmada várias vezes, inclusive com Peter Sellers em vários papéis.) A Ruritânia é um país vagamente situado entre a República Tcheca e a Alemanha, e suas histórias transcorrem entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do 20.



O cinema nos deu um exemplo recente com Zubrowka, país imaginário do filme O Grande Hotel Budapeste de Wes Anderson.  Ali está todo o clima ruritano: os hotéis de luxos cheios de aristocratas, políticos, militares; as intrigas e conspirações de gabinete; a ameaça permanente da guerra, numa Europa Central sempre inquieta e belicosa.



Além de seus numerosos livros de FC e fantasia, Avram Davidson (1923-1993) tem uma excelente série de contos com uma espécie de detetive, Dr. Eszterhazy, que se situam numa nação híbrida conhecida como Scythia-Panonia-Transbalkania, e que guarda todo aquele clima de lampiões a gás, trens, carruagens, arquiduques, intrigas diplomáticas e tecnologia virada-do-século.  Ursula LeGuin também produziu sua Ruritânia pessoal com a coletânea Orsinian Tales (1976), situados em Orsinia, também uma nação de perfil austro-húngaro, situada na Europa Central. No universo dos Role-Playing Games (RPGs) temos o exemplo de Castelo Falkenstein, jogo ambientado numa região imaginária nos Alpes da Bavária por volta de 1870.


Mesmo com toda essa diversidade, o termo “Ruritânia” tornou-se o mais típico dessas nações imaginárias.  Hoje pode ser encontrado não só na ficção, mas no jornalismo e em ensaios acadêmicos, toda vez que alguém precisa dar um exemplo situado num país hipotético.  Alegorias políticas, questões jurídicas complicadas, ilustrações de teorias econômicas, para tudo isto os redatores recorrem à Ruritânia como um país-experimento, um país-laboratório, que serve para ilustrar uma hipótese sem atrair as inevitáveis ressalvas que um leitor poderia fazer caso o exemplo sugerido ocorresse num país de verdade: “Ah, mas isso jamais poderia ocorrer na Polônia, pois sabe-se que o PIB da Polônia é em torno de tanto por cento, etc. etc.”  Falar em Ruritânia deixa o redator à vontade para compor seus exemplos da maneira mais conveniente.




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

2667) Bicicleta abandonada (21.9.2011)



(foto: Joe Schumacher)

A idéia é de Avram Davidson, em “Or all the Seas with Oysters” (que eu traduziria por “E os mares cobertos de ostras”). É uma teoria científica heterodoxa (os cientistas ortodoxos são incapazes de ter novas idéias sobre o Universo). O conto, ganhador do Prêmio Hugo de 1958, mostra o diálogo entre dois amigos: Ferd (que gosta de livros, LPs e conversas de alto nível) e Oscar (que gosta de cerveja, boliche e mulheres). Ferd se interessa por fenômenos biológicos: o mimetismo, que faz algumas criaturas vivas se disfarçarem como objetos (galhos, pedras, etc.) para atrair vítimas; e a regeneração, que faz um lagarto crescer um rabo novo depois de ter o rabo cortado.

E Ferd diz: já repararam como os alfinetes de segurança (ou “broches de fraldas”) parecem sumir quando a gente, com bebê em casa, mais precisa deles? Já repararam como os cabides de roupa (ou “ombreiras”) parecem se multiplicar nos armários – a gente deixa dois e no dia seguinte encontra cinco? Ferd descobre que o mundo está sendo invadido por uma espécie nova, uma raça de seres metálicos. Sua forma inicial é o alfinete de segurança. Daí ele evolui para a forma de cabide, que é a larva. E finalmente desabrocha na forma adulta, que é a bicicleta.

Ferd explica ao boquiaberto Oscar que essas criaturas vivem de elementos que captam do ar; e que evoluem, mudando de forma, apenas quando não são vistas por ninguém. Uma grande parte das bicicletas que vemos na rua (acorrentadas aos postes e às grades, abandonadas nos parques, etc.) não foram feitas numa fábrica. São formas mutantes que esses seres metálicos adotaram por mimetismo, para passar despercebidos.

O fotógrafo Joe Schumacher, que mora no Harlem (Nova York) tem um websaite onde fotografa de tudo, inclusive bicicletas abandonadas. Uma das suas fotos mostra um desenvolvimento insuspeitado da teoria de Davidson. (http://bit.ly/qZTVjj) Num daqueles mourões de metal usados para “ancorar” bicicletas nas ruas, ele registrou a presença de três dessas criaturas, acorrentadas juntas. Uma delas é um carrinho de supermercado – esse nosso carrinho comum, de trepidantes varetas metálicas. A segunda é uma bicicleta normal e a terceira é uma dessas bicicletas de entrega, com uma caixa plástica de colocar garrafas de leite. Um casal com seu filhote? Um sambaqui onde jazem três estágios sucessivos da evolução de um alienígena, uma forma de vida baseada no alumínio e agora, darwinianamente, incorporando o plástico? Ah, amigos, a ciência oficial não se pronuncia a respeito, está ocupada projetando cíclotrons que não servem para nada, e inventando antidepressivos para a indústria farmacêutica.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

0844) Os estilistas excêntricos (30.11.2005)


(Tom Zé)

Dentro da literatura de ficção científica há um grupo de autores a quem a crítica se refere com um termo que acho muito útil: “the oddball stylists”, “os estilistas excêntricos”. São autores que todo mundo admira mas não sabe onde enquadrar. Usam os temas e as imagens da FC, conhecem as regras do gênero, mas suas obras sabotam sistematicamente estas regras. Esta descrição destaca dois aspectos essenciais: 1) são estilistas (ou seja, têm um informação e um domínio da técnica literária muito acima da média), e 2) são excêntricos, estão sempre fazendo algo imprevisível, fora-de-esquadro. Este último aspecto é importante, porque um autor como Ray Bradbury (autor das Crônicas Marcianas e de Fahrenheit 451) é um estilista, mas não é excêntrico. Após o choque inicial de quando o conhecemos, sua obra vira uma planície calma, sem catabís e sem surpresas.

Estilistas excêntricos na FC são autores como Avram Davidson, R. A. Lafferty, Gene Wolfe, Cordwainer Smith e outros. Mas não é deles que quero falar aqui. Eu gostaria de pedir emprestado este conceito e aplicá-lo à Música Popular Brasileira, onde encontramos mestres de inquestionável talento que em princípio são grandes estilistas, mas não são excêntricos, pelo contrário: na sua obra, a única surpresa é a alta qualidade do que produzem, com uma admirável constância. Mas são autores que não nos pregam sustos. Eu não acho, por exemplo, que a obra de talentos como Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Bosco e vários outros seja uma obra excêntrica. Pelo contrário. Se a MPB tem algum tipo de centro, são eles.

Mas o que dizer de um artista como Tom Zé? Um artista como Hermeto Paschoal? Um artista como Jorge Mautner, ou Jards Macalé? Para mim são estilistas excêntricos, porque mesmo que a gente não goste do que eles fazem (e muita gente que gosta de uns não gosta dos outros), ninguém pode negar duas coisas: todos são tecnicamente competentes, e nunca se pode afirmar com certeza como será o perfil de seu próximo trabalho. São fontes permanentes de surpresa, de susto, de imprevisto. Sua excentricidade pessoal não reside em seu comportamento meio “clown”, em sua mistura proposital do sublime e do grotesco, do erudito e do brega, do refinado e do descartável (embora todos eles tenham tais misturas, em doses variadas). São excêntricos porque temos a impressão de que o centro de seu mundo mental não coincide com o “centro” da música popular. Cada um deles parece ter um projeto próprio que só ocasionalmente coincide com “a linha evolutiva da música popular brasileira” que, ao que parece, era o projeto próprio de artistas como Tom Jobim ou João Gilberto. Os estilistas excêntricos da MPB têm o poder de subir ao palco e na primeira música puxar o tapete onde milhares de pessoas pensavam estar pisando minutos atrás, fazê-las dar uma cambalhota, e cair de volta sobre o tapete – que levanta vôo com todos juntos.